sexta-feira, 21 de agosto de 2026

LORNA SHORE - I FEEL THE EVERBLACK FESTERING WITHIN ME (2025)

 


LORNA SHORE
I FEEL THE EVERBLACK FESTERING WITHIN ME
Shinigami Records/Century Media - Nacional

Vamos lá... O deathcore não está no rol dos meus estilos preferidos. E também posso afirmar que não tenho por hábito ouvir algo que se encontre dentro dessa categoria. Mas os ossos do ofício, por vezes, acabam fazendo com que situações como essa aconteçam. Muitas vezes, acabo me surpreendendo positivamente. Outras tantas, confirmo o que já esperava. Porém, algumas vezes, o meio do caminho acaba acontecendo e por mais que a música se mostre um tanto repetitiva, é possível encontrar qualidade e momentos inspirados em alguns trabalhos. E esse é o caso de I FEEL THE EVERBLACK FESTERING WITHIN ME, mais recente trabalho do grupo norte-americano LORNA SHORE. Lançado em setembro de 2025, o trabalho teve a difícil missão de superar "Pain Remains" (2022), que elevou o grupo a um outro nível dentro do cenário. Se o objetivo foi atingido, fica a critério dos fãs. O que sei é que se trata de um álbum poderoso e intenso.

Will Ramos (vocal), Adam De Micco (guitarra solo), Andrew O'Connor (guitarra, sintetizadores, orquestrações), Michael Yager (baixo) e Austin Archey (bateria) nos trazem a fusão de deathcore com alguns arranjos orquestrados. As guitarras entregam riffs afiados e têm um cuidado maior em criar linhas melódicas que servem de contraponto ao peso da cozinha, que traz base técnica cirúrgica, alternando acelerações insanas com "breakdowns" ritmados que sustentam o clima tenso do álbum. Com relação às orquestrações, os arranjos de teclado se mostram presentes em abundância, funcionando como uma névoa sombria ao fundo de cada faixa, embora em instantes pontuais cheguem a disputar espaço com as guitarras.

O álbum abre com "Prison of Flesh", e de cara mostra o que o LORNA SHORE faz de melhor: um caos musical extremamente técnico com camadas densas, criando uma atmosfera sombria, quase opressiva, o que se mantém durante a execução de todo o álbum. Na sequência, com seus mais de 8 minutos, "Oblivion" traz uma grande variação de ritmos, quebradeiras e insanidade, e mostra a capacidade da banda em criar climas diferentes dentro de uma composição longa sem se tornar maçante. Já "In Darkness" aposta em um andamento mais cadenciado, mas ganha velocidade e camadas de teclado que transformam sua execução. "Unbreakable", também lançada como single (assim como "Oblivion"), é outro momento que as camadas de teclado ganham destaque, mesmo que o peso das guitarras perdurem durante o andamento caótico da composição. Por sua vez "Gleenwood" tem um toque bastante pessoal, pois fala do afastamento do vocalista Will Ramos de seu pai, e que segundo ele próprio, espera alcançar outras pessoas em situação semelhante. Carregada de uma carga emocional muito forte, a velocidade imposta aqui, transforma a faixa em um dos destaques do trabalho.

"Lionheart" retoma a atmosfera caótica, referendada pelos vocais urgentes e desesperados de Will, que se mostra um ótimo vocalista dentro da proposta musical do quinteto. Os teclados, mais uma vez, se mostram de forma imperativa, trazendo nuances quase psicóticas à composição. Sinos e corais iniciam "Death Can Take Me" traz os elementos do deathcore, quais sejam, guitarras insanas, velocidade da luz e vocais urrados quase desconexos. Ou seja, perfeita para os amantes do estilo! "War Machine" (nada a ver com a música do KISS), mantém a mesma linha, assim como " A Nameless Hymn". Já o encerramento vem com "Forevermore", com quase dez minutos, que sintetiza a jornada emocional e sonora do álbum. A faixa acumula camadas de teclados e arranjos de cordas sobre bateria veloz e caótica, criando um clima totalmente dramático. A transição para o trecho final traz uma sequência de desacelerações rítmicas e linhas vocais sem efeitos, terminando o disco em um estado de exaustão sonora e temática.

I FEEL THE EVERBLACK FESTERING WITHIN ME vai agradar os fãs da banda e do estilo. Se a missão era superar seu trabalho anterior, o LORNA SHORE fez aquilo que deveria: não ter medo de arriscar e agregar ainda mais insanidade à sua música. Não virei fã e nem irei comprar o disco. Mas recomendo aos amantes desse estilo pois a banda traz honestidade e personalidade naquilo que faz. E isso, seja o estilo que for, faz muita diferença.

Sergiomar Menezes




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

HEADSPAWN - SAMSARA (EP) (2026)


 

HEADSPAWN
SAMSARA
Independente - Nacional

Poucas vezes a definição de power trio foram tão literais como no caso dos paraibanos do HEADSPAWN. A sonoridade criada pelo grupo é de um peso e potência que parece que os alto-falantes não vão aguentar! Formada em 2019, a banda nos traz seu mais novo trabalho, o EP SAMSARA, uma pequena mudança de direcionamento, muito mais pela velocidade do que pela qualidade, que diga-se de passagem, se não está mais compacta, mantêm-se no mesmo nível anterior. Guitarras densas e intensas, flertando ora com o doom, ora com o sludge, mas acima de tudo, mantendo o peso do heavy metal. Se em "Parasites", seu trabalho anterior, o grupo buscava a agressividade trazendo consigo melodias marcantes e uma forte carga emocional, neste seu mais novo EP, o trio optou por manter essas características mas adicionou elementos mais obscuros e introspectivos, nos proporcionando um trabalho que além de qualidade, nos entrega sentimento e energia.

Alf Cantalice (vocal/guitarra), J.P. Cordeiro (baixo) e Marconi Jr (bateria), contaram com a produção, mixagem e masterização de Victor Hugo Targino (Cangaço, Omago, Forahneo) e nos trazem 5 faixas onde as guitarras dão o norte de um trabalho coeso e muito bem estruturado. Com novas referências em sua sonoridade, o trio não esqueceu de seu passado, mas soube agregar novos elementos e deixar sua música ainda mais densa e cheio de energia. No EP, podemos ouvir referências à Black Sabbath, Pantera, Alice in Chains, Machine Head, mas sem que a identidade do grupo sofra algum tipo de arranhão. 

E isso já fico exposto de forma direta na abertura com "Dura Mater". Com um instrumental forte, a faixa se prolonga de forma intensa, com a guitarra de Alf guiando a linha da composição, mas deixando um espaço generoso para que J.P. Cordeiro e Marcono Jr entreguem o peso necessário à estrutura da faixa. De leve, mas de leve, percebe uma pequena passagem de música brasileira, mais especificamente nordestina, em algumas passagens. A letra narra a concepção biológica, desde o encontro dos gametas até o surgimento da consciência, ressaltando o conceito do EP. "Creature" vem na sequência e, sem dúvida, deixará o mestre Tony Iommi orgulhoso! Riff arrastado, peso e uma melancolia que se estendem pela faixa com uma performance carrega de sentimento por parte de Alf. Na opinião desde que vos escreve, o grande destaque do trabalho! . A letra descreve um personagem abandonado não apenas pelos pais, mas também por uma sociedade hostil e por Deus. Já "Hive of Ghouls", possuiu uma atmosfera mais "alternativa", se assim podemos dizer. Com uma pegada próxima do Pantera, mas mantendo as nuances do doom e sludge, o peso (sei que estou soando repetitivo, mas é importante que se destaque) dita as regras. Sua letra é uma reflexão da desumanização. "Martyrdoom" começa de forma mais suave e fala sobre como a sociedade, por vezes, fica do lado de opressor, mais especificamente, no caso de feminicídio, um dos maiores problemas do Brasil nos dias atuais. Parabéns a banda pela abordagem séria e forte. Por fim, "Sleep", traz as reflexões do personagem central, analisando que deixou de viver o que gostaria, onde a dor acabou por retirar sua alegria de viver. Mais introspectiva, a faixa encerra de forma firme e intenso o trabalho.

SAMSARA é um trabalho que vem para reafirmar a posição do HEADSPAWN como um dos destaques do cenário nacional dentro do seu estilo. Um trabalho intenso, coeso e cheio de sentimento que mostra um grupo preocupado não apenas com a música, mas com todo o conceito de um trabalho. Numa "cena" tão competitiva e por vezes desonesta, isso faz diferença. E uma BAITA diferença!

Sergiomar Menezes

Foto: Renata Luna




quarta-feira, 19 de agosto de 2026

HIBRIA - ON THE SHORTNESS OF LIFE (2026)

 



HIBRIA
ON THE SHORTNESS OF LIFE
Marquee Avalon - Importado

Ao celebrar 30 anos de história, o HIBRIA comemora essa data de forma sincera e direta, lançando seu novo trabalho: ON THE SHORTNESS OF LIFE. O lançamento chega em um momento crucial da discografia da banda, após trocas de formação e até mesmo de direcionamento. Se os mais recentes álbuns trouxeram experimentações e um lado mais voltado para o groove, ("Moving Ground" e "Me7amorphosis"), o grupo entendeu que apesar da sua identidade permanecer intacta, uma correção de rota se fez necessária.  Mais do que resgatar o passado, o álbum consegue aliar a identidade clássica do power/heavy metal técnico da banda a uma maturidade artística impressionante.

Formado por Angelo Parisotto (vocal), Abel Camargo (guitarra, co-fundador e único remanescente da formação original) Velles (guitarra), Benhur Lima (baixo) e William Schuck (bateria), o grupo buscou inspiração em “Sobre a Brevidade da Vida”, de Sêneca, um dos principais representantes do estoicismo, que parte da ideia de que a vida não é curta por natureza, mas frequentemente desperdiçada em distrações, medos, ambições e escolhas que afastam o indivíduo do presente. Para o filósofo, a liberdade está em reconhecer a finitude, concentrar-se naquilo que depende de nossas decisões e viver com consciência, virtude e propósito. Essa carga filosófica dá o tom de uma obra conceitual que foge do piloto automático comum a muitos lançamentos do gênero. Produzido por Renato Osorio (ex-Hibria, Atomic Elephant), o ábum traz a estreia oficial do vocalista Ângelo Parisotto, que entrega uma performance visceral, agressiva e técnica, criando uma identidade própria em vez de apenas imitar o passado. Dividindo o protagonismo, o guitarrista e fundador Abel Camargo comanda as guitarras com riffs intensos e harmonias que remetem à fase áurea do grupo. E aqui cabe um comentário extra: Abel mostra resiliência e persistência, ao enfrentar todas as dificuldades e não desistir, nos trazendo um trabalho técnico, mas acima de tudo, carregado de sentimento.

O álbum com "Undying", uma pedrada heavy/power como só o Hibria sabe fazer. Excelente escolha pra abertura e, na minha opinião, essa deveria ter sido escolhida como video de divulgação, pois traz aquilo que sempre fez parte das características do grupo: guitarras pesadas, baixo e bateria em sintonia e vocal alto mas intenso. Uma faixa tipicamente Hibria. Em seguida "Fire Away", que trata do enfrentamento dos seus próprios demônios, segue uma linha ainda mais agressiva, mostrando a versatilidade de Parisotto, que além de tudo, mostra personalidade ao não buscar apenas repetir o que os vocalistas anteriores fizeram, mas impõe sua identidade com vigor. "Pulse", escolhida como vídeo, é a faixa que ainda guarda semelhança com os trabalhos mais recentes, pois traz traços "modernos" em sua linha de composição. Ainda assim, incorpora peso e melodia em seu andamento. Já "Persist", é aquela faixa veloz e insana, com uma pegada quase thrash em seu andamento. Abel e Velles mostram sintonia e entrosamento, enquanto Parisotto demonstra, mais uma vez, capacidade técnica versátil e enérgica.

"Melting Alive" traz o peso e a melodia lado a lado, com momentos mais tradicionais em sua execução. É possível afirmar que essa seja a faixa "mais Hibria" do trabalho, mais por resgatar passagens do passado da banda do que por se diferenciar do restante do tracklist. "Against the Wall", começa de forma mais intimista, introspectiva, mas recebe uma dose generosa de peso e se transforma em um dos grandes momentos do trabalho. É daqueles momentos que unem o passado e o presente da banda com maestria, pois os toques mais atuais e o metal tradicional se encontram de forma precisa. Peso e intensidade definem "Animus", faixa que antecede "On the Shortness of Life", a faixa-título. Com seus 17 minutos, a composição se divide em 5 capítulos: "Adiaphora", "Prohairesis", "Apatheia", "Ataraxia" e "Eudaimonia". Arranjos ambiciosos, passagens teatrais, peso na medida certa e uma construção lírica densa encerram o álbum testando os limites técnicos da banda e provando que eles não têm medo de arriscar dentro de sua própria essência. Um encerramento que resume a sonoridade da banda: técnica, peso, melodia e sentimento.

ON THE SHORTNESS OF LIFE é um disco maduro, inteligente e revigorante para quem já estava com saudades do verdadeiro som do HIBRIA. O álbum é a prova de que uma banda com 30 anos de história pode olhar para trás para entender quem é, mas sem deixar de caminhar para frente. Este trabalho devolve ao grupo o vigor, a relevância e o respeito técnico que o colocam novamente na prateleira de cima do metal nacional. Lugar, aliás, que sempre foi dela.

Sergiomar Menezes




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MOB RULES - STORIES FROM A VERDANT VALE (EP - 2026)

 


MOB RULES 
STORIES FROM A VERDANT VALE (EP)
ROAR/Reigning Phoenix Music - Importado

STORIES FROM A VERDANT VALE surgiu durante as gravações de "Rise of the Ruler" (2025), lançado pelo grupo MOB RULES. E o EP acaba se tornando uma verdadeira espécie de complemento ao que o sexteto alemão disponibilizou no ano passado. E após sua audição, fica explícito que o trabalho não serve apenas como um complemento ao full lenght, mas tem vida e características próprias. E a versão em vinil, disponibilizada pela ROAR/Reigning Phoenix Music, traz ainda mais cinco faixas gravadas em 2014.

Formada por Klaus Dirks (vocal), Sven Lüdke (guitarra), Florian Dyszbalis (guitarra), Markus Brinkmann (baixo), Jan Christian Halfbrodt (teclados) e Sebastian Schmidt (bateria), a banda tinha como ideia inicial, utilizar algumas composições como material adicional na edição especial do álbum. Entretanto, em vez de recorrer a demos, sobras ou versões alternativas, a banda alemã resolveu fazer algo muito mais interessante: compor músicas novas. O resultado agora ganha vida própria. A produção de Markus Teske merece uma citação especial, pois deixou a sonoridade do EP com a clareza necessária para que cada elemento seja percebido sem retirar da música sua característica pesada. As guitarras permanecem protagonistas e pesadas (dentro do estilo proposto pela banda), mas os teclados não são relegados a um papel meramente decorativo.

Em aproximadamente dezessete minutos, o MOB RULES apresenta cinco músicas que atravessam diferentes atmosferas: a introdução narrativa de “Savage Land Reprise”, que remete diretamente a "Savage Land", trabalho lançado pelo grupo em 1999, a agressividade direta de “Master Of The Black Crow”,  curta, agressiva e objetiva,  a teatralidade de “Masquerade Ball”, com suas guitarras melódicas, teclados acrescentando profundidade e uma cozinha que mantém tudo pesado sem transformar a música em um exercício de velocidade,“Above The Maelstrom”, uma balada melancólica e atmosférica e a força de “Balance Of Power”, onde as guitarras de Sven Lüdke e Florian Dyszbalis fornecem o peso, os teclados de Halfbrodt acrescentam dimensão atmosférica e Sebastian Schmidt mantém a música numa pegada intensa. 

Já a versão em vinil reúne reúne cinco gravações originalmente associadas ao material de 2014: “Celebration Day”, com Bernhard Weiß; “Insurgeria”, com Udo Dirkschneider; “Coast To Coast”, com Chity Somapala; “End Of All Days”, com Amanda Somerville; e “Broken”. Essas gravações ajudam a estabelecer uma ponte entre diferentes períodos da trajetória do sexteto.

STORIES FROM A VERDANT VALE nasceu como material complementar. Mas graças ao empenho e capacidade criativa dos alemães, acabou virando mais um capítulo na trajetória do MOB RULES.

Sergiomar Menezes






SINNER - BOOM BANG GOODBYE (2026)

 


SINNER
BOOM BANG GOODBYE
Reigning Phoenix Music - Importado

Existem discos que chegam ao mundo para dar início a alguma coisa. Outros chegam para provar que uma banda ainda tem muito a dizer. E existem aqueles que carregam sobre os ombros uma tarefa muito mais difícil: dizer adeus. BOOM BANG GOODBYE, o mais recente trabalho do SINNER, lançado lá fora pela Reigning Phoenix Music, pertence a essa última categoria. E diferentemente de outras audições, existe uma história inteira escondida atrás dessas onze faixas. Mat Sinner, o mastermind por trás da "banda", construiu sua trajetória desde o início dos anos 1980, atravessando décadas, mudanças de formação, tendências, crises da indústria e transformações profundas no heavy metal. Agora, ao colocar um ponto final nessa história, o baixista e produtor poderia ter reciclado velhas fórmulas, chamado meia dúzia de amigos e encerrado a carreira de maneira protocolar. Felizmente, não foi isso que aconteceu. Seu último trabalho soa como uma despedida feita por alguém que ainda ama profundamente aquilo que está deixando para trás.

Para este encerramento de carreira, Mat Sinner mais uma vez reuniu um elenco de companheiros de longa data e músicos excepcionais. Alex Scholpp (guitarra), Mathias “Don” Dieth (guitarra, retornando ao SINNER)  e Moritz Müller (bateria) são a base do álbum, acompanhados por Jim Müller (KISSIN’ DYNAMITE), Lisa Müller e Magnus Karlsson, que trabalhacom Mat Sinner há muitos anos. Nos vocais, o álbum também traz um encontro de grandes vozes. Ronnie Romero, Michael Bormann, Michael Sadler (Saga), Björn “Speed” Strid (Soilwork), Erik Mårtensson (Eclipse), Renan Zonta (Electric Mob) e Sascha Krebs trazem sua própria identidade às músicas, tornando o álbum uma despedida digna e cheia de performances vocais cheias de sentimento e técnica.

O álbum abre com "Dreams Come True",  e a escolha de Renan Zonta nos vocais foi excelente. Sua voz traz potência, personalidade e uma energia que impede a música de cair naquela mesmice que muitos vocalistas acabam por se deixar levar. Existe emoção e força em seus vocais. O título parece quase uma mensagem que Mat Sinner poderia estar dirigindo ao próprio passado: sonhos podem se realizar, desde que alguém esteja disposto a persegui-los durante décadas. A faixa traz melodia, peso e uma dose generosa de otimismo. “Wait”, cantada por Michael Bormann, é uma música que mergulha mais profundamente no hard rock melódico e apresenta uma estrutura extremamente acessível, mas sem cair na repetição desnecessária. É uma das faixas que imediatamente faz pensar no grande hard rock melódico europeu dos anos 1980, mas com produção contemporânea. Já em “Leave It All Behind”, o SINNER reduz um pouco a velocidade e aposta em uma atmosfera mais reflexiva. E a voz de Ronnie Romero (que aparece em mais duas faixas) se encaixa perfeitamente na proposta apresentada. “All Night Long” traz o hard rock de estrada: guitarras abertas, groove contagiante e refrão feito para ser cantado em coro. Ronnie Romero novamente demonstra por que se tornou uma das vozes mais requisitadas do hard rock e do heavy metal contemporâneo. “Are You Ready” aproxima o hard rock melódico da sensibilidade mais moderna de  Björn Strid (Soilwork) sem destruir a identidade da composição. E a escolha de Strid mostra que o passado está presente, e músicos de diferentes gerações ajudam a contar essa história.

“Born To Run” traz riffs diretos, melodias fortes e aquele sentimento de que a música foi feita para ser tocada em no volume mais alto possível. Enquanto isso, “Hellbreaker” está entre os momentos mais pesados do álbum e lembra que, apesar de toda a ênfase nas melodias, estamos diante de uma banda cuja história também passa pelo heavy metal. Com Michael Sadler nos vocais, “Turn The Page” ganha uma atmosfera diferente. O vocalista do Saga acrescenta uma dimensão mais sofisticada à música, e o resultado é um dos momentos mais interessantes do álbum. E o próprio título entrega: chegou a hora de virar a página... Michael Bormann retorna e entrega outro dos momentos mais emocionantes do disco. “Road To Remember” se volta ao caminho percorrido. E esse talvez seja um dos pontos em que o trabalho e ultrapassar a condição de simples álbum de hard rock/heavy metal. Porque, em determinado momento, você deixa de pensar apenas em riffs e refrões e começa a pensar na quantidade de anos, palcos, músicos, viagens e histórias que estão por trás daquele som e tudo vivido por Matt Sinner e sua banda. “Under The Moonlight” traz novamente uma atmosfera mais pesada e ajuda a preparar o terreno para o encerramento. É uma música forte e intensa, que mostra como o SINNER consegue alternar entre o hard rock melódico e o heavy metal sem parecer estar mudando de personalidade. O encerramento, não apenas do álbum, mas da carreira da banda vem com "Power". Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, e a música funciona como uma espécie de último grito de força. Não é um encerramento melancólico. É quase uma declaração: enquanto houver rock/hard/heavy, a música terá força!

BOOM BANG GOODBYE não é um álbum revolucionário. Muito pelo contrário. É um disco honesto, competente, melódico e carregado de significado, que reúne diferentes gerações do hard rock europeu para acompanhar Mat Sinner em sua despedida. Ele lembra por que o SINNER conseguiu atravessar tantas décadas sem perder sua identidade. Ao término da audição, fica aquela sensação estranha que discos de despedida conseguem provocar: a certeza de que a história acabou — e, ao mesmo tempo, a sensação de que aquelas músicas continuarão tocando muito depois, já que todos nós sabemos que a música é eterna. Obrigado Matt Sinner

Sergiomar Menezes










TESLA - HOMAGE (2026)

 


TESLA
HOMAGE
Frontiers Music Srl. - Importado

Se você tem familiaridade com a carreira do Tesla, sabe que desde o princípio o quinteto originário da cidade californiana de Sacramento se diferenciou dos seus pares do Hard Rock oitentista. Tanto no visual, como na sonoridade, o Tesla se aproximava mais das bandas setentistas que os influenciaram, como Led Zepellin, Ufo e Humble Pie, citando alguns exemplos. E da mesma forma, sempre pagaram tributo às suas influências.

E a gravação de covers sempre fez parte da carreira do Tesla. Já no seu álbum de estreia, “Mechanical Resonance” (1986) um dos maiores hits, “Little Suzie” é canção de uma grupo de “British Pop”, chamado PH.d, enquanto “Signs” que consta no multiplatinado álbum acústico  “Five Man Acoustical Jam” é da banda de Rock canadense Five Man Eletrical Band. Convenhamos que ambas as faixas são lembradas e conhecidas por causa do Tesla.

Em 2007, o Tesla lançou “Real To Reel” volumes 1 e 2, onde a banda repassa covers do Rock e Hard Rock dos anos 1960 e 1970, e Lynyrd Skynyrd, Aerosmith, Ufo, Alice Cooper, todos são revisitados em versões vigorosas de alguns de seus clássicos. Agora em 2026, o grupo retorna a este formato, com “Homage”. A diferença aqui em “Homage” é que o desafio é um pouco diferente, e as versões são focadas em alguns dos melhores vocalistras de todos os tempos, De Freddie Mercury a Etta James, passando por James Brown, e até o Rei do Rock n' Roll, Elvis Presley.

Todas as faixas parecem ter sido escolhidas sob medida para a voz de Jeff Keith, blueseira e cheia de sentimento. “Homage” é repleto de grandes canções, “Spread Your Wings” (Queen), “Ballad Of Curties Loew” (Lynyrd Skynyrd), “If I  Could Dream” (Elvis Presley), "I´d Rather Go Blind“ (Etta James), todas com o enfoque do Tesla, que deixam todas as faixas do álbum com um novo frescor e torna o álbum extremamente agradável de se ouvir. A abertura do álbum é com a faixa “Never Alone”, uma faixa inédita da banda, e é uma puta balada com o selo de qualidade do quinteto. Enfim, o Tesla dá sequência a sua carreira com um ótimo álbum saudando suas influências e nos brindando com mais um trabalho de muito bom gosto.

José Henrique Godoy





quarta-feira, 12 de agosto de 2026

METALLICA - METALLICA 35 ANOS


 

METALLICA (BLACK ALBUM) 35 ANOS - O DISCO QUE  MUDOU MINHA VIDA!

Eu tinha 13 anos quando ouvi o Black Album pela primeira vez. Foi meu pai quem colocou o disco pra tocar em um belo sábado de sol à tarde, e lembro exatamente do momento em que "The Unforgiven" rolou no som, eu parei de jogar videogame e fui até a sala perguntar a ele quem tocava aquela maravilha dos deuses, e então ele me mostrou um cd de capa totalmente preta, onde só se via a silhueta do nome da banda e uma serpente enrolada no canto inferior direito. Não sei explicar direito o que aconteceu comigo naquele momento, só sei que pirei e posso dizer com toda certeza que foi um divisor de águas em minha vida, pois o Fernando de antes do Black Album deixou de existir a partir daquele dia, não tinha mais volta, eu virei um fanático não só pela banda, mas pelo heavy metal em si.

E trinta e cinco anos depois do lançamento desse disco, em 12 de agosto de 1991, eu ainda sinto um pouco daquela sensação toda vez que escuto o disco até hoje.

Só depois, com o tempo, fui entender que essa reação não era exclusividade minha. O Black Album é o disco que rompeu a barreira do próprio gênero e chegou a gente que nunca tinha ouvido uma música pesada na vida. Não é exagero dizer, até porque os números dizem por si só: o disco estreou em primeiro lugar em dez países, ficou quatro semanas seguidas no topo da Billboard 200 nos Estados Unidos, e "Enter Sandman" chegou à 16ª posição da Hot 100, a parada pop mais importante do mundo, numa época em que praticamente nenhuma banda de metal flertava com esse território. Gente que nunca tinha comprado um disco de metal na vida comprou esse. Isso é raro. Isso é histórico.

Tem gente que fala mal desse disco até hoje, que xinga o Bob Rock, que diz que o Metallica vendeu a alma naquele ano pra virar banda de estádio. Eu entendo o argumento, conheço a história, sei que a produção mais limpa e as músicas mais curtas foram uma aposta calculada pra alcançar um público maior depois da tijolada (no bom sentido) que foi ...And Justice for All. Mas sinceramente, esse argumento nunca colou comigo. Porque sem esse disco, sem essa suposta "venda de alma", eu não estaria aqui hoje escrevendo sobre uma das coisas que mais amo na vida. Ele foi meu marco zero.

"The Unforgiven" tem aquele clima de faroeste, uma melancolia pesada que não é fácil de explicar pra quem não é fã do gênero. Acho que foi exatamente essa mistura de peso com um quê de tristeza que me pegou aos 13 anos. Já "Nothing Else Matters" é outra história. Nasceu quase por acidente, com Hetfield falando que era uma música feita para uma namorada na época, achando aquilo pessoal demais pra virar música da banda, até Ulrich ouvir a música e insistir que ela precisava ser gravada no disco e não deu outra, o “Anão” acertou (de novo). Não é à toa que até hoje ela segue sendo regravada e tocada em todo tipo de contexto, décadas depois de ter nascido de uma ligação particular.

Não preciso ficar comentando faixa por faixa aqui, até porque todo mundo já conhece esse disco de cor. Mas não posso deixar de admitir uma coisa: mesmo gostando de tudo sem exceção, e mesmo tendo sido "The Unforgiven" a minha porta de entrada, a melhor música do disco pra mim continua sendo "Wherever I May Roam". E não é pouca coisa dizer isso de um álbum que, de doze faixas, colocou seis como single ao longo de 2 anos de divulgação, contando o lançamento promocional de "Don't Tread on Me". Poucos discos de heavy metal conseguiram esse tipo de proporção entre faixa e hit.

E não é só questão de saudosismo, ou de eu ter ouvido isso aos 13 anos com os olhos brilhando. Pra mim, até hoje, é o disco mais bem produzido da história do heavy metal. Bob Rock levou o Metallica pra um patamar de produção que nenhuma banda do gênero tinha alcançado até então: guitarras enormes, mas ainda assim limpas, uma bateria que soa gigante sem perder o peso, arranjos que respiram, como a base de cordas discreta em "Nothing Else Matters" ou o clima quase cinematográfico de "The Unforgiven". Isso sem falar da composição, muito mais madura e econômica que qualquer coisa que a banda tinha feito antes. Não é à toa que até hoje engenheiros de som, produtores e bandas de heavy metal e hard rock citam esse disco como referência técnica, não só de som, mas de como compor e arranjar uma música pesada pra ela funcionar em qualquer contexto.

A partir dali, virei fanático. Corri atrás de tudo que existia de Metallica, descobri "Kill 'Em All", "Ride the Lightning", "Master of Puppets", e de lá fui pra Slayer, Exodus, Iron Maiden, Judas Priest, Black Sabbath, etc. O Black Album não foi só um disco bom que eu ouvi quando era moleque. Foi a porta de entrada pra tudo que eu sou hoje como fã e como alguém que escreve sobre heavy metal.

Trinta e cinco anos depois, o disco ainda segue batendo recordes. Em maio de 2025 a RIAA certificou o Black Album como Double Diamond, mais de 20 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos, o primeiro álbum de heavy metal da história a chegar nessa marca. Segue sendo, até hoje, o marco zero de gente que nem tinha nascido quando ele saiu. E o Metallica sabe disso, pois em pleno M72 World Tour, as músicas do disco ainda continuam com presença garantida no repertório, show atrás de show. E assim será eternamente, até o dia em que a banda se aposentar.

Talvez essa seja a explicação mais simples do porquê esse disco importa tanto. Não é sobre thrash raiz contra Metallica "vendido". É sobre quanta gente, como eu, teve o próprio marco zero através dele. Trinta e cinco anos depois, Black Album ainda me faz sentir do mesmo jeito que aquele moleque de 13 anos ouvindo o pai colocar o disco pra tocar.

Long Live MetallicA!

Fernando Aguiar

terça-feira, 11 de agosto de 2026

NAZARETH - LATIN AMERICA HITS TOUR - 26/07/2026 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 


NAZARETH
Abertura: PHORNAX
LATIN AMERICA HITS TOUR
26/07/2026
BAR OPINIÃO
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Opinião Produtora/Top Link Music

Texto e fotos: José Henrique Godoy

Nazareth não é banda que só se escuta em fuscas”... Eu li esta frase, ao mesmo tempo pitoresca, confusa e meio sem sentido, naquele site que era o maior portal de noticias sobre Rock e Metal, há uns vinte anos... Lembro que na ocasião eu ri bastante ao ler a tal sentença, mas depois refleti sobre ela: Era um fã tresloucado defendendo a seminal banda escocesa da “acusação” de serem “bregas” pela quantidade de baladas constantes nas sua discografia, ou algo que o valha... Nada contra fuscas, pois ainda quero ter um, mas depois de pensar a frase fazia sentido, e era justa. O Nazareth é, foi e sempre será uma puta banda de HARD ROCK/ROCK N' ROLL!!!

Resolvi fazer essa introdução, pois toda a vez que penso no Nazareth, essa frase me vem a cabeça. Mas vamos ao que interessa, e relatar sobre esta nova visita dos escoceses ao Brasil, banda que tem muito carinho por eles, e vice-versa, tendo em vista a quantidade de tours que eles fizeram por aqui ao longo das décadas. Desta vez, com um novo vocalista: o suiço Gianni Pontillo. E aqui era o foco principal da atenção de todos os fãs: seria capaz o “cara novo” substituir minimamente o insubstituível Dan McCafferty?

A abertura da noite ficou com a banda gaúcha Phornax, que entrou no palco as 19h55 e entregou um show vigoroso e forte, com seu Power/Heavy Metal que vem se destacando no cenário nacional. O Phornax foi responsável por todos os shows de abertura da Tour do Nazareth no Brasil. Após 40 minutos, a banda se despede e agradece a ótima recepção do excelente público que tomava quase a totalidade dos espaços do Opinião.


Às 21h10, as luzes se apagam, e a intro com sons de gaitas de fole tradicionais da Escócia são ouvidas. Aos poucos os integrantes adentram o palco com a clássica faixa de abertura dos shows do Nazareth, na maioria das suas tours de 1976 para cá: “Telegram” inicia o espetáculo. Do lado esquerdo do palco, Pete Agnew, o baixista e único membro original, com seu baixo poderoso, óculos escuros e um sorriso que permaneceu no seu rosto do primeiro ao último acorde. Ao lado direito, Jimmy Murrison, o guitarrista do Nazareth desde 1994, e a sua postura “rocker-até-o-talo” . Ao fundo Lee Agnew, o baterista e filho de Pete, firme, pesado e seguro, dando a cadência do Nazareth. E lembram do cara novo, o tal Gianni? Pois bem, se havia dúvidas se ele era capaz de liderar a voz do Nazareth, após alguns minutos a dúvida se transformou em certeza absoluta.

O grande Dan McCafferty deixou o Nazareth em 2013, por motivos de saúde e ele foi substituído por Carl Sentance, até 2025. Carl era um bom vocalista, gravou discos e fez várias tours, porém sempre quis deixar a sua marca própria na banda. Já Gianni parece não querer nada além de manter o legado de Dan intacto e trazer o velho espírito do Nazareth de volta. E conseguiu!




O som estava perfeito, se ouvia perfeitamente todos os instrumentos, todos os clássicos foram executados com suprema perfeição: “Miss Misery”, “Razamanaz”, “Dream On”, “Holyday”, ”Changin Times”, do mais que clássico “Hair Of The Dog” (este álbum teve cinco faixas executadas, no total de dezessete, é verdadeiramente a Obra-Prima do Naz) teve uma versão extendida, onde Jimmy exibiu toda a sua técnica e habilidade com a guitarra. Sim, “Hair Of The Dog” e “Love Hurts” foram executadas e cantadas a plenos pulmões por todo Opinião, comandado por Gianni, que além de excelente vocalista, é um ótimo frontman. Inacreditável pensar que ele está na banda há apenas cinco meses.

Após noventa minutos, o Nazareth encerra seu excelente show com “Go Down Fighting”, do também clássico álbum de 1973, "Loud n' Proud". Uma sensação incrível ver o sorriso e as caras felizes de todos saindo do Opinião, fossem eles senhores na casa dos setenta anos, ou a garotada nova que vai atrás pesquisar sobre os grandes do Rock e ainda tem a sorte de poder ver alguns deles na ativa, como o Nazareth. Lembram da frase que abri esse texto? Ela é correta, mas eu me permito ajustá-la: “Nazareth não é banda só para se ouvir em fuscas. É pra se ouvir em qualquer lugar, pois sua obra é eterna!” Longa vida ao Nazareth, e que retornem ano que vem, como prometeram!





segunda-feira, 10 de agosto de 2026

RATT - DANCING UNDERCOVER 40 ANOS


 

OS 40 ANOS DE "DANCING UNDERCOVER", O CLÁSSICO SUBESTIMADO DO RATT


Lançado em agosto de 1986, Dancing Undercover, o terceiro álbum de estúdio do Ratt, chegou às prateleiras em um momento em que o glam metal e o hard rock viviam sua era de ouro. Naquele ano, nomes como Bon Jovi (Slippery When Wet), Europe (The Final Countdown) e Poison (Look What the Cat Dragged In) disputavam o topo das paradas e a veiculação direta de seus clipes na MTV.

Seguir o sucesso colossal de "Out of the Cellar" (1984) e "Invasion of Your Privacy" (1985) — ambos venderam milhões e foram alguns dos pilares estéticos do movimento de Los Angeles, e se pararmos pra pensar, lançados de forma regular — não era uma tarefa simples. O Ratt estava no olho do furacão, sob pressão extrema da gravadora Atlantic Records e de seu management para repetir a dose de hits instantâneos como "Round and Round" e "You Think You're Tough".

Quatro décadas após sua chegada, Dancing Undercover ressurge não apenas como um retrato fiel da Sunset Strip nos anos 80, mas como um trabalho fascinante de transição: um disco que trocou parte do apelo comercial óbvio por uma abordagem mais rítmica, crua e melancólica, consolidando-se como um dos tesouros mais injustiçados da discografia da banda.


Para a gravação do álbum, que ocorreu nos lendários estúdios Village Recorders, em Los Angeles, o Ratt manteve a fórmula vencedora ao lado do produtor Beau Hill. No entanto, os bastidores escondiam turbulências.

Conforme relatado posteriormente pelo baterista Bobby Blotzer, a banda foi jogada no estúdio sob forte pressão contratual e de agenda antes mesmo de o material estar totalmente lapidado. Havia depósitos financeiros não reembolsáveis em estúdios caríssimos, o que obrigou o quinteto — formado por Stephen Pearcy (vocais), Robbin Crosby (guitarra), Warren DeMartini (guitarra), Juan Croucier (baixo) e Bobby Blotzer (bateria) — a compor e arranjar sob o cronômetro.

Ironicamente, essa urgência e tensão criativa forçaram o grupo a explorar novos caminhos. Enquanto os dois primeiros álbuns focavam em refrãos explosivos e riffs diretos, "Dancing Undercover" revelou um foco maior na melodia e "seriedade". A cozinha formada por Blotzer e Croucier ganhou um destaque impressionante, injetando um balanço quase "dançante" (daí o irônico título do álbum) à base pesada de guitarras.

O álbum abre com "Dance", escolhida como o primeiro single e cartão de visitas da era. Com um riff marcante de DeMartini e Crosby e um videoclipe de forte presença na MTV (que garantiu aparições até na cultuada série Miami Vice), a faixa estabelece o tom rítmico do disco. Ela não tem a audácia imediata de "Round and Round", mas compensa com um refrão astuto e uma batida contagiante.

Em seguida, "One Good Lover" e "Drive Me Crazy" mantêm a energia alta. A primeira destaca a assinatura vocal rouca e arrastada de Stephen Pearcy, enquanto a segunda acelera o tempo, mostrando a habilidade de Blotzer na bateria e solos cortantes que lembram o melhor do heavy metal tradicional fundido à atitude de rua de Hollywood. Nunca é demais lembrar que uma das principais influências do quinteto era o Judas Priest...

Um dos pontos altos do disco é "Slip of the Lip", uma faixa cheia de malícia que exibe a perfeita simbiose entre as guitarras gêmeas de DeMartini e Crosby — uma dinâmica que rivalizava diretamente com a de duplas lendárias do rock. Logo depois vem "Body Talk", uma das músicas mais pesadas e viscerais gravadas pelo Ratt, escolhida para a trilha sonora do filme "The Golden Child", no Brasil, " O Rapto do Menino Dourado", (1986), estrelado por Eddie Murphy.

Já a segunda metade do álbum mergulha em cortes profundos que os fãs mais dedicados consideram o verdadeiro coração do disco: "Looking for Love" e "7th Avenue" trazem uma atmosfera urbana e noturna, onde a técnica refinada de Warren DeMartini nos solos ganha espaço de destaque sem perder a pegada pop. "It Doesn't Matter" e "Take a Chance" mantêm a consistência da parceria de composições entre Croucier, Pearcy e DeMartini. O encerramento fica por conta de "Enough Is Enough", fechando o alinhamento de 34 minutos de duração com uma descarga direta de hard rock.


Uma curiosidade interessante sobre "Dancing Undercover" é a ausência intencional de uma power ballad tradicional. Na metade dos anos 80, o mercado era fortemente impulsionado por baladas que tocavam nas rádios FM e atraíam o público geral (como "Home Sweet Home" do Mötley Crüe ou "Alone" do Heart). O Ratt havia flutuado com baladas melancólicas antes, mas optou por manter "Dancing Undercover" inteiramente calcado em faixas de andamento médio e rápido, com foco na eletricidade do "rock street".

Essa decisão artística, somada a um leve cansaço do público com o excesso de bandas similares no mercado em 1986, fez com que o álbum não alcançasse os mesmos patamares estratosféricos de vendas imediatas de seus antecessores. Embora tenha estreado bem, alcançado o Top 30 da Billboard 200 e garantido mais um disco de Platina pela RIAA, representou o primeiro sinal de estabilização comercial para o grupo.

Outro ponto curioso e interessante de "Dancing Undercover" é sua capa. Na foto, os integrantes estão separados por linhas brancas. A vida inteira eu sempre vi isso como realmente linhas. No entanto, meu amigo Tarcísio Chagas me atentou para o simples fato de que as tais linhas, seriam carreiras de cocaína, numa clara alusão ao que acontecia internamente com o grupo.

Com o passar das décadas, a percepção sobre Dancing Undercover mudou drasticamente entre críticos e entusiastas do gênero. Se na época alguns torceram o nariz por achá-lo linear, hoje ele é frequentemente reavaliado como o álbum mais coeso e tecnicamente afiado do Ratt.

Envolvidos por uma produção cristalina típica da época, os arranjos de guitarra de Robbin Crosby e Warren DeMartini soam impecáveis, servindo de referência e influência para guitarristas de hard rock. Além disso, a sonoridade do álbum evitou cair na pieguice que arruinou comercialmente muitas bandas do gênero no final daquela década.

Completar 40 anos é celebrar a resiliência de um momento em que o Ratt, mesmo sob intensa pressão da indústria, recusou-se a soar genérico e entregou um disco intenso, cheio de atitude e eletricidade. Dancing Undercover permanece eternizado como um monumento à era de ouro de Los Angeles — um clássico atemporal que continua a convidar o ouvinte para a atmosfera, por vezes, sombria e magnética do hard  oitentista.

Sergiomar Menezes



sexta-feira, 31 de julho de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - AC/DC

 



Ranquear os álbuns do AC/DC nunca é uma tarefa fácil, principalmente sabendo que não existem discos ruins ou medíocres na carreira do grupo. E piorou ainda mais, quando você é fã da banda. Minha experiência com a dela discografia, foi um pouco diferente da maioria as pessoas. Comecei conhecendo o ao vivo de 92 e o "Highway to Hell" e só depois, já na adolescência, fui descobrindo os clássicos das décadas de 1970 e 1980.

Numa época em que não existiam streaming nem a facilidade da internet como temos hoje. Para conhecer um álbum, era preciso comprar o CD, e como o dinheiro era curto, montar uma discografia era quase impossível. Talvez por isso este ranking seja diferente de muitos que você já viu pela internet. Algumas posições podem parecer polêmicas, mas todas refletem a minha relação pessoal com esses discos.

Antes de começar, vale explicar os critérios. Não vou considerar "Who Made Who", embora a faixa título tenha uma das melhores músicas do grupo, mas por se tratar de uma trilha sonora/coletânea. Também não falaremos do o EP "'74 Jailbreak", que traz faixas dos primeiros discos não lançadas nas versões americanas. E por útimo (infelizmente) deixarei de fora as versões exclusivas australianas de "High Voltage" e "T.N.T", e utilizarei apenas o "High Voltage" da versão internacional (a convencional) que reuniu as principais músicas dos dois álbuns e se tornou o lançamento oficial para o restante do mundo. Assim, mantenho um único critério durante todo o ranking.

Leandro Isoppo – Alma Hard



16º – Fly on the Wall



Abrindo o ranking, Fly on the Wall.
Um dos álbuns mais controversos da carreira do AC/DC, mesmo não sendo um disco fraco, mas talvez, confuso. Fez muito sucesso aqui no Brasil por se tratar do disco da turnê que sucede a primeira vinda do AC/DC ao país, na primeira versão do lendário Rock In Rio.
O principal problema, na minha opinião, está na produção. As guitarras e, principalmente, a voz de Brian Johnson ficaram excessivamente abafadas, deixando o som menos barulhento ou definido do que poderia. Não soa nem cru como os discos dos anos 70 e nem polido como os clássicos dos anos 80. Ainda assim, o disco entrega ótimos momentos, como "Fly on the Wall", "Shake Your Foundations" e "Sink the Pink".
Em meados dos anos 80, o hard rock e o hair metal dominavam o mercado. O AC/DC até incorporou discretamente alguns elementos daquela época, mas sem renunciar a sua identidade. Em compensação, essa fase rendeu alguns dos videoclipes mais divertidos da carreira do grupo, que ajudam a tornar esse período bastante marcante.

15º – Power Up



Na décima quinta posição está Power Up, o trabalho mais recente do AC/DC. Lançado em 2020, em plena pandemia, o álbum teve enorme repercussão mundial e mostrou que, mesmo após quase cinco décadas de carreira, a banda ainda era capaz de lançar um disco forte, inspirado e relevante, mesmo sem seu líder Malcom Young, falecido 3 anos antes.
Um dos grandes destaques ficam por “Shot in the Dark” e "Through the Mists of Time", considerada por muitos fãs uma emocionante homenagem a Malcolm. Embora isso nunca tenha sido confirmado oficialmente pela banda, essa interpretação faz bastante sentido diante da carga emocional da canção.
Por ser um álbum relativamente recente, ainda não tive tempo de criar com ele a mesma ligação que desenvolvi com os grandes clássicos da discografia. Mesmo assim, considero Power Up um retorno extremamente digno da história do AC/DC., mas assim como os demais, acredito que num futuro próximo ele pegará melhores posições.

14º – Black Ice



Em seguida aparece Black Ice, um álbum pelo qual tenho um carinho especial.
Foi durante a turnê desse disco que o AC/DC voltou ao Brasil em 2009 no Estádio Morumbi em São Paulo, e tive a oportunidade de assistir ao show. Além disso, acabou sendo o último álbum de estúdio e a última grande turnê com Malcolm Young antes de seu afastamento definitivo.
Depois de oito anos sem lançar um trabalho de inéditas, a banda retornou em grande estilo. O disco trouxe músicas marcantes como "Rock 'n' Roll Train", "War Machine", "Big Jack" e a faixa-título. O sucesso foi enorme. Black Ice vendeu milhões de cópias em todo o mundo, alcançou o primeiro lugar em diversos países e recolocou o AC/DC entre os maiores nomes do rock mundial.

13º – Rock or Bust



Lembro que na época do lançamento, o CD chegou ao Brasil por um preço bastante acessível e ainda trazia uma capa lenticular muito bonita, um detalhe que chamava bastante atenção dos fãs.
O disco também marcou o primeiro trabalho da banda sem Malcolm Young nas gravações, afastado em razão do avanço da demência. Seu lugar foi ocupado pelo sobrinho Stevie Young, que já havia substituído Malcolm em outras ocasiões. Mesmo assim as composições dos irmãos registaram grandes momentos como a faixa título, Dogs of War e "Miss Adventure". Outro grande destaque fica pela voz de Brian Johnson, que parece soar mais jovem do que os trabalhos anteriores, e por ironia, ele teria problemas de audição durante a turnê deste disco e precisaria de afastar dando lugar ao Axl Rose que fez ótimas apresentações com o grupo.
Por pouco não está na lista dos excelentes, talvez falte mais umas 10 ouvidas para garantir essa marca. Um disco que quanto mais se ouve, melhor fica.

12º – The Razors Edge



A partir daqui entramos na elite do AC/DC. Um grupo de álbuns no mínimo excelentes e que a maioria das bandas sonharia em ter gravado ao menos uma única música.
O primeiro deles é The Razors Edge, representa o grande renascimento comercial do AC/DC. Depois de alguns anos sem repetir o enorme sucesso alcançado no início da década de 1980, a banda voltou ao topo graças à excelente produção de Bruce Fairbairn que orientou todas as bandas de sucesso dos anos 80 como Aerosmith, Bon Jovi e Poison, além do forte apoio da MTV.
Grande parte desse impacto veio de "Thunderstruck", uma das músicas mais conhecidas da história do rock. Ela ultrapassou o universo do AC/DC e passou a fazer parte de eventos esportivos, filmes, comerciais e programas de televisão em praticamente todos os cantos do planeta. Outros clássicos do disco ficam por conta de "Moneytalks", "Are You Ready", "Fire Your Guns", "Mistress for Christmas" e "Rock Your Heart Out" mostram um AC/DC extremamente inspirado.
O único motivo para o álbum não aparecer entre os meus seis favoritos é justamente o tamanho que se deu à "Thunderstruck. A música acabou se tornando tão gigantesca que, em muitos momentos, ofusca um pouco o restante do repertório, que também é excelente. Outra questão pessoal, é a falta de peso das guitarras nesse disco, ficando muito melhores no registro ao vivo de 92 lançado em CD.
Isso, porém, não diminui em nada a importância de The Razors Edge. Além de recolocar a banda no topo das paradas, o disco foi responsável por apresentar o AC/DC a uma nova geração de fãs e consolidar novamente seu lugar entre os maiores nomes do rock mundial.

11º – Dirty Deeds Done Dirt Cheap



“Dirty Deeds...”, embora tenha sido lançado originalmente na Austrália em 1976, ele só chegou oficialmente ao mercado americano em 1981, aproveitando o enorme sucesso de Back in Black.
Outro detalhe é que a edição internacional acabou deixando de fora "Jailbreak", uma das melhores músicas da fase de Bon Scott. Se essa faixa tivesse permanecido no repertório, acredito que o álbum subiria algumas posições no meu ranking.
Mesmo assim, continua sendo um disco fantástico, impulsionado por clássicos como "Dirty Deeds Done Dirt Cheap", "Problem Child", "Ride On".
E lembrando que a primeira música que ouvi da banda foi a faixa título e tenho um carinho especial por ela.

10º – Stiff Upper Lip



Stiff Upper Lip, um álbum que resgata de forma muito evidente as raízes blues do AC/DC.
Produzido por George Young, irmão mais velho de Angus e Malcolm, o disco apresenta uma sonoridade orgânica, limpa e extremamente fiel à essência da banda.
Foi um lançamento que ouvi inúmeras vezes e que marcou o retorno do AC/DC aos holofotes no início dos anos 2000, junto com o avanço da internet e os canais de música VH1 e MTV impulsionaram o ótimo desempenho dele.
Além da excelente faixa-título, gosto muito de "Satellite Blues" e "Safe in New York City". Outro detalhe curioso é "Can't Stand Still", que traz um raro solo de guitarra executado por Malcolm Young, algo pouco comum ao longo da história da banda.
Talvez não seja um álbum tão lembrado quanto alguns clássicos dos anos 70 e 80, mas sempre enxerguei nele uma personalidade muito própria. É um disco maduro, seguro e que envelheceu muito bem.

9º – High Voltage



Na nona posição, High Voltage e vale reforçar que estou falando (infelizmente) da versão internacional lançada em 1976. Criado para apresentar o AC/DC ao restante do mundo, o álbum reuniu músicas dos discos australianos High Voltage e T.N.T., funcionando praticamente como um cartão de visitas da banda fora da Austrália.
É verdade que algumas ótimas faixas acabaram ficando de fora, como "Show Business", "Stick Around" e "Baby, Please Don't Go". Ainda assim, o resultado é excelente e reúne vários dos primeiros clássicos do grupo.
Na minha opinião, se todo o material dos dois álbuns australianos tivesse sido reunido em um único lançamento, estaríamos falando de um dos maiores discos de toda a carreira do AC/DC. Mesmo da forma como foi lançado, High Voltage cumpriu perfeitamente sua missão de apresentar ao mundo uma banda que, poucos anos depois, mudaria a história do rock.

8º – Ballbreaker



Ballbreaker é um dos álbuns mais emblemáticos do grupo, tanto pelo inédito encarte com animações da Marvel, algo que havia virado moda nos anos 90 com discos como "The Last Tempation" do Alice Cooper. E pela vinda da banda na Pedreira Paulo Leminski em Curitiba no ano seguinte ao lançamento do álbum.
Lançado em 1995, o disco marcou o retorno do baterista Phil Rudd, afastado da banda havia mais de uma década, além de apresentar uma sonoridade pesada, seca e direta, muito influenciada pela produção de Rick Rubin.
Faixas como "Hard as a Rock", "Cover You in Oil", "Hail Caesar" e a própria "Ballbreaker" mostram uma banda cheia de energia e confiança e na minha opinião, continua sendo um dos trabalhos mais subestimados de toda a discografia do AC/DC. Talvez se a faixa Big Gun, da trilha sonora do Last Action Hero, tivesse sido lançada junto ao trabalho, ele seria um dos maiores registros deles.

7º – Powerage



Na 7ª posição aparece Powerage, e aqui eu sei que muita gente vai discordar.
Para muitos fãs, até para músicos como Slash, Eddie Van Halen e Keith Richards, este é o melhor álbum da carreira do AC/DC. E não é difícil entender o motivo. Trata-se de um disco pesado, cru e com uma atmosfera mais sombria do que a maior parte da discografia da banda.
Ao contrário de outros trabalhos, Powerage não foi construído em torno de grandes sucessos radiofônicos, mas sim como uma obra extremamente consistente do início ao fim. Ainda assim, "Sin City" acabou se tornando um clássico absoluto, ao lado de faixas como "Riff Raff", "Down Payment Blues", "Gone Shootin'" e "Rock 'n' Roll Damnation".
Outro aspecto interessante envolve as diferentes versões do álbum. Algumas prensagens internacionais apresentaram alterações na ordem das faixas, nas mixagens e até na inclusão de "Cold Hearted Man", tornando Powerage um dos discos mais curiosos da carreira do AC/DC para quem gosta de colecionar diferentes edições.
Quanto mais escuto esse álbum, mais admiro sua qualidade. Não duvido que, com o passar dos anos, ele ainda suba algumas posições no meu ranking.

6º – Blow Up Your Video



Talvez aqui esteja a escolha mais polêmica de toda a lista.
Blow Up Your Video costuma aparecer entre os últimos colocados em muitos rankings, mas, para mim, sempre teve um significado muito especial. Foi apenas o segundo álbum de estúdio do AC/DC que tive em CD e marcou uma fase importante da minha descoberta da banda.
As duas primeiras faixas, "Heatseeker" e "That's the Way I Wanna Rock 'n' Roll", já mostram um AC/DC cheio de energia. Sempre tive a impressão de que, nesse disco, a banda conseguiu fazer aquilo que não funcionou tão bem em Fly on the Wall: modernizar discretamente sua sonoridade sem renunciar à identidade construída ao longo da década.
A produção de Harry Vanda e George Young devolveu equilíbrio ao som da banda, aproximando novamente o AC/DC de sua essência.
Além dos singles, o álbum reserva ótimas músicas menos lembradas, como "Mean Streak", "Nick of Time" e "Go Zone".
Mas o meu grande destaque sempre será "Two's Up". Para mim, trata-se de uma das canções mais subestimadas de toda a carreira do AC/DC. Ela cresce de forma gradual, constrói uma atmosfera diferente e entrega um dos melhores solos de guitarra daquele período.
Sempre enxerguei Blow Up Your Video como um disco de reconstrução. Foi nele que o AC/DC começou a recuperar o fôlego que culminaria, poucos anos depois, no enorme sucesso de The Razors Edge.

5º – For Those About to Rock (We Salute You)



Abrindo o meu Top 5 consta o “For Those...”, nem sempre lembrado, mas com muita personalidade
Foi o segundo trabalho gravado com Brian Johnson e novamente contou com a produção impecável de Robert John "Mutt" Lange. É verdade que ele nunca alcançou o impacto histórico de Back in Black, mas entrega um som poderoso, extremamente consistente e com identidade própria.
A faixa-título tornou-se um dos maiores hinos da banda e passou a encerrar praticamente todos os shows do AC/DC ao som dos famosos canhões, criando um dos momentos mais marcantes da história do rock.
Além dela, gosto muito de "Put the Finger on You", "Let's Get It Up", "Inject the Venom", "Snowballed" e "Evil Walks". É um daqueles discos que consigo ouvir do início ao fim sem encontrar qualquer ponto fraco.
A icônica capa com o enorme canhão também entrou para a história e se tornou uma das imagens mais reconhecidas do AC/DC.
Outro feito importante foi alcançar o primeiro lugar da Billboard 200, tornando-se o primeiro álbum da banda a atingir o topo da principal parada americana, impulsionado pelo gigantesco sucesso de Back in Black. Nunca receberá o mesmo reconhecimento dos dois clássicos que o cercam, mas, para mim, merece tranquilamente um lugar entre os maiores momentos da carreira do AC/DC.

4º – Let There Be Rock



Let There Be Rock, um dos discos mais importantes da história do AC/DC.
Se existe um álbum capaz de representar a essência da banda, provavelmente é este. Peso, energia, riffs marcantes e rock and roll em seu estado mais puro. O AC/DC soa completamente livre, sem concessões e sem qualquer preocupação em seguir tendências.
A faixa-título é uma verdadeira explosão de energia. Para a época, impressionava pela intensidade e pela agressividade, antecipando características que, pouco tempo depois, seriam exploradas com ainda mais força pelo heavy metal.
Mas o álbum está longe de depender apenas dessa música. Clássicos como "Whole Lotta Rosie", "Hell Ain't a Bad Place to Be", "Go Down" e "Bad Boy Boogie" formam um repertório praticamente impecável.
Outro ponto que sempre me chama a atenção é a crueza da produção. Diferentemente dos trabalhos produzidos por Robert John "Mutt" Lange alguns anos depois, aqui tudo soa mais espontâneo, pois a banda gravou o disco ao vivo dentro do estúdio.
É um disco indispensável para entender por que o AC/DC se tornou uma das maiores bandas da história do rock.

3º – Flick of the Switch



Agora chegamos a outra escolha polêmica deste ranking.
É muito comum encontrar Flick of the Switch entre os últimos lugares nas listas dos fãs. Comigo aconteceu exatamente o contrário. Quanto mais ouvi esse álbum, mais passei a admirá-lo.
Depois do enorme sucesso de Back in Black e For Those About to Rock (We Salute You), a banda decidiu abandonar as grandes produções e apostar em um som mais cru, direto e sem excessos. Pela primeira vez, o próprio AC/DC assumiu integralmente a produção do disco, com Malcolm Young exercendo papel fundamental na construção daquela sonoridade seca e pesada.
O resultado é um álbum que transmite a sensação de estar ouvindo a banda ensaiando na garagem. Tudo parece espontâneo, sem camadas desnecessárias ou qualquer tentativa de agradar ao mercado.
Até os videoclipes seguiram essa filosofia, deixando de lado produções elaboradas para mostrar simplesmente o AC/DC fazendo aquilo que sempre soube fazer melhor.
Na época, a recepção foi apenas morna. A capa também dividiu opiniões e continua sendo uma das mais simples de toda a discografia.
Mas basta ouvir o disco com atenção para perceber sua qualidade. "Rising Power", "Nervous Shakedown", a faixa-título e "This House is on Fire" mostram uma banda extremamente inspirada, apostando apenas na força dos riffs e na honestidade de sua música.
Para mim, continua sendo um dos álbuns mais injustiçados da carreira do AC/DC.

2º – Back in Black



Agora chegamos a um álbum que simplesmente dispensa apresentações.
Back in Black não é apenas um clássico do AC/DC. É o segundo disco mais vendido, importante, influente da música, com vendas estimadas em mais de 50 milhões de cópias ao redor do mundo.
Curiosamente, esse foi o primeiro álbum da banda que tive em CD. Na época, eu ainda não tinha dimensão da importância histórica daquele trabalho. Somente anos depois percebi que estava diante de uma verdadeira obra-prima do rock.
Talvez o maior mérito de Back in Black esteja justamente em sua simplicidade. O AC/DC nunca quis ser uma banda excessivamente técnica ou complexa. Sua proposta sempre foi fazer rock and roll direto, pesado, baseado em grandes riffs e refrões inesquecíveis. E poucos discos conseguiram executar essa fórmula com tanta perfeição.
Também é importante lembrar que esse sucesso não surgiu do nada. Antes dele, o AC/DC já vinha conquistando espaço em diversos países, especialmente graças ao enorme impacto de Highway to Hell. Back in Black apenas transformou esse crescimento em uma explosão mundial.
A produção de Robert John "Mutt" Lange permanece impressionante até hoje. Mesmo mais de quatro décadas depois, o álbum continua moderno, graças ao equilíbrio quase perfeito entre peso, clareza e dinâmica.
O repertório fala por si só. "Hells Bells", "Shoot to Thrill", "What Do You Do for Money Honey", "Back in Black", "You Shook Me All Night Long", "Have a Drink on Me" e "Rock and Roll Ain't Noise Pollution" fazem parte da história do rock.
Mas existe também um enorme componente emocional. Back in Black foi o primeiro álbum gravado após a morte de Bon Scott e mostrou ao mundo que o AC/DC era capaz de superar a maior tragédia de sua trajetória sem perder sua identidade, embora há alguns relatos de parentes e parceiros de Bon Scott, que alegavam que grande parte destas músicas já havia sido trabalhadas com ele ainda vivo.

Mais do que um fenômeno comercial, esse disco consolidou definitivamente o AC/DC entre as maiores bandas de todos os tempos.

1º – Highway to Hell



No topo do meu ranking está Highway to Hell.
Para mim, este é o maior álbum da carreira do AC/DC. Foi nele que a banda encontrou o equilíbrio perfeito entre a energia crua dos primeiros anos e uma produção mais refinada, capaz de levá-la definitivamente ao estrelato mundial.
Grande parte desse mérito passa pelo trabalho de Robert John "Mutt" Lange. Sem descaracterizar a identidade do AC/DC, ele conseguiu tornar o som da banda mais limpo, mais preciso e extremamente acessível, preservando toda a força dos riffs de Angus e Malcolm Young.
Outra característica que sempre me chamou a atenção é o groove presente em algumas músicas. "Love Hungry Man", por exemplo, traz uma linha de baixo claramente influenciada pelo funk e pela disco music, algo pouco comum na carreira do AC/DC. Já "Touch Too Much" aposta em uma abordagem mais melódica e acessível, mostrando uma banda confiante para explorar novas nuances sem perder sua essência.
O mais impressionante, porém, é a consistência do repertório. São apenas dez faixas e praticamente todas poderiam ser consideradas clássicos.
Além da inesquecível faixa-título, o disco entrega "Girls Got Rhythm", "Walk All Over You", "Touch Too Much", "Beating Around the Bush", "Shot Down in Flames" e "If You Want Blood (You've Got It)", mantendo um nível de qualidade impressionante do início ao fim.
A capa também entrou para a história do rock. A imagem de Angus Young usando os famosos chifres acabou alimentando parte das polêmicas que cercavam o rock no final dos anos 70, quando muitas bandas passaram a ser alvo de acusações envolvendo supostas mensagens satânicas.
Mas Highway to Hell também carrega um enorme peso emocional. Foi o último álbum de estúdio gravado com Bon Scott, que morreria poucos meses depois de seu lançamento, justamente quando o AC/DC começava a conquistar de forma definitiva o mundo.
Bon Scott não chegou a testemunhar o tamanho do sucesso que a banda alcançaria dali em diante. Ainda assim, sua contribuição foi absolutamente fundamental para construir a personalidade, a atitude e a identidade que transformaram o AC/DC em um dos maiores nomes da história do rock.
A chegada de Brian Johnson e o lançamento de Back in Black escreveriam um dos capítulos mais extraordinários da música. Mas essa história só foi possível porque Highway to Hell abriu definitivamente as portas do mundo para o AC/DC.
Por tudo isso, este ocupa o primeiro lugar do meu ranking. Mais do que um álbum extraordinário, ele representa o momento em que uma grande banda se transformou em uma lenda.

Considerações finais
Como toda lista, ela reflete muito mais a minha história com esses discos do que qualquer tentativa de estabelecer uma verdade absoluta. Tenho certeza de que muitos fãs fariam mudanças importantes, talvez colocassem Powerage no primeiro lugar, elevassem The Razors Edge ao pódio ou deixassem Blow Up Your Video muito mais abaixo.
No fim das contas, talvez essa seja a maior prova da grandeza do AC/DC. Pouquíssimos artistas conseguiram construir uma discografia tão consistente, atravessar cinco décadas permanecendo relevantes e influenciar tantas gerações de músicos