K.K. Downing com Mark Eglinton
Tradução: Marcelo Vieira
Editora: Estética Torta
SWITCHBACK - BATENDO DE FRENTE (EP) (2021)
Independente
Sabe aquele Hardcore, mas Hardcore mesmo? Meio difícil de encontrar hoje em dia né? Se você também corrobora da mesma opinião que este que vos escreve, dê uma sacada em BATENDO DE FRENTE, novo EP da banda carioca SWITCHBACK! Direto, seco e agressivo como um soco na boca do estomago. Pode parecer um tanto quanto primitiva uma descrição desse tipo, mas a sonoridade apresentada pelo quarteto é digna de nota! Muito bem produzido, o grupo flerta em vários momentos com o Thrash, o que dá uma encorpada ainda maior ao HC da banda. Sem muito papo, como reza a cartilha do estilo, vamos ao que interessa.
Vinny Blanc (vocal), Fabio Lannes (guitarra), Luciano Munhoz (baixo) e Mauro Lopes (bateria), despejam toda fúria e agressividade de sua música em 4 faixas gravadas no Tellus Studio no Rio de Janeiro. Produzido pela própria banda, mixado por Felipe Borges e Caio Mendonça e masterizado por este último, BATENDO DE FRENTE peca em um único quesito a duração! Como relatado anteriormente, o Hardcore da banda encontra momentos de rispidez thrash, de sujeira punk, mas acima de tudo, traz consigo personalidade e identidade, o que fica ainda mais evidente nas letras do quarteto.
A primeira faixa, "Corrosão", que teve seu vídeo divulgado no início de 2021, é um singelo convite à compra de novos móveis pra casa, se você correr o risco de ouví-la sem ter cuidado de estar em um local deserto. Os riffs de Fábio guardam uma proximidade com o Thrash, enquanto a cozinha composta por Luciano e Mauro se encarregam de adicionar a veia Hardcore explícita do grupo. Já o vocal de Vinny tem todas a s características necessárias, pois é direto, intenso e sem "melodia". Ou seja, um soco na cara sem nenhum tipo de defesa! Da mesma forma, "Passa Seu Ego Pra Cá", segue mantendo a aproximação com o Thrash, com passagens mais "limpas". Enquanto isso, Mauro imprime à faixa eu momento britadeira, castigando seu kit sem piedade. Outro ponto que merece destaque é o peso que o grupo repassa, algo raro, pois muitas vezes, o Hardcore acaba priorizando a velocidade em detrimento ao peso, o que acaba tirando um pouco da intensidade das faixas.
E por falar em velocidade, "Pelo Povo, Para o Povo", mostra de forma concisa a face mais HC do grupo. Com um clipe muito bem gravado, a letra da composição é uma espécie de protesto contra os ataques à constituição (que ultimamente vem sendo perpetrados por aqueles que deveriam defendê-la) e que acabam por distorcer o conceito de direito e deveres dos cidadãos. Sem dúvidas, o grande destaque do trabalho! Pra encerrar, "Bota a Cara, Cuzão", com sua levada Thrash (Exodus, Sepultura) mostrando a versatilidade do grupo, tanto na composição quanto na execução.
BATENDO DE FRENTE é um trabalho que coloca em evidência o nome da SWITCHBACK. Uma pena que acabe de forma tão repentina. Fica aqui uma pergunta: não é o momento de um álbum completo????
AS THE PALACES BURN - FOR THE WEAK (SINGLE) (2021)
Independente
Uma da bandas mais promissoras do cenário brasileiro decidiu por "repaginar" sua identidade visual antes do lançamento de seu mais novo álbum, previsto para este segundo semestre de 2021, contando com a produção do renomado Adair Daufembach. A AS THE PALACES BURN sempre foi uma banda que soube, e sabe, onde quer chegar, pois nas conversas que tive com Alyson Garcia, vocalista do grupo, isso sempre ficou bem claro. E, mais uma vez, a banda prova que tem seu caminho muito bem delineado com o single "For the Weak", uma vez que apresenta uma sonoridade mais agressiva, mantendo sua identidade.
O grupo, que sempre se mostrou dono de uma versatilidade e técnica acima a média, traz em "For the Weak", uma pegada mais visceral, pesada, agregando tudo isso à sua sonoridade característica, qual seja, a mistura de Heavy, Thrash e Prog Metal, com vocais que soam ora mais intensos e ríspidos, ora mais melódicos e limpos. O single serve como um "aperitivo" para o que vem por aí, e a julgar pela qualidade aqui apresentada, teremos um álbum, mais uma vez, acima da média. Algo já comum à curta, porém consistente, discografia do grupo.
Sergiomar Menezes
ORPHANED LAND - UNSUNG PROPHETS & DEAD MESSIAHS (2018)
Shinigami Records/Nuclear Blast Records
Xfears - "The First" (2021)
GSC Music
Não apenas técnica apurada, esmero matemático/musical — megalomania criativa ou mostruário de virtuoses; “The First”, o primeiro registro completo da banda paulista Xfears, é, antes de mais nada, um álbum edificado com emoções fortes, conduzido por sensibilidades e organicamente elegante. Repleto de diferentes texturas, de nuances — relevos e ápices. Riquezas harmônicas e um vasta paleta de melodias habilmente escritas que, tanto conseguem seduzir quanto encantar. Em suma, uma cordilheira de sentimentos numa paisagem que emula com perfeição todas as virtudes e sutilezas do Metal Progressivo.
A Xfears foi fundada em 2002 por
Gabriel Carvalho (vocais/teclados), Marcelo Monteiro (guitarras) e Gilmar
Cazagrande (guitarras). Em 2004 a banda entrou num hiato que durou 13 longos
anos, mas que felizmente findou-se em 2017, quando voltaram e lançaram o
fabuloso single “Changes”. Em 2020 o alinhamento da banda foi reconfigurado com
a entrada dos músicos; Douglas Polents (bateria) e Ricardo Roque (baixo).
Outros singles foram concebidos e eis que finalmente neste mês, eles debutam
com uma força natureza, o instigante “The First” (GSC Music).
Com sua concepção sonora creditada a
Gabriel Carvalho, o álbum teve seus cursores de estúdio — gravação, mixagem e
masterização deixados sob a responsabilidade de Alexandre Dipper (Xstudio); a
arte da capa e demais recursos visuais receberam a rubrica do designer Danilo
Zacarias.
Antes de adentrar no universo de
musical do Xfears, quatro acertos (dentre muitos) que devem ser ressaltados.
Primeiro: A produção é o oposto daquilo que o contemporâneo tem oferecido, ela
é “viva”, cristalina e volumosa, cada instrumento e timbre, cada relevo e curva
do instrumental, e cada camada sonora tem seu espaço e tempo bem definidos.
Cada músico tem seu próprio holofote e quando em conjunto tudo é ainda mais
intenso e grandioso. Segundo: Apesar de ser um composto fronteado pelo Metal
Progressivo, o repertório desenvolve-se além do que o rótulo, por vezes,
define. Ou seja, o Prog segue como norte do trabalho (o cardeal mestre), mas
linhas de Heavy e de Power Metal tradicional o abrilhantam (como pontos
colaterais). Terceiro: A habilidade do quinteto em transmutar estruturas
convencionalmente complexas em algo acessível, ainda pesadas e intrincadas, mas
de fácil “digestão”. Quarto: A não necessidade de preenchimento absoluto. O
disco comporta 09 faixas de tempo razoável. Uma curta introdução intitulada
“Xfears”; que serve para ambientar a narrativa e um interlúdio; “Prelude To
Pain” (que prepara terreno para a maior malha do trabalho “The Worst Pain”). As
demais 07 extrações transitam entre 04 e 06 minutos — sucintas, mas coesas e
devidamente detalhadas; sem ausências ou excessos.
“Take Control” esbanja feeling e
técnica, com grande enfase no
desenvolver das guitarras (riffs, edificações melódicas e solos); nas linhas de
bateria que foram maravilhosamente caligrafadas — e são mutáveis conforme a
progressão da música, e nos teclados, que tanto fazem fundo quanto adorno.
“Hell Is Here” é uma verdadeira ode ao Prog Metal, com incríveis mudanças de
ritmo, elegantes transições e um refrão evocativo (candidata a hino da banda).
“No Regrets” amalgama elementos das anteriores, porém, mais enérgica e com as
guitarras protagonizando o espetáculo. Num disco onde a emoção é a aorta, uma
balada se faz mais que obrigatória e “I See” atende essa necessidade. Teclas
delicadas, guitarras que seduzem tanto em suas elevações quanto no solo (se o
Progressivo não tem alma, que alguém me explique essa música, por favor).
Gabriel Carvalho não apenas canta e dá vida aos sentimentos da canção, ele se
torna a canção (proeza que poucos conseguem, acredite). “Endeavour” vai do
esmero do supracitado Prog até o Metal em suas formas mais tradicionais —
sensacional!
Uma homenagem ao imortal Nevermore e
ao também imortal Warrel Dane acontece na sétima faixa, trata-se de um cover
digníssimo para a belíssima “Believe In Nothing” (décima faixa da obra-prima
“Dead Heart In A Dead World” — 2000). E verdade seja dita, tocar Nevermore,
ainda que seja uma de suas baladas nunca será uma tarefa simples, cantar as
letras imortalizadas pelo Warrel menos ainda. Sua voz, sua interpretação e sua
força eram únicas e irreplicáveis. “The Worst Pain” encerra nossa digressão
pela pintura em movimento que é “The First”. Todos os predicados encontrados e
enumerados durante toda a audição são novamente expostos e intensificados nela.
Um fim épico à altura de tudo que revelado durante todo o disco.
O Xfears é um achado e um acréscimo valoroso para o Metal brasileiro; “The First” é forte, inteligente e coeso. Um álbum marcante e inundado de criatividade, que não pode de modo algum ficar restrito apenas a um nicho de fãs (música de qualidade transgride estilos, gêneros e rótulos). O Xfears merece ser conhecido não apenas por sua habilidade, mas também pela emoção com a qual confecciona sua arte, emoção essa que se torna cada vez mais rara atualmente (ouve-se rápido e esquece-se mais rápido ainda.
Fábio Miloch