18/09/2026
SESC/CANOAS
CANOAS/RS
Produção: Vini Canto (Fala Com o Vini Produtora)
Fotos: Tércia Falck
SOMEWHERE IN TIME 40 ANOS – QUANDO O IRON MAIDEN COMEÇOU A SOAR PROGRESSIVO
Entre críticas iniciais e guitarras sintetizadas: revisitando a obra-prima espacial da Donzela de Ferro
Por Mauro Antunes
O ano de 1986 foi mágico para os amantes do Heavy Metal. Obras eternas como “Master of Puppets”, “Reign in Blood”, “Russian Roulette”, “Fatal Portrait”, dentre tantas outras, viram a luz do dia há 40 anos atrás.
E, claro, o Iron Maiden não poderia ficar devendo e lançou um de seus maiores clássicos, aquele que para muitos, é seu melhor disco, “Somewhere in Time” veio ao mundo em 29 de setembro de 1986. Se é o melhor ou não, há quem concorde, há quem discorde, mas o que ninguém ousa discordar, é que temos aqui, uma obra prima em termos de capa. Quem nunca se debruçou sobre aquela capa e procurou detalhes que talvez nem mesmo o autor, Derek Riggs, imaginaria encontrar? Obviamente, que sou um deles, mas o que sempre me prendeu foi a música, como não poderia deixar de ser.
Para aqueles que são, ou conhecem bem a cidade de São Paulo, ao lado do metrô Barra Funda, nos anos 80, existia uma loja de departamentos chamada Sears, onde alguns anos depois foi construído o shopping West Plaza. Lá, eu comprei quase que em primeira mão, essa preciosidade. Pensa em um garoto de 13 anos pulando de felicidade, afinal, já naquele momento, o Iron Maiden era a banda do meu coração, e como não pude ir ao Rock in Rio no ano anterior, os discos de vinil do Iron Maiden tinham ainda mais, um valor afetivo inigualável.
Me lembro que na época, o trabalho foi muito criticado, os críticos de plantão, provavelmente aqueles que nunca foram afeitos ao Heavy Metal, descascaram o álbum até não ter mais como. Sim, a sonoridade do álbum com guitarras sintetizadas chocou os mais desatentos dos fãs.
Minha primeira impressão foi a de que o Iron Maiden deixou a rapidez e a fúria de “Powerslave” (1984) para trás, e apostou numa sonoridade mais melódica e progressiva ao mesmo tempo, algo novo para seus devotos fãs.
A introdução de “Caught Somewhere in Time” pode já ter sido o bastante para esse choque capaz de causar demência nos fãs mais xiitas. O andamento levemente pesado e o som do baixo nas alturas, foram bons o bastante para berrarmos que sim, o Iron Maiden estava de volta, e com material inédito.
“Wasted Years” é eternizada até hoje nas mais recentes turnês do Steve Harris e cia. Quem nunca cantou junto, “So Understand, Don’t Wasted Time Always Searching for Those Wasted Years”, possivelmente vive em outra dimensão.
“Sea of Madness” é um tesouro escondido na longa discografia da Donzela de Ferro. É a faixa menos lembrada do disco, penso eu, é a “Back in the Village” ou a “Gangland” do disco, mas com uma sobriedade e uma letra das mais viajantes que Adrian Smith já escreveu. “Heaven Can Wait” foi destaque na turnê “Somewhere Back in Time” e no clássico filme “Flight 666”, que teve sua exibição realizada em São Paulo/SP, foi eternizada no filme. Bem que sonhei ser um dos sortudos que subiram ao palco, mas acabei na pista mesmo. Mesmo assim, um dos mais marcantes momentos em todos os mais de 30 shows que assisti deles.
“The Loneliness of the Long Distance Runner” tem uma das mais agressivas interpretações de Bruce, “Stranger in a Stranger Land” tem o solo de guitarra/baixo no ponto culminante, sendo na modesta opinião deste redator, a mais perfeita sintonia entre Adrian Smith e Steve Harris em todos os seus quase 40 anos que trabalham juntos. Aquele solo pra ouvir, voltar o vinil até a agulha não resistir e pedir um descanso.
“Deja-Vu” é a única do trabalho a ter duração abaixo de 5 minutos, sendo também uma das mais rápidas do trabalho e onde Nicko McBrain tem o momento de brilho e “Alexander the Great (356-323 B.C.) é um hino que ficou adormecido por mais de 36 anos, que só foi executada ao vivo em 28 de maio de 2023 na Eslovênia, na estreia da então nova tour “The Future Past”. Foi, indiscutivelmente, um momento glorioso da carreira da banda liderada por Steve Harris.
O que não podemos esquecer são os lados B que este lindo trabalho gerou. “Reach Out”, com Adrian Smith como vocal principal, e Bruce, nos backing vocals, é a melhor delas; e poderia estar, sim, no tracklist regular, porque soa Iron Maiden em sua essência. Pena que Steve Harris não quis gravar o baixo, algo que obviamente foi determinante para mantê-la como lado B. “Juanita” é bem divertida e “That Girl” clássico da banda FM cumprem bem o seu papel, e “Sheriff of Huddersfield” é uma homenagem ao empresário Rod Smallwood, uma tremenda zoeira que vale a pena apenas por diversão, já que musicalmente, ela não agrega.
De se estranhar naquele primeiro momento, a ausência de composições de Bruce Dickinson, algo que até hoje permanece um tanto quanto obscuro; sendo um detalhe que o tempo tratou de remediar facilmente.
Como já dissemos no início deste texto, “Somewhere in Time” foi malhado austeramente pela imprensa especializada, mal sabiam eles que, o álbum atravessou esses 40 anos e não tenho dúvidas disso, atravessarão com glórias mais 40, 50, 60 anos, eternizando nas próximas gerações o trabalho do Iron Maiden. Gostaria de poder viver mais 40 anos e ouvir “Somewhere in Time” muitas e muitas vezes. Um disco a frente de seu tempo, viajante, até com um certo ar psicodélico. Clássico é um termo até pequeno pra fazer jus a ele. Fantástico!
DENIM AND LEATHER 45 ANOS - A CELEBRAÇÃO DE UM CLÁSSICO DO HEAVY METAL
O quarto álbum de estúdio do grupo britânico não apenas consolidou a era de ouro da NWOBHM, como eternizou em música e jaquetas a identidade visual e cultural do heavy metal
Por Sergiomar Menezes
VIOLENT REVOLUTION 25 ANOS - O DISCO QUE TIROU O KREATOR (E O THRASH) DO LIMBO
Como o Kreator deixou para trás os anos de experimentação, resgatou a fúria do thrash metal e deu início a uma nova era com o clássico de 2001
Por Fernando Aguiar
Em 2001, depois de quase uma década de experimentos que dividiram os fãs, Mille Petrozza voltou ao thrash com um guitarrista novo, um produtor certeiro e um punhado de músicas que a banda toca até hoje.
Dito isso, hoje faz 25 anos que Violent Revolution chegou às lojas, e eu confesso que fico um pouco surpreso toda vez que lembro disso. Não porque o disco soe velho, muito pelo contrário. É que ele ficou tão associado ao Kreator que conhecemos hoje que é fácil esquecer o quanto a banda estava em outro lugar pouco antes dele sair.
Quem acompanhava o grupo nos anos 90 sabe do que estou falando. A partir de "Renewal", em 1992, Mille Petrozza resolveu que não ia ficar preso à fórmula de "Pleasure to Kill" e "Extreme Aggression". Vieram "Cause for Conflict", "Outcast" e "Endorama", com pitadas industriais, clima gótico e andamentos cada vez mais arrastados. Tem coisa boa neles, e tem gente que defende essa fase com convicção, mas boa parte dos fãs antigos simplesmente tem um pé atrás com essa fase. E o Kreator nem estava sozinho nessa. No fim dos anos 90, praticamente todo mundo da velha guarda do thrash estava tentando ser outra coisa, e o estilo parecia “assunto encerrado”.
Aí, em 25 de setembro de 2001, sai Violent Revolution. E a primeira música se chama "Reconquering the Throne". Sutileza nunca foi o forte do Mille.
A faixa entrega o que o nome promete. O riff entra rasgando, Ventor acelera sem cerimônia e o vocal volta a ter aquela raiva quase histérica que parecia ter ficado nos anos 80. Mas o detalhe que faz a diferença é que não soa como uma banda tentando se imitar. Não é um "Extreme Aggression" parte dois. É o Kreator voltando para casa depois de dez anos fora, e trazendo algumas coisas da viagem.
Depois da vinheta "The Patriarch", a faixa-título mostra onde está o grande trunfo do disco: refrão. "Violent Revolution" foi feita para ser cantada em coro, e não é à toa que virou a segunda música mais tocada da história da banda ao vivo, atrás só de "Pleasure to Kill". Na sequência, "All of the Same Blood (Unity)" reduz um pouco a velocidade para abrir espaço para um refrão ainda mais grandioso. É o tipo de música que um thrasher canta a plenos pulmões no show.
Boa parte dessa mudança passa por um finlandês. Violent Revolution é o primeiro disco com Sami Yli-Sirniö, vindo do Waltari, e dá para ouvir a diferença logo de cara. O Kreator sempre teve solos, claro, mas nunca com esse cuidado melódico. Sami constrói frases, harmoniza guitarras e traz uma sensibilidade que conversa bastante com o metal melódico sueco que estava em alta na Europa naquele início de década.
E aqui está o ponto que ainda divide opiniões. Tem quem diga que o disco flerta demais com Gotemburgo e perde a sujeira que fez a fama da banda. Eu entendo o argumento, mas discordo dele. Um retorno puramente saudosista, em 2001, teria grandes chances de soar requentado. O que o Kreator conseguiu foi juntar agressividade e melodia sem que uma anulasse a outra, e essa combinação virou a identidade da banda nos vinte e poucos anos seguintes. Quem gosta de "Enemy of God", "Hordes of Chaos" ou "Phantom Antichrist" está, no fundo, gostando de algo que começou aqui.
Também não dá para falar do disco sem citar Andy Sneap, que produziu, gravou, mixou e masterizou tudo. Sneap sabe o que é thrash da maneira mais profunda, afinal tocou guitarra no Sabbat, e entregou um som encorpado e moderno sem cair naquele brilho artificial que estragou tanta gravação de metal da época. As guitarras têm peso de verdade, a bateria do Ventor tem punch e o baixo de Christian Giesler aparece quando precisa. É uma produção que envelheceu bem, e isso, olhando para o que se gravava naquela virada de século, não é pouca coisa. A parceria funcionou tanto que Sneap voltou para produzir "Enemy of God", em 2005.
"Replicas of Life" são mais de sete minutos e meio com boas ideias e uma atmosfera interessante. "Servant in Heaven - King in Hell" e "Ghetto War" seguram bem a tensão, "Slave Machinery" resolve tudo em menos de quatro minutos sem enrolação, e "System Decay" fecha com dignidade.
Violent Revolution costuma ser apontado como um dos “precursores” do renascimento do thrash no começo dos anos 2000, e faz todo sentido. Mostrou que uma banda veterana podia voltar às raízes sem virar cover de si mesma, e que ainda existia gente querendo ouvir esse som. O que veio depois, com outros nomes clássicos voltando ao estilo e uma nova geração de bandas surgindo, carrega um pouco desse disco.
Para o próprio Kreator, foi o início de uma segunda carreira. A formação com Mille, Sami, Ventor e Giesler durou até 2019 e construiu uma sequência de discos consistentes que a banda não conseguiu manter nos anos 90.
Não tenho dúvida de que Violent Revolution é o disco mais importante da carreira depois daquela primeira fase. Sem Violent Revolution, o Kreator dos últimos 25 anos provavelmente seria outra banda, e bem menor.
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