sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

END OF GREEN - TWINFITY (1996/2025 - REGRAVAÇÃO)

 


END OF GREEN
TWINFITY (duplo)
Shinigami Records/Reaper Entertainment - Nacional

Confesso que antes de pegar o CD na mão para resenhar, nunca tinha ouvido falar no END OF GREEN, e muito menos sabia de sua sonoridade. No entanto ao pegar a capa e juntar o nome do grupo, não havia escapatória: com certeza, seria uma banda de doom, gothic ou depressive metal (como alguns costumam chamar). E como se diz por essas bandas, "tiro dado, bugio deitado". E o que a Shinigami Records em parceria com a Reaper Entertainment nos traz aqui, é a regravação do álbum de estreia do grupo, chamado "Infinity", mas que que volta ao mercado em formato duplo com o título TWINFINITY, trazendo a versão original (lançada em 1996) e a regravação feita em 2025. O resultado não é um exercício de comparação técnica, mas um retrato claro de como o tempo transforma o clima sombria, a atmosfera densa e, porqu não dizer, a dor que sempre foi o motor da banda.

Formado por Michele Darkness (vocal), Sad Sir (guitarra), Kirk Kerker (guitarra), Hundi (baixo) e Lusiffer (bateria), o grupo procurou manter intacta a espinha dorsal das composições, mas tudo soa mais denso, mais pesado emocionalmente. Os riffs arrastados continuam lá, assim como o cruzamento característico entre doom, gothic e até mesmo o rock alternativo. É como se as músicas tivessem ganhado profundidade ao aceitar o próprio abatimento como estado permanente, num looping denso e sombrio. O vocal de Michelle  é peça fundamental nesse processo. Se em 1996 a interpretação era mais crua e desesperada, aqui ela aparece controlada, quase fria, o que paradoxalmente torna a interpretação ainda mais incômoda. 

Faixas como "Left My Way" e "Nice Day to Die" se beneficiam diretamente dessa abordagem mais contida e madura, ainda mais se compararmos as versões de cada CD. E este talvez seja o grande acerto do trabalho. Ao apresentar a nova versão ao lado do álbum original, o CD cria um diálogo direto entre passado e presente. O ouvinte não apenas escuta as músicas; ele percebe o tempo agindo sobre elas. Onde antes havia uma atmosfera juvenil e caos emocional, agora existe densidade, experiência e uma dose extra de peso que torna tudo ainda mais honesto, como também podemos conferir em "Seasons of Black", "Sleep" e You", momentos de maior destaque do(s) álbum(s).

De certa forma, TWINFINITY funciona menos como uma celebração e mais como um testemunho do tempo e amadurecimento da banda. O END OF GREEN não tenta reescrever sua história nem modernizar artificialmente seu som. Apenas mostra como aquelas mesmas músicas soam quando interpretadas por uma banda que sobreviveu às agruras do tempo, sabendo como transformar isso em música (ou reinventá-las). Um lançamento honesto, sombrio e fiel ao espírito que sempre definiu o grupo.

Sergiomar Menezes




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

SUFFOCATION - BLOOD OATH (2009/2025) RELANÇAMENTO

 


SUFFOCATION
BLOOD OATH 
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Quando se fala em Death Metal, poucos nomes carregam tanto peso histórico quanto o Suffocation. Arquitetos de um brutal death metal, a banda construiu sua reputação com base em riffs labirínticos, baterias desumanas e uma agressividade que parecia sempre à beira do colapso. Blood Oath, sexto álbum de estúdio lançado em 2009, não apenas dá continuidade a esse legado — ele o reorganiza, marcando um dos momentos mais controversos e decisivos da carreira do grupo.

O álbum é um trabalho de transição, mas não no sentido fraco da palavra. Trata-se do adeus de Mike Smith, um dos bateristas mais influentes da história do estilo, e também de uma mudança clara na linguagem da banda. Aqui, o Suffocation pisa no freio da velocidade extrema para investir em peso, densidade e controle absoluto da brutalidade.

Musicalmente, o Suffocation opta por uma abordagem mais cadenciada e metódica. A velocidade frenética dos anos 90 cede espaço aos grooves pesadíssimos. As guitarras de Terrance Hobbs e Guy Marchais abandonam parte da pirotecnia caótica em favor de riffs mais espaçados e os tradicionais breakdowns nova-iorquinos — não como truque fácil, mas como arma de impacto. Os solos continuam sendo um espetáculo à parte. Hobbs abusa da alavanca, de sweeps e de escolhas pouco convencionais, enquanto Marchais despeja linhas rápidas e cortantes que remetem diretamente à escola clássica do Suffocation. Tudo soa mais controlado, menos explosivo — e é exatamente aí que o disco divide opiniões.

Faixas como a faixa título e, principalmente, “Cataclysmic Purification” mostram a banda operando em sua forma mais cirúrgica: tensão construída com paciência, grooves assassinos e explosões de violência perfeitamente calculadas. Esta última, inclusive, figura com facilidade entre as melhores composições de toda a carreira do Suffocation. “Dismal Dream”, “Pray for Forgiveness” e “Images of Purgatory” mantêm o nível técnico altíssimo, provando que, mesmo em marcha média, ainda soam mais pesado e ameaçador do que a maioria esmagadora de seus imitadores.

Ainda assim, Blood Oath não é um disco imediato. Para alguns ouvintes, a repetição estrutural e a ausência daquela sensação constante de caos fora de controle podem soar como falta de urgência. A brutalidade aqui não atropela — ela esmaga lentamente, como uma marreta hidráulica descendo com precisão milimétrica.

William Ribas




MALEVOLENT CREATION - DOOMSDAY X (2007/2025) RELANÇAMENTO

 


MALEVOLENT CREATION
DOOMSDAY X
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Quando tratamos de música extrema, prezamos por honestidade e integridade, sobretudo quando o assunto é Death Metal e seus expoentes. Permanecer na elite e manter bons trabalhos realmente não é para qualquer um, em um cenário que é convidativo a explorar limites e ao mesmo tempo se reinventar. Três anos depois do lançamento do poderoso “Warkult” e também do seu disco ao vivo “Conquering South America”, extraído numa turnê por aqui em 2003, o Malevolent Creation entra em estúdio para nos brindar com mais um grande trabalho, “Doomsday X”(2007). O trampo dessa vez teve parceria com Gus Rios e Matt Laplant, e saiu mais uma vez pela Nuclear Blast/Shinigami Records.

A formação também trazia boas novidades, com o retorno de Jason Blachowicz nos graves e Jon Rubin na guitarra, além da volta do saudoso Brett Hoffmann (falecido em 2018), o que gerou naturalmente um alvoroço entre os apreciadores.

O resultado? Um disco consistente em agressividade e despretensioso no sentido de inovar ou mesmo se reinventar, musicalmente falando. A sonoridade old school um pouco mais lapidada explora nuances melódicas que se soldam perfeitamente com a cozinha, e o vocal de Brett nunca decepciona.

“Culture of the Doubt” e “Unleash Hell” são mais agressivas, recheadas de blast beats, enquanto faixas como “Archaic”, “Buried in a Nameless Grave” e as excelentes “Strenght in Numbers” e “Prelude to Doomsday” trazem uma veia mais tradicional à velha escola, com extraordinário peso e uma avalanche de riffs inspirados de Phil Fasciana e Jon Rubin. “Deliver my Enemy“ merece maior atenção, mesclando muito bem características de Thrash Metal com grandes refrãos, contando com a participação de Mick Thomson do Slipknot, enquanto “Dawn of Defeat” tem uma certa influência de escola sueca, com um riff lembrando Dismember. Outro destaque,“Hollowed” é mais na veia de Possessed e Slayer antigo com riffs cortantes e alguns ‘tappings’ de guitarra muito bem encaixados.

A bateria é novamente a cargo de Dave Culross e apresenta grandes momentos como na intro de “Bio-Terror”, onde velocidade e técnica dispensam apresentações. De modo geral acerta em cheio em termos de composição e claro, brutalidade.

É um trabalho que mantém a banda em alto nível, com a já citada inspiração e peso, e que traz grandes momentos, mas acaba não entrando em patamares maiores como em “The Ten Commandments” ou “Retribution”, e tá tudo certo. Em 2025 a bolacha sai pela Shinigami Records, com distribuição nacional, e você pode adquirir sem medo de errar.

Gustavo Jardim




RHAPSODY OF FIRE - THE FROZEN TEARS OF ANGELS (2010/2025) RELANÇAMENTO


 

RHAPSODY OF FIRE
THE FROZEN TEARS OF ANGELS
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

A história do Rhapsody Of Fire é bem conhecida pelos headbangers brasileiros. Surgida no final dos anos 90 sob o nome de “Rhapsody”, a banda angariou vários fãs mundo afora praticando aquele Power Metal sinfônico repleto de referências a música clássica e muita, mas muita pompa. No Brasil, amparada pelo selo Rock Brigade Records, a banda foi um verdadeiro fenômeno; naquele momento, era quase obrigatório ouvi-los. Gostassem ou não, a banda era um assunto que rendia muito bate papo e discussões acaloradas naquela saudosa época.

Entre 1997 a 2002, a banda disparou 4 álbuns e 1 EP para a saga “Emerald Sword”, que foi um sucesso estrondoso; a banda estava no auge da criatividade e percebia-se que tudo, internamente, funcionava muito bem.

A partir de 2004, a banda focou em uma nova saga, “Dark Secret”. “Symphony of Enchanted Lands: The Dark Secret” (2004) e “Triumph or Agony” (2006) foram os dois primeiros capítulos que precederam “The Frozen Tears of Angels”, a terceira parte da atual saga.

Indiscutivelmente, a inspiração não era mais a mesma, a fórmula parecia desgastada, mas não era só isso: as coisas internamente não estavam bem, a ponto de que tempos depois, a banda se dividiu e 2 integrantes muito importantes (Fabio Lione e Luca Turilli) deixaram a banda. Mas, daí a achar que esta saga, e este álbum em particular são completamente descartáveis, é um exagero completo. O disco tem sim, bons momentos!

O destaque principal vai para Fabio Lione. Os anos se passaram e o cara seguia impecável e capaz de transformar músicas normais (para outros vocalistas) em verdadeiros hinos. Ouça por exemplo, “Sea of Fate” (a melhor do disco) e “Raging Starfire”. Outras como “Reign of Terror” e a faixa título possuem aquele clima épico com muitas e muitas orquestrações que o fã da banda adora (ou não!), também merecem reverência. Outro grande destaque vai para a linda balada “Lost in Cold Dreams”, uma das melhores, senão a melhor, já produzida pelos italianos.

Ainda há a faixa bônus, a instrumental “Labyrinth of Madness” que não acrescenta muito, mas também não destoa. De descartável mesmo, apenas a longa (demais!) intro “Dark Frozen World” que mesmo o vozeirão do saudoso Christopher Lee consegue deixar legal.

Hoje, 30 anos após a fundação do Rhapsody Of Fire, a banda segue o mesmo caminho, com pouco ou nenhum experimento. Para os fãs mais dedicados, isto pode ser ótimo, mas para aqueles que acompanham a banda por tanto tempo, talvez uma nova descoberta ou um novo pensamento pode ser algo de valor para que a banda volte a ser gigante e relevante como antes. Eu, pessoalmente, nunca deixei de curtir, mas que a banda pode buscar horizontes diferentes, isso pode.

The Frozen Tears of Angels” é um bom disco e pode sim, ser descoberto/redescoberto por novos/velhos fãs. Não chega a ser clássico, mas passa sem recuperação.

Mauro Antunes




CHILDREN OF BODOM - HALO OF BLOOD (2013/2025) RELANÇAMENTO

 


CHILDREN OF BLOOD
HALO OF BLOOD
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

O oitavo álbum de estúdio do CHILDREN OF BODOM, HALO OF BLOOD, lançado em 2013, marca uma retomada do grupo à sonoridade que o consagrou. Pode soar estranho, mas mesmo sem perder sua essência, os finlandeses  buscaram se reconectar com a agressividade e a identidade que o consagraram no início dos anos 2000, depois de alguns trabalhos que dividiram opiniões. Mesmo sem o brilho dos primeiros álbuns, o disco nos mostra uma banda recalculando a rota e pronta pra fazer seu death metal melódico de maneira totalmente pessoal. Esse relançamento é mais uma parceria da Shinigami Records e da Nuclear Blast.

Alexi Laiho (vocal e guitarra), Roope Latvala (guitarra), Henkka Blacksmith (baixo), Janne Wirman (teclados) e Jaska Raatikainen (bateria) gravaram e produziram o trabalho em seu estúdio particular em Helsinque, bem como no Petrax Studio, em Hollola, com a colaboração do renomado Peter Tägtgren (Hypocrisy, Pain). A sonoridade que se apresenta aqui é direta, afiada e violenta, apostando em riffs rápidos, solos virtuosos e no diálogo constante entre guitarras e teclados (marca registrada do COB) que aqui volta a ter protagonismo real. O teclado de Janne Wirman  disputa espaço com as guitarras, criando melodias que reforçam tanto o lado épico quanto o caráter sombrio do álbum. Tudo soa no lugar certo, permitindo que cada elemento tenha seu lugar de destaque, sem exageros. A bateria de Jaska Raatikainen alterna com precisão entre blast beats e passagens mais cadenciadas, enquanto o saudoso Alexi Laiho (um cara que está fazendo muita falta) entrega uma performance vocal agressiva e confiante, sustentando a identidade brutal da banda.

Desde os primeiros segundos, o disco deixa claro seu propósito. Faixas como “Waste of Skin” e “Halo of Blood” estabelecem o tom do álbum com velocidade e violência, flertando inclusive com uma estética mais próxima do black metal (?!) em alguns momentos. Já “Scream for Silence” e “Bodom Blue Moon (The Second Coming)” apostam em melodias mais marcantes, equilibrando peso e acessibilidade sem perder intensidade. O grande fraco e que baixa a intensidade do álbum é “Dead Man’s Hand on You”, que desacelera o ritmo e cria uma atmosfera sombria.

No final das contas, HALO OF BLOOD é um álbum visceral, sólido e honesto  e, simbolicamente, ganha ainda mais peso por ser o último álbum com o guitarrista Roope Latvala. Um retorno à essência sem soar datado, que reafirma o legado do CHILDREN OF BODOM e entrega exatamente o que se espera: riffs agressivos, melodias memoráveis e energia intensa.

Sergiomar Menezes