MAGIA, PESO E SARCASMO: OS 25 ANOS DE MANDRAKE, O DISCO QUE REDEFINIU O EDGUY
Mais maduro, ousado e avesso a fórmulas prontas, o clássico de 2001 provou que o power metal alemão ainda tinha muito espaço para se reinventar
Por William Ribas
O Edguy explodiu no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Antes mesmo de o genial Tobias Sammet criar o magistral Avantasia, ele já havia se consolidado ao lado de Jens Ludwig (guitarra), Dirk Sauer (guitarra), Tobias Exxel (baixo) e Felix Bohnke (bateria). A história da banda começou em 1992, na Alemanha, e em 1995 veio Savage Poetry. Ou seja, em menos de uma década o grupo já chegava ao seu quinto trabalho de estúdio e dividia com o Stratovarius o posto de um dos grandes nomes do Power Metal naquele momento.
Lembro muito bem de ler as ótimas críticas sobre o álbum na Rock Brigade e na Roadie Crew. E, como tantas outras vezes aconteceu depois de ler uma resenha, fui até uma loja comprar o CD. Aquela capa azul, com um bobo da corte de olhos esbugalhados manipulando uma pequena dançarina, chamava atenção logo de cara. Havia ali algo tenso e sarcástico, uma imagem que combinava perfeitamente com o que eu encontraria quando colocasse o disco para tocar.
Musicalmente, não demorava nem um pouco para reconhecer aquele Power Metal melódico e bombástico que eu já havia conhecido em "Vain Glory Opera" (1998) e "Theater of Salvation" (1999). Mas Mandrake tinha alguma coisa diferente. A banda parecia mais segura, mais madura e já dava alguns passos na direção do que ouviríamos nos trabalhos seguintes do Edguy. O álbum também marcou o último lançamento de estúdio da banda pela AFM Records.
Bem, sentei na minha cama, com o encarte na mão, e apertei o play. A introdução de “Tears of a Mandrake” começou e veio aquele primeiro pensamento: “Ué, é tão diferente não começar com uma música rápida? Que sem graça!”. Só que aí veio o refrão e tudo mudou. Em poucos segundos eu já estava cantando aos berros — pobres vizinhos.
Não começar com os dois pés na porta foi uma excelente sacada. “Tears of a Mandrake” cresce aos poucos, ganha força a cada passagem e, quando chega ao refrão, já é impossível ficar parado. É empolgante. Você escuta e imediatamente se imagina no show, pulando, batendo palmas e cantando junto.
“If the storm when the magic has gone / Drown in the tears of a mandrake” — bastavam aquelas primeiras explosões do refrão para entender que o disco tinha começado muito bem. Eu que reclamei cedo demais.
E se o início mais cadenciado me causou alguns segundos de estranheza, as próximas músicas ganharam pontos imediatamente. “Golden Dawn”, “Jerusalem”, “All the Clowns” (com um clipe sensacional) e a maravilhosa “Nailed to the Wheel” vieram na sequência para fazer a minha alegria. Inclusive, “Nailed” tem um lado porrada que “bate na trave” de ser Thrash Metal.
É justamente aí que o álbum começa a revelar sua maior qualidade: ele não fica preso à fórmula que havia colocado o Edguy no mapa. Depois de Theater of Salvation, seria muito fácil simplesmente repetir a receita, colocar mais teclados, mais velocidade, mais coros, mais orquestração e seguir em frente. Mas aqui as guitarras ganham mais importância, o peso aparece com mais frequência e existe uma certa escuridão percorrendo várias das músicas. O Edguy continua sendo o Edguy — melódico, épico e cheio de refrãos memoráveis —, mas apareceu muito mais interessado em experimentar diferentes maneiras de chegar ao mesmo impacto.
“The Pharaoh” talvez seja o maior exemplo de como o Edguy conseguia transformar uma composição longa em algo que não soasse cansativo. São mais de dez minutos de música, mas existe movimento o tempo inteiro. A introdução com aquela atmosfera oriental, a construção sombria, as mudanças de dinâmica, a interpretação de Sammet... Tudo corrobora para fazer da faixa um dos grandes épicos da carreira da banda. É também uma música que pede mais e mais audições. Na primeira vez, você provavelmente fica preso à melodia. Depois começa a prestar atenção nos detalhes. E é aí que Mandrake mostra que existe muito mais acontecendo por baixo dos “panos” entre os refrãos e melodias chiclete.
Depois de tanta coisa acontecendo, “Wash Away the Poison” chega para diminuir a velocidade. É uma faixa mais delicada, quase uma pausa dentro do álbum, e funciona justamente por isso: um respiro. O piano e os elementos mais suaves criam um contraste interessante antes de a banda voltar a colocar peso nas coisas. Aliás, isso é um clichê dentro do estilo, né? Velocidade a torto e a direito para pisar no freio e novamente pisar no acelerador.
“Fallen Angels” traz um riff mais direto, e a música antecipa algumas das características que apareceriam com mais força em Hellfire Club. Há menos dependência do Power Metal; é como se colocássemos o pontapé para o futuro do Edguy aqui. “Painting on the Wall” retorna ao terreno mais familiar, enquanto “Save Us Now” deixa claro que Tobias Sammet jamais permitiria que um disco do Edguy terminasse sem uma boa dose de humor. É uma música divertida, quase absurda, sobre coelhos alienígenas tocadores de bateria tentando dominar o planeta.
Essa é uma das coisas que diferenciam o Edguy de várias outras bandas do gênero. Tobias nunca pareceu preocupado em manter uma postura permanentemente séria ou sombria. Ele consegue falar sobre anjos, demônios, religião, corrupção, liberdade e conformismo e, na música seguinte, aparecer cantando sobre alguma maluquice. E Mandrake equilibra muito bem essas duas faces.
E talvez essa seja outra razão pela qual Mandrake continua interessante tantos anos depois.
Também é impossível não falarmos da evolução de Tobias Sammet. Ainda existem ecos bastante claros de suas influências, mas ele já estava encontrando sua própria identidade. Ainda existiam os pôsteres dos seus ídolos na parede, mas, agora que ele também era uma referência para outras pessoas — agora era ele que tinha seu pôster influenciando uma nova geração. Com isso, a voz ficou mais agressiva em alguns momentos, mais segura em outros, e ele começa a explorar melhor os registros graves e médios sem abrir mão daqueles agudos que se tornariam uma de suas marcas.
E, apesar de Tobias naturalmente ser o grande nome do Edguy, Mandrake funciona porque existe uma banda por trás dele. Jens Ludwig é especialmente importante, mas baixo, bateria e segunda guitarra ajudam a sustentar essa mudança de direção. Felix Bohnke, por exemplo, não precisa transformar cada música em uma demonstração de velocidade. Seu trabalho está muito mais ligado à dinâmica das composições, com boas viradas e uma condução que deixa as músicas respirarem.
Talvez por isso Mandrake seja tão importante dentro da discografia do Edguy. Ele ainda carrega praticamente tudo que fez a banda conquistar seu espaço: Power Metal melódico, refrãos enormes, velocidade, fantasia e aquela energia quase juvenil. Mas já existindo algo diferente acontecendo no reino. Acaba sendo o fechamento de um capítulo de quase uma década — O Edguy estava amadurecendo.
E, seja justamente por isso que o álbum tenha um lugar tão especial.