SOMEWHERE IN TIME 40 ANOS – QUANDO O IRON MAIDEN COMEÇOU A SOAR PROGRESSIVO
Entre críticas iniciais e guitarras sintetizadas: revisitando a obra-prima espacial da Donzela de Ferro
Por Mauro Antunes
O ano de 1986 foi mágico para os amantes do Heavy Metal. Obras eternas como “Master of Puppets”, “Reign in Blood”, “Russian Roulette”, “Fatal Portrait”, dentre tantas outras, viram a luz do dia há 40 anos atrás.
E, claro, o Iron Maiden não poderia ficar devendo e lançou um de seus maiores clássicos, aquele que para muitos, é seu melhor disco, “Somewhere in Time” veio ao mundo em 29 de setembro de 1986. Se é o melhor ou não, há quem concorde, há quem discorde, mas o que ninguém ousa discordar, é que temos aqui, uma obra prima em termos de capa. Quem nunca se debruçou sobre aquela capa e procurou detalhes que talvez nem mesmo o autor, Derek Riggs, imaginaria encontrar? Obviamente, que sou um deles, mas o que sempre me prendeu foi a música, como não poderia deixar de ser.
Para aqueles que são, ou conhecem bem a cidade de São Paulo, ao lado do metrô Barra Funda, nos anos 80, existia uma loja de departamentos chamada Sears, onde alguns anos depois foi construído o shopping West Plaza. Lá, eu comprei quase que em primeira mão, essa preciosidade. Pensa em um garoto de 13 anos pulando de felicidade, afinal, já naquele momento, o Iron Maiden era a banda do meu coração, e como não pude ir ao Rock in Rio no ano anterior, os discos de vinil do Iron Maiden tinham ainda mais, um valor afetivo inigualável.
Me lembro que na época, o trabalho foi muito criticado, os críticos de plantão, provavelmente aqueles que nunca foram afeitos ao Heavy Metal, descascaram o álbum até não ter mais como. Sim, a sonoridade do álbum com guitarras sintetizadas chocou os mais desatentos dos fãs.
Minha primeira impressão foi a de que o Iron Maiden deixou a rapidez e a fúria de “Powerslave” (1984) para trás, e apostou numa sonoridade mais melódica e progressiva ao mesmo tempo, algo novo para seus devotos fãs.
A introdução de “Caught Somewhere in Time” pode já ter sido o bastante para esse choque capaz de causar demência nos fãs mais xiitas. O andamento levemente pesado e o som do baixo nas alturas, foram bons o bastante para berrarmos que sim, o Iron Maiden estava de volta, e com material inédito.
“Wasted Years” é eternizada até hoje nas mais recentes turnês do Steve Harris e cia. Quem nunca cantou junto, “So Understand, Don’t Wasted Time Always Searching for Those Wasted Years”, possivelmente vive em outra dimensão.
“Sea of Madness” é um tesouro escondido na longa discografia da Donzela de Ferro. É a faixa menos lembrada do disco, penso eu, é a “Back in the Village” ou a “Gangland” do disco, mas com uma sobriedade e uma letra das mais viajantes que Adrian Smith já escreveu. “Heaven Can Wait” foi destaque na turnê “Somewhere Back in Time” e no clássico filme “Flight 666”, que teve sua exibição realizada em São Paulo/SP, foi eternizada no filme. Bem que sonhei ser um dos sortudos que subiram ao palco, mas acabei na pista mesmo. Mesmo assim, um dos mais marcantes momentos em todos os mais de 30 shows que assisti deles.
“The Loneliness of the Long Distance Runner” tem uma das mais agressivas interpretações de Bruce, “Stranger in a Stranger Land” tem o solo de guitarra/baixo no ponto culminante, sendo na modesta opinião deste redator, a mais perfeita sintonia entre Adrian Smith e Steve Harris em todos os seus quase 40 anos que trabalham juntos. Aquele solo pra ouvir, voltar o vinil até a agulha não resistir e pedir um descanso.
“Deja-Vu” é a única do trabalho a ter duração abaixo de 5 minutos, sendo também uma das mais rápidas do trabalho e onde Nicko McBrain tem o momento de brilho e “Alexander the Great (356-323 B.C.) é um hino que ficou adormecido por mais de 36 anos, que só foi executada ao vivo em 28 de maio de 2023 na Eslovênia, na estreia da então nova tour “The Future Past”. Foi, indiscutivelmente, um momento glorioso da carreira da banda liderada por Steve Harris.
O que não podemos esquecer são os lados B que este lindo trabalho gerou. “Reach Out”, com Adrian Smith como vocal principal, e Bruce, nos backing vocals, é a melhor delas; e poderia estar, sim, no tracklist regular, porque soa Iron Maiden em sua essência. Pena que Steve Harris não quis gravar o baixo, algo que obviamente foi determinante para mantê-la como lado B. “Juanita” é bem divertida e “That Girl” clássico da banda FM cumprem bem o seu papel, e “Sheriff of Huddersfield” é uma homenagem ao empresário Rod Smallwood, uma tremenda zoeira que vale a pena apenas por diversão, já que musicalmente, ela não agrega.
De se estranhar naquele primeiro momento, a ausência de composições de Bruce Dickinson, algo que até hoje permanece um tanto quanto obscuro; sendo um detalhe que o tempo tratou de remediar facilmente.
Como já dissemos no início deste texto, “Somewhere in Time” foi malhado austeramente pela imprensa especializada, mal sabiam eles que, o álbum atravessou esses 40 anos e não tenho dúvidas disso, atravessarão com glórias mais 40, 50, 60 anos, eternizando nas próximas gerações o trabalho do Iron Maiden. Gostaria de poder viver mais 40 anos e ouvir “Somewhere in Time” muitas e muitas vezes. Um disco a frente de seu tempo, viajante, até com um certo ar psicodélico. Clássico é um termo até pequeno pra fazer jus a ele. Fantástico!





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