quinta-feira, 17 de setembro de 2026

OZZY OSBOURNE - NO MORE TEARS 35 ANOS

 



SEM LÁGRIMAS MAS COM MUITO SUCESSO - OS 35 ANOS DE NO MORE TEARS

Três décadas e meia após seu lançamento, o álbum que redefiniu o heavy metal dos anos 90 continua sendo um dos maiores clássicos do Príncipe das Trevas

Por Sergiomar Menezes

Lançado em 17 de setembro de 1991, NO MORE TEARS chegou às lojas em um momento de transição  na música mundial. O cenário do rock e do metal estava prestes a ser virado pelo avesso pelo movimento grunge, e figuras veteranas dos anos 1980 precisavam provar seu valor diante de uma nova era. É exatamente nesse contexto que o sexto álbum solo de OZZY OSBOURNE se ergue não apenas como um sobrevivente daquela década, mas como um dos pontos mais altos, refinados e comercialmente triunfantes de toda a sua carreira.

Gravado nos estúdios A&M e Devonshire, em Los Angeles, o álbum consolidou a transição de Ozzy para uma sonoridade mais polida, estruturada e de arena, sem perder a essência sombria que o acompanhava desde os tempos de Black Sabbath. De forma sucinta, mostrou um Ozzy que podia adentrar os anos 90 de forma comercial sem perder sua essência.

O grande trunfo criativo de "No More Tears" esteve na química avassaladora entre Ozzy e o jovem guitarrista Zakk Wylde. Se nas duplas do passado Ozzy contava com a genialidade de Randy Rhoads ou a agressividade de Jake E. Lee, com Wylde ele encontrou uma pegada visceral, repleta de harmônicos artificiais estridentes (algo que com o passar do tempo se tornou marca registrada de Zakk e que por vezes, chega a irritar), peso moderno e uma raiz profundamente sulista e estradeira. A cozinha, formada pelo baixista Bob Daisley (ainda que nos créditos tenhamos a presença de Mike Inez) e pelo baterista Randy Castillo, além dos teclados atmosféricos de John Sinclair, garantiu a cama perfeita para que as composições brilhassem.

O disco abre com a urgência de "Mr. Tinkertrain", uma introdução perturbadora sobre predadores infantis que mostrava que Ozzy continuava disposto a explorar temas sombrios e desconfortáveis. Logo em seguida, o ouvinte é atropelado por "I Don't Want to Change the World" (que renderia a Ozzy seu primeiro Grammy) e "Desire", faixas que exalam o melhor do hard rock americano do início dos anos 90: guitarras intensas, refrãos grudentos e uma produção impecável conduzida por John Purdel e Duane Baron, sendo a mixagem responsabilidade do veterano Michael Wagener.

Mas os grandes destaques (principalmente comerciais) foram a faixa-título "No More Tears", um épico de mais de sete minutos ancorado por uma das linhas de baixo mais icônicas do rock e um solo monumental de Zakk Wylde. A música cria uma atmosfera cinematográfica de tensão e desespero que se tornou obrigatória nos shows ao vivo, "Mama, I'm Coming Home", composta em parceria com Lemmy, que se transformou em um hino universal de saudade e retorno. A letra intimista, escrita por Lemmy, encaixou-se perfeitamente na voz de Ozzy, mostrando que, ainda, o "Príncipe das Trevas" dominava a arte de emocionar multidões. Por fim, "Road to Nowhere": uma reflexão melancólica e intimista sobre a jornada da vida e a inevitabilidade do destino, fechando o álbum com um senso de grandiosidade e aceitação madura.

"No More Tears" foi um sucesso absoluto de crítica e público. Alcançou o Top 10 da parada americana Billboard 200 e acumulou certificações multiplatina, pavimentando o caminho para a turnê lendária "No More Tours" — que inicialmente seria a turnê de despedida de Ozzy (uma promessa que, felizmente para os fãs, ele logo tratou de quebrar, algumas vezes, diga-se de passagem).

Completar 35 anos é olhar para trás e perceber que este trabalho não envelheceu. Ele capturou um OZZY maduro, cercado por músicos no topo de suas formas criativas, equilibrando perfeitamente o heavy metal com a sensibilidade melódica necessária para conquistar o rádio e os estádios. NO MORE TEARS permanece intocado: uma aula  de como se reinventar sem perder a alma.





GUNS N' ROSES - USE YOUR ILLUSION 35 ANOS


O VÔO DA FÊNIX E A QUEDA DE ÍCARO - OS 35 ANOS DE USE YOUR ILLUSION DO GUNS N' ROSES

Obra-prima megalomaníaca e laboratório de tensões internas, os álbuns duplos lançados em 1991 marcaram o ápice criativo e o início do fim da formação clássica da maior banda de rock do mundo

Por Sergiomar Menezes

Em 17 de setembro de 1991, o mundo do rock parou para respirar o mesmo oxigênio explosivo que moldaria a cultura pop daquela década. Há exatos 35 anos, o Guns N' Roses lançava simultaneamente os álbuns Use Your Illusion I e Use Your Illusion II. Mais do que simples continuações de um catálogo bem-sucedido, os discos representaram o ápice criativo, a megalomania artística e, ironicamente, o início do fim da formação clássica da banda mais perigosa do planeta.

Para entender a magnitude do lançamento, é preciso voltar os olhos para o cenário musical do final de 1991. Impulsionados pelo furacão de "Appetite for Destruction" (1987) e pelo pré-aquecimento acústico de "GN'R Lies" (1988), Axl Rose, Slash, Izzy Stradlin, Duff McKagan e Matt Sorum (que substituía Steven Adler na bateria) entraram nos estúdios não apenas para gravar músicas, mas para redefinir os limites do hard rock.

Aprofundar-se nos trinta e cinco anos de Use Your Illusion I & II exige ir além dos recordes de bilheteria e dos milhões de cópias vendidas. Significa dissecar o momento em que a maior gangue do rock mundial se transformou em um laboratório de experimentação sônica e, simultaneamente, em uma panela de pressão prestes a explodir.

Se "Appetite for Destruction" era a quintessência da rua, do suor e do perigo marginal de Los Angeles, os UYI eram a manifestação da mente ambiciosa de Axl Rose. O frontman queria pianos, arranjos de cordas, corais e complexidade estrutural — algo que começou a distanciar o núcleo criativo da banda.

Enquanto Slash e Duff ainda mantinham as raízes fincadas no rock de garagem, Axl empurrava o grupo em direção a um art-rock quase operístico. Essa fricção criativa, somada aos atrasos crônicos de Axl para subir aos palcos e aos crescentes problemas de bastidores, gerou uma tensão insustentável. Izzy Stradlin abandonou o barco no meio da turnê de divulgação, marcando o primeiro grande golpe mortal na formação clássica.

Resumindo, o som de Appetite for Destruction nasceu da fome e do asfalto de Hollywood. Use Your Illusion nasceu da riqueza, do isolamento e das obsessões megalomaníacas de Axl Rose. O vocalista passou a investir horas intermináveis no estúdio, reescrevendo partes de piano, adicionando arranjos de cordas sintetizadas e flertando com uma grandiosidade que pegou o restante da banda de surpresa.


A grandiosidade do projeto exigiu um preço altíssimo nos bastidores. O processo de gravação e, posteriormente, a titânica Use Your Illusion Tour (que durou mais de dois anos) funcionaram como catalisadores para a destruição do ecossistema interno da banda.

O fator Axl Rose: Os atrasos crônicos de Axl para subir aos palcos — muitas vezes motivados por perfeccionismo obsessivo, caprichos ou disputas contratuais — geravam revolta nos fãs e atritos violentos entre os integrantes.

A saída de Izzy: Sentindo-se sufocado pelo gigantismo da turnê, pelo comportamento errático de Axl e pela perda da dinâmica de grupo original, Izzy Stradlin abandonou o barco em novembro de 1991, logo após o lançamento. Sua saída representou a perda do principal compositor silencioso da banda.

A transição de bateristas: A ausência de Steven Adler (afastado por problemas graves com dependência química) abriu espaço para Matt Sorum. Embora Sorum trouxesse uma precisão técnica impecável de estúdio e peso ao vivo, a troca alterou o "balanço" rítmico orgânico que caracterizava o som original de 1987.

O resultado dessa imersão estúdio adentro foi um monstro duplo composto por 30 faixas e mais de duas horas e meia de música. A ousadia comercial pagou dividendos imediatos: os álbuns estrearam ocupando historicamente as duas primeiras posições da parada da Billboard 200 (com o Illusion II em primeiro e o Illusion I em segundo), um feito inédito na indústria fonográfica até então.

Divididos por capas icônicas de Mark Kostabi — diferenciadas apenas pelas cores contrastantes em azul e amarelo/vermelho —, os discos funcionavam como as duas faces de uma mesma moeda caótica:

Use Your Illusion I assumiu um papel mais visceral e cru, fortemente ancorado na pegada de Izzy Stradlin. O disco abriga clássicos absolutos como "Don't Cry", a crueza cortante de "Double Talkin' Jive" e a grandiosa, cinematográfica e chatíssima "November Rain", cuja superprodução bancada pela Geffen Records redefiniu o patamar dos videoclipes na MTV. Mas "Dead Horse", "Don't Damn Me", "The Garden of Eden", "Right Next Door to Hell", "Perfect Crime", "Coma" e "Back Off Bitch" (essa, resgatada de demos antigas), mostravam que a banda de "Appetite for Destruction" ainda respirava...

Use Your Illusion II, por sua vez, enveredou por caminhos mais melancólicos, políticos e experimentais. A abertura com "Civil War" dava o tom de um álbum que combinava o apelo comercial estrondoso de "You Could Be Mine" (consagrada em "Exterminador do Futuro 2"), a releitura de Bob Dylan em "Knockin' on Heaven's Door" e a profundidade dramática da balada progressiva "Estranged" (disparada, a melhor faixa dos dois álbuns). No entanto, outras composições como "14 Years" (obra prima composta por Stradlin), "Breakdown", "Pretty Tied Up" e "Locomotive" criaram atmosferas melódicas e pesadas. Agora, qual a necessidade de uma segunda versão de "Don't Cry" e aquela coisa horrorosa chamada "My World"?

Olhando em retrospectiva, a turnê "Use Your Illusion Tour" rodou o planeta entre 1991 e 1993 — incluindo passagens históricas e caóticas pelo Brasil —, consolidando a banda como o maior ato de rock do mundo em atividade.


Três décadas e meia após o seu nascimento, Use Your Illusion I & II resistem ao teste do tempo. Longe de serem criticados apenas pelos exageros ou faixas consideradas "excessivas" por alguns puristas, os álbuns são hoje celebrados como monumentos de uma era em que as grandes gravadoras ainda investiam em riscos artísticos colossais.

Eles capturaram o GUNS N' ROSES no exato momento em que tocaram o sol com as mãos, antes de se consumirem pelo próprio fogo. Para o rock n' roll, foi um divisor de águas; para os fãs, a eterna e inalcançável ilusão de uma banda que continha o universo inteiro dentro de si.





terça-feira, 15 de setembro de 2026

FAMOUS STRANGERS - FAMOUS STRANGERS (2026)

 


FAMOUS STRANGERS
FAMOUS STRANGERS
Rockshot Records - Importado

O autointitulado álbum de estreia do FAMOUS STRANGERS (nome muito bem sacado, diga-se) mostra uma banda que não tem medo de transitar pelos mais variados cenários musicais — do peso ao clima atmosférico. Com uma produção cuidadosa e uma identidade bem definida, o álbum prova que o grupo veio para marcar território e deixar o público sentindo suaa música em um nível mais profundo. O  grupo foi criado em Sherwood Park, Alberta (Canadá) e é formado por veteranos da cena local com mais de 20 anos de bagagem coletiva — passando por bandas como Pugnacious, Compromise, This Is War e The Order of Chaos. Dessa forma, o quarteto entrega um som que une a energia dos clássicos ao peso contemporâneo.

Amanda Kiernan (vocal), Jeff Kittlitz (guitarra e backing vocal), Braden Sustrik (baixo e backing vocal) e Brian "Beej" Jolly (bateria e backing vocal). nos trazem sete faixas bem produzidas e cheias de energia. Sem seguir uma fórmula específica, o grupo se deixa levar pelo sentimento que cada composição exige e mostra versatilidade em mesclar peso, melodia, vocais rasgados, cozinha alinhada e disposição pra escrever sua própria história.

O álbum começa com "Fire Inside", que como o próprio título entrega, vem numa energia intensa. Trazendo uma pegada bem atual, mas com peso e vocais bem técnicos por parte de Amanda (que sabe colocar sua voz à necessidade de cada composição), a faixa é o cartão de visitas perfeito para o restante do trabalho. "Ghosts of Men", segue a mesma linha e a curiosidade é que, sendo um dos primeiros singles da banda, quase ficou de fora do álbum. Mas foi "repaginada" com uma pegada mais crua e direta. Mais cadenciada e pesada, "Please Her", tem um quê de Hard Rock em sua estrutura, principalmente pelos riffs de Jeff Kittlitz. Já "As You Leader", vem com uma dose extra de peso, mas flerta demais com o metal "alternativo" (se é que me faço entender). Não é um ponto negativo, mas a banda mostrou que pode ser mais criativa e fugir desse estereótipo. Mas, a verdade é que a banda não se prende a fórmulas préestabelecidas. Portanto, ainda que não tenha me agradado, ponto pra eles. "Desires" é rock n' roll na veia! Veloz, intensa e sem muito papo, a faixa é o destaque do álbum! Composta pelo guitarrista Jeff quando este estava no festival Bloodstock, ela capta a energia de um show de rock intenso e vibrante. Uma pegada quase punk é o que encontramos "Far Away From Home", enquanto o final vem com "Rain", com seus 9 minutos de duração, composta ao violão. Trazendo uma interpretação bem interessante de Amanda (onde sua voz mais uma vez se encaixa no estilo), ela fecha o trabalho mostrando que a banda sabe fugir do lugar comum.

O álbum gira em torno do tema do autoconhecimento e de "conhecer o próprio valor", utilizando experiências pessoais para transmitir mensagens de amor-próprio, superação e crescimento, lembrando o ouvinte de que ele sairá mais forte de qualquer adversidade. Isso tudo, conforme o release da banda. No entanto, pelo lado sonoro, o FAMOUS STRANGERS traz um álbum que é uma jornada diversificada e sem amarras de gêneros, misturando riffs pesados com pegada alternativa, momentos altamente enérgicos e explosivos. Uma boa estreia. Agora é esperar se o grupo consegue se manter nesse disputado mundo do metal mundial.

Sergiomar Menezes





EXUMER - DARK MASK MESSIAH (2026)

 


EXUMER
DARK MASK MESSIAH
Shinigami Records/Metal Blade Records - Nacional

O EXUMER nunca precisou ocupar o topo do Teutonic Big Four para provar seu valor. Mas Death Mask Messiah chega com a força de um tiro de canhão devastando uma trincheira sem qualquer aviso. Sete anos depois de Hostile Defiance, a instituição alemã do Thrash Metal retorna reenergizada, furiosa e com disposição para transformar cada segundo deste álbum em uma nova pancada — ou, possivelmente, na melhor máquina de destroçar pescoços de 2026.

Existe uma conexão evidente com a essência que tornou Possessed by Fire um clássico, mas Death Mask Messiah não tenta simplesmente reproduzir o passado. O EXUMER pega aquela velha agressividade, acrescenta décadas de experiência e entrega tudo com uma execução moderna, precisa e impiedosa. É Thrash Metal rápido na medida certa, mas suficientemente dinâmico para não transformar velocidade em monotonia.

A produção entrega sujeira e peso, enquanto a nova cozinha, com Alex Voß no baixo e Jerome Reil na bateria, mostra serviço desde os primeiros minutos. Reil não economiza nos ataques e ajuda a empurrar as músicas para frente, enquanto o baixo dá sustentação ao paredão de guitarras formado por Ray Mensh e Marc Bräutigam.

A faixa-título não perde um segundo. O riff já chega cortando e estabelece o tom do álbum: agressividade, velocidade e aquela tensão típica do jeitão Thrash alemão. “Blinding Skies” mantém o ataque e mostra que a abertura não é exceção. A banda acelera, freia, volta a acelerar e constrói mudanças suficientes para manter o ouvinte preso à música.

“Eradication” e “Allocated Savagery” acrescentam uma veia Crossover que deixa o material ainda mais nervoso. “Serpent” traz uma pegada que, em determinados momentos, remete ao Exodus, enquanto “Scorcher” aposta em gritos coletivos e uma sequência de solos que aumenta ainda mais a temperatura. Já “Fratricide” mostra o outro lado do EXUMER: riffs mais pesados, secos e esmagadores, provando que a banda também sabe destruir sem precisar correr o tempo inteiro.

E essa é uma das virtudes do álbum. A velocidade não existe apenas para mostrar que os caras ainda conseguem tocar rápido. Ela serve às músicas. Os riffs são construídos para avançar, os vocais entram como golpes e a bateria mantém tudo em movimento, mas sempre existe um refrão ou uma passagem capaz de segurar a atenção.

Mem v. Stein continua sendo uma das grandes armas do EXUMER. Há uma mistura de urgência e violência em sua interpretação que combina perfeitamente com o instrumental alucinado das onze faixas. E, felizmente, Death Mask Messiah não é apenas uma coleção de pancadas. É possível terminar o álbum e ainda estar com algumas dessas passagens rodando na cabeça — o tipo de sequência de golpes que praticamente não dá espaço para respirar.

“Frozen Ground” encerra o material inédito mantendo a pressão até o último instante, antes de “Unchained Angel”, do Nasty Savage, fechar o trabalho como uma escolha certeira. É uma maneira perfeita de reafirmar as raízes sem transformar o álbum em uma peça de museu.

O EXUMER ainda está com fome.

E Death Mask Messiah é a prova de que essa fome continua sendo perigosa.

William Ribas




RUTHLESS - CURSE OF THE BEAST (2026)

 


RUTHLESS
CURSE OF THE BEAST
Shinigami Records/Fireflash Records - Nacional

Há dois anos conheci o Ruthless quando resenhei “The Fallen”, disco que fez a banda ressurgir após alguns bons anos de hiato. Após o silêncio ser cortado pelo riff inicial da faixa-título, passei a gostar da banda. Pois bem, estava curioso para este novo trabalho — e mantive o Ruthless no radar nesse período.

Formada nos anos 80, é óbvio que não teremos novidades. Não existe nada atual, nada moderno — a única e exclusiva intenção em “Curse Of The Beast” é fazer Heavy Metal à moda antiga. E, sinceramente, ainda bem.

Depois da breve intro “The Blood Moon”, a faixa-título entra como se alguém tivesse simplesmente aberto a porta de um galpão e soltado uma avalanche de riffs. É pesado, direto e cheio daquela energia que faz você imediatamente aumentar o volume. Não existe aqui a preocupação em transformar cada música em alguma experiência conceitual. O negócio é tocar Metal.

O Ruthless conhece perfeitamente a escola de onde veio. “Raging Violence” tem peso suficiente para agradar quem gosta de uma pegada mais agressiva, enquanto “Berserker” é daquelas músicas que parecem ter sido compostas com uma finalidade bastante específica: fazer o sujeito bater cabeça. Já “Suffocating Fear” apresenta uma dinâmica interessante, começando de maneira mais cadenciada e crescendo a cada nota.

Se existe uma coisa que me ganhou definitivamente neste disco, são as guitarras. Glen Paul e David Servantez parecem ter combinado que não existe espaço para economia quando o assunto é guitarra. Os riffs são pesados, os solos aparecem com frequência e as harmonizações estão espalhadas pelo álbum.Sabe quando duas guitarras fazem aquela velha conversa em harmonia que tanto amamos nos “velhos” álbuns do Judas Priest, Iron Maiden e Accept? A dupla entrega isso com maestria.

“Blood Coalition” engana por exatos 30 segundos. De possível balada para uma pedrada. Direta, potente e cheia de quebras. “Sign Of The Cross” é outro daqueles momentos em que a banda mostra sua capacidade de trabalhar com diferentes velocidades sem perder a identidade. “Killed By Fate”, por outro lado, vem mais para o ataque e mantém aquela sensação de que o álbum nunca realmente pisa no freio.

E existe uma coisa que também ajuda muito: o disco não fica tentando transformar cada faixa em um épico de oito minutos. A temática também não poderia ser mais adequada. Horror, guerra, sangue, caos, ocultismo... Às vezes, uma boa história de terror, um riff sinistro e um vocal rasgado já são capazes de nos fazer felizes.

São 12 músicas, pouco mais de 50 minutos, e a coisa anda. Quando você se dá conta, já está chegando ao final com “Metal Gods”. Fazendo o “simples”, sem mexer no sagrado, o Ruthless “paga” um belíssimo tributo ao Judas Priest e fecha de maneira certeira seu quinto álbum de estúdio.

E talvez seja justamente essa a melhor definição para “Curse Of The Beast”: não é um disco preocupado em reinventar o Heavy Metal. É o básico bem feito — o tal “menos é mais”.

Ouça!

William Ribas