sexta-feira, 15 de agosto de 2025

KRISIUN - BLACK FORCE DOMAIN 30 ANOS

 


BLACK FORCE DOMAIN - OS 30 ANOS DE UM MARCO DO DEATH METAL!

        
Numa longínqua época, lá em 1995, exatamente 30 anos atrás, o maior expoente do metal extremo de toda a América Latina, o Krisiun, lançava finalmente seu álbum debut, o full-lenght, Black Force Domain, somente 5 anos após lançar sua primeira demo, deixando o interior de Ijuí, passando por Porto Alegre e aterrissando em São Paulo, a terra das oportunidades do metal brasileiro, oportunidade essa que veio na pessoa de Eric de Haas, do selo Dynamo Records.

No lançamento anterior, o "Unmerciful Order", os gaúchos já detinham o título de banda mais rápida e extrema do Brasil, mas foi com o debut que a banda elevou extremismo e velocidade a décima quinta potência! Todo produzido no Brasil, o nível de gravação em relação ao anterior já era nitidamente superior, mas, numa época que as gravações eram reais, eram tocadas de verdade, o álbum soa orgânico e com peso e sujeira precisos ao que o estilo necessitava: brutal, coeso, pesado e rápido, muito rápido, aliado a letras totalmente extremas, tratando de assuntos apocalípticos, anticristãos, blasfêmia e escuridão numa escala cavalar, esse era o Krisiun se apresentando pro mundo! 

Definitivamente, resenhas muito elogiáveis na época em zines e revistas gringos como os conceituados Tales of the Macabre da Alemanha e S.O.D. Magazine dos Estados Unidos, rasgando elogios ao Black Force Domain, chamaram a atenção dos gringos para ouvir essa bomba atômica em formato de música. A faixa que dá nome ao álbum abre o trabalho com uma chamada de guitarra de Moyses Kolesne numa palhetada além da velocidade da luz, seguida pelo mestre absoluto das marretadas Max Kolesne numa entrada da bateria logo descambando pra marca registrada do Krisiun pra sempre: o blast beat, ou como eles mesmo chamavam no Sul, a britadeira! Essa música se transformou num hino e está presente até hoje nos shows do grupo, com um solo no meio da música e um solo sensacional encerrando a faixa num estilo o qual Moyses influenciaria dezenas e dezenas de bandas mundo afora. 

"Messiah of the Doble Cross" segue na mesma linha, sem descanso ou pausas, rifferama absurda despejada em forma de selvageria, e o vocal de Alex Camargo pra lá de extremo, atravessando bases e tempos como uma espada de guerra. O solo, é provável que tenha sido feito com um esmeril! A energia e a fúria colocada em "Hunters of Souls" e "Blind Possession" são impressionantes, técnica e velocidade aliadas a letras blasfemas e apocalípticas mantendo o nível da agressividade no máximo. Outro clássico atemporal, "Evil Mastermind" é apresentada em forma de brutalidade, coroando Max como um dos maiores bateristas da história, mostrando bumbos muito velozes pra época. Definitivamente, os irmãos Kolesne são um dos responsáveis pelo surgimento do rótulo Brutal Death Metal na cena mundial, até porque, pilhas de bandas consagradas do death metal como Carcass, Entombed, Gorefest entre outros começaram a lançar álbuns mais melódicos e lentos, e justamente o Krisiun veio na contra mão, sem fazer concessões, sem fazer prisioneiros, sem se importar com moda ou tendência. 

Em "Infamous Glory", Moyses deixa claro, gravando os teclados que dão um tom macabro e soturno, que logo entrará pro hall dos maiores guitarristas do estilo, numa vinheta inspirada num mix de velocidade e de feeling. A sequência enfurecida segue sem dar descanso com "Rejected to Perish Below", "Meanest Evil" e "Obssession by Evil Force", mostrando que os três conquistadores do Armagedom, daqui pra frente, seriam sempre lembrados como a banda mais extrema do mundo, e amplamente admirados e elogiados pelos maiores nomes do estilo e seus ídolos e influências como integrantes de Morbid Angel, Napalm Death, Dimmu Borgir entre outros. "Sacrifice of the Unborn", termina por consagrar nosso tão extremo Black Force Domain, como um dos álbuns mais comemorados da história do death metal, e certamente uma influência pra nomes famosos do estilo voltarem a compor de forma mais rápida e agressiva. 

Black Force Domain, com sua capa bruta e direta, unindo gostos de todos estilos extremos, abriu as portas pro Krisiun conseguir uma gravadora gringa e iniciar turnês mais longas e profissionais, turnês essas que são marcas registradas da banda até hoje, e firma o nome dos Kolesne como um dos maiores do mundo de todos os tempos. Três décadas dessa sarrafada na cabeça, definitivamente não é pra qualquer um!

Márcio Jameson





quinta-feira, 14 de agosto de 2025

REBEL ROCK RESEARCH - SKID ROW

 


Formado em 1986, em Nova Jersey, pelo guitarrista Dave "Snake" Sabo e o baixista Rachel Bolan, o Skid Row rapidamente se consolidou e se transformou em uma das bandas mais icônicas do hard rock e heavy metal no final dos anos 80 e no início dos anos 90. Completando a formação clássica estavam Scotti Hill (guitarrista), Rob Affuso (baterista) e o carismático Sebastian Bach (vocalista que entrou no lugar de Matt Fallon em 1987). O quinteto ganhou o público com um estilo que misturava riffs pesados, refrãos memoráveis e uma atitude rebelde, despojada e porque não dizer, clássica. Sob a produção de Michael Wagener, seus dois primeiros álbuns "Skid Row" (1989) e "Slave to the Grind' (1991), alcançaram a marca de milhões de cópias vendidas, apresentando clássicos como “Youth Gone Wild”, “18 and Life”, “I Remember You” e “Monkey Business”. O auge de seu sucesso foi evidenciado pelo fato de "Slave to the Grind" ter estreado na primeira posição da Billboard 200, um feito incomum para um álbum de uma banda pesada. Em 1995, o mais sombrio e agressivo "Subhuman Race" revelou uma banda em transformação, mas também lidando com tensões internas que resultaram na saída de Bach e, logo após, de Affuso. Nas décadas seguintes, o Skid Row continuou com novas formações e vocalistas, como Johnny Solinger (falecido em 2021), ZP Theart, Tony Harnell e, mais recentemente, Erik Grönwall, explorando diferentes sonoridades em álbuns como "Thickskin" (2003), "Revolutions per Minute" (2006) e o ótimo retorno às suas raízes com "The Gang’s All Here" (2022). Com uma história marcada por altos e baixos, mudanças na formação e reinvenções, o Skid Row permanece relevante como um dos grupos mais respeitados do hard rock, equilibrando a nostalgia de sua era clássica com a energia de sua evolução contínua. E aqui no REBEL ROCK RESEARCH, chegou a hora de analisarmos sua discografia, do pior ao melhor. Confira!

Sergiomar Menezes

6º - REVOLUTIONS PER MINUTE (2006)


Lançado em outubro de 2006, "Revolutions per Minute" é o quinto álbum do Skid Row e representa uma mudança significativa na trajetória do grupo, sendo o único álbum gravado com o baterista Dave Gara e o último em que Johnny Solinger, infelizmente, já falecido, ficou encarregado dos vocais. Com produção de Michael Wagener, que também foi responsável pela engenharia e mixagem, e masterização de Eric Conn, o álbum conta com a formação de Solinger nos vocais, Dave "Snake" Sabo e Scotti Hill nas guitarras, Rachel Bolan no baixo e backing vocals, além de Gara na bateria. Em termos musicais, o trabalho oferece um hard rock mais "moderno" e pesado, com boas faixas, riffs interessantes e refrãos poderosos em faixas como “Disease”, “Another Dick in the System” e “Shut Up Baby, I Love You”, além de incluir um cover (a versão de “Strength”, do The Alarm) e músicas que exploram e flertam com elementos da country music, como “When God Can't Wait” e “You Lie”, que acaba se destacando pois se transforma numa faixa mais intensa e veloz. Embora existam bons momentos, o álbum se afasta do glamour  e pagada característicos dos anos 80, mas ouvindo hoje em dia, percebe-se que o trabalho preserva a essência da banda, apresentando uma sonoridade mais densa e sombria, tendo sido relançado em 2025 com uma edição remasterizada, que visa intensificar ainda mais sua força e vitalidade. O mais fraco da discografia, mas nem tão ruim assim, como dizem por aí...



5º - SUBHUMAN RACE (1995)


É provável que me atirem pedras aqui, mas "Subhuman Race" último álbum do grupo com Sebastian Bach nos vocais representa o último ato da era de dourada do grupo, que termina de uma maneira não tão dourada assim... Produzido por Bob Rock, o disco nasceu em um ambiente de tensões internas e um panorama musical em mutação, onde as bandas ditas "alternativas" ditavam as tendências do mercado. Muitos dizem que o grupo inseriu traços de grunge, groove e thrash metal ao hard rock intenso que consagrou o quinteto. No entanto, apesar da boas músicas presentes, Sebastian Bach (vocais), Dave “The Snake” Sabo e Scotti Hill (guitarras), Rachel Bolan (baixo) e Rob Affuso (bateria), apenas conseguiram proporcionar um som agressivo, sombrio e, ao mesmo tempo, melodioso, o que na verdade se mostrou bastante confuso. Se as guitarras pesadas de "Slave to the Grind", ainda de se mantinham ditando o ritmo, por outro lado, a sensação que ficava era que a banda queria acompanhar o mercado e deixou de lado sua faceta mais hard. Além disso, os problemas internos com Sebastian eram cada vez mais intensos e praticamente insuportáveis, o que culminou num trabalho um tanto quanto perdido em sua essência. Ainda assim, o disco traz alguns destaques como “My Enemy”, “Breakin’ Down” (de longe, a melhor faixa do trabalho) e “Into Another”, evidenciando o lado mais melancólico e introspectivo da banda, que contrasta com a brutalidade de “Beat Yourself Blind” e a própria “Subhuman Race”. Outro ponto que acaba pesando em desfavor do álbum é a produção, que não ajudou muito. Dessa forma, a atmosfera densa que permeou as gravações, e todos os problemas já relatados fazem dele, o quinto lugar desse ranking, mesmo que muitos fãs apreciem a ousadia e densidade, sendo visto por muitos como uma obra injustamente menosprezada. Mas que não soa como o Skid Row dos dois primeiros álbuns, ah... isso não soa não...




4º - THICKSKIN (2003)


"Thickskin", lançado em 2023, simbolizou um novo começo para o Skid Row, após quase dez anos sem lançar nada de relevante. O trabalho marcou a entrada do vocalista Johnny Solinger e do baterista Phil Varone, que assumiram os lugares de Sebastian Bach e Rob Affuso, respectivamente. Produzido pela própria banda, o álbum incorpora um som mais atual (para aquele período) e dinâmico, combinando hard rock com influências do mais pesadas e até elementos de rock alternativo, refletindo a estética dos anos 2000. Com a formação de Solinger (vocais), Dave “Snake” Sabo e Scotti Hill (guitarras), Rachel Bolan (baixo) e Varone (bateria), o grupo explora desde faixas intensas e pesadas, como “Ghost”, “New Generation” e “Mouth of Voodoo”, até momentos mais melódicos e acessíveis, como “See You Around” e “Lamb”, além de reinterpretar o clássico “I Remember You” numa versão mais simples e acústica, chamada “I Remember You Two”, que na opinião deste que vos escreve, apesar de não ter ficado ruim, não deveria ter sido gravada, afinal, a versão original é uma das baladas mais lindas do Hard Rock de todos os tempo. Apesar de muito criticado, principalmente pela parcela de fãs que ainda preferiam a era de Bach (onde eu me incluo), "Thickskin" mostra uma banda pronta para evoluir seu estilo e se reconectar com um público mais jovem diferente do final da década de 80 e início dos anos 90, investindo em riffs mais modernos, refrãos diretos e uma produção clara, que manteve a essência do hard rock diferenciado do quinteto, mas com uma sonoridade mais adequada ao momento que o mercado musical apresentava. 



                                           3º - THE GANG'S ALL HERE (2022)


Lançado em 2022, "The Gang's All Here" tinha tudo pra dar certo. Afinal, tínhamos o retorno do Skid Row às suas origens, trazendo em sua formação um dos melhores vocalistas da nova geração, o fantástico Erik Grönwall (ex-H.E.A.T.). E deu muito certo! Aliás, me arrisco a dizer que o trabalho seria a sequência lógica de "Slave to the Grind", tamanha a similaridade das composições, peso nas guitarras e vocais cheios de fúria e energia. Erik entro no lugar de ZP Theart (nesse espaço de tempo, outros vocalistas acabaram passando pela bando, incluindo Tony Harnell do TNT), e mostrou serviço, dando às faixas interpretações cheias de carisma e potência. Produzido por Nick Raskulinecz, o álbum recupera a vitalidade e o caráter dos primeiros álbuns da banda, apresentando um som que combina o hard rock energético e intenso da era clássica com uma produção bastante atual e limpa, obviamente, sem perder o peso. Grönwall (vocal), Dave “Snake” Sabo e Scotti Hill (guitarras), Rachel Bolan (baixo) e Rob Hammersmith (bateria), nos trazem faixas repletas de refrãos cativantes, riffs marcantes e uma atitude forte, incluindo a intensa faixa-título “The Gang’s All Here”, a animada “Tear It Down” e a poderosa “Resurrected”. O álbum também apresenta momentos mais melódicos e grandiosos, como “October’s Song”, que evoca as baladas épicas de tempos passados, além de faixas como “Time Bomb” e “World’s on Fire”, que reforçam a pegada heavy, mantendo a unidade do álbum. A obra foi recebida com entusiasmo tanto pela crítica quanto pelos fãs, recebendo muitos elogios por conseguir capturar a essência do Skid Row dos anos 80 e 90, mas com a energia revitalizada de um vocalista em sua melhor forma, solidificando-se como um dos lançamentos mais notáveis da banda nos últimos anos. A turnê desse trabalho rendeu o ao vivo "Live in London", que daqui a alguns anos, será lembrado como um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos. Uma pena que pouco tempo depois, Erik deixou a banda...



2º - SLAVE TO THE GRIND (1991)


O segundo lugar deste ranking é sempre uma dúvida que me persegue. Por vezes, tenho ele próprio nessa posição, por outras, o álbum de estreia do grupo, num revezamento quase que diário entre eles. No entanto, HOJE, tive que escolher e acabou que "Slave to the Grind" o trabalho que estabeleceu o Skid Row como uma das bandas mais pesadas e respeitáveis do hard rock e metal no começo dos anos 90, foi o escolhido. O disco, além de representar um progresso em comparação ao álbum de estreia, tendo em vista a maior complexidade nas composições e na agressividade sonora, mostrou uma banda pronta para o estrelato. Com produção de Michael Wagener, o álbum apresenta uma sonoridade crua, pesada e sem concessões, com riffs contundentes de Dave “Snake” Sabo e Scotti Hill, a base sólida de Rachel Bolan no baixo e Rob Affuso na bateria, e, claro, a performance vocal explosiva de Sebastian Bach, que estava no auge. A faixa-título, “Slave to the Grind”, inicia com riffs pesados e intensos, carregados de adrenalina, enquanto “Monkey Business” oferece um groove e um refrão poderoso, tornando-se um verdadeiro hino para a banda. Baladas impactantes como “Quicksand Jesus” e “In a Darkened Room” revelam um aspecto mais melódico e dramático, contrastando com a brutalidade de músicas como “The Threat” e “Get the Fuck Out”, essa abusando das levadas quase que maliciosas de Bach. “Wasted Time” encerra o álbum com uma carga emocional forte, sendo uma das músicas mais pedidas pelos fãs do grupo. Com letras que exploram temas de rebelião, alienação e crítica social, e uma produção que equilibra peso e melodia, "Slave to the Grind" não só estreou no primeiro lugar da Billboard 200 — algo incomum para um álbum tão pesado — como também é visto, ainda hoje, como o auge criativo e técnico do Skid Row. No entanto...



1º - SKID ROW (1989)


... "Skid Row", foi o álbum apresentou ao mundo a formação clássica da banda: Sebastian Bach (vocais), Dave “Snake” Sabo e Scotti Hill (guitarras), Rachel Bolan (baixo) e Rob Affuso (bateria), e rapidamente se tornou um dos álbuns mais marcantes do hard rock do final dos anos 80. Produzido por Michael Wagener, o disco combina riffs energéticos, refrãos grudentos e uma atitude carregada de irreverência, com uma produção polida que favoreceu seu apelo nas rádios e na MTV. Não que o trabalho seja comercial (mas afinal, o que é "comercial"?), mas a capacidade de todas as faixas presentes aqui tocarem na radio (quando as radios tocavam música boa) é impressionante. Entre as faixas mais icônicas estão os hinos “Youth Gone Wild” e “Piece of Me”, que emolduram o espírito rebelde da época; a poderosa “Big Guns”, que abre o álbum com impacto; e “18 and Life”, balada dramática sobre crime e arrependimento, que se tornou um enorme sucesso e permanece como um dos maiores clássicos da banda. “I Remember You”, por sua vez, é uma das baladas mais lindas do hard rock, com melodia cativante e interpretação vocal intensa de Bach. Canções como “Sweet Little Sister” e “Can’t Stand the Heartache” mantêm a energia em alta, reforçando a consistência do disco. Com letras que mesclam rebeldia, sexo, drogas e histórias sombrias, e uma sonoridade que equilibra peso e melodia, "Skid Row" não só colocou a banda no mapa mundial como ajudou a definir o hard rock do final da década de 80, vendendo milhões de cópias e preparando o terreno para o sucesso ainda maior que viria com "Slave to the Grind". É... Pode ser que amanhã, eu prefira o "Slave..."








PRIMAL FEAR - DOMINATION (2025)

 



PRIMAL FEAR
DOMINATION
Reigning Phoenix Music - Importado

O Primal Fear chega ao seu 15º álbum de estúdio com a confiança e a força de quem já viveu todas as fases de uma longa carreira e ainda encontra motivos para soar renovado. “Domination” não é um retorno ao passado, mas a continuação natural da jornada iniciada em “Code Red” (2023) — agora com mais clareza, foco e inspiração. Encontrando o equilíbrio entre agressividade e melodia.

Depois de enfrentar problemas de saúde que quase lhe custaram a vida, Mat Sinner voltou não apenas aos palcos, mas também ao comando criativo da banda. Essa superação se traduz em um disco que não vive no piloto automático. Aqui, o heavy metal é construído faixa a faixa: ora pulsante e veloz, quase beirando o speed metal; ora mais melódico e acessível, com flertes certeiros com o hard rock. Essa variedade é o que mantém "Domination" eficiente — cortando qualquer excesso e entregando um material com alma.

Quando a música pede peso, ele está lá. Quando pede melodia, o refrão cresce e conquista. É a maturidade de uma banda que, prestes a completar três décadas de estrada, sabe exatamente como jogar o jogo. O início com a dobradinha “The Hunter” e “Destroyer” deixa explícito: acelerar quando é hora de atacar, desacelerar quando a emoção pede espaço, equilibrar riffs certeiros com refrãos que grudam na memória. O som é orgânico, é vivo.

Ralf Scheepers entrega uma performance controlada e expressiva, guardando os agudos para quando eles realmente fazem diferença e explorando um vocal mais limpo, mas sem esquecer do habitual rasgado cheio de energia e personalidade.“I Am Primal Fear” é um hino pronto para incendiar, é heavy metal com riffs certeiros da dupla Magnus Karlsson e Thalìa Bellazecca. Os dois dividem riffs e solos com precisão e feeling, criando diálogos de guitarra que sustentam tanto o peso quanto a melodia.

Na bateria, André Hilgers mantém uma pegada firme, direta e implacável, sustentando a dinâmica do álbum com segurança e impacto — “Far Away” é um bom exemplo do trabalho exemplar do baterista no álbum, que mostra muita versatilidade e precisão.

“Tears of Fire” e “Heroes and Gods” são contagiantes. A primeira é mais alegre, tem um instrumental mais pulsante, seria um single perfeito para tocar numa programação normal de rádio. Já a segunda é mais direta, mas com um refrão que gruda instantaneamente. Depois de tanta energia é preciso descansar — A instrumental “Hallucinations” serve quase como uma introdução de luxo para a belíssima “Eden”, que conta com a participação de Melissa Bonny. Belas melodias, uma linha acústica que traz uma grandiosidade, enriquecendo o disco.

“Scream” “The Dead Don't Die” e “Crossfire” e “March Boy March” representam um ataque frontal e pesado, daqueles que podem aniquilar pescoços. Carregam peso, mas mantêm uma textura crua e mais ampla, sem se perder em regras. Inclusive algo que chama bastante na audição é a importância que o grupo deu para que as músicas tenham refrãos de fácil assimilação — É como se eles já pensassem nos seus fãs curtindo e cantando tudo nos shows. Inclusive se alguém me falasse que “Donination” foi gravado com todos tocando juntos na sala e já pensando em tocar o álbum na íntegra na turnê, eu acreditaria fielmente.

Produzido por Sinner e mixado por Jacob Hansen, o álbum soa absolutamente orgânico — com clareza suficiente para destacar cada detalhe, um trabalho que valoriza tanto o caos metálico quanto a nitidez das melodias, permitindo que cada faixa soe completa e convincente. O encerramento com “A Tune I Won’t Forget” revela o lado mais emotivo da banda, piano e voz. Fechando o álbum com sensibilidade ímpar.

“Domination” é sobre viver o presente com autoridade, usando a experiência e a maturidade para criar algo que soe clássico e atual ao mesmo tempo. É a prova de que o Primal Fear ainda tem habilidade de equilibrar peso, melodia e atitude.

William Ribas




quarta-feira, 13 de agosto de 2025

HELLOWEEN - GIANTS & MONSTERS (2025)

 


HELLOWEEN
GIANTS & MONSTERS
Reigning Phoenix Music - Importado

Nos portões do reino do metal, quando muitos reis envelhecem e se contentam em viver de glórias passadas, uma fortaleza ainda ergue suas torres mais alto que nunca. Tentam, às vezes acertam e às vezes erram. Normal, como tudo na vida, mas desde o seu surgimento o Helloween sempre se mostrou inquieto. Nunca repetiram os aclamados “Keepers”. Então, obviamente, tire da sua cabeça qualquer comparação. Em “Giants & Monsters”, temos sete guerreiros que recusam-se a deixar a lâmina enferrujar. O novo álbum não é apenas um trabalho. Não é apenas mais um disco que vamos comprar e deixar parado — é a marcha triunfal de um exército que voltou para conquistar o mundo novamente.

É um grito de rebelião: “We’re back and we’re the Masters of Power Metal”.

O melhor trabalho desde “The Dark Ride” (disparado). Um disco que soa como se tivesse sido forjado no mesmo caldeirão onde nasceram “The Time of the Oath” e “Better Than Raw”, mas com novas receitas — novos doces, novas travessuras. Um grupo coeso, oito anos juntos, dois álbuns ao vivo, um trabalho de estúdio, que teve alguns bons momentos, mas… nada comparado ao que temos aqui. Não temos ninguém na sombra, todos têm seu momento de batalha, todos atacam e todos brilham — o ataque começa com “Giants on the Run”, um clarim que ecoa entre montanhas metálicas. As vozes de Deris e Hansen se entrelaçam, enquanto riffs cortam o ar como lâminas afiadas. Seu modo dinâmico e grandioso ganha, na metade, um universo à la Gamma Ray — Kai Hansen no comando deixa sua assinatura sonora. Sua voz à frente e um coro poderoso ecoando ao fundo. É o momento em que você percebe que não será o mais do mesmo. “Savior of the World” traz o espírito do Power Metal — rápida, bumbo duplo e Kiske cantando absurdamente e com aqueles agudos!

E sim, temos aqui aquele power metal que pulsa como se parte da banda dependesse disso para continuar viva — três ou quatro faixas que entregam exatamente o que queremos ouvir do Helloween. Mas não é apenas o heavy metal melódico dos tempos dourados. É o Helloween maduro, consciente do próprio legado, mas com a ousadia, com guitarras mais pesadas. Um álbum que se escuta de ponta a ponta com prazer, porque além da velocidade e da grandiosidade, ele abre espaço para surpresas: faixas com uma pegada hard rock, lembrando que Andi Deris talvez tenha resgatado um pouco da inspiração de seus dias de Pink Cream 69 (provavelmente contando histórias daquele tempo com Dennis Ward), trazendo um tempero extra à receita.

“A Little Is a Little Too Much” é o duelo entre Deris e Kiske — narrando, ora com intimidade, ora com humor, uma história de Andi quando tinha por volta de 15 anos. Uma das coisas que senti falta do álbum anterior foram os grandes refrãos, aqueles que grudam de imediato e, por sorte, em Giants & Monsters eles estão presentes por todos os lugares.

“We Can Be Gods” chega com os dois pés no peito do fã. Rápida, com certo peso que lembra um pouco o Judas Priest da era Jugulator. Algo que também deve ser bastante elogiado são os solos — verdadeiros complementos das músicas, colocados de maneira pensada para engrandecer o instrumental. Falando em instrumental, Dani Löble, o batedor de guerra, gravou cada faixa em três baterias distintas, escolhendo a que melhor carregava a fúria e tesão. Sim, o nível com que os integrantes estavam se entregando no momento da gravação era grande.

Desde os shows de reunião em 2017, todos nós esperávamos por uma balada. Bem, agora podemos deixar descansando “A Tale That Wasn't Right. Pois, “Into the Sun” está entre nós — um juramento entre dois irmãos de almas, Deris e Kiske, sobre a eternidade e o ciclo sem fim da vida. A música tem seus momentos calmos e suas explosões no refrão — uma gangorra que transmite emoção e faz com que todos derramem lágrimas.

Após a calmaria, temos o já conhecido single “This Is Tokyo”. É a bandeira hasteada em honra a um território sagrado para Deris, a terra que o acolheu nos primeiros dias de glória, e retribui com maestria o carinho de todos os japoneses. Mas é nos campos abertos do épico que o Helloween avança com maior fúria — “Universe (Gravity for Hearts)”.

A produção de Charlie Bauerfeind e Dennis Ward é como a forja de um mestre anão: cada golpe é preciso, cada peça encaixa no lugar perfeito. A mixagem no lendário Wisseloord Studios apenas selou o destino: este é um registro eterno.

Momentos mais cadenciados mostram a maturidade de uma banda que sabe criar tensão. “Hands of God” poderia estar ali no “The Dark Ride” — seu ar sombrio dá um bom contraste com o restante do álbum. Com mudanças de terreno, o Helloween entrega uma faixa mais contida, com refrão mais reservado, cantado por Deris. “Under the Moonlight” reafirma Weikath como mestre arquiteto desse império sonoro. Michael Kiske se encarrega de transmitir todo seu carisma e voz perfeita numa faixa quase “dançante” — sim, o trabalho é diversificado, é o reino das abóboras.

O final é apoteótico e, de certo modo, previsível — o começo se repete no fim. “Majestic” é grandiosa, épica, com os três vocalistas se revezando. É o ponto em que peso, melodia e ousadia se encontram em perfeita harmonia. Uma despedida que mantém o ouvinte vidrado até o último segundo.

Giants & Monsters não é apenas um disco — é um banquete para os fãs, uma prova de que o Helloween ainda sabe equilibrar nostalgia e renovação de modo ímpar. E quando o silêncio cai após a última faixa, é impossível não imaginar o clássico grito:

“Happy happy Helloween! Happy happy Helloween!”

William Ribas




terça-feira, 12 de agosto de 2025

NO MORE DEATH - THE DEATH IS DEAD (2025)

 


NO MORE DEATH
THE DEATH IS DEAD
Independente

Quem nasceu para fazer thrash metal não se aposenta, não se rende, não se adapta à moda. No máximo, afia a lâmina, espera o momento certo… e volta para cortar pescoços. Tiago Torres, fundador, guitarrista e vocalista do lendário Mad Dragzter — banda que forjou um dos clássicos do underground brasileiro no início dos anos 2000 com “Strong Mind” e incendiou palcos por mais de uma década — passou dez anos em silêncio de estúdio. Agora, ele rompe a tumba com o No More Death e o devastador “The Death is Dead”.

Digamos que o jeito sem firulas, sem baladas, está intacto nessa nova empreitada. É o thrash do passado, de nomes clássicos, de bandas cujos pôsteres cansamos de pendurar na parede. Da Bay Area, passando pelo caos germânico até o som caótico e cirúrgico das bandas brasileiras, tudo se encontra aqui como trilha sonora de uma história impactante — afinal, em algum momento, a gente quis ser imortal ou achou que era. E, aqui, a morte da morte existe!

Gravado com sangue e suor por Tiago e co-produzido por Demis Kohler — responsável também por solos que rasgam como navalha — o álbum entrega um som com timbragem mais seca, algo que resgata uma sonoridade à la Hell Awaits (Slayer). As guitarras em “Great White Throne” são o melhor exemplo de como esse álbum é uma referência dentro de si mesmo. E, deixando claro: referência não significa cópia, ok?

E se o instrumental é puro ataque. O que posso dizer da voz de Tiago? É o fio condutor dessa história. Não há urros descontrolados nem gritos forçados. O que se ouve é uma voz forte, firme, entre o rasgado e um timbre mais limpo, carregada da emoção certa para cada momento. É como se ele realmente estivesse narrando os acontecimentos, conduzindo o ouvinte pelas cenas — e essa interpretação dá às letras uma emoção extra, transformando cada faixa.

“The Death is Dead” não é só peso: é conceito. O disco conta a história de um personagem que surge para matar a própria morte. Da abertura “soco na fuça” da faixa-título à coroação triunfal em “Thy Glory”, caminhando pelo julgamento final da já citada “Great White Throne”, passamos pela promessa cumprida de juventude eterna em “Forever Young” (um dos grandes momentos do álbum) e pelo manifesto inflamado de “Sons of Light” (com um toque que lembra o Dorsal Atlântica mais recente, pelo menos para mim). Cada música é um capítulo de um embate épico dentro de um thrash old school — onde até o velho clichê “menos é mais” tem um valor enorme.

“Dreams About Eternity” abre o horizonte para um além indescritível. E quando “Love is Immortal” encerra o massacre, fica claro: tudo foi movido por um amor imortal, e a morte… está morta.

“The Death is Dead” é um álbum que, a cada audição, inflama mais. É o tipo de disco que não pede licença: Entra, destrói tudo, crava o nome No More Death (simples e direto) na sua memória e deixa o recado claro — a morte pode até ter sido derrotada, mas o thrash continua vivo… e mais perigoso.

Na espera do próximo capítulo.

William Ribas

                                                                     foto: Alan Luiz da Silva