sexta-feira, 20 de março de 2026

DESTROYER 50 ANOS - O KISS EM SEU AUGE CRIATIVO

 


DESTROYER 50 ANOS 

Por Sergiomar Menezes

Em 1976, muitas coisas que marcaram a história aconteceram. Foi o ano do nascimento da Apple, aconteceu o golpe militar na Argentina, foi comemorado o bicentenário da Independência americana, Mao Tsé Tung foi de arrasto, chegava aos cinemas "Rocky, Um Lutador", este que vos escreve veio ao mundo, e mais um monte de outras situações. Nesse momento, o Rock n' Roll ainda estava tentando entender o que  tinha acontecido com ele próprio.  O sonho hippie tinha virado uma ressaca de asfalto e o punk já começava a rosnar nos bueiros de Nova York. No meio desse turbilhão, quatro sujeitos mascarados, que muitos críticos teimavam em chamar de "apenas um espetáculo de circo", decidiram que não bastava mais cuspir fogo e sangue. Era preciso criar um mito.

DESTROYER não foi apenas um álbum; foi a transformação do KISS de uma banda de hard rock de garagem para uma entidade cósmica e universal.

Para entender o impacto histórico de "Destroyer", precisamos falar de Bob Ezrin. O produtor chegou com a disciplina de um sargento e a visão de um diretor de Hollywood. Ele não queria que a banda apenas aumentasse o volume: ele queria a profundidade e dramaticidade de atores cinematográficos.

Foi Ezrin quem ensinou ao quarteto que o rock e a orquestração poderiam ser tão pesados quanto uma Gibson distorcida ou naipe de metais. Ele trouxe corais de crianças, efeitos sonoros de festas fantasmagóricas e a grandiosidade da Filarmônica de Nova York para dentro do estúdio. Ele transformou a crueza do KISS em estúdio em uma "quase" ópera com guitarras.


O álbum abre com o som de um carro ligando e o rádio sintonizando o próprio sucesso da banda. "Detroit Rock City" não é apenas uma canção; é um hino à vida e à celebração juvenil. O duelo de guitarras entre Paul Stanley e Ace Frehley ali estabeleceu o padrão de ouro para o que viria a ser o rock de arena. Ezrin gravou sons reais de um carro, o rádio sintonizando (tocando "Rock and Roll All Nite"), a porta batendo e o motor roncando. Isso cria um clima cinematográfico antes da primeira nota. Paul e Ace tocam harmonias que são matematicamente perfeitas. Ezrin exigiu precisão absoluta, eliminando a "sujeira" das garagens dos discos anteriores para criar um som estéril e poderoso.

Em "King of the Night Time World", Ezrin usou camadas sobrepostas de guitarras rítmicas para dar uma sensação de parede sonora. A bateria de Peter Criss foi gravada com microfones de sala (room mics) para capturar o eco natural do estúdio, fazendo-a soar como se estivesse sendo tocada em um estádio vazio. O resultado? Uma das músicas mais legais da carreira do KISS! O que dizer então de God of Thunder", a faixa que praticamente definiu a "persona" "The Demon" de Gene Simmons. Ezrin desacelerou a fita da gravação da voz de Gene para deixá-la mais grave e cavernosa, quase inumana. Aqueles sons de crianças gritando e ruídos estranhos no fundo? São os filhos de Bob Ezrin brincando no estúdio com walkie-talkies. O produtor capturou o som de "pesadelo infantil" para emoldurar a letra sombria.

"Great Expectations", a faixa mais ambiciosa e estranha da carreira do KISS (pelo menos, até aquele momento). Ao que tudo indica, a melodia principal foi "roubada" de uma sonata de Beethoven (Pathetique). Ezrin trouxe o Brooklyn Boys Chorus. O contraste entre a letra sobre a vida de uma estrela do rock e as vozes angelicais de crianças cria uma atmosfera grandiosa. Para reforçar a estética de "circo do rock", em "Flaming Youth", Ezrin introduziu um calíope (um órgão de tubos a vapor). Isso dá à música um tom lúdico e psicodélico que a diferencia do hard rock padrão da época. Já em "Sweet Pain" (uma das prediletas da casa), as harmonias vocais trazem uma técnica quase de música pop, criando um refrão "grudento" que brilha por cima da base pesada.

Mas o hino, a faixa que retrata tudo aquilo que o KISS foi e sempre será é "Shout it Out Loud". A sacada de gênio aqui foi alternar as vozes de Paul e Gene frase por frase, algo que exige uma mixagem muito dinâmica para que as frequências de ambas as vozes não se anulem. É uma engenharia de "ping-pong" vocal perfeita. O solo de Ace é daqueles que a gente guarda na memória e nunca, mas nunca mais esquece mesmo! "Beth", cantada por Peter Criss, salvou a banda financeiramente e mudou a história das baladas em discos de rock. Teoricamente, nenhum dos outros membros toca aqui. É apenas o Catman e uma orquestra de 25 músicos. O arranjo que não é meramente decorativo, ele conduz a emoção da música, usando violoncelos para dar o peso da melancolia. E pra fechar com chave de ouro, "Do You Love Me?", onde o baixo de Gene se destaca e a bateria traz um som mais seco, como se fosse um soco no peito. E o resultado é um encerramento mais do que espetacular.


Meio século depois, a capa icônica de Ken Kelly — com os quatro saltando de um monte de escombros sob um céu apocalíptico — continua sendo a imagem definitiva do rock como sinônimo de poder.

DESTROYER foi o momento em que o rock percebeu que poderia ser maior que a vida. Ele pavimentou o caminho para o que o Iron Maiden, o Mötley Crüe e até o Metallica fariam anos depois: criar um universo visual e sonoro onde o fã não apenas ouve música, mas habita um mundo.

O que o álbum nos ensina hoje nos ensina hoje? Que o rock precisa de perigo, mas também de estrutura. Que é possível ser teatral sem perder a alma. Cinquenta anos depois, quando as primeiras notas de "God of Thunder" ecoam, o chão ainda treme. Não é apenas nostalgia: é a prova de que, quando você constrói um monstro com inteligência, mas sobre tudo, com amor e paixão, ele nunca morre.


Para fechar essa pequena e singela homenagem, convidamos alguns amigos para deixarem seus depoimentos sobre o disco. Confira:

"Comprei o disco na loja Woodstock e ainda lembro bem quando ouvi a primeira vez. De cara, a introdução marcante, emendada com 'Detroit Rock City', me impactou. De fato, quase todas as faixas chamaram a atenção, mas acredito que 'Shout It Out Loud', que nasceu de uma releitura de 'I Wanna Shout', dos The Hollies, ainda nos dias de Wicked Lester, virou o grito de guerra. Ela traz a mensagem: esqueça regras, ignore limites e se entregue ao que realmente importa... Rock and roll. É, com isso eles chegaram ao primeiro Disco de Platina." - Ricardo Batalha 

"“Destroyer” começava a ser planejado antes do estouro de “Alive!”, que salvou a gravadora Casablanca da falência. No entanto, ganhou ares mais ambiciosos após o Kiss ter conquistado êxito comercial e desejado ir além. Contrataram o produtor certo para a ocasião: Bob Ezrin, que descartou quase tudo composto antes de sua chegada e elevou o patamar de todos os envolvidos ao ponto de até ensinar teoria musical a eles. “O propósito era fazer com que eles deixassem de ser uma banda de rock que só atraía moleques de 15 anos cheios de espinhas”, conta o produtor ao Rockounters. A julgar pelo sucesso de clássicos como “Beth”, “Detroit Rock City” e “God of Thunder”, o objetivo foi alcançado." - Igor Miranda

""Destroyer foi o primeiro disco do Kiss que comprei, em 1980. Abriu as portas para minha paixão e fanatismo por esta banda fantástica e que dura até hoje!" - Jacques Maciel (Rosa Tattooada)

"Destroyer é a mudança de chave e a primeira tentativa (bem sucedida)do Kiss ser levado a sério e somente Bob Ezrin seria capaz de levá-los aonde queriam. O álbum é impecável da primeira a última faixa e imortalizou clássicos como “Detroit Rock City”, “Beth”, “God Of Thunder”, entre outras, mostrando que havia muito mais conteúdo além das máscaras." - Tarcísio Chagas (Rock on Board / The Bridge Press)

"Um disco com uma produção grandiosa e músicas que viraram clássicos atemporais e que estiveram presentes nos setlists da banda em todas as tours, como “Detroit Rock City”, “God Of Thunder”, “Shout it Out Loud”, “Beth” e “Do YOu Love Me?” e que provou que o KISS não era um azarão, e sim a próxima grande atração do mundo do Rock n' Roll. E o que dizer da sua capa? Pra mim, a ilustração da capa é a imagem definitiva do quarteto mascarado. Sempre que penso no KISS, a primeira imagem que vem a mente, é a capa do Destroyer. Enfim, um dos maiores clássicos do Rock de todos os tempos." - José Henrique Godoy (Chatterboxes / Rebel Rock)

* coleção pessoal de José Henrique Godoy

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