quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

METAL CHURCH - THE WEIGHT OF THE WORLD (2004/2025) RELANÇAMENTO

 


METAL CHURCH
THE WEIGHT OF THE WORLD
Shinigami Records/Reaper Entertainment - Nacional

Quando o Metal Church lançou The Weight of the World em 2004, muita gente ainda via a banda como um nome histórico do metal tentando sobreviver num cenário dominado por outras tendências. Mas, olhando hoje, especialmente com o relançamento remasterizado de 2025 pela Shinigami Records, fica claro que esse disco representa muito mais do que apenas “mais um capítulo” da discografia. Ele é, na prática, o verdadeiro recomeço da banda em pleno anos 2000.

A entrada de Ronny Munroe marca essa virada. Ele não tem o carisma quase teatral de David Wayne, nem a técnica refinada de Mike Howe, mas entrega algo importante: energia e versatilidade. Em alguns momentos, especialmente nas faixas mais lentas, soa menos confiante. Mas quando pisa no acelerador, como em “Leave Them Behind” ou “Cradle to Grave”, mostra agressividade suficiente para sustentar o peso das guitarras.

E falando em guitarras: aqui está o verdadeiro coração do álbum. A sonoridade dos anos 2000 do Metal Church já não é aquele thrash puro como no começo da carreira. O que aparece em The Weight of the World é um heavy metal tradicional com elementos de speed e power metal, menos específico, menos rotulado. É um som mais “amplo”, que às vezes flerta com melodias que lembram o Iron Maiden, especialmente nas linhas vocais de “Hero’s Soul”, mas sem soar como cópia.

A faixa-título é um dos grandes momentos do disco. Tem groove, tem refrão forte e consegue ser pesada mesmo sem ser rápida. Já “Madman’s Overture” é talvez o ponto mais ambicioso do álbum: pouco mais de oito minutos de variações, mudanças de clima e até uma quebra com sabor setentista, incluindo baixo mais evidente e uma textura inesperada de sintetizador. É quando a banda sai um pouco da zona de conforto e mostra maturidade para arriscar em um terreno até então pouco explorado.

O disco pode não ter momentos absolutamente arrebatadores, daqueles que redefinem a carreira de uma banda, mas é um álbum muito consistente. E isso, às vezes, vale mais do que um ou dois hits isolados.
A produção remasterizada de 2025 ajuda bastante. As guitarras soam mais definidas, a bateria ganha presença e a mix permite perceber melhor as camadas de arranjo. O baixo ainda não é o protagonista do álbum, mas aparece com mais corpo do que na versão original.

Se alguém ouvir "XI" antes desse disco, pode até achar que as ideias são parecidas. Mas, na prática, "The Weight of the World" soa mais direto, mais natural e menos calculado. No fim das contas, The Weight of the World talvez não esteja entre os grandes clássicos absolutos do Metal Church, mas é um exemplo sólido de como o heavy metal tradicional pode soar no século XXI: pesado, melódico, técnico na medida certa e, acima de tudo, honesto. 

Não é um álbum que vai fazer seu queixo cair, mas é um álbum que vai fazer você bater cabeça. E às vezes, é exatamente isso que a gente quer, banguear \m/.

Fernando Aguiar




METAL CHURCH - MASTERPEACE (1999/2025) RELANÇAMENTO

 


METAL CHURCH
MASTERPEACE
Shinigami Records/Reaper Entertainment - Nacional

Existem discos que envelhecem mal. E existem discos que precisam de tempo para serem compreendidos. Masterpeace é exatamente o segundo caso.

Quando o Metal Church lançou o álbum em 1999, o retorno de David Wayne (que infelizmente nos deixaria alguns anos depois, em 2005) ao vocal gerou expectativa bem alta. Mas muitos fãs ainda estavam emocionalmente ligados à fase com Mike Howe, e isso acabou influenciando um pouco a recepção do disco. O problema é que "Masterpeace" nunca foi pensado como uma repetição do passado, e talvez por isso tenha sido tão mal interpretado.

O álbum não tem um hit imediato. Não há aqui um novo “Watch the Children Pray”. Em vez disso, temos um trabalho consistente, que cresce faixa após faixa. A abertura com “Sleeps With Thunder” é pesada e segura, com aquela veia heavy/thrash tradicional da banda, mas o disco realmente começa a mostrar sua força conforme avança. “Falldown” mantém o ritmo, mas agora com uma pegada um pouco mais speed metal e traz um refrão melancólico que fica na cabeça. “Into Dust” consegue ser energética e triste ao mesmo tempo, uma combinação curiosamente eficiente. “Kiss for the Dead” flerta com uma power ballad sem perder peso. Já “Faster Than Life” e “All Your Sorrows” carregam uma veia mais heavy/thrash bem trabalhada e com uma dinâmica e construção mais elaboradas.

Masterpeace soa como um disco mais emocional do que explosivo e isso caiu muito bem (ao menos para este que vos escreve). E falando de Wayne: sua performance é diferente da fase oitentista. Menos agressiva, mais madura, às vezes até introspectiva. Não é mais aquele jovem furioso do passado, é um vocalista experiente, entregando emoção de outra forma.

Talvez o maior mérito de Masterpeace seja justamente esse: ele exige paciência. Não é um disco de impacto imediato, mas um álbum que melhora a cada audição. E nessa versão remasterizada de 2025, com clareza na mixagem, ele finalmente soa com a força que sempre mereceu.

Não é um clássico, óbvio, ainda mais se considerarmos a época do lançamento original (1999), onde outros estilos dominavam naquele período, como o Nu-Metal e o Metal Church conseguiu entregar um ótimo registro que vale ainda mais a audição pelo contexto histórico da banda. E às vezes, redescobrir um álbum assim é tão satisfatório quanto ouvir um clássico pela primeira vez.

Fernando Aguiar




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

SEPULTURA - ROOTS 30 ANOS - UM MARCO DO METAL BRASILEIRO E MUNDIAL


 SEPULTURA - ROOTS 30 ANOS - UM MARCO DO METAL BRASILEIRO E MUNDIAL

Por William Ribas


I believe in our fate
We don't need to fake
It's all we wanna be
Watch me freak

Quando Roots explodiu, eu já tinha a minha "carteirinha de fã". Em 1996, para onde quer que olhássemos, estava escrito o nome Sepultura. Nas revistas, especializadas ou não. Na televisão, fosse na MTV, na Cultura ou no SBT, ali estavam Max, Iggor, Andreas e Paulo.

Dia 20 de fevereiro: o dia em que o metal gritou em português (e em dialeto indígena)

Lembro de assistir a “Roots Bloody Roots” no Disk MTV. De bater cabeça com “Attitude” ou “Ratamahatta” no programa Fúria Metal, do Gastão Moreira. Quantas foram as vezes que berrei: “Vamos detonar essa p***! É, p***!

Obviamente que no auge dos meus 12 anos estranhava o Carlinhos Brown ali (risos). Com esse lançamento, o Sepultura — que já vinha numa enorme crescente — simplesmente explodiu. A afinação baixou, mas o peso aumentou. Os solos quase sumiram, mas a "barulheira" cresceu. O groove, os refrãos, a batida nacional: os quatro integrantes jogaram a brasilidade dentro do liquidificador e criaram algo único. Esfregaram para o mundo as suas origens.

Roots não é thrash. Não é death. Não é exatamente nu metal — embora muita gente insista em reduzi-lo a isso. Ele é um choque cultural amplificado. É um groove pesado atravessado por ritmos tribais, berimbau e cantos indígenas.

Iggor Cavalera transforma o álbum em um campo de batalha rítmico. Cada batida tem um peso de uma pata de elefante. Não é exagero dizer que a percussão em Roots é tão protagonista quanto os riffs. O curioso é que o álbum é político sem ser panfletário. Ele fala de resistência, opressão, identidade e sobrevivência sem virar discurso partidário. A raiva aqui não é gratuita.

Para muitos, Roots não é perfeito (e eu me encaixo nessa), afinal, ele não é linear. Temos músicas fortíssimas além dos singles, como “Cut-Throat”, “Breed Apart”, “Spit” e “Lookaway”, dividindo espaço com faixas que alguns consideram pausas desnecessárias, como “Jasco”. Uma pausa em meio ao caos? Pode ser. Mas até essas pausas contribuem para a narrativa: eles respiram, ritualizam e preparam o próximo impacto.

Em Chaos A.D., o Sepultura apresentou a intrigante “Kaiowas” — uma certa dose do que poderia estar por vir logo à frente. Não existe música que traga mais toda a simbologia ancestral de Roots do que “Itsari”. A banda gravou com a tribo Xavante no meio da “selva”, passando por rituais como a pintura dos corpos e danças, literalmente adentrando o mundo indígena naquele momento.

O disco também encerra um ciclo histórico. Foi o último capítulo da era clássica com Max nos vocais. Depois dele, nada seria igual.

Trinta anos depois, por que Roots ainda importa?
Porque ninguém soou igual antes. E ninguém conseguiu soar igual depois.
Nem o próprio Sepultura. Nem o Soulfly. Nem o Cavalera Conspiracy.

São 30 anos de um marco brasileiro, que redefiniu expectativas e colocou o Brasil no mapa da música pesada de maneira incontestável e eterna.

Attitude and Respect!




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

HYPOCRISY - A TASTE OF EXTREME DIVINITY (2009/2025) RELANÇAMENTO

 


HYPOCRISY
A TASTE OF EXTREME DIVINITY
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

A Taste of Extreme Divinity não pede licença. Ele entra com dois pés na porta. Como se o Hypocrisy ainda precisasse provar algo — mesmo não precisando provar absolutamente nada. Em 2009, quando muita banda do death metal melódico já parecia perdida entre modernizações forçadas e fórmulas recicladas, Peter Tägtgren simplesmente fez o que sempre soube fazer: escrever riffs que cortam, atmosferas que sufocam e músicas que pesam de verdade.

“Valley of the Damned” já deixa claro que não há aquecimento. É uma “bicuda” direta. A guitarra vem seca, agressiva, e a bateria explode sem rodeios. Tägtgren soa feroz — o Hypocrisy soa como deve ser. E o mais interessante é que essa fúria não parece artificial. Parece natural. O gutural grave continua monstruoso, mas os vocais mais agudos, quase desesperados em alguns momentos, adicionam uma camada de tensão que deixa tudo mais instável, mais nervoso.

O Hypocrisy sempre soube equilibrar brutalidade e melodia sem soar adocicado. Aqui isso aparece de forma cirúrgica. “Weed Out the Weak” e a faixa-título são ataques frontais — rápidas, cortantes, com riffs que parecem empurrar a música para frente o tempo todo. Já “Solar Empire” e “No Tomorrow” trabalham aquele andamento médio esmagador, aquele groove pesado que não depende de velocidade para funcionar. Você não apenas escuta — você bate-cabeça.

Mas aqui vai a parte honesta: o disco é forte do começo ao fim… talvez até forte demais de maneira uniforme. Não há uma faixa que vire um clássico absoluto. Não existe aquele momento que vira obsessão instantânea. Tudo é bom — muito bom — mas falta aquele pico emocional que te faz voltar compulsivamente para uma música específica.

Ainda assim, é impossível negar: o Hypocrisy aqui soa vivo. Não soa cansado. Não soa tentando agradar ninguém. Soa como uma banda confortável na própria brutalidade e zona de conforto. Não é o ápice da carreira, mas também está longe de ser um passo automático.

No fim das contas, A Taste of Extreme Divinity é um álbum que mostra maturidade sem acomodação. É um disco seguro, sólido, pesado e honesto.

William Ribas




HYPOCRISY - VIRUS (2005/2025) RELANÇAMENTO

 


HYPOCRISY
VIRUS
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Por que caminhamos pelo vale da mediocridade? Para que o retorno ao topo seja ainda mais glorioso. Para qualquer fã de longa data do Hypocrisy, o início dos anos 2000 foi, no mínimo, confuso. Após álbuns experimentais que deixaram uma cicatriz na discografia — sim, estamos apontando o dedo para você, Catch 22 — Peter Tägtgren parecia ter “perdido o rumo”. Mas então veio 2005 e, com ele, Virus.

Bastaram poucos segundos após a breve “XVI” para perceber que um verdadeiro ataque vinha na direção dos fãs. “Warpath” não começa; ela detona. O riff principal carrega aquela combinação perfeita de peso e impacto, enquanto a bateria soa mais urgente do que em qualquer trabalho recente da banda. A entrada de Horgh (ex-Immortal) não foi apenas uma troca de integrante — foi uma transfusão de sangue novo. Os blast beats são secos, controlados, mas violentos, e as viradas quebram a previsibilidade que, por vezes, rondava os discos anteriores. O Hypocrisy sempre dominou o andamento cadenciado, quase marcial, mas aqui há mais velocidade, mais tensão acumulada sob cada compasso.

Tägtgren soa como um homem determinado a provar algo — talvez aos fãs, talvez a si mesmo. Os vocais estão mais profundos, rasgando com uma intensidade que remete à crueza do início da carreira, mas sem perder definição. Mesmo em meio à brutalidade, há clareza e controle.
O mais impressionante é que Virus não soa como uma tentativa desesperada de agradar. Ele parece natural, como se a banda tivesse finalmente se lembrado de quem sempre foi. Faixas como “Scrutinized” e “Blooddrenched” trazem riffs old school e uma pegada “bate-cabeça” instantânea, enquanto “Fearless” funciona como uma ponte perfeita para os fãs antigos, ecoando a grandiosidade de clássicos como “Roswell 47”, mas com uma roupagem moderna. Há nuances que continuam a surgir mesmo após semanas de audição — contrapontos de baixo em “Let the Knife Do the Talking” e texturas de guitarra que criam aquela atmosfera apocalíptica tão característica da banda.

O álbum se encerra com a polêmica, porém brilhante, “Living to Die”. Aqui, Peter utiliza os vocais limpos não para suavizar, mas para intensificar uma atmosfera de desolação nostálgica. É um fechamento emotivo para um disco que passou quarenta minutos tentando arrancar sua cabeça.

Vinte anos depois, a infecção continua letal. Se você ignorou este álbum na época por causa dos tropeços anteriores da banda, é hora de corrigir esse erro. A Shinigami Records recoloca no mercado um trabalho que prova que o Hypocrisy não apenas sobreviveu ao seu período sombrio — emergiu dele mais forte, mais rápido e, definitivamente, mais letal.

William Ribas