OS 40 ANOS DO ÁLBUM QUE MARCOU A ESTREIA DA BANDA QUE MUITOS AMAM ODIAR
Por Sergiomar Menezes
23 de maio de 1986, dia exato em que o álbum de estreia do POISON, LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN, celebra quatro décadas de história. Mais do que apenas um disco de hard/glam/hair metal, esse álbum foi o início de uma verdadeira revolução estética e musical que definiu o auge da cena Hard Rock na lendária Sunset Strip de Los Angeles, transformando quatro jovens da Pensilvânia em astros do rock.
Antes mesmo de colocar o álbum pra tocar, a verdade é que LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN já causava impacto imediato pela capa. Trazendo fotos de seus integrantes mega-ultra-hiper-super maquiados (Bret Michaels, C.C. DeVille, Bobby Dall e Rikki Rockett), o encarte ostentava tanto laquê, batom, blush e delineador que quebrou barreiras de gênero na época. Tanto que um amigo chegou ame dizer que, em uma festa, depois de algumas cervejas, tranquilamente "tiraria um deles pra dançar"...
Mas, ao contrário dos discos multimilionários que o Def Leppard ou o Mötley Crüe gravavam na época, o Poison era uma banda de garagem sem dinheiro quando assinou com a independente Enigma Records.
O álbum foi gravado em apenas 12 dias no estúdio Music Grinder, em Hollywood, com um orçamento curtíssimo de aproximadamente 30 mil dólares — uma pechincha para os padrões da indústria fonográfica de 1986. O produtor Ric Browde conseguiu extrair um som cru, direto e sem firulas, onde a falta de tecnologia de ponta foi compensada por pura energia rock and roll e refrãos feitos para arenas.
O sucesso não veio da noite para o dia, mas quando estourou em 1987, empurrou o álbum para a terceira posição da Billboard 200 e vendeu mais de 4 milhões de cópias só nos EUA. Isso se deu devido a uma sequência de singles imbatíveis:"Cry Tough", faixa de abertura funcionava como o manifesto da banda. Era uma mensagem de perseverança para todos os jovens que, assim como eles, largaram suas cidades natais e foram morar em vans em Los Angeles atrás do sonho americano,"Talk Dirty to Me", um hino e verdadeiro divisor de águas. O riff grudento de C.C. DeVille e a letra sacana transformaram a música em um hino geracional, e pra quem ouve música sem preconceito, percebe uma certa urgência punk em sua slinhas. O solo de guitarra dessa música é, na verdade, uma reciclagem, pois C.C. DeVille já usava exatamente esse mesmo arranjo em sua banda anterior, o "Screaming Mimi". Já "I Want Action" divide opiniões, pois apesar da energia traduzida em guitarras distorcidas, trata-se na verdade de um plágio mais que descarado da banda sueca "Easy Action"! Procure pela internet e você vai entender melhor essa história.... O clipe, cheio de cores neon e closes provocantes, foi censurado em alguns países pelo teor das imagens e da letra. E como todo bom disco do estilo, "I Won't Forget You" é a balada obrigatória. Ela provou que o grupo sabia falar de corações partidos e garantiu a rotação pesada da banda nas rádios, mostrando a versatilidade comercial do grupo.
Algumas curiosidades:
- Antes de C.C. DeVille entrar na banda, um jovem guitarrista chamado Saul Hudson fez testes para o Poison. Ele chegou a passar pelas primeiras fases e era o favorito de Bobby Dall e Rikki Rockett. No entanto, o vocalista Bret Michaels achou que o visual dele não batiam com a proposta pop/glam que ele queria para o grupo. Esse guitarrista era ninguém menos que Slash, que logo depois se juntaria ao Guns N' Roses. No fim, a entrada de C.C. DeVille trouxe o senso de melodia pop que o Poison precisava para explodir., e convenhamos, foi o melhor para ambas as bandas.
- Com o intuito de promover o álbum, o Poison foi escalado para abrir shows de bandas maiores. Uma das turnês mais emblemáticas foi abrindo para o Iron Maiden na "Somewhere on Time Tour". A mistura não funcionou bem: o público headbanger do Maiden detestava o visual maquiado do Poison e os cobria de vaias e objetos jogados no palco. O grupo aguentou firme, usando a rejeição para tocar com ainda mais agressividade.
- A expressão "Look What the Cat Dragged In" (algo como "olha o que o gato trouxe para dentro", usada para descrever alguém com aparência deplorável) não foi escolhida ao acaso. A banda dividia uma quitinete infestada de baratas em L.A. e vivia de restos de comida e festas. Certa manhã, após uma noite de excessos, um dos membros olhou para o outro e disse a frase. Eles acharam perfeita para resumir o contraste entre o visual impecável do palco e a realidade decadente de suas vidas pessoais na época.
Quarenta anos após sua chegada às lojas, LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN (hoje certificado com tripla platina) permanece como um documento histórico fascinante de uma era que não existe mais. Ele define perfeitamente o espírito colorido, exagerado e livre dos anos 80, onde a única regra real era se divertir até o amanhecer.
Mesmo enfrentando as viradas radicais do mercado musical nos anos 90 com a chegada do Grunge, as canções deste álbum provaram sua imortalidade. Elas continuam vivas em turnês de arena, trilhas sonoras de cinema, séries de TV e jogos de videogame .
Ao atingir a marca de 40 anos, o debute do POISON nos lembra de uma lição valiosa: o Rock n' Roll nem sempre precisa ser sério, político ou complexo — às vezes, ele só precisa ser alto, divertido e ter uma quantidade generosa de spray de cabelo.





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