quinta-feira, 2 de abril de 2026

NERVOSA - SLAVE MACHINE (2026)

 


NERVOSA
SLAVE MACHINE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Quantas vezes você já viu pessoas chamando a Prika Amaral de Dave Mustaine? Várias, né? Mas, após a audição de Slave Machine, fica claro que a possível chacota é, na verdade, um grande adjetivo para a líder. A Nervosa vem se reconstruindo após 2020 — nesses últimos seis anos, foram dois álbuns; o terceiro chega nesta Sexta-feira Santa.

Eu diria que o apocalipse chega perto neste dia 3 de abril, pois o que as meninas fizeram vai arrancar cabeças e fazer tímpanos sensíveis sangrarem.

Estou na terceira audição do álbum, o pescoço já está pedindo arrego e o volume aumentando. Possivelmente, o álbum mais maduro dentro da trajetória de pouco mais de quinze anos do grupo. Prika encontrou uma verdadeira parceira para dividir as responsabilidades. Helena Kotina divide os riffs com a líder, mas, a cada nota dos solos e passagens mais melódicas, fica evidente que a evolução da Nervosa também passa por ela — um pilar dentro desse caos sonoro.

Se em "Jailbreak" tínhamos a novidade, agora temos a consagração. Prika… aqui ela se firma de vez. Não está mais “testando” os vocais — ela domina. Os gritos são sufocantes, carregados de tensão, quase desesperadores. Há raiva e identidade. A abertura com “Impending Doom” já deixa claro o recado: não há espaço para respiro. A introdução cresce de forma ameaçadora até explodir em riffs cortantes e uma bateria esmagadora, preparando o terreno para um álbum que não pede licença — passa por cima como um caminhão desgovernado.

É interessante que, por contar com diversas nacionalidades dentro da banda, a sonoridade remete a vários nomes clássicos: Sepultura (fase Beneath the Remains e Arise), Exodus, Kreator e Sodom. Mas, ao mesmo tempo, quando se olha para dentro da própria discografia, a densidade e a brutalidade com que as faixas avançam remetem diretamente a Downfall of Mankind. Aqui, porém, tudo soa mais afiado, mais consciente — menos instintivo, mais calculado, sem perder agressividade.

A faixa-título carrega riffs secos, bateria esmagadora e um refrão que não te conquista — te atropela. É pesada, direta e com uma das melhores performances vocais do disco. Em “Ghost Notes”, a banda mostra inteligência: diminui levemente o ritmo, traz groove e trabalha mais o clima. Perde brutalidade — ganha profundidade e peso.

A cozinha também cumpre papel fundamental. A bateria de Michaela Naydenova é precisa e intensa, sustentando tanto os momentos mais velozes quanto os trechos mais arrastados com firmeza. Já o baixo, dividido entre Hel Pyre e Emmelie Herwegh, adiciona densidade ao som, reforçando a base sem se perder na mixagem.

“Beast of Burden” é thrash na jugular. Aqui mora aquela escola clássica oitentista, mas com identidade própria. “You Are Not a Hero” quebra a sequência óbvia: tem construção, tem um refrão forte e uma crítica direta. Fará um verdadeiro pandemônio nos shows, caso entre no setlist. “Hate” é imediata — sem firula, sem rodeio, com uma dose extra de agressividade. Prika varia os vocais com naturalidade. Quase um crossover perfeito — musicalmente, o álbum passeia por diferentes nuances dentro do metal extremo. Há espaço para o peso tradicional do thrash, incursões sombrias que tangenciam o black metal e até momentos mais cadenciados e cheios de groove.

Essa diversidade não fragmenta o disco — pelo contrário, contribui para uma audição mais rica e menos previsível. Por exemplo, “The New Empire” escurece o clima. Aqui, a coisa fica mais densa, mais pesada no sentido atmosférico. Há uma tensão diferente no ar. “30 Seconds” é um dos pontos mais interessantes do disco. O refrão foge do padrão, quase hipnótico, e mostra que a banda não está presa a uma fórmula. É onde digo que a banda amadureceu: não há tanta necessidade de pisar no acelerador; existe beleza nos momentos mais lentos.

“Crawl for Your Pride” é uma pancada curta — rápida, agressiva e sem espaço para pensar, só reagir. No caso, é ir para o moshpit. “Learn or Repeat” é caos controlado: alterna velocidade e pequenas pausas, mantendo a tensão lá em cima o tempo todo. “The Call” vem como um grito de urgência — é pressão contínua, como se a música estivesse correndo contra o tempo.

Liricamente, Slave Machine aponta para um mundo em colapso moral e psicológico. As letras abordam controle, alienação e manipulação coletiva, sempre com um tom crítico e direto. Não há sutileza na mensagem — e nem precisa haver. A proposta é confrontar, provocar e incomodar.

O fechamento com “Speak in Fire” é perfeito. Em vez de acelerar, a banda arrasta o peso. Fica mais denso, mais sufocante, mais sombrio. É aquele final que não explode — te esmaga devagar, a cada nota despejada.

No fim das contas, Slave Machine não apenas reafirma a relevância da Nervosa — ele escancara uma banda que segue em plena evolução, refinando sua identidade e expandindo suas possibilidades sem abrir mão da própria essência. Um trabalho sólido, brutal e, acima de tudo, consciente do próprio poder.

William Ribas




segunda-feira, 30 de março de 2026

SOULFLY - ARCHANGEL (2015/2025) - RELANÇAMENTO

 


SOULFLY
ARCHANGEL
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

A capacidade criativa de Max Cavalera parece não ter limites. Ainda que muitos digam que ele vive do passado, basicamente por ter regravado junto à Iggor Cavalera os três primeiros trabalhos do Sepultura, estes mesmos esquecem que o SOULFLY lança álbuns regularmente (sem falar no Cavalera Conspiracy, Killer be Killed, Go Ahead and Die, entre outros) e que nas turnês da banda é quase nula a execução de músicas do Sepultura. Ou seja, Max não vive do passado. Pelo contrário, cada lançamento do Soulfly nos mostra um músico incansável, explorando novos horizontes mas mantendo a chama do metal sempre acesa. E ARCHANGEL, décimo álbum de estúdio do grupo, é aprova cabal disso. Relançado por aqui pela parceria Shinigami Records/Nuclear Blast, o trabalho trás um pé maior no death metal, deixando um pouco de lado aquele groove mais característico que sempre permeeou a carreira da banda.

Com as guitarras e vocais únicos de Max, o grupo è época do lançamento de "Archangel" era formado por Marc Rizzo (guitarras - e que, apesar da regularidade dos mais recentes trabalhos, tá fazendo falta), Tony Campos (baixo) e Zyon Cavalera (bateria). O álbum também traz as participações de Richie Cavalera (Incite), Todd Jones (Nails) Matt Young (King Parrot) e Igor Cavalera Jr (Goa Ahead and Die). Uma das coisas que mais chama a atenção é a capa: uma representação de São Miguel Arcanjo feita pelo artista Eliran Kantor. Ela dita o tom do álbum. Esqueça os temas voltados à política ou problemas urbanos de antigamente: "Archangel" é um mergulho em temas teológicos, batalhas celestiais e civilizações antigas. A produção de Matt Hyde  (que já trabalhou com Slayer e Behemoth) foi essencial para dar ao Soulfly um som mais ousado e poderoso. A parede de som é opressiva, mas permite que cada detalhe — das percussões tribais  aos solos virtuosos de Rizzo — seja ouvido. Já Max soa mais furioso do que em muitos discos dos anos 2000. Seus vocais estão mais próximos do gutural puro, abandonando quase completamente as linhas de voz mais limpas, que diga-se de passagem, deixam a desejar.

Por se tratar de um relançamento, vamos aos principais destaques, mas salientando que o álbum é bem acima da média e mantém uma regularidade mais que positiva. A faixa de abertura, " We Sould Ours Souls to Metal", é aquele chute na porta que escancara a aula de violência e agressividade que nos é apresentada. Refrão que gruda, riffs insanos, baixo e bateria pesados e vocais absurdos são os ingredientes dessa mistura explosiva. Já a faixa-título abre com um riff épico e cadenciado que logo explode em uma agressividade típica do Death Metal. O refrão é um mantra ("Archangel! Archangel!") que funciona perfeitamente ao vivo. É uma das músicas mais curtas do Soulfly, o que mostra a intenção do álbum: ser direto e brutal (o álbum no total não passa dos 36 minutos de duração). Com a participação de Todd Jones (Nails), "Sodomites" é um "trator". O ritmo é mais lento, focado no peso absurdo das guitarras afinadas em tons baixíssimos. A letra reconta a destruição de Sodoma e Gomorra sob uma ótica de julgamento divino implacável (o que diria Max Possessed sobre isso em 1985?). Em "Ishtar Rising", Max explora as raízes babilônicas. A faixa tem um "balanço" que remete ao antigo Soulfly, mas com uma produção muito mais densa. A bateria de Zyon Cavalera (filho de Max) brilha intensamente, mostrando que o DNA da família continua se expandindo. Ainda podemos citar "Bethlehem’s Blood" e "Shamash". Enquanto a primeira utiliza metais (trompetes) para criar um clima de "marcha para a guerra", a segunda foca na mitologia mesopotâmica com um dos solos mais inspirados de Marc Rizzo.

ARCHANGEL é um álbum curto, o que é seu maior trunfo. Ele não cansa o ouvinte: ele o atropela. É uma obra que mostra uma banda veterana que não tem medo de abraçar a obscuridade e a complexidade técnica para se manter relevante. "Archangel" é o SOULFLY em sua forma mais mística e feroz, provando que Max Cavalera ainda tem muita lenha para queimar.

Sergiomar Menezes




quarta-feira, 25 de março de 2026

STRYPER - THE GREATEST GIFT OF ALL (2025)

 


STRYPER
THE GREATEST GIFT OF ALL
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

De quando em vez e de vez em quando, artistas famosos, cantores e bandas lançam em finais de ano seu “álbum natalino”. Eu particularmente acho brega, desnecessário e literalmente um saco. E olha que alguns dos meus artistas preferidos já “cometeram“ estes projetos, dentre eles Twisted Sister e o “Metal God” Rob Halford. Impossível não lembrar da cantora Simone e sua versão de “ Então é nataaaal”...

Pois não é que até que demorou para uma das bandas mais peculiares e talentosas do Hard/Heavy oitentista, o Stryper lançar o seu “Christmas Album”? Falo que demorou, pois pela temática cristã pela qual são conhecidos, o projeto de Natal do Stryper viu a luz do dia apenas após quatro décadas de carreira.

E não é que o resultado do álbum ficou acima do que eu esperava ? Logo de cara salta aos olhos a ótima produção do trabalho, e como sempre a performance do vocalista Michael Sweet, principalmente quando sabemos dos problemas de saúde que ele tem atravessado nos últimos tempos. Faixas tradicionais de Natal como “Winter Wonderland”, “Little Drummer Boy” e “Silent Night" tem a assinatura característica do Stryper, sem perder o clima original, tendo como resultado versões Hard Rock melódico.

Se você é fã do Stryper de longa data, e tem tudo da banda (este que digita aqui, por exemplo), é um álbum necessário para manter a coleção em dia. Se você não acompanha tão de perto a banda dos irmãos Sweet, ou se quer conhecer a banda, indico “Soldiers Under Command” ou “ To Hell With The Devil”. Lançamento Nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




ROB ZOMBIE - THE GREAT SATAN (2026)

 


ROB ZOMBIE
THE GREAT SATAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Na minha opinião, Rob Zombie é um dos últimos Rock Stars da história. Seus discos sempre tem qualidade, uns mais, outros menos, porém seus shows são apocalípticos e espetaculares. E ainda divide seu tempo como diretor de cinema de Horror, criando algumas das melhores “trasheiras” de todos os tempos. E agora em 2026, ele nos entrega “The Great Satan”, sem dúvida nenhuma, um dos seus melhores trabalhos.

Pesado, agressivo e com o jeito Rob Zombie de “rockear”, “The Great Satan” é um retorno ao som tradicional dos primeiros trabalhos como ”Hellbilly Deluxe” (1998) e com algo que lembra sua antiga banda, o White Zombie. Durante toda a audição, o ouvinte se depara com riffs pegajosos, baterias estrondosas e o rugido inconfundível de Zombie. O uso habitual de samplers e outros sons eletrônicos estão lá também, aqui e acolá, porém sem muita interferência mas que dão outra dimensão à música de Zombie.

A faixa de abertura “F.T.W. 84!" é uma introdução perfeita para "The Great Satan", a estranheza dos teclados fora de sincronia, o riff monstruoso e Zombie gritando “Fuck The World, Fuck it All” é mais um exemplo de como é fácil para Rob Zombie criar um carnaval de insanidade. “Tarantula” é apenas a primeira amostra de riffs monstruosos do guitarrista Riggs, enquanto “I´m A Rock N Roller“ se tornou a minha faixa preferida. Pesada e divertida, a letra dela faz referências a “Moonage Daydream” do David Bowie, cita o T-Rex referindo “Telegram Sam” e “Eletric Warrior (músicas e álbum da banda de Marc Bolan), e também fazendo citações ao The Sweet e Jimmy Page. Faixa simplesmente viciante.

Outros destaques ficam por conta de “Heathen Days”, que lembra bastante a clássica “Dragula”, e as fantasticamente intituladas “Black Rat Coffin”, e "Sir Lord Acid Wolfman". Nelas o peso é mantido e o groove garantido por conta do baixista Blasko (ex-Ozzy Osbourne e Danzig) e o batera Ginger Fish (ex-Marylin Manson). O trabalho é mantido num nível linear altíssimo, tendo em vista que ao final de “Grave Discontent” a última das 15 faixas, a impressão do ouvinte é de que recém havia começado a audição, O jeito é colocar pra rodar de novo.

Enfim, “The Great Satan“ é um puta álbum concebido por Rob Zombie. O lançamento nacional dele já está disponível pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




terça-feira, 24 de março de 2026

HOLY LAND - 30 ANOS

 


HOLY LAND: A EPOPÉIA BRASILEIRA DO HEAVY METAL


Por Sergiomar Menezes

Celebrar os 30 anos de Holy Land em 2026 é reconhecer o momento em que o Heavy Metal brasileiro deixou de ser um reflexo do que vinha de fora para se tornar uma referência global. Se "Angels Cry" (1993) apresentou o Angra ao mundo, Holy Land (lançado em 23 de março de 1996) provou que eles eram gênios. O segundo álbum de estúdio do Angra foi muito além do "debut". Enquanto o primeiro disco mostrava uma banda virtuosa influenciada pela música clássica e erudita, Holy Land foi uma jornnada conceitual ambiciosa que narra a descoberta do Brasil em 1500, mergulhando nas raízes indígenas e coloniais. Ele não apenas narra o descobrimento, mas explora o choque cultural e a natureza exuberante através de uma fusão técnica impecável. É um disco que desafiou as fronteiras do gênero ao fundir o Power Metal europeu com a riqueza rítmica e folclórica da nossa terra.

O álbum é uma jornada sensorial. Ele não fala apenas de história, mas de sentimento. A narrativa foca no choque cultural, na beleza da natureza intocada e na espiritualidade.

A genialidade do quinteto estava no auge. Composto por 5 cabeças que se complementavam (apesar dos atritos internos), o grupo tinha na técnica e qualidade seu maior destaque. Andre Matos (vocal) - o maestro. Sua voz alcançou o ápice da técnica e emoção aqui, unindo sua formação erudita ao metal. Infelizmente, Andre faleceu em 2019, mas seu legado, em especial aqui em Holy Land, é eterno. Kiko Loureiro (guitarra), trouxe o virtuosismo que o levaria anos depois ao Megadeth. Em Holy Land, ele explorou dedilhados que remetem à viola caipira e violão brasileiro. Rafael Bittencourt (guitarra), foi o mentor intelectual de muitos conceitos e letras. Sua visão ajudou a equilibrar o peso com a brasilidade. Luís Mariutti (baixo) garantiu o peso necessário enquanto acompanhava as mudanças rítmicas complexas. E Ricardo Confessori (bateria), o elemento chave para a percussão. Ricardo integrou bumbos duplos com levadas de maracatu e baião de forma orgânica e nos fez entender que, para serem universais, precisavam ser autênticos às suas origens. A sinergia deste quinteto foi o que permitiu uma ousadia musical tão grande e versátil.

O que torna Holy Land um clássico absoluto é a coragem das misturas. Não era apenas "metal com um batuque no fundo", era uma integração orgânica:

- Ritmos Brasileiros: O uso de instrumentos de percussão nordestinos e amazônicos, o balanço do baião e do maracatu inseridos em estruturas complexas.

- Música Clássica e Renascentista: Influências de compositores como Palestrina e o uso de flautas e arranjos vocais que remetem ao período das Grandes Navegações.

- Progressivo e Power Metal: Bumbos duplos e solos de guitarra estratosféricos convivendo com momentos de pura calmaria e introspecção.

E como analisar musicalmente um trabalho único e referencial como Holy Land? Musicalmente complexo e técnico? Liricamente poético e histórico? Ou um trabalho conceitual completo do início ao fim, iniciando por "Crossing", uma peça sacra de Giovanni Pierluigi da Palestrina (século XVI). que define o tom de "viagem no tempo" e colonização europeia. E a sequência com "Nothing to Say"? Um Heavy/Power com um dos riffs mais clássicos da carreira da banda. Andre solta a voz de uma forma perfeita, mostrando ao mundo que era (e sempre será) um dos maiores vocalistas do mundo. "Silence and Distance", uma balada ao piano que explode em peso. Trata da solidão e das incertezas em alto-mar. Mas o maior destaque e também o maior desafio da banda até aquele momento (e na minha opinião, nunca mais superado) é "Carolina IV". Em mais de 10 minutos, a composição reúne percussão brasileira, corais eruditos e uma complexidade progressiva que narra a travessia oceânica. Uma verdadeira obra-prima que sintetiza todo o conceito do disco. A faixa título, por sua vez, traz a brasilidade de forma mais visceral, onde a percussão é a protagonista, refletindo a beleza e o misticismo da terra descoberta, com uma linda melodia de piano que depois de ouvida uma vez, nunca mais sai da sua cabeça.

"The Shaman" (que mais tarde daria nome à banda formada depois da separação da banda), introduz elementos indígenas e rituais. É uma das músicas mais místicas do disco, com um clima denso e tribal. Em seguida, uma das mais belas músicas do Angra: "Make Believe", onde Andre dá outro show com vocais agudos numa bela interpretação e mostra que pra cantar essa, não bastava fazer pose nem jogar pra galera (como andaram fazendo tempos depois...). Uma balada emocionante que questiona o futuro daquela terra e as cicatrizes da colonização. Destaque para o solo final de guitarra. "Z.I.T.O", traz consigo um enigma interessante. A sigla pode se referir tanto ao apelido de um amigo quanto à expressão em latim “Zur Incógnita Terra Oceanus” (Terra Incógnita Além do Oceano), além de ter sido inspirada por um sonho com um alienígena chamado Ziltoyd. Essa variedade de interpretações reforça o tema principal da música: a busca humana por novas descobertas e o desejo de explorar o desconhecido, seja no mundo exterior ou no próprio interior, e contrata com a melancolia e grandiosidade de "Deep Blue", uma composição que retrata o encontro do céu com o mar. Ao final, "Lullaby for Lucifer", um encerramento acústico e introspectivo, gravado com sons de ondas e pássaros, trazendo o ouvinte de volta à realidade da natureza.


Três décadas depois, "Holy Land" continua sendo a "régua" pela qual muitas bandas de metal nacional são medidas. Ele provou que o Brasil tinha uma identidade própria no gênero, fugindo da cópia das bandas europeias. A performance de Andre Matos neste disco é frequentemente citada como uma das maiores da história do metal mundial, consolidando seu status de lenda. Para os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, o álbum foi a vitrine que mostrou ao mundo uma técnica refinada aliada a uma criatividade rítmica singular.

Em um mercado saturado, "Holy Land" permanece atual porque é honesto. Ele celebra a brasilidade sem clichês, tratando nossa cultura com a grandiosidade de uma ópera. É um testamento de uma época em que a banda estava no auge de sua sinergia criativa.

Agora em março, a banda anunciou o fim de um hiato para realizar uma turnê comemorativa de 30 anos do disco (e surpreendeu 0 pessoas), com a escolha de Alírio Netto para os vocais. E isso prova que, mesmo após mudanças de formação e décadas, o público ainda vê em "Holy Land" a alma do Angra. Se isso soa positivo ou não, fica a critério de cada um...

"Revisitar Holy Land agora não é apenas tocar um álbum clássico. É voltar às raízes e reencontrar a força criativa que nos trouxe até aqui." – Comunicado oficial da banda (2026).