quarta-feira, 25 de março de 2026

STRYPER - THE GREATEST GIFT OF ALL (2025)

 


STRYPER
THE GREATEST GIFT OF ALL
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

De quando em vez e de vez em quando, artistas famosos, cantores e bandas lançam em finais de ano seu “álbum natalino”. Eu particularmente acho brega, desnecessário e literalmente um saco. E olha que alguns dos meus artistas preferidos já “cometeram“ estes projetos, dentre eles Twisted Sister e o “Metal God” Rob Halford. Impossível não lembrar da cantora Simone e sua versão de “ Então é nataaaal”...

Pois não é que até que demorou para uma das bandas mais peculiares e talentosas do Hard/Heavy oitentista, o Stryper lançar o seu “Christmas Album”? Falo que demorou, pois pela temática cristã pela qual são conhecidos, o projeto de Natal do Stryper viu a luz do dia apenas após quatro décadas de carreira.

E não é que o resultado do álbum ficou acima do que eu esperava ? Logo de cara salta aos olhos a ótima produção do trabalho, e como sempre a performance do vocalista Michael Sweet, principalmente quando sabemos dos problemas de saúde que ele tem atravessado nos últimos tempos. Faixas tradicionais de Natal como “Winter Wonderland”, “Little Drummer Boy” e “Silent Night" tem a assinatura característica do Stryper, sem perder o clima original, tendo como resultado versões Hard Rock melódico.

Se você é fã do Stryper de longa data, e tem tudo da banda (este que digita aqui, por exemplo), é um álbum necessário para manter a coleção em dia. Se você não acompanha tão de perto a banda dos irmãos Sweet, ou se quer conhecer a banda, indico “Soldiers Under Command” ou “ To Hell With The Devil”. Lançamento Nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




ROB ZOMBIE - THE GREAT SATAN (2026)

 


ROB ZOMBIE
THE GREAT SATAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Na minha opinião, Rob Zombie é um dos últimos Rock Stars da história. Seus discos sempre tem qualidade, uns mais, outros menos, porém seus shows são apocalípticos e espetaculares. E ainda divide seu tempo como diretor de cinema de Horror, criando algumas das melhores “trasheiras” de todos os tempos. E agora em 2026, ele nos entrega “The Great Satan”, sem dúvida nenhuma, um dos seus melhores trabalhos.

Pesado, agressivo e com o jeito Rob Zombie de “rockear”, “The Great Satan” é um retorno ao som tradicional dos primeiros trabalhos como ”Hellbilly Deluxe” (1998) e com algo que lembra sua antiga banda, o White Zombie. Durante toda a audição, o ouvinte se depara com riffs pegajosos, baterias estrondosas e o rugido inconfundível de Zombie. O uso habitual de samplers e outros sons eletrônicos estão lá também, aqui e acolá, porém sem muita interferência mas que dão outra dimensão à música de Zombie.

A faixa de abertura “F.T.W. 84!" é uma introdução perfeita para "The Great Satan", a estranheza dos teclados fora de sincronia, o riff monstruoso e Zombie gritando “Fuck The World, Fuck it All” é mais um exemplo de como é fácil para Rob Zombie criar um carnaval de insanidade. “Tarantula” é apenas a primeira amostra de riffs monstruosos do guitarrista Riggs, enquanto “I´m A Rock N Roller“ se tornou a minha faixa preferida. Pesada e divertida, a letra dela faz referências a “Moonage Daydream” do David Bowie, cita o T-Rex referindo “Telegram Sam” e “Eletric Warrior (músicas e álbum da banda de Marc Bolan), e também fazendo citações ao The Sweet e Jimmy Page. Faixa simplesmente viciante.

Outros destaques ficam por conta de “Heathen Days”, que lembra bastante a clássica “Dragula”, e as fantasticamente intituladas “Black Rat Coffin”, e "Sir Lord Acid Wolfman". Nelas o peso é mantido e o groove garantido por conta do baixista Blasko (ex-Ozzy Osbourne e Danzig) e o batera Ginger Fish (ex-Marylin Manson). O trabalho é mantido num nível linear altíssimo, tendo em vista que ao final de “Grave Discontent” a última das 15 faixas, a impressão do ouvinte é de que recém havia começado a audição, O jeito é colocar pra rodar de novo.

Enfim, “The Great Satan“ é um puta álbum concebido por Rob Zombie. O lançamento nacional dele já está disponível pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




terça-feira, 24 de março de 2026

HOLY LAND - 30 ANOS

 


HOLY LAND: A EPOPÉIA BRASILEIRA DO HEAVY METAL


Por Sergiomar Menezes

Celebrar os 30 anos de Holy Land em 2026 é reconhecer o momento em que o Heavy Metal brasileiro deixou de ser um reflexo do que vinha de fora para se tornar uma referência global. Se "Angels Cry" (1993) apresentou o Angra ao mundo, Holy Land (lançado em 23 de março de 1996) provou que eles eram gênios. O segundo álbum de estúdio do Angra foi muito além do "debut". Enquanto o primeiro disco mostrava uma banda virtuosa influenciada pela música clássica e erudita, Holy Land foi uma jornnada conceitual ambiciosa que narra a descoberta do Brasil em 1500, mergulhando nas raízes indígenas e coloniais. Ele não apenas narra o descobrimento, mas explora o choque cultural e a natureza exuberante através de uma fusão técnica impecável. É um disco que desafiou as fronteiras do gênero ao fundir o Power Metal europeu com a riqueza rítmica e folclórica da nossa terra.

O álbum é uma jornada sensorial. Ele não fala apenas de história, mas de sentimento. A narrativa foca no choque cultural, na beleza da natureza intocada e na espiritualidade.

A genialidade do quinteto estava no auge. Composto por 5 cabeças que se complementavam (apesar dos atritos internos), o grupo tinha na técnica e qualidade seu maior destaque. Andre Matos (vocal) - o maestro. Sua voz alcançou o ápice da técnica e emoção aqui, unindo sua formação erudita ao metal. Infelizmente, Andre faleceu em 2019, mas seu legado, em especial aqui em Holy Land, é eterno. Kiko Loureiro (guitarra), trouxe o virtuosismo que o levaria anos depois ao Megadeth. Em Holy Land, ele explorou dedilhados que remetem à viola caipira e violão brasileiro. Rafael Bittencourt (guitarra), foi o mentor intelectual de muitos conceitos e letras. Sua visão ajudou a equilibrar o peso com a brasilidade. Luís Mariutti (baixo) garantiu o peso necessário enquanto acompanhava as mudanças rítmicas complexas. E Ricardo Confessori (bateria), o elemento chave para a percussão. Ricardo integrou bumbos duplos com levadas de maracatu e baião de forma orgânica e nos fez entender que, para serem universais, precisavam ser autênticos às suas origens. A sinergia deste quinteto foi o que permitiu uma ousadia musical tão grande e versátil.

O que torna Holy Land um clássico absoluto é a coragem das misturas. Não era apenas "metal com um batuque no fundo", era uma integração orgânica:

- Ritmos Brasileiros: O uso de instrumentos de percussão nordestinos e amazônicos, o balanço do baião e do maracatu inseridos em estruturas complexas.

- Música Clássica e Renascentista: Influências de compositores como Palestrina e o uso de flautas e arranjos vocais que remetem ao período das Grandes Navegações.

- Progressivo e Power Metal: Bumbos duplos e solos de guitarra estratosféricos convivendo com momentos de pura calmaria e introspecção.

E como analisar musicalmente um trabalho único e referencial como Holy Land? Musicalmente complexo e técnico? Liricamente poético e histórico? Ou um trabalho conceitual completo do início ao fim, iniciando por "Crossing", uma peça sacra de Giovanni Pierluigi da Palestrina (século XVI). que define o tom de "viagem no tempo" e colonização europeia. E a sequência com "Nothing to Say"? Um Heavy/Power com um dos riffs mais clássicos da carreira da banda. Andre solta a voz de uma forma perfeita, mostrando ao mundo que era (e sempre será) um dos maiores vocalistas do mundo. "Silence and Distance", uma balada ao piano que explode em peso. Trata da solidão e das incertezas em alto-mar. Mas o maior destaque e também o maior desafio da banda até aquele momento (e na minha opinião, nunca mais superado) é "Carolina IV". Em mais de 10 minutos, a composição reúne percussão brasileira, corais eruditos e uma complexidade progressiva que narra a travessia oceânica. Uma verdadeira obra-prima que sintetiza todo o conceito do disco. A faixa título, por sua vez, traz a brasilidade de forma mais visceral, onde a percussão é a protagonista, refletindo a beleza e o misticismo da terra descoberta, com uma linda melodia de piano que depois de ouvida uma vez, nunca mais sai da sua cabeça.

"The Shaman" (que mais tarde daria nome à banda formada depois da separação da banda), introduz elementos indígenas e rituais. É uma das músicas mais místicas do disco, com um clima denso e tribal. Em seguida, uma das mais belas músicas do Angra: "Make Believe", onde Andre dá outro show com vocais agudos numa bela interpretação e mostra que pra cantar essa, não bastava fazer pose nem jogar pra galera (como andaram fazendo tempos depois...). Uma balada emocionante que questiona o futuro daquela terra e as cicatrizes da colonização. Destaque para o solo final de guitarra. "Z.I.T.O", traz consigo um enigma interessante. A sigla pode se referir tanto ao apelido de um amigo quanto à expressão em latim “Zur Incógnita Terra Oceanus” (Terra Incógnita Além do Oceano), além de ter sido inspirada por um sonho com um alienígena chamado Ziltoyd. Essa variedade de interpretações reforça o tema principal da música: a busca humana por novas descobertas e o desejo de explorar o desconhecido, seja no mundo exterior ou no próprio interior, e contrata com a melancolia e grandiosidade de "Deep Blue", uma composição que retrata o encontro do céu com o mar. Ao final, "Lullaby for Lucifer", um encerramento acústico e introspectivo, gravado com sons de ondas e pássaros, trazendo o ouvinte de volta à realidade da natureza.


Três décadas depois, "Holy Land" continua sendo a "régua" pela qual muitas bandas de metal nacional são medidas. Ele provou que o Brasil tinha uma identidade própria no gênero, fugindo da cópia das bandas europeias. A performance de Andre Matos neste disco é frequentemente citada como uma das maiores da história do metal mundial, consolidando seu status de lenda. Para os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, o álbum foi a vitrine que mostrou ao mundo uma técnica refinada aliada a uma criatividade rítmica singular.

Em um mercado saturado, "Holy Land" permanece atual porque é honesto. Ele celebra a brasilidade sem clichês, tratando nossa cultura com a grandiosidade de uma ópera. É um testamento de uma época em que a banda estava no auge de sua sinergia criativa.

Agora em março, a banda anunciou o fim de um hiato para realizar uma turnê comemorativa de 30 anos do disco (e surpreendeu 0 pessoas), com a escolha de Alírio Netto para os vocais. E isso prova que, mesmo após mudanças de formação e décadas, o público ainda vê em "Holy Land" a alma do Angra. Se isso soa positivo ou não, fica a critério de cada um...

"Revisitar Holy Land agora não é apenas tocar um álbum clássico. É voltar às raízes e reencontrar a força criativa que nos trouxe até aqui." – Comunicado oficial da banda (2026).


 


 

segunda-feira, 23 de março de 2026

REBEL ROCK ENTREVISTA - ROBERT LOWE (SOLITUDE AETERNUS, CANDLEMASS)

 


O Discípulo do Doom Desembarca no Brasil

O cenário do Doom Metal mundial não seria o mesmo sem a voz de Robert Lowe. Dono de um alcance emocional único e de um timbre que transita entre o solene e o desesperador, Lowe eternizou seu nome na história ao capitanear instituições como o Solitude Aeturnus e ao dar vida a uma das eras mais icônicas do Candlemass.

Agora, em abril de 2026, o público brasileiro terá finalmente a chance de testemunhar essa lenda viva de perto. Pela primeira vez em solo nacional com seu projeto solo, a turnê "Disciple of Doom" promete ser muito mais do que um simples show: será uma celebração litúrgica de décadas de dedicação ao metal pesado e lento.

Em uma conversa franca com a Rebel Rock, Robert Lowe fala sobre a expectativa de encontrar os fãs brasileiros, revisita momentos cruciais de sua trajetória e revela detalhes sobre o processo criativo que o mantém como uma das vozes mais respeitadas do gênero. Preparem-se para a "Missa Doom": o mestre está chegando.

Por Sergiomar Menezes

Rebel Rock: Oi, Robert! Antes de mergulharmos no assunto, devo dizer que é uma honra absoluta entrevistar um dos maiores nomes da história do Doom Metal. Estamos entusiasmados por ter você aqui e espero que você aproveite bastante o papo!

Robert Lowe: Obrigado. É uma honra para mim também.

Rebel Rock: Robert, o projeto Disciple of Doom parece ser uma celebração definitiva da sua carreira. Como foi o processo de seleção do setlist para esta turnê brasileira, considerando que você tem hinos em bandas com sonoridades tão distintas?

Robert: Bem, escolher as músicas é difícil simplesmente porque há muitas opções, mas o que eu quis fazer com este set especial no Brasil é tocar coisas que obviamente as pessoas conhecem, mas também muitas outras músicas que são algumas das minhas favoritas e que não costumam ser tocadas ao vivo.

Rebel Rock: Você é uma lenda do gênero, mas esta é a sua primeira vez realizando shows solo no Brasil. O que você ouviu sobre o público brasileiro ao longo dos anos e o que os fãs podem esperar dessa "Missa Doom" que você está trazendo?

Robert: Eu entendo que os fãs brasileiros são incríveis, pelo que vi e ouvi sobre outras bandas que estiveram aí, e estou extremamente ansioso para fazer parte dessa comunidade. Planejamos tocar os clássicos e, novamente, também material de álbuns que — espero — as pessoas gostem, e que eu gosto, trazendo-os para o primeiro plano do show para que não seja um set comum e previsível.

Rebel Rock: O Solitude Aeturnus é frequentemente citado como o pilar do Epic Doom nos EUA. Olhando para trás, para álbuns como "Into the Depths of Sorrow" e "Beyond the Crimson Horizon", como você vê a evolução da sua voz e da sua escrita lírica daqueles dias até o presente?

Robert: Bem, inicialmente o Lyle cuidava das letras, e depois eu assumi como letrista; nossa abordagem de escrita é um pouco diferente. Quanto ao estilo vocal, acabei encontrando meu lugar com o "Through the Darkest Hour" e foi ali que me estabeleci. Não acho que meu estilo tenha mudado; se você quiser usar a palavra "evoluiu", então sim, simplesmente porque fiquei mais confortável no meu papel, mas isso não mudou quem e o que eu sou em relação a pensamentos, sentimentos e emoções. Essas coisas nunca vão embora.


Rebel Rock: Juntar-se ao Candlemass para o álbum "King of the Grey Islands" foi um dos momentos mais impactantes do metal nos anos 2000. Como foi o desafio de ocupar o lugar de Messiah Marcolin e, ao mesmo tempo, imprimir sua própria identidade em clássicos como "Bewitched" e "Solitude" durante as turnês?

Robert: Antes de tudo, você não substitui o Messiah. Quero dizer, o homem é uma lenda por si só. E quem não gosta do Messiah, certo? O que eu quis fazer foi apenas colocar minha marca de alguma forma em uma banda que já era enorme e que é uma das bandas que me colocou neste caminho, então todo o crédito vai para esses caras. Tudo o que eu pude fazer foi o melhor possível para garantir que a reputação do Candlemass não fosse manchada.

Rebel Rock: Muitos fãs consideram o "Death Magic Doom" (2009) um dos melhores discos da história do Candlemass. Qual é a sua lembrança favorita do processo de gravação desse álbum e como era sua dinâmica criativa com Leif Edling na época?

Robert: Eu estava assistindo a um documentário do Abba no meu hotel em Oslo, na Noruega. O Leif apareceu, bateu na porta, ficamos sentados por um tempo decidindo o título do álbum, que acabou sendo esse. Mas o processo foi muito tranquilo. Aqueles cavalheiros são incríveis de se trabalhar. Executar as músicas no estúdio foi surpreendentemente fluido. Todo mundo é muito profissional, então não é uma situação difícil conseguir criar a música que o Leif escreveu. Todos os caras são incríveis, eu era a "terceira roda" ali.


Rebel Rock: Você teve uma relação próxima com o Trouble, outra instituição do Doom. Como a "escola de Chicago" e o estilo de bandas como Trouble e Saint Vitus influenciaram sua interpretação do metal, especialmente em comparação com o estilo mais "europeu" do Candlemass?

Robert: Minha primeira impressão veio — acredito — da coletânea Metal Massacre 4. No lado B do disco, a primeira vez que ouvi Trouble foi "Last Judgement", e eu apenas sentei lá e pensei: "Puta merda. Isso é que é o bicho". Bem, para ser honesto, naquela época, o que quer que você queira dizer com "Metal Europeu", eu estava ouvindo obviamente Priest, Maiden... Eu não considero realmente essas bandas como metal europeu. Metal é metal. Digo, Scorpions, era o que eu ouvia na época... Sabbath... Não havia muita coisa super pesada saindo dos Estados Unidos naquele tempo. Depende, quero dizer, se você olhar para bandas como Metal Church, Slayer, Anthrax... com exceção do Pentagram, que foi outra banda que me fez dizer "Caramba! Por que estou ouvindo Hank Williams Jr.?"

Rebel Rock: Poucas pessoas sabem que você também toca guitarra e baixo (como visto em projetos como o Concept of God). Como seu conhecimento de outros instrumentos ajuda a construir melodias vocais sobre riffs de Doom pesados e lentos?

Robert: Com a habilidade de tocar vários instrumentos, no que me diz respeito, os vocais são completamente diferentes de tocar guitarra, baixo, bateria, teclado ou qualquer instrumento. Para mim, vejo os vocais como a terceira guitarra, a outra linha de baixo; todos têm que se entrosar e ser um só. Não são instrumentos individuais, porque quando você se une como uma banda, os vocais nada mais são do que um aditivo para a mistura completa do todo.

Rebel Rock: O Doom Metal passou por várias ondas, do Tradicional ao Stoner e Sludge. Como você vê a cena hoje em 2026? Existem novas bandas que você sente que capturam aquela "aura de desespero" que você ajudou a criar nos anos 80 e 90?

Robert: Como eu respondo a isso? Há muitas bandas que eu escuto e, quando surgem essas perguntas, nunca consigo nomear todas as bandas que tocam ao fundo quando estou fazendo café de manhã. É uma daquelas coisas... eu poderia sentar aqui e listar bandas o dia todo, certo? No momento, me vem à cabeça a banda Funeral. Outra que estou ouvindo no momento é Witchcraft. Sabe, são tantas que não consigo apenas listá-las. Essas são as duas que me vêm à mente. Mas, quanto ao estado do doom metal, acho que talvez algumas bandas tenham perdido a diversidade, mas, por outro lado, tudo isso tem seu lugar. E só importa onde você está naquele momento particular. Vejo a música como uma jornada e, se você vai colocar um álbum de quem quer que seja sua banda favorita, é ali que você precisa estar, e deve agradecer àqueles cavalheiros que fizeram aquilo acontecer.


Rebel Rock: Vimos recentemente alguns relançamentos e atividade em torno do nome Solitude Aeturnus. Existe a possibilidade de vermos material novo com John Perez no futuro, ou seu foco agora está inteiramente em novos projetos como o DiGelsomina e sua carreira solo?

Robert: Quanto a material novo, nunca há uma razão para o SA parar de fazer o que estamos fazendo. Tocaremos no Maryland Deathfest em maio e no Candelabrum Metal Fest no México em setembro, e há mais shows sendo planejados enquanto conversamos. O DiGelsomina me contratou para os vocais em seu próximo álbum. Também estou fazendo os vocais para o próximo álbum do Lost Requiem. Além disso, tenho outros trabalhos surgindo, como um single com a banda The Cross, do Brasil. Atualmente, estou montando uma banda Disciple of Doom aqui na Noruega.

Rebel Rock: Robert, o Brasil é conhecido mundialmente por ter um dos públicos de Heavy Metal mais apaixonados e barulhentos. Além do palco, o que você está mais ansioso para vivenciar em nosso país? Há algo em nossa cultura ou culinária que você esteja animado para experimentar?

Robert: Por experiência, sei que não terei muito tempo para fazer turismo, mas certamente estou interessado em ver algumas partes históricas do país; mas, antes de tudo, estarei aí para levar o doom ao Brasil e conhecer os fãs que eu tanto aprecio.

Rebel Rock: Nesta turnê, você dividirá o palco com as bandas brasileiras Midgard e Loss. Você teve a chance de ouvir a música deles? Como é ver que o legado do Doom e do Heavy Metal Tradicional permanece vivo e forte através de bandas mais novas pelo mundo?

Robert: Eu dei uma ouvida no Midgard e no Loss, e devo dizer que mal posso esperar para tocar com esses caras. Bem, é bom saber que as pessoas ainda sabem o que é música de qualidade.

Foto: Brian Mclean

Rebel Rock: Robert, muito obrigado por dedicar seu tempo para esta entrevista. Sua voz tem sido a trilha sonora de décadas para muitos de nós, e ter você no Brasil é um sonho realizado para a comunidade Doom Metal. Muito obrigado pelo seu tempo e por tudo que você deu à cena metal. Foi um prazer conversar com você. Continue detonando e espero ver você no palco em breve! 

Robert: Obrigado por me receber. Eliton Tomasi e Susi Dos Santos, da Som Do Darma, fizeram um trabalho incrível promovendo esta turnê, e a resposta dos fãs também tem sido ótima. É uma bênção e agradeço a Deus todos os dias por ainda poder calçar minhas botas e fazer o que amo fazer.

Rebel Rock: O espaço é seu: gostaria de deixar uma mensagem final para os seus "Disciple of Doom" brasileiros que estão contando os dias para os shows de abril?

Robert: Vamos fazer essa porra acontecer! Quebrem tudo... respirem o DOOM!

sexta-feira, 20 de março de 2026

NOSTALGIA METAL - TIGER CULT - COLD AND TERRIBLE (2004)

 



TIGER CULT
Cold and Terrible: A joia perdida do heavy metal brasileiro

Por Fernando Aguiar

O heavy metal brasileiro sempre foi marcado por uma enorme diversidade de bandas talentosas espalhadas pelo underground. Enquanto alguns nomes conseguiram projeção nacional e internacional, muitos outros permaneceram restritos a um público menor, apesar de produzirem trabalhos extremamente belíssimos. Dentro desse cenário, existem discos que, mesmo sem alcançar grande reconhecimento comercial, acabam se tornando verdadeiros registros de uma época e de uma cena musical.

E é justamente sobre um desses trabalhos que vamos falar hoje.

Lançado em 2004, o único álbum do Tiger Cult permanece como um dos registros mais autênticos do heavy metal underground brasileiro, um trabalho que mistura agressividade, melodias marcantes e devoção absoluta ao metal clássico.

Para entender melhor a importância desse álbum, é necessário primeiro voltar ao início da trajetória da banda e compreender como surgiu o Tiger Cult dentro do cenário metal de São Paulo.


Origem da banda

A banda Tiger Cult surgiu em 1996 na cidade de São Paulo, inicialmente utilizando o nome Angry Angel. A banda nasceu dentro do circuito underground da capital paulista, uma cena que sempre foi bastante ativa, mas que historicamente enfrentou dificuldades relacionadas à falta de estrutura, divulgação e devido apoio da indústria.

Desde o início, o objetivo da banda era criar um som que dialogasse diretamente com o heavy metal tradicional, mas sem se limitar a reproduzir apenas o estilo clássico. Os integrantes buscavam incorporar diferentes influências do metal e do rock pesado, criando uma sonoridade própria que misturasse peso, agressividade e melodias marcantes.

Os anos de estrada antes do debut

Antes de gravar seu primeiro, e infelizmente, único álbum, o Tiger Cult passou vários anos desenvolvendo material e se apresentando ao vivo. Esse período foi fundamental para o amadurecimento da banda.

Diferente de muitos grupos que entram em estúdio logo após a formação, o Tiger Cult preferiu construir sua identidade musical de forma gradual. Durante anos, as músicas foram sendo testadas em shows, ajustadas e aprimoradas. Esse processo permitiu que as composições evoluíssem naturalmente, ganhando arranjos mais sólidos e estruturas mais bem definidas.

Esse longo período de preparação explica por que Cold and Terrible, apesar de ser um disco de estreia, apresenta um nível altíssimo de maturidade, um tanto quanto incomum para um primeiro trabalho. As músicas soam seguras, bem estruturadas e demonstram um entrosamento absurdo entre os músicos.

A gravação do álbum

Cold and Terrible foi lançado pela Die Hard Records, muito conhecida por apoiar e lançar diversas bandas do heavy metal underground.

O processo de produção do disco foi relativamente longo, refletindo o cuidado da banda em entregar um trabalho de excelência, para dizer o mínimo. O álbum foi gravado, mixado e masterizado no Nimbus Studios, estúdio que na época vinha se consolidando dentro do cenário do metal nacional.

A formação na gravação do disco era composta por:
Eric Piccelli – vocal
Marina Takahashi – guitarra
Renato Armani – guitarra
Vinnie Kuhlmann – baixo
Eric Claros – bateria


Em termos líricos, o álbum não segue um conceito único, mas apresenta temas variados ligados ao universo do metal, à rebeldia e à visão crítica do mundo moderno.

Também é possível perceber certa influência da realidade urbana de São Paulo na atmosfera das músicas. A agressividade de algumas composições parece refletir o ambiente caótico da grande metrópole, algo que muitos músicos do underground brasileiro mencionam como inspiração indireta para suas criações.

Musicalmente, a banda demonstra forte influência de bandas clássicas do gênero, especialmente Metal Church, Judas Priest, Iron Maiden, Accept, Saxon, Slayer, entre muitas outras (você saberá logo mais). Ao mesmo tempo, o disco apresenta uma atmosfera bem calcada no thrash/death e até de elementos mais extremos e melódicos, como o death metal melódico que era praticado pelo Children of Bodom na época, especialmente se falarmos das estruturas vocais de Eric Picelli, criando assim, um equilíbrio magnífico entre peso, melodia e agressividade.

Antes de mergulharmos nas músicas, quero destacar um detalhe muito interessante presente no encarte do álbum. Diferente da maioria dos discos que apenas trazem as letras, Cold and Terrible inclui pequenas notas explicando o que motivou a composição de cada faixa. São comentários curtos, mas extremamente reveladores, que ajudam a entender melhor o universo criativo da banda, desde homenagens a bandas clássicas do heavy metal até referências ao cinema, críticas sociais ou simplesmente momentos de pura diversão e irreverência. Esse tipo de detalhe mostra que, mesmo sendo um álbum direto e visceral, existe uma camada conceitual e emocional por trás das composições do Tiger Cult.

O álbum se inicia com uma introdução que prepara o terreno para o clima geral do disco. “Cold and Terrible” apresenta uma atmosfera bastante sombria e quase cinematográfica, funcionando como uma espécie de prólogo que antecipa o peso e a intensidade das músicas que virão a seguir. Embora seja curta, essa abertura cumpre muito bem seu papel ao estabelecer um tom dramático para o álbum. Um detalhe curioso é que essa introdução não foi composta pelo vocalista Eric Piccelli, responsável pela maior parte das músicas do disco, mas sim pelo baterista Eric Claros. E o que dizer da interpretação vocal de Piccelli nessa faixa?

“Down the Bastards” é a primeira música completa do disco e já apresenta um Tiger Cult em plena forma. A faixa surge com riffs pesados e uma bateria direta, rápida e certeira, criando uma atmosfera agressiva que imediatamente chama a atenção do ouvinte. O vocal de Eric aparece rasgado e intenso, lembrando em certos momentos a agressividade do thrash metal. Segundo as notas do encarte, a música funciona como uma verdadeira descarga de fúria, descrita pela própria banda como “uma bala no coração de cada idiota deste mundo amaldiçoado”. A letra expressa frustração contra hipocrisia e pessoas falsas, transformando esse sentimento em energia pura. A música também mostra a habilidade da banda em equilibrar peso e melodia, com riffs marcantes e uma estrutura muito bem trabalhada. Que início arrebatador, meus amigos!

“Wings of Doom” é uma daquelas faixas matadoras que evidenciam a forte influência do heavy metal tradicional na sonoridade da banda. Os riffs são sólidos e diretos, enquanto o andamento mantém uma energia constante ao longo da música. O destaque aqui está na interação entre as guitarras, que criam camadas melódicas muito bem construídas. Nessa música, a banda revela que ela foi escrita em homenagem aos aviadores que perderam suas vidas em combates aéreos, sendo inspirada pelo filme Memphis Belle, que retrata missões de bombardeiros durante a Segunda Guerra Mundial. Essa temática dá à música um ar épico e dramático, reforçando o espírito clássico do heavy metal. O resultado é uma música que remete claramente ao espírito do metal clássico dos anos 80, sem parecer uma simples cópia das bandas da época.

“Soldiers of the Loud” é provavelmente uma das músicas mais emblemáticas do álbum. Trata-se de um verdadeiro hino dedicado ao heavy metal. A letra dessa música homenageia as grandes bandas dos anos 80, citando músicas destas ao longo da faixa, como Tooth And Nail (Dokken), Forged in Fire (Anvil), Black Wind Fire And Steel (vocês sabem...), Prowler (vocês sabem também...), Killed By Death (preciso falar de quem?), Sous of Black (mais uma que nem precisa lembrar de quem é...), etc. A faixa apresenta riffs rápidos, bateria acelerada, pesada e um refrão forte que era cantado em alto e bom som por todos ao redor da banda nos shows (que lembrança nostálgica agora). Essa música resume bem a identidade do Tiger Cult: um heavy metal direto, orgulhoso de suas raízes e feito com evidente paixão pelo gênero. Sem mais...

Tiger Cult - Soldiers of the Loud

“I Rule the Highway” traz uma mudança interessante na dinâmica do disco. A música possui uma pegada mais próxima do hard rock, com um groove marcante e uma estrutura mais acessível. O ritmo mais cadenciado permite que o vocal de Eric se destaque ainda mais, enquanto as guitarras criam uma base sólida e envolvente. É uma faixa em homenagem ao amor da banda por velocidade, carros e motos, uma celebração da sensação de liberdade que existe ao acelerar pela estrada. O refrão é forte e memorável, tornando essa uma das faixas mais cativantes do álbum.

“Angry Angel” tem um significado especial dentro da história da banda. A música é dedicada a antigos integrantes que ajudaram banda em sua trajetória, com menção especial a Marcio Riboshi. Além disso, o título também faz referência ao nome antigo da banda, reforçando a ligação com suas origens. A faixa mantém a pegada daquele speed metal tradicional, com riffs rápidos, diretos, uma estrutura bastante sólida e um refrão fortíssimo, que também era cantado bem alto nos shows, fora o mosh pit insano que a galera agitava (bons tempos!).

A energia absurda que essa música transmite é arrebatadora e há um detalhe simplesmente impagável: após o solo, antes da entrada do riff principal novamente, Eric solta um esplêndido “HEAVY METAL PO##AAAAA!”. Cara, quando ouvi isso a primeira vez, eu pirei (e ainda continuo) e repeti a música por pelo menos 10x só pra ficar gritando junto com o Eric nessa parte (PQP que FOD@). A frase acabou virando praticamente um jargão da banda ao vivo, e não por acaso essa era sempre uma das músicas mais pedidas pela galera nos shows. Não preciso explicar o motivo, certo?

“The Watcher” apresenta uma estrutura um pouco mais elaborada em comparação com algumas das faixas anteriores. A música trabalha melhor as mudanças de ritmo e cria momentos de tensão ao longo da composição, além de apresentar um andamento mais cadenciado. A letra é dedicada a todas as pessoas que se sentem desconectadas do mundo e da realidade em que foram inseridas. Essa temática mais introspectiva cria um contraste interessante com a energia das faixas anteriores, mostrando que o Tiger Cult também sabia explorar temas mais reflexivos. Destaque absoluto para o refrão, que é uma das marcas registradas da banda. Vale lembrar também, que era uma das músicas mais pedidas pela galera nos shows.

“Rock’n Roll (Will Never Leave Me)” funciona como mais uma declaração de amor ao rock e ao heavy metal. A música tem uma atmosfera mais descontraída, lembrando aquela tradição clássica de bandas que exaltavam o estilo de vida ligado ao rock. Essa faixa representa a crença pura da banda no poder do rock’n’roll, naquilo que eles fazem, no que amam, naquilo que os ajuda a atravessar a vida e que diz exatamente o que significa o rock n’roll na vida de muitas pessoas (inclusive a minha).
Rock n’Roll will never leave me
Rock n’Roll will never lie
Rock n’Roll will walk beside me
Until the day I die
É impossível não se identificar com isso.

Tiger Cult - Rock n' Roll (Will Never Leave Me)

Aqui o álbum assume um tom mais sombrio, denso e pesado. “Slave to Emptiness” apresenta uma atmosfera agressiva e introspectiva, com riffs mais densos e uma abordagem vocal ainda mais intensa. Segundo a banda, a música é um grito contra a superficialidade, além de servir como uma excelente desculpa para “tocar thrash até ficarmos completamente insanos”. A faixa apresenta influências fortíssimas de thrash/death metal, especialmente de uma das bandas pioneiras do estilo (preciso mesmo dizer qual?), criando um contraste muito interessante com as faixas mais tradicionais do disco.

“Mad Lawyer” é uma das faixas mais melódicas do álbum, combinando riffs rápidos com melodias que se encaixam perfeitamente na estrutura da música. Em alguns momentos, a atmosfera remete ao Iron Maiden dos anos 80, principalmente na forma como as guitarras dialogam entre si. A própria banda brinca com o conceito da música, afirmando que ela pode ser apenas uma piada… ou talvez não. A escolha fica por conta do ouvinte. Essa leve dose de humor mostra que o disco também tem espaço para momentos mais descontraídos.

Encerrando o álbum, temos “Animus Necandi” que é uma das músicas mais intensas de todo o trabalho. A faixa apresenta riffs pesados, uma atmosfera agressiva e um clima quase ameaçador, funcionando perfeitamente como encerramento do disco.

A música é dedicada a alguns dos maiores personagens justiceiros do cinema, como:
Paul Kersey (Death Wish)
Arthur Bishop (The Mechanic)
Harry Callahan (Dirty Harry)
William Munny (Unforgiven)

Todos símbolos de figuras duras, implacáveis e moralmente ambíguas. Essa referência ao cinema reforça o clima sombrio e violento da música, fechando o álbum em grande estilo com impacto absurdo.

Após o lançamento de Cold and Terrible, o Tiger Cult continuou ativo no cenário underground e chegou a iniciar o desenvolvimento de material para um possível segundo álbum. O trabalho chegou a ser mencionado pela própria banda com o título provisório de The Worst Omen, gerando grande expectativa por parte dos fãs que acompanhavam a banda mais de perto (especialmente para este que vos escreve).
No entanto, por diferentes fatores comuns ao cenário independente, como mudanças de formação, talvez por dificuldades estruturais e limitações de divulgação, o projeto acabou não sendo concluído e nunca chegou a ser oficialmente lançado. Assim, Cold and Terrible permaneceu como o único registro completo da banda em estúdio.


Recepção e importância

No início dos anos 2000, grande parte da visibilidade internacional do metal brasileiro estava concentrada em estilos como power metal melódico ou metal extremo. Nesse contexto, o Tiger Cult representava uma vertente diferente, mais ligada ao espírito clássico do heavy metal dos anos 80.

E dentro desse cenário, Cold and Terrible foi muito bem recebido, tanto pelos fãs da música pesada, quanto pela crítica. Lembro muito bem, pois este que voz escreve foi em dois shows em Osasco em 2004 e a cada show a euforia tomava conta de todos os fãs para ver a banda em ação.

Porém, mesmo com o reconhecimento dentro da cena underground, a banda não alcançou a projeção nacional e internacional que merecia, mesmo com a distribuição negociada com a gravadora belga Mausoleum para ser lançado na Europa, Estados Unidos, Canadá, México, Turquia, Israel e nos países da ex-União Soviética.

O legado do disco

Mais do que apenas um primeiro disco, Cold and Terrible é um retrato fiel de uma época em que o heavy metal brasileiro era movido principalmente pela paixão, pela dedicação e pelo espírito do underground.
Mesmo sem alcançar o reconhecimento que merecesse, o álbum permanece como uma verdadeira joia da cena metal dos anos 2000, um trabalho que continua sendo descoberto e valorizado por novos ouvintes.

Para quem aprecia heavy metal feito com autenticidade, energia e respeito às raízes do gênero, Cold and Terrible não é apenas uma curiosidade histórica: é um disco obrigatório em qualquer coleção.