quinta-feira, 13 de agosto de 2026

SINNER - BOOM BANG GOODBYE (2026)

 


SINNER
BOOM BANG GOODBYE
Reigning Phoenix Music - Importado

Existem discos que chegam ao mundo para dar início a alguma coisa. Outros chegam para provar que uma banda ainda tem muito a dizer. E existem aqueles que carregam sobre os ombros uma tarefa muito mais difícil: dizer adeus. BOOM BANG GOODBYE, o mais recente trabalho do SINNER, lançado lá fora pela Reigning Phoenix Music, pertence a essa última categoria. E diferentemente de outras audições, existe uma história inteira escondida atrás dessas onze faixas. Mat Sinner, o mastermind por trás da "banda", construiu sua trajetória desde o início dos anos 1980, atravessando décadas, mudanças de formação, tendências, crises da indústria e transformações profundas no heavy metal. Agora, ao colocar um ponto final nessa história, o baixista e produtor poderia ter reciclado velhas fórmulas, chamado meia dúzia de amigos e encerrado a carreira de maneira protocolar. Felizmente, não foi isso que aconteceu. Seu último trabalho soa como uma despedida feita por alguém que ainda ama profundamente aquilo que está deixando para trás.

Para este encerramento de carreira, Mat Sinner mais uma vez reuniu um elenco de companheiros de longa data e músicos excepcionais. Alex Scholpp (guitarra), Mathias “Don” Dieth (guitarra, retornando ao SINNER)  e Moritz Müller (bateria) são a base do álbum, acompanhados por Jim Müller (KISSIN’ DYNAMITE), Lisa Müller e Magnus Karlsson, que trabalhacom Mat Sinner há muitos anos. Nos vocais, o álbum também traz um encontro de grandes vozes. Ronnie Romero, Michael Bormann, Michael Sadler (Saga), Björn “Speed” Strid (Soilwork), Erik Mårtensson (Eclipse), Renan Zonta (Electric Mob) e Sascha Krebs trazem sua própria identidade às músicas, tornando o álbum uma despedida digna e cheia de performances vocais cheias de sentimento e técnica.

O álbum abre com "Dreams Come True",  e a escolha de Renan Zonta nos vocais foi excelente. Sua voz traz potência, personalidade e uma energia que impede a música de cair naquela mesmice que muitos vocalistas acabam por se deixar levar. Existe emoção e força em seus vocais. O título parece quase uma mensagem que Mat Sinner poderia estar dirigindo ao próprio passado: sonhos podem se realizar, desde que alguém esteja disposto a persegui-los durante décadas. A faixa traz melodia, peso e uma dose generosa de otimismo. “Wait”, cantada por Michael Bormann, é uma música que mergulha mais profundamente no hard rock melódico e apresenta uma estrutura extremamente acessível, mas sem cair na repetição desnecessária. É uma das faixas que imediatamente faz pensar no grande hard rock melódico europeu dos anos 1980, mas com produção contemporânea. Já em “Leave It All Behind”, o SINNER reduz um pouco a velocidade e aposta em uma atmosfera mais reflexiva. E a voz de Ronnie Romero (que aparece em mais duas faixas) se encaixa perfeitamente na proposta apresentada. “All Night Long” traz o hard rock de estrada: guitarras abertas, groove contagiante e refrão feito para ser cantado em coro. Ronnie Romero novamente demonstra por que se tornou uma das vozes mais requisitadas do hard rock e do heavy metal contemporâneo. “Are You Ready” aproxima o hard rock melódico da sensibilidade mais moderna de  Björn Strid (Soilwork) sem destruir a identidade da composição. E a escolha de Strid mostra que o passado está presente, e músicos de diferentes gerações ajudam a contar essa história.

“Born To Run” traz riffs diretos, melodias fortes e aquele sentimento de que a música foi feita para ser tocada em no volume mais alto possível. Enquanto isso, “Hellbreaker” está entre os momentos mais pesados do álbum e lembra que, apesar de toda a ênfase nas melodias, estamos diante de uma banda cuja história também passa pelo heavy metal. Com Michael Sadler nos vocais, “Turn The Page” ganha uma atmosfera diferente. O vocalista do Saga acrescenta uma dimensão mais sofisticada à música, e o resultado é um dos momentos mais interessantes do álbum. E o próprio título entrega: chegou a hora de virar a página... Michael Bormann retorna e entrega outro dos momentos mais emocionantes do disco. “Road To Remember” se volta ao caminho percorrido. E esse talvez seja um dos pontos em que o trabalho e ultrapassar a condição de simples álbum de hard rock/heavy metal. Porque, em determinado momento, você deixa de pensar apenas em riffs e refrões e começa a pensar na quantidade de anos, palcos, músicos, viagens e histórias que estão por trás daquele som e tudo vivido por Matt Sinner e sua banda. “Under The Moonlight” traz novamente uma atmosfera mais pesada e ajuda a preparar o terreno para o encerramento. É uma música forte e intensa, que mostra como o SINNER consegue alternar entre o hard rock melódico e o heavy metal sem parecer estar mudando de personalidade. O encerramento, não apenas do álbum, mas da carreira da banda vem com "Power". Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, e a música funciona como uma espécie de último grito de força. Não é um encerramento melancólico. É quase uma declaração: enquanto houver rock/hard/heavy, a música terá força!

BOOM BANG GOODBYE não é um álbum revolucionário. Muito pelo contrário. É um disco honesto, competente, melódico e carregado de significado, que reúne diferentes gerações do hard rock europeu para acompanhar Mat Sinner em sua despedida. Ele lembra por que o SINNER conseguiu atravessar tantas décadas sem perder sua identidade. Ao término da audição, fica aquela sensação estranha que discos de despedida conseguem provocar: a certeza de que a história acabou — e, ao mesmo tempo, a sensação de que aquelas músicas continuarão tocando muito depois, já que todos nós sabemos que a música é eterna. Obrigado Matt Sinner

Sergiomar Menezes










TESLA - HOMAGE (2026)

 


TESLA
HOMAGE
Frontiers Music Srl. - Importado

Se você tem familiaridade com a carreira do Tesla, sabe que desde o princípio o quinteto originário da cidade californiana de Sacramento se diferenciou dos seus pares do Hard Rock oitentista. Tanto no visual, como na sonoridade, o Tesla se aproximava mais das bandas setentistas que os influenciaram, como Led Zepellin, Ufo e Humble Pie, citando alguns exemplos. E da mesma forma, sempre pagaram tributo às suas influências.

E a gravação de covers sempre fez parte da carreira do Tesla. Já no seu álbum de estreia, “Mechanical Resonance” (1986) um dos maiores hits, “Little Suzie” é canção de uma grupo de “British Pop”, chamado PH.d, enquanto “Signs” que consta no multiplatinado álbum acústico  “Five Man Acoustical Jam” é da banda de Rock canadense Five Man Eletrical Band. Convenhamos que ambas as faixas são lembradas e conhecidas por causa do Tesla.

Em 2007, o Tesla lançou “Real To Reel” volumes 1 e 2, onde a banda repassa covers do Rock e Hard Rock dos anos 1960 e 1970, e Lynyrd Skynyrd, Aerosmith, Ufo, Alice Cooper, todos são revisitados em versões vigorosas de alguns de seus clássicos. Agora em 2026, o grupo retorna a este formato, com “Homage”. A diferença aqui em “Homage” é que o desafio é um pouco diferente, e as versões são focadas em alguns dos melhores vocalistras de todos os tempos, De Freddie Mercury a Etta James, passando por James Brown, e até o Rei do Rock n' Roll, Elvis Presley.

Todas as faixas parecem ter sido escolhidas sob medida para a voz de Jeff Keith, blueseira e cheia de sentimento. “Homage” é repleto de grandes canções, “Spread Your Wings” (Queen), “Ballad Of Curties Loew” (Lynyrd Skynyrd), “If I  Could Dream” (Elvis Presley), "I´d Rather Go Blind“ (Etta James), todas com o enfoque do Tesla, que deixam todas as faixas do álbum com um novo frescor e torna o álbum extremamente agradável de se ouvir. A abertura do álbum é com a faixa “Never Alone”, uma faixa inédita da banda, e é uma puta balada com o selo de qualidade do quinteto. Enfim, o Tesla dá sequência a sua carreira com um ótimo álbum saudando suas influências e nos brindando com mais um trabalho de muito bom gosto.

José Henrique Godoy





quarta-feira, 12 de agosto de 2026

METALLICA - METALLICA 35 ANOS


 

METALLICA (BLACK ALBUM) 35 ANOS - O DISCO QUE  MUDOU MINHA VIDA!

Eu tinha 13 anos quando ouvi o Black Album pela primeira vez. Foi meu pai quem colocou o disco pra tocar em um belo sábado de sol à tarde, e lembro exatamente do momento em que "The Unforgiven" rolou no som, eu parei de jogar videogame e fui até a sala perguntar a ele quem tocava aquela maravilha dos deuses, e então ele me mostrou um cd de capa totalmente preta, onde só se via a silhueta do nome da banda e uma serpente enrolada no canto inferior direito. Não sei explicar direito o que aconteceu comigo naquele momento, só sei que pirei e posso dizer com toda certeza que foi um divisor de águas em minha vida, pois o Fernando de antes do Black Album deixou de existir a partir daquele dia, não tinha mais volta, eu virei um fanático não só pela banda, mas pelo heavy metal em si.

E trinta e cinco anos depois do lançamento desse disco, em 12 de agosto de 1991, eu ainda sinto um pouco daquela sensação toda vez que escuto o disco até hoje.

Só depois, com o tempo, fui entender que essa reação não era exclusividade minha. O Black Album é o disco que rompeu a barreira do próprio gênero e chegou a gente que nunca tinha ouvido uma música pesada na vida. Não é exagero dizer, até porque os números dizem por si só: o disco estreou em primeiro lugar em dez países, ficou quatro semanas seguidas no topo da Billboard 200 nos Estados Unidos, e "Enter Sandman" chegou à 16ª posição da Hot 100, a parada pop mais importante do mundo, numa época em que praticamente nenhuma banda de metal flertava com esse território. Gente que nunca tinha comprado um disco de metal na vida comprou esse. Isso é raro. Isso é histórico.

Tem gente que fala mal desse disco até hoje, que xinga o Bob Rock, que diz que o Metallica vendeu a alma naquele ano pra virar banda de estádio. Eu entendo o argumento, conheço a história, sei que a produção mais limpa e as músicas mais curtas foram uma aposta calculada pra alcançar um público maior depois da tijolada (no bom sentido) que foi ...And Justice for All. Mas sinceramente, esse argumento nunca colou comigo. Porque sem esse disco, sem essa suposta "venda de alma", eu não estaria aqui hoje escrevendo sobre uma das coisas que mais amo na vida. Ele foi meu marco zero.

"The Unforgiven" tem aquele clima de faroeste, uma melancolia pesada que não é fácil de explicar pra quem não é fã do gênero. Acho que foi exatamente essa mistura de peso com um quê de tristeza que me pegou aos 13 anos. Já "Nothing Else Matters" é outra história. Nasceu quase por acidente, com Hetfield falando que era uma música feita para uma namorada na época, achando aquilo pessoal demais pra virar música da banda, até Ulrich ouvir a música e insistir que ela precisava ser gravada no disco e não deu outra, o “Anão” acertou (de novo). Não é à toa que até hoje ela segue sendo regravada e tocada em todo tipo de contexto, décadas depois de ter nascido de uma ligação particular.

Não preciso ficar comentando faixa por faixa aqui, até porque todo mundo já conhece esse disco de cor. Mas não posso deixar de admitir uma coisa: mesmo gostando de tudo sem exceção, e mesmo tendo sido "The Unforgiven" a minha porta de entrada, a melhor música do disco pra mim continua sendo "Wherever I May Roam". E não é pouca coisa dizer isso de um álbum que, de doze faixas, colocou seis como single ao longo de 2 anos de divulgação, contando o lançamento promocional de "Don't Tread on Me". Poucos discos de heavy metal conseguiram esse tipo de proporção entre faixa e hit.

E não é só questão de saudosismo, ou de eu ter ouvido isso aos 13 anos com os olhos brilhando. Pra mim, até hoje, é o disco mais bem produzido da história do heavy metal. Bob Rock levou o Metallica pra um patamar de produção que nenhuma banda do gênero tinha alcançado até então: guitarras enormes, mas ainda assim limpas, uma bateria que soa gigante sem perder o peso, arranjos que respiram, como a base de cordas discreta em "Nothing Else Matters" ou o clima quase cinematográfico de "The Unforgiven". Isso sem falar da composição, muito mais madura e econômica que qualquer coisa que a banda tinha feito antes. Não é à toa que até hoje engenheiros de som, produtores e bandas de heavy metal e hard rock citam esse disco como referência técnica, não só de som, mas de como compor e arranjar uma música pesada pra ela funcionar em qualquer contexto.

A partir dali, virei fanático. Corri atrás de tudo que existia de Metallica, descobri "Kill 'Em All", "Ride the Lightning", "Master of Puppets", e de lá fui pra Slayer, Exodus, Iron Maiden, Judas Priest, Black Sabbath, etc. O Black Album não foi só um disco bom que eu ouvi quando era moleque. Foi a porta de entrada pra tudo que eu sou hoje como fã e como alguém que escreve sobre heavy metal.

Trinta e cinco anos depois, o disco ainda segue batendo recordes. Em maio de 2025 a RIAA certificou o Black Album como Double Diamond, mais de 20 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos, o primeiro álbum de heavy metal da história a chegar nessa marca. Segue sendo, até hoje, o marco zero de gente que nem tinha nascido quando ele saiu. E o Metallica sabe disso, pois em pleno M72 World Tour, as músicas do disco ainda continuam com presença garantida no repertório, show atrás de show. E assim será eternamente, até o dia em que a banda se aposentar.

Talvez essa seja a explicação mais simples do porquê esse disco importa tanto. Não é sobre thrash raiz contra Metallica "vendido". É sobre quanta gente, como eu, teve o próprio marco zero através dele. Trinta e cinco anos depois, Black Album ainda me faz sentir do mesmo jeito que aquele moleque de 13 anos ouvindo o pai colocar o disco pra tocar.

Long Live MetallicA!

Fernando Aguiar

terça-feira, 11 de agosto de 2026

NAZARETH - LATIN AMERICA HITS TOUR - 26/07/2026 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 


NAZARETH
Abertura: PHORNAX
LATIN AMERICA HITS TOUR
26/07/2026
BAR OPINIÃO
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Opinião Produtora/Top Link Music

Texto e fotos: José Henrique Godoy

Nazareth não é banda que só se escuta em fuscas”... Eu li esta frase, ao mesmo tempo pitoresca, confusa e meio sem sentido, naquele site que era o maior portal de noticias sobre Rock e Metal, há uns vinte anos... Lembro que na ocasião eu ri bastante ao ler a tal sentença, mas depois refleti sobre ela: Era um fã tresloucado defendendo a seminal banda escocesa da “acusação” de serem “bregas” pela quantidade de baladas constantes nas sua discografia, ou algo que o valha... Nada contra fuscas, pois ainda quero ter um, mas depois de pensar a frase fazia sentido, e era justa. O Nazareth é, foi e sempre será uma puta banda de HARD ROCK/ROCK N' ROLL!!!

Resolvi fazer essa introdução, pois toda a vez que penso no Nazareth, essa frase me vem a cabeça. Mas vamos ao que interessa, e relatar sobre esta nova visita dos escoceses ao Brasil, banda que tem muito carinho por eles, e vice-versa, tendo em vista a quantidade de tours que eles fizeram por aqui ao longo das décadas. Desta vez, com um novo vocalista: o suiço Gianni Pontillo. E aqui era o foco principal da atenção de todos os fãs: seria capaz o “cara novo” substituir minimamente o insubstituível Dan McCafferty?

A abertura da noite ficou com a banda gaúcha Phornax, que entrou no palco as 19h55 e entregou um show vigoroso e forte, com seu Power/Heavy Metal que vem se destacando no cenário nacional. O Phornax foi responsável por todos os shows de abertura da Tour do Nazareth no Brasil. Após 40 minutos, a banda se despede e agradece a ótima recepção do excelente público que tomava quase a totalidade dos espaços do Opinião.


Às 21h10, as luzes se apagam, e a intro com sons de gaitas de fole tradicionais da Escócia são ouvidas. Aos poucos os integrantes adentram o palco com a clássica faixa de abertura dos shows do Nazareth, na maioria das suas tours de 1976 para cá: “Telegram” inicia o espetáculo. Do lado esquerdo do palco, Pete Agnew, o baixista e único membro original, com seu baixo poderoso, óculos escuros e um sorriso que permaneceu no seu rosto do primeiro ao último acorde. Ao lado direito, Jimmy Murrison, o guitarrista do Nazareth desde 1994, e a sua postura “rocker-até-o-talo” . Ao fundo Lee Agnew, o baterista e filho de Pete, firme, pesado e seguro, dando a cadência do Nazareth. E lembram do cara novo, o tal Gianni? Pois bem, se havia dúvidas se ele era capaz de liderar a voz do Nazareth, após alguns minutos a dúvida se transformou em certeza absoluta.

O grande Dan McCafferty deixou o Nazareth em 2013, por motivos de saúde e ele foi substituído por Carl Sentance, até 2025. Carl era um bom vocalista, gravou discos e fez várias tours, porém sempre quis deixar a sua marca própria na banda. Já Gianni parece não querer nada além de manter o legado de Dan intacto e trazer o velho espírito do Nazareth de volta. E conseguiu!




O som estava perfeito, se ouvia perfeitamente todos os instrumentos, todos os clássicos foram executados com suprema perfeição: “Miss Misery”, “Razamanaz”, “Dream On”, “Holyday”, ”Changin Times”, do mais que clássico “Hair Of The Dog” (este álbum teve cinco faixas executadas, no total de dezessete, é verdadeiramente a Obra-Prima do Naz) teve uma versão extendida, onde Jimmy exibiu toda a sua técnica e habilidade com a guitarra. Sim, “Hair Of The Dog” e “Love Hurts” foram executadas e cantadas a plenos pulmões por todo Opinião, comandado por Gianni, que além de excelente vocalista, é um ótimo frontman. Inacreditável pensar que ele está na banda há apenas cinco meses.

Após noventa minutos, o Nazareth encerra seu excelente show com “Go Down Fighting”, do também clássico álbum de 1973, "Loud n' Proud". Uma sensação incrível ver o sorriso e as caras felizes de todos saindo do Opinião, fossem eles senhores na casa dos setenta anos, ou a garotada nova que vai atrás pesquisar sobre os grandes do Rock e ainda tem a sorte de poder ver alguns deles na ativa, como o Nazareth. Lembram da frase que abri esse texto? Ela é correta, mas eu me permito ajustá-la: “Nazareth não é banda só para se ouvir em fuscas. É pra se ouvir em qualquer lugar, pois sua obra é eterna!” Longa vida ao Nazareth, e que retornem ano que vem, como prometeram!





segunda-feira, 10 de agosto de 2026

RATT - DANCING UNDERCOVER 40 ANOS


 

OS 40 ANOS DE "DANCING UNDERCOVER", O CLÁSSICO SUBESTIMADO DO RATT


Lançado em agosto de 1986, Dancing Undercover, o terceiro álbum de estúdio do Ratt, chegou às prateleiras em um momento em que o glam metal e o hard rock viviam sua era de ouro. Naquele ano, nomes como Bon Jovi (Slippery When Wet), Europe (The Final Countdown) e Poison (Look What the Cat Dragged In) disputavam o topo das paradas e a veiculação direta de seus clipes na MTV.

Seguir o sucesso colossal de "Out of the Cellar" (1984) e "Invasion of Your Privacy" (1985) — ambos venderam milhões e foram alguns dos pilares estéticos do movimento de Los Angeles, e se pararmos pra pensar, lançados de forma regular — não era uma tarefa simples. O Ratt estava no olho do furacão, sob pressão extrema da gravadora Atlantic Records e de seu management para repetir a dose de hits instantâneos como "Round and Round" e "You Think You're Tough".

Quatro décadas após sua chegada, Dancing Undercover ressurge não apenas como um retrato fiel da Sunset Strip nos anos 80, mas como um trabalho fascinante de transição: um disco que trocou parte do apelo comercial óbvio por uma abordagem mais rítmica, crua e melancólica, consolidando-se como um dos tesouros mais injustiçados da discografia da banda.


Para a gravação do álbum, que ocorreu nos lendários estúdios Village Recorders, em Los Angeles, o Ratt manteve a fórmula vencedora ao lado do produtor Beau Hill. No entanto, os bastidores escondiam turbulências.

Conforme relatado posteriormente pelo baterista Bobby Blotzer, a banda foi jogada no estúdio sob forte pressão contratual e de agenda antes mesmo de o material estar totalmente lapidado. Havia depósitos financeiros não reembolsáveis em estúdios caríssimos, o que obrigou o quinteto — formado por Stephen Pearcy (vocais), Robbin Crosby (guitarra), Warren DeMartini (guitarra), Juan Croucier (baixo) e Bobby Blotzer (bateria) — a compor e arranjar sob o cronômetro.

Ironicamente, essa urgência e tensão criativa forçaram o grupo a explorar novos caminhos. Enquanto os dois primeiros álbuns focavam em refrãos explosivos e riffs diretos, "Dancing Undercover" revelou um foco maior na melodia e "seriedade". A cozinha formada por Blotzer e Croucier ganhou um destaque impressionante, injetando um balanço quase "dançante" (daí o irônico título do álbum) à base pesada de guitarras.

O álbum abre com "Dance", escolhida como o primeiro single e cartão de visitas da era. Com um riff marcante de DeMartini e Crosby e um videoclipe de forte presença na MTV (que garantiu aparições até na cultuada série Miami Vice), a faixa estabelece o tom rítmico do disco. Ela não tem a audácia imediata de "Round and Round", mas compensa com um refrão astuto e uma batida contagiante.

Em seguida, "One Good Lover" e "Drive Me Crazy" mantêm a energia alta. A primeira destaca a assinatura vocal rouca e arrastada de Stephen Pearcy, enquanto a segunda acelera o tempo, mostrando a habilidade de Blotzer na bateria e solos cortantes que lembram o melhor do heavy metal tradicional fundido à atitude de rua de Hollywood. Nunca é demais lembrar que uma das principais influências do quinteto era o Judas Priest...

Um dos pontos altos do disco é "Slip of the Lip", uma faixa cheia de malícia que exibe a perfeita simbiose entre as guitarras gêmeas de DeMartini e Crosby — uma dinâmica que rivalizava diretamente com a de duplas lendárias do rock. Logo depois vem "Body Talk", uma das músicas mais pesadas e viscerais gravadas pelo Ratt, escolhida para a trilha sonora do filme "The Golden Child", no Brasil, " O Rapto do Menino Dourado", (1986), estrelado por Eddie Murphy.

Já a segunda metade do álbum mergulha em cortes profundos que os fãs mais dedicados consideram o verdadeiro coração do disco: "Looking for Love" e "7th Avenue" trazem uma atmosfera urbana e noturna, onde a técnica refinada de Warren DeMartini nos solos ganha espaço de destaque sem perder a pegada pop. "It Doesn't Matter" e "Take a Chance" mantêm a consistência da parceria de composições entre Croucier, Pearcy e DeMartini. O encerramento fica por conta de "Enough Is Enough", fechando o alinhamento de 34 minutos de duração com uma descarga direta de hard rock.


Uma curiosidade interessante sobre "Dancing Undercover" é a ausência intencional de uma power ballad tradicional. Na metade dos anos 80, o mercado era fortemente impulsionado por baladas que tocavam nas rádios FM e atraíam o público geral (como "Home Sweet Home" do Mötley Crüe ou "Alone" do Heart). O Ratt havia flutuado com baladas melancólicas antes, mas optou por manter "Dancing Undercover" inteiramente calcado em faixas de andamento médio e rápido, com foco na eletricidade do "rock street".

Essa decisão artística, somada a um leve cansaço do público com o excesso de bandas similares no mercado em 1986, fez com que o álbum não alcançasse os mesmos patamares estratosféricos de vendas imediatas de seus antecessores. Embora tenha estreado bem, alcançado o Top 30 da Billboard 200 e garantido mais um disco de Platina pela RIAA, representou o primeiro sinal de estabilização comercial para o grupo.

Outro ponto curioso e interessante de "Dancing Undercover" é sua capa. Na foto, os integrantes estão separados por linhas brancas. A vida inteira eu sempre vi isso como realmente linhas. No entanto, meu amigo Tarcísio Chagas me atentou para o simples fato de que as tais linhas, seriam carreiras de cocaína, numa clara alusão ao que acontecia internamente com o grupo.

Com o passar das décadas, a percepção sobre Dancing Undercover mudou drasticamente entre críticos e entusiastas do gênero. Se na época alguns torceram o nariz por achá-lo linear, hoje ele é frequentemente reavaliado como o álbum mais coeso e tecnicamente afiado do Ratt.

Envolvidos por uma produção cristalina típica da época, os arranjos de guitarra de Robbin Crosby e Warren DeMartini soam impecáveis, servindo de referência e influência para guitarristas de hard rock. Além disso, a sonoridade do álbum evitou cair na pieguice que arruinou comercialmente muitas bandas do gênero no final daquela década.

Completar 40 anos é celebrar a resiliência de um momento em que o Ratt, mesmo sob intensa pressão da indústria, recusou-se a soar genérico e entregou um disco intenso, cheio de atitude e eletricidade. Dancing Undercover permanece eternizado como um monumento à era de ouro de Los Angeles — um clássico atemporal que continua a convidar o ouvinte para a atmosfera, por vezes, sombria e magnética do hard  oitentista.

Sergiomar Menezes