quarta-feira, 24 de junho de 2026

BOLAN - GARGOYLE OF THE GARDEN STATE (2026)


 

BOLAN
GARGOYLE OF THE GARDEN STATE 
earMusic - Importado

Rachel Bolan é mundialmente conhecido por ser o responsável nos últimos quarenta anos, não apenas pelo baixo no Skid Row, mas também por ser um dos principais compositores e membro fundador da banda que tomou de assalto o mundo Hard Rock no final dos anos oitenta. Após a saída do vocalista Eric Gronwall o Skid Row parece ter ficado à deriva em busca de um novo cantor.

Sem perder tempo, Rachel Bolan deu início a compor e produzir “Gargoyle Of The Garden State”, seu primeiro álbum solo. Lançado agora no início do mês de junho, o álbum é uma ótima surpresa. Você que é familiarizado com a banda principal de Rachel, já aviso: não espere o Hard Rock vigoroso que fez o Skid Row famoso. O que temos aqui é o mais puro, violento e divertido Punk Rock!

Bolan nunca escondeu sua influência Punk, basta ver que o Skid Row gravou dois covers de expoentes do estilo: “Holidays In The Sun” do Sex Pistols e “Psycho Therapy” do Ramones, essa com o próprio Bolan nos vocais. Ao longo das onze faixas do álbum, tudo o que se houve é energia e vitalidade, embalado por uma honestidade de quem fez o trabalho de coração e alma abertos, sem querer e sem precisar provar alguma coisa à alguém.

Rachel toca guitarra, baixo e vocais ao longo do álbum, mas se cercou também de convidados estelares para a construção do seu trabalho solo. Danko Jones participa de “At War With Myself”, “Memory” traz o guitarrista Damon Johnson (Brother Cane, Alice Cooper, Black Star Riders), Nuno Bittencourt empresta um ótimo solo em “Jet Black Universe”, Corey Taylor do Slipknot aparece em “Big Stick” e Steve Conti (Michael Monroe e N.Y. Dolls) canta a bela semi-balada “Bridges”, o único refresco na paulada Punk do álbum. Os parceiros de Skid Row também participam: Dave Snake Sabo participa em “See You On The Other Side” e Scotti Hill no ótimo cover do Oasis, “Rock n' Roll Star”.

Gargoyle Of The den State” é uma excelente estreia de Rachel Bolan como artista solo e uma grata surpresa neste ano de 2026. Um álbum, forte, visceral, divertido e viciante, como um café forte pela manhã ou a primeira lata de cerveja ultra gelada naquele churrasco com os amigos. Rachel Bolan acertou em cheio na sua estreia como artista solo.

José Henrique Godoy




EPITAPH - DIGITAL SCREAMS (2026)

 



EPITAPH
DIGITAL SCREAMS
Independente - Nacional

Os veteranos gaúchos da Epitaph nos brindam com uma aula de heavy metal em seu segundo trabalho, “Digital Screams”, saindo agora do forno e já forte candidato a um dos melhores do ano. Já catimbados no cenário, os caras estão na batalha desde o ano 2000, com lançamentos aclamados como a demo “Waiting your Death“ (2001), o full lenght “Getting Down to Business” (2009) e participação em importantes coletâneas como Rock Soldiers VI, Roadie Metal vol 11 e Garagem Hermética Metal, além de mais de 150 shows na região sul. Unindo experiência e adotando uma temática atual e crítica, o resultado é um trabalho consistente e muito bem sacado.

“Loser’s Life” apresenta a bolacha de uma maneira interessante, com uma pegada meio Thrash metal eu diria, com um refrão bem marcante e uma crescente entre peso e velocidade.. A segunda faixa, “The Girl Who Loved the Dead” é destaque, com riffs inspirados e uma cozinha ditando um andamento mais sombrio, com aquela aura de clássico permeando os arranjos, com um solo muito bem construído e vocais contundentes. Vale dizer que a faixa contou com um clipe oficial gravado no estúdio Legato, em Porto Alegre, através da produção da Chama Vídeos Independente.

“Epitaph” traz mais peso e baixa um pouco a bola em relação a velocidade, mas se torna mais um destaque, tendo referências a obra de Edgar Allan Poe em sua letra e uma estrutura talvez mais old school, digamos. Uma das minhas favoritas do álbum. A próxima, “Road of Fire”, se aproxima mais do metal tradicional propriamente dito, uma canção bem direta e que agrada em cheio, os vocais de Joe F. Louder mais uma vez se destacam.

A faixa título, “Digital Screams”, sintetiza bem o que a obra busca em seu formato em si, digamos que é o seu ápice, desde o riff central aos solos, trazendo uma certa introspecção ao ouvinte, seja na sua estrutura melódica, seja no andamento quase hipnótico que apresenta. A letra é bastante atual, faz referência a inteligência artificial e fenômenos sociais que a alienação humana é capaz de atingir quando deixa a tecnologia prevalecer em relação a essência e força de vontade do indivíduo, e isso de certa forma gera inúmeros questionamentos. A própria arte da capa de Rômulo Dias, trazendo o mesmo personagem do “Getting Down to Business”, parecendo desfazer sua essência em algo vazio traz esse sentimento, percepção minha ao menos. A faixa conta com a participação mais uma vez de Gustavo Demarchi nos vocais ( ex-Apocalypse).

“National Guard“ pega um gancho da temática central explorando uma abordagem ríspida, ainda refletindo sobre a sociedade atual e suas nuances de opressão de pensamentos, e na ótima “Something Better Than God“ novamente podemos encontrar duelos de guitarra marcantes calçados por uma cozinha poderosa. Encerrando o trampo, “Blue Cave” é um heavy metal com certas nuances de hard rock, melodicamente grudento e mais despojado, mas ainda certeiro e mortal.

Considero o disco um grande momento do Metal nacional, uma excelente produção assinada por Lucas Santorum que tecnicamente evidencia um grande e competente time de músicos, seja nas melodias inspiradas e riffs cortantes com "coçadas" violentas nas composições e arranjos da dupla de guitarras Marlon Steindorff e André Carvalho, passando por uma cozinha esmagadora em questão de peso e versatilidade técnica com César “Five” Louis na bateria e Fábio Figueiredo no baixo, e contando com o vocalista Joe F. Louder que em todo o álbum evidencia que heavy metal se faz com uma performance agressiva e ao mesmo tempo melodiosa.

Achei grandes referências de monstros sagrados como Judas Priest, Exodus, Fight, Accept, mas também encontrei um caminho natural próprio que a banda conseguiu em questões de experiência e resultados, e a colaboração lírica com Denis Winston mais uma vez se mostrou produtiva e criativa. Com toda a certeza, os caras merecem alçar vôos mais altos, não acredito que o Metal nacional vá sempre se resumir em bandas midiáticas em detrimento a um colossal esforço que quem se destaca precisa fazer para penetrar em eixos centrais.

Precisamos fazer a nossa parte, eu já adquiri minha cópia e irei prestigiar ao show de lançamento dia 04 de julho no estúdio Legato, em Porto Alegre, juntos com a Sin Avenue.

Gustavo Jardim




segunda-feira, 15 de junho de 2026

EDU FALASCHI - MI'RAJ (2026)

 


EDU FALASCHI
MI'RAJ
Voice Music - Nacional

Desde o momento em que Edu Falaschi iniciou sua carreira solo, existiu um pequeno "fantasma" ao seu lado. Para o bem e para o mal, o nome Angra sempre estará inevitavelmente associado ao seu trabalho.

Em "Vera Cruz" (2021), o ouvinte se deparou com algo que poderia ser descrito como uma espécie de caricatura de "Temple of Shadows", com conexões e referências extremamente evidentes. Já em "Eldorado" (2023), Edu começou a cortar algumas das amarras que o prendiam ao passado — ao menos em termos de estúdio —, embora tenha introduzido certos exageros que renderam comparações com o DragonForce.

Pois bem, chegou o momento de Mi'raj. O álbum marca o capítulo final da trilogia conceitual que acompanha a jornada de Jorge e, ao mesmo tempo, representa mais um passo na busca de Edu Falaschi por uma identidade cada vez mais própria dentro de sua trajetória solo.

Desta vez, após tudo o que viveu nos capítulos anteriores, Jorge se vê diante de novos desafios e perseguições — a narrativa transporta o ouvinte para o Oriente Médio do século XVI, explorando temas como espiritualidade, autoconhecimento, fé, perdas e superação.

Primeiramente, é preciso dizer: a regra do "menos é mais" muitas vezes traz mais benefícios do que prejuízos. Sem exageros, o trabalho flui de maneira ímpar. Dentro da discografia solo, "Mi'raj" é o álbum de assimilação mais imediata. Mesmo se aproximando do metal progressivo e trazendo músicas com mais de oito minutos de duração, a audição transcorre de forma natural e arranca aquele sorriso de orelha a orelha dos fãs de Falaschi.

A faceta progressiva do álbum está longe de cair no exibicionismo técnico. Em vez disso, surge através de mudanças de andamento, passagens atmosféricas e arranjos que ampliam a ambientação de um instrumental pesado e extremamente melódico. É como se Genesis e Fates Warning se encontrassem em estúdio tendo a música oriental e a brasilidade — ou, se preferir, o DNA do Angra — como ingredientes obrigatórios.

O álbum abre com "Watchers of the Light". É, digamos, a abertura clássica de sempre: uma música bombástica, rápida e com um refrão criado para ser cantado em uníssono pelo público. Porém, existe algo interessante que dura apenas alguns segundos. Entre 1:57 e 2:04, temos Victor Franco encarnando Yngwie Malmsteen.

Já "Here I Stand" chega cheia de quebras de andamento, mais cadenciada e sustentada por excelentes coros. A música traz o primeiro momento em que o ouvinte pode dizer: "Opa, já ouvi isso aqui no Angra". Bem, no final das contas, a era Rebirth e Temple of Shadows faz parte do DNA de Edu Falaschi e, vamos ser sinceros? O fã quer ouvir isso. Vivemos em uma era profundamente nostálgica.

A faixa-título traz a participação de Veronica Bordacchini, do Fleshgod Apocalypse. A música passeia entre o power e o prog metal, enquanto Veronica dá um verdadeiro show à parte, enriquecendo de forma brilhante os refrãos. Em alguns momentos, é como se a canção tivesse escapado de algum dos álbuns mais atuais do Avantasia.

"Echoes of Vows" chega para apresentar a primeira balada do álbum — e Falaschi continua sendo um especialista nesse tipo de composição. As linhas vocais são bonitas, a calmaria transborda feeling e, em entrevistas, o vocalista revelou ter escrito a melodia principal imaginando Bruce Dickinson cantando a música. A faixa ainda reserva algumas surpresas em sua segunda metade, acelerando o ritmo e ganhando uma orquestração mais forte antes de retornar para um encerramento propositalmente clichê, sustentado pela repetição do refrão.

Em "Unchained", pule para 3:44. Se você não se arrepiar com o solo de saxofone, talvez já esteja morto por dentro. A música inteira é surpreendente, mas esse momento específico merece destaque. Raphael Dafras, com seu baixo cheio de groove e graves, assume papel de protagonista e ajuda a conduzir a faixa em diversos momentos.

Falando em surpresas, chegamos a "Intuição". A faixa marca a primeira vez que Edu grava uma música em português desde "Caça e Caçador", presente no EP Hunters and Prey (2002). Outro aspecto marcante é a participação especial de Rafael Bittencourt, responsável por um belíssimo solo. Falaschi e Bittencourt não trabalhavam juntos em estúdio desde Aqua, lançado em 2009. Ouvindo repetidamente a canção, é impossível não enxergar uma fusão entre "Gentle Change" e a já citada "Caça e Caçador", principalmente por causa da forte identidade brasileira presente em sua construção.

Caminhando para os momentos finais, encontramos uma grande variedade de ideias no material. Primeiro, temos "Circle of Dust". Pesada e cheia de boas nuances, a faixa tem como um de seus grandes destaques o estreante Jean Gardinalli. O cara simplesmente executa suas linhas de bateria de maneira primorosa, equilibrando técnica e musicalidade sem soar excessivo em nenhum momento.
Obviamente, o "duelo" entre Edu Falaschi e Roy Khan (ex-Kamelot) acaba sendo a cereja do bolo.

A última balada do álbum, "On Your Own", chega logo em seguida. E, sinceramente, se o Brasil desse mais valor à música pesada e aos seus artistas, essa faixa estaria tocando nas rádios e até em trilhas de novelas. Trata-se de uma das melhores baladas já compostas por Edu Falaschi. A faixa começa de forma minimalista, sustentada apenas por voz e piano, e vai crescendo gradativamente até explodir em um refrão emocionante. Diogo Mafra abrilhanta tudo com um solo de guitarra inspirado, tornando o resultado ainda mais grandioso.

O desfecho da história e do álbum acontece em "Wrath Into the War". É o encerramento de um ciclo, uma sensação de jornada completa. A composição parece revisitar os caminhos percorridos ao longo da trilogia, reunindo elementos característicos de Vera Cruz, Eldorado e Mi'raj. Há velocidade, melodias marcantes e passagens progressivas. Mais do que simplesmente concluir uma narrativa, a faixa funciona como uma síntese artística de tudo o que o músico construiu até aqui.

Quando os últimos acordes terminam, fica a impressão de que "Mi'raj" não apenas fecha uma trilogia, mas também representa o momento em que Edu finalmente aprende a caminhar em paz ao lado de seu passado. O velho "fantasma" continua presente, mas já não assombra. Agora, ele é apenas parte da história.

Ah, mas você não vai falar da voz?

Sinceramente, precisa?

Todos sabemos dos problemas que o vocalista enfrentou em suas cordas vocais. Da mesma forma, sabemos que ele não é mais o “mocinho” dos tempos de Symbols ou dos primeiros anos de Angra — os cinquenta anos chegaram para todos.

O que posso dizer é que, em "Mi'raj", Edu Falaschi soa o mais honesto possível com o ouvinte. Não há tentativa de mascarar limitações. Pelo contrário. Edu trabalha dentro de suas possibilidades atuais e utiliza a experiência acumulada para entregar emoção e personalidade.

No fim das contas, Mi'raj não é um álbum sobre nostalgia, embora ela esteja presente em diversos momentos. É um álbum sobre maturidade. Sobre compreender quem você foi, quem você é e seguir em frente sem precisar renegar nenhuma dessas versões.

Dentro da trilogia, é o melhor capítulo.

William Ribas




MOONSPELL - FAR FROM GOD (2026)

 


MOONSPELL
FAR FROM GOD
Napalm Records - Importado

Cinco anos podem parecer uma eternidade para uma banda com a trajetória do Moonspell. Obviamente, nesse período longe dos estúdios tivemos turnês, o belíssimo álbum ao vivo "Opus Diabolicum" e mais turnês (inclusive aqui no Brasil, no início de 2026), mas já era tempo de um novo trabalho dos portugueses.

Em uma época em que muitos artistas lançam músicas em ritmo quase industrial para alimentar algoritmos e manter relevância digital, o grupo capitaneado pelo vocalista Fernando Ribeiro escolheu o caminho oposto: esperar. E essa decisão parece ter sido fundamental para a construção de Far From God, um álbum que surge não apenas como sucessor de "Hermitage (2021)", mas como uma reafirmação de propósito artístico.

Ao longo de sua carreira, o Moonspell sempre transitou entre diferentes atmosferas. Houve momentos de agressividade extrema, fases marcadas pela melancolia gótica e experimentações mais introspectivas. Em "Far From God", porém, a sensação é de reencontro. Não com o passado em si, mas com a essência emocional que tornou a banda uma das maiores referências do gothic metal europeu.

O álbum parece construído sobre contrastes cuidadosamente equilibrados. Há peso. Há melodias. Há escuridão. Há romantismo. E há uma boa dose da melancolia característica da estética gótica. O resultado é uma obra que respira criatividade, sem a necessidade de excessos técnicos ou produções infladas para causar impacto. As composições apostam em atmosferas densas, onde guitarras carregadas dividem espaço com arranjos elegantes e vocais que alternam entre o grave característico de Fernando e momentos de maior intensidade emocional.

A abertura fica por conta das já conhecidas “Cross Your Heart” e da faixa-título, “Far From God”, ambas lançadas como singles. Elas dão um norte do que o álbum é: orgânico, de fácil assimilação e viciante.

“Biblical” se inicia com uma linha de baixo marcante e uma atmosfera sombria ao fundo. A faixa é carregada, pesada — não necessariamente pelo aspecto instrumental, mas pelo clima que a domina, trazendo consigo um ar de suspense que abraça a beleza da escuridão. Já “The Great Wolf in the Sky” celebra a emoção acima da conveniência e lembra por que o Moonspell continua ocupando um lugar tão especial. A cada nova faixa, existe a sensação de que cada elemento está exatamente onde deveria estar.

Liricamente, "Far From God" mergulha em territórios que sempre fizeram parte do imaginário da banda: amor, morte, espiritualidade e culpa. Entretanto, o tratamento dado a esses temas evita qualquer sensação de nostalgia. Vampiros, símbolos religiosos e criaturas noturnas aparecem menos como figuras fantásticas e mais como metáforas para desejos, perdas e conflitos humanos. É um disco que utiliza o fantástico para falar sobre emoções reais — algo perceptível em faixas como “Your Promise of Light” e “For the Love of Mortals”.

Algo que "Far From God" carrega consigo é uma aura constante de perigo, elegância e melancolia. Para quem espera peso — leia-se riffs pesados — pode esquecer. Eles estão aqui, mas surgem apenas em momentos específicos, quando a música realmente pede. O tracklist como um todo remete à capacidade que a banda sempre teve de criar música sombria sem abrir mão da personalidade. E talvez aí resida o maior mérito da obra: sua autenticidade.

A demonstração de que algumas chamas nunca deixam de arder vem com “Our Freedom to Fall”. Pesada, com andamento mais acelerado, a faixa entrega um excelente contraste entre agressividade e melancolia, como uma brutalidade escondida sob as sombras da noite. O álbum se encerra com “Reconquista”, abraçando o que o Moonspell fez de melhor nas faixas anteriores — um best of de "Far From God" dentro de uma única música: reafirmando que a escuridão e identidade continuam sendo um dos elementos mais fascinantes da discografia da banda.

Ao final, Far From God é apaixonante. Em época de Copa do Mundo, cabe a analogia perfeita: um golaço de Portugal!

William Ribas




WINGS OF STEEL - WINDS OF TIME (2025)

 


WINGS OF STELL
WINDS OF TIME
Shinigami Records - Nacional

É interessante como gosto de heavy/power metal, mas dificilmente bandas mais novas conseguem realmente chamar minha atenção — e não é por falta de talento. Aquela saturação que o estilo viveu em meados dos anos 2000 continua firme e forte. Nomes de bandas, títulos de músicas, capas, conceitos... tudo parece preso a um eterno ciclo de repetição.

Quando você vê um nome como Wings of Steel e um álbum chamado Winds of Time, seu cérebro já monta o quebra-cabeça antes mesmo de apertar o play. É como se você já conhecesse toda a história de cor e salteado, mesmo sendo a primeira vez que escuta a banda.

E esse talvez seja o maior desafio enfrentado pelo power metal moderno. Não é uma questão de qualidade. "Winds of Time" pode muito bem ser um excelente álbum, com músicos talentosos, ótimas composições e uma execução impecável. Mas, às vezes, o problema não está naquilo que a banda faz, e sim na sensação de familiaridade que acompanha a audição.

A faixa-título deixa isso claro desde os primeiros minutos. Com duração épica e uma construção que se desenvolve lentamente, a música funciona quase como uma declaração de intenções. Em vez de apostar apenas na velocidade e nos refrões grandiosos normalmente associados ao power metal, a banda investe em mudanças de dinâmica, passagens atmosféricas e linhas vocais extremamente agudas — talvez até em doses excessivas.

Embora o álbum apresente uma faceta mais robusta e agressiva, a banda cai na armadilha da repetição. "Saints And Sinners" surge como um verdadeiro ataque de heavy metal clássico, impulsionado por energia contagiante e refrãos que pedem a participação do público. Já "To Die In Holy War" combina peso e melodia em proporções quase perfeitas, trazendo uma intensidade emocional que amplia ainda mais seu impacto.

Em contrapartida, faixas como "Crying" revelam um lado mais sensível. Sem mergulhar completamente no território das power ballads, a música oferece um momento de respiro. Mais adiante, "Lights Go Out" introduz elementos sombrios e um groove carregado de influência setentista, sem perder a identidade melódica do grupo.

Os momentos finais representam talvez o ápice da experiência. "We Rise" transforma-se em um hino de superação construído sobre uma progressão gradual e eficiente, enquanto "Flight Of The Eagle" encerra o disco com uma atmosfera grandiosa e emocional. É uma conclusão que recompensa a paciência do ouvinte.

No fim das contas, Winds of Time respeita profundamente a tradição do heavy metal clássico. Ao mesmo tempo, reforça uma percepção que muitos fãs do estilo provavelmente compartilham: depois de décadas ouvindo o gênero, certos refrãos, melodias, temas líricos e estruturas musicais se tornaram tão previsíveis que o ouvido reconhece o caminho da música antes mesmo de ela chegar lá.

Não se trata necessariamente de uma crítica ao álbum ou à banda. É apenas a consequência natural de um estilo que, em muitos aspectos, ainda parece contar a mesma história repetidas vezes.

Ainda assim, para os fanáticos de plantão, Winds of Time certamente tem qualidades suficientes para merecer uma audição atenta.

William Ribas