sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

BEHEMOTH - DEMIGOD (2004/2025) RELANÇAMENTO

 


BEHEMOTH
DEMIGOD
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Em 2004, o cenário do Death Metal mundial enfrentava um dilema: ou as bandas se tornavam excessivamente técnicas, melódicas e sem alma, ou repetiam fórmulas exaustivas do passado. Foi nesse vácuo criativo que o Behemoth lançou Demigod, uma obra que não apenas redefiniu a carreira dos poloneses, mas injetou sangue novo — e profano — nas veias da música extrema.

Até Demigod, o Behemoth transitava entre o Black Metal ríspido e o Death Metal. Neste disco, as barreiras caíram. O álbum apresenta uma sonoridade robusta, opressiva e, ao mesmo tempo, cristalina em seus detalhes. Há peso, mas há também profundidade. Nada soa acidental. Cada camada parece pensada para sustentar uma arquitetura sonora sólida e imponente.

Logo na abertura, “Sculpting the Throne ov Seth” estabelece o tom: uma introdução quase cerimonial que rapidamente se transforma em avalanche. O que se segue ao longo das faixas é uma sucessão de composições que equilibram brutalidade e construção atmosférica. É impossível falar de Demigod sem citar músicas que se tornaram obrigatórias nos setlists por anos.

“Conquer All” talvez seja o maior hino da banda, com um groove inesquecível e um refrão que funciona como verdadeiro manifesto de força. “Slaves Shall Serve” é uma injeção de adrenalina pura, na qual a velocidade atinge níveis extremos, evocando pânico e agressividade. Já “The Nephilim Rising” e “XUL” ampliam o senso melódico do disco. As melodias não servem apenas como base estrutural; elas constroem tensão, sugerem misticismo e sustentam o conceito amplo do álbum.

A figura do “semideus”, evocada no título, atravessa as letras e se manifesta na forma como a voz ecoa, reverbera e domina o espaço sonoro. O impacto do álbum, à época de seu lançamento, foi imediato. O Behemoth passou a ocupar um lugar de protagonismo na cena internacional, e o disco tornou-se referência para inúmeras bandas que buscavam unir intensidade extrema a uma identidade própria. Mais do que técnica ou velocidade, o que impressiona é a convicção. Demigod soa seguro de si, consciente da própria força.

Mais de vinte anos depois, Demigod continua relevante. A produção permanece poderosa, as músicas seguem funcionando com força intacta e a atmosfera ainda é capaz de envolver e sufocar o ouvinte. Não é um disco datado; é um trabalho que resistiu ao tempo. Ao relançá-lo no Brasil, a Shinigami Records resgata não apenas um clássico, mas um marco de transformação dentro do metal extremo. Uma obra que segue pulsando com a mesma intensidade profana de 2004 — e que continua lembrando por que o Behemoth se tornou um dos nomes mais imponentes da cena.

William Ribas




SOULFLY - ARCHANGEL (2015/2025) - RELANÇAMENTO

 


SOULFLY
ARCHANGEL 
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Maximiliano Cavalera é um dos heróis brasileiros. Eu já escrevi algumas resenhas sobre trabalhos de Max e sempre falarei sobre sua importância. Ele, junto ao Sepultura, colocou o Brasil no mapa do mundo. Houve uma época em que o universo conhecia nosso país por causa de Pelé e pela brutalidade de Max e sua ex-banda.

Dito tudo isso, vamos para a resenha de mais um ótimo relançamento da Shinigami Records.

Há uma certa mística que envolve o décimo capítulo de qualquer discografia. É o marco da sobrevivência, da persistência e, no caso do nosso Cavalera, da consagração de um estilo de vida. Archangel mostra que o Soulfly continua na sua concisão brutal. Se trabalhos anteriores eram viagens panorâmicas, este é um ataque cirúrgico: curto, impregnado de uma aura bíblica e violenta. Com pouco mais de meia hora de duração, a obra dispensa "gorduras" sonoras. O que ouvimos é uma destilação do que a banda faz de melhor, mas acelerada e polida por uma produção que destaca a sua “urgência”.

A abertura, "We Sold Our Souls To Metal", funciona como uma verdadeira declaração de princípios — um manifesto agressivo, onde Max cospe sua lealdade ao gênero de forma fervorosa. No entanto, é quando a velocidade cede espaço ao peso arrastado que o álbum revela sua verdadeira face. Faixas como "Sodomites" trazem uma densidade sufocante, enriquecida pela participação de Todd Jones (Nails). É a sonoridade do caos do Velho Testamento traduzida em decibéis.

Instrumentalmente, o disco marca a consolidação definitiva de Zyon Cavalera nas baquetas. Longe de ser apenas "o filho do dono", Zyon impõe uma assinatura rítmica que é, ao mesmo tempo, caótica e precisa, honrando o legado percussivo da família, mas com uma pegada Death Metal. Essa base sólida permite que o guitarrista Marc Rizzo (na época, ainda o braço direito de Max) brilhe com seus solos, criando texturas geniais como em "Ishtar Rising" e na faixa-título. Já “Titans” equilibra groove e agressividade ímpares, alternando momentos de tensão e explosões rítmicas que remetem ao álbum Dark Ages (2005).

A temática abraça o misticismo e a iconografia religiosa, algo perfeitamente ilustrado pela belíssima capa de Eliran Kantor. Há uma sensação de batalha espiritual permeando o disco, culminando em momentos de colaboração familiar, como em "Mother of Dragons", onde a dinastia Cavalera se reúne para criar um hino de lealdade tribal.

Embora o álbum seja predominantemente um exercício brutal, o Soulfly mantém a sua regra com "Soulfly X", atuando como uma câmara de descompressão. Aqui, a distorção dá lugar ao violão flamenco e ao acordeão, lembrando ao ouvinte que, mesmo sob camadas de thrash/death metal, o coração da banda pulsa numa jam session.

Archangel não pede licença nem tempo excessivo do ouvinte: ele chega, entrega sua liturgia pesada e encerra o culto antes que a poeira baixe. Uma obra essencial para entender como Max consegue soar ancestral e moderno no mesmo acorde.

William Ribas





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

GOREFEST - SOUL SURVIVOR & CHAPTER 13 (1996/1998 - 2025) - THE ULTIMATE COLLECTION PT. III

 


GOREFEST
SOUL SURVIVOR & CHAPTER 13 - THE ULTIMATE COLLECTION PT. III
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Se as duas primeiras partes da Ultimate Collection do Gorefest documentaram o nascimento e o auge de um gigante do death metal, a Parte III é o som desse gigante derrubando o próprio templo. Focada nos álbuns Soul Survivor (1996) e Chapter 13 (1998), esta coletânea é o capítulo final e mais controverso da primeira vida da banda. É o registro de um grupo que, após atingir a perfeição em seu gênero, decidiu queimar tudo e dançar sobre as cinzas. Bem-vindos à era do "death 'n' roll" em sua forma mais pura e, para muitos, mais ultrajante. Este não é um mergulho na nostalgia; é uma autópsia. "Soul Survivor" e "Chapter 13" são os álbuns que alienaram a base de fãs purista do death metal e, ironicamente, levaram a banda à sua primeira separação em 1998. Ouvir esta coleção é entender como uma das bandas mais promissoras do metal extremo europeu cometeu um glorioso suicídio comercial, trocando a brutalidade pela rebeldia do rock clássico e o peso do metal pela ginga de bar. 

"Soul Survivor "(1996) pegou a fórmula iniciada em "Erase" e a injetou com uma dose cavalar de rock dos anos 70. Os riffs de death metal foram quase totalmente substituídos por um som que remete a Thin Lizzy, Black Sabbath e Motörhead. A produção é quente, orgânica, e os vocais guturais de Jan-Chris de Koeijer, embora ainda presentes, soam quase deslocados sobre uma base de hard rock. Músicas como "Freedom" e "Electric Poet" são cativantes, mas estão a um universo de distância do som que consagrou a banda. Para os fãs que embarcaram na jornada, "Soul Survivor" é um álbum corajoso e quase perfeito em sua proposta. É o som de músicos excepcionais explorando suas raízes. Para os headbangers que esperavam a continuação de False, foi uma traição. O álbum é, talvez, o mais alegre e otimista já feito por uma banda de death metal, uma anomalia que continua a dividir opiniões até hoje. 

Se "Soul Survivor" foi um passo ousado, "Chapter 13" (1998) foi um salto no abismo. Este é, sem dúvida, o "álbum de metal mais anos 90" já feito, no sentido de que reflete a crise de identidade que muitas bandas do gênero enfrentaram na época. É menos um álbum de death metal e mais um disco de rock pesado com um vocalista que se recusa a cantar limpo. A bateria de Ed Warby brilha com grooves de rock e prog, as guitarras têm um timbre valvulado e quente, e as letras abandonam completamente o horror para focar em comentários sociais e emoções. O álbum é charmoso à sua própria maneira. Faixas como a titular "Chapter 13" e a enérgica "Serve the Masters" são ótimas músicas de rock, mas não era isso que os fãs de Gorefest queriam. O resultado foi um misto de indiferença e abandono, e a banda se desfez logo após o lançamento, só retornando em 2004 com um som que buscava resgatar a agressividade perdida. 

O material bônus desta coleção é um vislumbre do processo criativo. As demos de Soul Survivor e Chapter 13 mostram as músicas em seu estado mais cru, enquanto as faixas ao vivo e remixes revelam a confiança da banda em seu novo som, mesmo que o público não estivesse totalmente a bordo. The Ultimate Collection Part III é para os completistas, para os historiadores do metal e para aqueles com a mente aberta o suficiente para apreciar uma banda se desconstruindo em tempo real. Não é onde você deve começar sua jornada pelo Gorefest, mas é um capítulo essencial para entender por que eles se separaram e por que seu retorno nos anos 2000 foi tão significativo. Esta coleção é o som de uma banda se libertando das correntes de seu próprio gênero, para o bem e para o mal. É o barulho de uma implosão criativa, um final de capítulo barulhento, confuso e absolutamente fascinante.

Jay Frost




OMNIUM GATHERUM - MAY THE BRIDGES WE BURN THE LIGHT WAY (2025)

 


OMNIUM GATHERUM
MAY THE BRIDGES WE BURN THE LIGHT WAY
Shinigami Records/Century Media - Nacional

Trinta anos de estrada não são pouca coisa. E, ao invés de soar cansado ou repetitivo, o Omnium Gatherum soa confortável na própria pele. Seguro. Confiante. Depois de flertar mais abertamente com estruturas progressivas em fases anteriores da carreira, os finlandeses parecem ter encontrado aqui um ponto de equilíbrio quase definitivo em “May the Bridges We Burn Light the Way”. O disco não tenta reinventar o death metal melódico, mas também não se limita a repetir fórmulas. Ele trabalha dentro do molde — e o faz com precisão.

A faixa-título funciona como um portal. Não é uma introdução orquestral genérica; é uma preparação direta, com riffs já carregados de intenção. Quando “My Pain” entra, o álbum revela sua verdadeira proposta: peso com propósito. Riffs afiados, bateria pulsando com energia renovada e aquela alternância vocal que se tornou uma das marcas da banda.
Jukka Pelkonen é o eixo central com seus guturais encorpados e cheios de identidade. Mas é impossível não destacar Markus Vanhala nos vocais limpos — eles não servem apenas ao refrão; surgem em momentos inesperados, quebrando previsibilidade e dando novos horizontes às músicas.

Como guitarrista, Vanhala também está em estado de graça. Sua guitarra é hipnótica e densa, sem soar artificial, e os solos — abundantes — nunca parecem exibicionismo gratuito. Há ecos de heavy metal clássico em certas passagens, especialmente em “Walking Ghost Phase”, que carrega uma aura quase espacial, como se fosse trilha sonora de uma epopeia oitentista filtrada pela melancolia finlandesa.
A base instrumental sustenta tudo com competência e sensibilidade. Atte Pesonen injeta velocidade e vitalidade na bateria, com bumbo duplo e viradas técnicas, mas curiosamente sem soar excessivo, no ponto certo. E isso é uma escolha inteligente: o peso do álbum vem da construção das músicas, não da brutalidade automática. O baixo cumpre seu papel no groove, enquanto os teclados de Aapo Koivisto optam mais pela ambientação do que pelo protagonismo — criando atmosfera sem disputar espaço com as guitarras.

“The Darkest City” é provavelmente o momento mais grandioso do disco. Longa, dinâmica e emocionalmente carregada, ela mostra a banda explorando nuances: começa vibrante, quase triunfante, e termina mergulhando em camadas mais densas, culminando em um solo incendiário que sintetiza o espírito do álbum. Já faixas como “Ignite the Flame” e “Barricades” equilibram agressividade e melodia com naturalidade impressionante. “Streets of Rage” flerta com uma melodia que pode soar um pouco óbvia, e a instrumental “Road Closed Ahead” encerra o álbum de forma mais contemplativa do que explosiva. É o tipo de música que mostra por que o Omnium Gatherum não é apenas “mais uma banda finlandesa de death metal melódico”.

Talvez o maior mérito de May the Bridges We Burn Light the Way seja não tentar soar jovem. É soar experiente. Maduro. Uma banda que entende que peso também pode ser elegante, que melodia não precisa ser fraqueza e que intensidade não é sinônimo de velocidade desenfreada.

William Ribas




ORBIT CULTURE - DEATH ABOVE LIFE (2025)

 


ORBIT CULTURE
DEATH ABOVE LIFE
Shinigami Records/Century Media - Nacional

A ascensão do Orbit Culture nunca foi acidental. Disco após disco, o quarteto sueco foi expandindo sua linguagem, refinando o peso, engrossando as camadas e ampliando a ambição. Com Death Above Life, quinto trabalho de estúdio, essa escalada atinge um novo patamar. Não se trata apenas de um passo à frente — é a consolidação de uma identidade que finalmente soa do tamanho da ambição da banda.

Se "Descent" (2023) trouxe riffs inspirados, mas sofreu com uma mixagem excessivamente comprimida e sufocante, aqui o grupo aprende com os próprios excessos. A densidade continua presente — e como continua — porém agora existe foco. O som ainda é uma muralha, mas uma muralha arquitetada com precisão. Cada camada encontra seu espaço dentro do caos. O impacto permanece brutal, só que mais inteligível, mais estratégico.

Musicalmente, "Death Above Life" é a síntese definitiva do que o Orbit Culture construiu até aqui. O peso cortante do deathcore, o groove quase mecânico, colidem com a herança do thrash dos anos 90 e a melancolia melódica do death metal sueco. A agressividade nunca sacrifica o senso de refrão — pelo contrário, eleva um degrau acima. É metal de escala monumental, com potência, mas ainda enraizado na herança visceral do underground.

A abertura com “Inferna” já estabelece o tom: riffs como fossem motoserra, bateria pulsando como engrenagens industriais e um refrão que cresce com imponência cinematográfica. A influência de trilhas épicas, trazem uma textura atmosférica que ampliam o drama sem diluir o peso. O vocalista Niklas Karlsson assume o centro dessa tempestade sonora com segurança. Seus guturais estão mais ferozes do que nunca, sangrando tímpanos com autoridade. Já os vocais limpos — cada vez mais proeminentes — graves, ásperos, carregados de personalidade. Em muitos momentos, essa escolha adiciona humanidade e melancolia às composições.

Quando a banda opta pela violência direta, o resultado é destruidor. “Bloodhound” e a faixa-título dispensam concessões: grooves massivos, ritmos sincopados que lembram Slipknot, riffs que esmagam como patadas de mamutes. Aqui, o Orbit Culture soa absolutamente confiante, técnico e impiedoso. São momentos em que o quarteto parece operar em capacidade máxima.
Mas o disco não vive apenas de brutalidade. “Hydra” carrega um peso industrial sufocante, com pausas calculadas e breakdowns prontos para incendiar os shows. “The Tales of War” e “The Storm” exploram construções atmosféricas que alternam tensão e liberação com eficiência cinematográfica. Já “The Path I Walk” mergulha em uma introdução mais introspectiva antes de crescer em intensidade, mostrando que a banda entende a importância de dinâmica e respiração.

Em suma, Death Above Life é, sem rodeios, o trabalho definitivo do Orbit Culture até o momento. É um disco sombrio, denso e tecnicamente irrepreensível que consolida a posição do grupo ao lado de gigantes.

William Ribas