THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL - OS 30 ANOS DO ÁLBUM MAIS AGRESSIVO DO PANTERA
Por Sergiomar Menezes
O mundo da música estava saturado pelo pós-grunge e pelo surgimento do pop punk nas rádios em maio de 1996. Enquanto várias bandas de metal buscavam "suavizar" seu som para se manter nas paradas, o PANTERA optou por fazer exatamente o contrário. O resultado foi THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL, um álbum que, após três décadas, se mantém como a gravação mais sombria, niilista e agressiva da banda texana.
Diferentemente dos álbuns anteriores, "Vulgar Display of Power" e "Far Beyond Driven", as gravações de TGST foram caracterizadas pela fragmentação. Enquanto Dimebag Darrell, Vinnie Paul e Rex Brown gravavam no Texas, o vocalista Phil Anselmo gravava suas partes vocais no estúdio de Trent Reznor, em Nova Orleans. Essa distância física refletia o estado mental de Anselmo, que enfrentava dores crônicas nas costas e dependência de heroína. Porém, o isolamento destilou uma agressividade pura. O grito de abertura da faixa-título — um berro agudo de 10 segundos — funciona como o cartão de visitas ideal: este não era um álbum destinado ao grande público. Era, sim, uma declaração de guerra contra as tendências do momento.
Se nos álbuns anteriores Dimebag se concentrava em riffs de groove precisos, em TGST ele se transformou em um cientista do caos. Ele utilizou afinações ainda mais baixas e explorou intensamente o pedal "Whammy" e os harmônicos artificiais para produzir sons que lembravam gritos de animais ou máquinas quebrando.
Um capítulo separado deve ser dedicado ao solo de "Floods". Ele não é somente técnico; é também cinematográfico. Dimebag empregou uma técnica de "overdub" para sobrepor diversas camadas de guitarra, gerando um clima desolador que remete a uma inundação devastadora. É um solo que se distancia do clichê do shredding veloz e concentra-se na textura e na sensação de perda.
Já gravação das vozes em New Orleans (NOLA) não foi somente uma decisão de ordem logística. Naquele período, Anselmo estava intensamente envolvido na cena local de Sludge Metal, com bandas como Crowbar e Eyehategod (além dos já citados problemas com as dores nas costas e a s drogas). Isso introduziu uma sujeira sonora no disco que não estava presente no Pantera até aquele momento.
Ainda que a banda estivesse fisicamente separada, a cozinha composta por Vinnie Paul e Rex Brown nunca foi tão natural. Como gravaram as bases no Texas, eles mantiveram a pegada do "ao vivo". Em "13 Steps to Nowhere", o trabalho de bumbo duplo de Vinnie Paul é ao mesmo tempo quase imperceptível e complexo, estabelecendo uma base instável que complementa a letra paranoica de Anselmo. O baixo de Rex Brown passou a ter uma distorção mais pronunciada, ocupando o espaço deixado pelas guitarras cada vez mais experimentais de Dimebag.
As letras deixaram o estilo de "autoajuda agressiva" de Vulgar Display of Power" e adotaram o niilismo absoluto. Músicas como "War Nerve" atacam diretamente a mídia e a indústria musical, despejando um veneno que evidencia o quanto a banda estava cansada da fama.
O álbum apresenta uma variedade de andamentos, oscilando entre um groove intenso e momentos de passagens acústicas inquietantes. "Drag the Waters", o single principal, impulsionado por um riff de Dimebag que exemplifica o "peso", condena a manipulação e a hipocrisia. "Suicide Note Pt. I & II": possivelmente o maior contraste na discografia da banda. A Parte I é uma "balada" fúnebre acompanhada por violões de 12 cordas, enquanto a Parte II é uma explosão de grindcore industrial que pode ser insuportável para quem não está preparado.
O título "Trendkill" (Morte das Tendências) transmitia uma mensagem direta. O Metal estava sendo levado ao underground em 1996, tanto pelo Britpop na Europa quanto pelo grunge de Seattle nos Estados Unidos. Naquele momento, uma das maiores bandas de metal do mundo, o Pantera, utilizou sua plataforma para afirmar que não alterariam sua aparência ou estilo musical para se conformar com o que era considerado "cool" ou interessante pelo mercado e seus modismos.
Após 30 anos, THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL permanece como o testamento definitivo do PANTERA: uma celebração de ódio, técnica e resistência que se recusava a morrer ou a se conformar.





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