quarta-feira, 21 de outubro de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - BRUCE DICKINSON

 


A carreira solo de BRUCE DICKINSON É uma das trajetórias mais audaciosas e respeitadas do heavy metal, marcada por uma busca incessante por autonomia criativa e pela recusa em ficar confinado ao som de sua banda principal. Após dar os primeiros passos solo de forma descontraída e voltada ao hard rock, sua caminhada tomou contornos verdadeiramente ambiciosos a partir de meados dos anos 1990. Nesse período de transição, o vocalista mergulhou em uma fase de intensa experimentação sonora, transitando por arranjos modernos, influências alternativas e sonoridades mais cruas — um movimento que demonstrou sua incrível versatilidade vocal, sua coragem artística e a disposição de desafiar as expectativas do público tradicional. O auge de sua jornada consolidou-se quando ele redefiniu sua parceria com o produtor e guitarrista Roy Z e com o parceiro de longa data Adrian Smith, retornando com força total às raízes do heavy metal mais denso, melódico e conceitual. Essa fase de ouro entregou composições monumentais fortemente inspiradas na literatura clássica, na poesia, na alquimia e na filosofia, provando que ele conseguia rivalizar com os maiores momentos da história do gênero. Mesmo após o seu retorno ao Iron Maiden, Bruce manteve seu trabalho individual vivo, autêntico e relevante ao longo de décadas, demonstrando que sua trajetória solo é um pilar essencial de sua identidade como artista e compositor. Confira nosso ranking!

Por Sergiomar Menezes

7º - SKUNKWORKS (1996)

Esse é lugar comum entre os fãs. Em um movimento audacioso e controverso, Bruce formou uma banda completa (chamada Skunkworks) com jovens músicos e lançou um álbum homônimo que mergulhou de cabeça no grunge e no rock alternativo. Produzido por Jack Endino (famoso por trabalhar com o Nirvana e Soundgarden), o disco apresenta guitarras secas, composições curtas e diretas, com uma estética visual totalmente desvinculada do universo do heavy metal clássico. Os destaques do álbum (se é que assim podemos chamá-los) incluem "Back from the Edge", "Solar Confinement","Octavia" e "Inertia", essa última famosa por ter sido incluída numa coletânea da falecida revista ShowBizz. Embora tenha sido incompreendido por grande parte dos fãs de metal na época de seu lançamento, SKUNKWORKS pode ser visto e ouvido como um trabalho de grande coragem artística. Ainda que isso não faça dele um grande trabalho. O álbum demonstrou a versatilidade vocal de Dickinson (o que não precisava ser provado) em registros mais contidos e melancólicos, além de ter sido uma etapa fundamental para que o vocalista derrapasse na pista antes de seu triunfal retorno ao metal pesado.

6º - TYRANNY OF SOULS (2005)

Lançado seis anos após o retorno de Bruce ao Iron Maiden, TYRANNY OF SOULS provou que sua carreira solo continuava viva. Gravado nos intervalos das turnês da banda principal e composto em parceria à distância com Roy Z, o álbum mantém a pegada pesada, melódica e teatral dos dois discos anteriores, mas um pouco aquém do que era esperado. Músicas como "Abduction", "Soul Intruders", "Kill Devil Hill" e a faixa-título demonstram o domínio absoluto de Bruce sobre o heavy metal moderno. O disco combina momentos de velocidade e peso com composições de grande sensibilidade melódica, como a balada "Navegate the Seas of Sun". "Tyranny of Souls" foi recebido com entusiasmo caloroso por imprensa e público, reafirmando que o hiato prolongado não havia diminuído em (quase) nada a química perfeita entre Dickinson e Roy Z.

5º - THE MANDRAKE PROJECT

Após quase duas décadas de espera, Bruce presenteou o mundo da música com THE MANDRAKE PROJECT, um trabalho conceitualmente ambicioso, acompanhado por uma série de histórias em quadrinhos. Produzido novamente por Roy Z, o álbum mergulha em temas de ciência, ocultismo, imortalidade e poder, apresentando uma rica variedade sonoras que transita entre o heavy metal moderno, o hard rock setentista, momentos progressivos e até flertes com trilhas sonoras cinematográficas. Destaques como "Afterglow of Ragnarok", "Rain on the Graves", "Many Doors to Hell" e a grandiosa "Eternity Has Failed" (composta por Dickinson originalmente para este projeto, mas que foi reivindicada pelo patrão Harris para o álbum 'The Book of Souls', tendo sido assim, lançado primeiro no trabalho do Maiden), mostram que a voz de Bruce permanece uma força da natureza. "The Mandrake Project" é um testemunho da energia inesgotável e da visão artística de um dos maiores ícones da história do rock/metal, reafirmando seu compromisso em criar arte relevante e impactante no século XXI.

4º - BALLS TO PICASSO (1994)


Após sua saída do Iron Maiden em 1993, Bruce buscou um som mais moderno e experimental para firmar sua identidade solo. Depois de engavetar um projeto inteiro por não se sentir satisfeito, ele se uniu ao talentoso guitarrista e produtor Roy Z e à banda Tribe of Gypsies. O resultado foi BALLS TO PICASSO, um disco que mistura o peso do heavy metal tradicional com elementos de rock alternativo, ritmos latinos e uma sonoridade típica dos anos 90, destacando-se em faixas como "Cyclops", "Hell No", "1000 Points of Light", "Sacred Cowboys", "Laughing in a Hiding Bush"" e a estrondosa "Tears of the Dragon". Essa última, em especial, tornou-se uma das composições mais aclamadas e emotivas de toda a carreira de Bruce, funcionando como um hino de libertação e recomeço pessoal. Embora o álbum apresente momentos de oscilação estilística devido ao período de transição, ele marcou o início da histórica e vitoriosa parceria com Roy Z, que definiria o futuro brilhante de sua carreira solo.

3º - TATTOOED MILLIONAIRE

Lançado enquanto Bruce ainda fazia parte do Iron Maiden, TATTOOED MILLIONAIRE nasceu quase por acaso, após o convite para escrever uma música para a trilha sonora do filme "A Hora do Pesadelo 5" (pra quem não sabe, "Bring Your Daughter to the Slaughter", que entrou em 'No Prayer for the Dying' do Maiden). Em parceria com o guitarrista Janick Gers, o álbum adota uma sonoridade bem distante do metal épico do Maiden, apostando em um hard rock direto, divertido e com forte apelo radiofônico. Faixas como a própria música-título, "Born in '58" e o cover de "All the Young Dudes" (Mott the Hoople) mostram um lado mais descontraído e pessoal do vocalista. Apesar da simplicidade dos arranjos em comparação aos trabalhos de sua banda principal, o disco foi recebido com entusiasmo pelo público e alcançou bom desempenho nas paradas. "Tattooed Millionaire" serviu como a primeira demonstração de independência criativa de Dickinson, provando que sua voz marcante e sua presença podiam brilhar em universos sonoros diferentes e mais acessíveis. E se era pra fazer algo igual a Donzela, pra que carreira solo, não é mesmo?

2º - ACCIDENT OF BIRTH (1997)

Considerado por muitos um dos grandes marcos do heavy metal dos anos 90 (confesso que fiquei muito na dúvida se esse álbum não deveria ter assumido o lugar mais alto do pódio), ACCIDENT OF BIRTH marcou o retorno definitivo de Bruce Dickinson ao som pesado e melódico. Reeditando a parceria perfeita com Roy Z na produção e nas guitarras, o álbum contou ainda com o reforço de luxo do guitarrista Adrian Smith (seu ex-colega de Iron Maiden). O resultado é uma tempestade de riffs poderosos, duelos memoráveis de guitarra e vocais avassaladores em clássicos como "Road to Hell", "Darkside of Aquarius", "The Magician" e a épica faixa-título. E como não citar a "balada" "Man of Sorrows", que ganhou até uma versão em espanhol chamada "Hombre Triste"? Com a icônica arte de capa criada por Derek Riggs (o criador de Eddie), o disco foi aclamado universalmente pela crítica e pelos fãs como um dos melhores trabalhos de metal da década. "Accident of Birth" resgatou a coroa de Bruce como um dos maiores vocalistas do gênero e pavimentou o caminho para o que viria a ser uma das fases mais criativas de sua vida.

1º - THE CHEMICAL WEDDING (1998)

Se o álbum anterior havia sido um triunfo, THE CHEMICAL WEDDING elevou ainda mais o nível e a criatividade de Bruce e consagrou-se como a obra-prima absoluta da carreira solo de Bruce Dickinson. Inspirado pela poesia e pelas gravuras de William Blake, além de temas ligados à alquimia e ao ocultismo, o disco apresenta uma sonoridade sombria, densa e com afinações de guitarra extremamente graves. Faixas esmagadoras como "King in Crimson", "The Tower", "Book of Thel" e a emocionante "Jerusalem", além da fantástica "Trumpets of Jehrico", mostram um nível de composição e ambição artística raros no heavy metal. A performance vocal de Bruce é monumental, combinando agressividade, alcance e interpretações dramáticas impecáveis, sustentadas pela produção impecável e pesada de Roy Z. "The Chemical Wedding" foi tão impactante que é frequentemente comparado aos grandes momentos do próprio Iron Maiden, provando que a carreira solo de Dickinson não era apenas um projeto paralelo, mas uma força criativa gigante e autônoma.









terça-feira, 20 de outubro de 2026

THE DAMN TRUTH - THE DAMN TRUTH (2026)


 

THE DAMN TRUTH
THE DAMN TRUTH
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

O Canadá é um país que já nos presenteou com vários grandes nomes do Rock/Metal: Rush, Triump,. Lee Aaron, Exciter, Anvil, Brian Adams, April Wine, para citarmos alguns apenas. E é de lá que vem esta grata surpresa, o The Damn Truth. A banda foi formada em 2009, em Montreal, e atualmente conta com Lee-la Baum (vocal principal/guitarra), Tom Shemer (guitarra solo/vocal), PY Letellier (baixo/vocal) e Dave Traina (bateria/vocal).

Um desavisado pegando as fotos da banda poderá achar que é uma banda dos anos setenta, pois o visual do quarteto é totalmente influenciado pela década citada, e o som também segue esta linha, porém totalmente oxigenado e sem cheirar a naftalina.

O álbum "The Damn Truth" é uma coletânea de onze canções sólidas e muito bem executadas. A abertura com “Be Somebody”, onde somos logo fisgados pelo excelente vocal de Lee-la e pelos riffs e solos de Shemer . A quarta faixa “If I Don’t Make It Home”, é uma "power ballad" com uma pegada rock que, certamente, não vai decepcionar. “All Night Long” começa com um riff de guitarra vibrante que dá o tom desta faixa roqueira. A faixa conta com um trabalho de guitarra excepcional do início ao fim. A última música de “The Damn Truth” é “The Dying Dove”. Lee-la Baum canta e interpreta as letras de forma emocional e sincera, impossível não curtir o vocal da moça, pois ela entrega tudo e mais um pouco na sua performance e faz isso com total convicção.

Destaquei apenas quatro músicas, mas o álbum num todo é de altíssimo nível. Se você curte a onda do retrô-rock, como Rival Sons, Blue Pills, Lucifer e outros, vai curtir com certeza o álbum do The Damn Truth. Lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




ASIA - LIVE IN ENGLAND (2026)


 

ASIA
LIVE IN ENGLAND
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Em 1981, dois ex-membros do gigante do Rock Progressivo, o Yes, o guitarrista Steve Howe e o tecladista Geoff Downes, formaram um novo supergrupo junto com outros dois músicos que já haviam se destacado na cena do rock progressivo dos anos setenta, o cantor e baixista John Wetton (ex-King Crimson, ex-Uriah Heep e ex-UK) e o baterista Carl Palmer (ex-Atomic Rooster e ex-ELP). Em 1982, eles gravaram com o nome de Asia, seu álbum de estreia altamente bem-sucedido. Passados quarenta e três anos, o único membro fundador remanescente da banda, Geoff Downes, junto com três músicos mais jovens, tocaram o álbum inteiro ao vivo em Sussex, na Inglaterra, para uma seleta plateia.

‘Live In England’ deixa claro de uma vez por todas por que o álbum de estreia do Asia foi tão enormemente bem-sucedido: todas as composições daquele álbum eram músicas incrivelmente boas. E o novo Asia, além de Downes, composto por John Mitchell (guitarra), Harry Whitley (baixo e vocais) e Virgil Donati (bateria), toca os originais de maneira muito competente. Especialmente Whitley é uma excelente escolha para substituir o saudoso e grande John Wetton.

Os sucessos “Heat Of The Moment”, “Only Time Will Tell” (os jovens a mais tempo lembram bem dessa na propaganda dos cigarros Hollywood, lá no início dos anos 80) e “Here Comes The Feeling”, hinos do rock progressivo da época, recebem uma performance muito boa, com uma pegada bem Rock e rejuvenescidas..

As outras composições originais como ”Time Again”, “Wildest Dreams”, "Without You” e “Cutting It Fine”, juntamente com as faixas bônus “Ride Easy” e “The Heat Goes On”, são tocadas maravilhosamente, assim como o grande destaque “Sole Survivor”. A boa notícia para os fãs é que o Asia fez apresentações no mesmo formato, tocando com esta formação outros dois outros álbuns originais, o segundo e o terceiro da discografia –‘Alpha’ e ‘Astra’ executados na íntegra e serão lançados em breve. Resta aguardar os lançamentos, e enquanto aguardamos, vamos aproveitar a audição de “Live In England”, que teve seu lançamento nacional via Shinigami Records.

José Henrique Godoy




segunda-feira, 19 de outubro de 2026

THIN LIZZY - JOHNNY THE FOX 50 ANOS


 ESCRITO COMO SE NÃO HOUVESSE TEMPO A PERDER: OS 50 ANOS DE JOHNNY THE FOX

Do groove improvável de “Jimmy the Weed” à dor visceral de “Borderline”, o álbum onde o líder do Thin Lizzy tirou a armadura e fez a trilha sonora de nossas vidas

Por Fernando Aguiar

Escrito por um Phil Lynott doente e com pressa, gravado no meio de brigas e lançado à sombra de Jailbreak, o sétimo disco do Thin Lizzy completa meio século como o irmão “menos famoso”, e talvez o mais humano, da fase clássica da banda.

Para entender, precisa voltar para o começo de 1976. O Thin Lizzy tinha acabado de lançar "Jailbreak", em março, e pela primeira vez a coisa estava dando certo de verdade nos Estados Unidos. “The Boys Are Back in Town” tocava em todo lugar, a banda vinha abrindo para Aerosmith e Rush, e uma turnê americana com o Rainbow de Ritchie Blackmore estava marcada. Era o momento de virar gente grande na América. E foi exatamente aí que Phil Lynott caiu de cama com hepatite. A turnê foi cancelada, Phil voltou para o Reino Unido em junho e foi parar num hospital em Manchester.

Qualquer pessoa normal teria usado aquele tempo para descansar. Phil pegou papel e caneta e começou a escrever. Boa parte do que viria a ser Johnny the Fox saiu dali, de um sujeito doente, frustrado por ver o melhor momento da carreira escorrendo pelos dedos e decidido a não deixar a banda esfriar. Eu sempre acho que dá para ouvir isso no disco. Tem uma urgência ali, uma inquietação, que Jailbreak não tinha.

Em agosto, ainda se recuperando, Phil se juntou a Scott Gorham, Brian Robertson e Brian Downey para gravar, de novo com o produtor John Alcock, o mesmo de Jailbreak. As sessões começaram no Musicland, em Munique (que tinha a vantagem dos impostos tanto quanto a do som), mas logo voltaram para o Ramport, o estúdio do The Who em Londres, onde o disco anterior tinha sido feito.

E não foi um mês tranquilo. Ninguém estava satisfeito com o processo, conseguir um som de bateria decente virou novela, Phil ainda estava terminando de compor as letras e a banda brigava sobre o rumo musical. “Massacre”, segundo o próprio Alcock, foi escrita ali mesmo, no estúdio.


O atrito mais famoso, claro, foi entre Phil e Robertson. Quando Lynott apresentou “Don’t Believe a Word” pela primeira vez, ela era um blues lento, de doze compassos. Robbo, com a delicadeza que era a marca registrada dele, disse que aquilo era uma porcaria (a palavra original era bem menos educada). Phil ficou ofendido e simplesmente sumiu por alguns dias. Nesse meio tempo, Robertson se arrependeu de ter pegado pesado e foi com Downey retrabalhar a música: o baterista criou aquele shuffle acelerado, Robbo bolou o riff, e quando Phil voltou, gostou do que ouviu. A faixa saiu creditada só a ele, o que deixou Robertson irritado por anos. E a versão lenta não morreu: Phil a gravou com Gary Moore em Back on the Streets, de 1978.

Essa história resume bem o Thin Lizzy daquela época. Uma banda em que o conflito, quando dava certo, virava música boa.

Johnny the Fox chegou às lojas em 16 de outubro de 1976, apenas sete meses depois de Jailbreak. A capa, mais uma vez de Jim Fitzpatrick, tem aquela moldura de nós celtas que é uma das mais bonitas da discografia, e com um detalhe curioso: Fitzpatrick teve que entregar a arte antes de o disco ter nome.

“Johnny” abre o disco com peso e drama, Phil fazendo o que sabia como ninguém, que era transformar um personagem de rua em figura de lenda. “Rocky” vem na sequência, cheia de marra, e segundo Robertson foi escrita pensando nele. Faz todo sentido: é uma música sobre um rockstar convencido, e se tinha alguém naquela banda que se encaixava no perfil, era o escocês. Depois vem “Borderline”, que vou deixar para o final, pois essa merece espaço próprio. Aí “Don’t Believe a Word”, dois minutos e pouco de perfeição, provavelmente a melhor letra de “não confie em mim” que alguém já escreveu no hard rock. E fechando o lado, “Fool’s Gold”, com Phil voltando ao tema da Irlanda e da emigração, uma faixa grandiosa, que mostra o lado poeta e meio historiador dele.

Já “Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed” é o ponto fora da curva de toda a carreira do Lizzy: um groove meio funk, com metais, que soa mais como trilha de filme policial dos anos 70 do que como hard rock irlandês. Na época, muita gente torceu o nariz. Hoje, a faixa foi parar na coletânea Ultimate Breaks and Beats, aquela que os DJs de hip-hop usavam para garimpar batidas, o que diz muito sobre o ouvido de Downey e Gorham, que assinam a música junto com Phil.

“Old Flame” é o Phil cantor de rua, folk, com aquela melodia que gruda e uma doçura que só ele conseguia colocar sem soar meloso. “Massacre” é a pancada do disco, com as guitarras gêmeas a toda e um clima de urgência que justifica quem diz que Johnny the Fox é um dos álbuns mais pesados do Lizzy nos anos 70. “Sweet Marie”, parceria com Gorham, é uma balada linda que merecia ser muito mais lembrada.

E fechando, “Boogie Woogie Dance”, que costuma levar pancada de muita gente. Já li mais de uma resenha tratando a faixa como enchimento. Eu vejo de outro jeito. Depois de tanto drama, de personagens marginais, de emigração, de massacre e de coração partido, Phil termina tudo chamando a galera para a pista. É rock’n’roll de bar, sem pretensão nenhuma, com aquele balanço que o Lizzy tirava de letra. E tem algo de muito Phil nisso: o cara que escreveu o disco doente, numa cama de hospital, encerrando com um convite para dançar.


Comercialmente, o disco foi bem no Reino Unido: chegou ao 11º lugar e ganhou disco de ouro. “Don’t Believe a Word” saiu como single em novembro e bateu no 12º lugar por lá, e no segundo na Irlanda. Nos Estados Unidos, porém, o embalo de Jailbreak simplesmente não se repetiu. A turnê cancelada tinha custado caro.

E o azar continuou. Depois da turnê britânica de outubro e novembro (com uma banda americana chamada Clover abrindo, liderada por um tal de Huey Lewis), Robertson machucou feio a mão com uma garrafa numa briga de bar, atingindo artéria e nervo. A turnê americana foi adiada para janeiro de 1977, e quem segurou a guitarra no lugar dele foi Gary Moore. Johnny the Fox acabou sendo o último disco gravado com Robbo como membro pleno da banda do começo ao fim.

Ou seja: se o álbum não teve o mesmo tamanho de Jailbreak, foi por doença, por briga, por mão cortada e por timing. Nunca por falta de música. Ele costuma ser tratado como “o disco entre Jailbreak e Bad Reputation”, e isso sempre me incomodou. Para mim, Johnny the Fox é o Thin Lizzy no seu momento mais completo: pesado, variado, ousado, irlandês até a alma e liderado por um cara que tinha acabado de levar um susto com a própria saúde e escrevia como se não tivesse tempo a perder. Olhando hoje, sabendo como a história de Phil terminou, essa pressa fica ainda mais dolorida.


E agora, ela, a pérola escondida no meio da discografia da banda, que entre a marra de “Rocky” e a urgência de “Don’t Believe a Word”, “Borderline” é aquele tipo de música que você descobre meio sem querer e nunca mais esquece. Composta por Phil em parceria com Brian Robertson, é uma balada de coração partido com cheiro de country, guitarras chorosas e Lynott cantando como um cara sozinho no balcão de um bar, tentando entender onde foi que perdeu a mulher que amava. Não tem refrão para estádio, não tem riff para camiseta. Tem só verdade. Para mim, ela divide com “Still in Love with You” o posto de balada mais bonita e mais íntima que o Thin Lizzy já gravou. São duas músicas irmãs: as duas falam de um amor que acabou, mas que se recusa a ir embora, e nas duas Phil, o durão de jaqueta de couro, o rebelde de Dublin, tira a armadura e se mostra inteiro, frágil, sem pose nenhuma. A diferença é que “Still in Love with You” ganhou o mundo nos palcos, enquanto “Borderline” ficou guardada. Até onde se sabe, o Lizzy nunca a tocou ao vivo. O único registro dela fora do disco é uma aparição de Phil no Me and My Music, programa da RTÉ, a TV irlandesa, gravada em 15 de setembro de 1976, um mês antes de Johnny the Fox chegar às lojas, e exibida só em 2 de janeiro de 1977. Phil aparece sozinho, sem a banda, cantando em playback. Só ele, a música e aquela cara de quem está contando um segredo. Foi em casa, para os irlandeses, que ele apresentou “Borderline” pela primeira e única vez. Durante décadas ela ficou assim, um daqueles lados B que a gente mostra para os amigos com cuidado, quase como quem divide uma coisa íntima. Até que, em 16 de dezembro de 2022, no show beneficente Helping Hands, em Los Angeles, o Metallica, como de costume apresentou um set acústico e fez o que nem o próprio Lizzy tinha feito: tocou “Borderline” ao vivo. James Hetfield, que meses antes tinha entrado com o pedido de divórcio, cantou com aquela voz gasta de quem estava vivendo cada linha, e no final agradeceu a Phil Lynott por ter escrito uma música sobre a vida dele. Quando ouvi aquilo, eu entendi na hora. Porque é exatamente isso que “Borderline” é para mim também: a letra da minha vida. Tem música que a gente gosta, e tem música que parece ter sido escrita olhando por cima do nosso ombro, sabendo coisas que a gente nunca contou para ninguém. Phil não me conheceu, e mesmo se estivesse vivo a probabilidade de isso acontecer também seria mínima, e mesmo assim deixou ali, em quatro minutos e meio de um disco de 1976, tudo aquilo que eu um dia senti e não soube dizer. 

Cinquenta anos depois, uma canção que ele só cantou uma vez, em playback, numa TV irlandesa, ainda consegue colocar em palavras o sentimento de um headbanger do outro lado do planeta e a de outro que lota estádios no mundo inteiro. Obrigado, Phil por ter escrito a música da vida dele, e da minha também.



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - TWISTED SISTER

 


REBEL ROCK RESEARCH - TWISTED SISTER

O TWISTED SISTER é uma das bandas mais emblemáticas e resilientes do heavy metal e hard (glam) rock norte-americano, surgida nos anos 1970 no circuito de clubes de Nova York e Nova Jersey. Liderada pelo carismático vocalista Dee Snider, a banda construiu sua identidade combinando um som pesado e direto — influenciado tanto pelo punk quanto pelo metal britânico — a um visual teatral provocativo, marcado por maquiagens carregadas, figurinos extravagantes e uma atitude abertamente rebelde. O auge do sucesso comercial veio na década de 1980 com o álbum "Stay Hungry" (1984) e hinos atemporais como "We're Not Gonna Take It" e "I Wanna Rock", cujos videoclipes bem-humorados e satíricos se tornaram fenômenos na MTV e consolidaram a banda como o voz e o símbolo da juventude contra a opressão e o conservadorismo da época.
A trajetória do grupo também foi marcada por intensas controvérsias, com destaque para o confronto com o PMRC (Parents Music Resource Center), comitê liderado por Tipper Gore que buscava censurar músicas consideradas violentas ou explícitas. Em 1985, Dee Snider prestou um depoimento histórico no Senado dos Estados Unidos, onde defendeu articuladamente a liberdade de expressão e desmantelou os argumentos dos censores, tornando-se um marco da luta contra a censura na música. A importância do TWISTED SISTER para o rock reside justamente nessa fusão única de atitude contestadora, performances ao vivo avassaladoras e o legado inestimável na defesa dos direitos dos artistas e dos fãs, provando que por trás da estética espalhafatosa havia uma força musical e cultural de enorme relevância. Confira nosso ranking!

Por Sergiomar Menezes

7º - A TWISTED CHRISTMAS 2006)

Em uma das cartadas mais inusitadas da história do heavy metal, o Twisted Sister encerrou sua jornada em estúdio gravando um álbum temático de Natal. A TWISTED CHRISTMAS pega cânticos natalinos tradicionais como "O Come All Ye Faithful", "Silver Bells" e "Deck the Halls" e os reinterpreta com arranjos pesados de hard rock e heavy metal, utilizando riffs e estruturas inspiradas em clássicos do próprio rock (como encaixar o arranjo de "We're Not Gonna Take It" perfeitamente dentro de "O Come All Ye Faithful"). Apesar do tom satírico e da estética irreverente, a química da banda e o alcance vocal de Dee Snider transformaram o projeto em um sucesso surpreendente, provando que o Twisted Sister conseguia unir a agressividade do metal à celebração festiva com absoluta maestria e personalidade. Mas, não tem como considerá-lo algo maior dentro da curta discografia da banda...

6º - STILL HUNGRY (2004)

Lançado duas décadas após o estrondoso sucesso de "Stay Hungry", STILL HUNGRY nasceu do desejo da banda de regravar o seu álbum mais famoso com a sonoridade, o peso e o timbre que eles originalmente pretendiam em 1984. Insatisfeitos com a produção de Tom Werman no disco original — considerada pela banda como suave e comercial demais para os padrões do metal —, Dee Snider e seus companheiros retornaram ao estúdio com a produção de Mark Mendoza. Além de reinterpretar todas as faixas clássicas com uma pegada muito mais crua, o álbum trouxe sete faixas bônus valiosas para os fãs, incluindo canções inéditas da época e composições antigas como "Heroes Are Hard to Find" e "Never Say Never". Na opinião deste que vos escreve, "Still Hungry" serviu apenas para corrigir uma antiga frustração de produção da banda, por mais que a formação clássica da banda mantivesse intacta a energia, a atitude e o poder de execução que os consagraram nos anos 1980. Soou como um clássico requentado e figura aqui apenas por fazer parte da discografia oficial de estúdio da banda.

5º - LOVE IS FOR SUCKERS (1987)


Imaginado e pretendido por Dee Snider como um projeto solo, LOVE IS FOR SUCKERS acabou sendo lançado como o quinto álbum do Twisted Sister por exigência da gravadora. Produzido pelo renomado Beau Hill, o disco migrou drasticamente para o som do hard rock/hair metal da época, com guitarras polidas, teclados em segundo plano e uma sonoridade muito mais voltada para as rádios. A mudança gerou o descontentamento do baterista A.J. Pero, que deixou a banda antes das gravações. Embora o álbum traga faixas bem construídas e melodicamente atraentes como "Hot Love", "Tonight" e a própria faixa-título (cover do Poison Dollys), a perda da identidade visceral e da agressividade que consagraram a banda afastou grande parte dos fãs tradicionais. A falta de coesão interna e a recepção morna do mercado levaram ao término da banda pouco tempo após o lançamento, tornando o álbum o capítulo final (em estúdio) da trajetória da formação clássica.

4º - COME OUT AND PLAY (1985)


Na tentativa de suceder o estrondoso sucesso de "Stay Hungry", a banda lançou COME OUT AND PLAY, um álbum de grande orçamento que apostou em uma produção ainda mais polida e em uma imagem teatral exagerada. O disco traz momentos marcantes como o cover de "Leader of the Pack" (das Shangri-Las) e a empolgante "You Want What We Got", além da participação especial de Alice Cooper em "Be Chrool to Your Scuel" (uma das faixas mais legais da história da banda). O trabalho manteve o espírito divertido e irônico, mas dividiu opiniões na época. Apesar de possuir ótimas faixas de heavy metal tradicional, como "The Fire Still Burns" e "Kill or Be Killed", o álbum sofreu com a superexposição da banda e com o boicote de redes de mídia ao clipe banido de "Be Chrool to Your Scuel". O desgaste interno e as pressões da gravadora começaram a transparecer, fazendo com que o disco não atingisse o mesmo patamar comercial do seu antecessor, embora continue sendo um trabalho técnico e estilisticamente muito rico.

3º - UNDER THE BLADE (1982)


Lançado após anos de ralação no circuito de clubes da Costa Leste norte-americana, o álbum de estreia do Twisted Sister entrega uma sonoridade crua, agressiva e muito mais próxima do heavy metal britânico (NWOBHM) do que do glam rock glamouroso que viria a dominá-los no futuro. Sob a produção de Pete Way (baixista do UFO), o disco traz faixas diretas, guitarras cortantes e a voz rasgada e feroz de Dee Snider. Músicas como "Under the Blade", "Shoot 'Em Down" e "Bad Boys (Of Rock 'N' Roll)" demonstram a energia acumulada por uma banda que precisava provar seu valor a qualquer custo. Apesar de a produção original ser considerada bastante seca e sem o peso de estúdio ideal — o que levou a novaS mixagem e remasterização anos mais tarde —, o álbum é a celebração da essência mais visceral da banda. As letras abordam a vida urbana, rebeldia e temas sombrios com uma urgência quase punk. UNDER THE BLADE permanece até hoje como o favorito dos fãs mais radicais da vertente do heavy metal pesado, provando que, por trás da maquiagem e das roupas espalhafatosas, havia um grupo de músicos extremamente talentosos e ferozes.

2º - YOU CAN'T STOP ROCK 'N' ROLL (1983)

Em seu segundo trabalho, YOU CAN'T STOP ROCK 'N' ROLL, a banda poliu ligeiramente o som sem perder a agressividade, criando a ponte perfeita entre o metal cru da estreia e a veia mais comercial que os consagraria mundialmente. Produzido por Stuart Epps, o álbum apresenta um som de bateria mais encorpado e guitarras mais marcantes, evidenciando o amadurecimento das composições de Dee Snider. Faixas como "The Kids Are Back", "Like a Knife in the Back" e a faixa-título tornaram-se hinos imediatos de celebração do rock. Aliás, "You Can't Stop Rock 'n' Roll", acompanhada por um clipe bem-humorado transmitido com frequência na MTV, deu à banda uma projeção internacional inédita. O disco estabeleceu o conceito do Twisted Sister como defensores dos jovens e da cultura do rock contra o conservadorismo da época. É um álbum coeso, enérgico e repleto de refrãos feitos para serem cantados em arenas lotadas.

1º - STAY HUNGRY (1984)


STAY HUNGRY é o divisor de águas e o maior sucesso comercial da carreira do Twisted Sister. Sob a produção de Tom Werman, a banda refinou sua sonoridade para atingir o topo das paradas globais, alcançando o status de disco de platina tripla. Impulsionado por dois dos maiores hinos da década de 80 — "We're Not Gonna Take It" e "I Wanna Rock" —, o álbum transformou o grupo em um fenômeno cultural, combinando refrãos contagiantes, postura rebelde e clipes icônicos na MTV. Para além dos mega sucessos comerciais, o álbum preservou o lado sombrio e pesado da banda em faixas antológicas como "Burn in Hell", a faixa-título e a épica suíte "Captain Howdy / The Street Justice". STAY HUNGRY conseguiu o equilíbrio raro entre o apelo às grandes massas e o respeito da comunidade do heavy metal, imortalizando Dee Snider e seus companheiros como símbolos máximos da rebeldia juvenil contra o sistema.