Lançado em um mundo pré-streaming e sob a sombra de St. Anger, o álbum que completou a maioridade marcou não um retorno ao passado, mas a redenção sonora e o renascimento definitivo dos gigantes do thrash metal
Por William Ribas
Olhar no calendário e ver que hoje, o tal álbum com um caixão na capa está chegando à maioridade é, de certo modo, “estranho”. Quando o álbum saiu, estávamos na febre do Orkut e suas comunidades. O download ilegal reinava absoluto — Lars ainda era “odiado” por conta do processo contra o Napster. Estávamos longe do Spotify e o YouTube tinha acabado de parar de engatinhar e estava “dando seus primeiros passos”. Ou seja, outro mundo.
Death Magnetic vinha com uma enorme expectativa em torno dele. Afinal, haviam se passado cinco anos desde St. Anger. Uma enorme dúvida pairava pelo ar. Seria mais uma decepção? Ou agora Lars, James, Kirk e Rob voltariam a colocar esse “trem” nos trilhos? A turnê, que durou três anos, teve quatro DVDs, passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Europa, Ásia e Oceania, totalizando 182 shows, responde por si só.
A abertura com os batimentos cardíacos deixou todos apreensivos — mas a mão direita mais certeira do thrash metal tratou de mostrar que a banda estaria diferente agora. “That Was Just Your Life” era rápida, obviamente, não como nos quatro primeiros álbuns (esse Metallica não existe mais, ok?), mas fazia uma boa dupla com “The End of the Line”. Ambas trazem um bom impacto para os primeiros minutos.
A seguinte vinha como uma boa forma de resistência: “Levante, caia, levante novamente, aquilo que não te mata, te fortalece”. “Broken, Beat & Scarred” é arrastada, mas certeira. O refrão e os solos de Kirk são a cereja do bolo da música, o peso que antecede a calmaria.
“The Day That Never Comes” virou queridinha. Ganhou um clipe e o rótulo de uma nova “One”, tudo por aquele jeito Metallica de fazer power ballads — linhas dedilhadas e melódicas, peso no refrão e final rápido e explosivo. “Day” segue no set até hoje, tornando-se a música do álbum mais tocada até o momento: 232 vezes.
“All Nightmare Long” chega para trazer novamente a velocidade do início do álbum. Talvez seja uma das faixas que melhor representam aquilo que a banda queria entregar naquele momento: riffs, mudanças de andamento, um refrão forte e aquele clima sombrio que combina perfeitamente com o conceito por trás do disco.
“Cyanide” vem na sequência e mantém o álbum andando em uma velocidade confortável. De certo modo, a faixa traz consigo um ar mais “comercial”. E, indo nesse caminho, chegamos a “The Unforgiven III”. Distante das duas primeiras partes, tem na interpretação de Hetfield sua chama motriz — seus medos, erros e perdões.
“Judas Kiss” é outro daqueles momentos em que o disco lembra o ouvinte de que, sim, estamos falando do Metallica. O riff principal é daqueles que entram na cabeça imediatamente, e a música tem uma dinâmica que alterna momentos mais cadenciados com explosões de velocidade. É uma das faixas que mais se beneficiam daquele som enorme que a banda buscava para o disco.
E, sinceramente, para mim, é uma das heranças daquele trabalho tão odiado por todos: a volta das faixas longas, com grandes mudanças de andamento.
Falando em música longa, “Suicide & Redemption”. É uma faixa para ouvir com calma, prestando atenção nos riffs, nas mudanças e, principalmente, na interação entre os instrumentos. E tem um detalhe histórico interessante: é a primeira instrumental do Metallica desde “Orion” a trazer a formação completa da banda como compositores.
Depois disso tudo, ainda existe o golpe de misericórdia: “My Apocalypse”. Rápida, agressiva e direta, ela talvez seja a maior prova de que o Metallica queria recuperar parte daquela identidade que havia ficado tão distante em Load e Reload. Está longe de ser “Damage, Inc.” ou “Dyers Eve”, mas existe aqui uma banda tentando recuperar aquela sensação de urgência.
CONSEGUIRAM!
Em meio à turnê, abrirl de 2009 trouxe um daqueles momentos que entraram para a história da banda: o Metallica foi oficialmente introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame. Na cerimônia, além dos quatro integrantes da formação atual, subiram ao palco Jason Newsted e Ray Burton, pai do saudoso Cliff Burton. Newsted ainda se juntaria à banda para tocar “Master of Puppets” e “Enter Sandman”. Já em novembro do mesmo ano, o Metallica voltou ao icônico Madison Square Garden, em Nova York, para duas apresentações especiais. E 2010 reservaria outro capítulo histórico. Em junho, aconteceria o tão aguardado encontro do Big Four: Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax dividindo os mesmos palcos. O que começou com algumas apresentações em festivais se transformaria em um dos momentos mais emblemáticos da história do thrash metal, culminando com a gravação do show de Sofia, na Bulgária.
Death Magnetic não é perfeito. Novamente, a produção foi apontada como problemática. O som soa comprimido e estourado se o ouvinte resolve passar do “volume 10”, deixando uma ponta de decepção. Afinal, estamos falando de uma banda que chegou à perfeição em termos de mixagem e masterização em trabalhos dos anos 90.
Mas, olhando para o álbum 18 anos depois, talvez seja mais fácil entender sua importância.
Ele não trouxe o Metallica de 1983, 1986 ou 1991 de volta. Trouxe algo mais importante: o Metallica de volta a ser o Metallica.
Em sua turnê, a banda tocou 76 músicas diferentes e voltou a passar pelo Brasil após quase 11 anos longe de terras brasileiras. Passou por Porto Alegre, no dia 28 de janeiro, e por São Paulo, nos dias 30 e 31 de janeiro de 2010. Algo interessante é que todas as músicas do disco foram tocadas durante a World Magnetic Tour, fato que só havia ocorrido na divulgação de Kill 'Em All, em 1983.
12 de setembro, dentro da história da música pesada, pode ser lembrado como o renascimento musical do Metallica — Death Magnetic é uma espécie de recomeço, colocando a banda definitivamente de volta ao topo.

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