RAMONES - OS 40 ANOS DO ÁLBUM MAIS POLÍTICO E VARIADO DA BANDA
Por Sergiomar Menezes
Em maio de 1986, o quarteto de Forest Hills, Queens, havia mudado bastante em relação ao grupo de jovens de jaqueta de couro que causou uma revolução no mundo em 1976. Uma década após o lançamento, o RAMONES lidava com crises de identidade, frustração comercial e conflitos internos intensos. Nesse contexto de tensão, nasceu ANIMAL BOY, o nono álbum de estúdio do grupo, que celebra 40 anos de carreira.
ANIMAL BOY é um dos álbuns mais intrigantes, controversos e subestimados da discografia da banda, e não é unanimemente aceito. Ele retrata uma banda tentando sobreviver aos anos 80, equilibrando a intensidade do Punk/HC emergente com as demandas de produção. E entenda-se por demandas de produção o uso de sintetizadores.
Para entender melhor o contexto do trabalho, é necessário ter um entendimento do ano de 1986. O punk rock foi absorvido pelo mainstream ou superado pela rapidez do hardcore de grupos como Dead Kennedys e Black Flag. Dessa forma, ou a banda se adaptava ao mercado (comercialmente) ou mantinha sua identidade sem se render ao modismo. A saída? Unir as duas alternativas!
Em busca de relevância e manter seu status (que sempre foi muito maior fora dos EUA), o RAMONES contratou o produtor Jean Beauvoir, ex-integrante da banda The Plasmatics. A missão era ingrata: preservar a brutalidade da banda, mas envolvê-la em uma sonoridade que permitisse sua veiculação nas rádios dos Estados Unidos. Os puristas ficaram surpresos com o resultado. Guitarras que antes erma ríspidas e nervosas, agora caminhavam ao lado de teclados e uma produção de bateria claramente "oitentista".
Embora tenha uma produção refinada, Animal Boy é um dos álbuns mais incisivos e políticos da banda em termos de letras. "Bonzo Goes to College" é, sem dúvida, o principal destaque.
Escrita por Dee Dee e Joey, "Bonzo Goesto Bitburg" (na opinião deste que vos escreve, uma das melhores músicas da banda) foi uma resposta direta e contundente à visita do presidente americano Ronald Reagan a um cemitério militar em Bitburg, na Alemanha, onde soldados da SS nazista estavam sepultados. A canção transformou-se em um hino anti-Reagan e demonstrou que a banda era capaz de muito mais do que compor músicas sobre cheirar cola.
O Hardcore surge em faixas como "Eat That Rat" e a faixa-título "Animal Boy", que exibem um Dee Dee Ramone despejando frustração em ritmos acelerados. Dee Dee, aliás, assumiu um maior protagonismo nas composições, sendo que nessas faixas ele contou com a participação de Johnny, um confesso admirador da velocidade do HC. "She Belongs to Me" e "Something to Believe In" revelam o coração de, exibindo a sensibilidade pop que o vocalista sempre teve, sendo que a última trazia um videoclipe sensacional, satirizando as campanhas de arrecadação de fundos para entidades beneficentes, dessa vez, intitulada "Ramones Aid". Por sua vez, "Love Kills", a homenagem de Dee Dee ao infeliz romance entre Sid Vicious e Nancy Spungen, é uma expressão pura do punk, é a cara do baixista.
Mas, é impossível falar de ANIMAL BOY sem citar Richie Ramone. O terceiro baterista da banda trouxe uma técnica e uma velocidade que não eram vistas com Tommy ou Marky. Richie não só acompanhava o ritmo acelerado das composições de Dee Dee, como também participava ativamente. Ele é o autor de "Somebody Put Something in My Drink", a canção de abertura do álbum que se transformou em um clássico instantâneo e indispensável nos shows até o término da carreira da banda.
Quarenta anos depois, ao olhar para trás, percebe-se que o álbum envelheceu muito melhor do que se esperava na época. Apesar de faixas como "Crummy Stuff" que podem parecer estranhas para quem procura o som cru de Rocket to Russia, o álbum irradia a urgência e a essência dos Ramones.
Ele representa perfeitamente uma banda em transformação, batalhando para permanecer relevante em uma década que não tinha certeza de como lidar com os dinossauros do punk. Quarenta anos depois, ANIMAL BOY deve ser comemorado não como um experimento, mas como o álbum que demonstrou que, mesmo sob a estética dos anos 80, o coração do RAMONES ainda pulsava com protesto, barulho e pura atitude.



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