segunda-feira, 30 de março de 2026

SOULFLY - ARCHANGEL (2015/2025) - RELANÇAMENTO

 


SOULFLY
ARCHANGEL
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

A capacidade criativa de Max Cavalera parece não ter limites. Ainda que muitos digam que ele vive do passado, basicamente por ter regravado junto à Iggor Cavalera os três primeiros trabalhos do Sepultura, estes mesmos esquecem que o SOULFLY lança álbuns regularmente (sem falar no Cavalera Conspiracy, Killer be Killed, Go Ahead and Die, entre outros) e que nas turnês da banda é quase nula a execução de músicas do Sepultura. Ou seja, Max não vive do passado. Pelo contrário, cada lançamento do Soulfly nos mostra um músico incansável, explorando novos horizontes mas mantendo a chama do metal sempre acesa. E ARCHANGEL, décimo álbum de estúdio do grupo, é aprova cabal disso. Relançado por aqui pela parceria Shinigami Records/Nuclear Blast, o trabalho trás um pé maior no death metal, deixando um pouco de lado aquele groove mais característico que sempre permeeou a carreira da banda.

Com as guitarras e vocais únicos de Max, o grupo è época do lançamento de "Archangel" era formado por Marc Rizzo (guitarras - e que, apesar da regularidade dos mais recentes trabalhos, tá fazendo falta), Tony Campos (baixo) e Zyon Cavalera (bateria). O álbum também traz as participações de Richie Cavalera (Incite), Todd Jones (Nails) Matt Young (King Parrot) e Igor Cavalera Jr (Goa Ahead and Die). Uma das coisas que mais chama a atenção é a capa: uma representação de São Miguel Arcanjo feita pelo artista Eliran Kantor. Ela dita o tom do álbum. Esqueça os temas voltados à política ou problemas urbanos de antigamente: "Archangel" é um mergulho em temas teológicos, batalhas celestiais e civilizações antigas. A produção de Matt Hyde  (que já trabalhou com Slayer e Behemoth) foi essencial para dar ao Soulfly um som mais ousado e poderoso. A parede de som é opressiva, mas permite que cada detalhe — das percussões tribais  aos solos virtuosos de Rizzo — seja ouvido. Já Max soa mais furioso do que em muitos discos dos anos 2000. Seus vocais estão mais próximos do gutural puro, abandonando quase completamente as linhas de voz mais limpas, que diga-se de passagem, deixam a desejar.

Por se tratar de um relançamento, vamos aos principais destaques, mas salientando que o álbum é bem acima da média e mantém uma regularidade mais que positiva. A faixa de abertura, " We Sould Ours Souls to Metal", é aquele chute na porta que escancara a aula de violência e agressividade que nos é apresentada. Refrão que gruda, riffs insanos, baixo e bateria pesados e vocais absurdos são os ingredientes dessa mistura explosiva. Já a faixa-título abre com um riff épico e cadenciado que logo explode em uma agressividade típica do Death Metal. O refrão é um mantra ("Archangel! Archangel!") que funciona perfeitamente ao vivo. É uma das músicas mais curtas do Soulfly, o que mostra a intenção do álbum: ser direto e brutal (o álbum no total não passa dos 36 minutos de duração). Com a participação de Todd Jones (Nails), "Sodomites" é um "trator". O ritmo é mais lento, focado no peso absurdo das guitarras afinadas em tons baixíssimos. A letra reconta a destruição de Sodoma e Gomorra sob uma ótica de julgamento divino implacável (o que diria Max Possessed sobre isso em 1985?). Em "Ishtar Rising", Max explora as raízes babilônicas. A faixa tem um "balanço" que remete ao antigo Soulfly, mas com uma produção muito mais densa. A bateria de Zyon Cavalera (filho de Max) brilha intensamente, mostrando que o DNA da família continua se expandindo. Ainda podemos citar "Bethlehem’s Blood" e "Shamash". Enquanto a primeira utiliza metais (trompetes) para criar um clima de "marcha para a guerra", a segunda foca na mitologia mesopotâmica com um dos solos mais inspirados de Marc Rizzo.

ARCHANGEL é um álbum curto, o que é seu maior trunfo. Ele não cansa o ouvinte: ele o atropela. É uma obra que mostra uma banda veterana que não tem medo de abraçar a obscuridade e a complexidade técnica para se manter relevante. "Archangel" é o SOULFLY em sua forma mais mística e feroz, provando que Max Cavalera ainda tem muita lenha para queimar.

Sergiomar Menezes




quarta-feira, 25 de março de 2026

STRYPER - THE GREATEST GIFT OF ALL (2025)

 


STRYPER
THE GREATEST GIFT OF ALL
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

De quando em vez e de vez em quando, artistas famosos, cantores e bandas lançam em finais de ano seu “álbum natalino”. Eu particularmente acho brega, desnecessário e literalmente um saco. E olha que alguns dos meus artistas preferidos já “cometeram“ estes projetos, dentre eles Twisted Sister e o “Metal God” Rob Halford. Impossível não lembrar da cantora Simone e sua versão de “ Então é nataaaal”...

Pois não é que até que demorou para uma das bandas mais peculiares e talentosas do Hard/Heavy oitentista, o Stryper lançar o seu “Christmas Album”? Falo que demorou, pois pela temática cristã pela qual são conhecidos, o projeto de Natal do Stryper viu a luz do dia apenas após quatro décadas de carreira.

E não é que o resultado do álbum ficou acima do que eu esperava ? Logo de cara salta aos olhos a ótima produção do trabalho, e como sempre a performance do vocalista Michael Sweet, principalmente quando sabemos dos problemas de saúde que ele tem atravessado nos últimos tempos. Faixas tradicionais de Natal como “Winter Wonderland”, “Little Drummer Boy” e “Silent Night" tem a assinatura característica do Stryper, sem perder o clima original, tendo como resultado versões Hard Rock melódico.

Se você é fã do Stryper de longa data, e tem tudo da banda (este que digita aqui, por exemplo), é um álbum necessário para manter a coleção em dia. Se você não acompanha tão de perto a banda dos irmãos Sweet, ou se quer conhecer a banda, indico “Soldiers Under Command” ou “ To Hell With The Devil”. Lançamento Nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




ROB ZOMBIE - THE GREAT SATAN (2026)

 


ROB ZOMBIE
THE GREAT SATAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Na minha opinião, Rob Zombie é um dos últimos Rock Stars da história. Seus discos sempre tem qualidade, uns mais, outros menos, porém seus shows são apocalípticos e espetaculares. E ainda divide seu tempo como diretor de cinema de Horror, criando algumas das melhores “trasheiras” de todos os tempos. E agora em 2026, ele nos entrega “The Great Satan”, sem dúvida nenhuma, um dos seus melhores trabalhos.

Pesado, agressivo e com o jeito Rob Zombie de “rockear”, “The Great Satan” é um retorno ao som tradicional dos primeiros trabalhos como ”Hellbilly Deluxe” (1998) e com algo que lembra sua antiga banda, o White Zombie. Durante toda a audição, o ouvinte se depara com riffs pegajosos, baterias estrondosas e o rugido inconfundível de Zombie. O uso habitual de samplers e outros sons eletrônicos estão lá também, aqui e acolá, porém sem muita interferência mas que dão outra dimensão à música de Zombie.

A faixa de abertura “F.T.W. 84!" é uma introdução perfeita para "The Great Satan", a estranheza dos teclados fora de sincronia, o riff monstruoso e Zombie gritando “Fuck The World, Fuck it All” é mais um exemplo de como é fácil para Rob Zombie criar um carnaval de insanidade. “Tarantula” é apenas a primeira amostra de riffs monstruosos do guitarrista Riggs, enquanto “I´m A Rock N Roller“ se tornou a minha faixa preferida. Pesada e divertida, a letra dela faz referências a “Moonage Daydream” do David Bowie, cita o T-Rex referindo “Telegram Sam” e “Eletric Warrior (músicas e álbum da banda de Marc Bolan), e também fazendo citações ao The Sweet e Jimmy Page. Faixa simplesmente viciante.

Outros destaques ficam por conta de “Heathen Days”, que lembra bastante a clássica “Dragula”, e as fantasticamente intituladas “Black Rat Coffin”, e "Sir Lord Acid Wolfman". Nelas o peso é mantido e o groove garantido por conta do baixista Blasko (ex-Ozzy Osbourne e Danzig) e o batera Ginger Fish (ex-Marylin Manson). O trabalho é mantido num nível linear altíssimo, tendo em vista que ao final de “Grave Discontent” a última das 15 faixas, a impressão do ouvinte é de que recém havia começado a audição, O jeito é colocar pra rodar de novo.

Enfim, “The Great Satan“ é um puta álbum concebido por Rob Zombie. O lançamento nacional dele já está disponível pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




terça-feira, 24 de março de 2026

HOLY LAND - 30 ANOS

 


HOLY LAND: A EPOPÉIA BRASILEIRA DO HEAVY METAL


Por Sergiomar Menezes

Celebrar os 30 anos de Holy Land em 2026 é reconhecer o momento em que o Heavy Metal brasileiro deixou de ser um reflexo do que vinha de fora para se tornar uma referência global. Se "Angels Cry" (1993) apresentou o Angra ao mundo, Holy Land (lançado em 23 de março de 1996) provou que eles eram gênios. O segundo álbum de estúdio do Angra foi muito além do "debut". Enquanto o primeiro disco mostrava uma banda virtuosa influenciada pela música clássica e erudita, Holy Land foi uma jornnada conceitual ambiciosa que narra a descoberta do Brasil em 1500, mergulhando nas raízes indígenas e coloniais. Ele não apenas narra o descobrimento, mas explora o choque cultural e a natureza exuberante através de uma fusão técnica impecável. É um disco que desafiou as fronteiras do gênero ao fundir o Power Metal europeu com a riqueza rítmica e folclórica da nossa terra.

O álbum é uma jornada sensorial. Ele não fala apenas de história, mas de sentimento. A narrativa foca no choque cultural, na beleza da natureza intocada e na espiritualidade.

A genialidade do quinteto estava no auge. Composto por 5 cabeças que se complementavam (apesar dos atritos internos), o grupo tinha na técnica e qualidade seu maior destaque. Andre Matos (vocal) - o maestro. Sua voz alcançou o ápice da técnica e emoção aqui, unindo sua formação erudita ao metal. Infelizmente, Andre faleceu em 2019, mas seu legado, em especial aqui em Holy Land, é eterno. Kiko Loureiro (guitarra), trouxe o virtuosismo que o levaria anos depois ao Megadeth. Em Holy Land, ele explorou dedilhados que remetem à viola caipira e violão brasileiro. Rafael Bittencourt (guitarra), foi o mentor intelectual de muitos conceitos e letras. Sua visão ajudou a equilibrar o peso com a brasilidade. Luís Mariutti (baixo) garantiu o peso necessário enquanto acompanhava as mudanças rítmicas complexas. E Ricardo Confessori (bateria), o elemento chave para a percussão. Ricardo integrou bumbos duplos com levadas de maracatu e baião de forma orgânica e nos fez entender que, para serem universais, precisavam ser autênticos às suas origens. A sinergia deste quinteto foi o que permitiu uma ousadia musical tão grande e versátil.

O que torna Holy Land um clássico absoluto é a coragem das misturas. Não era apenas "metal com um batuque no fundo", era uma integração orgânica:

- Ritmos Brasileiros: O uso de instrumentos de percussão nordestinos e amazônicos, o balanço do baião e do maracatu inseridos em estruturas complexas.

- Música Clássica e Renascentista: Influências de compositores como Palestrina e o uso de flautas e arranjos vocais que remetem ao período das Grandes Navegações.

- Progressivo e Power Metal: Bumbos duplos e solos de guitarra estratosféricos convivendo com momentos de pura calmaria e introspecção.

E como analisar musicalmente um trabalho único e referencial como Holy Land? Musicalmente complexo e técnico? Liricamente poético e histórico? Ou um trabalho conceitual completo do início ao fim, iniciando por "Crossing", uma peça sacra de Giovanni Pierluigi da Palestrina (século XVI). que define o tom de "viagem no tempo" e colonização europeia. E a sequência com "Nothing to Say"? Um Heavy/Power com um dos riffs mais clássicos da carreira da banda. Andre solta a voz de uma forma perfeita, mostrando ao mundo que era (e sempre será) um dos maiores vocalistas do mundo. "Silence and Distance", uma balada ao piano que explode em peso. Trata da solidão e das incertezas em alto-mar. Mas o maior destaque e também o maior desafio da banda até aquele momento (e na minha opinião, nunca mais superado) é "Carolina IV". Em mais de 10 minutos, a composição reúne percussão brasileira, corais eruditos e uma complexidade progressiva que narra a travessia oceânica. Uma verdadeira obra-prima que sintetiza todo o conceito do disco. A faixa título, por sua vez, traz a brasilidade de forma mais visceral, onde a percussão é a protagonista, refletindo a beleza e o misticismo da terra descoberta, com uma linda melodia de piano que depois de ouvida uma vez, nunca mais sai da sua cabeça.

"The Shaman" (que mais tarde daria nome à banda formada depois da separação da banda), introduz elementos indígenas e rituais. É uma das músicas mais místicas do disco, com um clima denso e tribal. Em seguida, uma das mais belas músicas do Angra: "Make Believe", onde Andre dá outro show com vocais agudos numa bela interpretação e mostra que pra cantar essa, não bastava fazer pose nem jogar pra galera (como andaram fazendo tempos depois...). Uma balada emocionante que questiona o futuro daquela terra e as cicatrizes da colonização. Destaque para o solo final de guitarra. "Z.I.T.O", traz consigo um enigma interessante. A sigla pode se referir tanto ao apelido de um amigo quanto à expressão em latim “Zur Incógnita Terra Oceanus” (Terra Incógnita Além do Oceano), além de ter sido inspirada por um sonho com um alienígena chamado Ziltoyd. Essa variedade de interpretações reforça o tema principal da música: a busca humana por novas descobertas e o desejo de explorar o desconhecido, seja no mundo exterior ou no próprio interior, e contrata com a melancolia e grandiosidade de "Deep Blue", uma composição que retrata o encontro do céu com o mar. Ao final, "Lullaby for Lucifer", um encerramento acústico e introspectivo, gravado com sons de ondas e pássaros, trazendo o ouvinte de volta à realidade da natureza.


Três décadas depois, "Holy Land" continua sendo a "régua" pela qual muitas bandas de metal nacional são medidas. Ele provou que o Brasil tinha uma identidade própria no gênero, fugindo da cópia das bandas europeias. A performance de Andre Matos neste disco é frequentemente citada como uma das maiores da história do metal mundial, consolidando seu status de lenda. Para os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, o álbum foi a vitrine que mostrou ao mundo uma técnica refinada aliada a uma criatividade rítmica singular.

Em um mercado saturado, "Holy Land" permanece atual porque é honesto. Ele celebra a brasilidade sem clichês, tratando nossa cultura com a grandiosidade de uma ópera. É um testamento de uma época em que a banda estava no auge de sua sinergia criativa.

Agora em março, a banda anunciou o fim de um hiato para realizar uma turnê comemorativa de 30 anos do disco (e surpreendeu 0 pessoas), com a escolha de Alírio Netto para os vocais. E isso prova que, mesmo após mudanças de formação e décadas, o público ainda vê em "Holy Land" a alma do Angra. Se isso soa positivo ou não, fica a critério de cada um...

"Revisitar Holy Land agora não é apenas tocar um álbum clássico. É voltar às raízes e reencontrar a força criativa que nos trouxe até aqui." – Comunicado oficial da banda (2026).


 


 

segunda-feira, 23 de março de 2026

REBEL ROCK ENTREVISTA - ROBERT LOWE (SOLITUDE AETERNUS, CANDLEMASS)

 


O Discípulo do Doom Desembarca no Brasil

O cenário do Doom Metal mundial não seria o mesmo sem a voz de Robert Lowe. Dono de um alcance emocional único e de um timbre que transita entre o solene e o desesperador, Lowe eternizou seu nome na história ao capitanear instituições como o Solitude Aeturnus e ao dar vida a uma das eras mais icônicas do Candlemass.

Agora, em abril de 2026, o público brasileiro terá finalmente a chance de testemunhar essa lenda viva de perto. Pela primeira vez em solo nacional com seu projeto solo, a turnê "Disciple of Doom" promete ser muito mais do que um simples show: será uma celebração litúrgica de décadas de dedicação ao metal pesado e lento.

Em uma conversa franca com a Rebel Rock, Robert Lowe fala sobre a expectativa de encontrar os fãs brasileiros, revisita momentos cruciais de sua trajetória e revela detalhes sobre o processo criativo que o mantém como uma das vozes mais respeitadas do gênero. Preparem-se para a "Missa Doom": o mestre está chegando.

Por Sergiomar Menezes

Rebel Rock: Oi, Robert! Antes de mergulharmos no assunto, devo dizer que é uma honra absoluta entrevistar um dos maiores nomes da história do Doom Metal. Estamos entusiasmados por ter você aqui e espero que você aproveite bastante o papo!

Robert Lowe: Obrigado. É uma honra para mim também.

Rebel Rock: Robert, o projeto Disciple of Doom parece ser uma celebração definitiva da sua carreira. Como foi o processo de seleção do setlist para esta turnê brasileira, considerando que você tem hinos em bandas com sonoridades tão distintas?

Robert: Bem, escolher as músicas é difícil simplesmente porque há muitas opções, mas o que eu quis fazer com este set especial no Brasil é tocar coisas que obviamente as pessoas conhecem, mas também muitas outras músicas que são algumas das minhas favoritas e que não costumam ser tocadas ao vivo.

Rebel Rock: Você é uma lenda do gênero, mas esta é a sua primeira vez realizando shows solo no Brasil. O que você ouviu sobre o público brasileiro ao longo dos anos e o que os fãs podem esperar dessa "Missa Doom" que você está trazendo?

Robert: Eu entendo que os fãs brasileiros são incríveis, pelo que vi e ouvi sobre outras bandas que estiveram aí, e estou extremamente ansioso para fazer parte dessa comunidade. Planejamos tocar os clássicos e, novamente, também material de álbuns que — espero — as pessoas gostem, e que eu gosto, trazendo-os para o primeiro plano do show para que não seja um set comum e previsível.

Rebel Rock: O Solitude Aeturnus é frequentemente citado como o pilar do Epic Doom nos EUA. Olhando para trás, para álbuns como "Into the Depths of Sorrow" e "Beyond the Crimson Horizon", como você vê a evolução da sua voz e da sua escrita lírica daqueles dias até o presente?

Robert: Bem, inicialmente o Lyle cuidava das letras, e depois eu assumi como letrista; nossa abordagem de escrita é um pouco diferente. Quanto ao estilo vocal, acabei encontrando meu lugar com o "Through the Darkest Hour" e foi ali que me estabeleci. Não acho que meu estilo tenha mudado; se você quiser usar a palavra "evoluiu", então sim, simplesmente porque fiquei mais confortável no meu papel, mas isso não mudou quem e o que eu sou em relação a pensamentos, sentimentos e emoções. Essas coisas nunca vão embora.


Rebel Rock: Juntar-se ao Candlemass para o álbum "King of the Grey Islands" foi um dos momentos mais impactantes do metal nos anos 2000. Como foi o desafio de ocupar o lugar de Messiah Marcolin e, ao mesmo tempo, imprimir sua própria identidade em clássicos como "Bewitched" e "Solitude" durante as turnês?

Robert: Antes de tudo, você não substitui o Messiah. Quero dizer, o homem é uma lenda por si só. E quem não gosta do Messiah, certo? O que eu quis fazer foi apenas colocar minha marca de alguma forma em uma banda que já era enorme e que é uma das bandas que me colocou neste caminho, então todo o crédito vai para esses caras. Tudo o que eu pude fazer foi o melhor possível para garantir que a reputação do Candlemass não fosse manchada.

Rebel Rock: Muitos fãs consideram o "Death Magic Doom" (2009) um dos melhores discos da história do Candlemass. Qual é a sua lembrança favorita do processo de gravação desse álbum e como era sua dinâmica criativa com Leif Edling na época?

Robert: Eu estava assistindo a um documentário do Abba no meu hotel em Oslo, na Noruega. O Leif apareceu, bateu na porta, ficamos sentados por um tempo decidindo o título do álbum, que acabou sendo esse. Mas o processo foi muito tranquilo. Aqueles cavalheiros são incríveis de se trabalhar. Executar as músicas no estúdio foi surpreendentemente fluido. Todo mundo é muito profissional, então não é uma situação difícil conseguir criar a música que o Leif escreveu. Todos os caras são incríveis, eu era a "terceira roda" ali.


Rebel Rock: Você teve uma relação próxima com o Trouble, outra instituição do Doom. Como a "escola de Chicago" e o estilo de bandas como Trouble e Saint Vitus influenciaram sua interpretação do metal, especialmente em comparação com o estilo mais "europeu" do Candlemass?

Robert: Minha primeira impressão veio — acredito — da coletânea Metal Massacre 4. No lado B do disco, a primeira vez que ouvi Trouble foi "Last Judgement", e eu apenas sentei lá e pensei: "Puta merda. Isso é que é o bicho". Bem, para ser honesto, naquela época, o que quer que você queira dizer com "Metal Europeu", eu estava ouvindo obviamente Priest, Maiden... Eu não considero realmente essas bandas como metal europeu. Metal é metal. Digo, Scorpions, era o que eu ouvia na época... Sabbath... Não havia muita coisa super pesada saindo dos Estados Unidos naquele tempo. Depende, quero dizer, se você olhar para bandas como Metal Church, Slayer, Anthrax... com exceção do Pentagram, que foi outra banda que me fez dizer "Caramba! Por que estou ouvindo Hank Williams Jr.?"

Rebel Rock: Poucas pessoas sabem que você também toca guitarra e baixo (como visto em projetos como o Concept of God). Como seu conhecimento de outros instrumentos ajuda a construir melodias vocais sobre riffs de Doom pesados e lentos?

Robert: Com a habilidade de tocar vários instrumentos, no que me diz respeito, os vocais são completamente diferentes de tocar guitarra, baixo, bateria, teclado ou qualquer instrumento. Para mim, vejo os vocais como a terceira guitarra, a outra linha de baixo; todos têm que se entrosar e ser um só. Não são instrumentos individuais, porque quando você se une como uma banda, os vocais nada mais são do que um aditivo para a mistura completa do todo.

Rebel Rock: O Doom Metal passou por várias ondas, do Tradicional ao Stoner e Sludge. Como você vê a cena hoje em 2026? Existem novas bandas que você sente que capturam aquela "aura de desespero" que você ajudou a criar nos anos 80 e 90?

Robert: Como eu respondo a isso? Há muitas bandas que eu escuto e, quando surgem essas perguntas, nunca consigo nomear todas as bandas que tocam ao fundo quando estou fazendo café de manhã. É uma daquelas coisas... eu poderia sentar aqui e listar bandas o dia todo, certo? No momento, me vem à cabeça a banda Funeral. Outra que estou ouvindo no momento é Witchcraft. Sabe, são tantas que não consigo apenas listá-las. Essas são as duas que me vêm à mente. Mas, quanto ao estado do doom metal, acho que talvez algumas bandas tenham perdido a diversidade, mas, por outro lado, tudo isso tem seu lugar. E só importa onde você está naquele momento particular. Vejo a música como uma jornada e, se você vai colocar um álbum de quem quer que seja sua banda favorita, é ali que você precisa estar, e deve agradecer àqueles cavalheiros que fizeram aquilo acontecer.


Rebel Rock: Vimos recentemente alguns relançamentos e atividade em torno do nome Solitude Aeturnus. Existe a possibilidade de vermos material novo com John Perez no futuro, ou seu foco agora está inteiramente em novos projetos como o DiGelsomina e sua carreira solo?

Robert: Quanto a material novo, nunca há uma razão para o SA parar de fazer o que estamos fazendo. Tocaremos no Maryland Deathfest em maio e no Candelabrum Metal Fest no México em setembro, e há mais shows sendo planejados enquanto conversamos. O DiGelsomina me contratou para os vocais em seu próximo álbum. Também estou fazendo os vocais para o próximo álbum do Lost Requiem. Além disso, tenho outros trabalhos surgindo, como um single com a banda The Cross, do Brasil. Atualmente, estou montando uma banda Disciple of Doom aqui na Noruega.

Rebel Rock: Robert, o Brasil é conhecido mundialmente por ter um dos públicos de Heavy Metal mais apaixonados e barulhentos. Além do palco, o que você está mais ansioso para vivenciar em nosso país? Há algo em nossa cultura ou culinária que você esteja animado para experimentar?

Robert: Por experiência, sei que não terei muito tempo para fazer turismo, mas certamente estou interessado em ver algumas partes históricas do país; mas, antes de tudo, estarei aí para levar o doom ao Brasil e conhecer os fãs que eu tanto aprecio.

Rebel Rock: Nesta turnê, você dividirá o palco com as bandas brasileiras Midgard e Loss. Você teve a chance de ouvir a música deles? Como é ver que o legado do Doom e do Heavy Metal Tradicional permanece vivo e forte através de bandas mais novas pelo mundo?

Robert: Eu dei uma ouvida no Midgard e no Loss, e devo dizer que mal posso esperar para tocar com esses caras. Bem, é bom saber que as pessoas ainda sabem o que é música de qualidade.

Foto: Brian Mclean

Rebel Rock: Robert, muito obrigado por dedicar seu tempo para esta entrevista. Sua voz tem sido a trilha sonora de décadas para muitos de nós, e ter você no Brasil é um sonho realizado para a comunidade Doom Metal. Muito obrigado pelo seu tempo e por tudo que você deu à cena metal. Foi um prazer conversar com você. Continue detonando e espero ver você no palco em breve! 

Robert: Obrigado por me receber. Eliton Tomasi e Susi Dos Santos, da Som Do Darma, fizeram um trabalho incrível promovendo esta turnê, e a resposta dos fãs também tem sido ótima. É uma bênção e agradeço a Deus todos os dias por ainda poder calçar minhas botas e fazer o que amo fazer.

Rebel Rock: O espaço é seu: gostaria de deixar uma mensagem final para os seus "Disciple of Doom" brasileiros que estão contando os dias para os shows de abril?

Robert: Vamos fazer essa porra acontecer! Quebrem tudo... respirem o DOOM!