sexta-feira, 25 de setembro de 2026

SAXON - DENIM AND LEATHER 45 ANOS

 


DENIM AND LEATHER 45 ANOS - A CELEBRAÇÃO DE UM CLÁSSICO DO HEAVY METAL

O quarto álbum de estúdio do grupo britânico não apenas consolidou a era de ouro da NWOBHM, como eternizou em música e jaquetas a identidade visual e cultural do heavy metal

Por Sergiomar Menezes

Lançado no final de setembro de 1981, DENIM AND LEATHER representou o encerramento da fase mais explosiva e criativa da história do SAXON. Em um intervalo de apenas dezoito meses, a banda de lançou três verdadeiras obras-primas na fundação da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM) — sucedendo os aclamados "Wheels of Steel" e "Strong Arm of the Law" (ambos de 1980).

Mais do que um simples álbum de heavy metal, o álbum se tornou um verdadeiro manifesto. Ao completar 45 anos, "Denim and Leather" continua a ecoar como o testemunho definitivo de uma época em que o heavy metal deixou de ser apenas música underground para se transformar em um estilo de vida global.

O grande trunfo conceitual do disco — e de sua faixa-título — foi inverter a lógica do estrelato. Em vez de cantar sobre o distanciamento mítico das estrelas de rock, o vocalista Biff Byford olhou para a base e percebeu algo revolucionário: os fãs já tinham um uniforme próprio.

"Denim and leather brought us all together / It was us against the world, we took 'em on"

A letra da faixa-título transformou jaquetas de jeans lotadas de patches, coletes desbotados, tachas e calças justas de couro em vestimentas oficiais de uma irmandade. Pela primeira vez, a cultura do metal ganhava um hino que celebrava abertamente a união visceral e única entre a banda e o público, solidificando o sentimento de pertencimento que define o gênero até os dias de hoje.

Apesar de carregar um peso conceitual imenso, o repertório de "Denim and Leather" sustenta a reputação do Saxon como uma das maiores forças ao vivo do período. O disco abre com "Princess of the Night", um hino, um clássico, uma das maiores músicas da história do heavy metal, uma cavalgada sônica implacável sobre locomotivas a vapor que se tornou instantaneamente um dos maiores clássicos da discografia da banda.

Outro ponto alto absoluto é "And the Bands Played On", inspirada pela marcante experiência do Saxon na primeira edição do festival Monsters of Rock em Castle Donington (1980). A música sintetiza o otimismo e a urgência daquela juventude que via no heavy metal uma tábua de salvação cultural. Faixas como "Never Surrender" e "Fire in the Sky" mantêm a voltagem alta, equilibrando ganchos melódicos comerciais com a crueza e o peso característicos das guitarras da dupla  Paul Quinn/Graham Oliver.

Curiosamente, Denim and Leather marcou a despedida do baterista Pete Gill, cujo estilo dinâmico e e pesado foram fundamentais para moldar a sonoridade clássica do grupo (Gill logo depois se juntaria ao Motörhead). Com ele encerrava-se a formação que colocou o Saxon no topo das paradas europeias.

Olhando pra trás, os 45 anos deste álbum nos lembram que o heavy metal sobreviveu às décadas seguintes não apenas por sua complexidade técnica, mas pela força de sua unidade. DENIM AND LEATHER é o clássico instantâneo — uma celebração imortal do poder do Rock n' Roll.



KREATOR - VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS

 


VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS - O DISCO QUE TIROU O KREATOR (E O THRASH) DO LIMBO

Como o Kreator deixou para trás os anos de experimentação, resgatou a fúria do thrash metal e deu início a uma nova era com o clássico de 2001

Por Fernando Aguiar

Em 2001, depois de quase uma década de experimentos que dividiram os fãs, Mille Petrozza voltou ao thrash com um guitarrista novo, um produtor certeiro e um punhado de músicas que a banda toca até hoje.

Dito isso, hoje faz 25 anos que Violent Revolution chegou às lojas, e eu confesso que fico um pouco surpreso toda vez que lembro disso. Não porque o disco soe velho, muito pelo contrário. É que ele ficou tão associado ao Kreator que conhecemos hoje que é fácil esquecer o quanto a banda estava em outro lugar pouco antes dele sair.

Quem acompanhava o grupo nos anos 90 sabe do que estou falando. A partir de "Renewal", em 1992, Mille Petrozza resolveu que não ia ficar preso à fórmula de "Pleasure to Kill" e "Extreme Aggression". Vieram "Cause for Conflict", "Outcast" e "Endorama", com pitadas industriais, clima gótico e andamentos cada vez mais arrastados. Tem coisa boa neles, e tem gente que defende essa fase com convicção, mas boa parte dos fãs antigos simplesmente tem um pé atrás com essa fase. E o Kreator nem estava sozinho nessa. No fim dos anos 90, praticamente todo mundo da velha guarda do thrash estava tentando ser outra coisa, e o estilo parecia “assunto encerrado”.

Aí, em 25 de setembro de 2001, sai Violent Revolution. E a primeira música se chama "Reconquering the Throne". Sutileza nunca foi o forte do Mille.

A faixa entrega o que o nome promete. O riff entra rasgando, Ventor acelera sem cerimônia e o vocal volta a ter aquela raiva quase histérica que parecia ter ficado nos anos 80. Mas o detalhe que faz a diferença é que não soa como uma banda tentando se imitar. Não é um "Extreme Aggression" parte dois. É o Kreator voltando para casa depois de dez anos fora, e trazendo algumas coisas da viagem.

Depois da vinheta "The Patriarch", a faixa-título mostra onde está o grande trunfo do disco: refrão. "Violent Revolution" foi feita para ser cantada em coro, e não é à toa que virou a segunda música mais tocada da história da banda ao vivo, atrás só de "Pleasure to Kill". Na sequência, "All of the Same Blood (Unity)" reduz um pouco a velocidade para abrir espaço para um refrão ainda mais grandioso. É o tipo de música que um thrasher canta a plenos pulmões no show.

Boa parte dessa mudança passa por um finlandês. Violent Revolution é o primeiro disco com Sami Yli-Sirniö, vindo do Waltari, e dá para ouvir a diferença logo de cara. O Kreator sempre teve solos, claro, mas nunca com esse cuidado melódico. Sami constrói frases, harmoniza guitarras e traz uma sensibilidade que conversa bastante com o metal melódico sueco que estava em alta na Europa naquele início de década.

E aqui está o ponto que ainda divide opiniões. Tem quem diga que o disco flerta demais com Gotemburgo e perde a sujeira que fez a fama da banda. Eu entendo o argumento, mas discordo dele. Um retorno puramente saudosista, em 2001, teria grandes chances de soar requentado. O que o Kreator conseguiu foi juntar agressividade e melodia sem que uma anulasse a outra, e essa combinação virou a identidade da banda nos vinte e poucos anos seguintes. Quem gosta de "Enemy of God", "Hordes of Chaos" ou "Phantom Antichrist" está, no fundo, gostando de algo que começou aqui.

Também não dá para falar do disco sem citar Andy Sneap, que produziu, gravou, mixou e masterizou tudo. Sneap sabe o que é thrash da maneira mais profunda, afinal tocou guitarra no Sabbat, e entregou um som encorpado e moderno sem cair naquele brilho artificial que estragou tanta gravação de metal da época. As guitarras têm peso de verdade, a bateria do Ventor tem punch e o baixo de Christian Giesler aparece quando precisa. É uma produção que envelheceu bem, e isso, olhando para o que se gravava naquela virada de século, não é pouca coisa. A parceria funcionou tanto que Sneap voltou para produzir "Enemy of God", em 2005.

"Replicas of Life" são mais de sete minutos e meio com boas ideias e uma atmosfera interessante. "Servant in Heaven - King in Hell" e "Ghetto War" seguram bem a tensão, "Slave Machinery" resolve tudo em menos de quatro minutos sem enrolação, e "System Decay" fecha com dignidade.

Violent Revolution costuma ser apontado como um dos “precursores” do renascimento do thrash no começo dos anos 2000, e faz todo sentido. Mostrou que uma banda veterana podia voltar às raízes sem virar cover de si mesma, e que ainda existia gente querendo ouvir esse som. O que veio depois, com outros nomes clássicos voltando ao estilo e uma nova geração de bandas surgindo, carrega um pouco desse disco.

Para o próprio Kreator, foi o início de uma segunda carreira. A formação com Mille, Sami, Ventor e Giesler durou até 2019 e construiu uma sequência de discos consistentes que a banda não conseguiu manter nos anos 90.

Não tenho dúvida de que Violent Revolution é o disco mais importante da carreira depois daquela primeira fase. Sem Violent Revolution, o Kreator dos últimos 25 anos provavelmente seria outra banda, e bem menor.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

RED HOT CHILI PEPPERS - BLOODSUGARSEXMAGIK 35 ANOS

 


O ÚLTIMO GRANDE TRABALHO DO RED HOT CHILI PEPPERS - OS 35 ANOS DE BLODSUGARSEXMAGIK

Há 35 anos, o RED HOT CHILI PEPPERS criaram o momento em que o caos, a genialidade instrumental e a vulnerabilidade se fundiram em um dos discos mais influentes da história da música alternativa

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991 — curiosamente o mesmo dia em que o Nirvana mudaria os rumos do rock com Nevermind —, o RED HOT CHILI PEPPERS cruzou a linha de chegada de sua própria odisseia particular e entregou ao mundo um trabalho que redefiniu os anos 90. Longe das praias ensolaradas e da agitação frenética que marcaram seus primeiros anos de funk-punk desbocado, a banda se isolou em uma mansão assombrada para criar um monstro sônico.

Trinta e cinco anos depois, BLOODSUGARSEXMAGIK permanece não apenas como o último grande álbum do quarteto, mas como o trabalho que consagrou a nova formação da banda.

Para evitar o looping autodestrutivo de gravações convencionais e dar espaço para a nova dinâmica da banda, o produtor Rick Rubin teve uma sacada revolucionária: tirar os músicos do estúdio tradicional. O local escolhido foi a célebre mansão em Laurel Canyon que pertenceu ao ilusionista Harry Houdini — um espaço lendário, cercado por rumores de fantasmas e vibrações místicas, onde a banda passou semanas imersa em um processo criativo quase ritualístico.

O álbum é, acima de tudo, um momento definitivo de coesão e entrosamento entre o guitarrista John Frusciante (então com apenas 21 anos) e o baixista Flea. Frusciante abandonou os excessos puramente acelerados do funk-rock para construir texturas melódicas complexas, riffs intensos e uma atmosfera que transitava perfeitamente entre a crueza do blues e o psicodelismo. Enquanto isso, Flea entregou algumas das linhas de baixo mais icônicas, viscerais e grooveadas já gravadas.

Na bateria, o monstro Chad Smith transformava-se em furacão criativo com uma solidez impecável, garantindo que o swing funk estivesse sempre presente, mesmo quando as músicas flertavam com o peso do rock alternativo ou com a melancolia acústica. Nas letras e vocais, Kiedis equilibrava sua habitual persona de malandro californiano hedonista com uma confissão muito mais madura sobre perda, dependência química, dor e redenção.


A audácia de misturar funk, rap, rock pesado, baladas acústicas e psicodelia deu frutos de maneira estrondosa. Impulsionado pela direção cinematográfica e inventiva do videoclipe de "Under the Bridge" — um desabafo doloroso de Kiedis sobre solidão e abstinência —, o álbum catapultou o Red Hot Chili Peppers para o topo do mainstream global.

Faixas como "Give It Away", "Suck My Kiss" e "Breaking the Girl" dominaram as rádios e a MTV, provando que a música alternativa podia ser comercialmente imbatível sem abrir mão da identidade marginal. BloodSugarSexMagik vendeu mais de 15 milhões de cópias mundialmente, transformando o grupo em headliner de arenas e redefinindo o som de toda uma geração de bandas que tentaria misturar guitarras e grooves nas décadas seguintes.

"My Lovely Man", a segunda parte de "Knock me Down" (gravada no trabalho anterior, o magistral "Mother's Milk"), seguiu tributo saudosista ao guitarrista Hilel Slovak, enquanto o peso de "Funky Monks", "The Righteous and the Wicked" e "Apache Rose Peacock", mostravam que a banda fazia um som de nível como poucas. "I Could Have Lied", uma das mais belas baladas da banda e "Sir Psycho Sexy", uma loucura funkeada também deram mais brilho ao álbum.

Contudo, a intensidade que deu vida ao álbum também cobrou seu preço. A pressão da turnê mundial e o peso repentino do estrelato em massa provaram ser insuportáveis para a frágil estabilidade da banda na época, culminando na saída abrupta de John Frusciante durante a etapa japonesa da turnê em 1992 — um hiato doloroso que quase custou a alma criativa do grupo.

Ainda hoje, BLOODSUGARSEXMAGIK continua a soar fresco, magnético e perigoso. É o retrato de quatro músicos no topo absoluto de suas capacidades, dispostos a trancarem-se em uma casa mal-assombrada para canalizar seus demônios mais profundos em puro ritmo, poesia e eletricidade. Uma pena que depois disso, a banda entrou em decadência...



NERVOSA - 07/09/2026 - CARIOCA CLUB - SÃO PAULO/SP


 

NERVOSA
Abertura: Carro Bomba e Blades of Steel
07/09/2026
CARIOCA CLUB
SÃO PAULO/SP
Produção: TC7 Produções

Texto e fotos: Mauro Antunes

Feriado de segunda feira com um frio para cada um em São Paulo. Este redator não pôde passar o feriado em casa com a família, já que foi para o trabalho, não Home Office. Consegui escapar de lá por volta das 16hs, passei em casa, tomei banho, pus as armaduras e fui rumo ao Carioca Club. Com a promessa da abertura das portas as 18hs, fiz o que um bom headbanger normalmente faz: cheguei para o esquenta, degustei aquele Hot Dog com salsicha sabor vento, comprei uma Long Neck, e pronto: tudo certo para entrar na casa.

Entramos na casa por volta das 18:20hs e a constatação do pequeno público presente, soou a mim, extremamente decepcionante. Talvez, o excesso de shows de Heavy Metal, misturado com a falta de grana, que infelizmente, assola nosso país, possam ter contribuído para o pequeno público. Naquele momento, ficou a expectativa de que até o show da banda principal, a plateia pudesse aumentar.

Poucos minutos depois, o Blades Of Steel iniciou suas atividades. Para quem não os conhece, o som é aquele típico Power Metal, que alguns chamam pejorativamente de Metal Espadinha. Apesar de uma curta carreira, a banda já lançou seu primeiro trabalho (em 2025), auto intitulado. Inclusive, o mesmo estava disponível para venda na barraquinha de “Merchan” em uma caprichada embalagem. O setlist contou com 5 das 8 faixas do CD Standard, destaque para a pesadíssima abertura de “Ruler of the Waves”. Além dela, “Riders of the Night” é muito boa, inclusive a versão de estúdio conta com a participação de ninguém menos que Prika Amaral, a líder do Nervosa. Um Power Metal cheio de riffs pra ninguém botar defeito. Destaque individual fica a incrível presença de palco da vocalista Yara Haag. No momento em que empunhou uma espada lá no alto, imediatamente pensei que ela devia estar fazendo muita força, já que a mesma parecia enorme e pesada. Foram pouco mais de 30 minutos de uma apresentação que realmente faz valer a pena chegar cedo.

Após uma breve pausa, o Carro Bomba entrou em ação. Taí uma banda que admiro e que digo que dá gosto ser fã. Quase todos os clássicos estavam todos no set list: “Máquina”, “Queimando a Largada”, “Migalhas”, “Punhos de Aço”, entre outros. Apesar de, particularmente, não ser um grande fã de faixas em Português, a pegada, a presença de palco, a atitude dos caras realmente é diferenciada. O show de quase 50 minutos foi tão rápido que poderíamos aguentar mais uma hora, tranquilamente. Não é a toa que estão na estrada há tantos anos, há muito tempo não os via ao vivo. Outro ponto positivo foi o som, realmente impecável deu pra ouvir todos os instrumentos. O aquecimento perfeito para o principal show da noite.

Pontualmente as 21h, a Nervosa entrou em cena. Uma pena a ausência da baixista Hel Pyre. Impressionante o poder destrutivo de Prika Amaral, Helena Kotina, Emmelie Herwegh e Michaela Naydenova. “Impending Doom” é uma paulada que não deve nada às bandas Thrash Metal de marmanjos que temos por aí. É a prova definitiva que “Slave Machine” é o melhor trabalho já gravado pela banda.



A banda caprichou no setlist emendando hinos de todas as fases de sua carreira: “Masked Betrayer” que sempre é muita saudada nos shows, e que foi o primeiro hit da banda também marcou presença. Da década passada, ainda tivemos “Death!” e “Kill the Silence” deixando de lado pedradas como “Hostages” e “Intolerance Means War”, por exemplo.

O destaque maior ficou por conta das faixas dos 2 últimos trabalhos que ostentam quase todo o lineup que temos no momento (infelizmente, Emmelie não tocou em “Jailbreak”). Ficou muito claro que a presença de Helena Kotina na guitarra deu um peso, brutalidade e técnica no som da Nervosa. Ela foi o centro das atenções em faixas como “Ghost Notes”, “You Are Not a Hero”, “Jailbreak” e na insana faixa título do novo trabalho.



Ah, e teve também o inusitado cover do “Ozzy brasileiro” (nas palavras de Helena Kotina, Rita Lee), “Obrigado Não”. Como não conhecia a faixa original, não consegui curtir a faixa como as demais.

Uma pena que o show teve apenas uma hora de duração, sendo inegável que as meninas deixaram e entregaram tudo o que podiam. Prika parece ter nascido pra cantar agressivamente; olhando a carreira do Nervosa de trás para frente, fica difícil entender o porquê dela não ter percebido antes, a sensacional frontwoman que é. Emmelie tem uma presença de palco surreal, Michaela parece um motorzinho bem afiado e Helena é uma máquina de riffs; sua presença de palco chega a ser assustadora.

Assim que acabou o show, as meninas desceram à pista e atenderam todos os fãs que as abordaram, inclusive este redator teve a oportunidade de ter um rápido contato com todas elas. O profissionalismo tomou conta da banda, e cada vez mais, vemos o que as tornou tão grandes como são. Consigo imaginar a Nervosa na ativa por ainda muitos anos: o Metal agradece!




EDGUY - MANDRAKE 25 ANOS

 


MAGIA, PESO E SARCASMO: OS 25 ANOS DE MANDRAKE, O DISCO QUE REDEFINIU O EDGUY

Mais maduro, ousado e avesso a fórmulas prontas, o clássico de 2001 provou que o power metal alemão ainda tinha muito espaço para se reinventar

Por William Ribas

O Edguy explodiu no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Antes mesmo de o genial Tobias Sammet criar o magistral Avantasia, ele já havia se consolidado ao lado de Jens Ludwig (guitarra), Dirk Sauer (guitarra), Tobias Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria). A história da banda começou em 1992, na Alemanha, e em 1995 veio Savage Poetry. Ou seja, em menos de uma década o grupo já chegava ao seu quinto trabalho de estúdio e dividia com o Stratovarius o posto de um dos grandes nomes do Power Metal naquele momento.

Lembro muito bem de ler as ótimas críticas sobre o álbum na Rock Brigade e na Roadie Crew. E, como tantas outras vezes aconteceu depois de ler uma resenha, fui até uma loja comprar o CD. Aquela capa azul, com um bobo da corte de olhos esbugalhados manipulando uma pequena dançarina, chamava atenção logo de cara. Havia ali algo tenso e sarcástico, uma imagem que combinava perfeitamente com o que eu encontraria quando colocasse o disco para tocar.

Musicalmente, não demorava nem um pouco para reconhecer aquele Power Metal melódico e bombástico que eu já havia conhecido em "Vain Glory Opera" (1998) e "Theater of Salvation" (1999). Mas Mandrake tinha alguma coisa diferente. A banda parecia mais segura, mais madura e já dava alguns passos na direção do que ouviríamos nos trabalhos seguintes do Edguy. O álbum também marcou o último lançamento de estúdio da banda pela AFM Records.

Bem, sentei na minha cama, com o encarte na mão, e apertei o play. A introdução de “Tears of a Mandrake” começou e veio aquele primeiro pensamento: “Ué, é tão diferente não começar com uma música rápida? Que sem graça!”. Só que aí veio o refrão e tudo mudou. Em poucos segundos eu já estava cantando aos berros — pobres vizinhos.


Não começar com os dois pés na porta foi uma excelente sacada. “Tears of a Mandrake” cresce aos poucos, ganha força a cada passagem e, quando chega ao refrão, já é impossível ficar parado. É empolgante. Você escuta e imediatamente se imagina no show, pulando, batendo palmas e cantando junto.

“If the storm when the magic has gone / Drown in the tears of a mandrake” — bastavam aquelas primeiras explosões do refrão para entender que o disco tinha começado muito bem. Eu que reclamei cedo demais.

E se o início mais cadenciado me causou alguns segundos de estranheza, as próximas músicas ganharam pontos imediatamente. “Golden Dawn”, “Jerusalem”, “All the Clowns” (com um clipe sensacional) e a maravilhosa “Nailed to the Wheel” vieram na sequência para fazer a minha alegria. Inclusive, “Nailed” tem um lado porrada que “bate na trave” de ser Thrash Metal.

É justamente aí que o álbum começa a revelar sua maior qualidade: ele não fica preso à fórmula que havia colocado o Edguy no mapa. Depois de Theater of Salvation, seria muito fácil simplesmente repetir a receita, colocar mais teclados, mais velocidade, mais coros, mais orquestração e seguir em frente. Mas aqui as guitarras ganham mais importância, o peso aparece com mais frequência e existe uma certa escuridão percorrendo várias das músicas. O Edguy continua sendo o Edguy — melódico, épico e cheio de refrãos memoráveis —, mas apareceu muito mais interessado em experimentar diferentes maneiras de chegar ao mesmo impacto.

“The Pharaoh” talvez seja o maior exemplo de como o Edguy conseguia transformar uma composição longa em algo que não soasse cansativo. São mais de dez minutos de música, mas existe movimento o tempo inteiro. A introdução com aquela atmosfera oriental, a construção sombria, as mudanças de dinâmica, a interpretação de Sammet... Tudo corrobora para fazer da faixa um dos grandes épicos da carreira da banda. É também uma música que pede mais e mais audições. Na primeira vez, você provavelmente fica preso à melodia. Depois começa a prestar atenção nos detalhes. E é aí que Mandrake mostra que existe muito mais acontecendo por baixo dos “panos” entre os refrãos e melodias chiclete.

Depois de tanta coisa acontecendo, “Wash Away the Poison” chega para diminuir a velocidade. É uma faixa mais delicada, quase uma pausa dentro do álbum, e funciona justamente por isso: um respiro. O piano e os elementos mais suaves criam um contraste interessante antes de a banda voltar a colocar peso nas coisas. Aliás, isso é um clichê dentro do estilo, né? Velocidade a torto e a direito para pisar no freio e novamente pisar no acelerador.

“Fallen Angels” traz um riff mais direto, e a música antecipa algumas das características que apareceriam com mais força em Hellfire Club. Há menos dependência do Power Metal; é como se colocássemos o pontapé para o futuro do Edguy aqui. “Painting on the Wall” retorna ao terreno mais familiar, enquanto “Save Us Now” deixa claro que Tobias Sammet jamais permitiria que um disco do Edguy terminasse sem uma boa dose de humor. É uma música divertida, quase absurda, sobre coelhos alienígenas tocadores de bateria tentando dominar o planeta.

Essa é uma das coisas que diferenciam o Edguy de várias outras bandas do gênero. Tobias nunca pareceu preocupado em manter uma postura permanentemente séria ou sombria. Ele consegue falar sobre anjos, demônios, religião, corrupção, liberdade e conformismo e, na música seguinte, aparecer cantando sobre alguma maluquice. E Mandrake equilibra muito bem essas duas faces.

E talvez essa seja outra razão pela qual Mandrake continua interessante tantos anos depois.

Também é impossível não falarmos da evolução de Tobias Sammet. Ainda existem ecos bastante claros de suas influências, mas ele já estava encontrando sua própria identidade. Ainda existiam os pôsteres dos seus ídolos na parede, mas, agora que ele também era uma referência para outras pessoas — agora era ele que tinha seu pôster influenciando uma nova geração. Com isso, a voz ficou mais agressiva em alguns momentos, mais segura em outros, e ele começa a explorar melhor os registros graves e médios sem abrir mão daqueles agudos que se tornariam uma de suas marcas.

E, apesar de Tobias naturalmente ser o grande nome do Edguy, Mandrake funciona porque existe uma banda por trás dele. Jens Ludwig é especialmente importante, mas baixo, bateria e segunda guitarra ajudam a sustentar essa mudança de direção. Felix Bohnke, por exemplo, não precisa transformar cada música em uma demonstração de velocidade. Seu trabalho está muito mais ligado à dinâmica das composições, com boas viradas e uma condução que deixa as músicas respirarem.

Talvez por isso Mandrake seja tão importante dentro da discografia do Edguy. Ele ainda carrega praticamente tudo que fez a banda conquistar seu espaço: Power Metal melódico, refrãos enormes, velocidade, fantasia e aquela energia quase juvenil. Mas já existindo algo diferente acontecendo no reino. Acaba sendo o fechamento de um capítulo de quase uma década — O Edguy estava amadurecendo.

E, seja justamente por isso que o álbum tenha um lugar tão especial.



NIRVANA - NEVERMIND 35 ANOS

 


A EXPLOSÃO QUE DEU FIM AOS ANOS 80: TRÊS DÉCADAS E MEIA DE NEVERMIND

Trinta e cinco anos depois, NEVERMIND permanece não apenas como o pico comercial do grunge, mas como o momento em que uma boa parte da juventude encontrou sua voz definitiva

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991, o mundo do Rock n' Roll acreditava estar um tanto quanto estagnado. As paradas globais ainda respiravam o final de uma era dominada pelo hard rock, solos intermináveis de guitarra e a pompa excessiva do hair metal californiano. No entanto, naquele exato dia, uma pequena gravadora subsidiária da Geffen despachava discretamente cerca de 46 mil cópias de um álbum gravado em estúdios modestos por um trio de Aberdeen, Washington.

O que tornou o segundo álbum do NIRVANA um ponto de inflexão tão violento não foi apenas a genialidade de suas composições, mas a colisão de forças criativas opostas. Por trás da fachada polida — resultado direto da produção cirúrgica de Butch Vig e da mixagem final de Andy Wallace —, residia a crueza visceral do punk underground e a obsessão melódica de Kurt Cobain por ganchos pop inspirados em bandas como os Beatles e os Pixies (este último, principalmente).

Um fator que foi determinante para esse sucesso, foi a entrada definitiva de Grohl na bateria. Ele injetou uma força propulsora avassaladora. Onde antes havia apenas caos desorganizado no álbum de estreia "Bleach" (1989), a cozinha, com a chegada de Grohl, ao lado do baixista Krist Novoselic, ganhou um peso monumental, transformando faixas como "Breed" e "Territorial Pissings" em furacões sônicos.

As letras de Cobain recusavam o escapismo hedonista das estrelas de rock tradicionais. Em canções como "Lithium" e "Come as You Are", ele expunha a ambivalência psicológica, a apatia, a depressão e uma sensação crônica de inadequação, disfarçadas sob melodias que grudavam instantaneamente na mente do ouvinte.

A trajetória comercial de Nevermind desafiou qualquer previsão razoável da época. A própria gravadora DGC esperava vender algo em torno de 250 mil cópias, o que já seria considerado um sucesso expressivo para um grupo oriundo da cena independente de Seattle.

No entanto, a chegada do videoclipe de "Smells Like Teen Spirit" à programação da MTV funcionou como a faísca em um paiol de pólvora. O hino de apatia adolescente rapidamente destronou gigantes corporativos das paradas — culminando no histórico momento em janeiro de 1992 em que desbancou o álbum "Dangerous", de Michael Jackson, do topo da Billboard 200. Com dezenas de milhões de cópias comercializadas ao longo dos anos globalmente, o disco redefiniu o mercado fonográfico e abriu as portas comerciais para nomes como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains.

Olhar para Nevermind aos 35 anos é reconhecer uma faca de dois gumes. O álbum eternizou a urgência criativa de Cobain, Novoselic e Grohl, mas também marcou o início de uma cruzada dolorosa para Cobain contra o peso sufocante da fama que ele jamais desejou daquela forma.

A célebre capa — que traz um bebê nadando em direção a uma nota de dólar em um anzol — tornou-se um dos ícones visuais mais debatidos e replicados da cultura pop. 

Mais do que um retrato nostálgico dos anos 90, NEVERMIND continua a soar urgente porque capturou perfeitamente o som da juventude questionando o mundo ao seu redor, provando que a vulnerabilidade, quando unida a guitarras distorcidas, tem o poder de derrubar impérios musicais da noite para o dia.



BLACK SABBATH - TECHNICAL ECSTASY 50 ANOS


 TECHNICAL ECSTASY AOS 50: O BLACK SABBATH QUE SAIU DA SOMBRA E ENTROU NO NEON

50 anos depois, é hora de olhar além dos clichês e redescobrir o disco mais corajoso do Black Sabbath

Por Jay Kay

Em 2026, Technical Ecstasy completa 50 anos como o disco que muita gente ainda usa para testar a própria tolerância ao Black Sabbath. Para alguns, é o momento em que os criadores do heavy metal perderam o rumo, para outros, é a fotografia fascinante de uma banda grande demais para repetir a própria fórmula. As duas leituras tem algum fundamento. Lançado em 25 de setembro de 1976, o sétimo álbum de estúdio do quarteto original não tenta reproduzir o breu de "Master of Reality" nem a tensão quase claustrofóbica de "Sabotage". Ele abre as janelas, e deixa entrar piano, sintetizador, cordas, grooves e uma vontade bem explícita de conversar com o hard rock de seu tempo. O detalhe decisivo é que essa mudança não veio de uma banda acomodada. O Sabbath acabara de atravessar a turbulência jurídica e administrativa que contaminou a gestação de "Sabotage". Em vez de recuar, Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward passaram a se administrar e produzir o próprio trabalho. No verão de 1976, seguiram para o Criteria Studios, em Miami, depois de uma turnê na qual teclados e sintetizadores já começavam a aparecer no palco. O que se ouve em Technical Ecstasy é justamente a tentativa de levar essa ampliação para dentro do estúdio. Chamar o álbum de “não-Sabbath” seria preguiçoso e injusto. O peso continua ali, só que deslocado. A evolução fica mais clara quando o disco é colocado entre os vizinhos de catálogo. É uma curva fechada porque a banda não chegou a uma síntese definitiva. Há momentos em que o álbum parece antecipar um Sabbath mais elegante e progressivo, em outros, soa como quatro músicos excelentes tentando descobrir, ao mesmo tempo, qual deles deve conduzir o carro. Essa irregularidade não precisa ser escondida. Ela é o que torna o aniversário interessante. 

“Back Street Kids” abre o play com energia de hard rock urbano e uma simplicidade quase provocadora. Depois da densidade de Sabotage, ouvir Sabbath cantar a própria sobrevivência pelo rock’n’roll pode parecer um passo para trás. Mas Iommi entrega uma guitarra muito mais luminosa, e a bateria de Ward impede que a faixa se acomode no piloto automático. A resposta vem logo em “You Won’t Change Me”. Aqui, sim, o velho nevoeiro reaparece, teclados sombrios, riff arrastado e Ozzy interpretando a letra como alguém que já está cansado e deprimido. É uma das faixas que melhor une a identidade anterior do grupo à nova sonoridade. A presença de Gerald Woodruffe nos teclados não é decoração, ela torna o peso menos óbvio e mais dramático. 

“Gypsy” reforça esse lado de aventura. Tem pulso, tem ameaça e tem um refrão que não se explica totalmente, mas funciona pelo atrito entre o riff e os teclados. 

Já “All Moving Parts (Stand Still)” é o ponto em que Geezer começa a puxar o álbum para terrenos quase funk. O baixo é móvel, a letra é estranha, a banda parece se divertir com o absurdo. Não é uma música que pediria licença para entrar em "Paranoid", e essa é exatamente a graça. 


As duas canções mais divisivas deixam o retrato mais humano. “Rock ’n’ Roll Doctor” tem um boogie enxuto e despretensioso, diria que está bem longe da sofisticação de “The Writ”, mas tem uma energia de banda de bar muito bem tocada. 

“She’s Gone”, por sua vez, coloca cordas e melancolia em primeiro plano. A faixa pode soar sentimental demais para quem só procura o Sabbath cavernoso, mas revela uma interpretação particularmente exposta de Ozzy e confirma que Iommi estava disposto a testar o alcance emocional da banda. 

E então há “Dirty Women”. O título envelheceu mal, e vale dizer isso sem rodeios. A letra trata mulheres de modo raso, preso a um imaginário de cidade noturna que já era datado mesmo para os padrões do rock setentista. Musicalmente, porém, a faixa é enorme, começa com clima de rua molhada, abre espaço para a guitarra respirar e termina como uma aula de Iommi sobre como esticar um riff sem matar sua tensão. Não por acaso, ela sobreviveu melhor que outras músicas do período e voltou a aparecer como presença frequente nos shows de reunião da banda. 

A maior surpresa do álbum atende pelo nome de “It’s Alright”. Bill Ward assume os vocais principais em uma balada guiada por piano, a primeira faixa do Black Sabbath sem Ozzy no posto de cantor. É uma decisão que, em 1976, devia soar quase como heresia para parte do público. Hoje, ela parece uma das escolhas mais simpáticas do disco. Ward não tenta competir com Ozzy, canta com fragilidade, calor e uma abordagem beatlemaníaca que revela outra dimensão do grupo. Décadas depois, Guns N’ Roses registraria a música em Live Era ’87–’93, sinal de que aquela aparente excentricidade encontrou ouvintes atentos. 

A capa também ajuda a explicar o caráter torto do álbum. Criada pela Hipgnosis, ela traz uma montagem de robôs em uma escada rolante em situação sexual. Aubrey “Po” Powell, um dos nomes do estúdio de design, contou que a escolha da arte aconteceu em meio a uma reunião tensa na casa de Iommi, com Ozzy chegando alcoolizado e a discussão quase descambando em briga. A imagem é estranha, fria, engraçada e desconfortável, exatamente como o disco em seus melhores e piores momentos. Outra curiosidade dá uma nova porta de entrada ao álbum. Em 2021, a Rhino lançou uma edição Super Deluxe com remaster, um novo mix de Steven Wilson feito a partir das fitas analógicas originais, outtakes, mixes alternativos e gravações ao vivo da turnê de 1976–77. Mais do que item de colecionador, a edição ajuda a separar o que é escolha de composição do que era limitação de mixagem. O baixo de Geezer e a bateria de Ward ganham nitidez, enquanto as camadas de teclados passam a ocupar um lugar mais justo no conjunto. 


Cinquenta anos depois, o que ele significa? Technical Ecstasy não ocupa o mesmo pedestal de "Paranoid", "Master of Reality" ou "Sabbath Bloody Sabbath". Nem deveria. Esses álbuns definiram linguagens, já este mostra uma linguagem tentando se deslocar sem perder o próprio sotaque. Sua força está nessa fricção entre um passado pesadíssimo e um futuro que a formação original ainda não sabia como encarar. A recepção permanece dividida. Há quem considere o álbum inconsistente e quem enxergue nele uma obra injustamente descartada por não oferecer o pacote habitual de riffs apocalípticos. 

A crítica retrospectiva costuma reconhecer ao menos esse mérito, pois até quando tropeça, o Sabbath de 1976 está tentando se superar e provar algo. “You Won’t Change Me”, “Gypsy”, “All Moving Parts (Stand Still)”, “It’s Alright” e “Dirty Women” formam um argumento suficientemente forte para que o disco seja mais que uma nota de rodapé entre "Sabotage" e "Never Say Die!". Aos 50 anos, a melhor forma de ouvir Technical Ecstasy é abandonar a missão de procurar um novo "Paranoid". Coloque-o como o álbum de uma banda no meio da ponte, ainda capaz de esmagar, curiosa o bastante para mudar e vulnerável demais para fingir que tudo estava sob controle. Talvez não seja a ecstasy prometida no título. Mas é um dos retratos mais sinceros de quando o Black Sabbath decidiu se arriscar.

Veredito: Imperfeito, aventureiro e muito mais vivo do que a fama de “elo fraco” faz parecer.



terça-feira, 22 de setembro de 2026

KISS - DESTROYS ANAHEIM '76 (2026)

 




KISS
DESTROYS ANAHEIM '76
Universal Music Enterprise - Importado

Se você perguntar para uma série de “Die-Hard” fãs do KISS, aqueles que tem trocentos bootlegs entre vhs, dvds, cds, fitas de rolo, ou o que seja, quais os concertos mais memoráveis dos quatro mascarados de Nova Iorque, a grande maioria vai citar o show na cidade de Anaheim, em 20 de Agosto de 1976. Amplamente conhecido em versões bootlegs, cinquenta anos após a sua realização, este concerto histórico ganha seu lançamento oficial e definitivo.

Após o sucesso finalmente ter batido na porta do quarteto, depois do lançamento dos espetaculares “Alive!” (1975) e “Destroyer” (1976), o KISS estava começando a colher os frutos de muito trabalho e tentativas no formato erro/acerto. “Destroys Anaheim´76” capta a banda pegando fogo (literalmente). Logo nos primeiros segundos, fica evidente que o lendário engenheiro de som Eddie Kramer — que gravou o show há 50 anos — realizou um trabalho excepcional na mixagem e masterização da apresentação. Tudo soa com extrema clareza, sem que se perca a atmosfera de uma performance ao vivo; além disso, os ajustes feitos são sutis, não havendo diferenças marcantes em relação à já mencionada versão não oficial que circulava entre os fãs em gravações piratas (*bootlegs*).

Algumas curiosidades deste show: as bandas de abertura foram nada menos que Ted Nugent, Montrose e Bob Seger. A introdução clássica que seguiu a banda por toda a sua trajetória é substituída pela apresentação da dupla de comediantes/músicos Flo and Eddie, onde eles apresentam a banda nominal e individualmente. Gene Simmons conta que nos primeiros segundos de “Detroit Rock City”, caiu um tombo e rolou escadaria abaixo, não lhe causando maiores constrangimentos, pois ficou envolto numa nuvem de gelo seco.

O setlist do álbum é primoroso, contando com clássicos dos seminais quatro primeiros álbuns do Kiss e a performance do quarteto é irrepreensível. Como citado anteriormente, o show está gravado na sua totalidade e como foi executado. Se existem overdubs, são minimos e discretos. Me dei o trabalho de escutar o bootleg que tenho e depois ouvir o lançamento oficial, e se alguma alteração foi feita, se tornou imperceptível.

Alguns estão apontando “Destroys Anaheim´76” como o melhor ao vivo do KISS. Meu coração de sócio torcedor não deixa concordar (ainda), mas sem duvida nenhuma é um documento obrigatório para todo o fã da banda. Graficamente, ele deixa toda a série “Soundboard” lançada nos últimos anos a milhas de distância, este sim um pacote digno da grandeza do KISS. Só as fotos já valem o lançamento. Não preciso falar nada mais, um dos lançamentos do ano. KISS FOR LIFE!

José Henrique Godoy





KINGCROWN - MOONFALL (2026)

 


KINGCROWN
MOONFALL
Rockshots Records - Importado

A banda francesa de heavy/power metal KINGCROWN está de volta ao mercado. Após o sucesso e a boa recepção do álbum "Nova Atlantis" (2024), o grupo chega com seu mais novo trabalho de estúdio, intitulado MOONFALL, via Rockshots Records. O disco aprofunda a direção conceitual da banda em torno de temas distópicos, evolução tecnológica e a fragilidade da existência humana. Fundada pelos irmãos Jo Amore (vocal) e David Amore (bateria), ambos ex-integrantes da lendária banda Nightmare, o grupo construiu uma trajetória consistente no cenário europeu com álbuns como "A Perfect World" (2019), "Wake Up Call' (2022) e o já citado "Nova Atlantis" (2024).

Formada pelos já citados Jo e David Amore, completam a banda Ced Legger e Bob Saliba (guitarras) e Seb Chabot (baixo). O trabalho de mixagem e masterização ficou a cargo de Simone Mularoni (do Domination Studio), e trouxe consigo uma sonoridade cristalina, peso adequado e alta definição em todo o espectro sonoro. E isso é essencial quando falamos de power metal, metal melódico, ou seja lá o nome que você queira dar pro estilo do grupo. A verdade é que a sonoridade do Kingcrown mescla de forma correta o metal tradicional e a melodia do power, sem exageros, criando um personalidade própria, ainda que traga em suas influências nomes como Iron Maiden, Helloween, Gamma Ray e até mesmo Symphony X.

O álbum abre com a faixa-título "Moonfall", onde podemos perceber a qualidade técnica dos músicos envolvidos. No que diz respeito a sonoridade, temos um power metal simples, bem executado com passagens mais intensas e melódicas, enquanto os vocais buscam sempre aquele momento alto, mas sem exageros. Uma boa faixa pra inicio de conversa. Um pouco mais cadenciada, "Nothing", remete ao Helloween, mas traz uma letra introspectiva, questionando o uso da inteligência artificial. Por sua vez, "We Are Kingcrown", é dona de um refrão autoexplicativo, que tenta afirmar a posição da banda dentro do cenário atual. Refrão grudento, diga-se. "A Thousand Years" é um power metal melódico clássico, onde os teclados guiam a base da composição, enquanto o bom vocalista Jo Amore foge dos agudos excessivamente limpos, garantindo uma identidade mais crua e direta ao som da banda. Por sua vez "Rise of the Machines", ainda que não fuja muito dos clichês típicos do estilo, mostra uma cozinha que transita com naturalidade entre o groove pesado e a velocidade galopante.

"All United" traz a energia típica do power metal, lembrando o melhor da vertente germânica e o peso refinado de nomes como Masterplan. E isso tudo acaba dando certo, principalmente para os apreciadores do estilo em questão. "Lost Horizon" e "Oblivion Resilience" se aproximam um pouco mais do peso, tendendo um pouco mais pro lado tradicional. Já "Back to the 80's" é uma ode à década de ouro do Heavy Metal, com uma letra que relembra como era essa época: "Back to the 80’s! Turn up the sound! Turn it up and shake the ground! Back to the 80’s! Back to the past! We’ll never die, we’ll never change!". O final vem com "Beyond the Stars", mais cadenciada e mais pesada.

MOONFALL é um álbum que vai agradar os fãs de carteirinha do heavy/power metal melódico tradicional. O KINGCROWN tem como principal virtude não reinventar a roda; em vez disso, ele tenta movimentá-la com composições afiadas, entregando um trabalhos coeso e bem gravado/produzido. Uma fórmula simples e verdadeira de como honrar o passado mantendo os dois pés firmes no presente.

Sergiomar Menezes





HELLOWEEN - 40 YEARS ANNIVERSARY TOUR




HELLOWEEN - 40 YEARS ANNIVERSARY TOUR

O REBEL ROCK cobriu a turnê de 40 anos do HELLOWEEN no BRASIL! E o que rolou nos shows em Porto Alegre e São Paulo você confere aqui:



16/09/2026
KTO ARENA
PORTO ALEGRE/RS
Produção: EntreLike/Mercury Concerts

Texto: Sergiomar Menezes
Fotos: José Henrique Godoy/ Chico Lisboa (Rock in Cena)

Em uma quarta-feira, um tanto quanto fria para o período, o Helloween marca mais uma passagem pela capital gaúcha. E pela terceira vez, no formato septeto. E quem diria que eu poderia dizer que assisti mais vezes o grupo com Michael Kiske do que com Andi Deris? Coisa louca não? Eu e meu amigo José Henrique Godoy nos dirigimos à KTO Arena (antiga Pepsi on Stage) praticamente dois anos após a enchente que assolou o Rio Grande do Sul. Mas, estamos aqui pra falar de uma banda que decidiu comemorar seus 40 anos de atividade fazendo aquilo que se espera dela: shows repletos de clássicos, novidades e músicas que não vinham sendo tocadas há algum tempo. Sendo assim, não havia como ter erro. E não teve.

Antes do show começar, havia uma DJ no palco colocando sons pra galera aquecer, mas ela não estava sendo muito feliz no seu intento, pois além do volume não estra muito alto, ela parecia desconhecer que o público ali era fã de Helloween. Ou seja, Korn, Avenged Sevenfold e outras bandas menos indicadas não foram muito bem recepcionadas. Mas, verdade seja dita, a última meia hora da moça a redimiu, pois apelou pros clássicos eternos do Heavy Metal e acertou a mão!

Passava pouco das 21h, quando a música "Let Me Entertain You" de Robbie Willians (e o pior é que a faixa é bem legal - a mesma já vem sendo usada pela banda há um bom tempo), ecoou pelos PA's, indicando que os deuses do metal melódico (e porque não dizer do Heavy Metal) estavam prestes a adentrar o palco. Com um telão repleto de animações muito legais, conectadas a cada música executada, surge nesse mesmo telão a figura do "Keeper", introduzindo o show. Então, Andi Deris (vocal), Michael Kiske (vocal), Michael Weikath (guitarra - falaremos mais dele a seguir), Kai Hansen (guitarra), Sascha Gerstner (guitarra), Markus Grosskopf  (baixo) e Daniel "Dani" Löble (bateria) sobem ao palco e logo de cara mandam um clássico eterno: "March of Time", faixa presente em "Keeper of the Seven Keys Part 1". É preciso dizer que o público cantou cada verso fazendo com que a voz (e que voz!) de Michael Kiske quase sumisse? Impressionante a energia e vitalidade de uma música composta há quase 40 anos! Em seguida, "The King of 1000 Years", faixa mais longa da carreira da banda, vem para abrilhantar ainda mais a aura épica que se formava na KTO Arena. Me arrisco a dizer que a composição, que abre "Kepper of the Seven Keys; The Legacy", é uam das melhores faixas da carreira da banda. E a divisão de vocais entre Deris e Kiske ficou perfeita, deixando pra Deris as partes mais pesadas, enquanto as melódicas ficaram com Kiske. Este último, aliás, apesar da aparência de bancário do Banco do Brasil aposentado que decidiu curtir a vida numa fazendo do interior, continua cantando como nos velhos tempos! Que vocalista, senhores... que VOCALISTA!  E se é pra falar de clássico, Kiske decide apresentar Mr. Kai Hansen e de uma forma bem direta, nos traz "Future World"! Como no inesquecível "Live in the UK", a faixa é cantada até pelos seguranças do evento, enquanto passa um filme na cabeça deste que vos escreve. É a quinta vez que assisto essa música ao vivo, terceira delas cantada por Kiske. E sempre que ela inicia volto no tempo, quando ouvia no meu bom e velho rádio toca-fitas National, a fitinha gravada com o ao vivo supracitado. Emocionante!




Era chegada a hora de "This is Tokyo", primeira música de "Giants and Monsters", mais recente trabalho do grupo. Se quando lançada como single a composição não me agradou, ao ouví-la na sequência do álbum, minha opinião mudou. Mas ao vivo, ela ganhou um contorno ainda  mais forte, ficando pesada e intensa, com Deris dando um show de performance. Sim, ainda que sofra muitas críticas por sua voz (que é bem mais hard do que heavy), o alemão que teve a ingrata tarefa de substituir Kiske em 1994, mostra que sabe dosar sua voz de forma correta. Além do carisma e simpatia, que compensam qualquer coisa. Em seguida, "We Burn" de "The Time of the Oath", que ao vivo vira um coice na boca do estômago, com direito a show de luzes e fogos na frente do palco, seguida por uma grande surpresa: "Twilight of the Gods"! Uma verdadeira aula de como deve ser o speed/power metal, composta por Kai e interpretada de forma magnífica por Kiske. E quem se importou com o mesmo Kai esquecendo a letra de "Ride the Sky" e se atrapalhando na hora do solo? Absolutamente ninguém! Até porque, estava todo mundo cantando e muitos, talvez, nem repararam nisso... Weikath segurou os solos muito bem apesar da aparência terrível...

E aqui, abro um espaço pra falar sobre Weikath. O quão magro ele está é assolador! Parece que vai cair a qualquer momento, anda encurvado, parecendo sem forças para empunhar a guitarra. Mas o faz muito bem, não esquecendo de brincar com o público algumas vezes, e fazendo seus gestos típicos com as mãos enquanto toca sua guitarra. Boatos dão conta de que ele está bem doente e que talvez essa seja a última turnê do Helloween. A verdade é que a saúde dele parece estar nada boa.

Mas voltando ao show, era chegada a hora de mais uma faixa do mais recente trabalho. E, infelizmente na minha opinião, escolheram "Into the Sun", uma faixa chata e sem vibração. Por sorte, em seguida tivemos "Hey Lord", faixa de "Better Than Raw", que ao vivo ganhou peso e intensidade, mostrando que a banda soube não fica presa sempre as mesmas escolhas de setlist. "Universe (Gravity for Hearts)", mais uma do novo álbum, veio pra mostrar como o Helloween ainda é importante para o estilo, pois cria faixas que mesclam o melódico e o metal como poucas. Ainda que muitas criaturas tenham atingido ótimas performances, o criador sempre será imbatível. "Rabbit Don't Come Easy", também se faz presente no set, e por sorte, a banda escolheu a melhor música do álbum: "Hell Was Made in Heaven"! Uma faixa totalmente Heavy Metal, pesada, veloz, intensa, com Deris exigindo muito de si mesmo em alguns momentos, provou que a banda não está pra brincadeira no palco (ainda que muitos momentos divertidos tenham ocorrido). Essa música deveria estar presente em todo show do septeto! Em seguida tivemos um solo "meia-boca" de Dani Löble, algo ao meu ver, desnecessário, mas sabe como é... tinha um baterista do meu lado que não vai concordar comigo...



Logo em seguida, o primeiro momento "festa" do show com a execução de "I Want Out"! Essa música é sinônimo de metal melódico, é sinônimo de "happy happy Helloween"! Todos cantando, papel picado explodindo no público e muita interação banda/plateia. Momento memorável! Então Kiske e Deris se dirigem a frente do palco e num momento bem intimista, apenas voz e violão, Kiske manda ver "Let it Be" dos Beatles. Ficou bem legal e alguns presentes no refrão cantavam "Helloween, Helloween, Helloween, Helloween"... Deris assume os vocais na primeira parte acústica de "In The Middle of my Heartbeat", que na segunda parte ganha o instrumental completo, num dos mais belos momentos do show. E se falamos de belos momentos, o que dizer de " A Tale That Wasn't Right"? Assim como nos dois últimos shows da banda por aqui, Kiske pediu para que ligassem a lanterna do celular (como se fazia antigamente com os isqueiros) durante a execução da faixa, o que deu a ela uma "brilho" extra. A última faixa a ser tocada de "Giants and Monsters" foi a hard "A Little is a Little Too Much", que ao vivo também ganhou mais força. Kai Hansen assume o protagonismo novamente em "Heavy Metal (is the Law)", outra pérola do speed metal, relembrando os tempos de "Walls of Jericho". Pra fechar a primeira parte, a magnânima "Halloween", perfeita, intensa, pesada e com o dueto de vocais muito bem dividido entre Deris e Kiske. Os músicos agradecem e deixam o palco, como se  agente não soubessem que eles voltariam...

O "Keeper" ressurge no telão anunciando que o show ainda não havia acabado e dá lugar a uma águia cibernética. É o sinal de que "Eagle Fly Free" seria a próxima música. Que coisa espetacular é presenciar a execução dessa faixa ao vivo. Balões gigantes, amarelos com o logo de 40 anos da banda surgem do nada no meio do público e ficam sendo jogados de um lado pro outro enquanto o grupo manda ver em um dos maiores clássicos da história da música universal! "Power", de "Master of the Rings" vem para mostrar que após a saída de Kiske, o Helloween sabia que ainda tinha muita lenha pra queimar, lançando uma de suas músicas mais "Helloween" de sua carreira. E pra fechar de vez o grande espetáculo, " Dr. Stein" cantada por todos a plenos pulmões foi o encerramento perfeito de um show praticamente perfeito. Banda e público em completa sintonia, setlist bem escolhido (exceção de "Into the Sun") e muita energia desses senhores na casa de seus 60 anos ( a maioria deles). Ainda tivemos, antes do fim, o refrão de "Kepper of the Seven Keys", que coroou essa grande apresentação.




Um show ótimo, público satisfeito, mas algumas considerações importantes: achei o público de 2600 aquém daquilo que a banda merecia. Óbvio que  a situação financeira do país não é nada boa, mas o show foi anunciado com bastante antecedência, ou seja, dava tempo de s e programar. Outro ponto: Michael Weikath. Se é verdade que está doente, deveria pensar em sua saúde e não fazer mais shows, por mais tristes que os fãs possam ficar. Até, pra voltra em melhores condições. 

Mas nada disso tira o brilho de uma noite que celebrou os 40 anos dos pais do power metal melódico, de uma das maiores bandas do mundo: HELLOWEEN!

Obrigado Renata Gomes e EntreLike pelo credenciamento e recepção no show.




19/09/2026
SUHAI MUSIC HALL
SÃO PAULO/SP
Produção: Catto Comunicação/Mercury Concerts

Texto: Mauro Antunes
Fotos: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Após o brilhante texto acima do nosso redator-chefe, Sergiomar Menezes, o Rebel Rock seguiu com sua cobertura dos shows da turnê de 40 anos do Helloween aqui por nossas terras.

Passei o Sábado me preparando psicologicamente para o que iria ver a noite, almoço durante o trabalho, clássicos no Helloween em meu CD Player (nada de Spotify ou similares!) durante esse período, até que por volta das 18:30hs saí de casa rumo ao Suhai Music Hall, uma casa que não conhecia, e que fica bem distante para quem mora nas zonas Norte e Oeste, em especial. Apesar de ter acompanhado o show da Pista Premium, as áreas de mezanino e camarote parecem ser bem legais, e teremos lá, ainda esse ano, os shows do Deep Purple e a despedida (será mesmo!?) do Sepultura. Pretendo acompanhar esses shows em alguma posição dentre essas.

Mas voltando ao Helloween, entramos na casa por volta das 20hs, deu tempo pra fazer um lanche, com boas (e caras) opções no menu. Deu pra degustar aquela batata frita, e ainda havia muitas opções de salgados e hamburgueres. Ah, e tinha também uma caprichada banquinha de merchan mas com uma fila absolutamente insuportável; então, passei batido por ela.

Pontualmente, as 21hs os alto falantes começaram a tocar “Let Me Entertain You” do cantor Pop, Robbie Wiiliams (pra quem tiver curiosidade de ouvir, assista o clipe através do link: youtu.be/ymPu2PdLW3I?is=NPCdvFSHII8ZGhi4), e quando “March of Time” começou a rolar, aquela sensação de voltar no tempo, me sentir jovem de novo, tomou conta de mim. E melhor ainda, ouvi-la na voz do mestre Michael Kiske, torna essa sensação ainda mais especial.

“The King for a 1000 Years” foi muita bem recebida pelo público, o que pra mim, foi ligeiramente surpreendente, já que o disco “Keeper of the Seven Keys – The Legacy” não é tão bem aceito pelos fãs em geral, o que eu, particularmente, considero uma tremenda injustiça. A última parte da saga das faixas de 13 minutos não deve nada às anteriores, e tem uma linha vocal muito bem criada por Andi Deris, e que ao vivo, Kiske entra pontualmente em algumas passagens. Sinceramente, foram 13 minutos que se passaram em menos de 5 minutos. Linda!



Logo após, Kiske e Deris agradeceram o show soldout e lembraram que este foi o último show da turnê de 40 anos, além de fazer o público berrar para que fossem os gritos mais altos que ouviram durante o período. Obviamente, como tinham a plateia nas mãos, os gritos foram realmente altos o bastante. E pra quem gosta das composições do mestre Kai Hansen, veio mais um hino criado por ele, “Future World”, que é impossível ficar indiferente a ele. Depois, veio a única faixa dispensável do setlist, a fraquinha “This Is Tokyo”. Uma pena a banda grudar nela por ser do disco novo, mas nele há coisas bem (e bota bem nisso...) melhores.

A pesadíssima “We Burn” testa ao limite a capacidade do sessentão Andi Deris e o cara não foge da raia. Uma das melhores performances do icônico frontman. “Twilight of the Gods” é mais um hit que todos cantaram junto, até “Ride the Sky” que é o momento onde Kai Hansen mais fica em evidência. O cara tem um carisma ímpar mesmo, fato é que apesar da música em questão ajudar, e muito, ele é capaz de colocar a plateia em suas mãos.

A balada “Into the Sun” que é daquelas que não compromete, mas também não empolga, acabou fazendo bem o papel de anteceder outro hino dos anos 80, “I’m Alive” executada pela primeira e única em toda a turnê comemorativa de 40 anos de vida do Helloween. Assim como para várias outras bandas grandes, São Paulo é uma cidade muito importante na carreira da banda alemã, taí a prova disso.

“Hey Lord!” é mais uma das faixas grudentas compostas por Andi Deris com uma veia mais comercial que os fãs em geral a abraçaram com carinho, então para a banda, mantê-la no set, parece ser quase um descanso para o hepteto no palco. É simples e o público adora!



“Universe (Gravity of Hearts) é um imenso destaque do trabalho mais recente, “Giants & Monsters” (2025), uma que veio pra ficar e que provavelmente fará parte do setlist da banda por um bom tempo; ela tem tudo o que os fãs mais gostam: é pesada, progressiva e melódica ao mesmo, refrão marcante e mais de 8 minutos de duração. Incrível como foi saudada pelo público. “I Want Out” é o arroz de festa que sempre agrada a todos, talvez o maior clássico da carreira do Helloween.

Aí veio aquele momento que todos esperavam ansiosamente: Kiske e Deris em versão acústica, e diferentemente do que aconteceu em Porto Alegre, a banda escolheu a clássica “Yesterdays” dos Beatles ao contrário da não menos clássica “Let It Be”, além de emendarem um trechinho de “Suspicious Minds” do Rei do Rock, Elvis Presley.

“A Tale That Wasn’t Right” teve sua primeira parte cantada de forma acústica por Kiske e Deris e a banda entrou na segunda parte da música e a levou até o fim. Talvez a melhor balada dentre as várias que o Helloween já gravou. Sempre um grande momento, e Kiske foi cirúrgico ao gravar as linhas vocais deste hino composto pelo guitarrista Michael Weikath.

As divertidas “A Little Is a Little Too Much” e “Heavy Metal (Is the Law)” antecederam mais um hino de 13 minutos de duração, a clássica “Halloween” que fechou a primeira parte do show como tem que ser, afinal ela é considerada pelo próprio Kai Hansen como a melhor composição de sua vida. Então, aqui, quase 40 anos depois, o que nós mais podemos falar sobre ela? Nada, basta ouvi-la repetidas vezes e entender o porquê o Helloween tornou-se o gigante que se tornou. Até aquele momento, ninguém no planeta era capaz de reproduzir o som que os caras ousaram criar.

Após a pequena pausa vieram mais 3 grandes pérolas: “Eagle Fly Free”, “Power” e “Dr. Stein” pra fechar uma noite que poderia durar até umas 5 horas da manhã, que ninguém iria ficar com sono. Ah, e antes do fim, claro, aquele trechinho de “Keeper of the Seven Keys” pra deixar todos com água na boca.
Bandas do porte do Helloween sofrem com a necessidade de montar um setlist que agrade a todos. Pérolas como “How Many Tears”, “A Little Time”, “Keeper of the Seven Keys”, “Kids of the Century”, “Sole Survivor”, e as mais recentes “Skyfall” e “Majestic” fazem falta, mas, obviamente, com tantos hinos escondidos dentro da extensa discografia dos alemães, não há como todos serem executados. Que pena!


Excetuando-se o caro preço de alimentos e bebidas da casa, e o volume do som que poderia (e deveria!) estar mais alto, todo o restante foi perfeito. Uma grande noite para todos os que lotaram a casa. A pista premium estava super lotada, a pista comum, idem. Mezanino e camarote, abarrotados, realmente o sold out se confirmou. Outro ponto a analisar, é que os sessentões da banda estão com pique de garotos, mesmo após essa extensa turnê com mais de 60 shows espalhados pelo planeta Terra.
Sempre digo aos amigos à minha volta: aproveitem bandas como o Helloween enquanto eles ainda estão na ativa, mesmo com ingressos caríssimos! Vê-los ao vivo é um deleite para quem os ama, e eu, caro leitor, me incluo nessa com louvor! Happy Happy Helloween! Nunca parem, por favor!