O Discípulo do Doom Desembarca no Brasil
O cenário do Doom Metal mundial não seria o mesmo sem a voz de Robert Lowe. Dono de um alcance emocional único e de um timbre que transita entre o solene e o desesperador, Lowe eternizou seu nome na história ao capitanear instituições como o Solitude Aeturnus e ao dar vida a uma das eras mais icônicas do Candlemass.
Agora, em abril de 2026, o público brasileiro terá finalmente a chance de testemunhar essa lenda viva de perto. Pela primeira vez em solo nacional com seu projeto solo, a turnê "Disciple of Doom" promete ser muito mais do que um simples show: será uma celebração litúrgica de décadas de dedicação ao metal pesado e lento.
Em uma conversa franca com a Rebel Rock, Robert Lowe fala sobre a expectativa de encontrar os fãs brasileiros, revisita momentos cruciais de sua trajetória e revela detalhes sobre o processo criativo que o mantém como uma das vozes mais respeitadas do gênero. Preparem-se para a "Missa Doom": o mestre está chegando.
Por Sergiomar Menezes
Rebel Rock: Oi, Robert! Antes de mergulharmos no assunto, devo dizer que é uma honra absoluta entrevistar um dos maiores nomes da história do Doom Metal. Estamos entusiasmados por ter você aqui e espero que você aproveite bastante o papo!
Robert Lowe: Obrigado. É uma honra para mim também.
Rebel Rock: Robert, o projeto Disciple of Doom parece ser uma celebração definitiva da sua carreira. Como foi o processo de seleção do setlist para esta turnê brasileira, considerando que você tem hinos em bandas com sonoridades tão distintas?
Robert: Bem, escolher as músicas é difícil simplesmente porque há muitas opções, mas o que eu quis fazer com este set especial no Brasil é tocar coisas que obviamente as pessoas conhecem, mas também muitas outras músicas que são algumas das minhas favoritas e que não costumam ser tocadas ao vivo.
Rebel Rock: Você é uma lenda do gênero, mas esta é a sua primeira vez realizando shows solo no Brasil. O que você ouviu sobre o público brasileiro ao longo dos anos e o que os fãs podem esperar dessa "Missa Doom" que você está trazendo?
Robert: Eu entendo que os fãs brasileiros são incríveis, pelo que vi e ouvi sobre outras bandas que estiveram aí, e estou extremamente ansioso para fazer parte dessa comunidade. Planejamos tocar os clássicos e, novamente, também material de álbuns que — espero — as pessoas gostem, e que eu gosto, trazendo-os para o primeiro plano do show para que não seja um set comum e previsível.
Rebel Rock: O Solitude Aeturnus é frequentemente citado como o pilar do Epic Doom nos EUA. Olhando para trás, para álbuns como "Into the Depths of Sorrow" e "Beyond the Crimson Horizon", como você vê a evolução da sua voz e da sua escrita lírica daqueles dias até o presente?
Robert: Bem, inicialmente o Lyle cuidava das letras, e depois eu assumi como letrista; nossa abordagem de escrita é um pouco diferente. Quanto ao estilo vocal, acabei encontrando meu lugar com o "Through the Darkest Hour" e foi ali que me estabeleci. Não acho que meu estilo tenha mudado; se você quiser usar a palavra "evoluiu", então sim, simplesmente porque fiquei mais confortável no meu papel, mas isso não mudou quem e o que eu sou em relação a pensamentos, sentimentos e emoções. Essas coisas nunca vão embora.
Rebel Rock: Juntar-se ao Candlemass para o álbum "King of the Grey Islands" foi um dos momentos mais impactantes do metal nos anos 2000. Como foi o desafio de ocupar o lugar de Messiah Marcolin e, ao mesmo tempo, imprimir sua própria identidade em clássicos como "Bewitched" e "Solitude" durante as turnês?
Robert: Antes de tudo, você não substitui o Messiah. Quero dizer, o homem é uma lenda por si só. E quem não gosta do Messiah, certo? O que eu quis fazer foi apenas colocar minha marca de alguma forma em uma banda que já era enorme e que é uma das bandas que me colocou neste caminho, então todo o crédito vai para esses caras. Tudo o que eu pude fazer foi o melhor possível para garantir que a reputação do Candlemass não fosse manchada.
Rebel Rock: Muitos fãs consideram o "Death Magic Doom" (2009) um dos melhores discos da história do Candlemass. Qual é a sua lembrança favorita do processo de gravação desse álbum e como era sua dinâmica criativa com Leif Edling na época?
Robert: Eu estava assistindo a um documentário do Abba no meu hotel em Oslo, na Noruega. O Leif apareceu, bateu na porta, ficamos sentados por um tempo decidindo o título do álbum, que acabou sendo esse. Mas o processo foi muito tranquilo. Aqueles cavalheiros são incríveis de se trabalhar. Executar as músicas no estúdio foi surpreendentemente fluido. Todo mundo é muito profissional, então não é uma situação difícil conseguir criar a música que o Leif escreveu. Todos os caras são incríveis, eu era a "terceira roda" ali.
Rebel Rock: Você teve uma relação próxima com o Trouble, outra instituição do Doom. Como a "escola de Chicago" e o estilo de bandas como Trouble e Saint Vitus influenciaram sua interpretação do metal, especialmente em comparação com o estilo mais "europeu" do Candlemass?
Robert: Minha primeira impressão veio — acredito — da coletânea Metal Massacre 4. No lado B do disco, a primeira vez que ouvi Trouble foi "Last Judgement", e eu apenas sentei lá e pensei: "Puta merda. Isso é que é o bicho". Bem, para ser honesto, naquela época, o que quer que você queira dizer com "Metal Europeu", eu estava ouvindo obviamente Priest, Maiden... Eu não considero realmente essas bandas como metal europeu. Metal é metal. Digo, Scorpions, era o que eu ouvia na época... Sabbath... Não havia muita coisa super pesada saindo dos Estados Unidos naquele tempo. Depende, quero dizer, se você olhar para bandas como Metal Church, Slayer, Anthrax... com exceção do Pentagram, que foi outra banda que me fez dizer "Caramba! Por que estou ouvindo Hank Williams Jr.?"
Rebel Rock: Poucas pessoas sabem que você também toca guitarra e baixo (como visto em projetos como o Concept of God). Como seu conhecimento de outros instrumentos ajuda a construir melodias vocais sobre riffs de Doom pesados e lentos?
Robert: Com a habilidade de tocar vários instrumentos, no que me diz respeito, os vocais são completamente diferentes de tocar guitarra, baixo, bateria, teclado ou qualquer instrumento. Para mim, vejo os vocais como a terceira guitarra, a outra linha de baixo; todos têm que se entrosar e ser um só. Não são instrumentos individuais, porque quando você se une como uma banda, os vocais nada mais são do que um aditivo para a mistura completa do todo.
Rebel Rock: O Doom Metal passou por várias ondas, do Tradicional ao Stoner e Sludge. Como você vê a cena hoje em 2026? Existem novas bandas que você sente que capturam aquela "aura de desespero" que você ajudou a criar nos anos 80 e 90?
Robert: Como eu respondo a isso? Há muitas bandas que eu escuto e, quando surgem essas perguntas, nunca consigo nomear todas as bandas que tocam ao fundo quando estou fazendo café de manhã. É uma daquelas coisas... eu poderia sentar aqui e listar bandas o dia todo, certo? No momento, me vem à cabeça a banda Funeral. Outra que estou ouvindo no momento é Witchcraft. Sabe, são tantas que não consigo apenas listá-las. Essas são as duas que me vêm à mente. Mas, quanto ao estado do doom metal, acho que talvez algumas bandas tenham perdido a diversidade, mas, por outro lado, tudo isso tem seu lugar. E só importa onde você está naquele momento particular. Vejo a música como uma jornada e, se você vai colocar um álbum de quem quer que seja sua banda favorita, é ali que você precisa estar, e deve agradecer àqueles cavalheiros que fizeram aquilo acontecer.
Rebel Rock: Vimos recentemente alguns relançamentos e atividade em torno do nome Solitude Aeturnus. Existe a possibilidade de vermos material novo com John Perez no futuro, ou seu foco agora está inteiramente em novos projetos como o DiGelsomina e sua carreira solo?
Robert: Quanto a material novo, nunca há uma razão para o SA parar de fazer o que estamos fazendo. Tocaremos no Maryland Deathfest em maio e no Candelabrum Metal Fest no México em setembro, e há mais shows sendo planejados enquanto conversamos. O DiGelsomina me contratou para os vocais em seu próximo álbum. Também estou fazendo os vocais para o próximo álbum do Lost Requiem. Além disso, tenho outros trabalhos surgindo, como um single com a banda The Cross, do Brasil. Atualmente, estou montando uma banda Disciple of Doom aqui na Noruega.
Rebel Rock: Robert, o Brasil é conhecido mundialmente por ter um dos públicos de Heavy Metal mais apaixonados e barulhentos. Além do palco, o que você está mais ansioso para vivenciar em nosso país? Há algo em nossa cultura ou culinária que você esteja animado para experimentar?
Robert: Por experiência, sei que não terei muito tempo para fazer turismo, mas certamente estou interessado em ver algumas partes históricas do país; mas, antes de tudo, estarei aí para levar o doom ao Brasil e conhecer os fãs que eu tanto aprecio.
Rebel Rock: Nesta turnê, você dividirá o palco com as bandas brasileiras Midgard e Loss. Você teve a chance de ouvir a música deles? Como é ver que o legado do Doom e do Heavy Metal Tradicional permanece vivo e forte através de bandas mais novas pelo mundo?
Robert: Eu dei uma ouvida no Midgard e no Loss, e devo dizer que mal posso esperar para tocar com esses caras. Bem, é bom saber que as pessoas ainda sabem o que é música de qualidade.
Foto: Brian Mclean
Rebel Rock: Robert, muito obrigado por dedicar seu tempo para esta entrevista. Sua voz tem sido a trilha sonora de décadas para muitos de nós, e ter você no Brasil é um sonho realizado para a comunidade Doom Metal. Muito obrigado pelo seu tempo e por tudo que você deu à cena metal. Foi um prazer conversar com você. Continue detonando e espero ver você no palco em breve!
Robert: Obrigado por me receber. Eliton Tomasi e Susi Dos Santos, da Som Do Darma, fizeram um trabalho incrível promovendo esta turnê, e a resposta dos fãs também tem sido ótima. É uma bênção e agradeço a Deus todos os dias por ainda poder calçar minhas botas e fazer o que amo fazer.
Robert: Vamos fazer essa porra acontecer! Quebrem tudo... respirem o DOOM!

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