quinta-feira, 24 de setembro de 2026

RED HOT CHILI PEPPERS - BLOODSUGARSEXMAGIK 35 ANOS

 


O ÚLTIMO GRANDE TRABALHO DO RED HOT CHILI PEPPERS - OS 35 ANOS DE BLODSUGARSEXMAGIK

Há 35 anos, o RED HOT CHILI PEPPERS criaram o momento em que o caos, a genialidade instrumental e a vulnerabilidade se fundiram em um dos discos mais influentes da história da música alternativa

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991 — curiosamente o mesmo dia em que o Nirvana mudaria os rumos do rock com Nevermind —, o RED HOT CHILI PEPPERS cruzou a linha de chegada de sua própria odisseia particular e entregou ao mundo um trabalho que redefiniu os anos 90. Longe das praias ensolaradas e da agitação frenética que marcaram seus primeiros anos de funk-punk desbocado, a banda se isolou em uma mansão assombrada para criar um monstro sônico.

Trinta e cinco anos depois, BLOODSUGARSEXMAGIK permanece não apenas como o último grande álbum do quarteto, mas como o trabalho que consagrou a nova formação da banda.

Para evitar o looping autodestrutivo de gravações convencionais e dar espaço para a nova dinâmica da banda, o produtor Rick Rubin teve uma sacada revolucionária: tirar os músicos do estúdio tradicional. O local escolhido foi a célebre mansão em Laurel Canyon que pertenceu ao ilusionista Harry Houdini — um espaço lendário, cercado por rumores de fantasmas e vibrações místicas, onde a banda passou semanas imersa em um processo criativo quase ritualístico.

O álbum é, acima de tudo, um momento definitivo de coesão e entrosamento entre o guitarrista John Frusciante (então com apenas 21 anos) e o baixista Flea. Frusciante abandonou os excessos puramente acelerados do funk-rock para construir texturas melódicas complexas, riffs intensos e uma atmosfera que transitava perfeitamente entre a crueza do blues e o psicodelismo. Enquanto isso, Flea entregou algumas das linhas de baixo mais icônicas, viscerais e grooveadas já gravadas.

Na bateria, o monstro Chad Smith transformava-se em furacão criativo com uma solidez impecável, garantindo que o swing funk estivesse sempre presente, mesmo quando as músicas flertavam com o peso do rock alternativo ou com a melancolia acústica. Nas letras e vocais, Kiedis equilibrava sua habitual persona de malandro californiano hedonista com uma confissão muito mais madura sobre perda, dependência química, dor e redenção.


A audácia de misturar funk, rap, rock pesado, baladas acústicas e psicodelia deu frutos de maneira estrondosa. Impulsionado pela direção cinematográfica e inventiva do videoclipe de "Under the Bridge" — um desabafo doloroso de Kiedis sobre solidão e abstinência —, o álbum catapultou o Red Hot Chili Peppers para o topo do mainstream global.

Faixas como "Give It Away", "Suck My Kiss" e "Breaking the Girl" dominaram as rádios e a MTV, provando que a música alternativa podia ser comercialmente imbatível sem abrir mão da identidade marginal. BloodSugarSexMagik vendeu mais de 15 milhões de cópias mundialmente, transformando o grupo em headliner de arenas e redefinindo o som de toda uma geração de bandas que tentaria misturar guitarras e grooves nas décadas seguintes.

"My Lovely Man", a segunda parte de "Knock me Down" (gravada no trabalho anterior, o magistral "Mother's Milk"), seguiu tributo saudosista ao guitarrista Hilel Slovak, enquanto o peso de "Funky Monks", "The Righteous and the Wicked" e "Apache Rose Peacock", mostravam que a banda fazia um som de nível como poucas. "I Could Have Lied", uma das mais belas baladas da banda e "Sir Psycho Sexy", uma loucura funkeada também deram mais brilho ao álbum.

Contudo, a intensidade que deu vida ao álbum também cobrou seu preço. A pressão da turnê mundial e o peso repentino do estrelato em massa provaram ser insuportáveis para a frágil estabilidade da banda na época, culminando na saída abrupta de John Frusciante durante a etapa japonesa da turnê em 1992 — um hiato doloroso que quase custou a alma criativa do grupo.

Ainda hoje, BLOODSUGARSEXMAGIK continua a soar fresco, magnético e perigoso. É o retrato de quatro músicos no topo absoluto de suas capacidades, dispostos a trancarem-se em uma casa mal-assombrada para canalizar seus demônios mais profundos em puro ritmo, poesia e eletricidade. Uma pena que depois disso, a banda entrou em decadência...



NERVOSA - 07/09/2026 - CARIOCA CLUB - SÃO PAULO/SP


 

NERVOSA
Abertura: Carro Bomba e Blades of Steel
07/09/2026
CARIOCA CLUB
SÃO PAULO/SP
Produção: TC7 Produções

Texto e fotos: Mauro Antunes

Feriado de segunda feira com um frio para cada um em São Paulo. Este redator não pôde passar o feriado em casa com a família, já que foi para o trabalho, não Home Office. Consegui escapar de lá por volta das 16hs, passei em casa, tomei banho, pus as armaduras e fui rumo ao Carioca Club. Com a promessa da abertura das portas as 18hs, fiz o que um bom headbanger normalmente faz: cheguei para o esquenta, degustei aquele Hot Dog com salsicha sabor vento, comprei uma Long Neck, e pronto: tudo certo para entrar na casa.

Entramos na casa por volta das 18:20hs e a constatação do pequeno público presente, soou a mim, extremamente decepcionante. Talvez, o excesso de shows de Heavy Metal, misturado com a falta de grana, que infelizmente, assola nosso país, possam ter contribuído para o pequeno público. Naquele momento, ficou a expectativa de que até o show da banda principal, a plateia pudesse aumentar.

Poucos minutos depois, o Blades Of Steel iniciou suas atividades. Para quem não os conhece, o som é aquele típico Power Metal, que alguns chamam pejorativamente de Metal Espadinha. Apesar de uma curta carreira, a banda já lançou seu primeiro trabalho (em 2025), auto intitulado. Inclusive, o mesmo estava disponível para venda na barraquinha de “Merchan” em uma caprichada embalagem. O setlist contou com 5 das 8 faixas do CD Standard, destaque para a pesadíssima abertura de “Ruler of the Waves”. Além dela, “Riders of the Night” é muito boa, inclusive a versão de estúdio conta com a participação de ninguém menos que Prika Amaral, a líder do Nervosa. Um Power Metal cheio de riffs pra ninguém botar defeito. Destaque individual fica a incrível presença de palco da vocalista Yara Haag. No momento em que empunhou uma espada lá no alto, imediatamente pensei que ela devia estar fazendo muita força, já que a mesma parecia enorme e pesada. Foram pouco mais de 30 minutos de uma apresentação que realmente faz valer a pena chegar cedo.

Após uma breve pausa, o Carro Bomba entrou em ação. Taí uma banda que admiro e que digo que dá gosto ser fã. Quase todos os clássicos estavam todos no set list: “Máquina”, “Queimando a Largada”, “Migalhas”, “Punhos de Aço”, entre outros. Apesar de, particularmente, não ser um grande fã de faixas em Português, a pegada, a presença de palco, a atitude dos caras realmente é diferenciada. O show de quase 50 minutos foi tão rápido que poderíamos aguentar mais uma hora, tranquilamente. Não é a toa que estão na estrada há tantos anos, há muito tempo não os via ao vivo. Outro ponto positivo foi o som, realmente impecável deu pra ouvir todos os instrumentos. O aquecimento perfeito para o principal show da noite.

Pontualmente as 21h, a Nervosa entrou em cena. Uma pena a ausência da baixista Hel Pyre. Impressionante o poder destrutivo de Prika Amaral, Helena Kotina, Emmelie Herwegh e Michaela Naydenova. “Impending Doom” é uma paulada que não deve nada às bandas Thrash Metal de marmanjos que temos por aí. É a prova definitiva que “Slave Machine” é o melhor trabalho já gravado pela banda.



A banda caprichou no setlist emendando hinos de todas as fases de sua carreira: “Masked Betrayer” que sempre é muita saudada nos shows, e que foi o primeiro hit da banda também marcou presença. Da década passada, ainda tivemos “Death!” e “Kill the Silence” deixando de lado pedradas como “Hostages” e “Intolerance Means War”, por exemplo.

O destaque maior ficou por conta das faixas dos 2 últimos trabalhos que ostentam quase todo o lineup que temos no momento (infelizmente, Emmelie não tocou em “Jailbreak”). Ficou muito claro que a presença de Helena Kotina na guitarra deu um peso, brutalidade e técnica no som da Nervosa. Ela foi o centro das atenções em faixas como “Ghost Notes”, “You Are Not a Hero”, “Jailbreak” e na insana faixa título do novo trabalho.



Ah, e teve também o inusitado cover do “Ozzy brasileiro” (nas palavras de Helena Kotina, Rita Lee), “Obrigado Não”. Como não conhecia a faixa original, não consegui curtir a faixa como as demais.

Uma pena que o show teve apenas uma hora de duração, sendo inegável que as meninas deixaram e entregaram tudo o que podiam. Prika parece ter nascido pra cantar agressivamente; olhando a carreira do Nervosa de trás para frente, fica difícil entender o porquê dela não ter percebido antes, a sensacional frontwoman que é. Emmelie tem uma presença de palco surreal, Michaela parece um motorzinho bem afiado e Helena é uma máquina de riffs; sua presença de palco chega a ser assustadora.

Assim que acabou o show, as meninas desceram à pista e atenderam todos os fãs que as abordaram, inclusive este redator teve a oportunidade de ter um rápido contato com todas elas. O profissionalismo tomou conta da banda, e cada vez mais, vemos o que as tornou tão grandes como são. Consigo imaginar a Nervosa na ativa por ainda muitos anos: o Metal agradece!




EDGUY - MANDRAKE 25 ANOS

 


MAGIA, PESO E SARCASMO: OS 25 ANOS DE MANDRAKE, O DISCO QUE REDEFINIU O EDGUY

Mais maduro, ousado e avesso a fórmulas prontas, o clássico de 2001 provou que o power metal alemão ainda tinha muito espaço para se reinventar

Por William Ribas

O Edguy explodiu no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Antes mesmo de o genial Tobias Sammet criar o magistral Avantasia, ele já havia se consolidado ao lado de Jens Ludwig (guitarra), Dirk Sauer (guitarra), Tobias Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria). A história da banda começou em 1992, na Alemanha, e em 1995 veio Savage Poetry. Ou seja, em menos de uma década o grupo já chegava ao seu quinto trabalho de estúdio e dividia com o Stratovarius o posto de um dos grandes nomes do Power Metal naquele momento.

Lembro muito bem de ler as ótimas críticas sobre o álbum na Rock Brigade e na Roadie Crew. E, como tantas outras vezes aconteceu depois de ler uma resenha, fui até uma loja comprar o CD. Aquela capa azul, com um bobo da corte de olhos esbugalhados manipulando uma pequena dançarina, chamava atenção logo de cara. Havia ali algo tenso e sarcástico, uma imagem que combinava perfeitamente com o que eu encontraria quando colocasse o disco para tocar.

Musicalmente, não demorava nem um pouco para reconhecer aquele Power Metal melódico e bombástico que eu já havia conhecido em "Vain Glory Opera" (1998) e "Theater of Salvation" (1999). Mas Mandrake tinha alguma coisa diferente. A banda parecia mais segura, mais madura e já dava alguns passos na direção do que ouviríamos nos trabalhos seguintes do Edguy. O álbum também marcou o último lançamento de estúdio da banda pela AFM Records.

Bem, sentei na minha cama, com o encarte na mão, e apertei o play. A introdução de “Tears of a Mandrake” começou e veio aquele primeiro pensamento: “Ué, é tão diferente não começar com uma música rápida? Que sem graça!”. Só que aí veio o refrão e tudo mudou. Em poucos segundos eu já estava cantando aos berros — pobres vizinhos.


Não começar com os dois pés na porta foi uma excelente sacada. “Tears of a Mandrake” cresce aos poucos, ganha força a cada passagem e, quando chega ao refrão, já é impossível ficar parado. É empolgante. Você escuta e imediatamente se imagina no show, pulando, batendo palmas e cantando junto.

“If the storm when the magic has gone / Drown in the tears of a mandrake” — bastavam aquelas primeiras explosões do refrão para entender que o disco tinha começado muito bem. Eu que reclamei cedo demais.

E se o início mais cadenciado me causou alguns segundos de estranheza, as próximas músicas ganharam pontos imediatamente. “Golden Dawn”, “Jerusalem”, “All the Clowns” (com um clipe sensacional) e a maravilhosa “Nailed to the Wheel” vieram na sequência para fazer a minha alegria. Inclusive, “Nailed” tem um lado porrada que “bate na trave” de ser Thrash Metal.

É justamente aí que o álbum começa a revelar sua maior qualidade: ele não fica preso à fórmula que havia colocado o Edguy no mapa. Depois de Theater of Salvation, seria muito fácil simplesmente repetir a receita, colocar mais teclados, mais velocidade, mais coros, mais orquestração e seguir em frente. Mas aqui as guitarras ganham mais importância, o peso aparece com mais frequência e existe uma certa escuridão percorrendo várias das músicas. O Edguy continua sendo o Edguy — melódico, épico e cheio de refrãos memoráveis —, mas apareceu muito mais interessado em experimentar diferentes maneiras de chegar ao mesmo impacto.

“The Pharaoh” talvez seja o maior exemplo de como o Edguy conseguia transformar uma composição longa em algo que não soasse cansativo. São mais de dez minutos de música, mas existe movimento o tempo inteiro. A introdução com aquela atmosfera oriental, a construção sombria, as mudanças de dinâmica, a interpretação de Sammet... Tudo corrobora para fazer da faixa um dos grandes épicos da carreira da banda. É também uma música que pede mais e mais audições. Na primeira vez, você provavelmente fica preso à melodia. Depois começa a prestar atenção nos detalhes. E é aí que Mandrake mostra que existe muito mais acontecendo por baixo dos “panos” entre os refrãos e melodias chiclete.

Depois de tanta coisa acontecendo, “Wash Away the Poison” chega para diminuir a velocidade. É uma faixa mais delicada, quase uma pausa dentro do álbum, e funciona justamente por isso: um respiro. O piano e os elementos mais suaves criam um contraste interessante antes de a banda voltar a colocar peso nas coisas. Aliás, isso é um clichê dentro do estilo, né? Velocidade a torto e a direito para pisar no freio e novamente pisar no acelerador.

“Fallen Angels” traz um riff mais direto, e a música antecipa algumas das características que apareceriam com mais força em Hellfire Club. Há menos dependência do Power Metal; é como se colocássemos o pontapé para o futuro do Edguy aqui. “Painting on the Wall” retorna ao terreno mais familiar, enquanto “Save Us Now” deixa claro que Tobias Sammet jamais permitiria que um disco do Edguy terminasse sem uma boa dose de humor. É uma música divertida, quase absurda, sobre coelhos alienígenas tocadores de bateria tentando dominar o planeta.

Essa é uma das coisas que diferenciam o Edguy de várias outras bandas do gênero. Tobias nunca pareceu preocupado em manter uma postura permanentemente séria ou sombria. Ele consegue falar sobre anjos, demônios, religião, corrupção, liberdade e conformismo e, na música seguinte, aparecer cantando sobre alguma maluquice. E Mandrake equilibra muito bem essas duas faces.

E talvez essa seja outra razão pela qual Mandrake continua interessante tantos anos depois.

Também é impossível não falarmos da evolução de Tobias Sammet. Ainda existem ecos bastante claros de suas influências, mas ele já estava encontrando sua própria identidade. Ainda existiam os pôsteres dos seus ídolos na parede, mas, agora que ele também era uma referência para outras pessoas — agora era ele que tinha seu pôster influenciando uma nova geração. Com isso, a voz ficou mais agressiva em alguns momentos, mais segura em outros, e ele começa a explorar melhor os registros graves e médios sem abrir mão daqueles agudos que se tornariam uma de suas marcas.

E, apesar de Tobias naturalmente ser o grande nome do Edguy, Mandrake funciona porque existe uma banda por trás dele. Jens Ludwig é especialmente importante, mas baixo, bateria e segunda guitarra ajudam a sustentar essa mudança de direção. Felix Bohnke, por exemplo, não precisa transformar cada música em uma demonstração de velocidade. Seu trabalho está muito mais ligado à dinâmica das composições, com boas viradas e uma condução que deixa as músicas respirarem.

Talvez por isso Mandrake seja tão importante dentro da discografia do Edguy. Ele ainda carrega praticamente tudo que fez a banda conquistar seu espaço: Power Metal melódico, refrãos enormes, velocidade, fantasia e aquela energia quase juvenil. Mas já existindo algo diferente acontecendo no reino. Acaba sendo o fechamento de um capítulo de quase uma década — O Edguy estava amadurecendo.

E, seja justamente por isso que o álbum tenha um lugar tão especial.



NIRVANA - NEVERMIND 35 ANOS

 


A EXPLOSÃO QUE DEU FIM AOS ANOS 80: TRÊS DÉCADAS E MEIA DE NEVERMIND

Trinta e cinco anos depois, NEVERMIND permanece não apenas como o pico comercial do grunge, mas como o momento em que uma boa parte da juventude encontrou sua voz definitiva

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991, o mundo do Rock n' Roll acreditava estar um tanto quanto estagnado. As paradas globais ainda respiravam o final de uma era dominada pelo hard rock, solos intermináveis de guitarra e a pompa excessiva do hair metal californiano. No entanto, naquele exato dia, uma pequena gravadora subsidiária da Geffen despachava discretamente cerca de 46 mil cópias de um álbum gravado em estúdios modestos por um trio de Aberdeen, Washington.

O que tornou o segundo álbum do NIRVANA um ponto de inflexão tão violento não foi apenas a genialidade de suas composições, mas a colisão de forças criativas opostas. Por trás da fachada polida — resultado direto da produção cirúrgica de Butch Vig e da mixagem final de Andy Wallace —, residia a crueza visceral do punk underground e a obsessão melódica de Kurt Cobain por ganchos pop inspirados em bandas como os Beatles e os Pixies (este último, principalmente).

Um fator que foi determinante para esse sucesso, foi a entrada definitiva de Grohl na bateria. Ele injetou uma força propulsora avassaladora. Onde antes havia apenas caos desorganizado no álbum de estreia "Bleach" (1989), a cozinha, com a chegada de Grohl, ao lado do baixista Krist Novoselic, ganhou um peso monumental, transformando faixas como "Breed" e "Territorial Pissings" em furacões sônicos.

As letras de Cobain recusavam o escapismo hedonista das estrelas de rock tradicionais. Em canções como "Lithium" e "Come as You Are", ele expunha a ambivalência psicológica, a apatia, a depressão e uma sensação crônica de inadequação, disfarçadas sob melodias que grudavam instantaneamente na mente do ouvinte.

A trajetória comercial de Nevermind desafiou qualquer previsão razoável da época. A própria gravadora DGC esperava vender algo em torno de 250 mil cópias, o que já seria considerado um sucesso expressivo para um grupo oriundo da cena independente de Seattle.

No entanto, a chegada do videoclipe de "Smells Like Teen Spirit" à programação da MTV funcionou como a faísca em um paiol de pólvora. O hino de apatia adolescente rapidamente destronou gigantes corporativos das paradas — culminando no histórico momento em janeiro de 1992 em que desbancou o álbum "Dangerous", de Michael Jackson, do topo da Billboard 200. Com dezenas de milhões de cópias comercializadas ao longo dos anos globalmente, o disco redefiniu o mercado fonográfico e abriu as portas comerciais para nomes como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains.

Olhar para Nevermind aos 35 anos é reconhecer uma faca de dois gumes. O álbum eternizou a urgência criativa de Cobain, Novoselic e Grohl, mas também marcou o início de uma cruzada dolorosa para Cobain contra o peso sufocante da fama que ele jamais desejou daquela forma.

A célebre capa — que traz um bebê nadando em direção a uma nota de dólar em um anzol — tornou-se um dos ícones visuais mais debatidos e replicados da cultura pop. 

Mais do que um retrato nostálgico dos anos 90, NEVERMIND continua a soar urgente porque capturou perfeitamente o som da juventude questionando o mundo ao seu redor, provando que a vulnerabilidade, quando unida a guitarras distorcidas, tem o poder de derrubar impérios musicais da noite para o dia.



BLACK SABBATH - TECHNICAL ECSTASY 50 ANOS


 TECHNICAL ECSTASY AOS 50: O BLACK SABBATH QUE SAIU DA SOMBRA E ENTROU NO NEON

50 anos depois, é hora de olhar além dos clichês e redescobrir o disco mais corajoso do Black Sabbath

Por Jay Kay

Em 2026, Technical Ecstasy completa 50 anos como o disco que muita gente ainda usa para testar a própria tolerância ao Black Sabbath. Para alguns, é o momento em que os criadores do heavy metal perderam o rumo, para outros, é a fotografia fascinante de uma banda grande demais para repetir a própria fórmula. As duas leituras tem algum fundamento. Lançado em 25 de setembro de 1976, o sétimo álbum de estúdio do quarteto original não tenta reproduzir o breu de "Master of Reality" nem a tensão quase claustrofóbica de "Sabotage". Ele abre as janelas, e deixa entrar piano, sintetizador, cordas, grooves e uma vontade bem explícita de conversar com o hard rock de seu tempo. O detalhe decisivo é que essa mudança não veio de uma banda acomodada. O Sabbath acabara de atravessar a turbulência jurídica e administrativa que contaminou a gestação de "Sabotage". Em vez de recuar, Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward passaram a se administrar e produzir o próprio trabalho. No verão de 1976, seguiram para o Criteria Studios, em Miami, depois de uma turnê na qual teclados e sintetizadores já começavam a aparecer no palco. O que se ouve em Technical Ecstasy é justamente a tentativa de levar essa ampliação para dentro do estúdio. Chamar o álbum de “não-Sabbath” seria preguiçoso e injusto. O peso continua ali, só que deslocado. A evolução fica mais clara quando o disco é colocado entre os vizinhos de catálogo. É uma curva fechada porque a banda não chegou a uma síntese definitiva. Há momentos em que o álbum parece antecipar um Sabbath mais elegante e progressivo, em outros, soa como quatro músicos excelentes tentando descobrir, ao mesmo tempo, qual deles deve conduzir o carro. Essa irregularidade não precisa ser escondida. Ela é o que torna o aniversário interessante. 

“Back Street Kids” abre o play com energia de hard rock urbano e uma simplicidade quase provocadora. Depois da densidade de Sabotage, ouvir Sabbath cantar a própria sobrevivência pelo rock’n’roll pode parecer um passo para trás. Mas Iommi entrega uma guitarra muito mais luminosa, e a bateria de Ward impede que a faixa se acomode no piloto automático. A resposta vem logo em “You Won’t Change Me”. Aqui, sim, o velho nevoeiro reaparece, teclados sombrios, riff arrastado e Ozzy interpretando a letra como alguém que já está cansado e deprimido. É uma das faixas que melhor une a identidade anterior do grupo à nova sonoridade. A presença de Gerald Woodruffe nos teclados não é decoração, ela torna o peso menos óbvio e mais dramático. 

“Gypsy” reforça esse lado de aventura. Tem pulso, tem ameaça e tem um refrão que não se explica totalmente, mas funciona pelo atrito entre o riff e os teclados. 

Já “All Moving Parts (Stand Still)” é o ponto em que Geezer começa a puxar o álbum para terrenos quase funk. O baixo é móvel, a letra é estranha, a banda parece se divertir com o absurdo. Não é uma música que pediria licença para entrar em "Paranoid", e essa é exatamente a graça. 


As duas canções mais divisivas deixam o retrato mais humano. “Rock ’n’ Roll Doctor” tem um boogie enxuto e despretensioso, diria que está bem longe da sofisticação de “The Writ”, mas tem uma energia de banda de bar muito bem tocada. 

“She’s Gone”, por sua vez, coloca cordas e melancolia em primeiro plano. A faixa pode soar sentimental demais para quem só procura o Sabbath cavernoso, mas revela uma interpretação particularmente exposta de Ozzy e confirma que Iommi estava disposto a testar o alcance emocional da banda. 

E então há “Dirty Women”. O título envelheceu mal, e vale dizer isso sem rodeios. A letra trata mulheres de modo raso, preso a um imaginário de cidade noturna que já era datado mesmo para os padrões do rock setentista. Musicalmente, porém, a faixa é enorme, começa com clima de rua molhada, abre espaço para a guitarra respirar e termina como uma aula de Iommi sobre como esticar um riff sem matar sua tensão. Não por acaso, ela sobreviveu melhor que outras músicas do período e voltou a aparecer como presença frequente nos shows de reunião da banda. 

A maior surpresa do álbum atende pelo nome de “It’s Alright”. Bill Ward assume os vocais principais em uma balada guiada por piano, a primeira faixa do Black Sabbath sem Ozzy no posto de cantor. É uma decisão que, em 1976, devia soar quase como heresia para parte do público. Hoje, ela parece uma das escolhas mais simpáticas do disco. Ward não tenta competir com Ozzy, canta com fragilidade, calor e uma abordagem beatlemaníaca que revela outra dimensão do grupo. Décadas depois, Guns N’ Roses registraria a música em Live Era ’87–’93, sinal de que aquela aparente excentricidade encontrou ouvintes atentos. 

A capa também ajuda a explicar o caráter torto do álbum. Criada pela Hipgnosis, ela traz uma montagem de robôs em uma escada rolante em situação sexual. Aubrey “Po” Powell, um dos nomes do estúdio de design, contou que a escolha da arte aconteceu em meio a uma reunião tensa na casa de Iommi, com Ozzy chegando alcoolizado e a discussão quase descambando em briga. A imagem é estranha, fria, engraçada e desconfortável, exatamente como o disco em seus melhores e piores momentos. Outra curiosidade dá uma nova porta de entrada ao álbum. Em 2021, a Rhino lançou uma edição Super Deluxe com remaster, um novo mix de Steven Wilson feito a partir das fitas analógicas originais, outtakes, mixes alternativos e gravações ao vivo da turnê de 1976–77. Mais do que item de colecionador, a edição ajuda a separar o que é escolha de composição do que era limitação de mixagem. O baixo de Geezer e a bateria de Ward ganham nitidez, enquanto as camadas de teclados passam a ocupar um lugar mais justo no conjunto. 


Cinquenta anos depois, o que ele significa? Technical Ecstasy não ocupa o mesmo pedestal de "Paranoid", "Master of Reality" ou "Sabbath Bloody Sabbath". Nem deveria. Esses álbuns definiram linguagens, já este mostra uma linguagem tentando se deslocar sem perder o próprio sotaque. Sua força está nessa fricção entre um passado pesadíssimo e um futuro que a formação original ainda não sabia como encarar. A recepção permanece dividida. Há quem considere o álbum inconsistente e quem enxergue nele uma obra injustamente descartada por não oferecer o pacote habitual de riffs apocalípticos. 

A crítica retrospectiva costuma reconhecer ao menos esse mérito, pois até quando tropeça, o Sabbath de 1976 está tentando se superar e provar algo. “You Won’t Change Me”, “Gypsy”, “All Moving Parts (Stand Still)”, “It’s Alright” e “Dirty Women” formam um argumento suficientemente forte para que o disco seja mais que uma nota de rodapé entre "Sabotage" e "Never Say Die!". Aos 50 anos, a melhor forma de ouvir Technical Ecstasy é abandonar a missão de procurar um novo "Paranoid". Coloque-o como o álbum de uma banda no meio da ponte, ainda capaz de esmagar, curiosa o bastante para mudar e vulnerável demais para fingir que tudo estava sob controle. Talvez não seja a ecstasy prometida no título. Mas é um dos retratos mais sinceros de quando o Black Sabbath decidiu se arriscar.

Veredito: Imperfeito, aventureiro e muito mais vivo do que a fama de “elo fraco” faz parecer.