segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DEATH MAGNETIC 18 ANOS - QUANDO O METALLICA DECIDIU SER O METALLICA DE NOVO


Lançado em um mundo pré-streaming e sob a sombra de St. Anger, o álbum que completou a maioridade marcou não um retorno ao passado, mas a redenção sonora e o renascimento definitivo dos gigantes do thrash metal

Por William Ribas

Olhar no calendário e ver que hoje, o tal álbum com um caixão na capa está chegando à maioridade é, de certo modo, “estranho”. Quando o álbum saiu, estávamos na febre do Orkut e suas comunidades. O download ilegal reinava absoluto — Lars ainda era “odiado” por conta do processo contra o Napster. Estávamos longe do Spotify e o YouTube tinha acabado de parar de engatinhar e estava “dando seus primeiros passos”. Ou seja, outro mundo.

Death Magnetic vinha com uma enorme expectativa em torno dele. Afinal, haviam se passado cinco anos desde St. Anger. Uma enorme dúvida pairava pelo ar. Seria mais uma decepção? Ou agora Lars, James, Kirk e Rob voltariam a colocar esse “trem” nos trilhos? A turnê, que durou três anos, teve quatro DVDs, passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Europa, Ásia e Oceania, totalizando 182 shows, responde por si só.

A abertura com os batimentos cardíacos deixou todos apreensivos — mas a mão direita mais certeira do thrash metal tratou de mostrar que a banda estaria diferente agora. “That Was Just Your Life” era rápida, obviamente, não como nos quatro primeiros álbuns (esse Metallica não existe mais, ok?), mas fazia uma boa dupla com “The End of the Line”. Ambas trazem um bom impacto para os primeiros minutos.

A seguinte vinha como uma boa forma de resistência: “Levante, caia, levante novamente, aquilo que não te mata, te fortalece”. “Broken, Beat & Scarred” é arrastada, mas certeira. O refrão e os solos de Kirk são a cereja do bolo da música, o peso que antecede a calmaria.

“The Day That Never Comes” virou queridinha. Ganhou um clipe e o rótulo de uma nova “One”, tudo por aquele jeito Metallica de fazer power ballads — linhas dedilhadas e melódicas, peso no refrão e final rápido e explosivo. “Day” segue no set até hoje, tornando-se a música do álbum mais tocada até o momento: 232 vezes.

“All Nightmare Long” chega para trazer novamente a velocidade do início do álbum. Talvez seja uma das faixas que melhor representam aquilo que a banda queria entregar naquele momento: riffs, mudanças de andamento, um refrão forte e aquele clima sombrio que combina perfeitamente com o conceito por trás do disco.

“Cyanide” vem na sequência e mantém o álbum andando em uma velocidade confortável. De certo modo, a faixa traz consigo um ar mais “comercial”. E, indo nesse caminho, chegamos a “The Unforgiven III”. Distante das duas primeiras partes, tem na interpretação de Hetfield sua chama motriz — seus medos, erros e perdões.

“Judas Kiss” é outro daqueles momentos em que o disco lembra o ouvinte de que, sim, estamos falando do Metallica. O riff principal é daqueles que entram na cabeça imediatamente, e a música tem uma dinâmica que alterna momentos mais cadenciados com explosões de velocidade. É uma das faixas que mais se beneficiam daquele som enorme que a banda buscava para o disco.

E, sinceramente, para mim, é uma das heranças daquele trabalho tão odiado por todos: a volta das faixas longas, com grandes mudanças de andamento.

Falando em música longa, “Suicide & Redemption”. É uma faixa para ouvir com calma, prestando atenção nos riffs, nas mudanças e, principalmente, na interação entre os instrumentos. E tem um detalhe histórico interessante: é a primeira instrumental do Metallica desde “Orion” a trazer a formação completa da banda como compositores.

Depois disso tudo, ainda existe o golpe de misericórdia: “My Apocalypse”. Rápida, agressiva e direta, ela talvez seja a maior prova de que o Metallica queria recuperar parte daquela identidade que havia ficado tão distante em Load e Reload. Está longe de ser “Damage, Inc.” ou “Dyers Eve”, mas existe aqui uma banda tentando recuperar aquela sensação de urgência.

CONSEGUIRAM!

Em meio à turnê, abrirl de 2009 trouxe um daqueles momentos que entraram para a história da banda: o Metallica foi oficialmente introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame. Na cerimônia, além dos quatro integrantes da formação atual, subiram ao palco Jason Newsted e Ray Burton, pai do saudoso Cliff Burton. Newsted ainda se juntaria à banda para tocar “Master of Puppets” e “Enter Sandman”. Já em novembro do mesmo ano, o Metallica voltou ao icônico Madison Square Garden, em Nova York, para duas apresentações especiais. E 2010 reservaria outro capítulo histórico. Em junho, aconteceria o tão aguardado encontro do Big Four: Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax dividindo os mesmos palcos. O que começou com algumas apresentações em festivais se transformaria em um dos momentos mais emblemáticos da história do thrash metal, culminando com a gravação do show de Sofia, na Bulgária.

Death Magnetic não é perfeito. Novamente, a produção foi apontada como problemática. O som soa comprimido e estourado se o ouvinte resolve passar do “volume 10”, deixando uma ponta de decepção. Afinal, estamos falando de uma banda que chegou à perfeição em termos de mixagem e masterização em trabalhos dos anos 90.

Mas, olhando para o álbum 18 anos depois, talvez seja mais fácil entender sua importância.

Ele não trouxe o Metallica de 1983, 1986 ou 1991 de volta. Trouxe algo mais importante: o Metallica de volta a ser o Metallica.

Em sua turnê, a banda tocou 76 músicas diferentes e voltou a passar pelo Brasil após quase 11 anos longe de terras brasileiras. Passou por Porto Alegre, no dia 28 de janeiro, e por São Paulo, nos dias 30 e 31 de janeiro de 2010. Algo interessante é que todas as músicas do disco foram tocadas durante a World Magnetic Tour, fato que só havia ocorrido na divulgação de Kill 'Em All, em 1983.

12 de setembro, dentro da história da música pesada, pode ser lembrado como o renascimento musical do MetallicaDeath Magnetic é uma espécie de recomeço, colocando a banda definitivamente de volta ao topo.



CRIMSON GLORY - CHASING THE HYDRA (2026)

 


CRIMSON GLORY
CHASING THE HYDRA
BraveWords - Importado

Sempre que ouço, vejo ou leio o nome da banda Crimson Glory, volto a 1988, quando via nas revistas importadas da época, o anúncio do álbum “Transcendence”. Naquela época de dificuldades em encontrar material importado, consegui uma gravação em fita do álbum, cerca de um ano depois, e foi amor a primeira ouvida.

“Transcendence” me remetia ao Queensrÿche, banda que gostava muito, porém com mais peso e agressividade, mas com um toque progressivo. Os riffs e solos de guitarras junto a voz incrível do saudoso vocalista Midnight (falecido em 2009), tornaram “Transcendence” um clássico do U.S. Metal oitentista.

O álbum seguinte, “Strange and Beautiful” (1991) foi uma tentativa de atingir o grande público com uma sonoridade mais Hard Rock, fugindo totalmente do som clássico do Crimson Glory, e falhando miseravelmente, levando a dissolução da banda logo a seguir, e dando início a retornos e dissoluções ao longo dos anos. Neste período lançaram “Astronomica”(1999), sem muito destaque, e fizeram várias alterações na formação da banda, uma delas tendo Todd LaTorre (atual Queensrÿche) como seu vocalista.

Em 2023, a banda retorna definitivamente, com três membros originais: Jeff Lords (baixo), Dana Burnell (bateria) e Ben Jackson (guitarra). Completam a formação o guitarrista Mark Borgmeyer e o vocalista Travis Wills. E agora em 2026, o Crimson Glory nos apresenta seu quinto álbum, “Chasing the Hydra”, seu primeiro álbum de estúdio em 27 anos – um lançamento que poucos fãs de metal realmente esperavam acontecer, mas que ao ser ouvido, faz o tempo aguardado ter valido a pena.

Logo no inicio da primeira audição, é possível notar que o clássico som do Crimson Glory está de volta e com força. E não há nada de nostalgia piegas aqui, e sim, a verificação de uma interpretação contemporânea do som característico do Crimson Glory. O álbum começa com "Redden the Sun", uma faixa poderosa e energética que mistura estruturas progressivas com a intensidade clássica do U.S.Metal. É uma introdução forte e promissora. Em contraste, "Broken Together" começa com violão acústico, construindo gradualmente uma composição de seis minutos que mostra a amplitude musical da banda. A interpretação emotiva de Wills, remete a um dos elementos clássicos da banda.

"Angel in My Nightmare" segue um caminho semelhante, destacando-se como uma das melhores faixas do álbum ao unir com sucesso melodia, complexidade e peso emocional. "Indelible Ashes" ecoa a sua “banda irmã mais velha”, o Queensrÿche, e "Armor Against Fate" explora arranjos intricados. Por outro lado, temos a mais pesada e direta "Pearls of Dust”, outro destaque.

O álbum termina com “Triskaideka”, uma composição sombria e cheia de camadas que faz jus ao seu título enigmático. Sua complexidade e estruturas com muitas variações exigem várias audições para realmente apreciar a profundidade de suas melodias e arranjos. Uma faixa simplesmente fantástica. O Crimson Glory está de volta e com toda a força. Um dos lançamentos do ano de 2026.

José Henrique Godoy




MAIDENHEAD - MAXIMUM CLONAGE (2026)

 


MAIDENHEAD
MAXIMUM CLONAGE
Metal Devastation - Importado

Eu tenho uma certa felicidade por bandas que chegam sem pedir licença. Você abre o e-mail, vê uma banda que provavelmente não conhece, dá aquela olhada rápida na capa e pensa: “vamos ver o que esses malucos estão fazendo”. Cinco minutos depois, você está tentando entender por que diabos ainda não tinha ouvido falar deles.

Antes de tudo, ler MAIDENHEAD me fez pensar que estaria diante de algo bem próximo do Iron Maiden. “Ah, essa banda deve fazer algo na linha de Killers, segundo álbum da Donzela de Ferro.” Foi mais ou menos isso que passou pela minha cabeça. Só que, assim que apertei o play, “Enter The Killing Floor” começou e um ar de suspense tomou conta. Aí veio a faixa-título e derrubou qualquer ideia de semelhança com os britânicos.

O que temos aqui é thrash metal com uma dose generosa de death metal, sem qualquer preocupação em suavizar as arestas. A banda entra rápido no assunto e praticamente não perde tempo com apresentações. “Maximum Clonage” já deixa isso evidente, enquanto “False Masked Hero” coloca uma das melhores cartas da banda na mesa.

Os vocais são daqueles que imediatamente dão uma identidade ao disco. Em vez de simplesmente acompanhar os instrumentos, Zeping “Bella” Song acrescenta uma personalidade própria às músicas. Em “False Masked Hero”, especialmente, sua interpretação transforma a faixa em algo ainda mais ameaçador, enquanto “Magia Obscura” mostra uma abordagem diferente, acompanhando o clima mais sombrio da composição.

Maximum Clonage é o segundo álbum dos caras e, apesar de independente, não tem exatamente aquela cara de banda que resolveu gravar um disco no quarto. Pelo contrário. Tem gente bastante conhecida envolvida aqui, incluindo dois guitarristas que já passaram pelo Megadeth: Chris Poland, em “Kill Or Be Killed”, e Glen Drover, em “False Masked Hero”. Além deles, Rich Gray, do Annihilator, participa do baixo em boa parte do material.

Mas ainda bem que o MAIDENHEAD consegue jogar sozinho.

As guitarras de Zack Roberts e Vance Simmons têm bastante a dizer, mas o mérito está menos em mostrar serviço e mais na maneira como os riffs são encaixados. A dupla traz aquela escola de thrash americano em que a música pode mudar de direção sem precisar anunciar a curva com antecedência. Há um sabor de Megadeth em determinados momentos, principalmente na maneira como os riffs se movimentam, mas o MAIDENHEAD não passa o disco inteiro tentando imitar ninguém.

“Death March” segue por outro caminho. A faixa tem uma sensação quase mecânica, como se estivesse avançando em linha reta e arrastando tudo junto. “Kill Or Be Killed” merece atenção especial também, não apenas pela música em si, mas pela presença de Chris Poland. É sempre curioso ouvir um músico associado a uma determinada fase do Megadeth aparecendo em um trabalho tão distante daquela banda. E, felizmente, o solo não parece uma participação colocada ali apenas para enfeitar o encarte.

O álbum fica bastante curioso quando chegamos a “Hasta La Proxima” — A música começa com uma guitarra limpa, criando um espaço que praticamente inexistente até aquele momento. Eu sei que serviu com um fechamento,. E justamente por isso a faixa acaba mostrando uma possibilidade que o disco poderia explorar mais: contraste.

São aproximadamente trinta minutos. E, sinceramente? Obrigado. Maximum Clonage cumpre muito bem sua função. É curto e direto, e isso basta!

MAIDENHEAD talvez ainda seja um nome novo para muita gente. Depois deste disco, pelo menos para mim, deixou de ser.

William Ribas




SEPULTURA: O ADEUS QUE PERDEU O TAMANHO DA HISTÓRIA


Entre expectativas, planejamento, convidados que não vieram e uma turnê que se estendeu por quase três anos, a despedida acabou chegando sem o impacto que poderia ter.

Por William Ribas


Antes de qualquer coisa, deixo bem claro: não tenho lado. Obviamente, minha fase favorita é a mesma de 95% dos fãs de Sepultura, mas gosto bastante da fase Derrick Green. Sim, daquela fase que já dura 28 anos. Adoro Dante XXI, A-Lex, Kairos, Machine Messiah e Quadra. Também sou daqueles que gostariam de ver um show dedicado exclusivamente à era Green — inclusive, cansei de escrever nas redes sociais da banda pedindo uma apresentação assim antes do último show.

Estava preparado para estar “No Seu, No Meu, No Nosso, PACAEMBU” no dia 7 de novembro — e que saudade de ouvir isso nos dias de jogos —, mas infelizmente o local “caiu”. O show acabou transferido para um espaço com capacidade para 9 mil pessoas. Basicamente, um lugar com 31 mil pessoas a menos. E isso escancarou ainda mais os erros envolvendo essa tal despedida e tudo o que cercou esses quase três últimos anos.

Bem, nunca acreditei em uma possível participação dos Cavalera. Bastava olhar as entrevistas de ambos os lados: ninguém aliviava. “Os impostores”, “No Cavalera, No Sepultura”. Do outro lado: “Ele está preguiçoso”, “ele nem toca guitarra”. Existe tanta coisa envolvida, tantas versões e, provavelmente, uma verdade no meio de uma história de mais de 30 anos que nós nunca saberemos por completo.

Então, não dava para criar essa ilusão e muito menos usar a ausência dos Cavalera como justificativa para a mudança de local. Claro, uma participação de Max e Iggor teria capacidade de provocar uma nova mudança — mas, nesse caso, provavelmente para um estádio ainda maior.

Enfim, vamos aos outros fatos que, para mim, são mais determinantes.

Precisamos olhar para a história do metal brasileiro antes de qualquer coisa. Quando uma banda brasileira encheu um estádio? E sendo headliner? Pois é: nunca.

O próprio Sepultura, mesmo nos tempos de ouro, não conseguiu isso. Claro, você pode lembrar do show na Praça Charles Miller, mas estamos falando de uma apresentação gratuita, praticamente ao lado do Estádio do Pacaembu. No primeiro show oficial com Derrick Green, houve uma apresentação paga no estacionamento do Anhembi, com cerca de 30 mil pessoas, segundo os dados da época. Ainda assim, menos do que a capacidade prevista para o possível show no Pacaembu.

Pegando essa estreia como referência e trazendo para os dias atuais, o que diferencia uma situação da outra?

As participações especiais.

E aí entra um dos pontos centrais do declínio do estádio.

Em 1998, o Sepultura trouxe Jason Newsted, então baixista do Metallica; Mike Patton, do Faith No More; índios Xavantes; Jairo Guedz, primeiro guitarrista da banda; Zé do Caixão e Carlinhos Brown. Fora Pavilhão 9 e outras bandas de abertura.

E existe um detalhe histórico interessante. Em 2004, o Sepultura realizou o Sepulfest, no então Espaço das Américas — hoje Espaço Unimed —, em comemoração aos 20 anos da banda. Na época, Iggor Cavalera ainda fazia parte da formação e o grupo também estava divulgando Roorback, lançado no ano anterior. O evento contou com Claustrofobia, Ratos de Porão e Nação Zumbi e reuniu cerca de 7 mil pessoas.

Não estou dizendo que seja uma comparação perfeita — eram outros tempos, outro contexto e um formato diferente de evento —, mas o número é importante. Vinte anos atrás, ainda havia um Cavalera na formação, um disco relativamente novo para divulgar e uma celebração de duas décadas de história, e mesmo assim o evento ficou na casa dos 7 mil espectadores.

Isso ajuda a colocar as coisas em perspectiva. A capacidade de atração do Sepultura nunca foi tão linear quanto pode parecer quando olhamos apenas para os grandes momentos da carreira.

E isso nos leva novamente ao Pacaembu.

Vinte e oito anos depois, quem a banda está trazendo?

Até o momento, nenhum nome de peso para participar dessa celebração.

Com todo respeito às bandas de abertura, mas nenhuma delas consegue, sozinha, atrair um público extra significativo para o Sepultura. Krisiun e Sacred Reich são nomes respeitados dentro do underground. O Metal Allegiance possui músicos de peso em sua formação, mas ainda assim ocupa uma prateleira intermediária dentro do heavy metal.

Andreas Kisser e os empresários poderiam — e, na minha opinião, deveriam — ter arriscado mais.

O comparativo (Sim, mais um) chega a beirar o absurdo, mas faço apenas para o caro leitor entender o raciocínio. Ozzy, em sua despedida, chamou uma verdadeira constelação. Os ingressos foram disputados a tapa e esgotaram em menos de 30 minutos.

Será que, se tivéssemos nomes como Anthrax, Exodus, Death Angel, Pantera, novamente Jason Newsted e outros nomes importantes, os ingressos também não teriam vendido mais?

Muito mais de 9 mil, tenho certeza que sim.

Dentro disso, vale lembrar que o Sepultura tocou por três noites seguidas no Espaço Unimed, todas com ingressos esgotados. Se pararmos para pensar, a banda chegou aproximadamente perto da carga de ingressos prevista para o Pacaembu.

E aí chegamos a outro ponto: será que a enorme demora para anunciar a data oficial e uma turnê de dois anos de celebração da vida através da morte não tiveram justamente o efeito reverso?

A banda saiu tocando em todos os lugares. Capitais, interior, festivais, festas de aniversário... em tudo quanto é canto. Quem tinha que ver, já viu. E a data oficial da última dança, nada de sair.

Ela só veio em maio.

Enquanto Andreas e companhia faziam uma enorme turnê, o Brasil recebia festivais como Bangers Open Air, Monsters of Rock e Rock in Rio, para citar apenas alguns. Shows de AC/DC e Korn. Teremos Iron Maiden, Slayer, Testament, Rush, entre outros.

E tudo isso mexe diretamente com o público que poderia estar indo ao show do Sepultura. Afinal, a gente compra ingresso, parcela, escolhe prioridades. E quando aparecem bandas que dificilmente voltam ao país, elas naturalmente passam na frente.

Alguém gritou: S-L-A-Y-E-R?

No fim das contas, o evento flopou — palavra que aprendi nesta última semana — por diversos fatores. Não existe um único culpado ou uma única explicação.

Mas quase todos eles passam pelo mesmo erro de avaliação: acreditar que somente o nome Sepultura teria força suficiente para, sozinho, encher um estádio de futebol no Brasil.

Não teria.

Ainda mais depois de dois anos sendo arroz de festa de Norte a Sul do país.

A despedida poderia ter sido maior. Poderia ter sido mais especial. Poderia ter criado um acontecimento que justificasse o tamanho do palco que a banda escolheu para a última dança.

Mas, para isso, não bastava apenas anunciar que era o fim.


 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

TYGERS OF PAN TANG - ELECTRIFYED (2026)

 



TYGERS OF PAN TANG
ELECTRIFYED
Mighty Music/Target Group - Importado

O Tygers Of Pan Tang tem a peculiaridade dos felinos, ter várias vidas, no sentido de ter mudado de formação uma infinidade de vezes, ter alterado a sua sonoridade, passando do Heavy Metal tradicional da New Wave Of British Heavy Metal, passando pelo trabalho mais focado ao Hard Rock oitentista, e retornando revigorado nas últimas duas décadas, período no qual tem lançado alguns de seus melhores trabalhos.

Tudo isso só reforça o que penso sobre a banda capitaneada pelo guitarrista e fundador Robb Weir: se recusam a virar peça de Museu. Em “Eletricfyed” ao mesmo tempo que mantém a qualidade/sonoridade dos últimos trabalhos, o Tygers parece buscar inspiração na crueza dos seus primeiros trabalhos, como o que foi feito nos mais que clássicos “Wild Cat” (1980) e principalmente em “Spellbound” (1981).

“Rise Up!” a faixa deabertura já chega quebrando tudo e mostrando a força do novo trabalho. Riffs e refrão memoráveis. O vocalista Jack Meille tem a voz perfeita para a banda, que varia a agressividade e melodia e é um dos destaques do trabalho. Outras faixas a destacar: “Forevermore” vem mais melódica e cadenciada, mostrando que é possível cadenciar a agressividade e agregar melodia, sem descaracterizar o Heavy Metal tradicional.

“Electrifyed” é exatamente o que o título sugere: um choque elétrico que não te mata, mas que te dá altas doses de energia! Em “The Nail”, o Tygers mostra as garras com ferocidade mais uma vez. É um daqueles momentos em que a banda nos lembra por que sua existência foi tão importante para a NWOBHM: riffs simples, porém eficazes, uma seção rítmica pulsante e uma melodia que dispensa grandes adornos.

“Dark Skies” tem uma atmosfera mais “sombria”, com o perdão do trocadilho. Pesada e dramática, lembrando um pouco (e como não poderia deixar de ser) o pai de todos, o glorioso Black Sabbath, porém numa fase Tony Martin.

O Heavy Metal pode ser incrivelmente sofisticado em sua composição e, ao mesmo tempo, funcionar como um caminhão de mudanças sem freio ladeira abaixo. E é exatamente isso que queremos. Após mais de quatro décadas de serviços prestados, o Tygers Of Pan Tang atesta mais uma vez que não é o He-Man, mas tem a Força! Obrigado Robb Weir e sua trupe por nos entregar mais um trabalho acima da média.

José Henrique Godoy