quarta-feira, 30 de setembro de 2026

ETERNOS CASCAVELLETES - 18/09/2026 - SESC/CANOAS - CANOAS/RS


 

ETERNOS CASCAVELLETES
18/09/2026
SESC/CANOAS
CANOAS/RS
Produção: Vini Canto (Fala Com o Vini Produtora)

Texto: Sergiomar Menezes
Fotos: Tércia Falck

Em uma noite daquelas que ficam marcadas na memória de quem viveu o Rock Gaúcho nos anos 80 e 90 e ainda respira a cena local, Os Cascavelletes (sob a alcunha de Eternos Cascavelletes) aportaram no SESC em Canoas, no Rio Grande do Sul. E quer saber? O público compareceu em bom número. Mas o mais legal de ver foi a mistura na plateia: a maioria formada por pessoas "mais velhas" ou "Jovens há mais tempo" que carregam a história do rock gaúcho no DNA, mas pontuada por muitos jovens curiosos e ávidos por presenciar a lenda viva. A banda subiu ao palco trazendo os pilares fundadores Frank Jorge (baixo) e Alexandre Barea (bateria), acompanhados por Humberto Pettinelli (teclados) — veterano que entrou na banda lá nas sessões de gravação de "Rock'a'ula" (1989) —, além de Vince Velvet (guitarra) e Evandro Vandu (ex-Identidade) nos vocais. O resultado? Um verdadeiro desfile de clássicos eternos do rock gaúcho que não dão espaço para descanso.



O repertório foi um verdadeiro tiro certeiro na nostalgia e na irreverência que sempre definiram o grupo. Logo de cara, mandaram petardos como "Menstruada", "Carro Roubado" e a inesquecível balada "Estou Amando uma Mulher", mostrando que o caldeirão de influências e o bom humor escrachado continuam intactos. Faixas como "Ugagogobabago", "Morte Por Tesão" e "Jessica Rose" vieram na sequência — e teve momento hilário em "Jessica Rose", onde o vocalista acabou errando a letra, algo perdoado na hora, até porque ele próprio já havia avisado antes que não a sabia de cor! A viagem continuou com "Cão e Cadela", "Eu quis comer você" (aquela mesma, eternizada e famosa por ser a música apresentada no programa da Angélica), "Gato Preto", "Moto" e "Nega Bom Bom".

A energia não caía um segundo sequer. Veio "Homossexual", com direito ao aviso da banda de que se tratava de uma história real, seguida pela clássica "Sob um Céu de Blues" e "Lobo da Estepe" — momento divertido em que Evandro e Humberto deram aquela leve desencontrada na letra, mas que ao vivo só acrescenta charme e humanidade ao show. Ainda desfilaram pérolas como "Entra Nessa" em sua versão original (aquela que depois foi gravada pelo TNT), "O Dotadão Deve Morrer", "Ela Usa Minissaia sem Calcinha" e  "Sábado a la Noche".


Vale destacar o desempenho individual dos músicos no palco. É impressionante o quanto Alexandre Barea continua sendo um baterista extremamente técnico, preciso e pesado, segurando a cozinha com uma firmeza absurda, enquanto Frank Jorge segue exatamente o mesmo de sempre: elegante, dono de seu instrumento e com aquela presença cênica única.

Uma noite absolutamente inesquecível, que ainda contou com a impecável produção de Vini Canto. No fim das contas, ver os Eternos Cascavelletes em ação é a certeza de que o verdadeiro espírito do rock gaúcho continua vivo, pulsante e chutando portas por aí!



SEVENDUST - ONE (2006)

 


SEVENDUST
ONE 
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

O Sevendust é um dos raros exemplos de que são mais do que uma banda, são uma unidade. A formação segue a mesma desde a sua formação em 1994, e talvez por isso sigam regularmente fazendo turnês com bom público e lançando novos trabalhos com frequência. Nada mal para uma banda que escolheu seu nome a partir de uma marca de pesticida.

“One” é o décimo quinto trabalho do Sevendust, e apresenta mais um trabalho forte, dentro das características do seu som mais clássico, deixando um pouco de lado o apelo mais tecnológico muito presente no álbum antecessor de 2023 “Thruth Killer”. 

Produzido por Michael “Elvis” Baskette, o foco aqui são as guitarras de  Clint Lowery e John Connolly uma dupla que demonstra um entrosamento tal, que parecem se completar durante todas as melodias e encaixes das músicas. O vocalista Lajon Witherspoon  é, como sempre, o destaque principal, alternando vocais emotivos e raivosos, de uma maneira única.

Faixa título que abre o trabalho dá o tom do que iremos seguir na audição, “Unbreakable” alterna peso e melodia, “Is This The Real You” tem riffs quase Thrash Metal, enquanto Laion destila emoção praticamente declamando a letra sombria.”Threshould” é uma daquelas faixas que contagiam, e você vai se pegar lembrando dela depois da audição, realmente excelente. “We Won” é a mais industrial do álbum enquanto “Bright Side” , mais melódica,tem mais uma excelente interpretação vocal.

Após mais de três décadas de atividade, o Sevendust reforça o velho e batido ditado de que time que vence não se faz alterações, e “One” demonstra que entrosamento parceira são grandes elementos para o sucesso. “One” é lançamento nacional da Shinigami Records.

José Henrique Godoy





MARILYN MANSON - ONE ASSASSINATION UNDER GOD - CHAPTER 2 (2026)


 

MARILYN MANSON
ONE ASSASSINATION UNDER GOD - CHAPTER 2
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

O Anticristo Superstar amplamente conhecido como Marilyn Manson está de volta. Quando “One Assassination Under God – Chapter 1” foi lançado  em novembro de 2024, Manson conseguiu o improvável e transformou o período mais baixo e controverso de sua carreira em um álbum de retorno, um despertar gótico-industrial lançado com a provocação característica, e agora o Capítulo 2 chega para fechar este círculo.

O Capítulo 1 era o som de um artista que foi abandonado pela sua gravadora, sua agência e sua equipe de gerenciamento em 2021, após alegações de abuso, alegações que ele sempre negou. Como comentei quando fiz o texto do “Capítulo Um”, não estamos aqui para julgar culpado ou inocente, e vamos nos focar apenas na música.

Se no primeiro disco fez da tempestade na mídia seu tema explícito; o segundo capítulo retoma exatamente de onde  parou, menos interessado em se defender e mais em marcar seu território e bradar: “Estou de Volta!”. A produção ficou novamente à cargo de Tyler Bates e entrega uma trabalho mais coeso e vigoroso com relação ao anterior. Temos a climática “Don´t Answer The Door”, uma ótima faixa de terror lírico, a pesadíssima “Front Towards Enemy”, riffs de guitarra pesadíssimos e totalmente Metal. 

Na contramão, temos as góticas “All The Vilest Things” e “None Of The Suns”, excelentes faixas que contrastam melodias mais pops com climas sombrios. Na mesma linha, “You Can´t Die Young” é minha faixa preferida do álbum, e uma letra com a característica verve humor-ameaçador de Manson. “Lucifer's Teardrop” mais rockeira, porém sem deixar o vulto gótico de lado. “The Arsonist” pesada e cadenciada, tem o vocal mais agressivo de Manson em todo o trabalho. “Exit Wound” tem uma veia industrial e fechando o cd, “Enantiomorph”, com melodia e clima melancólico.

“One Assassination Under God Chapter Two” é um álbum para recolocar definitivamente a carreira de Marilyn Manson nos trilhos. O álbum tem lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




terça-feira, 29 de setembro de 2026

IRON MAIDEN - SOMEWHERE IN TIME 40 ANOS


SOMEWHERE IN TIME 40 ANOS – QUANDO O IRON MAIDEN COMEÇOU A SOAR PROGRESSIVO

Entre críticas iniciais e guitarras sintetizadas: revisitando a obra-prima espacial da Donzela de Ferro

Por Mauro Antunes

O ano de 1986 foi mágico para os amantes do Heavy Metal. Obras eternas como “Master of Puppets”, “Reign in Blood”, “Russian Roulette”, “Fatal Portrait”, dentre tantas outras, viram a luz do dia há 40 anos atrás.

E, claro, o Iron Maiden não poderia ficar devendo e lançou um de seus maiores clássicos, aquele que para muitos, é seu melhor disco, “Somewhere in Time” veio ao mundo em 29 de setembro de 1986. Se é o melhor ou não, há quem concorde, há quem discorde, mas o que ninguém ousa discordar, é que temos aqui, uma obra prima em termos de capa. Quem nunca se debruçou sobre aquela capa e procurou detalhes que talvez nem mesmo o autor, Derek Riggs, imaginaria encontrar? Obviamente, que sou um deles, mas o que sempre me prendeu foi a música, como não poderia deixar de ser.

Para aqueles que são, ou conhecem bem a cidade de São Paulo, ao lado do metrô Barra Funda, nos anos 80, existia uma loja de departamentos chamada Sears, onde alguns anos depois foi construído o shopping West Plaza. Lá, eu comprei quase que em primeira mão, essa preciosidade. Pensa em um garoto de 13 anos pulando de felicidade, afinal, já naquele momento, o Iron Maiden era a banda do meu coração, e como não pude ir ao Rock in Rio no ano anterior, os discos de vinil do Iron Maiden tinham ainda mais, um valor afetivo inigualável.

Me lembro que na época, o trabalho foi muito criticado, os críticos de plantão, provavelmente aqueles que nunca foram afeitos ao Heavy Metal, descascaram o álbum até não ter mais como. Sim, a sonoridade do álbum com guitarras sintetizadas chocou os mais desatentos dos fãs.

Minha primeira impressão foi a de que o Iron Maiden deixou a rapidez e a fúria de “Powerslave” (1984) para trás, e apostou numa sonoridade mais melódica e progressiva ao mesmo tempo, algo novo para seus devotos fãs.

A introdução de “Caught Somewhere in Time” pode já ter sido o bastante para esse choque capaz de causar demência nos fãs mais xiitas. O andamento levemente pesado e o som do baixo nas alturas, foram bons o bastante para berrarmos que sim, o Iron Maiden estava de volta, e com material inédito.

“Wasted Years” é eternizada até hoje nas mais recentes turnês do Steve Harris e cia. Quem nunca cantou junto, “So Understand, Don’t Wasted Time Always Searching for Those Wasted Years”, possivelmente vive em outra dimensão.

“Sea of Madness” é um tesouro escondido na longa discografia da Donzela de Ferro. É a faixa menos lembrada do disco, penso eu, é a “Back in the Village” ou a “Gangland” do disco, mas com uma sobriedade e uma letra das mais viajantes que Adrian Smith já escreveu. “Heaven Can Wait” foi destaque na turnê “Somewhere Back in Time” e no clássico filme “Flight 666”, que teve sua exibição realizada em São Paulo/SP, foi eternizada no filme. Bem que sonhei ser um dos sortudos que subiram ao palco, mas acabei na pista mesmo. Mesmo assim, um dos mais marcantes momentos em todos os mais de 30 shows que assisti deles.

“The Loneliness of the Long Distance Runner” tem uma das mais agressivas interpretações de Bruce, “Stranger in a Stranger Land” tem o solo de guitarra/baixo no ponto culminante, sendo na modesta opinião deste redator, a mais perfeita sintonia entre Adrian Smith e Steve Harris em todos os seus quase 40 anos que trabalham juntos. Aquele solo pra ouvir, voltar o vinil até a agulha não resistir e pedir um descanso.

“Deja-Vu” é a única do trabalho a ter duração abaixo de 5 minutos, sendo também uma das mais rápidas do trabalho e onde Nicko McBrain tem o momento de brilho e “Alexander the Great (356-323 B.C.) é um hino que ficou adormecido por mais de 36 anos, que só foi executada ao vivo em 28 de maio de 2023 na Eslovênia, na estreia da então nova tour “The Future Past”. Foi, indiscutivelmente, um momento glorioso da carreira da banda liderada por Steve Harris.

O que não podemos esquecer são os lados B que este lindo trabalho gerou. “Reach Out”, com Adrian Smith como vocal principal, e Bruce, nos backing vocals, é a melhor delas; e poderia estar, sim, no tracklist regular, porque soa Iron Maiden em sua essência. Pena que Steve Harris não quis gravar o baixo, algo que obviamente foi determinante para mantê-la como lado B. “Juanita” é bem divertida e “That Girl” clássico da banda FM cumprem bem o seu papel, e “Sheriff of Huddersfield” é uma homenagem ao empresário Rod Smallwood, uma tremenda zoeira que vale a pena apenas por diversão, já que musicalmente, ela não agrega.

De se estranhar naquele primeiro momento, a ausência de composições de Bruce Dickinson, algo que até hoje permanece um tanto quanto obscuro; sendo um detalhe que o tempo tratou de remediar facilmente.

Como já dissemos no início deste texto, “Somewhere in Time” foi malhado austeramente pela imprensa especializada, mal sabiam eles que, o álbum atravessou esses 40 anos e não tenho dúvidas disso, atravessarão com glórias mais 40, 50, 60 anos, eternizando nas próximas gerações o trabalho do Iron Maiden. Gostaria de poder viver mais 40 anos e ouvir “Somewhere in Time” muitas e muitas vezes. Um disco a frente de seu tempo, viajante, até com um certo ar psicodélico. Clássico é um termo até pequeno pra fazer jus a ele. Fantástico!



 

LORY F. BAND - 24/09/2026 - GREZZ - PORTO ALEGRE/RS

 


LORY F. BAND
24/09/2026
GREZZ
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Abstratti Produtora

Texto: José Henrique Godoy
Fotos: Carolina Godoy

Suzy Quatro e The Runaways são as mulheres heroínas e pioneiras na história do Rock n' Roll, indiscutivelmente. Mas aqui no Sul do país, também tivemos a nossa heroína pioneira no underground do Rock Gaúcho. Lorice Maria Finocchiaro (1958/1993), ou simplesmente Lory F. , foi a primeira mulher “band leader” no Brasil. Vocalista, compositora e baixista de mão cheia, marcou a cena de Porto Alegre com sua atitude selvagem e honestamente Rock n' Roll.

Após tentar a carreira musical no centro do país, Lory retorna para Porto Alegre e reúne um timaço de experientes músicos da cena gaúcha para montar a sua definitiva e mais reconhecida banda, a Lory F. Band. Junto aos exímios guitarristas Marcelo Fornazier (ex-Astaroth, Defalla) e  Marcinho Ramos (Bandaliera), King Jim (saxofone/vocais, ex-Garotos da Rua) e Edinho Espíndola (bateria, ex-Bixo da Seda/Liverpool), Lory F. levava aos palcos um show incendiário, tanto sonora como esteticamente. Tive o privilégio de assistir a banda uma única vez, no clássico Bar Porto De Elis, se não me falha a memória, no inverno de 1991.

Lory nos deixou em 11 de Agosto de 1993,vítima das complicações do vírus HIV,  período em que ainda trabalhava no álbum de estréia da Lory F. Band. que só foi lançado três anos depois , num esforço da sua irmã Laura Finocchiaro e os músicos que a acompanhavam, e se tornou um clássico cult do Rock Gaúcho. Trinta anos depois, chegou a hora de reunir a banda para homenagear a sua líder e celebrar a data festiva do lançamento do cd.


O local escolhido foi o ótimo Grezz, um ambiente com jeitão de Pub e perfeito para shows mais intimistas. Antes do show da Lory F. Band, foi apresentado no telão o documentário “Sinal De Alerta” que apresenta brevemente a trajetória de Lory Finocchiaro. Após a apresentação do documentário, a Lory F. Band adentra ao palco, com os músicos originais Marcelo Fornazier, King Jim e Edinho Espínola. Acompanhados pelo tecladista Chico Ferreti, (que também participou da gravação do cd), o guitarrista Gabriel Guedes (Pata De Elefante) e o baixista Lucas Juswiak. Para dar voz as composições de Lori, ninguém melhor do que seus familiares: As irmãs Laura e Débora Finocchiaro, e seu filho, o reconhecido produtor local Ricardinho Finocchiaro Bolsoni.



O pano de fundo do palco estampava uma imagem de Lori, numa iluminação na cor púrpura, enquanto a banda executou o tracklist na ordem do cd, de ponta a ponta. De “Baleada Noturna” a “Todo Mundo”, a apresentação foi emoção pura, com as irmãs Finocchiaro sendo um show a parte. Não precisamos falar da categoria dos demais músicos, mas temos que destacar o baixista Lucas Juswiak, o “cara novo” que simplesmente tirou todas as linhas e notas criadas por Lory e executou a árdua tarefa com maestria. 

Aproximando-se do final, um dos momentos mais emocionantes da emotiva noite: Ricardinho fala que depois de mais de vinte anos de produção, era ali a primeira vez que ele produzia a banda que foi da sua mãe. A seguir Laura anuncia uma música inédita que o próprio Ricardinho escreveu a letra, em homenagem a Lory, intitulada “Mulher De Púrpura”, uma linda composição. Não por coincidência, a data escolhida para o evento é a data de nascimento de Lory, e se viva estivesse, estaria completando 68 anos, e por óbvio foi cantado parabéns para você. Finalizando a noite, “Forças” uma das melhores composições da Lory F. Band, com seu refrão sensacional. O show acaba com todo o público que lotava o Grezz aplaudindo de pé. 




Existe uma declaração de Lory, falando que a sua música seria conhecida após 20 ou 30 anos. Pois nunca é tarde pare reconhecer o poder da sua música e arte. Que este show seja apenas o início de um redescobrimento do seu Rock, sua Arte e autenticidade de uma artista “True Rocker”, que faz falta ao cenário brasileiro e universal. Agradecimento especial a Abstratti Produtora pelo credenciamento e ao staff do Grezz pela cordialidade.