sexta-feira, 25 de setembro de 2026

SAXON - DENIM AND LEATHER 45 ANOS

 


DENIM AND LEATHER 45 ANOS - A CELEBRAÇÃO DE UM CLÁSSICO DO HEAVY METAL

O quarto álbum de estúdio do grupo britânico não apenas consolidou a era de ouro da NWOBHM, como eternizou em música e jaquetas a identidade visual e cultural do heavy metal

Por Sergiomar Menezes

Lançado no final de setembro de 1981, DENIM AND LEATHER representou o encerramento da fase mais explosiva e criativa da história do SAXON. Em um intervalo de apenas dezoito meses, a banda de lançou três verdadeiras obras-primas na fundação da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM) — sucedendo os aclamados "Wheels of Steel" e "Strong Arm of the Law" (ambos de 1980).

Mais do que um simples álbum de heavy metal, o álbum se tornou um verdadeiro manifesto. Ao completar 45 anos, "Denim and Leather" continua a ecoar como o testemunho definitivo de uma época em que o heavy metal deixou de ser apenas música underground para se transformar em um estilo de vida global.

O grande trunfo conceitual do disco — e de sua faixa-título — foi inverter a lógica do estrelato. Em vez de cantar sobre o distanciamento mítico das estrelas de rock, o vocalista Biff Byford olhou para a base e percebeu algo revolucionário: os fãs já tinham um uniforme próprio.

"Denim and leather brought us all together / It was us against the world, we took 'em on"

A letra da faixa-título transformou jaquetas de jeans lotadas de patches, coletes desbotados, tachas e calças justas de couro em vestimentas oficiais de uma irmandade. Pela primeira vez, a cultura do metal ganhava um hino que celebrava abertamente a união visceral e única entre a banda e o público, solidificando o sentimento de pertencimento que define o gênero até os dias de hoje.

Apesar de carregar um peso conceitual imenso, o repertório de "Denim and Leather" sustenta a reputação do Saxon como uma das maiores forças ao vivo do período. O disco abre com "Princess of the Night", um hino, um clássico, uma das maiores músicas da história do heavy metal, uma cavalgada sônica implacável sobre locomotivas a vapor que se tornou instantaneamente um dos maiores clássicos da discografia da banda.

Outro ponto alto absoluto é "And the Bands Played On", inspirada pela marcante experiência do Saxon na primeira edição do festival Monsters of Rock em Castle Donington (1980). A música sintetiza o otimismo e a urgência daquela juventude que via no heavy metal uma tábua de salvação cultural. Faixas como "Never Surrender" e "Fire in the Sky" mantêm a voltagem alta, equilibrando ganchos melódicos comerciais com a crueza e o peso característicos das guitarras da dupla  Paul Quinn/Graham Oliver.

Curiosamente, Denim and Leather marcou a despedida do baterista Pete Gill, cujo estilo dinâmico e e pesado foram fundamentais para moldar a sonoridade clássica do grupo (Gill logo depois se juntaria ao Motörhead). Com ele encerrava-se a formação que colocou o Saxon no topo das paradas europeias.

Olhando pra trás, os 45 anos deste álbum nos lembram que o heavy metal sobreviveu às décadas seguintes não apenas por sua complexidade técnica, mas pela força de sua unidade. DENIM AND LEATHER é o clássico instantâneo — uma celebração imortal do poder do Rock n' Roll.



KREATOR - VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS

 


VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS - O DISCO QUE TIROU O KREATOR (E O THRASH) DO LIMBO

Como o Kreator deixou para trás os anos de experimentação, resgatou a fúria do thrash metal e deu início a uma nova era com o clássico de 2001

Por Fernando Aguiar

Em 2001, depois de quase uma década de experimentos que dividiram os fãs, Mille Petrozza voltou ao thrash com um guitarrista novo, um produtor certeiro e um punhado de músicas que a banda toca até hoje.

Dito isso, hoje faz 25 anos que Violent Revolution chegou às lojas, e eu confesso que fico um pouco surpreso toda vez que lembro disso. Não porque o disco soe velho, muito pelo contrário. É que ele ficou tão associado ao Kreator que conhecemos hoje que é fácil esquecer o quanto a banda estava em outro lugar pouco antes dele sair.

Quem acompanhava o grupo nos anos 90 sabe do que estou falando. A partir de "Renewal", em 1992, Mille Petrozza resolveu que não ia ficar preso à fórmula de "Pleasure to Kill" e "Extreme Aggression". Vieram "Cause for Conflict", "Outcast" e "Endorama", com pitadas industriais, clima gótico e andamentos cada vez mais arrastados. Tem coisa boa neles, e tem gente que defende essa fase com convicção, mas boa parte dos fãs antigos simplesmente tem um pé atrás com essa fase. E o Kreator nem estava sozinho nessa. No fim dos anos 90, praticamente todo mundo da velha guarda do thrash estava tentando ser outra coisa, e o estilo parecia “assunto encerrado”.

Aí, em 25 de setembro de 2001, sai Violent Revolution. E a primeira música se chama "Reconquering the Throne". Sutileza nunca foi o forte do Mille.

A faixa entrega o que o nome promete. O riff entra rasgando, Ventor acelera sem cerimônia e o vocal volta a ter aquela raiva quase histérica que parecia ter ficado nos anos 80. Mas o detalhe que faz a diferença é que não soa como uma banda tentando se imitar. Não é um "Extreme Aggression" parte dois. É o Kreator voltando para casa depois de dez anos fora, e trazendo algumas coisas da viagem.

Depois da vinheta "The Patriarch", a faixa-título mostra onde está o grande trunfo do disco: refrão. "Violent Revolution" foi feita para ser cantada em coro, e não é à toa que virou a segunda música mais tocada da história da banda ao vivo, atrás só de "Pleasure to Kill". Na sequência, "All of the Same Blood (Unity)" reduz um pouco a velocidade para abrir espaço para um refrão ainda mais grandioso. É o tipo de música que um thrasher canta a plenos pulmões no show.

Boa parte dessa mudança passa por um finlandês. Violent Revolution é o primeiro disco com Sami Yli-Sirniö, vindo do Waltari, e dá para ouvir a diferença logo de cara. O Kreator sempre teve solos, claro, mas nunca com esse cuidado melódico. Sami constrói frases, harmoniza guitarras e traz uma sensibilidade que conversa bastante com o metal melódico sueco que estava em alta na Europa naquele início de década.

E aqui está o ponto que ainda divide opiniões. Tem quem diga que o disco flerta demais com Gotemburgo e perde a sujeira que fez a fama da banda. Eu entendo o argumento, mas discordo dele. Um retorno puramente saudosista, em 2001, teria grandes chances de soar requentado. O que o Kreator conseguiu foi juntar agressividade e melodia sem que uma anulasse a outra, e essa combinação virou a identidade da banda nos vinte e poucos anos seguintes. Quem gosta de "Enemy of God", "Hordes of Chaos" ou "Phantom Antichrist" está, no fundo, gostando de algo que começou aqui.

Também não dá para falar do disco sem citar Andy Sneap, que produziu, gravou, mixou e masterizou tudo. Sneap sabe o que é thrash da maneira mais profunda, afinal tocou guitarra no Sabbat, e entregou um som encorpado e moderno sem cair naquele brilho artificial que estragou tanta gravação de metal da época. As guitarras têm peso de verdade, a bateria do Ventor tem punch e o baixo de Christian Giesler aparece quando precisa. É uma produção que envelheceu bem, e isso, olhando para o que se gravava naquela virada de século, não é pouca coisa. A parceria funcionou tanto que Sneap voltou para produzir "Enemy of God", em 2005.

"Replicas of Life" são mais de sete minutos e meio com boas ideias e uma atmosfera interessante. "Servant in Heaven - King in Hell" e "Ghetto War" seguram bem a tensão, "Slave Machinery" resolve tudo em menos de quatro minutos sem enrolação, e "System Decay" fecha com dignidade.

Violent Revolution costuma ser apontado como um dos “precursores” do renascimento do thrash no começo dos anos 2000, e faz todo sentido. Mostrou que uma banda veterana podia voltar às raízes sem virar cover de si mesma, e que ainda existia gente querendo ouvir esse som. O que veio depois, com outros nomes clássicos voltando ao estilo e uma nova geração de bandas surgindo, carrega um pouco desse disco.

Para o próprio Kreator, foi o início de uma segunda carreira. A formação com Mille, Sami, Ventor e Giesler durou até 2019 e construiu uma sequência de discos consistentes que a banda não conseguiu manter nos anos 90.

Não tenho dúvida de que Violent Revolution é o disco mais importante da carreira depois daquela primeira fase. Sem Violent Revolution, o Kreator dos últimos 25 anos provavelmente seria outra banda, e bem menor.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

RED HOT CHILI PEPPERS - BLOODSUGARSEXMAGIK 35 ANOS

 


O ÚLTIMO GRANDE TRABALHO DO RED HOT CHILI PEPPERS - OS 35 ANOS DE BLODSUGARSEXMAGIK

Há 35 anos, o RED HOT CHILI PEPPERS criaram o momento em que o caos, a genialidade instrumental e a vulnerabilidade se fundiram em um dos discos mais influentes da história da música alternativa

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991 — curiosamente o mesmo dia em que o Nirvana mudaria os rumos do rock com Nevermind —, o RED HOT CHILI PEPPERS cruzou a linha de chegada de sua própria odisseia particular e entregou ao mundo um trabalho que redefiniu os anos 90. Longe das praias ensolaradas e da agitação frenética que marcaram seus primeiros anos de funk-punk desbocado, a banda se isolou em uma mansão assombrada para criar um monstro sônico.

Trinta e cinco anos depois, BLOODSUGARSEXMAGIK permanece não apenas como o último grande álbum do quarteto, mas como o trabalho que consagrou a nova formação da banda.

Para evitar o looping autodestrutivo de gravações convencionais e dar espaço para a nova dinâmica da banda, o produtor Rick Rubin teve uma sacada revolucionária: tirar os músicos do estúdio tradicional. O local escolhido foi a célebre mansão em Laurel Canyon que pertenceu ao ilusionista Harry Houdini — um espaço lendário, cercado por rumores de fantasmas e vibrações místicas, onde a banda passou semanas imersa em um processo criativo quase ritualístico.

O álbum é, acima de tudo, um momento definitivo de coesão e entrosamento entre o guitarrista John Frusciante (então com apenas 21 anos) e o baixista Flea. Frusciante abandonou os excessos puramente acelerados do funk-rock para construir texturas melódicas complexas, riffs intensos e uma atmosfera que transitava perfeitamente entre a crueza do blues e o psicodelismo. Enquanto isso, Flea entregou algumas das linhas de baixo mais icônicas, viscerais e grooveadas já gravadas.

Na bateria, o monstro Chad Smith transformava-se em furacão criativo com uma solidez impecável, garantindo que o swing funk estivesse sempre presente, mesmo quando as músicas flertavam com o peso do rock alternativo ou com a melancolia acústica. Nas letras e vocais, Kiedis equilibrava sua habitual persona de malandro californiano hedonista com uma confissão muito mais madura sobre perda, dependência química, dor e redenção.


A audácia de misturar funk, rap, rock pesado, baladas acústicas e psicodelia deu frutos de maneira estrondosa. Impulsionado pela direção cinematográfica e inventiva do videoclipe de "Under the Bridge" — um desabafo doloroso de Kiedis sobre solidão e abstinência —, o álbum catapultou o Red Hot Chili Peppers para o topo do mainstream global.

Faixas como "Give It Away", "Suck My Kiss" e "Breaking the Girl" dominaram as rádios e a MTV, provando que a música alternativa podia ser comercialmente imbatível sem abrir mão da identidade marginal. BloodSugarSexMagik vendeu mais de 15 milhões de cópias mundialmente, transformando o grupo em headliner de arenas e redefinindo o som de toda uma geração de bandas que tentaria misturar guitarras e grooves nas décadas seguintes.

"My Lovely Man", a segunda parte de "Knock me Down" (gravada no trabalho anterior, o magistral "Mother's Milk"), seguiu tributo saudosista ao guitarrista Hilel Slovak, enquanto o peso de "Funky Monks", "The Righteous and the Wicked" e "Apache Rose Peacock", mostravam que a banda fazia um som de nível como poucas. "I Could Have Lied", uma das mais belas baladas da banda e "Sir Psycho Sexy", uma loucura funkeada também deram mais brilho ao álbum.

Contudo, a intensidade que deu vida ao álbum também cobrou seu preço. A pressão da turnê mundial e o peso repentino do estrelato em massa provaram ser insuportáveis para a frágil estabilidade da banda na época, culminando na saída abrupta de John Frusciante durante a etapa japonesa da turnê em 1992 — um hiato doloroso que quase custou a alma criativa do grupo.

Ainda hoje, BLOODSUGARSEXMAGIK continua a soar fresco, magnético e perigoso. É o retrato de quatro músicos no topo absoluto de suas capacidades, dispostos a trancarem-se em uma casa mal-assombrada para canalizar seus demônios mais profundos em puro ritmo, poesia e eletricidade. Uma pena que depois disso, a banda entrou em decadência...



NERVOSA - 07/09/2026 - CARIOCA CLUB - SÃO PAULO/SP


 

NERVOSA
Abertura: Carro Bomba e Blades of Steel
07/09/2026
CARIOCA CLUB
SÃO PAULO/SP
Produção: TC7 Produções

Texto e fotos: Mauro Antunes

Feriado de segunda feira com um frio para cada um em São Paulo. Este redator não pôde passar o feriado em casa com a família, já que foi para o trabalho, não Home Office. Consegui escapar de lá por volta das 16hs, passei em casa, tomei banho, pus as armaduras e fui rumo ao Carioca Club. Com a promessa da abertura das portas as 18hs, fiz o que um bom headbanger normalmente faz: cheguei para o esquenta, degustei aquele Hot Dog com salsicha sabor vento, comprei uma Long Neck, e pronto: tudo certo para entrar na casa.

Entramos na casa por volta das 18:20hs e a constatação do pequeno público presente, soou a mim, extremamente decepcionante. Talvez, o excesso de shows de Heavy Metal, misturado com a falta de grana, que infelizmente, assola nosso país, possam ter contribuído para o pequeno público. Naquele momento, ficou a expectativa de que até o show da banda principal, a plateia pudesse aumentar.

Poucos minutos depois, o Blades Of Steel iniciou suas atividades. Para quem não os conhece, o som é aquele típico Power Metal, que alguns chamam pejorativamente de Metal Espadinha. Apesar de uma curta carreira, a banda já lançou seu primeiro trabalho (em 2025), auto intitulado. Inclusive, o mesmo estava disponível para venda na barraquinha de “Merchan” em uma caprichada embalagem. O setlist contou com 5 das 8 faixas do CD Standard, destaque para a pesadíssima abertura de “Ruler of the Waves”. Além dela, “Riders of the Night” é muito boa, inclusive a versão de estúdio conta com a participação de ninguém menos que Prika Amaral, a líder do Nervosa. Um Power Metal cheio de riffs pra ninguém botar defeito. Destaque individual fica a incrível presença de palco da vocalista Yara Haag. No momento em que empunhou uma espada lá no alto, imediatamente pensei que ela devia estar fazendo muita força, já que a mesma parecia enorme e pesada. Foram pouco mais de 30 minutos de uma apresentação que realmente faz valer a pena chegar cedo.

Após uma breve pausa, o Carro Bomba entrou em ação. Taí uma banda que admiro e que digo que dá gosto ser fã. Quase todos os clássicos estavam todos no set list: “Máquina”, “Queimando a Largada”, “Migalhas”, “Punhos de Aço”, entre outros. Apesar de, particularmente, não ser um grande fã de faixas em Português, a pegada, a presença de palco, a atitude dos caras realmente é diferenciada. O show de quase 50 minutos foi tão rápido que poderíamos aguentar mais uma hora, tranquilamente. Não é a toa que estão na estrada há tantos anos, há muito tempo não os via ao vivo. Outro ponto positivo foi o som, realmente impecável deu pra ouvir todos os instrumentos. O aquecimento perfeito para o principal show da noite.

Pontualmente as 21h, a Nervosa entrou em cena. Uma pena a ausência da baixista Hel Pyre. Impressionante o poder destrutivo de Prika Amaral, Helena Kotina, Emmelie Herwegh e Michaela Naydenova. “Impending Doom” é uma paulada que não deve nada às bandas Thrash Metal de marmanjos que temos por aí. É a prova definitiva que “Slave Machine” é o melhor trabalho já gravado pela banda.



A banda caprichou no setlist emendando hinos de todas as fases de sua carreira: “Masked Betrayer” que sempre é muita saudada nos shows, e que foi o primeiro hit da banda também marcou presença. Da década passada, ainda tivemos “Death!” e “Kill the Silence” deixando de lado pedradas como “Hostages” e “Intolerance Means War”, por exemplo.

O destaque maior ficou por conta das faixas dos 2 últimos trabalhos que ostentam quase todo o lineup que temos no momento (infelizmente, Emmelie não tocou em “Jailbreak”). Ficou muito claro que a presença de Helena Kotina na guitarra deu um peso, brutalidade e técnica no som da Nervosa. Ela foi o centro das atenções em faixas como “Ghost Notes”, “You Are Not a Hero”, “Jailbreak” e na insana faixa título do novo trabalho.



Ah, e teve também o inusitado cover do “Ozzy brasileiro” (nas palavras de Helena Kotina, Rita Lee), “Obrigado Não”. Como não conhecia a faixa original, não consegui curtir a faixa como as demais.

Uma pena que o show teve apenas uma hora de duração, sendo inegável que as meninas deixaram e entregaram tudo o que podiam. Prika parece ter nascido pra cantar agressivamente; olhando a carreira do Nervosa de trás para frente, fica difícil entender o porquê dela não ter percebido antes, a sensacional frontwoman que é. Emmelie tem uma presença de palco surreal, Michaela parece um motorzinho bem afiado e Helena é uma máquina de riffs; sua presença de palco chega a ser assustadora.

Assim que acabou o show, as meninas desceram à pista e atenderam todos os fãs que as abordaram, inclusive este redator teve a oportunidade de ter um rápido contato com todas elas. O profissionalismo tomou conta da banda, e cada vez mais, vemos o que as tornou tão grandes como são. Consigo imaginar a Nervosa na ativa por ainda muitos anos: o Metal agradece!




EDGUY - MANDRAKE 25 ANOS

 


MAGIA, PESO E SARCASMO: OS 25 ANOS DE MANDRAKE, O DISCO QUE REDEFINIU O EDGUY

Mais maduro, ousado e avesso a fórmulas prontas, o clássico de 2001 provou que o power metal alemão ainda tinha muito espaço para se reinventar

Por William Ribas

O Edguy explodiu no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Antes mesmo de o genial Tobias Sammet criar o magistral Avantasia, ele já havia se consolidado ao lado de Jens Ludwig (guitarra), Dirk Sauer (guitarra), Tobias Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria). A história da banda começou em 1992, na Alemanha, e em 1995 veio Savage Poetry. Ou seja, em menos de uma década o grupo já chegava ao seu quinto trabalho de estúdio e dividia com o Stratovarius o posto de um dos grandes nomes do Power Metal naquele momento.

Lembro muito bem de ler as ótimas críticas sobre o álbum na Rock Brigade e na Roadie Crew. E, como tantas outras vezes aconteceu depois de ler uma resenha, fui até uma loja comprar o CD. Aquela capa azul, com um bobo da corte de olhos esbugalhados manipulando uma pequena dançarina, chamava atenção logo de cara. Havia ali algo tenso e sarcástico, uma imagem que combinava perfeitamente com o que eu encontraria quando colocasse o disco para tocar.

Musicalmente, não demorava nem um pouco para reconhecer aquele Power Metal melódico e bombástico que eu já havia conhecido em "Vain Glory Opera" (1998) e "Theater of Salvation" (1999). Mas Mandrake tinha alguma coisa diferente. A banda parecia mais segura, mais madura e já dava alguns passos na direção do que ouviríamos nos trabalhos seguintes do Edguy. O álbum também marcou o último lançamento de estúdio da banda pela AFM Records.

Bem, sentei na minha cama, com o encarte na mão, e apertei o play. A introdução de “Tears of a Mandrake” começou e veio aquele primeiro pensamento: “Ué, é tão diferente não começar com uma música rápida? Que sem graça!”. Só que aí veio o refrão e tudo mudou. Em poucos segundos eu já estava cantando aos berros — pobres vizinhos.


Não começar com os dois pés na porta foi uma excelente sacada. “Tears of a Mandrake” cresce aos poucos, ganha força a cada passagem e, quando chega ao refrão, já é impossível ficar parado. É empolgante. Você escuta e imediatamente se imagina no show, pulando, batendo palmas e cantando junto.

“If the storm when the magic has gone / Drown in the tears of a mandrake” — bastavam aquelas primeiras explosões do refrão para entender que o disco tinha começado muito bem. Eu que reclamei cedo demais.

E se o início mais cadenciado me causou alguns segundos de estranheza, as próximas músicas ganharam pontos imediatamente. “Golden Dawn”, “Jerusalem”, “All the Clowns” (com um clipe sensacional) e a maravilhosa “Nailed to the Wheel” vieram na sequência para fazer a minha alegria. Inclusive, “Nailed” tem um lado porrada que “bate na trave” de ser Thrash Metal.

É justamente aí que o álbum começa a revelar sua maior qualidade: ele não fica preso à fórmula que havia colocado o Edguy no mapa. Depois de Theater of Salvation, seria muito fácil simplesmente repetir a receita, colocar mais teclados, mais velocidade, mais coros, mais orquestração e seguir em frente. Mas aqui as guitarras ganham mais importância, o peso aparece com mais frequência e existe uma certa escuridão percorrendo várias das músicas. O Edguy continua sendo o Edguy — melódico, épico e cheio de refrãos memoráveis —, mas apareceu muito mais interessado em experimentar diferentes maneiras de chegar ao mesmo impacto.

“The Pharaoh” talvez seja o maior exemplo de como o Edguy conseguia transformar uma composição longa em algo que não soasse cansativo. São mais de dez minutos de música, mas existe movimento o tempo inteiro. A introdução com aquela atmosfera oriental, a construção sombria, as mudanças de dinâmica, a interpretação de Sammet... Tudo corrobora para fazer da faixa um dos grandes épicos da carreira da banda. É também uma música que pede mais e mais audições. Na primeira vez, você provavelmente fica preso à melodia. Depois começa a prestar atenção nos detalhes. E é aí que Mandrake mostra que existe muito mais acontecendo por baixo dos “panos” entre os refrãos e melodias chiclete.

Depois de tanta coisa acontecendo, “Wash Away the Poison” chega para diminuir a velocidade. É uma faixa mais delicada, quase uma pausa dentro do álbum, e funciona justamente por isso: um respiro. O piano e os elementos mais suaves criam um contraste interessante antes de a banda voltar a colocar peso nas coisas. Aliás, isso é um clichê dentro do estilo, né? Velocidade a torto e a direito para pisar no freio e novamente pisar no acelerador.

“Fallen Angels” traz um riff mais direto, e a música antecipa algumas das características que apareceriam com mais força em Hellfire Club. Há menos dependência do Power Metal; é como se colocássemos o pontapé para o futuro do Edguy aqui. “Painting on the Wall” retorna ao terreno mais familiar, enquanto “Save Us Now” deixa claro que Tobias Sammet jamais permitiria que um disco do Edguy terminasse sem uma boa dose de humor. É uma música divertida, quase absurda, sobre coelhos alienígenas tocadores de bateria tentando dominar o planeta.

Essa é uma das coisas que diferenciam o Edguy de várias outras bandas do gênero. Tobias nunca pareceu preocupado em manter uma postura permanentemente séria ou sombria. Ele consegue falar sobre anjos, demônios, religião, corrupção, liberdade e conformismo e, na música seguinte, aparecer cantando sobre alguma maluquice. E Mandrake equilibra muito bem essas duas faces.

E talvez essa seja outra razão pela qual Mandrake continua interessante tantos anos depois.

Também é impossível não falarmos da evolução de Tobias Sammet. Ainda existem ecos bastante claros de suas influências, mas ele já estava encontrando sua própria identidade. Ainda existiam os pôsteres dos seus ídolos na parede, mas, agora que ele também era uma referência para outras pessoas — agora era ele que tinha seu pôster influenciando uma nova geração. Com isso, a voz ficou mais agressiva em alguns momentos, mais segura em outros, e ele começa a explorar melhor os registros graves e médios sem abrir mão daqueles agudos que se tornariam uma de suas marcas.

E, apesar de Tobias naturalmente ser o grande nome do Edguy, Mandrake funciona porque existe uma banda por trás dele. Jens Ludwig é especialmente importante, mas baixo, bateria e segunda guitarra ajudam a sustentar essa mudança de direção. Felix Bohnke, por exemplo, não precisa transformar cada música em uma demonstração de velocidade. Seu trabalho está muito mais ligado à dinâmica das composições, com boas viradas e uma condução que deixa as músicas respirarem.

Talvez por isso Mandrake seja tão importante dentro da discografia do Edguy. Ele ainda carrega praticamente tudo que fez a banda conquistar seu espaço: Power Metal melódico, refrãos enormes, velocidade, fantasia e aquela energia quase juvenil. Mas já existindo algo diferente acontecendo no reino. Acaba sendo o fechamento de um capítulo de quase uma década — O Edguy estava amadurecendo.

E, seja justamente por isso que o álbum tenha um lugar tão especial.