quinta-feira, 11 de junho de 2026

ACID REIGN - DAZE OF THE WEEK (2026)

 


ACID REIGN
DAZE OF THE WEEK
Back on Black - Importado

Existem bandas que retornam apenas para revisitar o passado. Outras voltam porque ainda têm algo a provar. O Acid Reign pertence com absoluta convicção ao segundo grupo.

"Daze Of The Week" não soa como o trabalho de músicos tentando recuperar relevância ou celebrar uma herança construída décadas atrás. Pelo contrário. O álbum transmite a sensação de uma banda que passou anos acumulando tensão, experiência e ideias, aguardando o momento certo para despejar tudo em forma de riffs cortantes, refrãos memoráveis e uma avalanche de energia impossível de ignorar.

Desde os primeiros minutos, fica claro que o Acid Reign encontrou um equilíbrio raro entre tradição e renovação. O DNA do thrash britânico permanece intacto, mas a execução está mais afiada, mais pesada e mais confiante. A agressividade é constante, porém nunca se torna previsível. Cada música apresenta uma personalidade própria, alternando ataques de velocidade insana, passagens mais elaboradas e melodias que surgem naturalmente em meio ao caos.

A abertura com "The Who Of You" já deixa evidente o nível de inspiração envolvido. O que começa com uma atmosfera quase solene rapidamente se transforma em uma explosão de criatividade, combinando técnica, peso e dinamismo de forma impressionante. A faixa-título mantém a intensidade elevada, enquanto "No Truth" surge como um ataque frontal de pura adrenalina. Já "Conniption King" revela uma faceta mais sofisticada da banda, explorando mudanças de andamento e harmonias que ampliam ainda mais seu alcance musical.

Boa parte do mérito pertence a Howard Smith. Sua performance é simplesmente fantástica. O vocalista continua sendo um frontman único, alternando sarcasmo, agressividade e senso melódico com uma naturalidade que poucos conseguem alcançar. Sua presença domina o álbum sem sufocar o restante da banda, que entrega uma atuação igualmente inspirada.

E há algo especialmente cativante em "Daze Of The Week": o humor ácido. Mesmo quando aborda temas sombrios ou críticas sociais, o grupo mantém aquele olhar irônico tipicamente britânico que transforma suas letras em algo muito mais interessante do que simples discursos raivosos. O próprio título do álbum brinca com múltiplas interpretações, refletindo perfeitamente o espírito inteligente e provocador da banda.

A produção merece destaque especial. Gravado integralmente de forma analógica, o disco possui uma sonoridade orgânica, pulsante e poderosa, valorizando cada detalhe sem sacrificar a brutalidade. O resultado é um álbum autêntico, vibrante e carregado de personalidade.

Faixas como "Blind Lies", "Sorrowsworn" e a excelente "Fantastic Passion" reforçam a impressão de que o grupo atravessa um momento extremamente inspirado, algo que transborda por todas as composições. Os riffs são enormes, os refrãos funcionam, os solos acrescentam emoção e a seção rítmica mantém tudo em movimento com uma precisão impressionante. O grand finale com "Centre Of Everything" encerra o trabalho de forma grandiosa, mostrando que maturidade e fúria podem coexistir sem qualquer conflito.

Se o retorno com "The Age Of Entitlement" provou que o Acid Reign ainda tinha combustível no tanque, "Daze Of The Week" mostra algo ainda mais impressionante: o tanque está longe de ficar vazio. Uma demonstração contundente de que experiência não precisa significar suavidade.

William Ribas




MICHAEL SWEET - THE MASTER PLAN (2026)

 



MICHAEL SWEET
THE MASTER PLAN
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Michael Sweet é um dos músicos mais notáveis do Hard/Heavy que vem dos anos oitenta. Muitos tem preconceito por causa das temáticas das letras do Stryper, voltadas as suas crenças cristãs e tudo que envolve. Como se isso fosse um pecado. Mas ok. Isso é outro assunto. O que importa é que, mesmo que você não curta o Stryper e a carreira solo de Michael, é impossível negar o seu talento tanto como guitarrista e vocalista, como compositor.

Aqui neste novo trabalho, “The Master Plan”, lançado agora em abril de2026 a voz está lá, presente... e só, infelizmente. EU entendo quando um músico de uma banda consagrada queira fazer um trabalho solo e se distanciar da sonoridade do grupo que o fez famoso. Inclusive, era uma coisa que Michael nunca conseguiu realmente, tendo em vista seus discos solo anteriores, ou nos projetos com Tracii Guns e George Lynch, sempre ficando à sombra do Stryper.

Mas em “The Master Plan” o distanciamento ocorre de uma forma que definitivamente não agrada. Músicas sem “punch” e deveras adocicadas e até “bobinhas” (escute “Stronger e entenda o que eu falo). Convenhamos que abrir um álbum com uma balada não é uma boa ideia, ao menos que você seja Michael Bolton ou Elton John... No caso aqui é a faixa título que até para uma balada... ela parece que vai, mas não vai... ”Eternally” é outra balada com um ar mais dramático, que poderia ser cantada na missa das dez da manhã de um domingo qualquer...

“You Lead, I´ll Follow” tentar se aproximar de algo que insinua alguma influência de Beatles, porém de uma forma infantil e que de forma alguma convence. “Desert Stream” é outra balada, porém nesta a coisa melhora um pouco, com alguma distorção nas guitarras, e que lembra um pouco alguma balada que poderia estar em um álbum do Stryper. Junto a esta, vem “Believer” a mais Rocker do álbum, finalmente uma faixa que anima um pouco o trabalho. Mas logo a seguir vem “Again” e adivinha? Mais uma balada, com aura de tocar no culto.... haja!

Michael, sou muito seu fã, mas dessa vez não deu pra elogiar. “The Master Plan” é aquele álbum apenas para quem é muito fã do Stryper e tem todos os trabalhos, incluindo os trabalhos solo de Michael Sweet. Caso contrário, esqueça. Eu acabei a audição e fui ouvir o “Soldiers Under Command”. Próximo álbum, por favor...

José Henrique Godoy




VOIVOD - SYMPHONIQUE (2026)


 

VOIVOD
SYMPHONIQUE
Century Media - Importado

Mais do que um mero registro ao vivo, Symphonique funciona como uma celebração da criatividade, da longevidade e da permanente capacidade de reinvenção de uma das bandas mais visionárias que o metal já produziu. Afinal, poucos nomes possuem uma discografia tão naturalmente compatível com uma abordagem sinfônica quanto o Voivod. Desde os anos 80, os canadenses construíram uma identidade única, misturando ficção científica, experimentação progressiva, dissonâncias inquietantes e uma visão futurista que sempre esteve muitos passos à frente de seu tempo.

Agora, esse universo ganha uma nova dimensão.

Registrado ao vivo em junho de 2025 no Grand Théâtre de Québec, com o acompanhamento da Orquestra Sinfônica de Québec, o álbum transforma doze composições clássicas da banda em uma verdadeira viagem. Mais do que simplesmente adicionar cordas e metais sobre estruturas já conhecidas, o projeto amplia o alcance emocional e atmosférico dessas faixas, revelando detalhes que muitas vezes passavam despercebidos em suas versões originais.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que essa parceria não foi concebida como um exercício de vaidade. "Experiment" surge monumental, cercada por arranjos densos e imprevisíveis que reforçam toda a estranheza e grandiosidade presentes no clássico Dimension Hatröss. A combinação entre a voz inconfundível de Snake, os riffs angulares de Chewy Mongrain e as intervenções da orquestra cria uma experiência que oscila constantemente entre o caos controlado e a beleza melancólica.

Faixas como "The Unknown Knows" e "Into My Hypercube" parecem ter sido escritas pensando em uma execução desse porte. Os arranjos orquestrais expandem suas estruturas complexas sem comprometer a agressividade característica do grupo. O mesmo acontece com "Holographic Thinking", cuja temática futurista encontra no acompanhamento sinfônico uma camada extra de profundidade e expansão.

Um dos grandes méritos de Symphonique está justamente na escolha do repertório. Em vez de tentar resumir toda a carreira da banda de forma linear, o álbum concentra-se nas composições que melhor representam seu lado mais progressivo e aventureiro. Clássicos das eras "Nothingface", "Dimension Hatröss", "Killing Technology" e "War and Pain" convivem harmoniosamente com material mais recente, demonstrando como a essência criativa do quarteto permanece intacta após mais de quatro décadas.

Momentos como "The End of Dormancy" e "Cosmic Drama" evidenciam a afinidade natural entre o vocabulário musical da banda e a linguagem da música de concerto. As passagens orquestrais não soam artificiais ou forçadas; ao contrário — em diversos momentos, a sensação é de estar diante da trilha sonora de uma épica ficção científica distópica.

Enquanto a sinfônica dita o clima, a banda entrega uma performance impecável. Away e Rocky sustentam a cozinha com precisão e peso absurdos, enquanto Chewy demonstra mais uma vez por que é considerado um dos guitarristas mais criativos do metal moderno. No centro de tudo permanece Snake, cuja interpretação mantém o caráter humano e visceral necessário para equilibrar toda a grandiosidade do espetáculo.

O encerramento com "Tribal Convictions" e a clássica releitura de "Astronomy Domine", do Pink Floyd, fecha a apresentação de forma cirúrgica, reforçando a conexão histórica do Voivod com sonoridades psicodélicas, progressivas e experimentais.

Symphonique parece a realização de uma ideia que acompanhava os canadenses desde o início de sua trajetória. É a prova definitiva de que, mesmo após mais de quarenta anos explorando novos mundos sonoros, o Voivod continua encontrando formas inéditas de expandir os limites de sua própria galáxia musical.

William Ribas




quarta-feira, 10 de junho de 2026

CORROSION OF CONFORMITY - GOD GOD/BAAD MAN (2016)

 


CORROSION OF CONFORMITY
GOD GOD/BAAD MAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Mais de quatro décadas após surgir no cenário underground da Carolina do Norte, o Corrosion of Conformity continua desafiando qualquer tentativa de enquadrá-lo em um único rótulo. Punk, crossover, sludge, stoner rock, southern rock e heavy metal sempre coexistiram em diferentes proporções dentro da sonoridade da banda. Em Good God / Baad Man, seu décimo primeiro álbum de estúdio, essa mistura atinge um dos pontos mais completos de toda essa trajetória.

O disco chega carregado de significado. Desde "No Cross No Crown" (2018), a banda enfrentou profundas transformações, incluindo a dolorosa perda do baterista Reed Mullin, em 2020. Em vez de tentar recriar o passado, o quarteto opta por seguir adiante, preservando a essência que o tornou uma referência dentro da música pesada sulista. O resultado é uma obra extensa, ambiciosa e repleta de personalidade.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que o álbum não pretende escolher um único caminho. A agressividade característica dos tempos de "Blind" reaparece em faixas explosivas como “Good God Final Dawn”, “Gimme Some Moore” e “Asleep On The Killing Floor”, onde riffs cortantes e grooves densos caminham lado a lado. A influência do Black Sabbath permanece profundamente enraizada, mas surge filtrada pela identidade única que Pepper Keenan e Woody Weatherman desenvolveram ao longo dos anos.

A dupla de guitarristas é, mais uma vez, o coração do álbum. Os riffs carregam peso e espontaneidade, alternando momentos de fúria com passagens repletas de atmosfera. Há uma sensação constante de liberdade criativa, como se as músicas estivessem sendo construídas organicamente dentro da sala de ensaio, sem preocupação com tendências ou fórmulas modernas — apenas boas jam sessions entre velhos amigos.

Ao mesmo tempo, o lado mais rock 'n' roll e descontraído da banda ganha espaço considerável. “The Handler” combina peso e balanço com uma naturalidade impressionante, enquanto a faixa-título “Baad Man” mergulha em uma energia quase boogie, evocando o espírito de velhos bares enfumaçados do sul. Já “Swallowing The Anchor” e “Handcuff Country” ampliam essa abordagem, revelando uma faceta divertida sem comprometer a identidade pesada do grupo.

Um dos aspectos mais interessantes do álbum é a forma como os interlúdios instrumentais são utilizados. Em vez de funcionarem apenas como preenchimento, peças como “Bedouin's Hand” e “Mandra Sonos” criam pontes atmosféricas que ampliam a experiência e valorizam ainda mais as composições que as sucedem. Esses momentos demonstram uma banda confortável em explorar novas texturas sem perder o foco principal. Falando em conforto, o que é “Brickman”? Um bom whiskey, um cigarro e a solidão parecem ser a companhia perfeita para essa bela peça acústica.

A nova formação também merece destaque. O baixista Bobby Landgraf encaixa-se perfeitamente na sonoridade do grupo, enquanto a bateria de Stanton Moore conduz tudo com criatividade, personalidade e senso de espaço. A influência de Reed Mullin continua perceptível no espírito das composições, mas sem transformar o álbum em um exercício de nostalgia.

Quando a reta final chega, Good God / Baad Man reserva alguns de seus momentos mais marcantes. “Forever Amplified” encerra a jornada de maneira monumental, combinando peso, melodia, psicodelia e longas passagens instrumentais em uma construção épica que sintetiza praticamente todas as facetas apresentadas ao longo do álbum. É uma conclusão grandiosa para uma obra que nunca deixa de soar pulsante.

Embora sua duração possa parecer desafiadora à primeira vista, o álbum recompensa a dedicação do ouvinte com uma enorme variedade de ideias e atmosferas. O Corrosion of Conformity demonstra que continua plenamente capaz de criar música relevante sem depender exclusivamente de seu legado.

Good God / Baad Man não é apenas um retorno inspirado. É a prova que algumas instituições do metal envelhecem sem perder um único grama de peso.

William Ribas




LOST SOCIETY - HELL IS A STATE OF MIND (2026)

 


LOST SOCIETY
HELL IS A STATE OF MIND
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Quando o Lost Society lançou "Fast Loud Death" em 2013, poucos imaginariam que a banda finlandesa chegaria a um ponto em que elementos de metal moderno, música orquestral, rock alternativo e industrial coexistiriam dentro de um mesmo álbum. "Hell Is a State of Mind" representa justamente o capítulo mais ousado dessa transformação, um trabalho que abandona de vez qualquer vínculo com o thrash metal dos primeiros anos para mergulhar em uma identidade própria e ambiciosa.

Desde os primeiros momentos de "Afterlife", fica claro que o grupo não está interessado em seguir fórmulas previsíveis. Cordas grandiosas, riffs pesados, sintetizadores modernos e uma alternância constante entre vocais melódicos e agressivos criam uma atmosfera que serve como porta de entrada para um disco determinado a desafiar expectativas em seus 38 minutos de duração.

A presença da orquestração é um dos aspectos mais marcantes do álbum. Longe de funcionar apenas como um elemento decorativo, ela assume papel fundamental na construção das músicas. Faixas como "Blood Diamond" e a faixa-título demonstram como a banda encontrou uma maneira interessante de combinar peso contemporâneo com uma dramaticidade quase épica, evocando, em alguns momentos, a tradição finlandesa de criar passagens grandiosas e bombásticas.

Ao mesmo tempo, o álbum vive de contrastes. "Synthetic" surge como um verdadeiro laboratório sonoro, misturando guitarras esmagadoras, batidas eletrônicas, influências industriais e momentos cinematográficos em uma composição que pode soar fascinante ou caótica, dependendo da disposição do ouvinte. É justamente esse tipo de risco que define grande parte da experiência proposta pelo Lost Society neste trabalho.

O lado mais emocional aparece em "Is This What You Wanted?", uma balada melancólica e introspectiva que oferece um raro momento de vulnerabilidade dentro do álbum. Já "L'Appel du Vide" e "No Longer Human" exploram temas existenciais e reflexivos, ampliando a sensação de inquietação que percorre praticamente todo o tracklist. Existe uma constante dualidade entre luz e escuridão, esperança e decadência, humanidade e autodestruição.

Por outro lado, essa busca incessante por variedade também se torna o principal desafio do disco. Em vários momentos, as músicas parecem pertencer a universos completamente diferentes. "Dead People Scare Me (But the Living Make Me Sick)" aposta em uma abordagem mais direta e explosiva. Já "Personal Judas" mergulha em texturas eletrônicas e experimentações que nem sempre encontram um encaixe natural dentro do conjunto. Talvez seja exatamente isso que a banda busque: não se prender a rótulos, mas simplesmente ser identificada como Lost Society.

É justamente essa falta de uniformidade que torna "Hell Is a State of Mind" uma audição tão peculiar. Dificilmente você terá um amor à primeira vista. O álbum frequentemente lembra uma coleção de ideias gigantescas disputando espaço entre si. Algumas dessas ideias funcionam brilhantemente; outras parecem ainda estar em processo de amadurecimento.

Ainda assim, seria injusto ignorar a coragem artística demonstrada aqui. O Lost Society claramente recusou o caminho mais seguro. Em vez de repetir fórmulas ou tentar reviver os primeiros dias, a banda decidiu ampliar seus horizontes e explorar novos territórios.

O resultado é um disco imprevisível, mas também repleto de personalidade. "Hell Is a State of Mind" talvez não seja o álbum mais consistente da carreira do Lost Society, mas certamente é o mais audacioso. É uma obra construída sobre contrastes, conflitos e experimentações constantes. Alguns ouvintes enxergarão um mosaico criativo repleto de possibilidades; outros encontrarão um excesso de elementos competindo entre si. Em ambos os casos, uma coisa é inegável: o Lost Society continua evoluindo e recusando os limites daquilo que sua música pode ser.

William Ribas