terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - ANTHRAX


 REBEL ROCK RESEARCH - ANTHRAX 

O ANTHRAX é uma instituição do Heavy Metal. Talvez, os mais radicais torçam a cara pelo fato do grupo ter misturado rap em algumas faixas, ou por ter usado bermudas e roupas coloridas fugindo do estereótipo "banda mau de metal". Mas é inegável que o grupo, em seus mais de 40 anos de carreira, proporcionou aos apreciadores da boa música, álbuns sensacionais sem nunca ficar se preocupando o que pensariam a seu respeito. Algumas trocas de formação durante esse período também ocorreram mas sem que o grupo perdesse sua relevância dentro do cenário. Se lá no começo, com Neil Turbin nos vocais e Danny Lilker no baixo o grupo já dava mostras de seu enorme potencial, as entradas de Joey Belladona e Frank Bello fez com que o lado mais "melódico" do quinteto se mostrasse de forma mais direta e consolidou o "Anthrax Sound". Mais pra frente, John Bush assumiu os vocais e deu nova vida ao grupo, mesmo com a saída do "baixinho gigante" Dan Spitz e a entrada do ótimo guitarrista Rob Caggiano. Com o retorno de Belladona e a entrada do guitarrista Jonathan Donais, o grupo retomou o caminho daquela sonoridade mais típica e segue atuante nos dias de hoje. O REBEL ROCK RESEARCH dissecou a discografia (de estúdio) do grupo, ranqueando seus álbuns do mais fraco ao melhor e o resultado você confere abaixo.

Por Sergiomar Menezes

14º - VOLUME 8: THE THREAT IS REAL (1998)


Tá aí um álbum que eu faço um mea culpa. Nunca prestei atenção, seja na época de seu lançamento, seja tempos depois. Mas a verdade é que VOLUME 8: THE THREAT IS REAL é um trabalho que apesar de soar um tanto quanto estranho, tem sim seus bons momentos. O grupo vivia um momento conturbado, pois o guitarrista Paul Crook não se encaixava muito naquilo que o grupo precisava (ele ainda atuou como produtor ao lado da banda). Assim, o resultado é bem desequilibrado pois se temos alguns bons momentos como a abertura com "Crush", "Catharsis" (uma faixa que podia ser resgatada pela banda), "Toast to the Extras", uma espécie de country que soa um pouco deslocada mas nem por isso deixa de ser legal, e  "Inside Out", também temos outros momentos pouco inspirados como "P & V", "Born Again Idiot", "Big Fat" e "Cupajoe". De forma resumida, o maior pecado de VOLUME 8 é ser experimental e um tanto quanto confuso. O álbum tenta atirar para todos os lados, passando pelo rock alternativo e indo ao thrash, resultando em um trabalho irregular. E, como já citado, possui problemas de produção e identidade. Não é um desastre, mas falta inspiração. Mas, se você é como eu e não deu muita atenção ao álbum, escute de novo. Pode ser que você encontre os mesmos bons momentos que eu achei.



13º - STOMP 442 (1995)


Confesso que STOMP 442 se diferencia de seu sucessor (Volume 8: The Threat is Real) por um simples fato: "Fueled". Que música meus amigos. Que música! Sem dúvida, uma das melhores da fase John Bush. Intensa, rápida e certeira, a faixa é o maior de destaque do álbum que também traz outros bons momentos. Mas fica bem nítido que o grupo estava numa fase de transição, mesmo com a boa aceitação de "Sound of White Noise" (1993), primeiro álbum com John Bush. Dan Spitz havia deixado a banda e Paul Crook assumiu a maior parte das guitarras. "Randoms Acts of Senseless Violence" (escrita por Paul Crook), "King Size" (escrita pelo saudoso Dimebag Darrel) e "Riding Shotgun" (também escrita por Darrel em parceria com Crook) se destacam, mas também podemos citar "Nothing" e "American Pompeii". Podemos dizer que é um álbum agressivo, mas que sofreu com a falta de apoio da gravadora e a mudança no direcionamento musical na época. Apesar de agressivo e seco, é um trabalho pouco memorável. Reflete a dificuldade do thrash em sobreviver à era grunge e tudo mais que envolvia o cenário musical à época.



12º - ANTHEMS (2013)


Álbum de covers entra? E se for EP? Como aqui quem manda é quem está escrevendo, álbum de covers entra sim... hahaha. E eu particularmente, não considero ANTHEMS um EP, como a própria banda registar em sua discografia, pois temos aqui 8 faixas, o que muitas vezes é mais do que alguns álbuns. Mas o que importa é que o trabalho não é dos mais inspirados, ainda que as versões tenham ficado bem interessantes. "Anthem " cover do Rush ficou bem legal, pois sabemos que o Anthrax consegue incorporar sua personalidade em faixas que regrava, e aqui não foi diferente. "TNT" do AC/DC também ficou bacana, mantendo a energia e atmosfera da original. Já "Smokin'" (Boston) e "Keep on Runnin'" (Journey) ficaram legais mas não acrescentam muito. O Cheap Trick não foi esquecido e "Big Eyes" ganhou uma versão de respeito enquanto "Jailbreak" do Thin Lizzy ficou interessante, e mostra a versatilidade de Belladona. O disco encerra com "Crawl" em duas versões, a presente em "Worship Music" e um remix que não mostrou nada de novo. Não é descartável, muito pelo contrário. Mas não vai mudar sua vida se não fizer parte da sua coleção.



11º - ATTACK OF THE KILLER B's (1991)


Aí você deve estar pensando: "O que faz uma coletânea entre os álbuns regulares da banda? Pois bem, ATTACK OF THE KILLER B'S não é uma simples coletânea, tipo "Best of", "Greatest Hits" e afins. Trata-se de um trabalho com lados B's, covers, faixas ao vivo e raridades da banda lançada após a saída de Joey Belladona e antes da entrada de John Bush na banda. Talvez você pense que seja apenas um tapa buraco, mas meu amigo, um álbum que traz em seu tracklist "Bring The Noise", faixa gravada dos rappers do Public Enemy, que ganhou uma dose extra de peso e que se tornou um dos maiores singles do Anthrax, não pode ser considerada de forma pejorativa. Dentro do cenário de covers, temos ainda "Milk(Ode to Billy) e "Chromatic Death", do S.O.D., banda/projeto da qual Scott Ian é integrante, "Protest and Survive" do Discharge, "Parasite", do KISS, "Pipeline", do Chantays e "Sects" do Trust, além de uma nova versão para "I'm the Man", que, sinceramente, não ficou muito legal. Entre as raridades, temos "Startin' Up a Posse", uma faixa com a cara do Anthrax. Mesmo que não seja um trabalho regular dentro da discografia do grupo, decidi colocá-lo aqui, principalmente porque as faixas presentes não se encontram nos outros álbuns, tornando-se até então, inéditas em um full lenght. Difícil de ranquear um trabalho assim, mas vale a aquisição!



10º - FISTFUL OF METAL (1984)


Pode ser que eu não seja compreendido aqui, pois sei que muitos fãs tem em FISTFUL OF METAL um dos melhores álbuns do ANTHRAX. Mas, como estamos tratando aqui de opinião, e ela é pessoal, e assim, coloco ele nessa décima posição. Neil Turbin nos vocais entrega aqueles agudos clássicos, e faixas como "Metal Thrashing Mad" definiram o termo THRASH. É um começo sólido, embora a banda ainda não tivesse encontrado sua identidade visual e sonora definitiva. Podemos até, de certa forma, afirmar que o trabalho é mais próximo da NWOBHM do que do thrash que consagraria a banda. Ouça e "Panic" e me diga se você não ouviu nada de Iron Maiden por ali... ou ainda "Subjugator" com seu ar "pristeniano". "Howling Furies" e "Death From Above" seguem essa mesma linha. Mas não podemos esquecer de "Deathrider" que abre o álbum e se tornou uma das músicas mais animais da história do Anthrax (veremos isso um pouco mais pra frente). Temos ainda o cover de "I'm Eighteen" do mestre dos mestres, Alice Cooper, que ficou bem ao estilo do grupo. Enfim, um bom álbum que marcou o início da trajetória do grupo.



9º - WORSHIP MUSIC (2011)


Sétimo álbum de estúdio do ANTHRAX, WORSHIP MUSIC lançado em 2011, marca o retorno de Joey Belladona aos vocais do grupo e também a despedida de Rob Caggiano, guitarrista que formava uma bela dupla com Scott Ian. Também produtor da bolacha, Caggiano deu vida nova à banda, o que ficou evidente em "We've Come For You All" (2003 - e que será o tema daqui a pouco). No entanto, "Worship Music", por mais que tenha trazido Belladona de volta e traga em seu tracklist faixas "Earth on Hell", pesada e intensa, já mostra que Belladona não perdeu seu poder vocal enquanto "The Devil You Know" e "Fight 'Em 'till You Can't" mostram o bom e velho Anthrax de sempre, principalmente a última. Com riffs e aqueles vocais característicos, a faixa é aquela que meu amigo perguntou se eu já tinha ouvido lá na época de seu lançamento. E não é que realmente ela parece ... ANTHRAX! Não tenho medo de afirmar aqui que essa é a melhor composição do grupo após o retorno de Belladona. E pensar que após a saída de John Bush, Dan Nelson foi cogitado para seu lugar e chegou até mesmo agravar algumas faixas com o grupo. Nada contra o cara, até mesmo porque eu não ouvi nada com ele, mas o que temos aqui é aquilo que sempre esperamos ouvir do grupo: THRASH METAL como só o Anthrax sabe fazer!



8º - FOR ALL KINGS (2016)


O mais recente full lenght do ANTHRAX está completando 10 anos! Como o tempo passa! De lá pra cá o grupo já comemorou seus 40 anos de carreira e rolam rumores de que podemos ter um novo álbum muito em breve. FOR ALL KINGS é um álbum forte, denso com ótimas músicas e que reforça que o retorno de Belladona, ainda que com algumas restrições (por parte deste que vos escreve), foi sim acertado. Melodia e velocidade, tudo aquilo que fez do Anthrax uma das bandas mais legais dentro do estilo. Lembro que certo vez, um amigo me perguntou, quando da volta de Belladona: "E aí, ouvi a música nova do Anthrax? E como tá?", no que eu respondi: "Cara, tá Anthrax!" E é isso que a gente espera: a mão direita de Scott Ian trabalhando em riffs insanos enquanto Frank Bello e Charlie Benante formam uma das cozinhas mais fodas e injustiçadas do metal. Faixas como "You Gotta Believe", que abre o álbum de forma magistral, "Evil Twin", "Breathing Lightning" e a pesada e arrastada "Blood Eagle Wings" mostram que o quinteto segue sendo relevante nos dias de hoje. Levemente superior ao seu antecessor (Whorship Music), o trabalho é um resgate e um a afirmação de que o THRASH do grupo segue firme e forte.



7° - SPREADING THE DISEASE



À partir daqui, ficou complicado de escolher quem ficaria na frente de quem, exceto pelo pódio. Mas, já que tenho que escolher, SPREADING THE DISEASE, primeiro álbum com Joey Belladona, lançado em 1985 é um trabalho recheado de clássicos que se tornaram hinos imortais. Imagine um trabalho que abre com "A.I.R", uma rifferama linda, onde Bellladona já mostra a que veio com uma voz mais melódica que a de Neil Turbin, mas que nem por isso deixa de soar marcante. "Lone Justice", que começa com um baixo pesado, cortesia do também estreante Frank Bello, traz ainda uns poucos resquícios da NWOBHM, mas sem exageros. O que dizer dos riffs de "Madhouse" ou do seu hilário videoclipe? Uma das crias da Megaforce e de seu mentor Jon Zazula, o Anthrax aqui mostrou que vinha para se tornar uma das maiores bandas do estilo, o que veio a se confirmar no seu trabalho vindouro. Temos ainda como destaques "The Enemy", que realça o bom entrosamento entre Benante e Frank Bello, talvez por serem tio e sobrinho, respectivamente, "Medusa" e a fantástica "Gung-Ho"! Que pedrada na mente! Tendo jon Zazula na produção e Alex Perialas como engenheiro de som, "Spreading the Disease" é um trabalho que mostrou (e até hoje mostra)uma banda que sabia onde queria chegar.



6º - SOUND OF WHITE NOISE (1993)


A primeira vez que ouvi SOUND OF WHITE NOISE, não curti o álbum. Mas isso também aconteceu com outros dois trabalhos que hoje estão entre meus discos preferidos de todos os tempos: "Nevermind the Bollocks... Here's the Sex Pistols" (vocês sabem de quem) e "Mondo Bizarro" do Ramones. SOWN traz um ANTHRAX renovado com a presença do melhor vocalista que passou pelo grupo, o excepcional John Bush. Uma sonoridade pesada, moderna e intensa fez do grupo um pouco incompreendido à época, principalmente pelas viúvas de Belladona que não aceitavam que agora a banda estava buscando soar um pouco diferente daquilo que fazia. Logo de cara, a produção de Dave Jerden salta a frente pois as guitarras estão soando mais pesada e viscerais. Mas é impossível não dizer que quem fez a diferença foi Bush. O que dizer de sua performance em "Only", uma das músicas amis perfeitas já feitas dentro do metal, segundo ninguém mais ninguém menos que James Hetfield? E "Room For One More", que também mostra uma banda tentando se "modernizar" sem perder sua essência entregando outra grande faixa?  "Potter's Field", "Packaged Rebellion", "Invisible" e "C11 H17 N2 O2 S Na" e "This is Not an Exit", são outros grandes momentos de um trabalho que apesar de trazer uma transição, se mostrou forte, honesto e acima de tudo, pesado!



5º - STATE OF EUPHORIA (1988)


Não foi fácil vir na sequência de "Among the Living". E esse peso caiu todo em cima de STATE OF EUPHORIA. Quarto álbum de estúdio da banda, ele chegou cercado de expectativas, que pelo menos ao meu ver, correspondeu sim ao que foi esperado. Obviamente que não se compara ao seu antecessor, mas possui carisma, qualidade e músicas fantásticas coma que abre o play. "Be All End All", com seus riffs inconfundíveis e que muito tempo depois seriam copiados por um dos grandes nomes do death metal mundial ( a saber, o Behemoth). Faixa imprescindível para quem quer conhecer o que é uma música que soa como Anthrax. Já "Out of Sight, Out of Mind", é uma "prima/irmã" de "Caught in a Mosh", pois traz a mesma energia da citada e um refrão que fica na mente logo na primeira audição. "Make me Laugh" é mais pesada e traz um Belladona buscando novas regiões vocis e que ficaram bem encaixadas na faixa. E como não citar "Antisocial" cover d abanda francesa Trust, da qual o batera Nicko McBrain (Iron maiden) fazia parte? E com todo respeito aos franceses, essa faixa deixou de pertencer a eles há muito tempo... E ainda temos "Misery Loves Company", "Now It'sdark" e "Finale", que temperam ainda mais o molho de álbum que vale cada centavo investido.



4º - PERSISTENCE OF TIME (1990)


Em PERSISTENCE OF TIME, o ANTHRAX assumiu uma faceta mais séria. Não que o grupo não fosse, mas tudo aqui já dava mostras que o quinteto buscava uma sonoridade um pouco diferente, mas sem perder sua identidade. E sendo esse o último trabalho com Belladona nos vocais (até sua volta em 2011), presumo que isso tenha sido um dos tantos motivos que motivaram sua saída. Mas falando das músicas, o álbum é um grande trabalho, desde a cozinha, passando pelas guitarras e pelo próprio vocalista, que nos entrega uma grande performance vocal. Scott Ian e Dan Spitz formavam à época uma das principais duplas do estilo, o que se comprova logo na abertura com "Time", com quase sete minutos, antecede "Blood", que rompe essa barreira, mas não sentimos o tempo passar, tamanha a capacidade do grupo em nos prender dentro da composição. No entanto, o grande momento do disco vem na sequência: "Keep in the Family". Cadenciada, pesada, densa e que ganha intensidade e velocidade em determinados momentos, a faixa é uma das melhores que o Anthrax já compôs e gravou! E se a gente acha que o que era bom, acaba por aí, em seguida temso "In My World", aquela faixa "tipicamente Anthrax" e que foi tocada pelo grupo quando participou de um episódio da série "Married With Children" - no Brasil "Um Amor de Família". E como se não bastasse, temos ainda "Got The Time", cover de Joe Jackson que também ganhou vida nova pelas mãos do grupo. Pra encerrar, a pesada "Belly of the Beast" e a velocidade insana de "Discharge". Que disco, meus amigos. Que disco!



3º - WE'VE COME FOR YOU ALL (2003)


Tenho a mais absoluta certeza que muitos não concordarão com essa escolha, e não culpo quem assim o fizer. Porque pode parecer estranho colocar um trabalho tão "recente" do grupo, em detrimento aos clássicos gravados nos anos 80. Mas, como essa seção é puramente de preferência pessoal, WE'VE COME FOR YOU ALL vem para ocupar seu lugar no pódio desse Rebel Rock Research. Cinco anos após o mal sucedido "Volume 8: The Threat is Real", o ANTHRAX nos brinda com um álbum impecável, mostrando que a banda ainda tinha sim, lenha pra queimar. E que lenha! Após uma pequena intro ("Contact") o álbum inicia com a pedrada "What Doesn't Die", que inicia sob riffs e bateria sincronizados, preparando o terreno para John Bush mostrar como se faz! "Superhero" e "Refuse to be Denied" são momentos mais cadenciados e densos, que antecedem uma das melhores músicas do Anthrax: "Safe Home". A música consegue ser melódica, pesada, moderna, e carregada de sentimento, muito disso por culpa de Bush e dos backing vocals de Frank Bello. Apesar de não ser o melhor álbum do grupo, me arrisco a dizer que estamos aqui, diante da melhor formação da banda. Benante em "Nobody Knows Anything" volta pra refirmar aquilo que já disse em algum dos textos acima: ele é sim um dos bateras mais injustiçados do metal, pois quase nunca vemos ele sendo citado como um dos melhores ou mais técnicos do estilo. O saudoso Dimebag Darrel participa de "Strap it On", talvez a música com mais cara de modernA do grupo. E quem diria que um dia ouviríamos um grindcore num álbum do Anthrax? Mas "Black Dahlia" vem pra suprir essa falta... Dimebag participa também de outra pérola: "Cadillac Rock Box", uma composição mais, digamos assim, comercial, mas dona de uma ótima linha de guitarra. E se esse é um álbum, com grindcore, porque não trazer um dos maiores nomes do classic rock pra participar de uma faixa? Roger Daltrey do The Who empresta sua classe e voz à "Tacking the Music Back", um dos principais momentos do álbum, na opinião deste que vos escreve. A faixa título fecha o álbum numa linha entre o passado e o presente, musicalmente falando. WCFYA por muito pouco não ocupou o segundo lugar nesse ranking, mas não tinha como...



2º THE GREATER OF TWO EVILS (2004)


Como assim? Coletânea de regravações em segundo lugar????? Sim! Mas quem conhece sabe que não é qualquer coletânea, pois aqui o ANTHRAX conseguiu melhorar aquilo que já era sensacional! THE GREATER OF TWO EVILS (algo como "Dos males o Maior") traz 14 faixas regravadas pela banda, todas elas com John Bush nos vocais, Rob Caggiano  e Scott Ian nas guitarras, Frank Bello no baixo e Charlie Benante na bateria. E se você pensar que a voz de Bush não se encaixaria naquilo que Neil Turbin e Joey Belladona gravaram, lamento informar, mas você está redondamente enganado. E isso já fica nítido e claro na abertura com "Deathrider", que ficou duzentas vezes melhor que a original, da mesma forma que "Metal Thrashing Mad", onde Bush simplesmente destrói. Impressiona como o ANTHRAX conseguiu atingir um nível de excelência nessas regravações, com abanda exalando fúria e aquele tradicional, bom e velho sangue "nozóio". E vale destacar mais uma vez a performance de Benante que entre uma e outra virada, consegue adicionar uns blast beats com classe em faixas que não demandam tal artifício. Até mesmo "Caught in a Mosh" ganhou uma energia extra, enquanto "A.I.R" "sofreu" desse mesmo mal. As unicas ressalvas que eu faço aqui são "Indians", que parece ter sido escrita para única e exclusivamente ser cantada por Belladona e "NFL", que ganhou uns blast beats em sua parte final, deixando-a um pouco "estranha". De resto, "Keep in the Family" ficou monstruosa, principalmente pela performance de Bush, bem como "I Am the Law" e "Belly of the Beast", que superaram as expectativas. Be All End All" e " Gung-Ho" encerram o trabalho de forma grandiosa. Me diz aí: tinha como isso não ficar maravilhoso? Uma pena que depois disso a banda entrou numa instabilidade que acarretou a saída de Bello, depois Caggiano e na sequência Bush. Mas o estrago já estava feito. E que belo estrago!



1º AMONG THE LIVING (1987)


AMONG THE LIVING. Não tinha como ser diferente. O maior clássico do ANTHRAX é o primeiro colocado nesse Rebel Rock Research. Produzido por Eddie Krammer, o terceiro álbum da banda foi a prova de fogo, após a expectativa criada com o segundo disco. Facilmente, poderia dizer que "Among the Living" está para o Anthrax da mesma forma que "Rust in Peace" está para o Megadeth, "Reign in Blood" para o Slayer e "Master of Puppets" está para o Metallica (ainda que eu considere "Ride the Lightning" o melhor deles). Desde seu início com a faixa título, uma obra prima de peso, velocidade e muita energia (Belladona entrega uma performance matadora aqui), passando por outra pérolas do cancioneiro THRASH como "Caught in a Mosh" (uma daquelas faixas que é necessário afastar os móveis da sala quando se coloca pra ouvir), "I am the Law", inspirada em Judge Dreed, personagem de HQ e dona de um riff que você reconhece onde você estiver, porque ele nunca mais sai da cabeça, "Efilnikufesin (NFL), com um refrão inesquecível e inspirada na vida do ator John Belush, chegando nos riffs pesados de "A Sekeleton in the Closet" (Benante destrói tudo aqui). Mas o ápice está em "Indians". Eu não sei se isso é possível, mas essa é música totalmente thrash metal e bonita! Sim! Bonita! Seja pela mensagem forte que ela passa, seja pela melodia e suas linhas de guitarra, a verdade é que "Indians" se tornou um verdadeiro clássico, com uam performance matadora de Belladona (principalmente ao vivo) e no momento da "War dance", onde nos shows, não sobra pedra sobre pedra. "One World", "A.D.I./Horror of it All" e "Imitation of Life" completam a tracklist do álbum que de forma automática, volta a tocar novamente. Muitos questionam a participação do Anthrax junto ao BIG 4 do THRASH METAL. Mas eu digo e repito: se a banda tivesse lançado apenas AMONG THE LIVING em sua carreira, seria merecedor de participar desse seleto grupo!










 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

BEHEMOTH - DEMIGOD (2004/2025) RELANÇAMENTO

 


BEHEMOTH
DEMIGOD
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Em 2004, o cenário do Death Metal mundial enfrentava um dilema: ou as bandas se tornavam excessivamente técnicas, melódicas e sem alma, ou repetiam fórmulas exaustivas do passado. Foi nesse vácuo criativo que o Behemoth lançou Demigod, uma obra que não apenas redefiniu a carreira dos poloneses, mas injetou sangue novo — e profano — nas veias da música extrema.

Até Demigod, o Behemoth transitava entre o Black Metal ríspido e o Death Metal. Neste disco, as barreiras caíram. O álbum apresenta uma sonoridade robusta, opressiva e, ao mesmo tempo, cristalina em seus detalhes. Há peso, mas há também profundidade. Nada soa acidental. Cada camada parece pensada para sustentar uma arquitetura sonora sólida e imponente.

Logo na abertura, “Sculpting the Throne ov Seth” estabelece o tom: uma introdução quase cerimonial que rapidamente se transforma em avalanche. O que se segue ao longo das faixas é uma sucessão de composições que equilibram brutalidade e construção atmosférica. É impossível falar de Demigod sem citar músicas que se tornaram obrigatórias nos setlists por anos.

“Conquer All” talvez seja o maior hino da banda, com um groove inesquecível e um refrão que funciona como verdadeiro manifesto de força. “Slaves Shall Serve” é uma injeção de adrenalina pura, na qual a velocidade atinge níveis extremos, evocando pânico e agressividade. Já “The Nephilim Rising” e “XUL” ampliam o senso melódico do disco. As melodias não servem apenas como base estrutural; elas constroem tensão, sugerem misticismo e sustentam o conceito amplo do álbum.

A figura do “semideus”, evocada no título, atravessa as letras e se manifesta na forma como a voz ecoa, reverbera e domina o espaço sonoro. O impacto do álbum, à época de seu lançamento, foi imediato. O Behemoth passou a ocupar um lugar de protagonismo na cena internacional, e o disco tornou-se referência para inúmeras bandas que buscavam unir intensidade extrema a uma identidade própria. Mais do que técnica ou velocidade, o que impressiona é a convicção. Demigod soa seguro de si, consciente da própria força.

Mais de vinte anos depois, Demigod continua relevante. A produção permanece poderosa, as músicas seguem funcionando com força intacta e a atmosfera ainda é capaz de envolver e sufocar o ouvinte. Não é um disco datado; é um trabalho que resistiu ao tempo. Ao relançá-lo no Brasil, a Shinigami Records resgata não apenas um clássico, mas um marco de transformação dentro do metal extremo. Uma obra que segue pulsando com a mesma intensidade profana de 2004 — e que continua lembrando por que o Behemoth se tornou um dos nomes mais imponentes da cena.

William Ribas




SOULFLY - ARCHANGEL (2015/2025) - RELANÇAMENTO

 


SOULFLY
ARCHANGEL 
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Maximiliano Cavalera é um dos heróis brasileiros. Eu já escrevi algumas resenhas sobre trabalhos de Max e sempre falarei sobre sua importância. Ele, junto ao Sepultura, colocou o Brasil no mapa do mundo. Houve uma época em que o universo conhecia nosso país por causa de Pelé e pela brutalidade de Max e sua ex-banda.

Dito tudo isso, vamos para a resenha de mais um ótimo relançamento da Shinigami Records.

Há uma certa mística que envolve o décimo capítulo de qualquer discografia. É o marco da sobrevivência, da persistência e, no caso do nosso Cavalera, da consagração de um estilo de vida. Archangel mostra que o Soulfly continua na sua concisão brutal. Se trabalhos anteriores eram viagens panorâmicas, este é um ataque cirúrgico: curto, impregnado de uma aura bíblica e violenta. Com pouco mais de meia hora de duração, a obra dispensa "gorduras" sonoras. O que ouvimos é uma destilação do que a banda faz de melhor, mas acelerada e polida por uma produção que destaca a sua “urgência”.

A abertura, "We Sold Our Souls To Metal", funciona como uma verdadeira declaração de princípios — um manifesto agressivo, onde Max cospe sua lealdade ao gênero de forma fervorosa. No entanto, é quando a velocidade cede espaço ao peso arrastado que o álbum revela sua verdadeira face. Faixas como "Sodomites" trazem uma densidade sufocante, enriquecida pela participação de Todd Jones (Nails). É a sonoridade do caos do Velho Testamento traduzida em decibéis.

Instrumentalmente, o disco marca a consolidação definitiva de Zyon Cavalera nas baquetas. Longe de ser apenas "o filho do dono", Zyon impõe uma assinatura rítmica que é, ao mesmo tempo, caótica e precisa, honrando o legado percussivo da família, mas com uma pegada Death Metal. Essa base sólida permite que o guitarrista Marc Rizzo (na época, ainda o braço direito de Max) brilhe com seus solos, criando texturas geniais como em "Ishtar Rising" e na faixa-título. Já “Titans” equilibra groove e agressividade ímpares, alternando momentos de tensão e explosões rítmicas que remetem ao álbum Dark Ages (2005).

A temática abraça o misticismo e a iconografia religiosa, algo perfeitamente ilustrado pela belíssima capa de Eliran Kantor. Há uma sensação de batalha espiritual permeando o disco, culminando em momentos de colaboração familiar, como em "Mother of Dragons", onde a dinastia Cavalera se reúne para criar um hino de lealdade tribal.

Embora o álbum seja predominantemente um exercício brutal, o Soulfly mantém a sua regra com "Soulfly X", atuando como uma câmara de descompressão. Aqui, a distorção dá lugar ao violão flamenco e ao acordeão, lembrando ao ouvinte que, mesmo sob camadas de thrash/death metal, o coração da banda pulsa numa jam session.

Archangel não pede licença nem tempo excessivo do ouvinte: ele chega, entrega sua liturgia pesada e encerra o culto antes que a poeira baixe. Uma obra essencial para entender como Max consegue soar ancestral e moderno no mesmo acorde.

William Ribas





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

GOREFEST - SOUL SURVIVOR & CHAPTER 13 (1996/1998 - 2025) - THE ULTIMATE COLLECTION PT. III

 


GOREFEST
SOUL SURVIVOR & CHAPTER 13 - THE ULTIMATE COLLECTION PT. III
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Se as duas primeiras partes da Ultimate Collection do Gorefest documentaram o nascimento e o auge de um gigante do death metal, a Parte III é o som desse gigante derrubando o próprio templo. Focada nos álbuns Soul Survivor (1996) e Chapter 13 (1998), esta coletânea é o capítulo final e mais controverso da primeira vida da banda. É o registro de um grupo que, após atingir a perfeição em seu gênero, decidiu queimar tudo e dançar sobre as cinzas. Bem-vindos à era do "death 'n' roll" em sua forma mais pura e, para muitos, mais ultrajante. Este não é um mergulho na nostalgia; é uma autópsia. "Soul Survivor" e "Chapter 13" são os álbuns que alienaram a base de fãs purista do death metal e, ironicamente, levaram a banda à sua primeira separação em 1998. Ouvir esta coleção é entender como uma das bandas mais promissoras do metal extremo europeu cometeu um glorioso suicídio comercial, trocando a brutalidade pela rebeldia do rock clássico e o peso do metal pela ginga de bar. 

"Soul Survivor "(1996) pegou a fórmula iniciada em "Erase" e a injetou com uma dose cavalar de rock dos anos 70. Os riffs de death metal foram quase totalmente substituídos por um som que remete a Thin Lizzy, Black Sabbath e Motörhead. A produção é quente, orgânica, e os vocais guturais de Jan-Chris de Koeijer, embora ainda presentes, soam quase deslocados sobre uma base de hard rock. Músicas como "Freedom" e "Electric Poet" são cativantes, mas estão a um universo de distância do som que consagrou a banda. Para os fãs que embarcaram na jornada, "Soul Survivor" é um álbum corajoso e quase perfeito em sua proposta. É o som de músicos excepcionais explorando suas raízes. Para os headbangers que esperavam a continuação de False, foi uma traição. O álbum é, talvez, o mais alegre e otimista já feito por uma banda de death metal, uma anomalia que continua a dividir opiniões até hoje. 

Se "Soul Survivor" foi um passo ousado, "Chapter 13" (1998) foi um salto no abismo. Este é, sem dúvida, o "álbum de metal mais anos 90" já feito, no sentido de que reflete a crise de identidade que muitas bandas do gênero enfrentaram na época. É menos um álbum de death metal e mais um disco de rock pesado com um vocalista que se recusa a cantar limpo. A bateria de Ed Warby brilha com grooves de rock e prog, as guitarras têm um timbre valvulado e quente, e as letras abandonam completamente o horror para focar em comentários sociais e emoções. O álbum é charmoso à sua própria maneira. Faixas como a titular "Chapter 13" e a enérgica "Serve the Masters" são ótimas músicas de rock, mas não era isso que os fãs de Gorefest queriam. O resultado foi um misto de indiferença e abandono, e a banda se desfez logo após o lançamento, só retornando em 2004 com um som que buscava resgatar a agressividade perdida. 

O material bônus desta coleção é um vislumbre do processo criativo. As demos de Soul Survivor e Chapter 13 mostram as músicas em seu estado mais cru, enquanto as faixas ao vivo e remixes revelam a confiança da banda em seu novo som, mesmo que o público não estivesse totalmente a bordo. The Ultimate Collection Part III é para os completistas, para os historiadores do metal e para aqueles com a mente aberta o suficiente para apreciar uma banda se desconstruindo em tempo real. Não é onde você deve começar sua jornada pelo Gorefest, mas é um capítulo essencial para entender por que eles se separaram e por que seu retorno nos anos 2000 foi tão significativo. Esta coleção é o som de uma banda se libertando das correntes de seu próprio gênero, para o bem e para o mal. É o barulho de uma implosão criativa, um final de capítulo barulhento, confuso e absolutamente fascinante.

Jay Frost




OMNIUM GATHERUM - MAY THE BRIDGES WE BURN THE LIGHT WAY (2025)

 


OMNIUM GATHERUM
MAY THE BRIDGES WE BURN THE LIGHT WAY
Shinigami Records/Century Media - Nacional

Trinta anos de estrada não são pouca coisa. E, ao invés de soar cansado ou repetitivo, o Omnium Gatherum soa confortável na própria pele. Seguro. Confiante. Depois de flertar mais abertamente com estruturas progressivas em fases anteriores da carreira, os finlandeses parecem ter encontrado aqui um ponto de equilíbrio quase definitivo em “May the Bridges We Burn Light the Way”. O disco não tenta reinventar o death metal melódico, mas também não se limita a repetir fórmulas. Ele trabalha dentro do molde — e o faz com precisão.

A faixa-título funciona como um portal. Não é uma introdução orquestral genérica; é uma preparação direta, com riffs já carregados de intenção. Quando “My Pain” entra, o álbum revela sua verdadeira proposta: peso com propósito. Riffs afiados, bateria pulsando com energia renovada e aquela alternância vocal que se tornou uma das marcas da banda.
Jukka Pelkonen é o eixo central com seus guturais encorpados e cheios de identidade. Mas é impossível não destacar Markus Vanhala nos vocais limpos — eles não servem apenas ao refrão; surgem em momentos inesperados, quebrando previsibilidade e dando novos horizontes às músicas.

Como guitarrista, Vanhala também está em estado de graça. Sua guitarra é hipnótica e densa, sem soar artificial, e os solos — abundantes — nunca parecem exibicionismo gratuito. Há ecos de heavy metal clássico em certas passagens, especialmente em “Walking Ghost Phase”, que carrega uma aura quase espacial, como se fosse trilha sonora de uma epopeia oitentista filtrada pela melancolia finlandesa.
A base instrumental sustenta tudo com competência e sensibilidade. Atte Pesonen injeta velocidade e vitalidade na bateria, com bumbo duplo e viradas técnicas, mas curiosamente sem soar excessivo, no ponto certo. E isso é uma escolha inteligente: o peso do álbum vem da construção das músicas, não da brutalidade automática. O baixo cumpre seu papel no groove, enquanto os teclados de Aapo Koivisto optam mais pela ambientação do que pelo protagonismo — criando atmosfera sem disputar espaço com as guitarras.

“The Darkest City” é provavelmente o momento mais grandioso do disco. Longa, dinâmica e emocionalmente carregada, ela mostra a banda explorando nuances: começa vibrante, quase triunfante, e termina mergulhando em camadas mais densas, culminando em um solo incendiário que sintetiza o espírito do álbum. Já faixas como “Ignite the Flame” e “Barricades” equilibram agressividade e melodia com naturalidade impressionante. “Streets of Rage” flerta com uma melodia que pode soar um pouco óbvia, e a instrumental “Road Closed Ahead” encerra o álbum de forma mais contemplativa do que explosiva. É o tipo de música que mostra por que o Omnium Gatherum não é apenas “mais uma banda finlandesa de death metal melódico”.

Talvez o maior mérito de May the Bridges We Burn Light the Way seja não tentar soar jovem. É soar experiente. Maduro. Uma banda que entende que peso também pode ser elegante, que melodia não precisa ser fraqueza e que intensidade não é sinônimo de velocidade desenfreada.

William Ribas




ORBIT CULTURE - DEATH ABOVE LIFE (2025)

 


ORBIT CULTURE
DEATH ABOVE LIFE
Shinigami Records/Century Media - Nacional

A ascensão do Orbit Culture nunca foi acidental. Disco após disco, o quarteto sueco foi expandindo sua linguagem, refinando o peso, engrossando as camadas e ampliando a ambição. Com Death Above Life, quinto trabalho de estúdio, essa escalada atinge um novo patamar. Não se trata apenas de um passo à frente — é a consolidação de uma identidade que finalmente soa do tamanho da ambição da banda.

Se "Descent" (2023) trouxe riffs inspirados, mas sofreu com uma mixagem excessivamente comprimida e sufocante, aqui o grupo aprende com os próprios excessos. A densidade continua presente — e como continua — porém agora existe foco. O som ainda é uma muralha, mas uma muralha arquitetada com precisão. Cada camada encontra seu espaço dentro do caos. O impacto permanece brutal, só que mais inteligível, mais estratégico.

Musicalmente, "Death Above Life" é a síntese definitiva do que o Orbit Culture construiu até aqui. O peso cortante do deathcore, o groove quase mecânico, colidem com a herança do thrash dos anos 90 e a melancolia melódica do death metal sueco. A agressividade nunca sacrifica o senso de refrão — pelo contrário, eleva um degrau acima. É metal de escala monumental, com potência, mas ainda enraizado na herança visceral do underground.

A abertura com “Inferna” já estabelece o tom: riffs como fossem motoserra, bateria pulsando como engrenagens industriais e um refrão que cresce com imponência cinematográfica. A influência de trilhas épicas, trazem uma textura atmosférica que ampliam o drama sem diluir o peso. O vocalista Niklas Karlsson assume o centro dessa tempestade sonora com segurança. Seus guturais estão mais ferozes do que nunca, sangrando tímpanos com autoridade. Já os vocais limpos — cada vez mais proeminentes — graves, ásperos, carregados de personalidade. Em muitos momentos, essa escolha adiciona humanidade e melancolia às composições.

Quando a banda opta pela violência direta, o resultado é destruidor. “Bloodhound” e a faixa-título dispensam concessões: grooves massivos, ritmos sincopados que lembram Slipknot, riffs que esmagam como patadas de mamutes. Aqui, o Orbit Culture soa absolutamente confiante, técnico e impiedoso. São momentos em que o quarteto parece operar em capacidade máxima.
Mas o disco não vive apenas de brutalidade. “Hydra” carrega um peso industrial sufocante, com pausas calculadas e breakdowns prontos para incendiar os shows. “The Tales of War” e “The Storm” exploram construções atmosféricas que alternam tensão e liberação com eficiência cinematográfica. Já “The Path I Walk” mergulha em uma introdução mais introspectiva antes de crescer em intensidade, mostrando que a banda entende a importância de dinâmica e respiração.

Em suma, Death Above Life é, sem rodeios, o trabalho definitivo do Orbit Culture até o momento. É um disco sombrio, denso e tecnicamente irrepreensível que consolida a posição do grupo ao lado de gigantes.

William Ribas




DARK DIMENSIONS FEST II - FORBIDDEN, VIO-LENCE, VENOM INC E NEW DEMOCRACY - 08/02/2026 - BURNING HOUSE - SÃO PAULO/SP

 


DARK DIMENSIONS FEST II
FORBIDDEN
VIO-LENCE
VENOM INC
NEW DEMOCRACY
08/02/2026
BURNING HOUSE - SÃO PAULO/SP

Produção: Dark Dimensions
Assessoria: JZ Press

Texto e fotos: Fernando Aguiar

Em pleno domingo (08/02) e às vésperas do carnaval em São Paulo, tivemos uma tarde/noite memorável, praticamente um ode aos amantes do metal extremo. O Dark Dimensions Fest II, em parceria com a Dark Dimensions e a JZ Press Assessoria, trouxe o bloco do metal para uma casa diferente este ano: a Burning House. O local rapidamente se transformou em um verdadeiro caldeirão de energia, peso, fúria e caos (exatamente do jeito que um headbanger sedento gosta).

A abertura da casa, prevista para as 14h, acabou acontecendo por volta das 16h devido a um imprevisto de logística (nada que realmente atrapalhasse o rolê). Pelo contrário: nesse intervalo, a galera foi chegando sem pressa, colocando a conversa em dia, tomando aquela cerveja gelada e curtindo o som que rolava no Gaz Burning. Por lá, uma banda de rockabilly mandava muito bem e criou o clima perfeito para aquecer os motores antes da maratona de peso e brutalidade que viria pela frente.

E para abrir os trabalhos, tivemos o Brasil representado pelos mineiros do New Democracy, com seu death metal melódico, que despertou atenção de muitos dos presentes e para surpresa de todos, ainda trouxeram algumas participações especiais, como Iara Villaça (Alestorm Tribute) e Fábio Seterval (Exodus Tribute), mostrando que as escolhas foram certeiras, pois ambos contribuíram muito ao som e a performance da banda.

No set do New Democracy, faixas como “Zumbi”, “Born To Suffer”, “Nothing And Everything”, “Unexpected Projection”, “Modernization” e “Creation Of My Sin” deram o tom de um show intenso e cheio de identidade. A banda mostrou firmeza no palco, entrosamento e uma presença segura, mas o que realmente me chamou atenção foi a carga emocional das músicas, possuindo letras bem interessantes, que transitam entre críticas sociais e reflexões pessoais. Tudo isso embalado por riffs pesados e uma energia muito forte por parte da banda.

O público ainda estava naquele processo de aquecimento típico de começo de festival, meio observador, mas não demorou para a reação aparecer. Conforme o show avançava, já dava pra ver cabeças balançando em sincronia e uma galera se entregando ao som que saia dos PA’s. O New Democracy conseguiu conquistar a atenção de quem estava ali e mostrar que peso e conteúdo podem andar juntos.


Por volta das 17h, a temperatura do festival subiu de vez quando o Venom Inc. tomou o palco. A partir dali a sensação era de que a parada tinha começado a ficar séria de verdade. O trio britânico não precisou de muito tempo para dominar o ambiente, bastaram os primeiros riffs para a Burning House virar um inferno musical.

O set foi uma aula de metal extremo raiz. Quando as obrigatórias como “War”, “Inferno”, “Countess Bathory” e “Black Metal” apareceram, a reação do público foi instantânea. Era impossível ficar parado. O público respondeu com gritos, punhos erguidos e os primeiros moshs mais sérios da noite começando a ganhar forma.

O que chamou a atenção no Venom Inc. é como eles equilibram peso com proximidade. Não é aquela banda distante no palco, existe troca o tempo todo. Em vários momentos eles brincaram com a plateia, distribuíram palhetas e criaram um clima de celebração coletiva. Teve até Jack Daniel’s circulando entre palco e pista, num daqueles momentos que viram história pra quem estava mais próximo do palco. E para este que vos escreve, este momento se tornou mais especial ainda, pois tive a honra de compartilhar o “néctar” com Dolan e outros fãs que estavam próximos, que momento!

A apresentação teve também seus respiros instrumentais, com solos que mostraram que, além da atitude, há muita musicalidade ali. “In Nomine Sathanas” foi um dos grandes picos do show, cantada quase em uníssono pela casa e quanto apareceram outras, igualmente clássicas, como “Bloodlust”, “Blackened Priest”, “Time To Die” e “Sons Of Satan”, o clima ficou ainda mais carregado, deixando ainda mais o ar de que todos estavam diante de um verdadeiro ritual ocultista.

Visualmente, o cenário ajudava a compor a atmosfera, ainda mais com a imagem de (Deus) Lemmy ao fundo em uma bela homenagem às origens do som pesado. No fim das contas, o Venom Inc. entregou exatamente o que se espera de veteranos desse calibre: som alto, pesado, presença forte, cativante e uma conexão genuína com quem estava ali. Foi aquele tipo de show que não depende de produção mirabolante, é simplesmente atitude, história, o volume mais alto possível e o caos ta feito.



Quando o relógio se aproximava das 19h, veio aquele momento em que o festival dá uma virada de chave. O Vio-Lence entrou em cena e, dali em diante meus amigos, o que vimos foi uma aula de caos e thrash metal e que alcançou níveis insanos. Se antes o público já estava animado, agora a pista virou território de guerra: rodas abrindo sem parar, crowd surf rolando (inclusive este que vos escreve) e aquela atenção redobrada pra não ser surpreendido por algum movimento mais empolgado da galera.

A entrada da banda já mudou o clima da casa. Existia uma “tensão” boa no ar, de expectativa mesmo. Sean Killian é um frontman que naturalmente puxa o foco pra si (não por exagero, mas pela postura e pela forma como conduz o show). Ele fazia questão de contato direto com quem estava mais próximo do palco, cumprimentando fãs e mantendo uma troca constante de energia.

O detalhe curioso era como ele segurava a atenção da casa inteira com naturalidade. A camisa laranja acabava virando um ponto de referência no palco, mas o que realmente prendia o olhar era a entrega. Ele conduziu o público como quem guia uma multidão numa catarse coletiva, e a resposta vinha na mesma intensidade. Um dos momentos mais legais foi quando a banda recebeu uma bandeira do Brasil com a arte de Eternal Nightmare. Eles exibiram com orgulho e, ao final, Sean guardou a bandeira com cuidado, um gesto que parece simples, mas que mostra total respeito por quem acompanha a banda por aqui.

Musicalmente, o show foi direto ao ponto. Abrir com “Eternal Nightmare” já colocou todo mundo no modo thrash ativado. Na sequência vieram “Serial Killer”, “I Profit” e “Officer Nice”, mantendo o nível lá em cima. “Phobophobia” virou praticamente um coral coletivo, com a galera berrando cada verso.
O repertório ainda contou com “Kill on Command”, “Calling in the Coroner”, “Bodies on Bodies”, “Upon the Cross” e o fechamento com “World in a World”, encerrando o set de forma esmagadora. O som era seco, agressivo e sem rodeios, exatamente como o thrash da Bay Area pede.

E este show foi o último da turnê sul-americana e dá pra dizer, com certeza absoluta, que se despediram em grande estilo. Quem estava ali certamente saiu com a sensação de ter visto um show daqueles que ficam na memória.



Pontualmente às 20h30 chegou a vez dos anfitriões da noite. O Forbidden tinha uma missão nada simples: manter o nível caótico deixado pelo Vio-Lence. Mas estamos falando de um dos gigantes do thrash bay area e eles não só mantiveram a chama acesa como jogaram mais querosene ainda onde já estava pegando fogo.

Desde os primeiros minutos já dava pra perceber que o fechamento seria à altura. Carismáticos, soltos e claramente curtindo o momento, os músicos dominaram o palco com naturalidade. A resposta da plateia veio na mesma medida: rodas abrindo sem parar, gente cantando a plenos pulmões e uma pista que já não conhecia mais a palavra “calma”. Na maioria das músicas, larguei o papel de observador e acabei entrando nas rodas, simplesmente porque não dava pra ficar parado diante daquele turbilhão de riffs e energia.

Se existia uma forma melhor de terminar o domingo, naquele momento eu realmente desconhecia.
Durante o show, baquetas e palhetas voavam em direção ao público, que se dividia entre prestar atenção em cada detalhe e garantir uma lembrança física da noite. Uma bandeira com os integrantes do Forbidden em versão “South Park” apareceu aberta na pista (que também ajudei a segurar) e arrancou aplausos da banda, mostrando mais uma vez a proximidade entre banda e a galera.

Essa conexão ficou evidente o tempo todo. Os músicos frequentemente se aproximavam para cumprimentar o público e agradecer. E aqui vai mais um elogio a Burning House, que facilita esse contato mais direto com as bandas.

O repertório veio carregado de momentos marcantes e calcados nos clássicos Forbiden Evil e Twisted Into Form. “Infinite”, “Out of Body”, “March Into Fire” e “Twisted into Form” mantiveram o nível altissimo. Quando entraram “Forbidden Evil”, “Divided by Zero”, a casa já estava completamente entregue, mas foi em “Step by Step” o ponto mais alto do show, onde a galera cantou, agitou, fez roda e stage down insanamente (e eu novamente estava no meio desse caos todo ). O encerramento veio com “R.I.P.”, “Through Eyes of Glass” e “Chalice of Blood”, que também foi cantada em uníssono e que (infelizmente) colocou um ponto final na noite.




O Dark Dimensions Fest II foi, sem dúvida alguma, melhor que a primeira edição (que também estive presente), principalmente pela aula de Thrash Metal que tivemos a oportunidade de presenciar, fora a celebração de outras vertentes mais agressivas do metal. Mais do que isso, foi lindo ver gerações diferentes dividindo o mesmo espaço, se apoiando nas rodas, cantando juntas e mostrando que a cena segue viva. A galera mais jovem e veteranos lado a lado, unidos pelo mesmo amor ao som pesado. O saldo é de uma tarde/noite é que acabou entrando na lista dos shows mais memoráveis que presenciei em mais de 25 anos comparecendo em shows. Público, bandas, casa e produção contribuíram para que o evento tivesse clima de ocasião especial. Grandes nomes no palco com um objetivo simples e poderoso: entregar a melhor experiência sonora possível.

E não poderia finalizar essa resenha sem antes agradecer novamente a Dark Dimensions, JZ Press, especialmente a Burning House (de meus amigos Denise e Bruno) pela organização de um evento desse calibre. Afinal, foi uma daquelas datas que reforçam porque o metal continua sendo mais que música. E depois de vários giros no mosh, stage down e muita cantoria, fica a certeza: foi vivido da forma que um festival desses merece.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

ELVENKING - READER OF THE RUNES: LUNA (2025)

 


ELVENKING
READER OF THE RUNES: LUNA
Shinigami Records/Reaper Entertainment - Nacional

Confesso que sempre que vejo o rótulo “Folk Metal” fico meio avesso a uma audição do trabalho de alguma banda do estilo. Pode ser preconceito ou má vontade, mas é uma coisa que tento trabalhar para não acabar sendo injusto com bandas e artistas de estilos que não costumo apreciar/acompanhar.

E foi assim que peguei para ouvir o novo álbum dos italianos do Elvenking. “Reader Of The Runes: Luna”, que fecha a trilogia “Reader of The Runes” que teve inicio em 2019 com “Reader Of The Runes: Divination” e a sequência com “Reader Of The Runes: Rapture” (2023).

Desde o inicio o que salta aos olhos é a qualidade da produção e a apurada técnica de todos os músicos, com passagens intrincadas que vão desde bases heavy metal beirando o Thrash, a passagens lúdicas cheios de nuances de rock progressivo e até música clássica, isso com uma agressividade superior ao que eu conheço do estilo.

A faixa “Luna” é o maior destaque e foi aquela que voltei para ouvir novamente por mais de uma vez. Pois tem passagens que lembram o Helloween clássico e o Iron Maiden fase “Somewhere In Time”. Mas calma, lembram mas bem de longe. “Gone Epoch” outra faixa que chama atenção, seja pela ótima atuação do vocalista Damna, seja pelo arranjo cheio de corais e riffs muito bem construídos.

Enfim, uma ótima surpresa para quem não conhecia a banda, como eu. Para fãs da banda e do estilo, creio que seja o álbum perfeito. Lançamento nacional Shinigami Records.

José Henrique Godoy