segunda-feira, 4 de maio de 2026

MEGADETH - THIS WAS OUR LIFE TOUR - 02/05/2026 - ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP



MEGADETH
THIS WAS OUR LIFE TOUR
02/05/2026
ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP 

Texto e fotos: Fernando Aguiar

Há shows que você assiste. E há shows que você testemunha. A passagem do Megadeth por São Paulo na noite de 2 de maio, única data no Brasil da turnê de despedida This Was Our Life, caiu claramente na segunda categoria. Não porque tudo foi perfeito. Longe disso. Mas porque havia um peso específico naquela noite que nenhuma imperfeição técnica seria capaz de apagar.

Esta foi a 17ª visita do Megadeth ao Brasil, o 42º show da banda em solo nacional. Dave Mustaine (um dos precursores do thrash metal) tem 64 anos, enfrentou um câncer na garganta e carrega nas mãos artrite, Contratura de Dupuytren na mão esquerda e paralisia do nervo radial, condições que o levaram a anunciar o encerramento das atividades do Megadeth ao fim dessa turnê. Quando as luzes se apagaram no Espaço Unimed e a banda simplesmente entrou no palco, sem introdução, sem vídeo, sem cortina caindo, a sensação foi a de quem sabe que está vivendo algo único.

"Tipping Point" abriu o show como single de apresentação do álbum final e homônimo da banda, e aqui aconteceu um dos momentos mais bonitos da noite: Dave Mustaine percebeu o público cantando a letra inteira de uma música lançada há poucos meses e se mostrou genuinamente surpreso e satisfeito com isso. Quem estava na plateia sentiu que a reação era real, não protocolar.

Logo em seguida veio a surpresa que ninguém tinha colocado na conta: "The Conjuring". Mustaine, cristão convertido, se arrependeu publicamente de ter escrito a letra (repleta de referências a um ritual satânico de uma época em que se envolveu com magia negra) e a faixa ficou fora dos setlists por décadas, entre 2001 e 2018. Ver essa música aparecer nessa turnê de despedida soou como um acerto de contas com o próprio catálogo.

A trinca seguinte foi de arrasar quarteirão. "Hangar 18" fez o que sempre faz, transformando a plateia num coro coletivo de "Me-ga-deth" entre os solos enlouquecedores e magnificos. "She-Wolf" veio logo na sequência mantendo (como sempre) o clima lá em cima e que também foi cantada e ovacionada antes de "Sweating Bullets" chegar com o monólogo de alguém em surto esquizofrênico que funciona ao vivo com uma intensidade que a gravação nunca capturou completamente. Foi a melhor performance vocal de Dave na noite, e aqui preciso ser honesto: a voz estava comprometida durante boa parte da primeira metade do show, algo perceptível a quem presta atenção e comentado por pessoas que estavam em diferentes pontos da pista e que encontrei após o show. "Sweating Bullets" foi o momento em que isso importou menos, porque a entrega compensou com folga.


A banda trouxe um pouco de “calmaria” com "I Don't Care" (a faixa mais punk do novo álbum, direta e sem rodeios) e "Dread and the Fugitive Mind", que voltava ao repertório após ausência na passagem anterior pelo Brasil. Dois momentos de respirada antes do set entrar na sua fase mais “agressiva”.

Até aqui o público respondia bem, mas faltava aquela agitação característica de um show de thrash metal de verdade. Os mosh pits eram tímidos, a energia mais contida. Foi a dobradinha "Wake Up Dead" e "In My Darkest Hour" que mudou o jogo. A galera foi junto nota a nota, estrofe por estrofe, cantando cada palavra com Dave, e a sensação de estar num show de thrash de verdade finalmente tomou conta do Espaço Unimed. Uma combinação que a banda já fez no passado e que raramente reaparece nos shows mais recentes, e que aqui funcionou como o gatilho que a noite precisava. A voz de Dave também começou a dar sinais de melhora a partir desse ponto, o que ajudou bastante.

"Hook in Mouth" voltou ao setlist após ausência em 2024 e foi recebida com entusiasmo por quem conhece o catálogo mais a fundo. "Let There Be Shred", do novo álbum, foi o espaço de Teemu Mäntysaari brilhar individualmente. O guitarrista finlandês (escolhido e preparado pelo próprio Kiko Loureiro para ocupar seu lugar) mostrou muito mais desenvoltura do que na passagem anterior por aqui, circulando mais pelo palco e transmitindo uma confiança que o diferencia da imagem mais contida que tinha no início.
Em seguida, veio a sequência mais devastadora da noite. "Symphony of Destruction" é "Symphony of Destruction" (preciso dizer mais alguma coisa?). Ao vivo, naquele contexto, com aquela galera, soou ainda maior do que qualquer gravação consegue sugerir. "Tornado of Souls" trouxe um dos solos mais reverenciados da história da banda, executado com a precisão que a faixa exige e com o peso de saber que você está ouvindo aquilo ao vivo. "Mechanix" chegou fechando o bloco e a insanidade já tinha tomado conta de vez. A pista estava em ebulição total.

E então veio o momento mais histórico da noite, para quem não estava acompanhando de perto as novidades da turnê. "Ride the Lightning", composição que Dave Mustaine criou junto a Lars Ulrich e James Hetfield ainda nos primórdios do Metallica, regravada no álbum final do Megadeth. Ver a música ao vivo foi algo que dificilmente se repete: foi cantada em uníssono pela plateia inteira, agitada com uma energia que remetia ao que seria um show do próprio Metallica. Dave tem co-autoria na faixa, e faz todo o sentido que ela apareça num disco e numa turnê de despedida.

O encerramento apoteótico foi o que precisava ser. "Peace Sells" e "Holy Wars… The Punishment Due" juntas no fechamento são quase uma crueldade, no bom sentido é claro, com dois dos maiores hinos do thrash metal em sequência e dois mascotes Vic Rattlehead subindo ao palco durante "Peace Sells" em referência à capa do novo álbum.

Dave Mustaine disse ao palco que o público de São Paulo foi ótimo e que "eles foram o Megadeth". Em entrevistas recentes sinalizou que gostaria de voltar a outras cidades brasileiras antes do encerramento definitivo, citando nominalmente Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília. A sensação que a noite deixou é mais de "até logo" do que de "adeus".

Mas independentemente do que vier a seguir, o que aconteceu no Espaço Unimed ontem foi um espetáculo digno de um dos precursores do thrash metal. Com limitações físicas e uma voz que já não é a mesma de Peace Sells ou Rust in Peace, Dave Mustaine ainda sobe num palco e lembra ao mundo por que o Megadeth existe, e porque vai fazer falta quando não existir mais (e essa é a parte mais triste de tudo).

A Rebel Rock marcou presença, mesmo sem credenciamento para o evento. Mas quem nos conhece sabe que isso nunca foi o que nos move. Não estamos aqui por protocolo, por acesso facilitado ou por qualquer interesse além do óbvio: o amor pelo heavy metal. É ele que nos leva aos shows, que nos faz escrever, que nos mantém de pé até o último acorde. Sempre foi assim, sempre será.

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