terça-feira, 29 de setembro de 2026

IRON MAIDEN - SOMEWHERE IN TIME 40 ANOS


SOMEWHERE IN TIME 40 ANOS – QUANDO O IRON MAIDEN COMEÇOU A SOAR PROGRESSIVO

Entre críticas iniciais e guitarras sintetizadas: revisitando a obra-prima espacial da Donzela de Ferro

Por Mauro Antunes

O ano de 1986 foi mágico para os amantes do Heavy Metal. Obras eternas como “Master of Puppets”, “Reign in Blood”, “Russian Roulette”, “Fatal Portrait”, dentre tantas outras, viram a luz do dia há 40 anos atrás.

E, claro, o Iron Maiden não poderia ficar devendo e lançou um de seus maiores clássicos, aquele que para muitos, é seu melhor disco, “Somewhere in Time” veio ao mundo em 29 de setembro de 1986. Se é o melhor ou não, há quem concorde, há quem discorde, mas o que ninguém ousa discordar, é que temos aqui, uma obra prima em termos de capa. Quem nunca se debruçou sobre aquela capa e procurou detalhes que talvez nem mesmo o autor, Derek Riggs, imaginaria encontrar? Obviamente, que sou um deles, mas o que sempre me prendeu foi a música, como não poderia deixar de ser.

Para aqueles que são, ou conhecem bem a cidade de São Paulo, ao lado do metrô Barra Funda, nos anos 80, existia uma loja de departamentos chamada Sears, onde alguns anos depois foi construído o shopping West Plaza. Lá, eu comprei quase que em primeira mão, essa preciosidade. Pensa em um garoto de 13 anos pulando de felicidade, afinal, já naquele momento, o Iron Maiden era a banda do meu coração, e como não pude ir ao Rock in Rio no ano anterior, os discos de vinil do Iron Maiden tinham ainda mais, um valor afetivo inigualável.

Me lembro que na época, o trabalho foi muito criticado, os críticos de plantão, provavelmente aqueles que nunca foram afeitos ao Heavy Metal, descascaram o álbum até não ter mais como. Sim, a sonoridade do álbum com guitarras sintetizadas chocou os mais desatentos dos fãs.

Minha primeira impressão foi a de que o Iron Maiden deixou a rapidez e a fúria de “Powerslave” (1984) para trás, e apostou numa sonoridade mais melódica e progressiva ao mesmo tempo, algo novo para seus devotos fãs.

A introdução de “Caught Somewhere in Time” pode já ter sido o bastante para esse choque capaz de causar demência nos fãs mais xiitas. O andamento levemente pesado e o som do baixo nas alturas, foram bons o bastante para berrarmos que sim, o Iron Maiden estava de volta, e com material inédito.

“Wasted Years” é eternizada até hoje nas mais recentes turnês do Steve Harris e cia. Quem nunca cantou junto, “So Understand, Don’t Wasted Time Always Searching for Those Wasted Years”, possivelmente vive em outra dimensão.

“Sea of Madness” é um tesouro escondido na longa discografia da Donzela de Ferro. É a faixa menos lembrada do disco, penso eu, é a “Back in the Village” ou a “Gangland” do disco, mas com uma sobriedade e uma letra das mais viajantes que Adrian Smith já escreveu. “Heaven Can Wait” foi destaque na turnê “Somewhere Back in Time” e no clássico filme “Flight 666”, que teve sua exibição realizada em São Paulo/SP, foi eternizada no filme. Bem que sonhei ser um dos sortudos que subiram ao palco, mas acabei na pista mesmo. Mesmo assim, um dos mais marcantes momentos em todos os mais de 30 shows que assisti deles.

“The Loneliness of the Long Distance Runner” tem uma das mais agressivas interpretações de Bruce, “Stranger in a Stranger Land” tem o solo de guitarra/baixo no ponto culminante, sendo na modesta opinião deste redator, a mais perfeita sintonia entre Adrian Smith e Steve Harris em todos os seus quase 40 anos que trabalham juntos. Aquele solo pra ouvir, voltar o vinil até a agulha não resistir e pedir um descanso.

“Deja-Vu” é a única do trabalho a ter duração abaixo de 5 minutos, sendo também uma das mais rápidas do trabalho e onde Nicko McBrain tem o momento de brilho e “Alexander the Great (356-323 B.C.) é um hino que ficou adormecido por mais de 36 anos, que só foi executada ao vivo em 28 de maio de 2023 na Eslovênia, na estreia da então nova tour “The Future Past”. Foi, indiscutivelmente, um momento glorioso da carreira da banda liderada por Steve Harris.

O que não podemos esquecer são os lados B que este lindo trabalho gerou. “Reach Out”, com Adrian Smith como vocal principal, e Bruce, nos backing vocals, é a melhor delas; e poderia estar, sim, no tracklist regular, porque soa Iron Maiden em sua essência. Pena que Steve Harris não quis gravar o baixo, algo que obviamente foi determinante para mantê-la como lado B. “Juanita” é bem divertida e “That Girl” clássico da banda FM cumprem bem o seu papel, e “Sheriff of Huddersfield” é uma homenagem ao empresário Rod Smallwood, uma tremenda zoeira que vale a pena apenas por diversão, já que musicalmente, ela não agrega.

De se estranhar naquele primeiro momento, a ausência de composições de Bruce Dickinson, algo que até hoje permanece um tanto quanto obscuro; sendo um detalhe que o tempo tratou de remediar facilmente.

Como já dissemos no início deste texto, “Somewhere in Time” foi malhado austeramente pela imprensa especializada, mal sabiam eles que, o álbum atravessou esses 40 anos e não tenho dúvidas disso, atravessarão com glórias mais 40, 50, 60 anos, eternizando nas próximas gerações o trabalho do Iron Maiden. Gostaria de poder viver mais 40 anos e ouvir “Somewhere in Time” muitas e muitas vezes. Um disco a frente de seu tempo, viajante, até com um certo ar psicodélico. Clássico é um termo até pequeno pra fazer jus a ele. Fantástico!



 

LORY F. BAND - 24/09/2026 - GREZZ - PORTO ALEGRE/RS

 


LORY F. BAND
24/09/2026
GREZZ
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Abstratti Produtora

Texto: José Henrique Godoy
Fotos: Carolina Godoy

Suzy Quatro e The Runaways são as mulheres heroínas e pioneiras na história do Rock n' Roll, indiscutivelmente. Mas aqui no Sul do país, também tivemos a nossa heroína pioneira no underground do Rock Gaúcho. Lorice Maria Finocchiaro (1958/1993), ou simplesmente Lory F. , foi a primeira mulher “band leader” no Brasil. Vocalista, compositora e baixista de mão cheia, marcou a cena de Porto Alegre com sua atitude selvagem e honestamente Rock n' Roll.

Após tentar a carreira musical no centro do país, Lory retorna para Porto Alegre e reúne um timaço de experientes músicos da cena gaúcha para montar a sua definitiva e mais reconhecida banda, a Lory F. Band. Junto aos exímios guitarristas Marcelo Fornazier (ex-Astaroth, Defalla) e  Marcinho Ramos (Bandaliera), King Jim (saxofone/vocais, ex-Garotos da Rua) e Edinho Espíndola (bateria, ex-Bixo da Seda/Liverpool), Lory F. levava aos palcos um show incendiário, tanto sonora como esteticamente. Tive o privilégio de assistir a banda uma única vez, no clássico Bar Porto De Elis, se não me falha a memória, no inverno de 1991.

Lory nos deixou em 11 de Agosto de 1993,vítima das complicações do vírus HIV,  período em que ainda trabalhava no álbum de estréia da Lory F. Band. que só foi lançado três anos depois , num esforço da sua irmã Laura Finocchiaro e os músicos que a acompanhavam, e se tornou um clássico cult do Rock Gaúcho. Trinta anos depois, chegou a hora de reunir a banda para homenagear a sua líder e celebrar a data festiva do lançamento do cd.


O local escolhido foi o ótimo Grezz, um ambiente com jeitão de Pub e perfeito para shows mais intimistas. Antes do show da Lory F. Band, foi apresentado no telão o documentário “Sinal De Alerta” que apresenta brevemente a trajetória de Lory Finocchiaro. Após a apresentação do documentário, a Lory F. Band adentra ao palco, com os músicos originais Marcelo Fornazier, King Jim e Edinho Espínola. Acompanhados pelo tecladista Chico Ferreti, (que também participou da gravação do cd), o guitarrista Gabriel Guedes (Pata De Elefante) e o baixista Lucas Juswiak. Para dar voz as composições de Lori, ninguém melhor do que seus familiares: As irmãs Laura e Débora Finocchiaro, e seu filho, o reconhecido produtor local Ricardinho Finocchiaro Bolsoni.



O pano de fundo do palco estampava uma imagem de Lori, numa iluminação na cor púrpura, enquanto a banda executou o tracklist na ordem do cd, de ponta a ponta. De “Baleada Noturna” a “Todo Mundo”, a apresentação foi emoção pura, com as irmãs Finocchiaro sendo um show a parte. Não precisamos falar da categoria dos demais músicos, mas temos que destacar o baixista Lucas Juswiak, o “cara novo” que simplesmente tirou todas as linhas e notas criadas por Lory e executou a árdua tarefa com maestria. 

Aproximando-se do final, um dos momentos mais emocionantes da emotiva noite: Ricardinho fala que depois de mais de vinte anos de produção, era ali a primeira vez que ele produzia a banda que foi da sua mãe. A seguir Laura anuncia uma música inédita que o próprio Ricardinho escreveu a letra, em homenagem a Lory, intitulada “Mulher De Púrpura”, uma linda composição. Não por coincidência, a data escolhida para o evento é a data de nascimento de Lory, e se viva estivesse, estaria completando 68 anos, e por óbvio foi cantado parabéns para você. Finalizando a noite, “Forças” uma das melhores composições da Lory F. Band, com seu refrão sensacional. O show acaba com todo o público que lotava o Grezz aplaudindo de pé. 




Existe uma declaração de Lory, falando que a sua música seria conhecida após 20 ou 30 anos. Pois nunca é tarde pare reconhecer o poder da sua música e arte. Que este show seja apenas o início de um redescobrimento do seu Rock, sua Arte e autenticidade de uma artista “True Rocker”, que faz falta ao cenário brasileiro e universal. Agradecimento especial a Abstratti Produtora pelo credenciamento e ao staff do Grezz pela cordialidade.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

SAXON - DENIM AND LEATHER 45 ANOS

 


DENIM AND LEATHER 45 ANOS - A CELEBRAÇÃO DE UM CLÁSSICO DO HEAVY METAL

O quarto álbum de estúdio do grupo britânico não apenas consolidou a era de ouro da NWOBHM, como eternizou em música e jaquetas a identidade visual e cultural do heavy metal

Por Sergiomar Menezes

Lançado no final de setembro de 1981, DENIM AND LEATHER representou o encerramento da fase mais explosiva e criativa da história do SAXON. Em um intervalo de apenas dezoito meses, a banda de lançou três verdadeiras obras-primas na fundação da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM) — sucedendo os aclamados "Wheels of Steel" e "Strong Arm of the Law" (ambos de 1980).

Mais do que um simples álbum de heavy metal, o álbum se tornou um verdadeiro manifesto. Ao completar 45 anos, "Denim and Leather" continua a ecoar como o testemunho definitivo de uma época em que o heavy metal deixou de ser apenas música underground para se transformar em um estilo de vida global.

O grande trunfo conceitual do disco — e de sua faixa-título — foi inverter a lógica do estrelato. Em vez de cantar sobre o distanciamento mítico das estrelas de rock, o vocalista Biff Byford olhou para a base e percebeu algo revolucionário: os fãs já tinham um uniforme próprio.

"Denim and leather brought us all together / It was us against the world, we took 'em on"

A letra da faixa-título transformou jaquetas de jeans lotadas de patches, coletes desbotados, tachas e calças justas de couro em vestimentas oficiais de uma irmandade. Pela primeira vez, a cultura do metal ganhava um hino que celebrava abertamente a união visceral e única entre a banda e o público, solidificando o sentimento de pertencimento que define o gênero até os dias de hoje.

Apesar de carregar um peso conceitual imenso, o repertório de "Denim and Leather" sustenta a reputação do Saxon como uma das maiores forças ao vivo do período. O disco abre com "Princess of the Night", um hino, um clássico, uma das maiores músicas da história do heavy metal, uma cavalgada sônica implacável sobre locomotivas a vapor que se tornou instantaneamente um dos maiores clássicos da discografia da banda.

Outro ponto alto absoluto é "And the Bands Played On", inspirada pela marcante experiência do Saxon na primeira edição do festival Monsters of Rock em Castle Donington (1980). A música sintetiza o otimismo e a urgência daquela juventude que via no heavy metal uma tábua de salvação cultural. Faixas como "Never Surrender" e "Fire in the Sky" mantêm a voltagem alta, equilibrando ganchos melódicos comerciais com a crueza e o peso característicos das guitarras da dupla  Paul Quinn/Graham Oliver.

Curiosamente, Denim and Leather marcou a despedida do baterista Pete Gill, cujo estilo dinâmico e e pesado foram fundamentais para moldar a sonoridade clássica do grupo (Gill logo depois se juntaria ao Motörhead). Com ele encerrava-se a formação que colocou o Saxon no topo das paradas europeias.

Olhando pra trás, os 45 anos deste álbum nos lembram que o heavy metal sobreviveu às décadas seguintes não apenas por sua complexidade técnica, mas pela força de sua unidade. DENIM AND LEATHER é o clássico instantâneo — uma celebração imortal do poder do Rock n' Roll.



KREATOR - VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS

 


VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS - O DISCO QUE TIROU O KREATOR (E O THRASH) DO LIMBO

Como o Kreator deixou para trás os anos de experimentação, resgatou a fúria do thrash metal e deu início a uma nova era com o clássico de 2001

Por Fernando Aguiar

Em 2001, depois de quase uma década de experimentos que dividiram os fãs, Mille Petrozza voltou ao thrash com um guitarrista novo, um produtor certeiro e um punhado de músicas que a banda toca até hoje.

Dito isso, hoje faz 25 anos que Violent Revolution chegou às lojas, e eu confesso que fico um pouco surpreso toda vez que lembro disso. Não porque o disco soe velho, muito pelo contrário. É que ele ficou tão associado ao Kreator que conhecemos hoje que é fácil esquecer o quanto a banda estava em outro lugar pouco antes dele sair.

Quem acompanhava o grupo nos anos 90 sabe do que estou falando. A partir de "Renewal", em 1992, Mille Petrozza resolveu que não ia ficar preso à fórmula de "Pleasure to Kill" e "Extreme Aggression". Vieram "Cause for Conflict", "Outcast" e "Endorama", com pitadas industriais, clima gótico e andamentos cada vez mais arrastados. Tem coisa boa neles, e tem gente que defende essa fase com convicção, mas boa parte dos fãs antigos simplesmente tem um pé atrás com essa fase. E o Kreator nem estava sozinho nessa. No fim dos anos 90, praticamente todo mundo da velha guarda do thrash estava tentando ser outra coisa, e o estilo parecia “assunto encerrado”.

Aí, em 25 de setembro de 2001, sai Violent Revolution. E a primeira música se chama "Reconquering the Throne". Sutileza nunca foi o forte do Mille.

A faixa entrega o que o nome promete. O riff entra rasgando, Ventor acelera sem cerimônia e o vocal volta a ter aquela raiva quase histérica que parecia ter ficado nos anos 80. Mas o detalhe que faz a diferença é que não soa como uma banda tentando se imitar. Não é um "Extreme Aggression" parte dois. É o Kreator voltando para casa depois de dez anos fora, e trazendo algumas coisas da viagem.

Depois da vinheta "The Patriarch", a faixa-título mostra onde está o grande trunfo do disco: refrão. "Violent Revolution" foi feita para ser cantada em coro, e não é à toa que virou a segunda música mais tocada da história da banda ao vivo, atrás só de "Pleasure to Kill". Na sequência, "All of the Same Blood (Unity)" reduz um pouco a velocidade para abrir espaço para um refrão ainda mais grandioso. É o tipo de música que um thrasher canta a plenos pulmões no show.

Boa parte dessa mudança passa por um finlandês. Violent Revolution é o primeiro disco com Sami Yli-Sirniö, vindo do Waltari, e dá para ouvir a diferença logo de cara. O Kreator sempre teve solos, claro, mas nunca com esse cuidado melódico. Sami constrói frases, harmoniza guitarras e traz uma sensibilidade que conversa bastante com o metal melódico sueco que estava em alta na Europa naquele início de década.

E aqui está o ponto que ainda divide opiniões. Tem quem diga que o disco flerta demais com Gotemburgo e perde a sujeira que fez a fama da banda. Eu entendo o argumento, mas discordo dele. Um retorno puramente saudosista, em 2001, teria grandes chances de soar requentado. O que o Kreator conseguiu foi juntar agressividade e melodia sem que uma anulasse a outra, e essa combinação virou a identidade da banda nos vinte e poucos anos seguintes. Quem gosta de "Enemy of God", "Hordes of Chaos" ou "Phantom Antichrist" está, no fundo, gostando de algo que começou aqui.

Também não dá para falar do disco sem citar Andy Sneap, que produziu, gravou, mixou e masterizou tudo. Sneap sabe o que é thrash da maneira mais profunda, afinal tocou guitarra no Sabbat, e entregou um som encorpado e moderno sem cair naquele brilho artificial que estragou tanta gravação de metal da época. As guitarras têm peso de verdade, a bateria do Ventor tem punch e o baixo de Christian Giesler aparece quando precisa. É uma produção que envelheceu bem, e isso, olhando para o que se gravava naquela virada de século, não é pouca coisa. A parceria funcionou tanto que Sneap voltou para produzir "Enemy of God", em 2005.

"Replicas of Life" são mais de sete minutos e meio com boas ideias e uma atmosfera interessante. "Servant in Heaven - King in Hell" e "Ghetto War" seguram bem a tensão, "Slave Machinery" resolve tudo em menos de quatro minutos sem enrolação, e "System Decay" fecha com dignidade.

Violent Revolution costuma ser apontado como um dos “precursores” do renascimento do thrash no começo dos anos 2000, e faz todo sentido. Mostrou que uma banda veterana podia voltar às raízes sem virar cover de si mesma, e que ainda existia gente querendo ouvir esse som. O que veio depois, com outros nomes clássicos voltando ao estilo e uma nova geração de bandas surgindo, carrega um pouco desse disco.

Para o próprio Kreator, foi o início de uma segunda carreira. A formação com Mille, Sami, Ventor e Giesler durou até 2019 e construiu uma sequência de discos consistentes que a banda não conseguiu manter nos anos 90.

Não tenho dúvida de que Violent Revolution é o disco mais importante da carreira depois daquela primeira fase. Sem Violent Revolution, o Kreator dos últimos 25 anos provavelmente seria outra banda, e bem menor.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

RED HOT CHILI PEPPERS - BLOODSUGARSEXMAGIK 35 ANOS

 


O ÚLTIMO GRANDE TRABALHO DO RED HOT CHILI PEPPERS - OS 35 ANOS DE BLODSUGARSEXMAGIK

Há 35 anos, o RED HOT CHILI PEPPERS criaram o momento em que o caos, a genialidade instrumental e a vulnerabilidade se fundiram em um dos discos mais influentes da história da música alternativa

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991 — curiosamente o mesmo dia em que o Nirvana mudaria os rumos do rock com Nevermind —, o RED HOT CHILI PEPPERS cruzou a linha de chegada de sua própria odisseia particular e entregou ao mundo um trabalho que redefiniu os anos 90. Longe das praias ensolaradas e da agitação frenética que marcaram seus primeiros anos de funk-punk desbocado, a banda se isolou em uma mansão assombrada para criar um monstro sônico.

Trinta e cinco anos depois, BLOODSUGARSEXMAGIK permanece não apenas como o último grande álbum do quarteto, mas como o trabalho que consagrou a nova formação da banda.

Para evitar o looping autodestrutivo de gravações convencionais e dar espaço para a nova dinâmica da banda, o produtor Rick Rubin teve uma sacada revolucionária: tirar os músicos do estúdio tradicional. O local escolhido foi a célebre mansão em Laurel Canyon que pertenceu ao ilusionista Harry Houdini — um espaço lendário, cercado por rumores de fantasmas e vibrações místicas, onde a banda passou semanas imersa em um processo criativo quase ritualístico.

O álbum é, acima de tudo, um momento definitivo de coesão e entrosamento entre o guitarrista John Frusciante (então com apenas 21 anos) e o baixista Flea. Frusciante abandonou os excessos puramente acelerados do funk-rock para construir texturas melódicas complexas, riffs intensos e uma atmosfera que transitava perfeitamente entre a crueza do blues e o psicodelismo. Enquanto isso, Flea entregou algumas das linhas de baixo mais icônicas, viscerais e grooveadas já gravadas.

Na bateria, o monstro Chad Smith transformava-se em furacão criativo com uma solidez impecável, garantindo que o swing funk estivesse sempre presente, mesmo quando as músicas flertavam com o peso do rock alternativo ou com a melancolia acústica. Nas letras e vocais, Kiedis equilibrava sua habitual persona de malandro californiano hedonista com uma confissão muito mais madura sobre perda, dependência química, dor e redenção.


A audácia de misturar funk, rap, rock pesado, baladas acústicas e psicodelia deu frutos de maneira estrondosa. Impulsionado pela direção cinematográfica e inventiva do videoclipe de "Under the Bridge" — um desabafo doloroso de Kiedis sobre solidão e abstinência —, o álbum catapultou o Red Hot Chili Peppers para o topo do mainstream global.

Faixas como "Give It Away", "Suck My Kiss" e "Breaking the Girl" dominaram as rádios e a MTV, provando que a música alternativa podia ser comercialmente imbatível sem abrir mão da identidade marginal. BloodSugarSexMagik vendeu mais de 15 milhões de cópias mundialmente, transformando o grupo em headliner de arenas e redefinindo o som de toda uma geração de bandas que tentaria misturar guitarras e grooves nas décadas seguintes.

"My Lovely Man", a segunda parte de "Knock me Down" (gravada no trabalho anterior, o magistral "Mother's Milk"), seguiu tributo saudosista ao guitarrista Hilel Slovak, enquanto o peso de "Funky Monks", "The Righteous and the Wicked" e "Apache Rose Peacock", mostravam que a banda fazia um som de nível como poucas. "I Could Have Lied", uma das mais belas baladas da banda e "Sir Psycho Sexy", uma loucura funkeada também deram mais brilho ao álbum.

Contudo, a intensidade que deu vida ao álbum também cobrou seu preço. A pressão da turnê mundial e o peso repentino do estrelato em massa provaram ser insuportáveis para a frágil estabilidade da banda na época, culminando na saída abrupta de John Frusciante durante a etapa japonesa da turnê em 1992 — um hiato doloroso que quase custou a alma criativa do grupo.

Ainda hoje, BLOODSUGARSEXMAGIK continua a soar fresco, magnético e perigoso. É o retrato de quatro músicos no topo absoluto de suas capacidades, dispostos a trancarem-se em uma casa mal-assombrada para canalizar seus demônios mais profundos em puro ritmo, poesia e eletricidade. Uma pena que depois disso, a banda entrou em decadência...