quinta-feira, 7 de maio de 2026

PANTERA - THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL - 30 ANOS

 


THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL - OS 30 ANOS DO ÁLBUM MAIS AGRESSIVO DO PANTERA

Por Sergiomar Menezes

O mundo da música estava saturado pelo pós-grunge e pelo surgimento do pop punk nas rádios em maio de 1996. Enquanto várias bandas de metal buscavam "suavizar" seu som para se manter nas paradas, o PANTERA optou por fazer exatamente o contrário. O resultado foi THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL, um álbum que, após três décadas, se mantém como a gravação mais sombria, niilista e agressiva da banda texana.

Diferentemente dos álbuns anteriores, "Vulgar Display of Power" e "Far Beyond Driven", as gravações de TGST foram caracterizadas pela fragmentação. Enquanto Dimebag Darrell, Vinnie Paul e Rex Brown gravavam no Texas, o vocalista Phil Anselmo gravava suas partes vocais no estúdio de Trent Reznor, em Nova Orleans. Essa distância física refletia o estado mental de Anselmo, que enfrentava dores crônicas nas costas e dependência de heroína. Porém, o isolamento destilou uma agressividade pura. O grito de abertura da faixa-título — um berro agudo de 10 segundos — funciona como o cartão de visitas ideal: este não era um álbum destinado ao grande público. Era, sim, uma declaração de guerra contra as tendências do momento.

Se nos álbuns anteriores Dimebag se concentrava em riffs de groove precisos, em TGST ele se transformou em um cientista do caos. Ele utilizou afinações ainda mais baixas e explorou intensamente o pedal "Whammy" e os harmônicos artificiais para produzir sons que lembravam gritos de animais ou máquinas quebrando.

Um capítulo separado deve ser dedicado ao solo de "Floods". Ele não é somente técnico; é também cinematográfico. Dimebag empregou uma técnica de "overdub" para sobrepor diversas camadas de guitarra, gerando um clima desolador que remete a uma inundação devastadora. É um solo que se distancia do clichê do shredding veloz e concentra-se na textura e na sensação de perda.

Já gravação das vozes em New Orleans (NOLA) não foi somente uma decisão de ordem logística. Naquele período, Anselmo estava intensamente envolvido na cena local de Sludge Metal, com bandas como Crowbar e Eyehategod (além dos já citados problemas com as dores nas costas e a s drogas). Isso introduziu uma sujeira sonora no disco que não estava presente no Pantera até aquele momento.

Ainda que a banda estivesse fisicamente separada, a cozinha composta por Vinnie Paul e Rex Brown nunca foi tão natural. Como gravaram as bases no Texas, eles mantiveram a pegada do "ao vivo". Em "13 Steps to Nowhere", o trabalho de bumbo duplo de Vinnie Paul é ao mesmo tempo quase imperceptível e complexo, estabelecendo uma base instável que complementa a letra paranoica de Anselmo. O baixo de Rex Brown passou a ter uma distorção mais pronunciada, ocupando o espaço deixado pelas guitarras cada vez mais experimentais de Dimebag.

As letras deixaram o estilo de "autoajuda agressiva" de Vulgar Display of Power" e adotaram o niilismo absoluto. Músicas como "War Nerve" atacam diretamente a mídia e a indústria musical, despejando um veneno que evidencia o quanto a banda estava cansada da fama.

O álbum apresenta uma variedade de andamentos, oscilando entre um groove intenso e momentos de passagens acústicas inquietantes. "Drag the Waters", o single principal, impulsionado por um riff de Dimebag que exemplifica o "peso", condena a manipulação e a hipocrisia. "Suicide Note Pt. I & II": possivelmente o maior contraste na discografia da banda. A Parte I é uma "balada" fúnebre acompanhada por violões de 12 cordas, enquanto a Parte II é uma explosão de grindcore industrial que pode ser insuportável para quem não está preparado.

O título "Trendkill" (Morte das Tendências) transmitia uma mensagem direta. O Metal estava sendo levado ao underground em 1996, tanto pelo Britpop na Europa quanto pelo grunge de Seattle nos Estados Unidos. Naquele momento, uma das maiores bandas de metal do mundo, o Pantera, utilizou sua plataforma para afirmar que não alterariam sua aparência ou estilo musical para se conformar com o que era considerado "cool" ou interessante pelo mercado e seus modismos.

Após 30 anos, THE GREAT SOUTHERN TRENDKILL permanece como o testamento definitivo do PANTERA: uma celebração de ódio, técnica e resistência que se recusava a morrer ou a se conformar.



terça-feira, 5 de maio de 2026

AEROSMITH - ROCKS 50 ANOS

 


ROCKS - OS 50 ANOS DO ÁLBUM QUE MOLDOU O HARD ROCK 

Por Sergiomar Menezes

Quando pensamos no ano de 1976, é comum lembrarmos do auge da discoteca, do nascimento do punk rock em Nova York e Londres, e da dominância do rock progressivo. No entanto, no meio desse turbilhão, este que vos escreve, veio ao mundo. Mas, alémm de tudo isso, o AEROSMITH entregou, em 3 de maio, o disco que serviria de guia para o que chamamos de Hard Rock.

ROCKS não é apenas o sucessor de "Toys in the Attic". "Rocks" é a declaração de independência da banda. Se o trabalho anterior trouxe os sucessos que os colocaram nas paradas, "Rocks" é onde a banda decidiu: "nós somos a banda mais perigosa dos Estados Unidos".

Para entender o impacto de "Rocks", precisamos entender a atmosfera da época. O Led Zeppelin estava lançando Presence, um disco que apresentava uma banda sob extrema pressão. O Aerosmith, por outro lado, estava no auge da sua forma física e criativa. Eles não queriam soar como os "novos Rolling Stones" ou seguir as tendências do progressivo. Eles queriam capturar e externar a agressividade dos clubes noturnos diretamente no estúdio.

Um fato fundamental sobre Rocks é a produção de Jack Douglas. Diferente de muitos álbuns da época, Douglas focou no que ele chamava de "som de ambiente". Eles gravaram em um depósito convertido em estúdio, o The Wherehouse em Waltham, Massachusetts. 


A filosofia era simples: deixar a banda soar como banda. O som de bateria de Joey Kramer é seco e direto, o baixo de Tom Hamilton é pesado e melódico, e a interação de guitarras entre Joe Perry e Brad Whitford atingiu um nível que raramente foi igualado desde então. Eles não estavam apenas tocando as músicas: eles estavam vivendo as canções enquanto as registravam.

Rocks é um álbum sem "gordura". Não há baladas forçadas ou experimentos desnecessários. Alguns destaques de um álbum que definiu toda uma geração: "Back in the Saddle", que abre o disco com o som de um chicote e um riff que é a própria definição de "heavy". Foi a declaração de que eles estavam no comando da cavalaria do Rock. Cabe lembrar que essa faixa foi regravada décadas depois por Sebastian Bach nun dueto bem bacana com Axl Rose em seu álbum solo "Angel Down" (2007); "Last Child" mostra uma face mais blues e funk da banda, provando que o hard rock não precisa ser apenas rápido. Já "Nobody’s Fault" é, talvez, o ponto de maior conexão com o heavy metal que viria nos anos 80. A agressividade da letra combinada com a afinação mais sombria influenciou diretamente bandas como Metallica e Soundgarden. "Rats in the Cellar", que segundo Tyler era uma espécie de resposta à "Toys in the Attic" evoluiu de "Rattlesnake Shake", do Fleetwood Mac, um marco dos primeiros setlists da banda. “Combination” apresenta Perry dividindo os vocais principais com Tyler pela primeira vez, e o guitarrista admitiu em 1997 que a música era “sobre heroína, cocaína e eu”. 

Se hoje você ouve bandas como Guns N' Roses, Mötley Crüe ou Skid Row, você está ouvindo os ecos de "Rocks". O álbum criou o modelo para o que seria o "som das ruas" do hard rock dos anos 80. Ele provou que era possível ser comercialmente viável sem sacrificar a pegada e a atitude punk que estava borbulhando na cena subterrânea da época.

Enquanto muitos álbuns de 1976 soam datados pela produção da época, "Rocks" soa atemporal. Ele capturou o momento exato em que a química dos "Bad Boys from Boston" atingiu a perfeição atômica.

Celebrar 50 anos de ROCKS é mais do que nostalgia: é um exercício de estudo sobre o que torna o rock autêntico. Cinquenta anos depois, o disco continua a ser uma aula de como construir riffs memoráveis, como manter uma cozinha coesa e, acima de tudo, como ser autêntico em um mercado que sempre tenta vender o artista como um produto polido.

E a propósito: você sabia que "Rocks" era um dos álbuns preferidos de Kurt Cobain? Que em "Diários da Heroína", Nikki Sixx cita o Aerosmith diversas vezes? Que James Hetfield disse que "Rocks", assim como o Aerosmith, são influências importantes em sua música, afirmando que a banda foi a razão pela qual ele quis aprender a tocar guitarra? Que "Rocks" foi o álbum que mudou sua vida e o fez quere aprender a tocar guitarra?

Não á toa, Joe Perry, em sua autobiografia escreveu que "Rocks veio para nos redefinir como a mais importante banda de garagem da América, com guitarras devastadoras, vocais devastadores, produção ao máximo que destrói seus tímpanos... A capa mostrava cinco diamantes, um para cada um de nós. Víamos aquele disco como uma joia, o auge de toda a nossa angústia, raiva, empolgação e alegria como roqueiros que se entregam de corpo e alma".

Se você quer entender a espinha dorsal do Hard Rock americano, o caminho é um só: coloque ROCKS para girar no volume máximo. Ele continua atual. Como sempre foi.



segunda-feira, 4 de maio de 2026

VENOM - INTO OBLIVION (2026)

 


VENOM
INTO OBLIVION
Noise Records - Importado

O Venom é uma entidade, não apenas uma banda qualquer. Falar isso é ser simplório e até piegas e ingênuo. Mas precisa ser dito sempre. Pois verdades, ás vezes, precisam ser relembradas. Esta análise de álbum é feita por um fã do Venom, e se você não curte a banda, ou é um “hater” de carteirinha da banda de Newcastle, aconselho a parar a leitura do texto por aqui. Aqui é um “sócio-torcedor” da banda de Cronos e seus derivados (sim, pois agora temos três “Venoms” ativos) que escreve, e não há "liberdade de expressão" para quem não os curte.

Lembro como se fosse “anteontem” quando tive contato com o Venom original. Sim, a trindade Infernal: Cronos, Mantas e Abaddom. A música foi “Angel Dust” do obrigatório álbum “Welcome To Hell” e tocou na Rádio Ipanema FM , no programa Central Rock do saudoso “Guru” Ricardo Barão. Lembro de apenas querer ter o LP e descobrir que só existia o importado, com preço proibitivo para um garoto de 14 anos que recebia mesada dos pais. O jeito foi gravar em fita cassete na também saudosa Loja Megaforce, e com minha mesada gravei “Welcome to Hell” e “Black Metal”. Ouvi as fitas até gastar. E de lá para cá, foi fanatismo puro. Então vou tentar ser apenas fã, para descrever o que temos neste novo “Into Oblivion”.

Pesado, visceral, brutal e insanamente Metal. Este é “Into Oblivion”, o décimo sexto álbum de estúdio do Venom. Para nós do “Venom Army”, o álbum é perfeito. O que Cronos (baixo, vocal e líder supremo do Inferno), Dante (bateria) e Rage (guitarras) entregam aqui, é pura fúria, mantendo a tradição que fez o Venom ser a besta furiosa que sempre foi, mesclando com os timbres e recursos da atualidade, sem se tornar “modernoso”. A impressão que temos, é que o trio entrou no estúdio e decidiu: “Vamos abrir os microfones, vamos tocar e o que criarmos vamos gravar”. E piamente eu acredito que Cronos e comandados assim fizeram.

“Into The Oblivion, a faixa inicial, é o Venom como veio ao mundo, Um soco na vida do desavisado!. “Lay Down Your Souls” é uma das frases mais icônicas em uma letra no mundo do Metal, e aparece na letra do hino “Black Metal” de 1982, e ela retorna e intitula a segunda faixa. Aqui “deus não é Deus ou Satanás. É o Rock n' Roll! Essencialmente suja, pesada e extremamente metal, já nasceu clássica. ”Nevermore” é um pesadelo típico, mas um pesadelo acessível, que podemos conviver e até torcer para que ele volte. Peso sobre peso. “Man and Beast” é uma faixa típica do que se costumava chamar de Power Metal. Não o que se convencionou chamar depois, espadinhas, vocais felizes e solos de guitarra virtuosos”. Era o Metal Poderoso, que Venom, Exciter, Nasty Savage e outros trouxeram para o mundo.

“Death To Leveller” é a prova de que o Venom é representante legítimo da NWOBHM enquanto “As Above, So Below” desacelera o ritmo para invocar o Anjo Caído. “Kicked Outta Hell” e “Legend” demonstram que num mundo tão perturbado como o que vivemos, o Venom ainda consegue ser tão perturbador quanto.”Live Loud” cadenciada e convidativa ao headbanging é outro hino, que explicita a necessidade de viver em alto e bom som. “Metal Bloody Metal”.... com um título desses, não precisa de explanações: escute o trabalho está feito. “Dogs Of War” é uma faixa dedicada aos detratores que sempre vociferaram contra o Venom, os chamando de maus músicos e inimigos da melodia. Melodia?Temos aqui sim, mas sem deixar a agressividade para trás. Que faixa senhoras e senhores.

“Deathwish” é aquela faixa para relembrar de onde o Venom e todo o Metal veio: um fantástico riff Iomminiano executado por Rage relembra até o menos catedrático headbanger, que o pai de todos se chama Black Sabbath. “Unholy Mother” fecha este trabalho sensacional, com um clima gótico e vampiresco, com mais um riff de arrepiar por parte de Rage. O Venom está mais vivo que nunca e Cronos e os “caras novos” (que já estão a mais de década na banda) souberam fazer um álbum que não apenas reafirma o Venom como uma banda relevante e influente após quatro décadas, como também como uma banda que tem muito o que entregar ainda! Para este que vos digita, é o álbum do ano! Caso você discorde, eu avisei lá no início do texto que ele não era para você! Entregue sua alma para os Deuses do Rock n Roll!!! Eu fiz isso com 13 anos de idade e sou feliz para caraca!!!! E faz tempo, viu!!! VENOM FOR LIFE!!!




BATTLE BEAST - STEELBOUND (2025)

 


BATTLE BEAST
STEELBOUND
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

O Battle Beast é mais uma cria do Metal Sueco. Vai ser terra abençoada essa tal de Escandinávia! Desde a sua formação em 2008, é uma banda que conseguiu unir Power/Heavy Metal, Hard Rock e Pop Music numa mesma embalagem, e que agrada em cheio. Presença constante nos festivais de Metal e Rock europeus, o Battle Beast fixou seu nome entre uma das bandas mais solicitadas da Europa.

No seu mais recente trabalho, batizado de Steelbound, a banda finlandesa retorna com força total com músicas simples, diretas e concisas de aproximadamente três minutos cada, nas quais não arriscam, mas sim recorrem à fórmula que lhes trouxe sucesso: guitarras e teclados que misturam agressividade, inspiração oitentista e diversão, ocasionalmente combinados com sonoridades épicas.

Tudo isso forma a base do elemento mais marcante da banda: a voz poderosa e impactante de Noora Louhimo , que personifica virtuosismo e versatilidade, transitando sem esforço de notas incrivelmente altas e roucas para tons mais graves, adotando também uma voz melódica, doce e emotiva quando a situação pede.

E a fórmula vitoriosa do Battle Beast segue em “Steelbound”. “The Burnin WIthin“ é praticamente Power Metal, porém vibrante e poderosa, enquanto “Here We Are” é mais festiva, com teclados em destaque e bateria reta no estilo anos oitenta. Imagine o a-ha com distorção e timbres mais metalizados? É isso! Porém sem deixar o lado Hard/heavy de lado. Soa empolgante do inicio ao fim. Eu peguei apenas as duas primeiras faixas como destaques do álbum, para definir como “Steelbound” segue.

É um álbum menor em relação aos anteriores, porém é acima da média do que se ouve no geral. O Battle Beast é uma banda diferenciada e se “Speelbound“ não segue no mesmo nível dos trabalhos anteriores, mantém a banda num patamar de “se você anda não conhece, deve conhecer”. Lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




JOHN CORABI - NEW DAY (2026)


JOHN CORABI
NEW DAY 
Frontiers Music srl. - Importado

Um belo dia você abre o seu site preferido de noticias de Rock/Metal e pensa: “Nossa, o gigante John Corabi lançou um novo cd!!! E já vendeu um milhão de cópias!!!”. Esqueça, isso nem o próprio Corabi deve ter sonhado um dia, mas uma coisa eu posso garantir com a certeza de que o Pavón, jogador do meu Grêmio é um dos piores jogadores da história do esporte: John Corabi é um dos artistas do Rock e Metal mais injustiçados de todos os tempos.

Conheci o tal Corabi como vocalista da banda The Scream, um suposto “supergrupo” formado das cinzas do Racer X, do baixista monstro John Alderete e do incrível guitarrista Bruce Boillet. O álbum do The Scream , “Let It Scream” foi lançado em 1991, e muito por conta de um tal John Corabi, um misto de Steven Tyler/Ronnie James Dio se tornou um álbum cultuado e preferido do undergorund do Hard Rock noventista (estranho mas até 1993, temos excelentes álbuns sem a influência nefasta do Grunge Rock). E desde então me tornei fã do cara.

Não é necessário falar que ao substituir Vince Neil no Mötley Crüe, após o lançamento do álbum homônimo, ele dividiu opiniões: um álbum pesadíssimo de muita qualidade, porém diferente do Hard Rock tradicional do Crüe, não agradou no geral e a “culpa” recaiu em cima de John.

Particularmente eu acho o “Mötley Crüe 1994” um álbum espetacular, mas entendo que na época decepcionou os fãs, mas enfim, eram os anos 1990. Após sair do Crue, Corabi tocou guitarra em uma das encarnações do Ratt, montou o Union com Bruce Kulick e se tornou vocalista do Dead Daisies. Além de gravar um CD acústico e um álbum ao vivo tocando o “Crue 94” na íntegra. Mas faltava um disco solo de verdade, e a espera termina agora com “New Day”.

“New Day” é um trabalho inspirado e criado sob a influencia do Classic Rock dos anos 1960 e 1970, e COoabi não tenta esconder isso em nenhum segundo do álbum. A primeira música que os fãs ouviram do álbum foi "Così Bella". Lançada como single ainda em 2021, foi seguida por por "Your Own Worst Enemy', lançada no mesmo ano. Ambas as faixas estão incluídas no álbum, mostrando que o projeto já vinha há tempos sendo planejado. "Così Bella" é uma música de rock animada. Seu ritmo contagiante e melodia cativante a tornam uma canção leve e descontraída. O título, "Così Bella", significa 'tão bonita', que é exatamente a vibe que a música evoca. Em contraste, "Your Own Worst Enemy" é mais sombria e melancólica. É uma música com influência de blues e um toque funky. A faixa-título, "New Day", abre o álbum e é uma música de rock n' roll também vibrante, que promove uma mentalidade positiva. Novos dias oferecem novas oportunidades, e ouvir essa canção automaticamente imprime uma energia positiva, e vontade de escutar de novo!

“That Memory” é um Rock n' Roll direto, com influências dos anos 70, antes de “Faith, Hope and Love” adicionar um toque melancólico ao álbum. Esta música pode ser chamada de uma balada, mas é muito mais do que um clichê choroso de coração partido. “Faith, Hope and Love” é comovente e tem um nível de profundidade, o que também se deve aos vocais emocionais de Corabi. O homem realmente sabe colocar emoção no que canta.

“1969” é uma homenagem a uma época em que a música rock estava no auge. Tem uma vibração saudosa, e o álbum oferece profundidade emocional ao longo de toda a audição, seja quando você ouve os rocks animados ou os momentos comoventes. Isso se deve à toda emoção que Corabi imprime às suas composições e à sua voz distinta. Essas qualidades dão a cada uma das músicas uma sensação pessoal e muito autêntica, contribuindo para a impressão positiva de “New Day” como um todo.

O impressionante álbum de estreia de John Corabi vê rock, blues e soul se unirem. Tomando inspiração dos anos 1970, o cantor criou um álbum que se baseia nas suas origens e influências, o que torna “New Day” um “jogo ganho. Que grande Rocker e autêntico artista é John Corabi. Que “New Day” seja apenas o primeiro de uma extensa discografia solo.

José Henrique Godoy






 

MEGADETH - THIS WAS OUR LIFE TOUR - 02/05/2026 - ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP



MEGADETH
THIS WAS OUR LIFE TOUR
02/05/2026
ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP 

Texto e fotos: Fernando Aguiar

Há shows que você assiste. E há shows que você testemunha. A passagem do Megadeth por São Paulo na noite de 2 de maio, única data no Brasil da turnê de despedida This Was Our Life, caiu claramente na segunda categoria. Não porque tudo foi perfeito. Longe disso. Mas porque havia um peso específico naquela noite que nenhuma imperfeição técnica seria capaz de apagar.

Esta foi a 17ª visita do Megadeth ao Brasil, o 42º show da banda em solo nacional. Dave Mustaine (um dos precursores do thrash metal) tem 64 anos, enfrentou um câncer na garganta e carrega nas mãos artrite, Contratura de Dupuytren na mão esquerda e paralisia do nervo radial, condições que o levaram a anunciar o encerramento das atividades do Megadeth ao fim dessa turnê. Quando as luzes se apagaram no Espaço Unimed e a banda simplesmente entrou no palco, sem introdução, sem vídeo, sem cortina caindo, a sensação foi a de quem sabe que está vivendo algo único.

"Tipping Point" abriu o show como single de apresentação do álbum final e homônimo da banda, e aqui aconteceu um dos momentos mais bonitos da noite: Dave Mustaine percebeu o público cantando a letra inteira de uma música lançada há poucos meses e se mostrou genuinamente surpreso e satisfeito com isso. Quem estava na plateia sentiu que a reação era real, não protocolar.

Logo em seguida veio a surpresa que ninguém tinha colocado na conta: "The Conjuring". Mustaine, cristão convertido, se arrependeu publicamente de ter escrito a letra (repleta de referências a um ritual satânico de uma época em que se envolveu com magia negra) e a faixa ficou fora dos setlists por décadas, entre 2001 e 2018. Ver essa música aparecer nessa turnê de despedida soou como um acerto de contas com o próprio catálogo.

A trinca seguinte foi de arrasar quarteirão. "Hangar 18" fez o que sempre faz, transformando a plateia num coro coletivo de "Me-ga-deth" entre os solos enlouquecedores e magnificos. "She-Wolf" veio logo na sequência mantendo (como sempre) o clima lá em cima e que também foi cantada e ovacionada antes de "Sweating Bullets" chegar com o monólogo de alguém em surto esquizofrênico que funciona ao vivo com uma intensidade que a gravação nunca capturou completamente. Foi a melhor performance vocal de Dave na noite, e aqui preciso ser honesto: a voz estava comprometida durante boa parte da primeira metade do show, algo perceptível a quem presta atenção e comentado por pessoas que estavam em diferentes pontos da pista e que encontrei após o show. "Sweating Bullets" foi o momento em que isso importou menos, porque a entrega compensou com folga.


A banda trouxe um pouco de “calmaria” com "I Don't Care" (a faixa mais punk do novo álbum, direta e sem rodeios) e "Dread and the Fugitive Mind", que voltava ao repertório após ausência na passagem anterior pelo Brasil. Dois momentos de respirada antes do set entrar na sua fase mais “agressiva”.

Até aqui o público respondia bem, mas faltava aquela agitação característica de um show de thrash metal de verdade. Os mosh pits eram tímidos, a energia mais contida. Foi a dobradinha "Wake Up Dead" e "In My Darkest Hour" que mudou o jogo. A galera foi junto nota a nota, estrofe por estrofe, cantando cada palavra com Dave, e a sensação de estar num show de thrash de verdade finalmente tomou conta do Espaço Unimed. Uma combinação que a banda já fez no passado e que raramente reaparece nos shows mais recentes, e que aqui funcionou como o gatilho que a noite precisava. A voz de Dave também começou a dar sinais de melhora a partir desse ponto, o que ajudou bastante.

"Hook in Mouth" voltou ao setlist após ausência em 2024 e foi recebida com entusiasmo por quem conhece o catálogo mais a fundo. "Let There Be Shred", do novo álbum, foi o espaço de Teemu Mäntysaari brilhar individualmente. O guitarrista finlandês (escolhido e preparado pelo próprio Kiko Loureiro para ocupar seu lugar) mostrou muito mais desenvoltura do que na passagem anterior por aqui, circulando mais pelo palco e transmitindo uma confiança que o diferencia da imagem mais contida que tinha no início.
Em seguida, veio a sequência mais devastadora da noite. "Symphony of Destruction" é "Symphony of Destruction" (preciso dizer mais alguma coisa?). Ao vivo, naquele contexto, com aquela galera, soou ainda maior do que qualquer gravação consegue sugerir. "Tornado of Souls" trouxe um dos solos mais reverenciados da história da banda, executado com a precisão que a faixa exige e com o peso de saber que você está ouvindo aquilo ao vivo. "Mechanix" chegou fechando o bloco e a insanidade já tinha tomado conta de vez. A pista estava em ebulição total.

E então veio o momento mais histórico da noite, para quem não estava acompanhando de perto as novidades da turnê. "Ride the Lightning", composição que Dave Mustaine criou junto a Lars Ulrich e James Hetfield ainda nos primórdios do Metallica, regravada no álbum final do Megadeth. Ver a música ao vivo foi algo que dificilmente se repete: foi cantada em uníssono pela plateia inteira, agitada com uma energia que remetia ao que seria um show do próprio Metallica. Dave tem co-autoria na faixa, e faz todo o sentido que ela apareça num disco e numa turnê de despedida.

O encerramento apoteótico foi o que precisava ser. "Peace Sells" e "Holy Wars… The Punishment Due" juntas no fechamento são quase uma crueldade, no bom sentido é claro, com dois dos maiores hinos do thrash metal em sequência e dois mascotes Vic Rattlehead subindo ao palco durante "Peace Sells" em referência à capa do novo álbum.

Dave Mustaine disse ao palco que o público de São Paulo foi ótimo e que "eles foram o Megadeth". Em entrevistas recentes sinalizou que gostaria de voltar a outras cidades brasileiras antes do encerramento definitivo, citando nominalmente Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília. A sensação que a noite deixou é mais de "até logo" do que de "adeus".

Mas independentemente do que vier a seguir, o que aconteceu no Espaço Unimed ontem foi um espetáculo digno de um dos precursores do thrash metal. Com limitações físicas e uma voz que já não é a mesma de Peace Sells ou Rust in Peace, Dave Mustaine ainda sobe num palco e lembra ao mundo por que o Megadeth existe, e porque vai fazer falta quando não existir mais (e essa é a parte mais triste de tudo).

A Rebel Rock marcou presença, mesmo sem credenciamento para o evento. Mas quem nos conhece sabe que isso nunca foi o que nos move. Não estamos aqui por protocolo, por acesso facilitado ou por qualquer interesse além do óbvio: o amor pelo heavy metal. É ele que nos leva aos shows, que nos faz escrever, que nos mantém de pé até o último acorde. Sempre foi assim, sempre será.

EVERGREY - ARCHITECTS OF A NEW WEAVE (2026)


 

EVERGREY
ARCHITECTS OF A NEW WEAVE
Napalm Records - Importado

Há momentos em que a música deixa de ser apenas expressão e passa a ser reconstrução de identidade. Em seu décimo quinto álbum, o Evergrey alcança exatamente esse estágio com Architects Of A New Weave, um trabalho que transforma sofrimento em estrutura e colapso emocional em impulso.

Logo na narrativa de abertura, “Welcome To The Pattern” estabelece o conceito que sustenta todo o álbum. A ideia de que estamos inseridos em um “padrão” maior, onde cada escolha e cada cicatriz fazem parte de um tecido invisível, já coloca o ouvinte dentro de algo muito maior do que simples músicas.

Mas, de fato, tudo começa no caos.

E é nesse terreno instável que “The Shadow Self” se impõe como um dos momentos mais intensos do disco. A repetição angustiada de “What do I do with the shadow self?” não soa como reflexão — soa como conflito aberto. A letra expõe o desgaste de quem tenta se curar, mas percebe que suas feridas continuam abertas. Aqui, a sombra não é uma inimiga distante — é uma presença constante, impossível de ignorar.

A resposta começa a tomar forma na faixa-título, onde o discurso muda de direção. A fragilidade dá lugar à afirmação: “We are the architects”. Pela primeira vez, o controle deixa de ser uma ilusão e passa a ser escolha. A reconstrução começa internamente.

Mas o processo não é linear.

Em “The World Is On Fire”, o Evergrey atinge um de seus pontos mais dolorosos. O incêndio não é externo — é interno, alimentado por culpa e promessas não cumpridas. E, no meio desse colapso, surge uma imagem tão simples quanto devastadora: as lágrimas são a única forma de apagar o fogo. A cada momento do álbum, o que vemos é um “eu exposto”, em busca de algum tipo de redenção.

A virada emocional ganha força em “Heaven”, onde Tom S. Englund deixa de se esconder e passa a se afirmar:

I am desire, I am the fire in your eyes
And all the liars will now perish in front of my eyes.
I am the darkness when it’s falling...”

Aqui, luz e escuridão coexistem. O “céu” não é um destino, mas um estado de transformação contínua — um pedido de ajuda enquanto ainda há tempo, enquanto ainda se está vivo.

Em “The Script”, o álbum mergulha em um território ainda mais existencial. A ideia de viver preso a padrões emocionais ganha força em versos como “How do you shape a heart from a fist?”. É a dor de quem endureceu para sobreviver… e agora não sabe mais como voltar a sentir. A música não oferece respostas — apenas expõe a complexidade da pergunta.

“Leaving The Emptiness” surge como um impulso de mudança, quase um grito por movimento. Há uma tentativa clara de deixar o vazio para trás, mas o próprio tom da música levanta dúvidas: trata-se de libertação… ou apenas fuga? Já “Longing”, uma das faixas mais vulneráveis do disco, mergulha na busca por conexão, por sentido, por algo que vá além das palavras — dominando cada momento de sua execução.

Há também um senso claro de liberdade que atravessa o álbum. A banda se entrega uma execução instrumental mais espontânea, menos presa a fórmulas. Se no início de sua trajetória o grupo partia de uma base mais direta no prog metal, hoje existe uma identidade muito mais própria — moldada por uma atmosfera obscura, melancólica e, ainda assim, profundamente melódica, que se consolidou como sua marca registrada. E é exatamente isso que o ouvinte vai encontrar aqui — o Evergrey dos últimos dez anos.

Em “A Burning Flame”, com a participação de Mikael Stanne (Dark Tranquillity), o álbum encontra um novo tipo de energia. A dor deixa de ser apenas peso e passa a ser combustível. Há um chamado claro à ação: entender a origem do sofrimento e transformá-lo em força:

Do your best to start to find the source of your hurting
Take a breath and close your eyes to see your way and your purpose
And make sure you are awake enough to make life your own and your truth

Em “Call Off Your Lions”, a banda trabalha uma metáfora poderosa. Os “leões” representam mecanismos de defesa, instintos de sobrevivência que, em excesso, também aprisionam. Essa ideia se conecta diretamente com “Chains Of Shame”, onde a vergonha surge como uma das prisões mais profundas. Romper essas correntes exige mais do que força — exige coragem para encarar quem você se tornou.

O desfecho com “The Prophecy” (minha favorita do álbum), o Evergrey entrega algo raro: não uma vitória, mas uma compreensão. O eu lírico não elimina sua escuridão — ele a integra. As cicatrizes deixam de ser peso e passam a fazer parte de algo maior, conectando-se em uma verdade única que atravessa todo o álbum:

"Você não se cura apagando a escuridão…
Você se reconstrói aprendendo a viver com ela."

Architects Of A New Weave é mais do que um disco — é um processo contínuo de desmontar e reconstruir a si mesmo. É apaixonante. A parte instrumental, mais quebrada, cheia de linhas pulsantes e melodias que surgem em meio às letras intensas e profundas, é um dos grandes diferenciais do Evergrey — como encontrar beleza e calmaria no coração, mesmo nos dias mais cinzentos, entre dúvidas e crises.

William Ribas




quinta-feira, 30 de abril de 2026

REBEL ROCK OPINIÃO: ANGRA

 


Por William Ribas

Se existisse uma categoria dentro da cena brasileira para eleger a “banda do mês”, certamente abril seria do Angra.

Com a aproximação da apresentação especial do grupo no Bangers Open Air, no último domingo, dia 26, tivemos uma enxurrada de publicações nas redes (sim, esta é mais uma). O reencontro com Edu Falaschi e Aquiles Priester, a despedida do “mago” Fabio Lione e a chegada de um velho amigo da banda, Alírio Netto.

Confesso que, num primeiro momento, não me empolguei tanto. Mas, aos poucos, aquele adolescente que foi a um dos shows da turnê do Rebirth foi renascendo (desculpe, não resisti). Resolvi maratonar a discografia — e, por sorte, tenho todos os CDs — e passei a olhar tudo isso com outros olhos.

Por outro lado, caiu a ficha de quantas vezes o Angra simplesmente “jogou fora” momentos cruciais de seus 35 anos de história. O impacto inicial foi gigantesco — Angels Cry e Holy Land não são apenas marcos nacionais, mas obras fundamentais do metal mundial — e, pasmem, não temos registros ao vivo oficiais à altura dessa fase.

"Bonsoir Parri!!! Yeaaahhhhh!!!! Infelizmente, “Holy Live” é agridoce.

Fireworks, mesmo com todos os problemas internos, também não rendeu um documento histórico. Rafael Bittencourt e companhia deixaram escapar a chance de registrar ao vivo a formação clássica — a “fase MK I” do Angra.

Em 2001, uma nova era começou e trouxe o primeiro álbum ao vivo. Ainda assim, quando a banda atingiu um de seus ápices criativos e de reconhecimento com o aclamado Temple of Shadows, mais uma vez vieram os problemas, falhas nas gravações… e outra oportunidade se perdeu.

E é justamente por isso que o momento atual não pode ser tratado como “apenas mais um show”.
Se o Angra for esperto — aliás, se Rafael Bittencourt e o Baron, nos bastidores, forem inteligentes — agora é a hora de fazer diferente. E, de quebra, fazer dinheiro. Não sejamos inocentes, certo?


O hype está pronto. O terreno está fértil. Falta execução.

Primeiro: por que não retomar o conceito do Angra Fest? Mas não como antes — e sim algo mais coeso, mais temático, quase um “Angraverso” ao vivo. Um evento que reuna Angra, Edu Falaschi em carreira solo, Hangar e até um Shamangra — ou, no mínimo, Angra + Edu + Shamangra + Viper. É conteúdo histórico vivo. É narrativa. É celebração organizada.

Segundo: o show do Bangers deveria ter sido gravado. O show de ontem no Espaço Unimed (29 de abril) também — o “rec” deveria ter sido apertado. Não sei se silenciosamente houve algo, torço para tal — simples assim. Foram cerca de 2h30 — material perfeito para um lançamento triplo, bonito, caprichado, algo que realmente faça o fã sentir que está levando para casa um pedaço dessa noite. A estrutura já tinha. A mesa de som estava lá. Não estamos falando de reinventar a roda — estamos falando de não repetir erros básicos.

Noites especiais merecem ser imortalizadas.

Terceiro: Rafael recentemente compartilhou fotos raras do acervo da banda. Isso, por si só, já é meio caminho andado para um livro histórico — um material que percorra todas as fases e culmine nessa celebração atual. Existe demanda. Existe público. Falta transformar isso em produto. E aqui entra um ponto delicado, mas necessário: talvez esteja na hora de aprender com quem está fazendo isso muito bem. Edu Falaschi entendeu o valor do material físico de luxo. Já está no terceiro álbum solo e, nos três, entregou boxes especiais. No ao vivo, mais uma edição diferenciada. O próprio Shaman, na celebração do Ritual Live, também soube trabalhar esse formato — e funcionou.

Incrivelmente, o Angra — com toda sua história — praticamente não tem nada nesse nível.
Por que não lançar um box especial da Rebirth World Tour (25 anos)? Ou algo grandioso para os 30 anos de Holy Land? São discos emblemáticos, com peso histórico real. Não é nostalgia vazia — é patrimônio cultural do metal brasileiro.

O Angra carrega um histórico perigoso: perdeu registros da era Andre Matos. Perdeu o auge de "Temple of Shadows". Perdeu momentos que hoje seriam ouro puro.

Vai perder de novo?

Porque, no fim das contas, às vezes um único “jogo” é suficiente para derrubar o treinador.
E, infelizmente, o histórico do Angra joga mais contra do que a favor.

Hoje, o Angra tem três álbuns ao vivo completos na carreira — e apenas um realmente capturando um de seus momentos mais importantes.

Daqui a poucos meses, o Sepultura estará, simbolicamente, fechando a tampa do seu próprio caixão. E, com isso, aquela velha máxima de que as duas maiores bandas do Brasil são Angra e Sepultura deixará de existir como sempre conhecemos.
O cenário muda. O protagonismo muda.
E, inevitavelmente, o lugar de maior destaque passa a ser do Angra — ou, pelo menos, deveria ser.

Curiosamente, existe uma faixa no clássico "Beneath the Remains", do Sepultura, cujo título soa quase como um sussurro provocativo nesse contexto: “A Hora e a Vez do Cabelo Crescer”. Mas, não sei por quê, na minha cabeça isso vem se transformando insistentemente, quase como um mantra: “A hora e a vez do Angra crescer.”

Porque, no fim, é exatamente disso que se trata.
O momento chegou pela “décima vez”.

A dúvida é se eles vão reconhecê-lo — ou deixá-lo escapar, como tantas outras.



AXEL RUDI PELL - GHOST TOWN (2026)

 


AXEL RUDI PELL
GHOST TOWN
SPV/Steamhammer - Importado

AXEL RUDI PELL. Para quem acompanha a trajetória do guitarrista de Bochum há mais de três décadas, a expectativa em torno de um novo álbum nunca é sobre "reinventar a roda", mas sim sobre a excelência na execução de uma fórmula que ele domina como poucos. Com o lançamento de GHOST TOWN, o 23º álbum de estúdio, Axel reafirma seu posto como um dos pilares do Hard Rock melódico europeu. Enquanto algumas outras bandas lidam com um carrossel de mudanças de formação ou constantes variações em seu estilo musical, o guitarrista segue há anos de maneira consistente e sem grandes turbulências seu próprio caminho e lança discos sempre fortes.

Há algum tempo, o guitarrista é acompanhado pelo vocalista Johnny Gioeli (Hardline), pelo baixista Volker Krawczak, pelo tecladista Ferdy Doernberg e pelo baterista Bobby Rondinelli (ex- Black Sabbath, entre outros), o que dá uma maior coesão e consistência à banda. Gravado nos estúdios do Blind Guardian em Grefrath, sob a tutela técnica de Tommy Geiger (também responsável pela mixagem), o álbum respira qualidade sonora. O timbre de guitarra de Axel Rudi Pell permanece inconfundível, equilibrando o peso do Heavy Metal clássico com a elegância de arranjos que remetem ao som do Rainbow na era Dio.

O álbum abre com a atmosfera de "The Regicide", cortesia de Ferdy Doernberg, preparando o terreno para uma viagem que transita entre o ritmo mais acelerado e o atmosférico. Já "Guillotine Walk'', na sequência, é uma típica música composta pelo guitarrista com um ótimo trabalho de seis cordas e um Johnny Gioeli cantando muito. "Breaking Seals", é o grande destaque do trabalho. A faixa não consegue esconder uma certa vibe de Accept, já que o dueto inédito entre Johnny Gioeli e o lendário Udo Dirkschneider é um presente para os fãs do metal alemão. A união da voz versátil de Gioeli com o timbre icônico e cortante de Udo traz uma nova atmosfera para o trabalho de Axel, provando que, mesmo após 35 anos de carreira, o guitarrista ainda consegue criar momentos interessantes e únicos. "Ghost Town", a faixa título, resgata a energia dos clássicos dos anos 80.

Ainda podemos destacar "Hurricane", com riffs ótimos e um Johnny cantando muito e uma energia voltada para sua execução ao vivo, "Higher Call" uma composição bem variada e com belos solos, e "The Enemy Within"que mostra o lado mais denso e cadenciado de Axel, ideal para os momentos onde o peso deve imperar.

GHOST TOWN não é o melhor trabalho de AXEL RUDI PELL. E a essa altura do campeonato, acredito que isso pouco importa pro guitarrista. O álbum não busca inovações radicais, e talvez seja exatamente esse o seu maior triunfo. Em um mercado saturado, e porque não dizer, desnecessária mudanças, Axel nos oferece um álbum seguro, feito por um músico que entende que o Hard Rock e o Heavy Metal, quando bem produzidos e interpretados com convicção, não precisam de truques para serem memoráveis.

Sergiomar Menezes







quarta-feira, 29 de abril de 2026

COBERTURA: BANGERS OPEN AIR - 26/04/2026 (DOMINGO) - MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA - SÃO PAULO/SP

 


Domingão e o Bangers não só entregou como superou qualquer expectativa. De modo geral, o Bangers se consolidou definitivamente como um dos melhores festivais da América Latina, não só pelo peso dos nomes, mas pela experiência completa: estrutura, variedade, organização e aquela sensação de que cada show importa.

Se o sábado já tinha sido forte, o segundo dia foi insano, com a energia subindo progressivamente a cada show, sem nenhuma queda. Essa curva ascendente é o que separa um bom festival de um festival memorável.

Por Fernando Aguiar


Project 46 - Ice Stage

O domingo já começou com o metal brasileiro destruindo tudo. O Project 46 abriu o Ice Stage sem aquecimento e sem cerimônia com a intro "Terra de Ninguém" que preparou o terreno antes de "Dor" abrir o set com peso total. O que seguiu foi um bloco agressivo e consistente: "Impunidade", "Violência Gratuita", "4six", "Rédeas", "Na Vala" e "Erro +55" sem trégua. A forma como a banda se movimenta no palco, a energia que transmitem, foi sensacional. O encerramento reservou as melhores do set: "Pode Pá", o refrão de "Foda-se (Se Depender de Nós)" jogado à plateia, e "Acorda pra Vida" com final estendido que deixou claro que a banda não estava ali pra aquecer ninguém, estava ali pra dominar. Um show que merecia muito mais gente acompanhando.


Primal Fear - Hot Stage

Ralf Scheepers abriu o Hot Stage com o carisma de sempre, arriscou o português, brincou com o público, mandou beijos e corações para a plateia, e sustentou notas altas com aquela facilidade que impressiona há décadas. "Destroyer" e "I Am the Primal Fear" estabeleceram o peso logo de cara, antes de "Nuclear Fire" e "Seven Seals" elevarem a intensidade. A guitarrista Thalìa Bellazecca ganhou protagonismo ao longo do set. "Chainbreaker", que foi descrita pelo próprio Ralf como a primeira música que compuseram juntos foi um dos momentos mais especiais, e "Metal Is Forever" fechou o set de forma épica. O Primal Fear é consistência em estado puro ao vivo, e esse show foi mais uma prova disso.


Nevermore - Ice Stage

Um dos shows mais aguardados e mais improváveis do festival. O Nevermore ficou inativo desde 2011 e a morte de Warrel Dane em 2017 parecia ter encerrado qualquer possibilidade de retorno. Quando Jeff Loomis e Van Williams anunciaram audições em dezembro de 2024 e confirmaram o vocalista Berzan Önen, o guitarrista Jack Cattoi e o baixista Semir Özerkan, o ceticismo ainda era grande. Ver ao vivo era outra conversa.

Após o intro "Precognition", Berzan entrou sozinho no palco vestindo uma camiseta do Brasil, aquecendo a voz, sentindo o público, antes de chamar a banda toda e abrir com "Narcosynthesis". O set percorreu o catálogo com inteligência: "Enemies of Reality", "The River Dragon Has Come", "Beyond Within", apresentada como material antigo, "Inside Four Walls", "Engines of Hate" e "My Acid Words", onde Berzan ficou abraçado com o baixista num momento de cumplicidade genuína. "Born" fechou o set com Berzan pedindo que a galera se dividisse ao meio antes do mosh tomar conta. No fim, os músicos tiraram foto com o público inteiro. Foi histórico, impecável, e havia quem não acreditasse no que estava vendo, com toda a razão.


Crazy Lixx - Sun Stage

Com o sol ainda forte no Memorial, o Crazy Lixx subiu ao palco do Sun Stage e entregou o que, na minha opinião, foi um dos melhores shows do fim de semana inteiro. A banda sueca é o hard rock dos anos 80 em sua forma mais pura e honesta, e ao vivo é uma experiência completamente diferente de qualquer gravação. A presença de palco é absurda, o visual é impecável, e a sincronia entre os músicos quando se movem pelo palco em conjunto é daquelas coisas que você precisa ver para entender.

O set foi construído com perfeição. "Rise Above" abriu com "Final Fury" como intro antes de "Hell Raising Women" e "Whiskey Tango Foxtrot" estabelecerem o tom. "Sword and Stone", cover do Bonfire, foi uma surpresa bem-vinda. "Never Die (Forever Wild)", "Hunt for Danger" e "XIII" empilharam intensidade antes de "Midnight Rebels" e "Anthem for America" prepararem o terreno para o encerramento. "Blame It on Love" foi mais um pico antes do fechamento épico: "Who Said Rock 'n' Roll Is Dead" com o snippet de "Detroit Rock City" do Kiss embutido causou euforia total, e "Crazy Crazy Lixx", a versão alternativa de "Crazy Crazy Nights" também do Kiss foi o último acorde de um show redondo, executado do começo ao fim com convicção absoluta. O Crazy Lixx deveria estar nos palcos principais. A energia que entregam é de headliner.

Malvada - Waves Stage

As garotas da Malvada tomaram o palco Waves e mostraram por que são um dos grandes nomes do nosso metal feminino atual. O show já começou com o pé no peito em "Dead Like You", uma música de letra urgente que ganhou um peso absurdo com a guitarra rascante da Bruna Tsuruda e a bateria cadenciada da Juliana Salgado. E o que falar da voz da Indira Castilho? Ela brilhou demais, explorando umas notas altas nas finalizações que deixaram todo mundo de queixo caído.

Mas o momento que realmente mostrou a ousadia das meninas foi em "Veneno". A música traz um swing gostoso, com a bateria fazendo uns diminuendos certeiros que casam perfeitamente com o baixo grooveiro da Rafaela Reoli. O mais legal aqui é o toque de brasilidade; a gente sente aquele tempero do baião nordestino no andamento alquebrado, criando umas dissonâncias muito interessantes. Diferente, ousado e com uma personalidade incrível. Que banda, meus amigos!



Winger - Ice Stage

O Winger era um dos shows mais esperados do domingo, e a banda tratou de não decepcionar. Kip Winger ressaltou mais de uma vez que a formação é a original de 1987 e mencionou Alice Cooper, com quem tocou nos anos 80. "O Brasil tem os melhores fãs de rock em todo o mundo", disse ele em determinado momento.

"Stick the Knife In and Twist" abriu o set com energia imediata antes de "Seventeen" fazer o Memorial cantar junto, de mãos pro alto, sem exceção. "Can't Get Enuff", "Down Incognito" e "Miles Away", essa cantada em coro absoluto e que alimentaram ainda mais a chama chama do hard rock, um dos pontos mais altos de todo o fim de semana. O solo de guitarra de Reb Beach parou tudo: ovação espontânea, silêncio respeitoso e então explosão de aplausos. Rod Morgenstein também teve seu espaço com um drum solo que mostrou por que ele é um dos bateristas mais respeitados do estilo. "Headed for a Heartbreak" foi o pico emocional do set, com extensão instrumental densa e Kip entregando vocais no limite. "Easy Come Easy Go" preparou o terreno antes de "Madalaine" encerrar o show como o momento mais emotivo da tarde, um daqueles instantes em que uma música pertence completamente à plateia. Rock and roll puro, executado com a autoridade de quem faz isso há quase quarenta anos.


Smith/Kotzen - Hot Stage

Este show em si, foi irretocável. "The Devil You Know" do Anthrax tocando como intro antes da dupla subir ao palco já colocou o clima no lugar certo. Adrian Smith e Richie Kotzen abriram com "Life Unchained" antes de "Black Light", "Wraith" e "Blindsided" estabelecerem o padrão de qualidade do que seria uma hora de entrosamento impecável. "Taking My Chances", "Darkside" e "White Noise" foram pontos altíssimos de um set sem falhas. A formação de apoio contava com os brasileiros Bruno Valverde na bateria e Julia Lage no baixo, mencionados por Adrian com orgulho, "Desculpe que não sei falar português", brincou ele. O encerramento com "Wasted Years" do Iron Maiden deixou a galara eufórica. Com a noite já caindo, os efeitos de iluminação ganharam ainda mais dimensão e fizeram tudo parecer ainda maior. Esse é mais um show que merecia o palco principal.


Within Temptation - Ice Stage

Sharon den Adel tem mais de cinquenta anos, três filhos, e uma presença de palco que envergonha boa parte das vocalistas de bandas mais jovens. Entrou com vestido branco e máscara, com uma cantiga de ninar ucraniana nas caixas de som e luzes vermelhas preparando o clima. A voz operística preenche o Memorial inteiro, e o que impressiona não é apenas a qualidade vocal, é a performance física. Sharon pula, dança, se movimenta pelo palco sem perder uma nota, misturando canto lírico com metal de um jeito que faz tudo soar mais brutal pelo contraste.

O setlist foi uma das grandes surpresas do dia. "We Go to War" abriu antes de "The Howling" chegar, primeira vez desde 2016, o que já era motivo de euforia por si só. "Stand My Ground" e "Ritual", dedicada às mulheres na plateia, seguiram antes de "The Heart of Everything" aparecer pela primeira vez desde 2019. "Forsaken" foi o momento mais raro do set: primeira vez em público desde 2008. "Ice Queen" e "Mother Earth", descrita por Sharon como música de protesto, fecharam o show, com ela e o guitarrista Ruud Jolie segurando uma bandeira do Brasil.

* Infelizmente, não conseguimos assistir o show do Krisiun. O grupo, formado pelos irmãos Alex Camargo, Moyses e Max Kolesne, comemorou os 25 anos do lançamento do álbum "Conquerors of Armageddon" com um show especial no Bangers Open Air.


Dirkschneider - Sun Stage

Criminosamente subestimado. Udo Dirkschneider, que gravou os maiores clássicos do Accept ao lado de Wolf Hoffmann e moldou o heavy metal alemão dos anos 80, tocando aquele repertório num palco secundário, no mesmo horário que o Angra no Hot Stage. Quem foi pro Angra tomou a decisão óbvia. Quem ficou no Dirkschneider viu uma aula.

Udo começou quebrando tudo com "Fast as a Shark" abriu o set com aquela velocidade que em 1982 parecia impossível para o heavy metal da época, antes mesmo do thrash ter nome. "Living for Tonite" e "Midnight Mover" completaram a abertura antes do bloco de Balls to the Wall tomar conta: a faixa-título, "London Leatherboys", "Fight It Back", "Head Over Heels", "Losing More Than You've Ever Had", "Love Child", "Turn Me On", "Losers and Winners", "Guardian of the Night" e "Winterdreams", o clássico absolute do Accept em sequência, sem respiro. O encore trouxe "Princess of the Dawn" antes de "Burning" incendiar o encerramento literalmente. A produção, o jogo de luzes, a energia, foi demais. Um show desse nível não deveria estar num palco secundário. O mesmo vale para o Ambush. Esses dois shows mereciam muito mais.


Angra - Hot Stage

Optei pelo Dirkschneider e não me arrependo, mas o que aconteceu no Hot Stage aquela noite precisa ser registrado com o cuidado que merece.

Não era um show comum. Era a despedida de Fabio Lione após catorze anos, a estreia de Alírio Netto nos vocais, e a reunião da formação clássica do Rebirth com Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester no mesmo palco, tudo isso numa única noite, em um show dividido em três atos distintos.

O Ato I reuniu Alírio e Fabio em blocos alternados: "Nothing to Say" e "Angels Cry" com Alírio estreando, antes de Fabio assumir para "Tide of Changes Pts. I e II", "Lisbon" e "Vida Seca". Alírio voltou para "Wuthering Heights" (cover de Kate Bush) e "Carolina IV", tocada ao vivo pela primeira vez desde 2018 e dedicada aos fãs.

O Ato II foi o bloco mais aguardado: Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester no palco com Bittencourt, Andreoli e a formação reunida do Rebirth. "In Excelsis" como intro antes de "Nova Era" abrir um bloco que incluiu "Waiting Silence", "Millennium Sun", "Heroes of Sand", "Ego Painted Grey", "Bleeding Heart", "Spread Your Fire", "Acid Rain" e "Rebirth", onde vinte e cinco anos depois, a formação que gravou aquele disco reunida no mesmo palco tocando aquelas músicas.

O Ato III foi o encerramento: um vídeo de Andre Matos tocando "Silence and Distance" no Japão parou o Memorial antes da música ser executada ao vivo por toda a formação reunida, dedicada ao saudoso vocalista. "Late Redemption" e "Carry On", com absolutamente todo mundo no palco, fecharam a noite. Rafael Bittencourt disse do palco que aquela foi uma das noites mais importantes da história do heavy metal brasileiro. Difícil discordar.


Ambush - Waves Stage

Aqui está outro caso de show subestimado pelo posicionamento no festival. O Ambush é heavy metal sueco dos anos 80 em sua forma mais pura e ao vivo é uma banda que deveria estar nos palcos principais, com toda certeza. A apresentação, a presença de palco, a sincronia quando fazem aquela linha de guitarra e baixo se movendo juntos pelo palco é o heavy metal clássico mais incrível que existe. O vocalista Oskar Jacobsson canta com uma pegada rápida e solta agudos que ninguém bota defeito.

O set percorreu o catálogo da banda antes de "Metal Gods", cover do Judas Priest fazer a plateia enlouquecer. A penúltima música foi impressionante, antes de "Don't Shoot (Let 'em Burn)" fechar tudo de um jeito que deixou quem estava ali sem palavras. A energia que o Ambush trouxe é de headliner. O nome não tem o mesmo peso que as outras bandas do line-up, mas o show tem.


O Bangers Open Air 2026 foi uma experiência extraordinária e com uma grade tão forte, a sobreposição de horários entre bandas de peso nos diferentes palcos cobrou um preço real do público. 

O lado positivo é que tudo isso acontece num contexto de crescimento real e consistente. O Memorial da América Latina segue sendo um local privilegiado, com infraestrutura, acesso e tamanho adequados ao que o Bangers propõe. A organização geral, mais uma vez, esteve à altura. E o sinal mais claro do sucesso do festival veio ainda no sábado, quando a edição de 2027 foi anunciada oficialmente no próprio evento, confirmando que o Bangers deixou de ser uma aposta e virou parte do calendário fixo de shows e festivais por aqui.

Até 2027, Bangers Open Air!

COBERTURA: BANGERS OPEN AIR - 25/04/2026 (SÁBADO) - MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA - SÃO PAULO/SP

 



Tem dias que você sai de casa sabendo que vai ser bom. E tem dias que você volta pra casa sabendo que acabou de viver algo fora do comum. E o primeiro dia do Bangers Open Air 2026 foi o segundo tipo e pra mim ficou claro já no primeiro show do dia. Infelizmente, por logística, não conseguimos cobrir todas as bandas que gostaríamos, mas segue o relato daquelas que tivemos a oportunidade de assistir.

Por Fernando Aguiar

Lucifer - Sun Stage

Primeira vez que eu via o Lucifer ao vivo e posso dizer, sem dúvida alguma, que foi uma das melhores estreias que tive o prazer de presencial em um festival. A sueca Johanna Sadonis abriu o Sun Stage ao meio-dia exato com "Anubis", que é o primeiro single da banda, de 2015, raramente tocado ao vivo nos últimos anos e já entregou o recado de que aquele não seria um set qualquer.

O Lucifer traz aquele occult rock dos anos 70 ressuscitado, com Black Sabbath, Pentagram e Coven correndo nas veias, riffs diretos e pesados com aquela melancolia característica que diferencia a banda da maioria do que se vê nos festivais de hoje. Mas o que transforma a experiência ao vivo é Johanna. Ela simplesmente tem uma presença e carisma absurdas, não precisa forçar nada. "Riding Reaper", "Wild Hearses" e um dos pontos mais altos do show com "At the Mortuary" que a própria Johanna já disse ser sua favorita de performar ao vivo, chegando com aquele peso denso e atmosférico que é a marca registrada da banda. "Slow Dance in a Crypt" e "The Dead Don't Speak" aprofundaram o mergulho no Lucifer V antes de "California Son" fazer a galera cantar junto. O cover de "Goin' Blind" do Kiss chegou como uma das melhores surpresas do dia, e o encerramento com "Fallen Angel" deixou todo mundo querendo mais.

Com uma hora de show, o Lucifer foi, para mim, um dos melhores shows que já passaram pela grade do Bangers, e olha que a competição é grande. Inclusive comentei sobre este ponto na hora da sessão de autógrafos e todos da banda ficaram muito agradecidos e surpresos com meu comentário, além de terem sido muito simpáticos e atenciosos com todos que estavam por perto. Que banda meus amigos!


Evergrey - Hot Stage

Também primeira vez com o Evergrey ao vivo. O Evergrey é daquelas bandas que você ouve há anos em casa mas nunca sabe direito como vai funcionar num festival, ainda mais que o som da banda é um tanto quanto introspectivo, carregado de emoção, mais dado às luzes baixas do que ao calor da tarde paulistana.

A resposta simples é: funciona muito bem quando a banda é boa de verdade. Tom Englund, que entrou de macacão preto, não deve ter imaginado que estaria tão calor na hora do show, foi muita coragem e a banda abriu com "Falling From the Sun" e o Hot Stage imediatamente ganhou outro nível de intensidade. "Where August Mourn" e "Weightless" foram daqueles momentos em que o coletivo e o individual se encontram, todo mundo junto, como se fossemos uma unidade. "The World Is on Fire" e "Eternal Nocturnal" mostraram a profundidade progressiva da banda antes de "Call Out the Dark" preparar o terreno para "King of Errors", que pra mim foi o pico emocional do set. "Architects of the New Weave", material novo que demonstrou um potencial ao vivo enorme e "Leaving the Emptiness" conduziram o final antes de "OXYGEN!" fechar tudo com energia máxima.

Foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes das duas edições do festival que acompanhei.


Jinjer - Hot Stage

Se o Evergrey tocou a alma, o Jinjer veio pra começar a destruir o corpo logo em seguida. E destruiu completamente.

A banda ucraniana chegou ao Bangers no meio da "Latin America Duél Tour 2026", e o setlist refletiu isso: um prólogo encurtado preparou o terreno antes de "Duél" abrir o set com peso total. "Green Serpent", "Fast Draw" e "Vortex" mantiveram o clima pesado nas alturas. "Disclosure!" e "Tantrum" vieram logo depois, antes de "Teacher, Teacher!", que é quase um momento de antologia ao vivo, pra fazer o público enlouquecer. "Hedonist" e "I Speak Astronomy" levaram o set aos territórios técnicos mais elaborados antes de "Someone's Daughter" conduzir tudo ao ponto de maior tensão emocional.

Mas a grande verdade é que tudo isso é contexto para Tatiana Shmayluk. Ela é literalmente um show à parte. O domínio de palco é hipnotizante: guturais devastadores, melodias cristalinas, e uma transição entre os dois que parece sobrenatural. O público foi ao delírio durante todo o set. E "Pisces", que há muito tempo deixou de ser só uma música da banda e passou a pertencer a todo mundo que ouve metal foi um momento único. "Sit Stay Roll Over" fechou tudo no limite máximo. Um arregaço absoluto.


Torture Squad - Sun Stage

Os paulistanos do Torture Squad chegaram atropelando com aquela mistura visceral de Death e Thrash Metal que a gente já conhece e respeita. O som das guitarras é puro rascante, com distorções pesadíssimas que ganham uma profundidade animal com o baixo, que traz até umas nuances de dub, e a bateria naquele cadenciado constante que não dá descanso pro pescoço.

Mas o que realmente dita o tom da apresentação é a Mayara Puertas. A presença de palco dela é absurda! Ela explora uns agudos viscerais e uma dinâmica que transforma o show em uma experiência completa. É uma frontwoman que entrega tudo, traduzindo perfeitamente a aura agressiva e, ao mesmo tempo, técnica da banda.


* Infelizmente, não conseguimos chegar a tempo de cobrir o show do Marenna no Waves Stage por causa da grade, mas segundo conversas com amigos que lá estiveram, foi mais um grande show do grupo. Algo recorrente, diga-se de passagem.


Killswitch Engange - Ice Stage

O Killswitch Engage trouxe o Metalcore para o palco e, vou dizer, o Jesse Leach está em uma fase absurda. O vocal dele surgiu ainda mais brilhante ao vivo, totalmente apoiado por um instrumental "bem temperado" onde a bateria e o baixo faziam um contraponto perfeito, segurando o andamento com uma precisão absurda. E o que falar daquela guitarra furiosa? O cara explodiu entre rascantes intensos e cromatismos cirúrgicos, mantendo a energia lá no alto o tempo todo.

Para fechar a passagem deles pelo festival com chave de ouro, eles mandaram aquela releitura de "Holy Diver", do mestre Dio. Que momento, meus amigos! A execução arrematou a apresentação com uma propriedade incrível, sendo, sem dúvida, um dos pontos mais altos da performance vocal do Leach em todo o show. Um tributo de respeito que deixou todo mundo arrepiado.


Black Label Society - Hot Stage

Quase quatro anos sem aparecer por aqui, e Zakk Wylde voltou como se nunca tivesse saído. Já a entrada com o intro "Whole Lotta Sabbath", com aquele mashup genial de Black Sabbath com Led Zeppelin foi um aviso do nível de referências que aquele set traria. "Funeral Bell" abriu com o volume absurdamente alto que tomou conta do Hot Stage, e o material novo do Engines of Demolition mostrou força imediata: "Name in Blood", "Destroy & Conquer", "A Love Unreal" e "Heart of Darkness" deixaram claro que o disco tem muito a dizer e caiu muito bem ao vivo.

Aí vieram os momentos que definiram o show. O cover de "No More Tears" de Ozzy transformou o Memorial num coro uníssono. Logo depois, "In This River", dedicada a Dimebag Darrell e Vinnie Paul e que chegou com aquela carga emocional que a música sempre carrega, amplificada pelo contexto. E então veio "Ozzy's Song", a balada que Zakk escreveu especificamente em homenagem ao mentor e amigo que “perdemos” em 2025. O que aconteceu no palco e na plateia durante aquela música foi uma catarse coletiva real de um homem prestando tributo com milhares de pessoas que entendiam o peso de cada acorde. Foi o ponto mais alto da tarde, e um dos momentos mais emocionantes que já vivi num festival de metal. Nem preciso dizer que as lágrimas caíram naturalmente, certo?!


Tankard - Sun Stage

Essa era uma das que eu mais esperava, e os alemães não decepcionaram, pois foram avassaladores, pra dizer o mínimo. O Tankard é um dos pilares do thrash teutônico, e faz parte do big four do metal extremo alemão ao lado de Sodom, Kreator e Destruction, com mais de quarenta anos fabricando hinos sobre cerveja, amizade e caos sem jamais pedir desculpa por isso.

"One Foot in the Grave" abriu estabelecendo o ritmo imediatamente: riffs velozes, bateria certeira, Gerre nos vocais com a mesma energia de sempre. "The Morning After" e "Ex-Fluencer", material mais recente, provaram que o Tankard não vive só do legado. "Rapid Fire" acelerou ainda mais antes de "Need Money for Beer" e "Die With a Beer in Your Hand" transformarem aquilo tudo numa festa thrash de beber junto e gritar junto. "Beerbarians" e "A Girl Called Cerveza" mantiveram o caos a todo vapor, antes de "Chemical Invasion" e "Zombie Attack" chegarem, clássicos absolutos que não precisam de apresentação. O encerramento com "(Empty) Tankard", o hino máximo, três minutos e meio de thrash puro que resume tudo que a banda representa. Foi devastador, destruidor, tudo que eu esperava e um pouco mais. Foi o show mais divertido do dia, sem sombra de dúvidas.


In Flames - Ice Stage

O In Flames surgiu como um trovão na escuridão da noite e, literalmente, incendiou o público. Os caras entregaram aquele Death Metal Melódico clássico, mas com uma energia renovada. O instrumental é um absurdo de dinâmico e pesado: a bateria do Jon Rice veio com afretados intensos, casando perfeitamente com o baixo poderoso e carregado de "doom" do Liam Wilson. Tudo isso servindo de base para as guitarras rascantes e, claro, para o vocal magistral do Anders Fridén. O cara deu uma aula, transitando entre guturais e agudos viscerais com modulações e drives potentes que são a marca registrada dele.

Um dos pontos mais interessantes foi ver como os sintetizadores furiosos dão uma cara moderna ao som. O diálogo entre a guitarra melódica do Niclas Engelin e a rítmica do Björn Gelotte é intenso e muito bem pontuado pelo baixo, fazendo dessa junção entre os synths e as cordas o grande diferencial da melodia. Tudo isso apoia magistralmente o vocal poderoso do Anders. Que showzaço, meus amigos! Uma aula de como evoluir sem perder a essência.


Arch Enemy - Hot Stage

Headliner com asterisco duplo: o Arch Enemy chegou ao Bangers como substituto do Twisted Sister, que cancelou a turnê pelos problemas de saúde de Dee Snider e estreando Lauren Hart nos vocais, vinda do Once Human após a saída de Alissa White-Gluz. A banda entrou com "Ace of Spades" do Motörhead como intro, seguido de "Khaos Overture" preparando o clima. Um coisa precisa ser dita, havia expectativa, havia tensão e havia a polêmica de bastidores com Kiko Loureiro acusando a banda de plágio em "To the Last Breath".

Tudo isso evaporou em "Yesterday Is Dead and Gone". Lauren Hart tomou o palco como se estivesse nele há uma década com a banda e começa a cantar possuída, não parava um segundo, dominava o espaço com uma naturalidade que surpreende quem sabia da pressão que aquele momento representava. Chegou a se emocionar em cena quando a plateia cantou junto, agradecendo ao público brasileiro e a resposta foi à altura. "The World Is Yours", "Ravenous" e "War Eternal" foram confirmações imediatas de aprovação total. "Dream Stealer" preparou o terreno para "To the Last Breath" que foi muito bem recebida pela platéia.

Clássicos de todas as fases apareceram ao longo do set: "My Apocalypse", "Bury Me an Angel" da era Johan Liiva, que fez os fãs de longa data enlouquecerem, "The Eagle Flies Alone" e "No Gods, No Masters". "Dead Bury Their Dead" preparou o encerramento antes de "Snow Bound" chegar com um intro de solo de Joey Concepcion que parou tudo por alguns instantes. E "Nemesis" fechou a noite com o coro "One for all, all for one" tomando conta do Memorial inteiro. Entre pirotecnia, bandeiras tremulando e aquela energia caótica e avassaladora do Arch Enemy, mesmo com problemas técnicos de som, foi um show espetacular.

Overdose - Waves Stage

Encerrar o primeiro dia de festival no palco Waves, com o Overdose, foi como presenciar uma aula de história do metal brasileiro que se recusa a envelhecer. Ver esses precursores mineiros dos anos 80 ao vivo é entender que a sonoridade e a atitude heavy deles atravessam gerações sem perder um pingo de relevância. É puro suco de metal nacional com aquela autoridade de quem sabe o que está fazendo.

O show já começou mostrando a que veio. Quando mandaram a introdução de "Rio, Samba e Porrada no Morro", aquela batida firme de maracatu se misturando ao samba e à latada nordestina entregou de cara a brasilidade que eles carregam no DNA. É de arrepiar. Em "My Rage", o Bozó (Pedro Amorim) provou por que é uma lenda; os vocais dele, transitando entre o gutural e o rascante com uma técnica absurda, casaram perfeitamente com o instrumental pesadíssimo. A bateria cadenciada e o baixo com aquela pegada Doom do Fernando Pazzini trouxeram um clima denso, enquanto Claudio David e Sérgio Cichovicz faziam as guitarras dialogarem de um jeito ágil que não deixava ninguém parado.

Um dos momentos que mais me chamou a atenção foi "Progress of Decadence". A bateria do André Marcio tem uma dinâmica diferenciada, com uns diminuendos nas viradas para o refrão que são geniais. As guitarras aparecem com riffs encadeados e um diálogo sincopado, criando uma dissonância estudada que foge do óbvio e desemboca num refrão marcante com um pezinho no punk rock. É criatividade pura!

Quando chegou em "Children of War", o show entrou naquela cadência frenética de Power Metal que a gente ama, com as guitarras rascantes e a performance vocal do Bozó lá no topo. Mas o que me deixou de queixo caído foi "How to Pray". Pensar que essa música rompeu paradigmas na época em que foi escrita é loucura; ela tem elementos tão modernos, com uns breaks estratégicos e um toque de crossover no refrão que só viraria tendência dez anos depois. Que ousadia desses caras!

Para fechar com chave de ouro, "João Sem Terra" trouxe novamente aquele flerte com o maracatu — me lembrou até um quê de Alceu Valença — misturado a uma letra ácida de crítica social que, infelizmente, continua atualíssima. Ver o Overdose no palco é ter a certeza de que estamos diante de gênios da nossa música. Foi uma performance impecável e cheia de carisma. Genial, meus amigos!


Enfim, muitos motivos diferentes pra lembrar desse sábado para o resto da vida. Da descoberta do Lucifer ao encontro emocional com o Evergrey, do furacão ucraniano do Jinjer, passando pelo Torture Squad e indo à catarse coletiva do BLS com sua homenagem a Ozzy, do Killswitch Engage à festa thrash avassaladora do Tankard, do poderio do In Flames e do encerramento apoteótico do Arch Enemy com Lauren Hart e o orgulho brasileiro do Overdose. Foi um dia que provou, mais uma vez, que São Paulo é uma das capitais mundiais do metal pesado.