quinta-feira, 31 de agosto de 2023

GUEPPARDO - POWER LINES (2023)

 


GUEPPARDO
POWER LINES
Classic metal Records

Muitas bandas optam, no decorrer de sua carreira, por mudanças que nem sempre surtem os efeitos desejados. Outras, acabam fazendo essas mudanças por necessidade. Independente da situação, toda mudança acarreta uma expectativa, muitas vezes apreensão por parte dos fãs e até mesmo, podem decretar o encerramento das atividades de um grupo. A GUEPPARDO optou, desde seu último trabalho (I Am The Law - 2021), por cantar em inglês. E posso garantir que isso acrescentou e muito, ao mais que competente trabalho do hoje trio gaúcho. POWER LINES mostra um grupo maduro, entrosado mas, além de tudo, focado em fazer uma música de qualidade, bem gravada, produzida. Um álbum que tem seu lançamento nacional através da Classic Metal Records (uma especialista em colocar no mercado trabalhos de alto nível) e deve chegar às lojas logo em seguida!

A GUEPPARDO hoje é formada por Thiago Gutierres (vocal, teclado e baixo), Perÿ Rodriguez (guitarra, teclado e baixo) e Diego Pereira (bateria) - até o momento dessa resenha não havia informação sobre a entrada de um novo baixista -, e mostra nas 10 faixas que compõem o CD, um amadurecimento consistente, provando que uma banda pode evoluir sem perder sua essência. Gravado mais uma vez no estúdio Hurricane, POWER LINES foi produzido por Sebástian Carsin e por Perÿ Rodriguez, garantindo à banda a manutenção de suas características, ainda que um pouco mais pesada que o habitual. A capa é mais um belo trabalho do já renomado Jean Michel, que vem fazendo bonito dentro do cenário do metal nacional e internacional. Dito isso vamos ao que interessa!

"Dare to Live" abre o álbum com uma intro de bateria que antecede um belo hard/heavy, numa pegada próxima daquela clássica praticada nos anos 80. Mas, a banda soube incorporar suas características, trazendo um toque mais atual, deixando o terreno livre para Thiago mostrar a potência de sua voz. Os riffs de Perÿ mostram todas suas influências, principalmente nos solos, onde Malmsteen, Van Halen e Lynch à frente. A faixa título, veloz e instigante, vem para atropelar tudo à sua frente. Um típico Heavy/Speed repleto de intensidade, onde a cozinha dá seu recado de forma mais do que satisfatória, pois manter a pegada pesada em faixas que imprimem velocidade, nem sempre é uma tarefa das mais simples. O solo merece destaque, pois tem feeling e técnica na medida. Já "Sands of Destiny" tem a atmosfera oitentista em seu DNA, mas sem soar datada, o que faz uma baita diferença. E tome doses extras de metal tradicional em "In the Shadows of the Night", outro momento de destaque no trabalho. Com aquele andamento característico, a faixa possui um clima voltado á bandas como Dio, Accept e porque não dizer, Scorpions. Mais um solo matador!

"Interlude", como o próprio nome entrega, é um momento de introspecção dentro do trabalho, nos preparando para o peso de "Farewell". Que paulada, meus amigos! Heavy metal como ele tem que ser: pesado, conciso e enérgico! baixo e bateria alinhados, guitarras com riffs em profusão e um vocal que mantém a classe durante toda sua execução. Um dos grandes destaques do álbum! E tome mais peso na cadenciada "Blind Faith". deixando a velocidade de lado, a faixa tem teclados que se encaixam perfeitamente dentro da proposta, dando à ela um tom de classe bem característico. Além disso, Thiago tem aqui um de seus melhores momentos no álbum, pois seu timbre parece ganhar mais intensidade em faixas nesse tipo de andamento. Na sequência, "Invisible Chains" resgata o clima Hard/Heavy, com um ótimo trabalho de guitarra, da mesma forma que "Another Rebel Down", essa deixando fluir o lado mais Heavy Metal do grupo. "Under the Curtain" fecha o álbum num clima mais Hard, dotado de passagens pesadas.

POWER LINES é um trabalho muito bem pensado e executado. A GUEPPARDO soube se reinventar e mostrar personalidade, apesar das mudanças ocorridas. É o melhor álbum do grupo? Acho um tanto quanto cedo para dizer. Mas, como seus trabalhos são nivelados por cima, posso afirmar que está em par de igualdade aos mais recentes, principalmente pela qualidade das composições e gravação. Que o grupo siga alçando vôos cada vez mais altos e alcance seus objetivos, pois merecem!

Sergiomar Menezes






quarta-feira, 30 de agosto de 2023

TORTURE SQUAD - DEVILISH (2023)


TORTURE SQUAD
DEVILISH
Time to Kill Records

São quase três décadas mostrando ao mundo o poder e a brutalidade do thrash/death metal brasileiro. Durante esse período, o TORTURE SQUAD, não apenas consolidou sua carreira, como tornou-se uma das mais importantes bandas nacionais dentro e fora do país. Qualidade e técnica não faltam ao grupo, no entanto, esses são apenas dois dos ingredientes que tornam a banda uma das mais relevantes do nosso cenário. A capacidade de se reinventar, de buscar o aprimoramento e fazer sempre aquilo que querem sem se limitar às imposições do mercado, fazem do quarteto tudo aquilo que se espera de uma banda do estilo: uma máquina de moer ossos e estourar tímpanos mais sensíveis. E a prova concreta disso é DEVILISH, novo trabalho do grupo, que sai pela Time to Kill Records.

Mayara "Undead" Puertas (vocal), Rene Simionato (guitarra), Castor (baixo) e Amílcar Christófaro (bateria), após o sucesso na participação do Rock in Rio em 2019 (durante a composição deste trabalho), tiveram uma bem sucedida turnê pela América Central, passando por México, Honduras, El Salvador e Guatemala, tendo como destaque o show no Mexico Metal Fest, no qual o Torture Squad foi um dos headliners. Já em 2021, o grupo comemorou os 20 anos do aclamado "The Unholy Spell", um dos álbuns mais apreciados pelos fãs do grupo, tocando o trabalho na íntegra. E antes de fechar 2022 com chave de ouro em um show com a lenda do thrash metal EXODUS, o grupo colocou no mercado "Torture at La Iglesia en Vivo", gravado na já famosa casa paulista. Tudo isso serviu de preparação par o novo álbum, produzido pela própria banda, em parceria com Diego Rocha (também responsável pela mixagem, enquanto a masterização ficou com Martin Fury (guitarrista do Destruction). A capa é mais uma bela obra do mestre Marcelo Vasco, uma referência dentro do metal internacional. Mas toda essa preparação e produção não adiantaria de nada se o álbum não correspondesse às expectativas que sempre rondam os lançamentos do grupo. E posso afirmar, com a mais absoluta certeza, que mais uma vez, o TS superou todas as expectativas!

"Hell is Coming" inicia o álbum de uma forma inesperado, com uma pequena introdução ao violão que antecede o peso e brutalidade já habituais do grupo. Mayara usa sua voz de forma consistente, explorando momentos mais diversificados, enquanto Rene despeja riffs agressivos. O que falar de uma das cozinhas mais pesadas e e entrosadas do metal nacional? Amílcar e Castor (bateria e baixo) sentam a mão, garantindo uma sessão rítmica intensa. As "quebradas" existentes na faixa mostram bem a versatilidade do grupo que navega com a maior facilidade entre o thrash e o death, enquanto os solos, por vezes nos remetem ao metal tradicional. "Fukeman", é uma faixa mais tipicamente Torture Squad, com aquela pegada característica do quarteto, com momentos mais densos e lentos, criando uma atmosfera mais pesada que o habitual. Na sequência, um dos grandes destaques do álbum: "Buried Alive", faixa que conta com a participação de Andreas Kisser (Sepultura). Mais do que uma participação, a banda faz uma homenagem a um dos grandes heróis do metal brasileiro, numa música repleta de riffs matadores e ótima performance de Mayara. Já "Warrior" traz uma pegada "Hard/Heavy" e é uma uma homenagem a Rickson Gracie, o resiliente lutador de Jiu Jitsu considerado uma das maiores lendas do esporte mundialmente. o timbre da guitarra é contagiante! O peso descomunal de "Sanctuary" vem em seguida, numa das melhores performances de Amílcar no álbum. Impossível passar incólume ao que essa cara faz na bateria. uma pedrada que deve e merece constar nos setlists do shows que vem por aí! 

"Uamatã" é outro grande momento do álbum. O que dizer de um encontro que reúne Vitor Rodrigues (Tribal Scream e ex-Torture Squad), Suzase Hecate (Miasthenia) e João Luiz (Golpe de Estado)? Trazendo músicos ligados à defesa da causa indígena, a banda faz um apelo (em português e inglês) pela preservação da Amazônia, inserindo falas do indígena Raoni Metuktire e ritmos tribais. "Thoth", retorna às raízes da banda, com momentos mais velozes e dinâmicos, enquanto podemos perceber pitadas de prog metal em algumas passagens, ainda que muito tímidas. "Mabus", single disponibilizado antes do lançamento do álbum, é Torture Squad puro, sem concessões, trazendo o bom e velho thrash/death do grupo, numa linha bem tênue entre os dois estilos. Um momento bastante introspectivo surge em "Find My Way". A voz limpa de Mayara e a atmosfera quase gótica da faixa, nos remetem à bandas como Sisters of Mercy, Depeche Mode, entre outras, com o diferencial trazido por Rene nas seis cordas, criando um clima intimista e soturno."Gaia" traz referências à ritmos regionais e é interessante, pois surge como um momento mais suave e calmo durante a execução de um petardo. Rene, mais uma vez, mostra sua técnica e feeling quando o assunto é entrega à composição. Em seguida, "A Farewell to Mankind" vem com uma pegada mais ligada ao death metal enquanto que o encerramento com "The Last Journey", é praticamente uma "outro", que fecha esse belo trabalho do grupo de forma consistente.

Em seu segundo álbum com a atual formação, o TORTURE SQUAD transcende o som do metal extremo com maturidade, incorporando metal progressivo, influências da música brasileira e elementos sinfônicos em sua sonoridade. Uma banda que não fica estagnada, usufruindo de sua zona do conforto. Isso é muito mais que um diferencial, e sim, uma marca registrada do quarteto. DEVILISH sai oficialmente na segunda quinzena de setembro. Ouça alto e  sem medo. The Torture Never Stops!

Sergiomar Menezes




terça-feira, 29 de agosto de 2023

ALICE COOPER - ROAD (2023)

 


ALICE COOPER
ROAD
ear Music/ Valhall Music - Nacional

Uma das situações mais prazerosas e difíceis para quem escreve resenhas de álbuns, é quando chega para você a tarefa de escrever opinativamente sobre o novo trabalho de um artista que você é fã "sócio-torcedor". Tem-se que manter a imparcialidade sobre o que você ouviu e ao mesmo tempo segurar o entusiasmo sobre o novo lançamento de um herói pessoal seu. Mas vamos lá, vamos tentar manter a sobriedade e falar sobre "Road" o novo álbum de estúdio do Mestre Supremo Alice Cooper.

"Road" é o vigésimo nono álbum de estúdio do lendário decano do Shock Rock, e trata-se de um pseudo-álbum conceitual, sobre a vida na estrada de um astro do Rock n' Roll. A produção foi conduzida mais uma vez pelo mago Bob Ezrin, e ao contrário dos últimos lançamentos, Alice levou para dentro do estúdio a sua banda de turnê, que segundo uma afirmação do próprio, gostaria de ter a sua banda totalmente envolvida neste trabalho, já que os via apenas na estrada. Toda a banda soa coesa, e sem querer parecer herege, creio que esta é a primeira banda que Alice tem que chega próximo ao que foi criado pela formação original, conhecida como Alice Cooper Group, e que fez álbuns como "Love It To Death" e "Billion Dollar Babies" soarem tão espetaculares, inesquecíveis e clássicos atemporais.

Do ìnicio com "I´m Alice" e "Welcome to the show", o som basicamente rock n' roll de garagem abre a "estrada" e nos apresenta o nosso herói, onde na letra da primeira faixa, o "criador" Vincent Damon Furnier (pra quem não sabe, o nome verdadeiro de Alice) deixa claro ao Alice, que ele é o criador e está no comando e que Alice está livre, mas é um personagem, deixando claro alguns conflitos pessoais que Vincent passou nos tempos de bebedeiras e loucuras onde ele acusava "Alice" de ter tomado o controle.

Ainda no clima rock n' roll garageiro, "All Over The World" fala sobre vários locais onde Alice tocou "mundo afora" e sim, nosso Brasil varoníl é citado na letra. "Dead Don´t Dance", um hard rock pesadíssimo tem a participação do guitarrista parceiro de longa data, Kane Roberts, ex-integrante da banda de Alice nos anos oitenta, e que andou substituindo Nita Strauss na última tour, enquanto esta pegava uns trocados tocando na banda de Demi Lovato.

Falando em Nita Strauss, ela é o destaque da banda, com um trabalho soberbo. A facilidade dela de ir de uma simples escala rocker a uma fritada Shereder (no bom sentido) é impressionante e aprimora ainda mais este trabalho. "Go Away", rocker até o âmago, conta a história de uma garota que simplesmente "não quer ir embora" da volta do nosso ícone, em uma alusão, creio eu, às groupies que corriam atrás dos astros do rock. "White Line Frankstein", pesada e forte, uma das melhores, puta refrão, e uma letra de terror "old school", nos melhores moldes do nosso contador de histórias assustadoras. Ah, ia esquecendo, como detalhe, Tom Morello faz participação nesta música. "Big Boots" outro rockão, com uma letra sacana que poderá incomodar os mais puritanos ou que se ofendem fácil. Alice dá um "eu com isso" para estes "chateados".

"Rules Of The Road", como nome diz, são as regras passadas pelo Mestre, se você quiser viver "da estrada e do Rock". Participação nessa do lendário Wayne Kramer, o mais que doidão guitarrista do MC5 e "colega" de Detroit de Alice. "The Big Goodbye" é quase metal, riff pesadíssimo, com aquele toque mais anos 80, porém com um toque totalmente atual, sensacional e já uma das preferidas deste que vos escreve. "Road Rats Forever" é uma releitura da música do álbum "Lace And Whiskey" de 1977, e na minha modesta opinião sempre achei um dos melhores "lado B" da carreira de Cooper. Aqui a releitura se encaixa totalmente no contexto de "Road".

E vocês já devem estar se perguntando se não vamos ter uma bela balada nesta nova obra...Pois eis que temos ela: "Baby Please Don´t Go". A letra parece ser Alice dizendo para a esposa Sheryll que gostaria de ficar (enquanto ela pede para que ele fique em casa), mas ele tem que ir (para a estrada) pois isso é o que ele sabe fazer. "100 More Miles", dramática e emocional, fala sobre o cansaço e os excessos das tours, mas ele novamente afirma "É isso que sei fazer, e isso que tenho que fazer"... Fechando o álbum "Magic Bus" cover vitaminado do clássico do The Who, com direito a um ótimo solo do baterista Glen Slobel, encerra com chave de ouro este que é, isentando meu fanatismo e o frescor das minhas primeiras audições, o melhor álbum de Alice Cooper no século 21.

Alice Cooper consegue se reinventar a cada lançamento, traz novas experiências aos seus fãs de longa data e novos ouvintes. Ao contrário de vários artistas da sua geração que seguem fazendo tours sem nenhum lançamento para justificá-las, Alice segue lançando álbuns de ótima qualidade, se negando a uma aposentadoria. E que ele siga por muito mais tempo ainda, e que siga o que prega na letra de "Road Rats Forever!". Alice Cooper pra sempre!

José Henrique Godoy






BLAZE BAYLEY - DAMAGED STRANGE DIFFERENT AND LIVE (2023)

 


BLAZE BAYLEY
DAMAGED STRANGE DIFFERENT AND LIVE
Blaze Bayley Recordings - Importado

Uma nova etapa para o velho coração! Uma vez forjado no aço, o metal sempre estará presente nas entranhas criativas que exalam do artista. Assim é Blaze Bayley. Estranhamente estigmatizado com a marca da velha besta. Ter sido parte do Iron Maiden por alguns anos, talvez tenha sido o fato mais marcante na existência do Blaze. Mas também, para alguns, foi a pior coisa que já lhe aconteceu. O fato é, o homem esteve a frente do Iron por alguns anos e isso marcou eternamente sua existência. A prova está presente quando esse fato, todos lembram, mas somente alguns falam da Wolfsbane (atual), e raramente se comenta John Steel ou Trinity (também ex-bandas). É bem realidade que o Blaze deva se orgulhar muito deste acontecido, e com gosto. Naturalmente essa deva ser a razão que justifica a presença de quatro músicas, de sua era no Iron Maiden, em seu atual disco ao vivo.

No auge dos seus 60 anos de idade, o senhor Bayley Alexander Cooke, Blaze Bayley para o mundo, exibe poder e energia viajando pelos continentes em turnê, divulgando seu trabalho mais recente, War Within Me de 2021. E revisitando alguns clássicos da dama de ferro que lhe couberam a honra. Completamente seguro do seu produto, o artista nos presentou com um disco ao vivo resultante dessa turnê. Jamais negligencie a força de um velho escudeiro do heavy metal ainda na ativa!

Para essa incursão ilíadica, Blaze esteve muito bem acompanhado de músicos renomados, a exemplo dos irmãos Appleton: Cris e Luke nas guitarras. Karl Shaby empunhou o baixo e Martin McNee segurou o tranco nas baquetas. Infalivelmente temos uma abertura poderosa e rápida com a música que nomeia o War Within Me. Peso e precisão cravejam a moldura do cartão de visita do álbum ao vivo. Aliás, vale a menção de que War Within Me, lançado ao mundo em 2021, pegou o público atônito em uma fuga de si, após a queda da cortina do encarceramento covidiano. Então tem-se a impressão de que, talvez um dos melhores trabalhos da carreira do Blaze Bayley, tenha sido descuidado com desgostosa precisão. E os elementos que conduzem a opinião sobre o disco de 2021, estão presentes nessa música de abertura do ao vivo. Riffs precisos e característicos ao estilo, refrão forte, base contagiante e solo magistral. "War Within Me", abre o Damaged, Strange, Different and Live (2023) com ganas de quem anda com a faca entre os dentes e dorme abraçado à uma ogiva nuclear armada! "Pull Youself Up" é exatamente um vocativo metálico para a comemoração. E quem escutar o play, vai saber que a galera presente nos shows durante a gravação do disco, entendeu o chamado. Outra mega sonzera presente do War Within Me (2021), com estrutura pesada, compassada e cheia de energia. Fez uma bela guarnição e mereceu a posição de ser a segunda música do ao vivo. O disco discorre com mais três sons do play mais recente do Blaze: “Warrior”, “The Power of Nikola Tesla” e “18 Flights”.

Feita essa figuração do disco mais recente, a bolachinha ao vivo faz o resgate histórico e parte para velhas conhecidas, que musicaram os dois discos que o Blaze vocalizou para o Iron Maiden, X-FACTOR e VIRTUAL XI. “Lord of The Flies”, filosófica, carismática e cheia de saudades, mas também rica em melodias. “Judgement of Heaven”, que conforme a intro do próprio Blaze, que diz que adora tocar esse som. Se ele gosta, quem somos nós para desdizê-lo? E na sequência vem a progressiva “Fortunes of war” com seus mais de seis minutos e suas guitarras Iron Maideanas. Pra encerrar, a única escolha do Virtual XI, “Como Estais Amigo”. O encerramento do disco pode trazer duas leituras muito distintas. O disco que inicia forte, pegado e mostrando muita energia tira o pé nas últimas músicas. Ou é um “gran finale” apoteótico cheio de melodias harmoniosas ou é um balde de água fria. Infelizmente, eu me senti abraçado pela segunda opção. Mas claro, isso não diminui em nada a grandiosidade da obra, apesar de pensar que o Virtual XI merecia ter sido melhor representado. Tenho impressão de que a “Como Estais Amigo” está longe de ser a melhor faixa desse disco.

Danificado? Não pareceu, nem um pouco. Estranho? Muito menos. Diferente? Nunca é igual. E vivo? Sim, completamente vivo. E desejamos que continue assim por muitos anos. Enfim, entre presente, passado e futuro, Blaze Bayley nos entrega de bandeja mais de quarenta e três minutos de uma verdadeira festa ao heavy metal, esse é o ponto central. No saldo geral, Rebel Rock aprova com louvor o Damaged, Strange, Different and Live 2023 e indica que seja consumido sem moderação!

Uillian Vargas



sexta-feira, 25 de agosto de 2023

REBEL ROCK RESEARCH - ANGRA


 Por Gregory Weiss Costa



Quando eu falo do Angra, já não mais menciono o nome de uma banda: elevo um símbolo que se enleva em uma instituição, em um designativo que se enlaça – com justiça! – à história do próprio heavy metal brasileiro, seja você, leitor, fã ou não. Começo por aí mesmo: Angra é mais que uma das maiores bandas da história brasileira, é um ícone representativo de como o Brasil sabe criar música pesada com singularidade e criatividade únicas. Sim, o Angra é um orgulho – distinto! – de nossas plagas tupiniquins!

Passado os merecidos brados, eis o momento em que chego ao complexo objetivo do texto em questão: analisar e ranquear a discografia do grupo; um parecer ousado mediante ao percurso da banda brasileira, mas que possa servir - por que não? - como um convite para melhor se refletir a história e a produção da lendária trupe brazuca. Sendo assim, pelo entremeio de inúmeras formações, identificações estéticas e transformações que o Angra passou pelo tempo, hoje, resumido em sua distinta discografia e, certamente, em ouvidos mais atentos, podemos viajar melhor na dimensão de sua obra. Então, sem mais delongas, vamos lá! A ideia aqui é colocar em posições de preferências – do pior ao melhor – as obras do Angra, com adendos, comentários e julgamentos deste que vos escreve.

AQUA (2010)


O trabalho marca o retorno do “já da casa” Ricardo Confessori na bateria e apresenta um evidente Angra em transição. Em termos gerais, Aqua descreve uma excelente banda de metal melódico em desencontro. No ideário do que se espera, tudo está lá: solos aguçados, riffs ferozes, melodias épicas e vocais odisseicos – os últimos de Edu Falaschi na banda. Ainda assim, o trabalho é o verdadeiro mais do mesmo – cíclico e jogando apenas para cumprir tabela. Falta a inspiração, a originalidade e a identidade a qual colocou o grupo como um dos maiores nomes da cena mundial. Ressoa-se aqui um overplay típico de banda do estilo que quer mostrar serviço - nem de perto o que deveria se esperar de um gigante como o Angra. Ainda que o fundo temático seja inspirado na clássica obra de Shakespeare, A Tempestade, o álbum pode-se rotular como pouco memorável ante a antologia do grupo. Músicas como "Arising Thunder", "The Rage of The Waters" e "Weakness of a Man" fazem valer o play, mas estão ainda muito longe do que a instituição Angra já fez ou faz.

AURORA CONSURGENS (2006)


Após a saída de membros basilares como Luis Mariutti, Ricardo Confessori e o maestro Andre Matos, o Angra reformulou-se em uma agrupação considerada por muitos como a melhor de sua história. Ao lado de Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, o vocalista Edu Falaschi, o baixista Felipe Andreoli e baterista Aquiles Priester vieram de uma sequência visceral de dois trabalhos extraordinários – Rebirth e Temple of Shadows – os quais colocaram a banda em um patamar de excelência e atenção do mundo ante sua imponência renovada. No entanto, Aurora Consurgeons não teve o mesmo gás e potência para segurar uma esperada trinca na discografia. Não, o álbum está longe de ser ruim, mas busca uma linha mais progressiva que talvez não tenha se condensado no passo e ritmo que o grupo vinha imprimindo. Segue sendo um trabalho impressionante o qual conjurou músicos cujos nomes estão entre os maiores do do estilo – porém, a técnica exacerbada já não emocionava ou cativava quanto antes. Esse registro também é um adeus ao baterista Aquiles Priester, que apesar de ser um fenômeno com as baquetas em mãos, parecia já não estar mais contrastando com o grupo como outrora. Um bom disco, mesmo que siga parecendo a pedrinha sorrateira no sapato biográfico da banda.

SECRET GARDEN (2014)


Em mãos, mais um disco que imprime na carne as transições de mudanças identitárias e formativas que a banda vinha sofrendo. Secret Garden anuncia e surpreende os fãs com o majestoso Fabio Lione (Rhapsody on Fire, Vision Divine) nas vozes do grupo, mas ainda assim não é tão nítido o destaque desse reforço na escalação. Conta também com a estreia do virtuoso baterista Bruno Valverde e ainda com participações especiais e estrelares como Simone Simons do Epica em "Secret Garden" e Doro Pesh em "Crushing Room". Mesmo com o conjunto disposto, Secret Garden é um álbum estranho, sem um norte preciso. Contudo, deve-se ressaltar: em termos técnicos e melódicos, considero-o mais coeso que os citados anteriormente: metal melódico e progressivo de excelentíssima qualidade com Kiko Loureiro brilhando nas guitarras – parecendo que seria sua despedida, a qual definitivamente ocorreu de fato com a entrada do virtuose brasileiro no Megadeth. Como conjunto da obra, resulta em um bom álbum de um Angra remodelado e reconstruindo sua nova identidade. 

OMNI (2018)


Se antes a banda soava em busca de uma nova identidade, definitivamente isso foi superado em Omni. O guitarrista Marcelo Barbosa segura a bronca de ocupar o espaço de Kiko Loureiro com confiança e excelência e é nítido o crescimento do baixista Felipe Andreoli como um parceiro de composição do último remanescente original do grupo, Rafael Bittencourt. Fabio Lione também se protagoniza mais que no álbum anterior. As faixas em Omni soam mais coesas e íntegras, como já podem ser ouvidas nas primeiras "Light of Transcendence" e "Travelers of Time". Na época, porém, o destaque do álbum recaiu para "Black Widow’s Web", terceira faixa, provocando burburinho nas redes e entre fãs pela a participação da cantora Sandy. Ainda que a vocalista do Arch Enemy, Alissa White-Gluz também estivesse presente na canção, ninguém mais falava nada além da participação da filha do Xororó cantando ao lado de um dos maiores nomes do metal mundial. E querem saber? A faixa trouxe a luminosidade necessária que o grupo precisava para essa etapa de reconstrução e reafirmação. Além disso tudo, Omni é um álbum que apesar da dose progressiva mais alta que o normal no receituário biográfico do grupo, constitui-se como uma excelente obra de heavy metal impressa por um Angra em nova fase. 

FIREWORKS (1998)


Último registro com a formação clássica, Fireworks apresenta um Angra mais solto e liberto que os registros anteriores – Angels Cry e Holy Land. Em linhas gerais, o álbum abusa de experimentações sonoras e rítmicas, evidenciando especialmente o potencial do incomparável Andre Matos nos vocais e da já reconhecida e celebrada dupla de guitarras, Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt. O disco é uma viagem por músicas que não parecem – a princípio – conexas uma com as outras. Você viaja pelo power metal de "Wings of Reality", pelo speed de "Speed" e "Metal Icarus", pelo prog de "Lisbon" e "Paradise" e pela fantasia regional – impressão digital do Angra dessa era – em "Fireworks" e "Gentle Change".  Se parássemos para pensar que após esse álbum nada mais seria como antes, talvez tivéssemos relegado a Fireworks um destaque mais merecido na história da banda e do metal. Um trabalho que envelheceu bem, mas que carecia na época de mais reconhecimento. 

REBIRTH (2001)


Rebirth é na minha opinião uma das mais bem-sucedidas reestruturações de bandas da história do metal. Com a troca de formações – mencionadas anteriormente neste texto - o Angra recicla seu espírito e energia na composição de um dos álbuns mais importantes da nova leva do power metal dos anos 2000. É perceptível o frescor dos novos integrantes na entrega do trabalho, especialmente de Edu Falaschi, que ao substituir o icônico Andre Matos, imprimiu seu estilo e relevância no renascimento que estava acontecendo. Músicas como "Nova Era", "Milennium Sun", "Acid Rain", "Heroes of Sand" e a faixa título, Rebirth são trilhas extraordinárias para ressignificar com grandeza esse novo Angra que arrebatou multidões mundo a fora, colocando o grupo em um epítome majestoso poucas vezes visto na história do metal nacional. Um disco que remarca mais que um magistral trabalho sonoro: é um documento vivo da grandeza do Angra na história.

ANGELS CRY (1993)


Um despertar glorioso de uma promissora banda de power metal. A bússola que colocou o Angra na rota dos gigantes. O contexto sonoro ressoava o que o estilo imprimia entre os maiores nomes do gênero na Europa, mas por trás daquelas guitarras aceleradas, bateria veloz, sinfonias orquestradas e vocais agudos, batia um coração brasileiro. O Angra lançava para o mundo uma obra intocável de metal melódico, um registro fenomenal em termos de composição, energia e identidade. Sim, pois se "Carry On" pudesse, a despeito da excelência, soar mais do mesmo – o que nunca foi o caso! – "Never Understand" com sua intro de viola de baião já fincava o pé ao dizer o porquê que o Angra estava pisando naquele terreno. Confesso a vocês, leitores, que esse é o álbum que mais toca meu coração pela minha vivência com ele – de fato, é meu favorito -, mas sabemos que aqui a história estava apenas começando e eles ainda iriam mostrar muito mais do que apenas Angels Cry poderia reservar.

TEMPLE OF SHADOWS (2004)


Aqui temos o auge instrumental, lírico e performático da segunda formação da banda. Se em Rebirth a nova formação já havia mostrado para o que veio, em Temple of Shadows, o grupo necessariamente consagrou-se. Os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt apresentaram seus talentos em exímia máxima e, certamente, foram acompanhados com as precisões possivelmente mais técnicas e virtuosas das carreiras do baterista Aquiles Priester e do vocalista Edu Falaschi. Em uma narrativa conceitual, encenando a história de um cavaleiro durante as cruzadas, o álbum transporta o ouvinte à Terra Santa em uma guerra de conflitos, demônios e sombras. Nomes como "Spread Your Fire", "Angels and Demons", "Waiting Silence" e "Winds of Destination" são apenas algumas amostras do potencial de petardos que esse disco reserva ao ouvinte. Destaque também para "Late Redemption", uma das trilhas mais emotivas e emblemáticas do álbum que conta com a presença do grande cantor brasileiro Milton Nascimento. Em resumo: escutar Temple of Shadows é a certeza perpétua de estar diante de um raro trabalho que apenas os grandes são capazes de conceber. Excelência no teor mais profundo da palavra. 

HOLY LAND (1996)


A nota de singularidade no universo do heavy metal foi aqui composta pelo Angra como jamais nenhuma outra banda um dia conseguirá fazer. A resposta para tal feito? Brasilidade! Se o Sepultura atingiu esse feito no thrash metal em Roots, o Angra certamente encontrou, brilhantemente, seu caminho em Holy Land. Ritmos como samba, maracatu, baião e outros entendidos como regionais foram extraordinariamente bem explorados ao lado do heavy metal em uma dialogia poucas vezes vistas na história da música pesada. Destaque merecido ao baterista Ricardo Confessori, apresentando um dos maiores registros de sua carreira. Além disso, Andre Matos brilha em suas interpretações conceituais do relevo do disco, ora como povo colonizador, ora como povo colonizado. Uma aula de intepretação jamais vista na história da música pesada. Em essência, temos aqui o Angra entregando ao mundo uma forma unívoca e singular de se fazer heavy metal. Sem dúvidas, Holy Land apresenta uma banda de metal em uma performance identitária que nenhuma outra antes fez. Em termos técnicos, sonoros ou conceituais, o disco é uma obra-prima, uma referência legada desses brasileiros para a eternidade da música. 









terça-feira, 15 de agosto de 2023

THE VINTAGE CARAVAN - 12/08/2023 - GRAVADOR PUB - PORTO ALEGRE/RS

 

THE VINTAGE CARAVAN
Abertura: WOLFTRUCKER
12/08/2023
Gravador Pub - Porto Alegre RS

Texto: José Henrique Godoy
Fotos: Wolftrucker (José Henrique Godoy)
           The Vintage Caravan (Uillian Vargas)

Já não é de hoje que o movimento “Retrô-Rock” invadiu o cenário musical mundial, em vários estilos e o cenário da música pesada não ficou de fora dessa invasão. Dentro deste nicho, uma das melhores bandas sem dúvida nenhuma é o The Vintage Caravan, trio da Islândia formado por Óskar Logi Ágústsson (guitarra e vocal), Alexander Örn Númason (baixo) e Stefán Ari Stefánsson (bateria). E nesta segunda visita dos islandeses à capital gaúcha, o local escolhido foi o já tradicional Gravador Pub.

Abrindo a noite, o quarteto gaúcho Wolftrucker tomou o palco as 19h10, com seu som pesado e direto, mostrando um misto de Hard e Stoner Rock, com muito peso e qualidade. A banda, que está para completar 10 anos de estrada, demonstra total domínio do palco, e músicas como “Rock 'Till You Die”, “Faith In Hell”, “Let Them Burn” e a novíssima “Thunderbolt”, cantadas pelos presentes fãs da banda.  Agradaram totalmente os presentes que estavam tendo contado pela primeira vez com a Wolftrucker. Sem dúvida uma excelente banda do underground que merece muita atenção e um futuro próspero.



Pontualmente as 20h30, o power trio islandês subia ao palco para desfilar, por aproximadamente 90 minutos, seu hard rock baseado nos anos 70. Seja na sonoridade como no visual, o The Vintage Caravan evoca a época que os dinossauros (do rock) caminhavam pela Terra. Logo nos primeiros instantes do show, fica visível o sensacional entrosamento e a técnica intrincada dos 3 músicos.

“Whispers “ e “ Crystallized” iniciaram o espetacular setlist, e desde o inicio, o guitarrista Óskar nos faz reviver os melhores momentos de monstros do instrumento, como David Gilmour em momentos mais calmos, ou Paul Kossof e Uli Jon Roth (este uma influência que salta aos olhos do espectador) nos momentos mais rápidos e virtuosos. O baixista Alexander é um monstro no seu instrumento, se dando ao luxo de solos inspirados, sem perder a consistência. O baterista Stefán é praticamente um clone do mestre Bill Ward, seja na forma de tocar, seja no visual. Se quiser tirar a dúvida, dê uma checada nas fotos da matéria, inclusive a camisa com estrelas, que Ward usava no início dos anos 70.




Além da técnica e energia, o The Vintage Caravan demonstra incrível entusiasmo no palco e simpatia com o público, seja ao convidar a plateia para dançar, seja ao brincar com “All Star” do Smash Mouth (a música do Shrek) ou quando Óskar perguntou se gostávamos de Cannibal Corpse. Ao ouvir boa parte do excelente público presente (casa lotada) responder afirmativamente, eles executaram a introdução da clássica “Hammer Smashed Face” com total intimidade com a música.

Retornando ao setlist próprio do grupo, podemos destacar as poderosas “Innerverse”, “Forgotten”, “Reset”, “Babylon” e “Crazy Horses” que não estava programada, e foi executada a pedidos e especialmente para Porto Alegre, como anunciado por Óskar. A já clássica “On The Run” teve no seu transcorrer o solo de “The Final Countdown” do Europe, bem como um solo de bateria preciso de Stefán. “Expand Your Mind” e “Midnight Meditation” finalizaram o excelente show do The Vintage Caravan. Após o show os 3 músicos desceram do palco para socializar com os presentes, esbanjando simpatia e atendendo a todos que quiseram fotos e autógrafos.




O saldo final foi uma excelente noite de rock. E quem ainda insiste em dizer que o Rock N' Roll está morto, não deve ainda ter presenciado um show do The Vintage Caravan. Agradecimento especial a Ablaze Produções pelo credenciamento e ao Gravador Pub pela recepção de sempre.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

U.D.O. - TOUCHDOWN (2023)

 

U.D.O.
TOUCHDOWN
Atomic Fire Records - Importado

Após a chegada do lendário baixista Peter Baltes na banda U.D.O, criou-se uma grande expectativa acerca de um novo trabalho do grupo. Em 2023 é lançado o “Touchdown”, 18º álbum de estúdio da carreira solo do vocalista Udo Dirkschneider. O disco possui mesma formação da turnê do ano passado que os trouxe aqui para o Brasil. Sven Dirkschneider na bateria, Andrey Smirnov e Dee Dammers nas guitarras, Peter Baltes no baixo e Udo no vocal.

Touchdown” é um álbum de heavy metal tradicional com influência de hard rock em algumas faixas. O álbum possui 13 músicas. A primeira consideração que eu tenho a fazer é que ele está bem produzido e muito bem tocado. Um dos pontos altos é a excelente performance do Sven na bateria, que pode ser notada em faixas como a abertura “Isolation Man” e na “Touchdown”. É o seu terceiro trabalho no U.D.O, após os excelentes Steelfactory e Game Over. A sonoridade do álbum não foge nada daquilo que estamos acostumados com a carreira solo do Udo. Músicas rápidas, refrãos marcantes e ricos em coros, vocal bem rasgado, agudo e único e algumas músicas bem melódicas. E, claro, muita influência de sua antiga banda Accept. Este trabalho possui refrãos muito parecidos entre si, com coros cantando-os de maneira bem melódica e, muitas vezes, alegres. Pode parecer um pouco repetitivo, mas cada um tem sua qualidade.

“Isolation Man” abre o disco com bastante peso. Logo no início já ouvimos os bumbos da excelente bateria do Sven seguido por um riff bem tradicional. O refrão me lembra um pouco o Accept atual. Em seguida temos “The Flood”, uma faixa levemente mais arrastada que a anterior, mas com muito peso. Não se destaca no disco. “The Double Dealer’s Club” se destaca pelo seu belo refrão. A quarta faixa, “Fight For the Right” é totalmente inspirada no Accept. Um riff bem simples, porém muito bom. Seu refrão é forte, cheio de backing vocals que repetem o título da música. Assim como em vários clássicos do Accept, o solo desta música apresenta uma peça erudita. A obra da vez foi do gênio (o qual sou muito fã) Wolfgang Amadeus Mozart, com a clássica “Rondo Alla Turca”. Acredito que muitos possam não apreciar a inserção dessa melodia ao solo, porém eu achei maravilhosa e, à primeira audição, surpreendente. Excelente faixa.

“Forever Free” foi o primeiro single lançado. Uma boa música que possui muitos elementos de hard rock, destacando seu refrão “emocionante”. “Punchline” é um dos destaques do álbum. Uma música mais arrastada com um riff inicial do mesmo nível. O Udo nesta faixa dá uma contida no vocal, usando-o um pouco mais grave. Seu refrão é belíssimo, seguido por um coro melódico que o completa. Há também um bom solo. “Sad Man’s Show” volta ao Udo mais energético. Outra música que vejo como herança de sua antiga banda. Destaco o refrão e o solo. “The Betrayer” é uma faixa muito pesada e “malvadona”. O início tem um riff rápido acompanhado pela bateria (me relembrando algo do Death Row). Aqui o Udo alterna sua voz de um pouco grave para aguda e rasgada. A primeira parte do refrão é maravilhosa sendo bastante corrida, com um excelente trabalho de guitarra ao fundo de sua voz. Bem diferente das outras faixas do álbum. Outro destaque do disco.

“Heroes Of Freedom” regressa ao refrão clichê, mas desta vez me lembrando algo do Rhapsody de Fabio Lione. Isso não é demérito, visto que ao meu gosto são todos excelentes. Outra música em que destaco o solo. “Better Start To Run” é outra faixa em evidência no disco. Aqui eu destaco tudo. Riff belíssimo voltado ao hard rock (que volta a ser tocado no meio da música), verso bem agradável de se ouvir. O refrão, mesmo seguindo a linha dos outros, é excelente. As frases cantadas logo após ele dão uma emoção maior à música. Os trabalhos de guitarra e bateria aqui estão impecáveis, além de, claro, o baixo. “The Battle Understood” já começa com o refrão sendo cantado e só depois vem o riff. Da mesma forma a música se encerra com o refrão. Boa faixa que segue a linha da faixa anterior. “Living Hell” possui um riff pesado, uma versão mais arrastada de “The Betrayer”. Talvez a sua ordem no disco não seja a melhor por ser um pouco menos alegre que as anteriores e a seguinte. Mas isso acaba sendo irrelevante. A faixa é ótima e tem um dos melhores solos do disco.

O segundo single lançado é a música de encerramento do álbum. A faixa título “Touchdown” é a melhor do disco. Para mim já nasceu como clássico do U.D.O. Uma música altamente alegre, com todos os elementos se destacando: a bateria, guitarras e refrão. Aqui podemos dizer que o início lembra um pouco thrash metal, o solo remete a power metal e o refrão bem hard rock. Tudo combinado de uma maneira incrível e harmônica. Tem tudo para entrar no repertório da banda para o público cantar “touchdown” junto ao Udo. Vale destacar os sons de cordas (violinos) durante o excelente solo. Como eu havia dito antes, para mim é a melhor faixa do disco.

“Touchdown” é um excelente álbum de heavy metal, superando seu antecessor “Game Over” e ficando no mesmo nível do “Steelfactory”. Boa estreia do Peter Baltes na banda. Minhas faixas de destaques são: "Punchline", "The Betrayer", "Better Start to Run" e 'Touchdown'.

Thiago Rodrigues




sexta-feira, 4 de agosto de 2023

COGUMELO 40 ANOS - CATÁLOGO (2023)

 


COGUMELO 40 ANOS
CATÁLOGO
João Eduardo e Pat Pereira

São 40 anos dedicados à música. 40 anos dedicados ao Heavy Metal em todos seus subgêneros. 40 anos mostrando ao mundo que o Brasil foi, é e sempre será um dos mais importantes países criadores do estilo que tanto amamos. Mas muito mais que isso, são 40 anos de uma vida dedicada à divulgação da cultura e da arte. Essa é a COGUMELO RECORDS, uma loja, uma gravadora e além de tudo, um marco na história do metal brasileiro. Fale a verdade: é difícil alguém que se diz headbanger nesse país não ter em sua coleção, no mínimo, umas cinco obras lançadas por ela. Sepultura, Overdose, Sarcófago, Mutilator, Chakal, Witchhammer, Holocausto, The Mist... A lista é grande. E para comemorar essa data tão marcante e significativa, chega ao mercado o CATÁLOGO COGUMELO 40 ANOS, um livro que resgata a história da mais importante gravadora do Brasil!

Foi em Minas Gerais, mais precisamente em Belo Horizonte, que tudo começou. João Eduardo e Pat Pereira (numa analogia minha, o John e Marsha Zazula Brasileiros), criaram a loja de discos que pouco tempo depois se transformou em gravadora. De lá pra cá, muita coisa mudou, seja em termos sociais, econômicos, musicais... mas a chama e a paixão pela música continuam firmes. E todas essas mudanças e transformações podem ser acompanhadas pelo livro que traz depoimentos do João e da Pat fazendo referência a cada momento vivido pelos dois à frente da Cogumelo.

Iniciando pelos anos 80 e todas as dificuldades existentes no Brasil, tanto para compra e venda de discos, mas principalmente, para gravar (lembre-se que estamos falando de um período em que comprar um instrumento de qualidade era algo raro, bem como conseguir material das bandas de fora), onde muitas vezes (ou quase todas), os produtores não conheciam a banda ou o tipo de som que cada uma delas fazia. Ainda assim, um período rico e fértil, que mostrou ao mundo que o nosso país, ainda que sem grande repercussão midiática, era capaz de produzir bandas de grande qualidade. Segundo o próprio João, os anos 80 foram anos de glória, pois o Heavy Metal estava em alta, fazendo com que as bandas e a própria Cogumelo se estabelecessem no cenário com força e destaque.

Nos anos 90, houve uma queda considerável na venda de discos e também uma, digamos assim, abertura da gravadora com relação a outros estilos, lançando e produzindo bandas como Pato Fu, Chemako, De Falla, entre outras, mas sem perder sua aura de independência e vanguarda. Ainda que o leque da gravadora tenha se expandido, foi um período em que bandas clássicas lançaram álbuns que entraram para a história. O que dizer de "Circus of Death" do Overdose? Ou então "Sexual Carnage" do Sextrash? "Disturbing the Noise" do Attomica? "Mirror My Mirror" do Witchhamer? "The Laws of Scourge" do Sarcófago? "The Hangman Tree" do The Mist? E tem gente que diz que os anos 90 foram a década perdida...

O início do novo milênio veio cercado de incertezas mercadológicas. Se por um lado o aceso às banda s e seus trabalhos ficaram mais fáceis, por outro, a chegada da internet trouxe preocupação, tendo em vista a rapidez e facilidade com que se conseguia material pelas net. No entanto, a Cogumelo seguiu firme, mostrando postura e mantendo-se como baluarte do pioneirismo e dedicação, continuando a lançar grupos novos e clássicos, continuando seu incessante trabalho. E tudo isso pode ser visto com detalhes neste catálogo, rico em imagens e que se torna um item ainda mais obrigatório por trazer um DVD com o show de lançamento do Split "Bestial Devastation/Século XX" do Sepultura e Overdose, ocorrido no Esporte Clube Ginático no dia 19 de abril de 1984, tendo a abertura do Mutilator. Ainda que as imagens sejam precárias, sem muitos recursos, é um show que mostra toda a paixão e garra das bandas naquele período e, muito mais do que isso, do público presente, levando em consideração todo o contexto do momento vivido á época.

Só posso deixar aqui, em meu nome e de toda a equipe do REBEL ROCK, meus parabéns à COGUMELO RECORDS, nas figuras do João e da Pat por nunca terem desistido, apesar de todas as dificuldades e perrengues por quais passaram, de levantar a bandeira do metal e da cultura, sem esmorecer. Longa vida à Cogumelo. E nunca esqueçam: ENQUANTO AQUELA ESTRELA BRILHAR NO AZUL DO CÉU, O HEAVY NUNCA VAI PARAR DE ROLAR!

Sergiomar Menezes






terça-feira, 1 de agosto de 2023

CAVALERA - MORBID VISIONS (RE-RECORDED 2023)

 

CAVALERA
MORBID VISIONS (RE-RECORDED 2023)
Nuclear Blast - Importado

Quem sempre acompanhou a carreira do Sepultura sabe que após seus clássicos, digamos mais conhecidos foram criados, os lançamentos iniciais da carreira da então jovem banda foram deixados meio que de lado. Álbuns como “Beneath the Remais” (1989), Arise (1991) e Chaos AD (1993) foram tão bons e tão bem recebidos por fãs e críticos, que o primeiro trabalho completo, “Morbid Visions” (1986) acabou meio que sendo deixado de lado pela própria banda ficando quase como um item perdido em sua imensa discografia.

Por que isso? Difícil responder; talvez pela crueza da gravação original, o que não deixa de ser verdade, talvez porque a banda ainda estivesse aprendendo a tocar e mesmo em “Schizophrenia” (1987) ficou evidente a evolução técnica dos integrantes em termos instrumentais, enfim creio que não deve haver um consenso sobre isso, mas fato é que na longeva carreira do Sepultura, “Morbid Visions” quase nunca teve a devida atenção por parte de todos.

O grande trunfo seja o mega clássico “Troops of Doom”, que ganhou uma repaginação de muito respeito no álbum seguinte, o já citado “Schizophrenia”, sendo o ponto de maior atenção e um vislumbre da época adolescente dos fundadores Max e Iggor Cavalera.

Outro ponto curioso é que as regravações foram lançadas apenas com o nome “Cavalera”, ou seja, sem o complemento ‘Conspiracy’, uma pergunta que certamente será feita à exaustão para ambos. As novas capas ficaram excelentes dando aqui também, uma modernizada na arte original.

Ao apertar o play de cara já senti a falta da intro original Carmina Burana de Carl Orff que fez parte da versão original do disco, porém nos relançamentos posteriores ela foi deixada de lado. O lado bom da história é iniciar diretamente na pancadaria, algo que os irmãos sabem muito bem fazer.

A abertura com a faixa título foi amplamente divulgada com um caprichado lyric vídeo, bem como nervosa e rápida “Mayhem” que ficou infinitamente melhor que a original. Aí chegou a vez de “Troops of Doom” um verdadeiro hino atemporal. Com um andamento um pouco mais lento que a versão do “Schizophrenia” ficou muito interessante de se ouvir. “War” pra mim é a melhor de todas com seu andamento caótico e cheio de variações de ritmo, um grandioso e insano petardo. Iggor dá show em todas as faixas mas aqui, o faz ainda mais. Aí vem “Crucifixion” e também acho que é a melhor até agora, ainda preciso me decidir.

Os riffs de abertura de “Show Me the Wrath” e “Funeral Rites” dão a perfeita dimensão do bem que essas regravações fizeram para a humanidade metálica. A diferença em termos de qualidade de áudio e potência é tão gritante que chega a ser risível. O restante das faixas nem é preciso comentar. “Empire of the Damned” soa como um moderno Thrash Metal mas a voz com ares de desespero de Max Cavalera a transformam num Death Metal cru e visceral em várias passagens.

Ah, e não dá pra não citar a faixa adicional “Burn the Dead” que com seus poucos mais de 2 minutos redefinem aquilo que costumamos chamar de ‘desgraceira” sendo a mais rápida e agressiva de todas. Que forma de fechar essa obra prima! De se lamentar apenas a ausência do grande guitarrista e ser humano Jairo Guedz, peça fundamental na concepção e criação das obras originais dos anos 80.

Que essas regravações deem aos irmãos um novo fôlego em suas carreiras e que sigam fazendo aquilo que fazem de melhor, aquilo que os transformaram em ícones do Heavy Metal brasileiro e mundial. A comunidade agradece!

Mauro Antunes



CAVALERA - BESTIAL DEVASTATION (RE-RECORDED 2023)

 

CAVALERA
BESTIAL DEVASTATION (RE-RECORDED 2023)
Nuclear Blast - Importado

Antes de mais nada, é preciso deixar registrado aqui: eu, Sergiomar Menezes, sou viúva dos Cavalera. O que não é novidade pra ninguém. Sendo mais preciso, acredito que desde a saída de Max do Sepultura, a banda andou perdida vindo a se encontrar novamente mais recentemente. Mas isso não importa. Porque Max e Iggor decidiram (e o motivo aqui pouco importa) regravar os dois primeiros trabalhos da banda, "Bestial Devastation", EP lançado pelo Sepultura originalmente em 1985 num split com o Overdose, e "Morbid Visions", primeiro full lenght do grupo, lançado em 1986, ambos pela Cogumelo. Dessa vez, os irmão deram o "sugestivo" nome de CAVALERA ao "grupo" e lançaram os trabalhos via Nuclear Blast, e que infelizmente, não tem previsão de lançamento no Brasil. Mas recebemos da própria gravadora o material para resenha e a mim coube analisar BESTIAL DEVASTATION. E é sobre isso que falaremos a seguir.

E falar sobre esse EP é fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil porque se trata de um dos pilares da história do metal extremo nacional (e porque não dizer, mundial) e que serviu de base para tudo que o Sepultura veio a se tornar tempos depois. Difícil porque estamos falando da regravação de um trabalho clássico, que para muitos fãs, são "imexíveis", não devem ser tocados, ficando apenas com o toque mágico do tempo. Mas, sinceramente, quem de nós não gostaria de ouvir esses dois álbuns com uma qualidade de gravação melhor? com uma produção mais trabalhada? Se você faz parte da turma que não gostaria, por favor, pode parar de ler a resenha aqui. Porque o que temos nas seis faixas que compõem o EP (sim, seis faixas pois temos uma música inédita) são as mesmas faixas gravadas em 1985, mas com uma ótima produção, melhor tocadas e me arrisco a dizer, com mais raiva do que antes. Vou lembrar novamente, aqui falarei apenas sobre o trabalho em si, deixando de lado os motivos ou qualquer outro assunto que possa envolver a "família Sepultura"

Se em 1985 "The Curse" já causava impacto, podemos dizer que nos dias de hoje, a famosa introdução se mantém intacta, forte e maligna, nos preparando para "Bestial Devastation". Impressiona a brutalidade que a faixa emana, passados quase 40 anos de seu lançamento. Me pergunto se a dupla quis provar ao mundo o poderio destas composições nos dias de hoje, vez que o Sepultura atual renega seu passado, limando dos seus sets faixas presentes nestes trabalhos. "Antichrist", na sequência, primeira faixa composta pelo grupo, recebeu uma dose extra de agressividade. Uma pena que no release não tenha nenhuma informação sobre quem gravou os demais instrumentos, pois as guitarras aqui despejam uma fúria incrível (se eu não soubesse que Jairo Guedz não participou, diria que ele está presente aqui). Então, a preferida deste que vos escreve, "Necromancer" chega para colocar tudo abaixo! Que música, meus amigos. Que MÚSICA! não tenho dúvidas que um show com esses dois álbuns será um dos acontecimentos mais esperados pelos fãs de metal ao redor do mundo. A destruição que Iggor imprime em seu kit é algo surreal. Impossível ficar indiferente a tamanha capacidade de violência e agressividade. "Warriors of Death" mais um momento de sujeira, peso e velocidade. Ainda que a produção tenha sido um milhão de vezes melhor, soube manter aquela aura dos anos 80, numa atmosfera totalmente crua e underground.

E pra fechar de forma ainda mais brutal, "Sexta Feira 13", faixa inédita, resgata aqueles dias de underground do grupo, onde as letras em português eram a regra, ainda que num lirismo até mesmo pobre. Essa música merecia ver a luz do dia, tamanha capacidade de mosh pit que ela contém. Isso aqui num show tem a potencialidade d e causar perda total no local. Duvida? Escute isso com o fone no volume dez, mas certifique-se que não há ninguém por perto. O risco de uma agressão física é inevitável...

Sem muito mais a dizer: BESTIAL DEVASTATION, regravado pelos CAVALERA, não substituiu o trabalho lançado pelo Sepultura em 1985. Até mesmo, porque Max e Iggor estavam lá. Mas que dá pra colocar ele do lado, sem nenhum tipo de constrangimento... pode ter certeza que dá!

Sergiomar Menezes