terça-feira, 15 de setembro de 2026

FAMOUS STRANGERS - FAMOUS STRANGERS (2026)

 


FAMOUS STRANGERS
FAMOUS STRANGERS
Rockshot Records - Importado

O autointitulado álbum de estreia do FAMOUS STRANGERS (nome muito bem sacado, diga-se) mostra uma banda que não tem medo de transitar pelos mais variados cenários musicais — do peso ao clima atmosférico. Com uma produção cuidadosa e uma identidade bem definida, o álbum prova que o grupo veio para marcar território e deixar o público sentindo suaa música em um nível mais profundo. O  grupo foi criado em Sherwood Park, Alberta (Canadá) e é formado por veteranos da cena local com mais de 20 anos de bagagem coletiva — passando por bandas como Pugnacious, Compromise, This Is War e The Order of Chaos. Dessa forma, o quarteto entrega um som que une a energia dos clássicos ao peso contemporâneo.

Amanda Kiernan (vocal), Jeff Kittlitz (guitarra e backing vocal), Braden Sustrik (baixo e backing vocal) e Brian "Beej" Jolly (bateria e backing vocal). nos trazem sete faixas bem produzidas e cheias de energia. Sem seguir uma fórmula específica, o grupo se deixa levar pelo sentimento que cada composição exige e mostra versatilidade em mesclar peso, melodia, vocais rasgados, cozinha alinhada e disposição pra escrever sua própria história.

O álbum começa com "Fire Inside", que como o próprio título entrega, vem numa energia intensa. Trazendo uma pegada bem atual, mas com peso e vocais bem técnicos por parte de Amanda (que sabe colocar sua voz à necessidade de cada composição), a faixa é o cartão de visitas perfeito para o restante do trabalho. "Ghosts of Men", segue a mesma linha e a curiosidade é que, sendo um dos primeiros singles da banda, quase ficou de fora do álbum. Mas foi "repaginada" com uma pegada mais crua e direta. Mais cadenciada e pesada, "Please Her", tem um quê de Hard Rock em sua estrutura, principalmente pelos riffs de Jeff Kittlitz. Já "As You Leader", vem com uma dose extra de peso, mas flerta demais com o metal "alternativo" (se é que me faço entender). Não é um ponto negativo, mas a banda mostrou que pode ser mais criativa e fugir desse estereótipo. Mas, a verdade é que a banda não se prende a fórmulas préestabelecidas. Portanto, ainda que não tenha me agradado, ponto pra eles. "Desires" é rock n' roll na veia! Veloz, intensa e sem muito papo, a faixa é o destaque do álbum! Composta pelo guitarrista Jeff quando este estava no festival Bloodstock, ela capta a energia de um show de rock intenso e vibrante. Uma pegada quase punk é o que encontramos "Far Away From Home", enquanto o final vem com "Rain", com seus 9 minutos de duração, composta ao violão. Trazendo uma interpretação bem interessante de Amanda (onde sua voz mais uma vez se encaixa no estilo), ela fecha o trabalho mostrando que a banda sabe fugir do lugar comum.

O álbum gira em torno do tema do autoconhecimento e de "conhecer o próprio valor", utilizando experiências pessoais para transmitir mensagens de amor-próprio, superação e crescimento, lembrando o ouvinte de que ele sairá mais forte de qualquer adversidade. Isso tudo, conforme o release da banda. No entanto, pelo lado sonoro, o FAMOUS STRANGERS traz um álbum que é uma jornada diversificada e sem amarras de gêneros, misturando riffs pesados com pegada alternativa, momentos altamente enérgicos e explosivos. Uma boa estreia. Agora é esperar se o grupo consegue se manter nesse disputado mundo do metal mundial.

Sergiomar Menezes





EXUMER - DARK MASK MESSIAH (2026)

 


EXUMER
DARK MASK MESSIAH
Shinigami Records/Metal Blade Records - Nacional

O EXUMER nunca precisou ocupar o topo do Teutonic Big Four para provar seu valor. Mas Death Mask Messiah chega com a força de um tiro de canhão devastando uma trincheira sem qualquer aviso. Sete anos depois de Hostile Defiance, a instituição alemã do Thrash Metal retorna reenergizada, furiosa e com disposição para transformar cada segundo deste álbum em uma nova pancada — ou, possivelmente, na melhor máquina de destroçar pescoços de 2026.

Existe uma conexão evidente com a essência que tornou Possessed by Fire um clássico, mas Death Mask Messiah não tenta simplesmente reproduzir o passado. O EXUMER pega aquela velha agressividade, acrescenta décadas de experiência e entrega tudo com uma execução moderna, precisa e impiedosa. É Thrash Metal rápido na medida certa, mas suficientemente dinâmico para não transformar velocidade em monotonia.

A produção entrega sujeira e peso, enquanto a nova cozinha, com Alex Voß no baixo e Jerome Reil na bateria, mostra serviço desde os primeiros minutos. Reil não economiza nos ataques e ajuda a empurrar as músicas para frente, enquanto o baixo dá sustentação ao paredão de guitarras formado por Ray Mensh e Marc Bräutigam.

A faixa-título não perde um segundo. O riff já chega cortando e estabelece o tom do álbum: agressividade, velocidade e aquela tensão típica do jeitão Thrash alemão. “Blinding Skies” mantém o ataque e mostra que a abertura não é exceção. A banda acelera, freia, volta a acelerar e constrói mudanças suficientes para manter o ouvinte preso à música.

“Eradication” e “Allocated Savagery” acrescentam uma veia Crossover que deixa o material ainda mais nervoso. “Serpent” traz uma pegada que, em determinados momentos, remete ao Exodus, enquanto “Scorcher” aposta em gritos coletivos e uma sequência de solos que aumenta ainda mais a temperatura. Já “Fratricide” mostra o outro lado do EXUMER: riffs mais pesados, secos e esmagadores, provando que a banda também sabe destruir sem precisar correr o tempo inteiro.

E essa é uma das virtudes do álbum. A velocidade não existe apenas para mostrar que os caras ainda conseguem tocar rápido. Ela serve às músicas. Os riffs são construídos para avançar, os vocais entram como golpes e a bateria mantém tudo em movimento, mas sempre existe um refrão ou uma passagem capaz de segurar a atenção.

Mem v. Stein continua sendo uma das grandes armas do EXUMER. Há uma mistura de urgência e violência em sua interpretação que combina perfeitamente com o instrumental alucinado das onze faixas. E, felizmente, Death Mask Messiah não é apenas uma coleção de pancadas. É possível terminar o álbum e ainda estar com algumas dessas passagens rodando na cabeça — o tipo de sequência de golpes que praticamente não dá espaço para respirar.

“Frozen Ground” encerra o material inédito mantendo a pressão até o último instante, antes de “Unchained Angel”, do Nasty Savage, fechar o trabalho como uma escolha certeira. É uma maneira perfeita de reafirmar as raízes sem transformar o álbum em uma peça de museu.

O EXUMER ainda está com fome.

E Death Mask Messiah é a prova de que essa fome continua sendo perigosa.

William Ribas




RUTHLESS - CURSE OF THE BEAST (2026)

 


RUTHLESS
CURSE OF THE BEAST
Shinigami Records/Fireflash Records - Nacional

Há dois anos conheci o Ruthless quando resenhei “The Fallen”, disco que fez a banda ressurgir após alguns bons anos de hiato. Após o silêncio ser cortado pelo riff inicial da faixa-título, passei a gostar da banda. Pois bem, estava curioso para este novo trabalho — e mantive o Ruthless no radar nesse período.

Formada nos anos 80, é óbvio que não teremos novidades. Não existe nada atual, nada moderno — a única e exclusiva intenção em “Curse Of The Beast” é fazer Heavy Metal à moda antiga. E, sinceramente, ainda bem.

Depois da breve intro “The Blood Moon”, a faixa-título entra como se alguém tivesse simplesmente aberto a porta de um galpão e soltado uma avalanche de riffs. É pesado, direto e cheio daquela energia que faz você imediatamente aumentar o volume. Não existe aqui a preocupação em transformar cada música em alguma experiência conceitual. O negócio é tocar Metal.

O Ruthless conhece perfeitamente a escola de onde veio. “Raging Violence” tem peso suficiente para agradar quem gosta de uma pegada mais agressiva, enquanto “Berserker” é daquelas músicas que parecem ter sido compostas com uma finalidade bastante específica: fazer o sujeito bater cabeça. Já “Suffocating Fear” apresenta uma dinâmica interessante, começando de maneira mais cadenciada e crescendo a cada nota.

Se existe uma coisa que me ganhou definitivamente neste disco, são as guitarras. Glen Paul e David Servantez parecem ter combinado que não existe espaço para economia quando o assunto é guitarra. Os riffs são pesados, os solos aparecem com frequência e as harmonizações estão espalhadas pelo álbum.Sabe quando duas guitarras fazem aquela velha conversa em harmonia que tanto amamos nos “velhos” álbuns do Judas Priest, Iron Maiden e Accept? A dupla entrega isso com maestria.

“Blood Coalition” engana por exatos 30 segundos. De possível balada para uma pedrada. Direta, potente e cheia de quebras. “Sign Of The Cross” é outro daqueles momentos em que a banda mostra sua capacidade de trabalhar com diferentes velocidades sem perder a identidade. “Killed By Fate”, por outro lado, vem mais para o ataque e mantém aquela sensação de que o álbum nunca realmente pisa no freio.

E existe uma coisa que também ajuda muito: o disco não fica tentando transformar cada faixa em um épico de oito minutos. A temática também não poderia ser mais adequada. Horror, guerra, sangue, caos, ocultismo... Às vezes, uma boa história de terror, um riff sinistro e um vocal rasgado já são capazes de nos fazer felizes.

São 12 músicas, pouco mais de 50 minutos, e a coisa anda. Quando você se dá conta, já está chegando ao final com “Metal Gods”. Fazendo o “simples”, sem mexer no sagrado, o Ruthless “paga” um belíssimo tributo ao Judas Priest e fecha de maneira certeira seu quinto álbum de estúdio.

E talvez seja justamente essa a melhor definição para “Curse Of The Beast”: não é um disco preocupado em reinventar o Heavy Metal. É o básico bem feito — o tal “menos é mais”.

Ouça!

William Ribas




ACCEPT - TEUTONIC TITANS 1976 - 2026 - HALF A CENTURY OF HEAVY METAL

 


ACCEPT
TEUTONIC TITANS 1976 - 2026 
Napalm Records - Importado

Para marcar seus 50 anos de carreira, o Accept fugiu do óbvio pacote de grandes sucessos remasterizado e lançou, em 4 de setembro pela Napalm Records, o "Teutonic Titans 1976-2026". São 19 clássicos regravados com a participação de 50 músicos convidados, um para cada ano de existência da banda, sob o comando de Wolf Hoffmann, que puxa a guitarra em praticamente todas as faixas, com Mark Tornillo segurando o vocal como fio condutor na maior parte do disco. Um fato curioso neste lançamento ficou conta da curadoria do repertório, que cobre apenas o período de 1980 a 1989, ou seja, as fases com Udo Dirkschneider e, em "Eat the Heat", David Reece nos vocais. Fica de fora tanto a estreia de 1979 quanto qualquer faixa da era Tornillo, que já dura mais de 15 anos, o que causa certa estranheza.

Dito isso, é dentro desse recorte específico que o disco funciona muito bem. Logo de cara, "Fast as a Shark" entrega o recado com Phil Anselmo mandando muito bem no vocal e Kirk Hammett arrasando no solo, enquanto Mikkey Dee e Billy Sheehan seguram uma cozinha daquelas, à altura de um dos riffs mais velozes da carreira da banda. Em seguida vem "Balls to the Wall", e aqui Wolf acerta em cheio ao colocar Rob Halford no maior clássico do Accept: o Metal God canta do seu próprio jeito, sem tentar imitar o Udo, e ainda assim entrega uma das participações mais marcantes do disco.

O meio do álbum concentra algumas das minhas faixas favoritas da carreira da banda, e é justamente aí que o disco mais brilha. "Aiming High" ganha uma excelente performance de Chuck Billy dividindo os vocais com Mark, com Gary Holt e David Ellefson completando o time, um som que honestamente deveria aparecer mais nos shows da banda. "Run If You Can" é, sem dúvida, um dos pontos altos do disco inteiro: Todd La Torre destrói em cima de uma das minhas músicas favoritas do Accept, dividindo os vocais com Mark, que canta junto com os convidados em praticamente todas as faixas. E "Metal Heart" ganha uma introdução linda de violino elétrico, com Dino Jelusick (uma grata surpresa, um dos melhores vocalistas da atualidade) dividindo os vocais com Mark e Joel Hoekstra somando guitarra com Wolf.

Tem ainda uma surpresa que merece destaque à parte: "Hellhammer", tirada justamente de "Eat the Heat", disco de 1989 injustamente execrado por boa parte do fandom (não por mim, que sempre gostei bastante desse trabalho mais hard rock da banda). A releitura da faixa é excelente e ajuda a resgatar o prestígio de um álbum que merece mais respeito do que costuma receber.

A sequência de clássicos segue forte com "Losers and Winners", perfeitamente dividida entre Mark, Wolf e os convidados, e "Save Us", elevada pela interpretação sempre teatral de Tobias Forge, que parece ter nascido pra cantar essa música. "Up to the Limit" traz John Bush, um dos vocalistas mais injustiçados e menos reconhecidos do metal, numa participação de peso, e "Wrong is Right" ganha uma bela contribuição de Ralf Scheepers dividindo vocais com Mark. "Starlight" e "Fight It Back" seguem a mesma toada de execução impecável, sem grandes sustos, mas também sem deixar a peteca cair. "Breaker" mantém o nível com a participação de Girish Pradhan, e "Demon's Night" ganha uma combinação e tanto entre Bobby Blitz e Mark. Já "T.V. War", faixa quase esquecida no repertório da banda, prova nessa regravação que é tão boa quanto os grandes clássicos, mérito também da escolha certeira dos convidados.

Nem tudo funciona, porém. "Love Child" é a escolha mais estranha e menos esperada do álbum: Billy Corgan no vocal deixa a música com menos força e poder do que o clássico pede, ainda mais tratando-se de uma das faixas mais queridas da banda. "London Leatherboys", com Sebastian Bach, e "Monsterman", com Jeff Scott Soto (um dos meus vocalistas favoritos de todos os tempos, que fique claro), também não encaixam tão bem quanto o resto do disco. Não que fiquem ruins, longe disso, mas simplesmente não soam tão "Accept" quanto as demais regravações.

O encerramento fica por conta de "Restless and Wild", com K.K. Downing dividindo guitarra com Wolf numa dupla e tanto, fechando o disco com chave de ouro num dos maiores clássicos da carreira da banda.

No saldo geral, "Teutonic Titans 1976-2026" acerta muito mais do que erra. É um disco que resgata clássicos menos lembrados, reforça o peso das faixas mais queridas e celebra com brilho cinco décadas de carreira. Fica, no entanto, a sensação de uma comemoração pela metade: ao se limitar às fases Udo e David Reece, o disco ignora completamente a era Tornillo, que já responde por mais tempo de banda do que muita gente lembra, e deixa de fora até o próprio Udo (mesmo que todos saibam do obvio), cuja voz é a marca registrada de praticamente tudo que está sendo celebrado aqui.

Fernando Aguiar






FLOTSAM AND JETSAM - RATS IN THE TEMPLE (2026)

 


FLOTSAM AND JETSAM
RATS IN THE TEMPLE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Há bandas que vivem eternamente daquilo que fizeram nos primeiros anos de carreira. Flotsam and Jetsam poderia facilmente estar nesse grupo. Afinal, quando uma banda começa sua discografia com "Doomsday for the Deceiver" e, pouco depois, entrega "No Place for Disgrace", é inevitável que qualquer lançamento posterior seja comparado àquela fase. Só que existe algo particularmente interessante na história dos americanos: mesmo depois de atravessar períodos bastante irregulares, eles nunca perderam completamente a capacidade de fazer um disco de metal realmente relevante.

Rats in the Temple chega justamente nesse ponto da carreira. Quarenta anos depois do início da história, a banda não parece interessada em simplesmente reproduzir o passado ou viver de nostalgia. Muito pelo contrário. Os últimos sete anos mostram o quão afiados estão. A sequência matadora, iniciada com "The End of Chaos" (2019), "Blood in the Water" (2021) e "I Am the Weapon" (2024), agora ganha mais um capítulo: Rats in the Temple.

O que existe aqui é uma tentativa de juntar diferentes momentos de sua identidade em um único trabalho: a velocidade e a agressividade do thrash, as melodias do power metal americano e algumas passagens mais tradicionais de heavy metal.

E eles novamente acertaram em cheio!

“Harvesting the Hate” já deixa isso bastante claro. A introdução cria uma expectativa quase cinematográfica antes de a banda entrar rasgando tudo. Quando Eric A.K. aparece, sua voz continua sendo um dos elementos que tornam Flotsam and Jetsam imediatamente reconhecível. Os anos passaram, evidentemente, mas, em vez de tentar esconder isso, a banda parece aproveitar as características atuais de sua voz. Talvez seja justamente essa combinação entre experiência e agressividade que faça o álbum funcionar tão bem.

“Damnation” mergulha em um clima mais pesado e sombrio, enquanto “Absolution” recupera aquele thrash que anda no bagageiro da banda desde os anos 1980. A diferença é que, aqui, os riffs rápidos dividem espaço com refrãos mais grandiosos e melódicos. Essa alternância entre ataque e melodia é praticamente a assinatura da fase atual, que, sinceramente, acho a melhor do Flotsam and Jetsam.

“Blame the Knife” aparece como uma das faixas mais fáceis de absorver. Há um groove particularmente contagiante e um refrão daqueles que são perfeitos para os shows. É uma música acessível sem transformar a banda em algo genérico. A faixa-título volta a colocar o pé no acelerador — a entrada dos riffs e da bateria muda completamente o cenário. Facilmente cresce no ouvinte a vontade de bater cabeça e erguer os punhos. “Rats in the Temple” é energética e melódica nos momentos certos, possivelmente a música que mais representa o que, de fato, são as 13 músicas do tracklist.

E, se existe uma característica que atravessa praticamente todo o álbum, é essa preocupação com melodias. Mesmo quando a banda está tocando pesado, existe quase sempre alguma guitarra trabalhando por trás, algum vocal adicional ou uma linha melódica tentando escapar do peso dos riffs. Michael Gilbert e Steven Conley têm papel fundamental nisso, dando uma personalidade ímpar às músicas.

“First on the Spike” traz uma leve mudança interessante. O peso ganha uma certa malícia de groove, e a banda mostra que não precisa permanecer presa à velocidade para soar agressiva. Já “The Edge of Nowhere” retoma a velocidade e coloca novamente as guitarras no centro da ação. No momento em que li “Last Rites”, juro que pensei que seria o momento de respiro no álbum. Engano meu. A banda não desacelera; pelo contrário, aposta em riffs rápidos e uma atmosfera quase sufocante.

A introdução de “A Taste for War” chama atenção pela interação entre baixo e bateria e cria uma expectativa interessante, mas a música não desenvolve completamente o potencial daquele começo. Não é ruim, mas se perde, sendo a mais fraca do disco. Felizmente, “Her Blood, Your Pain” aparece logo na sequência e recupera o equilíbrio com ótimas linhas melódicas. “Anthem for the Broken” é outro daqueles momentos em que a banda parece enxergar o palco antes mesmo de sair do estúdio. O refrão é direto e feito para funcionar ao vivo. Existe uma simplicidade calculada ali, uma maneira de construir tensão nos versos para depois hipnotizar nos refrãos — Rats in the Temple poderia se encerrar aqui que todos estaríamos sorrindo de orelha a orelha.

Mas não! “Not Goin’ Down That Way” é a responsável por fechar o álbum. É uma escolha interessante para o encerramento porque, consciente ou não, existe algo quase simbólico. Depois de quatro décadas, tantas mudanças na música pesada, fases boas e ruins, mudanças de formação, tendências que surgiram e desapareceram, Flotsam and Jetsam continua aqui.

E continua fazendo barulho. Até aqui, um dos melhores álbuns que escutei esse ano.

Rats in the Temple não é um disco que tenta convencer ninguém de que estamos novamente em 1986. É muito mais interessante: um trabalho de músicos veteranos que conhecem profundamente aquilo que construíram em todos esses anos — o lado pesado, melódico, sombrio e, acima de tudo, a honestidade com a identidade da banda.

É isso. Rats in the Temple é honesto — um redemoinho de riffs para fazer nossa cabeça balançar.

William Ribas