segunda-feira, 15 de junho de 2026

EDU FALASCHI - MI'RAJ (2026)

 


EDU FALASCHI
MI'RAJ
Voice Music - Nacional

Desde o momento em que Edu Falaschi iniciou sua carreira solo, existiu um pequeno "fantasma" ao seu lado. Para o bem e para o mal, o nome Angra sempre estará inevitavelmente associado ao seu trabalho.

Em "Vera Cruz" (2021), o ouvinte se deparou com algo que poderia ser descrito como uma espécie de caricatura de "Temple of Shadows", com conexões e referências extremamente evidentes. Já em "Eldorado" (2023), Edu começou a cortar algumas das amarras que o prendiam ao passado — ao menos em termos de estúdio —, embora tenha introduzido certos exageros que renderam comparações com o DragonForce.

Pois bem, chegou o momento de Mi'raj. O álbum marca o capítulo final da trilogia conceitual que acompanha a jornada de Jorge e, ao mesmo tempo, representa mais um passo na busca de Edu Falaschi por uma identidade cada vez mais própria dentro de sua trajetória solo.

Desta vez, após tudo o que viveu nos capítulos anteriores, Jorge se vê diante de novos desafios e perseguições — a narrativa transporta o ouvinte para o Oriente Médio do século XVI, explorando temas como espiritualidade, autoconhecimento, fé, perdas e superação.

Primeiramente, é preciso dizer: a regra do "menos é mais" muitas vezes traz mais benefícios do que prejuízos. Sem exageros, o trabalho flui de maneira ímpar. Dentro da discografia solo, "Mi'raj" é o álbum de assimilação mais imediata. Mesmo se aproximando do metal progressivo e trazendo músicas com mais de oito minutos de duração, a audição transcorre de forma natural e arranca aquele sorriso de orelha a orelha dos fãs de Falaschi.

A faceta progressiva do álbum está longe de cair no exibicionismo técnico. Em vez disso, surge através de mudanças de andamento, passagens atmosféricas e arranjos que ampliam a ambientação de um instrumental pesado e extremamente melódico. É como se Genesis e Fates Warning se encontrassem em estúdio tendo a música oriental e a brasilidade — ou, se preferir, o DNA do Angra — como ingredientes obrigatórios.

O álbum abre com "Watchers of the Light". É, digamos, a abertura clássica de sempre: uma música bombástica, rápida e com um refrão criado para ser cantado em uníssono pelo público. Porém, existe algo interessante que dura apenas alguns segundos. Entre 1:57 e 2:04, temos Victor Franco encarnando Yngwie Malmsteen.

Já "Here I Stand" chega cheia de quebras de andamento, mais cadenciada e sustentada por excelentes coros. A música traz o primeiro momento em que o ouvinte pode dizer: "Opa, já ouvi isso aqui no Angra". Bem, no final das contas, a era Rebirth e Temple of Shadows faz parte do DNA de Edu Falaschi e, vamos ser sinceros? O fã quer ouvir isso. Vivemos em uma era profundamente nostálgica.

A faixa-título traz a participação de Veronica Bordacchini, do Fleshgod Apocalypse. A música passeia entre o power e o prog metal, enquanto Veronica dá um verdadeiro show à parte, enriquecendo de forma brilhante os refrãos. Em alguns momentos, é como se a canção tivesse escapado de algum dos álbuns mais atuais do Avantasia.

"Echoes of Vows" chega para apresentar a primeira balada do álbum — e Falaschi continua sendo um especialista nesse tipo de composição. As linhas vocais são bonitas, a calmaria transborda feeling e, em entrevistas, o vocalista revelou ter escrito a melodia principal imaginando Bruce Dickinson cantando a música. A faixa ainda reserva algumas surpresas em sua segunda metade, acelerando o ritmo e ganhando uma orquestração mais forte antes de retornar para um encerramento propositalmente clichê, sustentado pela repetição do refrão.

Em "Unchained", pule para 3:44. Se você não se arrepiar com o solo de saxofone, talvez já esteja morto por dentro. A música inteira é surpreendente, mas esse momento específico merece destaque. Raphael Dafras, com seu baixo cheio de groove e graves, assume papel de protagonista e ajuda a conduzir a faixa em diversos momentos.

Falando em surpresas, chegamos a "Intuição". A faixa marca a primeira vez que Edu grava uma música em português desde "Caça e Caçador", presente no EP Hunters and Prey (2002). Outro aspecto marcante é a participação especial de Rafael Bittencourt, responsável por um belíssimo solo. Falaschi e Bittencourt não trabalhavam juntos em estúdio desde Aqua, lançado em 2009. Ouvindo repetidamente a canção, é impossível não enxergar uma fusão entre "Gentle Change" e a já citada "Caça e Caçador", principalmente por causa da forte identidade brasileira presente em sua construção.

Caminhando para os momentos finais, encontramos uma grande variedade de ideias no material. Primeiro, temos "Circle of Dust". Pesada e cheia de boas nuances, a faixa tem como um de seus grandes destaques o estreante Jean Gardinalli. O cara simplesmente executa suas linhas de bateria de maneira primorosa, equilibrando técnica e musicalidade sem soar excessivo em nenhum momento.
Obviamente, o "duelo" entre Edu Falaschi e Roy Khan (ex-Kamelot) acaba sendo a cereja do bolo.

A última balada do álbum, "On Your Own", chega logo em seguida. E, sinceramente, se o Brasil desse mais valor à música pesada e aos seus artistas, essa faixa estaria tocando nas rádios e até em trilhas de novelas. Trata-se de uma das melhores baladas já compostas por Edu Falaschi. A faixa começa de forma minimalista, sustentada apenas por voz e piano, e vai crescendo gradativamente até explodir em um refrão emocionante. Diogo Mafra abrilhanta tudo com um solo de guitarra inspirado, tornando o resultado ainda mais grandioso.

O desfecho da história e do álbum acontece em "Wrath Into the War". É o encerramento de um ciclo, uma sensação de jornada completa. A composição parece revisitar os caminhos percorridos ao longo da trilogia, reunindo elementos característicos de Vera Cruz, Eldorado e Mi'raj. Há velocidade, melodias marcantes e passagens progressivas. Mais do que simplesmente concluir uma narrativa, a faixa funciona como uma síntese artística de tudo o que o músico construiu até aqui.

Quando os últimos acordes terminam, fica a impressão de que "Mi'raj" não apenas fecha uma trilogia, mas também representa o momento em que Edu finalmente aprende a caminhar em paz ao lado de seu passado. O velho "fantasma" continua presente, mas já não assombra. Agora, ele é apenas parte da história.

Ah, mas você não vai falar da voz?

Sinceramente, precisa?

Todos sabemos dos problemas que o vocalista enfrentou em suas cordas vocais. Da mesma forma, sabemos que ele não é mais o “mocinho” dos tempos de Symbols ou dos primeiros anos de Angra — os cinquenta anos chegaram para todos.

O que posso dizer é que, em "Mi'raj", Edu Falaschi soa o mais honesto possível com o ouvinte. Não há tentativa de mascarar limitações. Pelo contrário. Edu trabalha dentro de suas possibilidades atuais e utiliza a experiência acumulada para entregar emoção e personalidade.

No fim das contas, Mi'raj não é um álbum sobre nostalgia, embora ela esteja presente em diversos momentos. É um álbum sobre maturidade. Sobre compreender quem você foi, quem você é e seguir em frente sem precisar renegar nenhuma dessas versões.

Dentro da trilogia, é o melhor capítulo.

William Ribas




MOONSPELL - FAR FROM GOD (2026)

 


MOONSPELL
FAR FROM GOD
Napalm Records - Importado

Cinco anos podem parecer uma eternidade para uma banda com a trajetória do Moonspell. Obviamente, nesse período longe dos estúdios tivemos turnês, o belíssimo álbum ao vivo "Opus Diabolicum" e mais turnês (inclusive aqui no Brasil, no início de 2026), mas já era tempo de um novo trabalho dos portugueses.

Em uma época em que muitos artistas lançam músicas em ritmo quase industrial para alimentar algoritmos e manter relevância digital, o grupo capitaneado pelo vocalista Fernando Ribeiro escolheu o caminho oposto: esperar. E essa decisão parece ter sido fundamental para a construção de Far From God, um álbum que surge não apenas como sucessor de "Hermitage (2021)", mas como uma reafirmação de propósito artístico.

Ao longo de sua carreira, o Moonspell sempre transitou entre diferentes atmosferas. Houve momentos de agressividade extrema, fases marcadas pela melancolia gótica e experimentações mais introspectivas. Em "Far From God", porém, a sensação é de reencontro. Não com o passado em si, mas com a essência emocional que tornou a banda uma das maiores referências do gothic metal europeu.

O álbum parece construído sobre contrastes cuidadosamente equilibrados. Há peso. Há melodias. Há escuridão. Há romantismo. E há uma boa dose da melancolia característica da estética gótica. O resultado é uma obra que respira criatividade, sem a necessidade de excessos técnicos ou produções infladas para causar impacto. As composições apostam em atmosferas densas, onde guitarras carregadas dividem espaço com arranjos elegantes e vocais que alternam entre o grave característico de Fernando e momentos de maior intensidade emocional.

A abertura fica por conta das já conhecidas “Cross Your Heart” e da faixa-título, “Far From God”, ambas lançadas como singles. Elas dão um norte do que o álbum é: orgânico, de fácil assimilação e viciante.

“Biblical” se inicia com uma linha de baixo marcante e uma atmosfera sombria ao fundo. A faixa é carregada, pesada — não necessariamente pelo aspecto instrumental, mas pelo clima que a domina, trazendo consigo um ar de suspense que abraça a beleza da escuridão. Já “The Great Wolf in the Sky” celebra a emoção acima da conveniência e lembra por que o Moonspell continua ocupando um lugar tão especial. A cada nova faixa, existe a sensação de que cada elemento está exatamente onde deveria estar.

Liricamente, "Far From God" mergulha em territórios que sempre fizeram parte do imaginário da banda: amor, morte, espiritualidade e culpa. Entretanto, o tratamento dado a esses temas evita qualquer sensação de nostalgia. Vampiros, símbolos religiosos e criaturas noturnas aparecem menos como figuras fantásticas e mais como metáforas para desejos, perdas e conflitos humanos. É um disco que utiliza o fantástico para falar sobre emoções reais — algo perceptível em faixas como “Your Promise of Light” e “For the Love of Mortals”.

Algo que "Far From God" carrega consigo é uma aura constante de perigo, elegância e melancolia. Para quem espera peso — leia-se riffs pesados — pode esquecer. Eles estão aqui, mas surgem apenas em momentos específicos, quando a música realmente pede. O tracklist como um todo remete à capacidade que a banda sempre teve de criar música sombria sem abrir mão da personalidade. E talvez aí resida o maior mérito da obra: sua autenticidade.

A demonstração de que algumas chamas nunca deixam de arder vem com “Our Freedom to Fall”. Pesada, com andamento mais acelerado, a faixa entrega um excelente contraste entre agressividade e melancolia, como uma brutalidade escondida sob as sombras da noite. O álbum se encerra com “Reconquista”, abraçando o que o Moonspell fez de melhor nas faixas anteriores — um best of de "Far From God" dentro de uma única música: reafirmando que a escuridão e identidade continuam sendo um dos elementos mais fascinantes da discografia da banda.

Ao final, Far From God é apaixonante. Em época de Copa do Mundo, cabe a analogia perfeita: um golaço de Portugal!

William Ribas




WINGS OF STEEL - WINDS OF TIME (2025)

 


WINGS OF STELL
WINDS OF TIME
Shinigami Records - Nacional

É interessante como gosto de heavy/power metal, mas dificilmente bandas mais novas conseguem realmente chamar minha atenção — e não é por falta de talento. Aquela saturação que o estilo viveu em meados dos anos 2000 continua firme e forte. Nomes de bandas, títulos de músicas, capas, conceitos... tudo parece preso a um eterno ciclo de repetição.

Quando você vê um nome como Wings of Steel e um álbum chamado Winds of Time, seu cérebro já monta o quebra-cabeça antes mesmo de apertar o play. É como se você já conhecesse toda a história de cor e salteado, mesmo sendo a primeira vez que escuta a banda.

E esse talvez seja o maior desafio enfrentado pelo power metal moderno. Não é uma questão de qualidade. "Winds of Time" pode muito bem ser um excelente álbum, com músicos talentosos, ótimas composições e uma execução impecável. Mas, às vezes, o problema não está naquilo que a banda faz, e sim na sensação de familiaridade que acompanha a audição.

A faixa-título deixa isso claro desde os primeiros minutos. Com duração épica e uma construção que se desenvolve lentamente, a música funciona quase como uma declaração de intenções. Em vez de apostar apenas na velocidade e nos refrões grandiosos normalmente associados ao power metal, a banda investe em mudanças de dinâmica, passagens atmosféricas e linhas vocais extremamente agudas — talvez até em doses excessivas.

Embora o álbum apresente uma faceta mais robusta e agressiva, a banda cai na armadilha da repetição. "Saints And Sinners" surge como um verdadeiro ataque de heavy metal clássico, impulsionado por energia contagiante e refrãos que pedem a participação do público. Já "To Die In Holy War" combina peso e melodia em proporções quase perfeitas, trazendo uma intensidade emocional que amplia ainda mais seu impacto.

Em contrapartida, faixas como "Crying" revelam um lado mais sensível. Sem mergulhar completamente no território das power ballads, a música oferece um momento de respiro. Mais adiante, "Lights Go Out" introduz elementos sombrios e um groove carregado de influência setentista, sem perder a identidade melódica do grupo.

Os momentos finais representam talvez o ápice da experiência. "We Rise" transforma-se em um hino de superação construído sobre uma progressão gradual e eficiente, enquanto "Flight Of The Eagle" encerra o disco com uma atmosfera grandiosa e emocional. É uma conclusão que recompensa a paciência do ouvinte.

No fim das contas, Winds of Time respeita profundamente a tradição do heavy metal clássico. Ao mesmo tempo, reforça uma percepção que muitos fãs do estilo provavelmente compartilham: depois de décadas ouvindo o gênero, certos refrãos, melodias, temas líricos e estruturas musicais se tornaram tão previsíveis que o ouvido reconhece o caminho da música antes mesmo de ela chegar lá.

Não se trata necessariamente de uma crítica ao álbum ou à banda. É apenas a consequência natural de um estilo que, em muitos aspectos, ainda parece contar a mesma história repetidas vezes.

Ainda assim, para os fanáticos de plantão, Winds of Time certamente tem qualidades suficientes para merecer uma audição atenta.

William Ribas




WINGS OF STEEL - GATES OF TWILIGHT (2023)

 


WINGS OF STEEL
GATES OF TWILIGHT
Shinigami Records - Nacional

Acredito que comecei essa descoberta pelo caminho mais difícil. Ao partir diretamente para o álbum mais recente, acabei deixando passar aquilo que, ao menos por enquanto, parece ser o verdadeiro ponto alto da recém iniciada discografia do Wings of Steel. Esse momento atende pelo nome de Gates of Twilight, lançado em 2023.

Não que as influências — e até certas semelhanças bastante evidentes — que mencionei ao falar de "Winds of Time" estejam ausentes aqui. Elas continuam presentes, mas aparecem de forma muito mais natural. Em vez de soar como uma simples coleção de referências, a banda consegue absorver suas inspirações e transformá-las em algo convincente.

Há momentos em que o Wings of Steel remete aos melhores dias do Queensrÿche, especialmente pelas linhas vocais. Em outros, surge aquela energia contagiante dos primeiros trabalhos do Helloween, com refrãos fortes, guitarras inspiradas e uma sensação constante de aventura.

Essa proposta fica clara logo na abertura. "Liar in Love" estabelece o tom do álbum com melodias marcantes, guitarras elegantes e uma performance vocal que imediatamente chama a atenção. Em seguida, "Fall in Line" aparece como uma das grandes candidatas a destaque da obra, trazendo riffs afiados, velocidade, refrãos memoráveis e uma energia que remete aos grandes clássicos do metal.

Já "Cry of the Damned" reforça o lado mais direto da banda e entrega um dos momentos mais fortes de todo o disco. Mas o grande mérito de "Gates of Twilight" está justamente em não permanecer confortável dentro de uma única fórmula. "Garden of Eden" desacelera o ritmo e explora uma atmosfera mais arrastada, enquanto "Lady of the Lost" investe em melodias carregadas de emoção sem abrir mão do peso.

Em "Leather and Lace", a banda mergulha sem medo em influências hard rock, funcionando como um dos momentos mais ousados do álbum. A faixa-título representa, talvez, a síntese perfeita da proposta do grupo. "Gates of Twilight" reúne peso, dramaticidade, senso épico e diversas mudanças de dinâmica em uma composição ambiciosa que evidencia tanto as qualidades quanto algumas limitações da banda. É uma música impressionante, mas que também revela uma característica recorrente ao longo do disco: a dificuldade em resistir à tentação de adicionar mais uma ideia, mais uma mudança ou mais uma camada de complexidade. Às vezes, menos é mais.

E esse é, talvez, o principal ponto de evolução para o futuro. Em diversos momentos, o álbum parece tão determinado a demonstrar suas capacidades que acaba sacrificando um pouco da fluidez. Não existem músicas ruins aqui, longe disso. Porém, algumas composições poderiam causar um impacto ainda maior se fossem ligeiramente mais diretas e objetivas. O Wings of Steel claramente possui talento suficiente para fazer muito; agora resta descobrir quando fazer menos.

No fim das contas, "Gates of Twilight" impressiona mais pela coragem do que pela perfeição. É um álbum que transborda entusiasmo, talento e ambição. Nem todas as ideias funcionam com a mesma eficácia, mas mesmo seus excessos são reflexo de uma banda que pensa grande. Se conseguir encontrar um equilíbrio mais refinado entre complexidade e objetividade nos próximos trabalhos, o Wings of Steel tem potencial para se tornar um dos nomes mais interessantes da nova geração do heavy metal tradicional.

Por enquanto, porém, Gates of Twilight já cumpre uma função importante: provar que seu sucessor, "Winds of Time", foi um deslize — ao menos aos meus ouvidos — e que devo manter o Wings of Steel no radar.

William Ribas




quinta-feira, 11 de junho de 2026

SKID ROW - SLAVE TO THE GRIND 35 ANOS

 


SLAVE TO GRIND - 35 ANOS DO ÁLBUM QUE GANHOU PESO NAS GUITARRAS SEM PERDER A MELODIA

Por Sergiomar Menezes

Em 11 de junho de 1991, o SKID ROW disponibilizava ao mundo um trabalho que não apenas mexia com as expectativas da sua gravadora, mas também faria história na música pesada. Ao completar 35 anos, SLAVE TO THE GRIND permanece como um marco fundamental de transição e coragem, uma vez que o Hard mais festeiro e despojado do primeiro álbum, deu lugar a guitarras mais pesadas, vocais mais rasgados e uma atmosfera mais densa no que diz respeito às letras. Após estourarem mundialmente, impulsionados por megahits como "18 and Life" e "I Remember You", o caminho comercial mais seguro para o Skid Row seria repetir a fórmula. Havia uma pressão imensa para manter o visual perfeitamente alinhado e as baladas de rádio no topo.

No entanto, a banda liderada pelas guitarras de Dave "The Snake" Sabo e Scotti Hill, pelo baixo pulsante de Rachel Bolan e pela bateria de Rob Affuso decidiu endurecer o jogo. Eles recrutaram novamente o produtor Michael Wagener, mas deixaram claro: o novo som seria cru, agressivo e sem concessões. O resultado foi um soco na boca do estômago da indústria. As guitarras ganharam afinações mais baixas, flertando abertamente com o peso do heavy metal tradicional. Como citado anteriormente, as letras abandonaram os clichês festivos e de romance da Sunset Strip para focar em críticas sociais, isolamento, corrupção e saúde mental.


Mesmo sem o apelo comercial do primeiro disco, Slave to the Grind realizou um feito inédito: foi o primeiro álbum de heavy metal a estrear diretamente no número 1 da Billboard 200 na era SoundScan (o sistema informatizado que passou a computar com precisão as vendas reais de discos). O feito provou que o público estava sedento por uma sonoridade mais visceral exatamente no ano em que o cenário musical mudaria drasticamente com o estouro do grunge.

"Slave to the Grind" se destaca por não dar trégua ao ouvinte, equilibrando perfeitamente a velocidade com baladas densas e sombrias. A abertura com "Monkey Business" dita as regras com um riff icônico arrastado que explode em velocidade. Já a faixa-título, "Slave to the Grind", e a veloz "Riot Act" mostram uma banda tocando no limite da agressividade, com andamentos que lembram o som de bandas como Pantera e Anthrax (com quem o Skid Row dividiria palcos em turnê). No que diz respeito as baladas, longe de serem canções de amor açucaradas, neste disco elas lidam com temas complexos. "Quicksand Jesus" questiona a fé e a humanidade em momentos de crise. "In a Darkened Room" aborda o abuso e o trauma de forma profundamente melancólica e "Wasted Time", um dos pontos altos da carreira da banda, narra a dolorosa decadência de um amigo devido ao vício em drogas.

Mas é praticamente impossível falar de "Slave to the Grind" sem destacar a performance de Sebastian Bach. Se no primeiro disco ele já mostrava alcance, aqui ele entregou uma das interpretações vocais mais impressionantes da sua carreira. Bach transita entre vocais limpos e profundos nas partes melódicas e agudos rasgados nas faixas mais pesadas. O controle dinâmico e a raiva legítima que ele imprimiu em estúdio se tornaram o padrão de ouro para vocalistas do gênero, imortalizando canções que pouquíssimos cantores no mundo conseguem reproduzir com a mesma entrega.

SLAVE TO THE GRIND foi uma declaração de liberdade do grupo, provando que a banda era musicalmente muito mais robusta, pesada e madura do que os clichês visuais da Sunset Strip sugeriam. Para o Hard Rock em geral, o álbum quebrou barreiras ao se tornar o primeiro disco a estrear no topo da Billboard na era moderna de contagem de vendas, mostrando que era possível alcançar o sucesso comercial massivo sem abrir mão da agressividade. Ao adentrar no mundo das guitarras pesadas, o SKID ROW antecipou os rumos dos anos 1990, deixando como legado uma obra atemporal que serve de ponte perfeita entre o hard rock clássico e o metal moderno.



ACID REIGN - DAZE OF THE WEEK (2026)

 


ACID REIGN
DAZE OF THE WEEK
Back on Black - Importado

Existem bandas que retornam apenas para revisitar o passado. Outras voltam porque ainda têm algo a provar. O Acid Reign pertence com absoluta convicção ao segundo grupo.

"Daze Of The Week" não soa como o trabalho de músicos tentando recuperar relevância ou celebrar uma herança construída décadas atrás. Pelo contrário. O álbum transmite a sensação de uma banda que passou anos acumulando tensão, experiência e ideias, aguardando o momento certo para despejar tudo em forma de riffs cortantes, refrãos memoráveis e uma avalanche de energia impossível de ignorar.

Desde os primeiros minutos, fica claro que o Acid Reign encontrou um equilíbrio raro entre tradição e renovação. O DNA do thrash britânico permanece intacto, mas a execução está mais afiada, mais pesada e mais confiante. A agressividade é constante, porém nunca se torna previsível. Cada música apresenta uma personalidade própria, alternando ataques de velocidade insana, passagens mais elaboradas e melodias que surgem naturalmente em meio ao caos.

A abertura com "The Who Of You" já deixa evidente o nível de inspiração envolvido. O que começa com uma atmosfera quase solene rapidamente se transforma em uma explosão de criatividade, combinando técnica, peso e dinamismo de forma impressionante. A faixa-título mantém a intensidade elevada, enquanto "No Truth" surge como um ataque frontal de pura adrenalina. Já "Conniption King" revela uma faceta mais sofisticada da banda, explorando mudanças de andamento e harmonias que ampliam ainda mais seu alcance musical.

Boa parte do mérito pertence a Howard Smith. Sua performance é simplesmente fantástica. O vocalista continua sendo um frontman único, alternando sarcasmo, agressividade e senso melódico com uma naturalidade que poucos conseguem alcançar. Sua presença domina o álbum sem sufocar o restante da banda, que entrega uma atuação igualmente inspirada.

E há algo especialmente cativante em "Daze Of The Week": o humor ácido. Mesmo quando aborda temas sombrios ou críticas sociais, o grupo mantém aquele olhar irônico tipicamente britânico que transforma suas letras em algo muito mais interessante do que simples discursos raivosos. O próprio título do álbum brinca com múltiplas interpretações, refletindo perfeitamente o espírito inteligente e provocador da banda.

A produção merece destaque especial. Gravado integralmente de forma analógica, o disco possui uma sonoridade orgânica, pulsante e poderosa, valorizando cada detalhe sem sacrificar a brutalidade. O resultado é um álbum autêntico, vibrante e carregado de personalidade.

Faixas como "Blind Lies", "Sorrowsworn" e a excelente "Fantastic Passion" reforçam a impressão de que o grupo atravessa um momento extremamente inspirado, algo que transborda por todas as composições. Os riffs são enormes, os refrãos funcionam, os solos acrescentam emoção e a seção rítmica mantém tudo em movimento com uma precisão impressionante. O grand finale com "Centre Of Everything" encerra o trabalho de forma grandiosa, mostrando que maturidade e fúria podem coexistir sem qualquer conflito.

Se o retorno com "The Age Of Entitlement" provou que o Acid Reign ainda tinha combustível no tanque, "Daze Of The Week" mostra algo ainda mais impressionante: o tanque está longe de ficar vazio. Uma demonstração contundente de que experiência não precisa significar suavidade.

William Ribas




MICHAEL SWEET - THE MASTER PLAN (2026)

 



MICHAEL SWEET
THE MASTER PLAN
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Michael Sweet é um dos músicos mais notáveis do Hard/Heavy que vem dos anos oitenta. Muitos tem preconceito por causa das temáticas das letras do Stryper, voltadas as suas crenças cristãs e tudo que envolve. Como se isso fosse um pecado. Mas ok. Isso é outro assunto. O que importa é que, mesmo que você não curta o Stryper e a carreira solo de Michael, é impossível negar o seu talento tanto como guitarrista e vocalista, como compositor.

Aqui neste novo trabalho, “The Master Plan”, lançado agora em abril de2026 a voz está lá, presente... e só, infelizmente. EU entendo quando um músico de uma banda consagrada queira fazer um trabalho solo e se distanciar da sonoridade do grupo que o fez famoso. Inclusive, era uma coisa que Michael nunca conseguiu realmente, tendo em vista seus discos solo anteriores, ou nos projetos com Tracii Guns e George Lynch, sempre ficando à sombra do Stryper.

Mas em “The Master Plan” o distanciamento ocorre de uma forma que definitivamente não agrada. Músicas sem “punch” e deveras adocicadas e até “bobinhas” (escute “Stronger e entenda o que eu falo). Convenhamos que abrir um álbum com uma balada não é uma boa ideia, ao menos que você seja Michael Bolton ou Elton John... No caso aqui é a faixa título que até para uma balada... ela parece que vai, mas não vai... ”Eternally” é outra balada com um ar mais dramático, que poderia ser cantada na missa das dez da manhã de um domingo qualquer...

“You Lead, I´ll Follow” tentar se aproximar de algo que insinua alguma influência de Beatles, porém de uma forma infantil e que de forma alguma convence. “Desert Stream” é outra balada, porém nesta a coisa melhora um pouco, com alguma distorção nas guitarras, e que lembra um pouco alguma balada que poderia estar em um álbum do Stryper. Junto a esta, vem “Believer” a mais Rocker do álbum, finalmente uma faixa que anima um pouco o trabalho. Mas logo a seguir vem “Again” e adivinha? Mais uma balada, com aura de tocar no culto.... haja!

Michael, sou muito seu fã, mas dessa vez não deu pra elogiar. “The Master Plan” é aquele álbum apenas para quem é muito fã do Stryper e tem todos os trabalhos, incluindo os trabalhos solo de Michael Sweet. Caso contrário, esqueça. Eu acabei a audição e fui ouvir o “Soldiers Under Command”. Próximo álbum, por favor...

José Henrique Godoy




VOIVOD - SYMPHONIQUE (2026)


 

VOIVOD
SYMPHONIQUE
Century Media - Importado

Mais do que um mero registro ao vivo, Symphonique funciona como uma celebração da criatividade, da longevidade e da permanente capacidade de reinvenção de uma das bandas mais visionárias que o metal já produziu. Afinal, poucos nomes possuem uma discografia tão naturalmente compatível com uma abordagem sinfônica quanto o Voivod. Desde os anos 80, os canadenses construíram uma identidade única, misturando ficção científica, experimentação progressiva, dissonâncias inquietantes e uma visão futurista que sempre esteve muitos passos à frente de seu tempo.

Agora, esse universo ganha uma nova dimensão.

Registrado ao vivo em junho de 2025 no Grand Théâtre de Québec, com o acompanhamento da Orquestra Sinfônica de Québec, o álbum transforma doze composições clássicas da banda em uma verdadeira viagem. Mais do que simplesmente adicionar cordas e metais sobre estruturas já conhecidas, o projeto amplia o alcance emocional e atmosférico dessas faixas, revelando detalhes que muitas vezes passavam despercebidos em suas versões originais.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que essa parceria não foi concebida como um exercício de vaidade. "Experiment" surge monumental, cercada por arranjos densos e imprevisíveis que reforçam toda a estranheza e grandiosidade presentes no clássico Dimension Hatröss. A combinação entre a voz inconfundível de Snake, os riffs angulares de Chewy Mongrain e as intervenções da orquestra cria uma experiência que oscila constantemente entre o caos controlado e a beleza melancólica.

Faixas como "The Unknown Knows" e "Into My Hypercube" parecem ter sido escritas pensando em uma execução desse porte. Os arranjos orquestrais expandem suas estruturas complexas sem comprometer a agressividade característica do grupo. O mesmo acontece com "Holographic Thinking", cuja temática futurista encontra no acompanhamento sinfônico uma camada extra de profundidade e expansão.

Um dos grandes méritos de Symphonique está justamente na escolha do repertório. Em vez de tentar resumir toda a carreira da banda de forma linear, o álbum concentra-se nas composições que melhor representam seu lado mais progressivo e aventureiro. Clássicos das eras "Nothingface", "Dimension Hatröss", "Killing Technology" e "War and Pain" convivem harmoniosamente com material mais recente, demonstrando como a essência criativa do quarteto permanece intacta após mais de quatro décadas.

Momentos como "The End of Dormancy" e "Cosmic Drama" evidenciam a afinidade natural entre o vocabulário musical da banda e a linguagem da música de concerto. As passagens orquestrais não soam artificiais ou forçadas; ao contrário — em diversos momentos, a sensação é de estar diante da trilha sonora de uma épica ficção científica distópica.

Enquanto a sinfônica dita o clima, a banda entrega uma performance impecável. Away e Rocky sustentam a cozinha com precisão e peso absurdos, enquanto Chewy demonstra mais uma vez por que é considerado um dos guitarristas mais criativos do metal moderno. No centro de tudo permanece Snake, cuja interpretação mantém o caráter humano e visceral necessário para equilibrar toda a grandiosidade do espetáculo.

O encerramento com "Tribal Convictions" e a clássica releitura de "Astronomy Domine", do Pink Floyd, fecha a apresentação de forma cirúrgica, reforçando a conexão histórica do Voivod com sonoridades psicodélicas, progressivas e experimentais.

Symphonique parece a realização de uma ideia que acompanhava os canadenses desde o início de sua trajetória. É a prova definitiva de que, mesmo após mais de quarenta anos explorando novos mundos sonoros, o Voivod continua encontrando formas inéditas de expandir os limites de sua própria galáxia musical.

William Ribas




quarta-feira, 10 de junho de 2026

CORROSION OF CONFORMITY - GOD GOD/BAAD MAN (2016)

 


CORROSION OF CONFORMITY
GOD GOD/BAAD MAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Mais de quatro décadas após surgir no cenário underground da Carolina do Norte, o Corrosion of Conformity continua desafiando qualquer tentativa de enquadrá-lo em um único rótulo. Punk, crossover, sludge, stoner rock, southern rock e heavy metal sempre coexistiram em diferentes proporções dentro da sonoridade da banda. Em Good God / Baad Man, seu décimo primeiro álbum de estúdio, essa mistura atinge um dos pontos mais completos de toda essa trajetória.

O disco chega carregado de significado. Desde "No Cross No Crown" (2018), a banda enfrentou profundas transformações, incluindo a dolorosa perda do baterista Reed Mullin, em 2020. Em vez de tentar recriar o passado, o quarteto opta por seguir adiante, preservando a essência que o tornou uma referência dentro da música pesada sulista. O resultado é uma obra extensa, ambiciosa e repleta de personalidade.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que o álbum não pretende escolher um único caminho. A agressividade característica dos tempos de "Blind" reaparece em faixas explosivas como “Good God Final Dawn”, “Gimme Some Moore” e “Asleep On The Killing Floor”, onde riffs cortantes e grooves densos caminham lado a lado. A influência do Black Sabbath permanece profundamente enraizada, mas surge filtrada pela identidade única que Pepper Keenan e Woody Weatherman desenvolveram ao longo dos anos.

A dupla de guitarristas é, mais uma vez, o coração do álbum. Os riffs carregam peso e espontaneidade, alternando momentos de fúria com passagens repletas de atmosfera. Há uma sensação constante de liberdade criativa, como se as músicas estivessem sendo construídas organicamente dentro da sala de ensaio, sem preocupação com tendências ou fórmulas modernas — apenas boas jam sessions entre velhos amigos.

Ao mesmo tempo, o lado mais rock 'n' roll e descontraído da banda ganha espaço considerável. “The Handler” combina peso e balanço com uma naturalidade impressionante, enquanto a faixa-título “Baad Man” mergulha em uma energia quase boogie, evocando o espírito de velhos bares enfumaçados do sul. Já “Swallowing The Anchor” e “Handcuff Country” ampliam essa abordagem, revelando uma faceta divertida sem comprometer a identidade pesada do grupo.

Um dos aspectos mais interessantes do álbum é a forma como os interlúdios instrumentais são utilizados. Em vez de funcionarem apenas como preenchimento, peças como “Bedouin's Hand” e “Mandra Sonos” criam pontes atmosféricas que ampliam a experiência e valorizam ainda mais as composições que as sucedem. Esses momentos demonstram uma banda confortável em explorar novas texturas sem perder o foco principal. Falando em conforto, o que é “Brickman”? Um bom whiskey, um cigarro e a solidão parecem ser a companhia perfeita para essa bela peça acústica.

A nova formação também merece destaque. O baixista Bobby Landgraf encaixa-se perfeitamente na sonoridade do grupo, enquanto a bateria de Stanton Moore conduz tudo com criatividade, personalidade e senso de espaço. A influência de Reed Mullin continua perceptível no espírito das composições, mas sem transformar o álbum em um exercício de nostalgia.

Quando a reta final chega, Good God / Baad Man reserva alguns de seus momentos mais marcantes. “Forever Amplified” encerra a jornada de maneira monumental, combinando peso, melodia, psicodelia e longas passagens instrumentais em uma construção épica que sintetiza praticamente todas as facetas apresentadas ao longo do álbum. É uma conclusão grandiosa para uma obra que nunca deixa de soar pulsante.

Embora sua duração possa parecer desafiadora à primeira vista, o álbum recompensa a dedicação do ouvinte com uma enorme variedade de ideias e atmosferas. O Corrosion of Conformity demonstra que continua plenamente capaz de criar música relevante sem depender exclusivamente de seu legado.

Good God / Baad Man não é apenas um retorno inspirado. É a prova que algumas instituições do metal envelhecem sem perder um único grama de peso.

William Ribas




LOST SOCIETY - HELL IS A STATE OF MIND (2026)

 


LOST SOCIETY
HELL IS A STATE OF MIND
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Quando o Lost Society lançou "Fast Loud Death" em 2013, poucos imaginariam que a banda finlandesa chegaria a um ponto em que elementos de metal moderno, música orquestral, rock alternativo e industrial coexistiriam dentro de um mesmo álbum. "Hell Is a State of Mind" representa justamente o capítulo mais ousado dessa transformação, um trabalho que abandona de vez qualquer vínculo com o thrash metal dos primeiros anos para mergulhar em uma identidade própria e ambiciosa.

Desde os primeiros momentos de "Afterlife", fica claro que o grupo não está interessado em seguir fórmulas previsíveis. Cordas grandiosas, riffs pesados, sintetizadores modernos e uma alternância constante entre vocais melódicos e agressivos criam uma atmosfera que serve como porta de entrada para um disco determinado a desafiar expectativas em seus 38 minutos de duração.

A presença da orquestração é um dos aspectos mais marcantes do álbum. Longe de funcionar apenas como um elemento decorativo, ela assume papel fundamental na construção das músicas. Faixas como "Blood Diamond" e a faixa-título demonstram como a banda encontrou uma maneira interessante de combinar peso contemporâneo com uma dramaticidade quase épica, evocando, em alguns momentos, a tradição finlandesa de criar passagens grandiosas e bombásticas.

Ao mesmo tempo, o álbum vive de contrastes. "Synthetic" surge como um verdadeiro laboratório sonoro, misturando guitarras esmagadoras, batidas eletrônicas, influências industriais e momentos cinematográficos em uma composição que pode soar fascinante ou caótica, dependendo da disposição do ouvinte. É justamente esse tipo de risco que define grande parte da experiência proposta pelo Lost Society neste trabalho.

O lado mais emocional aparece em "Is This What You Wanted?", uma balada melancólica e introspectiva que oferece um raro momento de vulnerabilidade dentro do álbum. Já "L'Appel du Vide" e "No Longer Human" exploram temas existenciais e reflexivos, ampliando a sensação de inquietação que percorre praticamente todo o tracklist. Existe uma constante dualidade entre luz e escuridão, esperança e decadência, humanidade e autodestruição.

Por outro lado, essa busca incessante por variedade também se torna o principal desafio do disco. Em vários momentos, as músicas parecem pertencer a universos completamente diferentes. "Dead People Scare Me (But the Living Make Me Sick)" aposta em uma abordagem mais direta e explosiva. Já "Personal Judas" mergulha em texturas eletrônicas e experimentações que nem sempre encontram um encaixe natural dentro do conjunto. Talvez seja exatamente isso que a banda busque: não se prender a rótulos, mas simplesmente ser identificada como Lost Society.

É justamente essa falta de uniformidade que torna "Hell Is a State of Mind" uma audição tão peculiar. Dificilmente você terá um amor à primeira vista. O álbum frequentemente lembra uma coleção de ideias gigantescas disputando espaço entre si. Algumas dessas ideias funcionam brilhantemente; outras parecem ainda estar em processo de amadurecimento.

Ainda assim, seria injusto ignorar a coragem artística demonstrada aqui. O Lost Society claramente recusou o caminho mais seguro. Em vez de repetir fórmulas ou tentar reviver os primeiros dias, a banda decidiu ampliar seus horizontes e explorar novos territórios.

O resultado é um disco imprevisível, mas também repleto de personalidade. "Hell Is a State of Mind" talvez não seja o álbum mais consistente da carreira do Lost Society, mas certamente é o mais audacioso. É uma obra construída sobre contrastes, conflitos e experimentações constantes. Alguns ouvintes enxergarão um mosaico criativo repleto de possibilidades; outros encontrarão um excesso de elementos competindo entre si. Em ambos os casos, uma coisa é inegável: o Lost Society continua evoluindo e recusando os limites daquilo que sua música pode ser.

William Ribas




DOGMA - 29/05/2026 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 



DOGMA
Abertura: RITUALIST
29/05/2026
BAR OPINIÃO
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Ablaze Productions

Texto e fotos: José Henrique Godoy

E as freiras do capiroto visitaram Porto Alegre pela segunda vez, num espaço de tempo menor que um ano. A primeira passagem foi ano passado, abrindo o show de Fabio Lione, no teatro da AMRIGS. Nesta ocasião, apesar de parecerem deslocadas em relação à atração principal daquela noite, roubaram a cena com um ótimo, porém curto show.

Agora com a oportunidade de tocar no palco tradicional do Bar Opinião e como atração principal, tivemos a amostra completa do Dogma ao vivo. A abertura ficou por conta da banda Ritualist, de Porto Alegre. Com uma apresentação segura, a banda manteve a atenção do público durante todo o seu set de 40 minutos aproximadamente, com destaque para faixas como “Evilution” e “Your Mask”. Uma pena que o público ainda chegava ao Opinião em meio a ótima apresentação do Ritualist.

Passavam um pouco das 21h quando o Dogma adentra o palco. Por trás dos seus “corpse paints”, era visível que afora a baixista “Nixe”, todas as freiras das sombras eram “noviças” no convento de Satã do Dogma. Se por um lado essa troca constante de musicistas pode incomodar um pouco, por outro lado, o conceito do grupo segue intacto.




“Forbidden Zone”, “Fell The Zeal” e “My Girst Peak” tocadas na sequência, bem como estão no seu álbum de estreia, são recebidas com entusiasmo pelos presentes no Opinião. Se não era em grande número, era um público entusiasmado, que cantou todas as músicas do início ao fim, bem como reagiam e interagiram com o Dogma por toda a apresentação, marcada por mistério e sensualidade, além óbvio, de ótima musicalidade, mesclando Heavy Metal, Power Metal e Hard Rock, afirmando mais uma vez que o Dogma não é apenas baseado em visual, mas em uma ótima sonoridade.

A “nova” Lilith, vocalista, se mostrou mais solta e com mais interatividade com a plateia, brincando e conversando bem mais que a sua antecessora, enquanto as guitarristas Lamia e Russalka se mostraram ótimas em solos e riffs, enquanto Nixe e Abrahel (bateria) também mostram destreza e peso nas suas performances. Inclusive a baixista Nixe, talvez por ser única remanescente parece ter tomado um ar de liderança no palco.


Outros destaques no set foram o cover de Madonna “Like a Prayer” e a nova “Mariachi”. Para o bis, a ótima “Father I Have Sinned” e o show finaliza com “Dark Messiah”, encerrando assim uma ótima apresentação do Dogma, superior a ocorrida no ano passado. A vocalista Lilith ainda desceu do palco e foi recepcionar os fãs na banca de merchandising da banda, para fotos e autógrafos. Nosso agradecimento à Ablaze pelo credenciamento e ao sempre cordial staff do Opinião.

CINDERELLA - NIGHT SONGS 40 ANOS

 



NIGHT SONGS - 40 ANOS DE UMA ESTREIA GRANDIOSA!

Por Sergiomar Menezes

Em 9 de junho de 1986, o CINDERELLA lançava seu álbum de estreia, NIGHT SONGS. Quatro décadas depois, o disco não apenas sobreviveu ao teste do tempo, mas se consolidou como uma obra-prima que equilibrava perfeitamente a estética comercial dos anos 80 com a alma suja do Blues-Rock clássico. Não podemos esquecer que 1986 foi o ano do marco absoluto do Glam Metal (Hair Metal, Hard Rock, como você preferir). Bandas com cabelos armados, maquiagem e riffs criativos dominavam a MTV e as rádios norte-americanas. Mas enquanto a Sunset Strip de Los Angeles gerava a maior parte desse tuema, foi na Filadélfia que surgiu um dos capítulos mais autênticos e pertinentes daquela era.

Tom Keifer – vocais principais, guitarra, piano, Jeff LaBar – guitarra, vocais, Eric Britingham – baixo, vocais e Fred Coury – bateria (que não gravou o álbum, que contou com as baquetas contratadas de Jody Cortez) tiveram a ajuda de um certo Jon Bon Jovi para que a coisa toda se concretizasse. Em 1985, o vocalista do Bon Jovi assistiu ao Cinderella tocar no Empire Rock Club, na Pensilvânia. Impressionado com a energia do quarteto e, principalmente, com o talento do líder Tom Keifer, Jon correu para a sua gravadora (Mercury Records) e garantiu que aqueles garotos fossem contratados.

O grande diferencial do Cinderella em relação aos seus contemporâneos sempre foi Keifer, que na opinião deste que voz escreve, é sem dúvidas, o melhor vocalista do Hard Rock americano. Dono de uma voz rasgada que canalizava Janis Joplin e Brian Johnson, além de ser um guitarrista formidável e o único compositor do álbum, ele deu à banda uma identidade muito mais pesada e enraizada no Rock de raiz do que a média das bandas de "Hair Metal".


Produzido por Andy Johns (que já havia trabalhado com Led Zeppelin e Rolling Stones), o álbum traz uma sonoridade polida para as rádios, mas que estoura nos alto-falantes com uma agressividade crua, cortesia das guitarras de Keifer e Labar. E isso já se evidencia com "Night Songs", a faixa-título que abre o disco com um clima sombrio, passos ecoando e o badalar de um sino de igreja. O riff arrastado e o vocal cavernoso de Keifer ditam o tom de um álbum que fala sobre a vida noturna, isolamento e a busca por libertação. Na sequência, "Shake Me", lançada como primeiro single do álbum. É o Rock de arena puríssimo, impulsionado pela cozinha precisa de Brittingham (baixo) e Cortez). O refrão grudento foi um passaporte direto para a rotação diária na MTV. Temos ainda "Nobody's Fool", a balada inquestionável. E ela não é apenas mais uma "power ballad" genérica dos anos 80: há uma melancolia e uma entrega vocal destruidora de Keifer. A transição das guitarras limpas para o refrão pesado e emocional definiu o padrão de baladas da década. E como não citar "Somebody Save Me"? Dona de um riff de guitarra totalmente AC/DC, a faixa é um dos grandes sucessos do álbum, destilando a frustração da juventude suburbana com muito deboche e energia.

Falando daquilo que realmente importa (para a indústria musical), NIGHT SONGS foi um monstro. O álbum escalou a Billboard 200 até atingir a impressionante 3ª posição, vendendo mais de 3 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e transformando o Cinderella em atração principal de arenas pelo mundo.

Musicalmente, o álbum entregou o visual andrógino e os ganchos pop que a indústria fonográfica de 1986 exigia, mas plantou as sementes do que o Cinderella se tornaria nos discos seguintes, "Long Cold Winter" (1988) e "Heartbreak Statio"n (1990) — uma banda de Blues-Rock visceral, profundamente influenciada por Aerosmith e Muddy Waters.

Quarenta anos depois, e mesmo com todos os revezes que a própria indústria musical criou ao longo desse período, as músicas de NIGHT SONGS continuam soando intensas, pesadas e, acima de tudo, honestas. É a trilha sonora definitiva de uma noite que se recusa a terminar. E disso, o CINDERELLA entende bem.









sexta-feira, 5 de junho de 2026

POWERWOLF - WILDLIVE (LIVE AT OLYMPIAHALLE - 2 CDs) (2026)

 


POWERWOLF
WILDLIVE (LIVE AT OLYMPIAHALLE)
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Eis que, após 20 anos, podemos afirmar que o POWERWOLF se tornou um grande nome do metal mundial. E esse se torna ainda mais indiscutível com o lançamento de WILDLIVE (LIVE AT OLIMPIAHALLE), álbum que não é apenas um registro ao vivo: é uma verdadeira celebração ao Heavy Metal que desafia a imaginação. Gravado no emblemático show de encerramento da Wolfsnächte Tour 2024, em Munique, o álbum captura com perfeição a energia magnética e o brilhantismo teatral da maior turnê já realizada pelo quinteto. E jogar em casa, deixa tudo mais fácil, não é mesmo? E para os fãs, nada melhor do que saber que o trabalho sai por aqui num belo digifle sobressalente duplo, com capa e contracapa sobressalente, cortesia mais uma vez da parceria Shinigami Records/Napalm Record.

O grupo formado por Attila Dorn (vocal), Charles Greywolf (guitarra/baixo), Matthew Greywolf (guitarra), Falk Maria Schlegel (órgão) e Roel van Helden (bateria) entregaram aos fãs que estavam presentes no Olympiahalle um show repleto de energia, força e o mais puro power metal germânico capturando perfeitamente o amadurecimento sonoro e visual do grupo. O balanço impecável entre o peso das guitarras de Matthew e Charles Greywolf, as orquestrações do teclado/órgão de Falk Maria Schlegel e a cozinha precisa dão a base para que Attila Dorn tenha uma performance impecável, alcançando tons operísticos impressionantes sem perder o fôlego diante de uma plateia lotada e enérgica. A mixagem (assinada por Joost van den Broek) merece um destaque especial. Ela consegue equilibrar o peso da banda com a resposta ensurdecedora do público, fazendo com que o ouvinte se sinta no meio da pista.

Logo após a introdução, a banda emenda "Bless'em With the Blade" e "Incense & Iron", mostrando que não estavam ali para brincadeira. A execução de "1589" (faixa de "Wake Up The Wicked" - 2024) ganha contornos dramáticos no palco, carregada de corais épicos e uma atmosfera sombria sobre as caças às bruxas e lobisomens do século XVI.  Hinos obrigatórios como "Army Of The Night", "Amen & Attack", "Armata Strigoi" e "Demons Are a Girl's Best Friend" ganham maior intensidade nos arranjos, enquanto a emocionante "Alive or Undead" cria um dos momentos mais intensos da noite. Sob o comando da dinâmica impecável entre o vocalista Attila Dorn e o tecladista Falk Maria Schlegel, cada faixa se transforma em um ritual inesquecível. É impossível não se arrepiar com a trinca final do show: "Sanctified With Dynamite", "We Drink Your Blood" e o encerramento com "Werewolves of Armenia". 

WILDLIVE (LIVE AT OLYMPIAHALLE) não faz do POWERWOLF uma banda especial. Ele apenas reafirma sua posição já consolidada no cenário e abre  um novo capítulo na jornada do quinteto alemão. Um reconhecimento aos 20 anos de carreira e uma promessa do que está por vir. O grupo, há muito tempo, ultrapassou as fronteiras do gênero e, com este lançamento, prova mais uma vez que, para seu fãs (e não são poucos), sua arte vai além da música... é uma religião.

Sergiomar Menezes




METALLICA - LOAD 30 ANOS

 



OS 30 ANOS DO ÁLBUM MAIS CONTROVERSO DO METALLICA (ATÉ ENTÃO...)

Por William Ribas

Existe uma linha tênue entre o amor e o ódio. Durante a primeira década após seu lançamento, LOAD esteve sempre do lado mais sombrio dessa balança. O álbum ficava na prateleira apenas “por estar”. Em 1996, era surreal acreditar que o METALLICA tinha feito aquilo com o seu som. Aliás, com sua imagem também — aquelas fotos continuam grotescas.

Trinta anos depois, é justamente o álbum que mais escuto da banda (inclusive, estou ouvindo agora). É um trabalho tão abrangente que leva tempo para ser assimilado. Sim, eu sei que a gente quer agressividade. Mas e se eu te disser que o aniversariante do dia é o álbum mais honesto do Metallica?
Em sua última entrevista, Cliff Burton declarou que eles não ouviam thrash metal em casa. Falou sobre R.E.M., baladas e sobre apreciar outros estilos musicais. Dez anos depois, o Metallica fez exatamente o que seu ex-baixista já falava uma década antes: resolveu ser mais musical. Colocou todas as suas influências na mesa — hard rock, blues, country e stoner rock. O álbum passeia por diversos estilos sem perder o peso (sim, a agressividade foi embora).

Durante o processo de composição do álbum, o pai de James Hetfield faleceu. Outro fato importante que marcou a época foi o período de quase um ano em que o guitarrista e vocalista ficou longe do álcool. Tudo isso transpareceu nas letras de músicas como “Until It Sleeps”, “Bleeding Me”, “Mama Said” e “The Outlaw Torn”.

Um destaque particular é “2 x 4” — acho aquele início de bateria sensacional. Lars começa de maneira ímpar. Sim, eu sei que ele é limitado, ou que se tornou limitado com o passar dos anos. Mas a inteligência dele na forma de construir músicas e gerir o Metallica é o que o torna um gênio, ponto final.

Lembro muito de ver na MTV os clipes de “Until It Sleeps”, “King Nothing” e “Mama Said”. A cada novo Top 10, às 18 horas, eu odiava ver aqueles caras cheios de maquiagem passando na televisão. E “King Nothing”, com aquele finalzinho fazendo referência ao “Off to Never Never Land” de “Enter Sandman”?, Não tinham nada melhor pra encerrar a música e se auto copiaram?Dentro do álbum, a sequência de “Cure” e “Poor Twisted Me” era pavorosa. Eu, no auge da minha rebeldia aos 11 anos, pensava: “Cliff Burton deve estar muito puto com vocês”.


Mas tudo passa.

No fim de 1998, saí do último dia de aula e fui direto para uma loja de CDs. Lá estava o VHS Cunning Stunts. Comprei com o dinheiro que tinha guardado e assisti àquele vídeo feito um louco. Foi quando minha percepção começou a mudar. Pô, até que algumas músicas soavam ótimas ao vivo. “Ain't My Bitch” era rápida e dava para bater cabeça.

Mas a birra ainda existia e só foi embora de vez por volta de 2006.
Com a internet, comecei a acompanhar — de longe, infelizmente — as turnês do Metallica. Vídeos, atualizações e, a cada show, a banda lançando seus registros ao vivo, algo que segue acontecendo até hoje. E a cada turnê crescia aquela vontade de ouvir algo diferente, algo novo. Foi aí que o ódio virou amor.

Cada vez que uma música do Load aparecia no setlist, era como um gol de classificação do meu time. Três décadas depois, apenas quatro músicas do álbum nunca “subiram ao palco” em um show: “Cure”, “Thorn Within”, “Ronnie” e “The House Jack Built”. Um fato curioso, e que surpreendeu muitos fãs, foi a descoberta, através do box lançado no ano passado, de que esta última chegou a ser ensaiada durante uma passagem de som em Birmingham, em 1996.

Bem, e foi assim, com o passar dos que o álbum que odiei tanto desde o seu lançamento, em 4 de junho de 1996, acabou conquistando meu coração.

Hoje, todas as vezes que me refiro ao Load, digo a mesma coisa sempre:

“I Love This Shit”.