quarta-feira, 19 de agosto de 2026

HIBRIA - ON THE SHORTNESS OF LIFE (2026)

 



HIBRIA
ON THE SHORTNESS OF LIFE
Marquee Avalon - Importado

Ao celebrar 30 anos de história, o HIBRIA comemora essa data de forma sincera e direta, lançando seu novo trabalho: ON THE SHORTNESS OF LIFE. O lançamento chega em um momento crucial da discografia da banda, após trocas de formação e até mesmo de direcionamento. Se os mais recentes álbuns trouxeram experimentações e um lado mais voltado para o groove, ("Moving Ground" e "Me7amorphosis"), o grupo entendeu que apesar da sua identidade permanecer intacta, uma correção de rota se fez necessária.  Mais do que resgatar o passado, o álbum consegue aliar a identidade clássica do power/heavy metal técnico da banda a uma maturidade artística impressionante.

Formado por Angelo Parisotto (vocal), Abel Camargo (guitarra, fundador e único remanescente da formação original) Velles (guitarra), Benhur Lima (baixo) e William Schuck (bateria), o grupo buscou inspiração em “Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca, um dos principais representantes do estoicismo, que parte da ideia de que a vida não é curta por natureza, mas frequentemente desperdiçada em distrações, medos, ambições e escolhas que afastam o indivíduo do presente. Para o filósofo, a liberdade está em reconhecer a finitude, concentrar-se naquilo que depende de nossas decisões e viver com consciência, virtude e propósito. Essa carga filosófica dá o tom de uma obra conceitual que foge do piloto automático comum a muitos lançamentos do gênero. Produzido por Renato Osorio (ex-Hibria, Atomic Elephant), o ábum traz a estreia oficial do vocalista Ângelo Parisotto, que entrega uma performance visceral, agressiva e técnica, criando uma identidade própria em vez de apenas imitar o passado. Dividindo o protagonismo, o guitarrista e fundador Abel Camargo comanda as guitarras com riffs intensos e harmonias que remetem à fase áurea do grupo. E aqui cabe um comentário extra: Abel mostra resiliência e persistência, ao enfrentar todas as dificuldades e não desistir, nos trazendo um trabalho técnico, mas acima de tudo, carregado de sentimento.

O álbum com "Undying", uma pedrada heavy/power como só o Hibria sabe fazer. Excelente escolha pra abertura e, na minha opinião, essa deveria ter sido escolhida como video de divulgação, pois traz aquilo que sempre fez parte das características do grupo: guitarras pesadas, baixo e bateria em sintonia e vocal alto mas intenso. Uma faixa tipicamente Hibria. Em seguida "Fire Away", que trata do enfrentamento dos seus próprios demônios, segue uma linha ainda mais agressiva, mostrando a versatilidade de Parisotto, que além de tudo, mostra personalidade ao não buscar apenas repetir o que os vocalistas anteriores fizeram, mas impõe sua identidade com vigor. "Pulse", escolhida como vídeo, é a faixa que ainda guarda semelhança com os trabalhos mais recentes, pois traz traços "modernos" em sua linha de composição. Ainda assim, incorpora peso e melodia em seu andamento. Já "Persist", é aquela faixa veloz e insana, com uma pegada quase thrash em seu andamento. Abel e Velles mostram sintonia e entrosamento, enquanto Parisotto demonstra, mais uma vez, capacidade técnica versátil e enérgica.

"Melting Alive" traz o peso e a melodia lado a lado, com momentos mais tradicionais em sua execução. É possível afirmar que essa seja a faixa "mais Hibria" do trabalho, mais por resgatar passagens do passado da banda do que por se diferenciar do restante do tracklist. "Against the Wall", começa de forma mais intimista, introspectiva, mas recebe uma dose generosa de peso e se transforma em um dos grandes momentos do trabalho. É daqueles momentos que unem o passado e o presente da banda com maestria, pois os toques mais atuais e o metal tradicional se encontram de forma precisa. Peso e intensidade definem "Animus", faixa que antecede "On the Shortness of Life", a faixa-título. Com seus 17 minutos, a composição se divide em 5 capítulos: "Adiaphora", "Prohairesis", "Apatheia", "Ataraxia" e "Eudaimonia". Arranjos ambiciosos, passagens teatrais, peso na medida certa e uma construção lírica densa encerram o álbum testando os limites técnicos da banda e provando que eles não têm medo de arriscar dentro de sua própria essência. Um encerramento que resume a sonoridade da banda: técnica, peso, melodia e sentimento.

ON THE SHORTNESS OF LIFE é um disco maduro, inteligente e revigorante para quem já estava com saudades do verdadeiro som do HIBRIA. O álbum é a prova de que uma banda com 30 anos de história pode olhar para trás para entender quem é, mas sem deixar de caminhar para frente. Este trabalho devolve ao grupo o vigor, a relevância e o respeito técnico que o colocam novamente na prateleira de cima do metal nacional. Lugar, aliás, que sempre foi dela.

Sergiomar Menezes




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MOB RULES - STORIES FROM A VERDANT VALE (EP - 2026)

 


MOB RULES 
STORIES FROM A VERDANT VALE (EP)
ROAR/Reigning Phoenix Music - Importado

STORIES FROM A VERDANT VALE surgiu durante as gravações de "Rise of the Ruler" (2025), lançado pelo grupo MOB RULES. E o EP acaba se tornando uma verdadeira espécie de complemento ao que o sexteto alemão disponibilizou no ano passado. E após sua audição, fica explícito que o trabalho não serve apenas como um complemento ao full lenght, mas tem vida e características próprias. E a versão em vinil, disponibilizada pela ROAR/Reigning Phoenix Music, traz ainda mais cinco faixas gravadas em 2014.

Formada por Klaus Dirks (vocal), Sven Lüdke (guitarra), Florian Dyszbalis (guitarra), Markus Brinkmann (baixo), Jan Christian Halfbrodt (teclados) e Sebastian Schmidt (bateria), a banda tinha como ideia inicial, utilizar algumas composições como material adicional na edição especial do álbum. Entretanto, em vez de recorrer a demos, sobras ou versões alternativas, a banda alemã resolveu fazer algo muito mais interessante: compor músicas novas. O resultado agora ganha vida própria. A produção de Markus Teske merece uma citação especial, pois deixou a sonoridade do EP com a clareza necessária para que cada elemento seja percebido sem retirar da música sua característica pesada. As guitarras permanecem protagonistas e pesadas (dentro do estilo proposto pela banda), mas os teclados não são relegados a um papel meramente decorativo.

Em aproximadamente dezessete minutos, o MOB RULES apresenta cinco músicas que atravessam diferentes atmosferas: a introdução narrativa de “Savage Land Reprise”, que remete diretamente a "Savage Land", trabalho lançado pelo grupo em 1999, a agressividade direta de “Master Of The Black Crow”,  curta, agressiva e objetiva,  a teatralidade de “Masquerade Ball”, com suas guitarras melódicas, teclados acrescentando profundidade e uma cozinha que mantém tudo pesado sem transformar a música em um exercício de velocidade,“Above The Maelstrom”, uma balada melancólica e atmosférica e a força de “Balance Of Power”, onde as guitarras de Sven Lüdke e Florian Dyszbalis fornecem o peso, os teclados de Halfbrodt acrescentam dimensão atmosférica e Sebastian Schmidt mantém a música numa pegada intensa. 

Já a versão em vinil reúne reúne cinco gravações originalmente associadas ao material de 2014: “Celebration Day”, com Bernhard Weiß; “Insurgeria”, com Udo Dirkschneider; “Coast To Coast”, com Chity Somapala; “End Of All Days”, com Amanda Somerville; e “Broken”. Essas gravações ajudam a estabelecer uma ponte entre diferentes períodos da trajetória do sexteto.

STORIES FROM A VERDANT VALE nasceu como material complementar. Mas graças ao empenho e capacidade criativa dos alemães, acabou virando mais um capítulo na trajetória do MOB RULES.

Sergiomar Menezes






SINNER - BOOM BANG GOODBYE (2026)

 


SINNER
BOOM BANG GOODBYE
Reigning Phoenix Music - Importado

Existem discos que chegam ao mundo para dar início a alguma coisa. Outros chegam para provar que uma banda ainda tem muito a dizer. E existem aqueles que carregam sobre os ombros uma tarefa muito mais difícil: dizer adeus. BOOM BANG GOODBYE, o mais recente trabalho do SINNER, lançado lá fora pela Reigning Phoenix Music, pertence a essa última categoria. E diferentemente de outras audições, existe uma história inteira escondida atrás dessas onze faixas. Mat Sinner, o mastermind por trás da "banda", construiu sua trajetória desde o início dos anos 1980, atravessando décadas, mudanças de formação, tendências, crises da indústria e transformações profundas no heavy metal. Agora, ao colocar um ponto final nessa história, o baixista e produtor poderia ter reciclado velhas fórmulas, chamado meia dúzia de amigos e encerrado a carreira de maneira protocolar. Felizmente, não foi isso que aconteceu. Seu último trabalho soa como uma despedida feita por alguém que ainda ama profundamente aquilo que está deixando para trás.

Para este encerramento de carreira, Mat Sinner mais uma vez reuniu um elenco de companheiros de longa data e músicos excepcionais. Alex Scholpp (guitarra), Mathias “Don” Dieth (guitarra, retornando ao SINNER)  e Moritz Müller (bateria) são a base do álbum, acompanhados por Jim Müller (KISSIN’ DYNAMITE), Lisa Müller e Magnus Karlsson, que trabalhacom Mat Sinner há muitos anos. Nos vocais, o álbum também traz um encontro de grandes vozes. Ronnie Romero, Michael Bormann, Michael Sadler (Saga), Björn “Speed” Strid (Soilwork), Erik Mårtensson (Eclipse), Renan Zonta (Electric Mob) e Sascha Krebs trazem sua própria identidade às músicas, tornando o álbum uma despedida digna e cheia de performances vocais cheias de sentimento e técnica.

O álbum abre com "Dreams Come True",  e a escolha de Renan Zonta nos vocais foi excelente. Sua voz traz potência, personalidade e uma energia que impede a música de cair naquela mesmice que muitos vocalistas acabam por se deixar levar. Existe emoção e força em seus vocais. O título parece quase uma mensagem que Mat Sinner poderia estar dirigindo ao próprio passado: sonhos podem se realizar, desde que alguém esteja disposto a persegui-los durante décadas. A faixa traz melodia, peso e uma dose generosa de otimismo. “Wait”, cantada por Michael Bormann, é uma música que mergulha mais profundamente no hard rock melódico e apresenta uma estrutura extremamente acessível, mas sem cair na repetição desnecessária. É uma das faixas que imediatamente faz pensar no grande hard rock melódico europeu dos anos 1980, mas com produção contemporânea. Já em “Leave It All Behind”, o SINNER reduz um pouco a velocidade e aposta em uma atmosfera mais reflexiva. E a voz de Ronnie Romero (que aparece em mais duas faixas) se encaixa perfeitamente na proposta apresentada. “All Night Long” traz o hard rock de estrada: guitarras abertas, groove contagiante e refrão feito para ser cantado em coro. Ronnie Romero novamente demonstra por que se tornou uma das vozes mais requisitadas do hard rock e do heavy metal contemporâneo. “Are You Ready” aproxima o hard rock melódico da sensibilidade mais moderna de  Björn Strid (Soilwork) sem destruir a identidade da composição. E a escolha de Strid mostra que o passado está presente, e músicos de diferentes gerações ajudam a contar essa história.

“Born To Run” traz riffs diretos, melodias fortes e aquele sentimento de que a música foi feita para ser tocada em no volume mais alto possível. Enquanto isso, “Hellbreaker” está entre os momentos mais pesados do álbum e lembra que, apesar de toda a ênfase nas melodias, estamos diante de uma banda cuja história também passa pelo heavy metal. Com Michael Sadler nos vocais, “Turn The Page” ganha uma atmosfera diferente. O vocalista do Saga acrescenta uma dimensão mais sofisticada à música, e o resultado é um dos momentos mais interessantes do álbum. E o próprio título entrega: chegou a hora de virar a página... Michael Bormann retorna e entrega outro dos momentos mais emocionantes do disco. “Road To Remember” se volta ao caminho percorrido. E esse talvez seja um dos pontos em que o trabalho e ultrapassar a condição de simples álbum de hard rock/heavy metal. Porque, em determinado momento, você deixa de pensar apenas em riffs e refrões e começa a pensar na quantidade de anos, palcos, músicos, viagens e histórias que estão por trás daquele som e tudo vivido por Matt Sinner e sua banda. “Under The Moonlight” traz novamente uma atmosfera mais pesada e ajuda a preparar o terreno para o encerramento. É uma música forte e intensa, que mostra como o SINNER consegue alternar entre o hard rock melódico e o heavy metal sem parecer estar mudando de personalidade. O encerramento, não apenas do álbum, mas da carreira da banda vem com "Power". Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, e a música funciona como uma espécie de último grito de força. Não é um encerramento melancólico. É quase uma declaração: enquanto houver rock/hard/heavy, a música terá força!

BOOM BANG GOODBYE não é um álbum revolucionário. Muito pelo contrário. É um disco honesto, competente, melódico e carregado de significado, que reúne diferentes gerações do hard rock europeu para acompanhar Mat Sinner em sua despedida. Ele lembra por que o SINNER conseguiu atravessar tantas décadas sem perder sua identidade. Ao término da audição, fica aquela sensação estranha que discos de despedida conseguem provocar: a certeza de que a história acabou — e, ao mesmo tempo, a sensação de que aquelas músicas continuarão tocando muito depois, já que todos nós sabemos que a música é eterna. Obrigado Matt Sinner

Sergiomar Menezes










TESLA - HOMAGE (2026)

 


TESLA
HOMAGE
Frontiers Music Srl. - Importado

Se você tem familiaridade com a carreira do Tesla, sabe que desde o princípio o quinteto originário da cidade californiana de Sacramento se diferenciou dos seus pares do Hard Rock oitentista. Tanto no visual, como na sonoridade, o Tesla se aproximava mais das bandas setentistas que os influenciaram, como Led Zepellin, Ufo e Humble Pie, citando alguns exemplos. E da mesma forma, sempre pagaram tributo às suas influências.

E a gravação de covers sempre fez parte da carreira do Tesla. Já no seu álbum de estreia, “Mechanical Resonance” (1986) um dos maiores hits, “Little Suzie” é canção de uma grupo de “British Pop”, chamado PH.d, enquanto “Signs” que consta no multiplatinado álbum acústico  “Five Man Acoustical Jam” é da banda de Rock canadense Five Man Eletrical Band. Convenhamos que ambas as faixas são lembradas e conhecidas por causa do Tesla.

Em 2007, o Tesla lançou “Real To Reel” volumes 1 e 2, onde a banda repassa covers do Rock e Hard Rock dos anos 1960 e 1970, e Lynyrd Skynyrd, Aerosmith, Ufo, Alice Cooper, todos são revisitados em versões vigorosas de alguns de seus clássicos. Agora em 2026, o grupo retorna a este formato, com “Homage”. A diferença aqui em “Homage” é que o desafio é um pouco diferente, e as versões são focadas em alguns dos melhores vocalistras de todos os tempos, De Freddie Mercury a Etta James, passando por James Brown, e até o Rei do Rock n' Roll, Elvis Presley.

Todas as faixas parecem ter sido escolhidas sob medida para a voz de Jeff Keith, blueseira e cheia de sentimento. “Homage” é repleto de grandes canções, “Spread Your Wings” (Queen), “Ballad Of Curties Loew” (Lynyrd Skynyrd), “If I  Could Dream” (Elvis Presley), "I´d Rather Go Blind“ (Etta James), todas com o enfoque do Tesla, que deixam todas as faixas do álbum com um novo frescor e torna o álbum extremamente agradável de se ouvir. A abertura do álbum é com a faixa “Never Alone”, uma faixa inédita da banda, e é uma puta balada com o selo de qualidade do quinteto. Enfim, o Tesla dá sequência a sua carreira com um ótimo álbum saudando suas influências e nos brindando com mais um trabalho de muito bom gosto.

José Henrique Godoy





quarta-feira, 12 de agosto de 2026

METALLICA - METALLICA 35 ANOS


 

METALLICA (BLACK ALBUM) 35 ANOS - O DISCO QUE  MUDOU MINHA VIDA!

Eu tinha 13 anos quando ouvi o Black Album pela primeira vez. Foi meu pai quem colocou o disco pra tocar em um belo sábado de sol à tarde, e lembro exatamente do momento em que "The Unforgiven" rolou no som, eu parei de jogar videogame e fui até a sala perguntar a ele quem tocava aquela maravilha dos deuses, e então ele me mostrou um cd de capa totalmente preta, onde só se via a silhueta do nome da banda e uma serpente enrolada no canto inferior direito. Não sei explicar direito o que aconteceu comigo naquele momento, só sei que pirei e posso dizer com toda certeza que foi um divisor de águas em minha vida, pois o Fernando de antes do Black Album deixou de existir a partir daquele dia, não tinha mais volta, eu virei um fanático não só pela banda, mas pelo heavy metal em si.

E trinta e cinco anos depois do lançamento desse disco, em 12 de agosto de 1991, eu ainda sinto um pouco daquela sensação toda vez que escuto o disco até hoje.

Só depois, com o tempo, fui entender que essa reação não era exclusividade minha. O Black Album é o disco que rompeu a barreira do próprio gênero e chegou a gente que nunca tinha ouvido uma música pesada na vida. Não é exagero dizer, até porque os números dizem por si só: o disco estreou em primeiro lugar em dez países, ficou quatro semanas seguidas no topo da Billboard 200 nos Estados Unidos, e "Enter Sandman" chegou à 16ª posição da Hot 100, a parada pop mais importante do mundo, numa época em que praticamente nenhuma banda de metal flertava com esse território. Gente que nunca tinha comprado um disco de metal na vida comprou esse. Isso é raro. Isso é histórico.

Tem gente que fala mal desse disco até hoje, que xinga o Bob Rock, que diz que o Metallica vendeu a alma naquele ano pra virar banda de estádio. Eu entendo o argumento, conheço a história, sei que a produção mais limpa e as músicas mais curtas foram uma aposta calculada pra alcançar um público maior depois da tijolada (no bom sentido) que foi ...And Justice for All. Mas sinceramente, esse argumento nunca colou comigo. Porque sem esse disco, sem essa suposta "venda de alma", eu não estaria aqui hoje escrevendo sobre uma das coisas que mais amo na vida. Ele foi meu marco zero.

"The Unforgiven" tem aquele clima de faroeste, uma melancolia pesada que não é fácil de explicar pra quem não é fã do gênero. Acho que foi exatamente essa mistura de peso com um quê de tristeza que me pegou aos 13 anos. Já "Nothing Else Matters" é outra história. Nasceu quase por acidente, com Hetfield falando que era uma música feita para uma namorada na época, achando aquilo pessoal demais pra virar música da banda, até Ulrich ouvir a música e insistir que ela precisava ser gravada no disco e não deu outra, o “Anão” acertou (de novo). Não é à toa que até hoje ela segue sendo regravada e tocada em todo tipo de contexto, décadas depois de ter nascido de uma ligação particular.

Não preciso ficar comentando faixa por faixa aqui, até porque todo mundo já conhece esse disco de cor. Mas não posso deixar de admitir uma coisa: mesmo gostando de tudo sem exceção, e mesmo tendo sido "The Unforgiven" a minha porta de entrada, a melhor música do disco pra mim continua sendo "Wherever I May Roam". E não é pouca coisa dizer isso de um álbum que, de doze faixas, colocou seis como single ao longo de 2 anos de divulgação, contando o lançamento promocional de "Don't Tread on Me". Poucos discos de heavy metal conseguiram esse tipo de proporção entre faixa e hit.

E não é só questão de saudosismo, ou de eu ter ouvido isso aos 13 anos com os olhos brilhando. Pra mim, até hoje, é o disco mais bem produzido da história do heavy metal. Bob Rock levou o Metallica pra um patamar de produção que nenhuma banda do gênero tinha alcançado até então: guitarras enormes, mas ainda assim limpas, uma bateria que soa gigante sem perder o peso, arranjos que respiram, como a base de cordas discreta em "Nothing Else Matters" ou o clima quase cinematográfico de "The Unforgiven". Isso sem falar da composição, muito mais madura e econômica que qualquer coisa que a banda tinha feito antes. Não é à toa que até hoje engenheiros de som, produtores e bandas de heavy metal e hard rock citam esse disco como referência técnica, não só de som, mas de como compor e arranjar uma música pesada pra ela funcionar em qualquer contexto.

A partir dali, virei fanático. Corri atrás de tudo que existia de Metallica, descobri "Kill 'Em All", "Ride the Lightning", "Master of Puppets", e de lá fui pra Slayer, Exodus, Iron Maiden, Judas Priest, Black Sabbath, etc. O Black Album não foi só um disco bom que eu ouvi quando era moleque. Foi a porta de entrada pra tudo que eu sou hoje como fã e como alguém que escreve sobre heavy metal.

Trinta e cinco anos depois, o disco ainda segue batendo recordes. Em maio de 2025 a RIAA certificou o Black Album como Double Diamond, mais de 20 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos, o primeiro álbum de heavy metal da história a chegar nessa marca. Segue sendo, até hoje, o marco zero de gente que nem tinha nascido quando ele saiu. E o Metallica sabe disso, pois em pleno M72 World Tour, as músicas do disco ainda continuam com presença garantida no repertório, show atrás de show. E assim será eternamente, até o dia em que a banda se aposentar.

Talvez essa seja a explicação mais simples do porquê esse disco importa tanto. Não é sobre thrash raiz contra Metallica "vendido". É sobre quanta gente, como eu, teve o próprio marco zero através dele. Trinta e cinco anos depois, Black Album ainda me faz sentir do mesmo jeito que aquele moleque de 13 anos ouvindo o pai colocar o disco pra tocar.

Long Live MetallicA!

Fernando Aguiar