quinta-feira, 30 de abril de 2026

REBEL ROCK OPINIÃO: ANGRA

 


Por William Ribas

Se existisse uma categoria dentro da cena brasileira para eleger a “banda do mês”, certamente abril seria do Angra.

Com a aproximação da apresentação especial do grupo no Bangers Open Air, no último domingo, dia 26, tivemos uma enxurrada de publicações nas redes (sim, esta é mais uma). O reencontro com Edu Falaschi e Aquiles Priester, a despedida do “mago” Fabio Lione e a chegada de um velho amigo da banda, Alírio Netto.

Confesso que, num primeiro momento, não me empolguei tanto. Mas, aos poucos, aquele adolescente que foi a um dos shows da turnê do Rebirth foi renascendo (desculpe, não resisti). Resolvi maratonar a discografia — e, por sorte, tenho todos os CDs — e passei a olhar tudo isso com outros olhos.

Por outro lado, caiu a ficha de quantas vezes o Angra simplesmente “jogou fora” momentos cruciais de seus 35 anos de história. O impacto inicial foi gigantesco — Angels Cry e Holy Land não são apenas marcos nacionais, mas obras fundamentais do metal mundial — e, pasmem, não temos registros ao vivo oficiais à altura dessa fase.

"Bonsoir Parri!!! Yeaaahhhhh!!!! Infelizmente, “Holy Live” é agridoce.

Fireworks, mesmo com todos os problemas internos, também não rendeu um documento histórico. Rafael Bittencourt e companhia deixaram escapar a chance de registrar ao vivo a formação clássica — a “fase MK I” do Angra.

Em 2001, uma nova era começou e trouxe o primeiro álbum ao vivo. Ainda assim, quando a banda atingiu um de seus ápices criativos e de reconhecimento com o aclamado Temple of Shadows, mais uma vez vieram os problemas, falhas nas gravações… e outra oportunidade se perdeu.

E é justamente por isso que o momento atual não pode ser tratado como “apenas mais um show”.
Se o Angra for esperto — aliás, se Rafael Bittencourt e o Baron, nos bastidores, forem inteligentes — agora é a hora de fazer diferente. E, de quebra, fazer dinheiro. Não sejamos inocentes, certo?


O hype está pronto. O terreno está fértil. Falta execução.

Primeiro: por que não retomar o conceito do Angra Fest? Mas não como antes — e sim algo mais coeso, mais temático, quase um “Angraverso” ao vivo. Um evento que reuna Angra, Edu Falaschi em carreira solo, Hangar e até um Shamangra — ou, no mínimo, Angra + Edu + Shamangra + Viper. É conteúdo histórico vivo. É narrativa. É celebração organizada.

Segundo: o show do Bangers deveria ter sido gravado. O show de ontem no Espaço Unimed (29 de abril) também — o “rec” deveria ter sido apertado. Não sei se silenciosamente houve algo, torço para tal — simples assim. Foram cerca de 2h30 — material perfeito para um lançamento triplo, bonito, caprichado, algo que realmente faça o fã sentir que está levando para casa um pedaço dessa noite. A estrutura já tinha. A mesa de som estava lá. Não estamos falando de reinventar a roda — estamos falando de não repetir erros básicos.

Noites especiais merecem ser imortalizadas.

Terceiro: Rafael recentemente compartilhou fotos raras do acervo da banda. Isso, por si só, já é meio caminho andado para um livro histórico — um material que percorra todas as fases e culmine nessa celebração atual. Existe demanda. Existe público. Falta transformar isso em produto. E aqui entra um ponto delicado, mas necessário: talvez esteja na hora de aprender com quem está fazendo isso muito bem. Edu Falaschi entendeu o valor do material físico de luxo. Já está no terceiro álbum solo e, nos três, entregou boxes especiais. No ao vivo, mais uma edição diferenciada. O próprio Shaman, na celebração do Ritual Live, também soube trabalhar esse formato — e funcionou.

Incrivelmente, o Angra — com toda sua história — praticamente não tem nada nesse nível.
Por que não lançar um box especial da Rebirth World Tour (25 anos)? Ou algo grandioso para os 30 anos de Holy Land? São discos emblemáticos, com peso histórico real. Não é nostalgia vazia — é patrimônio cultural do metal brasileiro.

O Angra carrega um histórico perigoso: perdeu registros da era Andre Matos. Perdeu o auge de "Temple of Shadows". Perdeu momentos que hoje seriam ouro puro.

Vai perder de novo?

Porque, no fim das contas, às vezes um único “jogo” é suficiente para derrubar o treinador.
E, infelizmente, o histórico do Angra joga mais contra do que a favor.

Hoje, o Angra tem três álbuns ao vivo completos na carreira — e apenas um realmente capturando um de seus momentos mais importantes.

Daqui a poucos meses, o Sepultura estará, simbolicamente, fechando a tampa do seu próprio caixão. E, com isso, aquela velha máxima de que as duas maiores bandas do Brasil são Angra e Sepultura deixará de existir como sempre conhecemos.
O cenário muda. O protagonismo muda.
E, inevitavelmente, o lugar de maior destaque passa a ser do Angra — ou, pelo menos, deveria ser.

Curiosamente, existe uma faixa no clássico "Beneath the Remains", do Sepultura, cujo título soa quase como um sussurro provocativo nesse contexto: “A Hora e a Vez do Cabelo Crescer”. Mas, não sei por quê, na minha cabeça isso vem se transformando insistentemente, quase como um mantra: “A hora e a vez do Angra crescer.”

Porque, no fim, é exatamente disso que se trata.
O momento chegou pela “décima vez”.

A dúvida é se eles vão reconhecê-lo — ou deixá-lo escapar, como tantas outras.



AXEL RUDI PELL - GHOST TOWN (2026)

 


AXEL RUDI PELL
GHOST TOWN
SPV/Steamhammer - Importado

AXEL RUDI PELL. Para quem acompanha a trajetória do guitarrista de Bochum há mais de três décadas, a expectativa em torno de um novo álbum nunca é sobre "reinventar a roda", mas sim sobre a excelência na execução de uma fórmula que ele domina como poucos. Com o lançamento de GHOST TOWN, o 23º álbum de estúdio, Axel reafirma seu posto como um dos pilares do Hard Rock melódico europeu. Enquanto algumas outras bandas lidam com um carrossel de mudanças de formação ou constantes variações em seu estilo musical, o guitarrista segue há anos de maneira consistente e sem grandes turbulências seu próprio caminho e lança discos sempre fortes.

Há algum tempo, o guitarrista é acompanhado pelo vocalista Johnny Gioeli (Hardline), pelo baixista Volker Krawczak, pelo tecladista Ferdy Doernberg e pelo baterista Bobby Rondinelli (ex- Black Sabbath, entre outros), o que dá uma maior coesão e consistência à banda. Gravado nos estúdios do Blind Guardian em Grefrath, sob a tutela técnica de Tommy Geiger (também responsável pela mixagem), o álbum respira qualidade sonora. O timbre de guitarra de Axel Rudi Pell permanece inconfundível, equilibrando o peso do Heavy Metal clássico com a elegância de arranjos que remetem ao som do Rainbow na era Dio.

O álbum abre com a atmosfera de "The Regicide", cortesia de Ferdy Doernberg, preparando o terreno para uma viagem que transita entre o ritmo mais acelerado e o atmosférico. Já "Guillotine Walk'', na sequência, é uma típica música composta pelo guitarrista com um ótimo trabalho de seis cordas e um Johnny Gioeli cantando muito. "Breaking Seals", é o grande destaque do trabalho. A faixa não consegue esconder uma certa vibe de Accept, já que o dueto inédito entre Johnny Gioeli e o lendário Udo Dirkschneider é um presente para os fãs do metal alemão. A união da voz versátil de Gioeli com o timbre icônico e cortante de Udo traz uma nova atmosfera para o trabalho de Axel, provando que, mesmo após 35 anos de carreira, o guitarrista ainda consegue criar momentos interessantes e únicos. "Ghost Town", a faixa título, resgata a energia dos clássicos dos anos 80.

Ainda podemos destacar "Hurricane", com riffs ótimos e um Johnny cantando muito e uma energia voltada para sua execução ao vivo, "Higher Call" uma composição bem variada e com belos solos, e "The Enemy Within"que mostra o lado mais denso e cadenciado de Axel, ideal para os momentos onde o peso deve imperar.

GHOST TOWN não é o melhor trabalho de AXEL RUDI PELL. E a essa altura do campeonato, acredito que isso pouco importa pro guitarrista. O álbum não busca inovações radicais, e talvez seja exatamente esse o seu maior triunfo. Em um mercado saturado, e porque não dizer, desnecessária mudanças, Axel nos oferece um álbum seguro, feito por um músico que entende que o Hard Rock e o Heavy Metal, quando bem produzidos e interpretados com convicção, não precisam de truques para serem memoráveis.

Sergiomar Menezes







quarta-feira, 29 de abril de 2026

COBERTURA: BANGERS OPEN AIR - 26/04/2026 (DOMINGO) - MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA - SÃO PAULO/SP

 


Domingão e o Bangers não só entregou como superou qualquer expectativa. De modo geral, o Bangers se consolidou definitivamente como um dos melhores festivais da América Latina, não só pelo peso dos nomes, mas pela experiência completa: estrutura, variedade, organização e aquela sensação de que cada show importa.

Se o sábado já tinha sido forte, o segundo dia foi insano, com a energia subindo progressivamente a cada show, sem nenhuma queda. Essa curva ascendente é o que separa um bom festival de um festival memorável.

Por Fernando Aguiar


Project 46 - Ice Stage

O domingo já começou com o metal brasileiro destruindo tudo. O Project 46 abriu o Ice Stage sem aquecimento e sem cerimônia com a intro "Terra de Ninguém" que preparou o terreno antes de "Dor" abrir o set com peso total. O que seguiu foi um bloco agressivo e consistente: "Impunidade", "Violência Gratuita", "4six", "Rédeas", "Na Vala" e "Erro +55" sem trégua. A forma como a banda se movimenta no palco, a energia que transmitem, foi sensacional. O encerramento reservou as melhores do set: "Pode Pá", o refrão de "Foda-se (Se Depender de Nós)" jogado à plateia, e "Acorda pra Vida" com final estendido que deixou claro que a banda não estava ali pra aquecer ninguém, estava ali pra dominar. Um show que merecia muito mais gente acompanhando.


Primal Fear - Hot Stage

Ralf Scheepers abriu o Hot Stage com o carisma de sempre, arriscou o português, brincou com o público, mandou beijos e corações para a plateia, e sustentou notas altas com aquela facilidade que impressiona há décadas. "Destroyer" e "I Am the Primal Fear" estabeleceram o peso logo de cara, antes de "Nuclear Fire" e "Seven Seals" elevarem a intensidade. A guitarrista Thalìa Bellazecca ganhou protagonismo ao longo do set. "Chainbreaker", que foi descrita pelo próprio Ralf como a primeira música que compuseram juntos foi um dos momentos mais especiais, e "Metal Is Forever" fechou o set de forma épica. O Primal Fear é consistência em estado puro ao vivo, e esse show foi mais uma prova disso.


Nevermore - Ice Stage

Um dos shows mais aguardados e mais improváveis do festival. O Nevermore ficou inativo desde 2011 e a morte de Warrel Dane em 2017 parecia ter encerrado qualquer possibilidade de retorno. Quando Jeff Loomis e Van Williams anunciaram audições em dezembro de 2024 e confirmaram o vocalista Berzan Önen, o guitarrista Jack Cattoi e o baixista Semir Özerkan, o ceticismo ainda era grande. Ver ao vivo era outra conversa.

Após o intro "Precognition", Berzan entrou sozinho no palco vestindo uma camiseta do Brasil, aquecendo a voz, sentindo o público, antes de chamar a banda toda e abrir com "Narcosynthesis". O set percorreu o catálogo com inteligência: "Enemies of Reality", "The River Dragon Has Come", "Beyond Within", apresentada como material antigo, "Inside Four Walls", "Engines of Hate" e "My Acid Words", onde Berzan ficou abraçado com o baixista num momento de cumplicidade genuína. "Born" fechou o set com Berzan pedindo que a galera se dividisse ao meio antes do mosh tomar conta. No fim, os músicos tiraram foto com o público inteiro. Foi histórico, impecável, e havia quem não acreditasse no que estava vendo, com toda a razão.


Crazy Lixx - Sun Stage

Com o sol ainda forte no Memorial, o Crazy Lixx subiu ao palco do Sun Stage e entregou o que, na minha opinião, foi um dos melhores shows do fim de semana inteiro. A banda sueca é o hard rock dos anos 80 em sua forma mais pura e honesta, e ao vivo é uma experiência completamente diferente de qualquer gravação. A presença de palco é absurda, o visual é impecável, e a sincronia entre os músicos quando se movem pelo palco em conjunto é daquelas coisas que você precisa ver para entender.

O set foi construído com perfeição. "Rise Above" abriu com "Final Fury" como intro antes de "Hell Raising Women" e "Whiskey Tango Foxtrot" estabelecerem o tom. "Sword and Stone", cover do Bonfire, foi uma surpresa bem-vinda. "Never Die (Forever Wild)", "Hunt for Danger" e "XIII" empilharam intensidade antes de "Midnight Rebels" e "Anthem for America" prepararem o terreno para o encerramento. "Blame It on Love" foi mais um pico antes do fechamento épico: "Who Said Rock 'n' Roll Is Dead" com o snippet de "Detroit Rock City" do Kiss embutido causou euforia total, e "Crazy Crazy Lixx", a versão alternativa de "Crazy Crazy Nights" também do Kiss foi o último acorde de um show redondo, executado do começo ao fim com convicção absoluta. O Crazy Lixx deveria estar nos palcos principais. A energia que entregam é de headliner.

Malvada - Waves Stage

As garotas da Malvada tomaram o palco Waves e mostraram por que são um dos grandes nomes do nosso metal feminino atual. O show já começou com o pé no peito em "Dead Like You", uma música de letra urgente que ganhou um peso absurdo com a guitarra rascante da Bruna Tsuruda e a bateria cadenciada da Juliana Salgado. E o que falar da voz da Indira Castilho? Ela brilhou demais, explorando umas notas altas nas finalizações que deixaram todo mundo de queixo caído.

Mas o momento que realmente mostrou a ousadia das meninas foi em "Veneno". A música traz um swing gostoso, com a bateria fazendo uns diminuendos certeiros que casam perfeitamente com o baixo grooveiro da Rafaela Reoli. O mais legal aqui é o toque de brasilidade; a gente sente aquele tempero do baião nordestino no andamento alquebrado, criando umas dissonâncias muito interessantes. Diferente, ousado e com uma personalidade incrível. Que banda, meus amigos!



Winger - Ice Stage

O Winger era um dos shows mais esperados do domingo, e a banda tratou de não decepcionar. Kip Winger ressaltou mais de uma vez que a formação é a original de 1987 e mencionou Alice Cooper, com quem tocou nos anos 80. "O Brasil tem os melhores fãs de rock em todo o mundo", disse ele em determinado momento.

"Stick the Knife In and Twist" abriu o set com energia imediata antes de "Seventeen" fazer o Memorial cantar junto, de mãos pro alto, sem exceção. "Can't Get Enuff", "Down Incognito" e "Miles Away", essa cantada em coro absoluto e que alimentaram ainda mais a chama chama do hard rock, um dos pontos mais altos de todo o fim de semana. O solo de guitarra de Reb Beach parou tudo: ovação espontânea, silêncio respeitoso e então explosão de aplausos. Rod Morgenstein também teve seu espaço com um drum solo que mostrou por que ele é um dos bateristas mais respeitados do estilo. "Headed for a Heartbreak" foi o pico emocional do set, com extensão instrumental densa e Kip entregando vocais no limite. "Easy Come Easy Go" preparou o terreno antes de "Madalaine" encerrar o show como o momento mais emotivo da tarde, um daqueles instantes em que uma música pertence completamente à plateia. Rock and roll puro, executado com a autoridade de quem faz isso há quase quarenta anos.


Smith/Kotzen - Hot Stage

Este show em si, foi irretocável. "The Devil You Know" do Anthrax tocando como intro antes da dupla subir ao palco já colocou o clima no lugar certo. Adrian Smith e Richie Kotzen abriram com "Life Unchained" antes de "Black Light", "Wraith" e "Blindsided" estabelecerem o padrão de qualidade do que seria uma hora de entrosamento impecável. "Taking My Chances", "Darkside" e "White Noise" foram pontos altíssimos de um set sem falhas. A formação de apoio contava com os brasileiros Bruno Valverde na bateria e Julia Lage no baixo, mencionados por Adrian com orgulho, "Desculpe que não sei falar português", brincou ele. O encerramento com "Wasted Years" do Iron Maiden deixou a galara eufórica. Com a noite já caindo, os efeitos de iluminação ganharam ainda mais dimensão e fizeram tudo parecer ainda maior. Esse é mais um show que merecia o palco principal.


Within Temptation - Ice Stage

Sharon den Adel tem mais de cinquenta anos, três filhos, e uma presença de palco que envergonha boa parte das vocalistas de bandas mais jovens. Entrou com vestido branco e máscara, com uma cantiga de ninar ucraniana nas caixas de som e luzes vermelhas preparando o clima. A voz operística preenche o Memorial inteiro, e o que impressiona não é apenas a qualidade vocal, é a performance física. Sharon pula, dança, se movimenta pelo palco sem perder uma nota, misturando canto lírico com metal de um jeito que faz tudo soar mais brutal pelo contraste.

O setlist foi uma das grandes surpresas do dia. "We Go to War" abriu antes de "The Howling" chegar, primeira vez desde 2016, o que já era motivo de euforia por si só. "Stand My Ground" e "Ritual", dedicada às mulheres na plateia, seguiram antes de "The Heart of Everything" aparecer pela primeira vez desde 2019. "Forsaken" foi o momento mais raro do set: primeira vez em público desde 2008. "Ice Queen" e "Mother Earth", descrita por Sharon como música de protesto, fecharam o show, com ela e o guitarrista Ruud Jolie segurando uma bandeira do Brasil.

* Infelizmente, não conseguimos assistir o show do Krisiun. O grupo, formado pelos irmãos Alex Camargo, Moyses e Max Kolesne, comemorou os 25 anos do lançamento do álbum "Conquerors of Armageddon" com um show especial no Bangers Open Air.


Dirkschneider - Sun Stage

Criminosamente subestimado. Udo Dirkschneider, que gravou os maiores clássicos do Accept ao lado de Wolf Hoffmann e moldou o heavy metal alemão dos anos 80, tocando aquele repertório num palco secundário, no mesmo horário que o Angra no Hot Stage. Quem foi pro Angra tomou a decisão óbvia. Quem ficou no Dirkschneider viu uma aula.

Udo começou quebrando tudo com "Fast as a Shark" abriu o set com aquela velocidade que em 1982 parecia impossível para o heavy metal da época, antes mesmo do thrash ter nome. "Living for Tonite" e "Midnight Mover" completaram a abertura antes do bloco de Balls to the Wall tomar conta: a faixa-título, "London Leatherboys", "Fight It Back", "Head Over Heels", "Losing More Than You've Ever Had", "Love Child", "Turn Me On", "Losers and Winners", "Guardian of the Night" e "Winterdreams", o clássico absolute do Accept em sequência, sem respiro. O encore trouxe "Princess of the Dawn" antes de "Burning" incendiar o encerramento literalmente. A produção, o jogo de luzes, a energia, foi demais. Um show desse nível não deveria estar num palco secundário. O mesmo vale para o Ambush. Esses dois shows mereciam muito mais.


Angra - Hot Stage

Optei pelo Dirkschneider e não me arrependo, mas o que aconteceu no Hot Stage aquela noite precisa ser registrado com o cuidado que merece.

Não era um show comum. Era a despedida de Fabio Lione após catorze anos, a estreia de Alírio Netto nos vocais, e a reunião da formação clássica do Rebirth com Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester no mesmo palco, tudo isso numa única noite, em um show dividido em três atos distintos.

O Ato I reuniu Alírio e Fabio em blocos alternados: "Nothing to Say" e "Angels Cry" com Alírio estreando, antes de Fabio assumir para "Tide of Changes Pts. I e II", "Lisbon" e "Vida Seca". Alírio voltou para "Wuthering Heights" (cover de Kate Bush) e "Carolina IV", tocada ao vivo pela primeira vez desde 2018 e dedicada aos fãs.

O Ato II foi o bloco mais aguardado: Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester no palco com Bittencourt, Andreoli e a formação reunida do Rebirth. "In Excelsis" como intro antes de "Nova Era" abrir um bloco que incluiu "Waiting Silence", "Millennium Sun", "Heroes of Sand", "Ego Painted Grey", "Bleeding Heart", "Spread Your Fire", "Acid Rain" e "Rebirth", onde vinte e cinco anos depois, a formação que gravou aquele disco reunida no mesmo palco tocando aquelas músicas.

O Ato III foi o encerramento: um vídeo de Andre Matos tocando "Silence and Distance" no Japão parou o Memorial antes da música ser executada ao vivo por toda a formação reunida, dedicada ao saudoso vocalista. "Late Redemption" e "Carry On", com absolutamente todo mundo no palco, fecharam a noite. Rafael Bittencourt disse do palco que aquela foi uma das noites mais importantes da história do heavy metal brasileiro. Difícil discordar.


Ambush - Waves Stage

Aqui está outro caso de show subestimado pelo posicionamento no festival. O Ambush é heavy metal sueco dos anos 80 em sua forma mais pura e ao vivo é uma banda que deveria estar nos palcos principais, com toda certeza. A apresentação, a presença de palco, a sincronia quando fazem aquela linha de guitarra e baixo se movendo juntos pelo palco é o heavy metal clássico mais incrível que existe. O vocalista Oskar Jacobsson canta com uma pegada rápida e solta agudos que ninguém bota defeito.

O set percorreu o catálogo da banda antes de "Metal Gods", cover do Judas Priest fazer a plateia enlouquecer. A penúltima música foi impressionante, antes de "Don't Shoot (Let 'em Burn)" fechar tudo de um jeito que deixou quem estava ali sem palavras. A energia que o Ambush trouxe é de headliner. O nome não tem o mesmo peso que as outras bandas do line-up, mas o show tem.


O Bangers Open Air 2026 foi uma experiência extraordinária e com uma grade tão forte, a sobreposição de horários entre bandas de peso nos diferentes palcos cobrou um preço real do público. 

O lado positivo é que tudo isso acontece num contexto de crescimento real e consistente. O Memorial da América Latina segue sendo um local privilegiado, com infraestrutura, acesso e tamanho adequados ao que o Bangers propõe. A organização geral, mais uma vez, esteve à altura. E o sinal mais claro do sucesso do festival veio ainda no sábado, quando a edição de 2027 foi anunciada oficialmente no próprio evento, confirmando que o Bangers deixou de ser uma aposta e virou parte do calendário fixo de shows e festivais por aqui.

Até 2027, Bangers Open Air!

COBERTURA: BANGERS OPEN AIR - 25/04/2026 (SÁBADO) - MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA - SÃO PAULO/SP

 



Tem dias que você sai de casa sabendo que vai ser bom. E tem dias que você volta pra casa sabendo que acabou de viver algo fora do comum. E o primeiro dia do Bangers Open Air 2026 foi o segundo tipo e pra mim ficou claro já no primeiro show do dia. Infelizmente, por logística, não conseguimos cobrir todas as bandas que gostaríamos, mas segue o relato daquelas que tivemos a oportunidade de assistir.

Por Fernando Aguiar

Lucifer - Sun Stage

Primeira vez que eu via o Lucifer ao vivo e posso dizer, sem dúvida alguma, que foi uma das melhores estreias que tive o prazer de presencial em um festival. A sueca Johanna Sadonis abriu o Sun Stage ao meio-dia exato com "Anubis", que é o primeiro single da banda, de 2015, raramente tocado ao vivo nos últimos anos e já entregou o recado de que aquele não seria um set qualquer.

O Lucifer traz aquele occult rock dos anos 70 ressuscitado, com Black Sabbath, Pentagram e Coven correndo nas veias, riffs diretos e pesados com aquela melancolia característica que diferencia a banda da maioria do que se vê nos festivais de hoje. Mas o que transforma a experiência ao vivo é Johanna. Ela simplesmente tem uma presença e carisma absurdas, não precisa forçar nada. "Riding Reaper", "Wild Hearses" e um dos pontos mais altos do show com "At the Mortuary" que a própria Johanna já disse ser sua favorita de performar ao vivo, chegando com aquele peso denso e atmosférico que é a marca registrada da banda. "Slow Dance in a Crypt" e "The Dead Don't Speak" aprofundaram o mergulho no Lucifer V antes de "California Son" fazer a galera cantar junto. O cover de "Goin' Blind" do Kiss chegou como uma das melhores surpresas do dia, e o encerramento com "Fallen Angel" deixou todo mundo querendo mais.

Com uma hora de show, o Lucifer foi, para mim, um dos melhores shows que já passaram pela grade do Bangers, e olha que a competição é grande. Inclusive comentei sobre este ponto na hora da sessão de autógrafos e todos da banda ficaram muito agradecidos e surpresos com meu comentário, além de terem sido muito simpáticos e atenciosos com todos que estavam por perto. Que banda meus amigos!


Evergrey - Hot Stage

Também primeira vez com o Evergrey ao vivo. O Evergrey é daquelas bandas que você ouve há anos em casa mas nunca sabe direito como vai funcionar num festival, ainda mais que o som da banda é um tanto quanto introspectivo, carregado de emoção, mais dado às luzes baixas do que ao calor da tarde paulistana.

A resposta simples é: funciona muito bem quando a banda é boa de verdade. Tom Englund, que entrou de macacão preto, não deve ter imaginado que estaria tão calor na hora do show, foi muita coragem e a banda abriu com "Falling From the Sun" e o Hot Stage imediatamente ganhou outro nível de intensidade. "Where August Mourn" e "Weightless" foram daqueles momentos em que o coletivo e o individual se encontram, todo mundo junto, como se fossemos uma unidade. "The World Is on Fire" e "Eternal Nocturnal" mostraram a profundidade progressiva da banda antes de "Call Out the Dark" preparar o terreno para "King of Errors", que pra mim foi o pico emocional do set. "Architects of the New Weave", material novo que demonstrou um potencial ao vivo enorme e "Leaving the Emptiness" conduziram o final antes de "OXYGEN!" fechar tudo com energia máxima.

Foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes das duas edições do festival que acompanhei.


Jinjer - Hot Stage

Se o Evergrey tocou a alma, o Jinjer veio pra começar a destruir o corpo logo em seguida. E destruiu completamente.

A banda ucraniana chegou ao Bangers no meio da "Latin America Duél Tour 2026", e o setlist refletiu isso: um prólogo encurtado preparou o terreno antes de "Duél" abrir o set com peso total. "Green Serpent", "Fast Draw" e "Vortex" mantiveram o clima pesado nas alturas. "Disclosure!" e "Tantrum" vieram logo depois, antes de "Teacher, Teacher!", que é quase um momento de antologia ao vivo, pra fazer o público enlouquecer. "Hedonist" e "I Speak Astronomy" levaram o set aos territórios técnicos mais elaborados antes de "Someone's Daughter" conduzir tudo ao ponto de maior tensão emocional.

Mas a grande verdade é que tudo isso é contexto para Tatiana Shmayluk. Ela é literalmente um show à parte. O domínio de palco é hipnotizante: guturais devastadores, melodias cristalinas, e uma transição entre os dois que parece sobrenatural. O público foi ao delírio durante todo o set. E "Pisces", que há muito tempo deixou de ser só uma música da banda e passou a pertencer a todo mundo que ouve metal foi um momento único. "Sit Stay Roll Over" fechou tudo no limite máximo. Um arregaço absoluto.


Torture Squad - Sun Stage

Os paulistanos do Torture Squad chegaram atropelando com aquela mistura visceral de Death e Thrash Metal que a gente já conhece e respeita. O som das guitarras é puro rascante, com distorções pesadíssimas que ganham uma profundidade animal com o baixo, que traz até umas nuances de dub, e a bateria naquele cadenciado constante que não dá descanso pro pescoço.

Mas o que realmente dita o tom da apresentação é a Mayara Puertas. A presença de palco dela é absurda! Ela explora uns agudos viscerais e uma dinâmica que transforma o show em uma experiência completa. É uma frontwoman que entrega tudo, traduzindo perfeitamente a aura agressiva e, ao mesmo tempo, técnica da banda.


* Infelizmente, não conseguimos chegar a tempo de cobrir o show do Marenna no Waves Stage por causa da grade, mas segundo conversas com amigos que lá estiveram, foi mais um grande show do grupo. Algo recorrente, diga-se de passagem.


Killswitch Engange - Ice Stage

O Killswitch Engage trouxe o Metalcore para o palco e, vou dizer, o Jesse Leach está em uma fase absurda. O vocal dele surgiu ainda mais brilhante ao vivo, totalmente apoiado por um instrumental "bem temperado" onde a bateria e o baixo faziam um contraponto perfeito, segurando o andamento com uma precisão absurda. E o que falar daquela guitarra furiosa? O cara explodiu entre rascantes intensos e cromatismos cirúrgicos, mantendo a energia lá no alto o tempo todo.

Para fechar a passagem deles pelo festival com chave de ouro, eles mandaram aquela releitura de "Holy Diver", do mestre Dio. Que momento, meus amigos! A execução arrematou a apresentação com uma propriedade incrível, sendo, sem dúvida, um dos pontos mais altos da performance vocal do Leach em todo o show. Um tributo de respeito que deixou todo mundo arrepiado.


Black Label Society - Hot Stage

Quase quatro anos sem aparecer por aqui, e Zakk Wylde voltou como se nunca tivesse saído. Já a entrada com o intro "Whole Lotta Sabbath", com aquele mashup genial de Black Sabbath com Led Zeppelin foi um aviso do nível de referências que aquele set traria. "Funeral Bell" abriu com o volume absurdamente alto que tomou conta do Hot Stage, e o material novo do Engines of Demolition mostrou força imediata: "Name in Blood", "Destroy & Conquer", "A Love Unreal" e "Heart of Darkness" deixaram claro que o disco tem muito a dizer e caiu muito bem ao vivo.

Aí vieram os momentos que definiram o show. O cover de "No More Tears" de Ozzy transformou o Memorial num coro uníssono. Logo depois, "In This River", dedicada a Dimebag Darrell e Vinnie Paul e que chegou com aquela carga emocional que a música sempre carrega, amplificada pelo contexto. E então veio "Ozzy's Song", a balada que Zakk escreveu especificamente em homenagem ao mentor e amigo que “perdemos” em 2025. O que aconteceu no palco e na plateia durante aquela música foi uma catarse coletiva real de um homem prestando tributo com milhares de pessoas que entendiam o peso de cada acorde. Foi o ponto mais alto da tarde, e um dos momentos mais emocionantes que já vivi num festival de metal. Nem preciso dizer que as lágrimas caíram naturalmente, certo?!


Tankard - Sun Stage

Essa era uma das que eu mais esperava, e os alemães não decepcionaram, pois foram avassaladores, pra dizer o mínimo. O Tankard é um dos pilares do thrash teutônico, e faz parte do big four do metal extremo alemão ao lado de Sodom, Kreator e Destruction, com mais de quarenta anos fabricando hinos sobre cerveja, amizade e caos sem jamais pedir desculpa por isso.

"One Foot in the Grave" abriu estabelecendo o ritmo imediatamente: riffs velozes, bateria certeira, Gerre nos vocais com a mesma energia de sempre. "The Morning After" e "Ex-Fluencer", material mais recente, provaram que o Tankard não vive só do legado. "Rapid Fire" acelerou ainda mais antes de "Need Money for Beer" e "Die With a Beer in Your Hand" transformarem aquilo tudo numa festa thrash de beber junto e gritar junto. "Beerbarians" e "A Girl Called Cerveza" mantiveram o caos a todo vapor, antes de "Chemical Invasion" e "Zombie Attack" chegarem, clássicos absolutos que não precisam de apresentação. O encerramento com "(Empty) Tankard", o hino máximo, três minutos e meio de thrash puro que resume tudo que a banda representa. Foi devastador, destruidor, tudo que eu esperava e um pouco mais. Foi o show mais divertido do dia, sem sombra de dúvidas.


In Flames - Ice Stage

O In Flames surgiu como um trovão na escuridão da noite e, literalmente, incendiou o público. Os caras entregaram aquele Death Metal Melódico clássico, mas com uma energia renovada. O instrumental é um absurdo de dinâmico e pesado: a bateria do Jon Rice veio com afretados intensos, casando perfeitamente com o baixo poderoso e carregado de "doom" do Liam Wilson. Tudo isso servindo de base para as guitarras rascantes e, claro, para o vocal magistral do Anders Fridén. O cara deu uma aula, transitando entre guturais e agudos viscerais com modulações e drives potentes que são a marca registrada dele.

Um dos pontos mais interessantes foi ver como os sintetizadores furiosos dão uma cara moderna ao som. O diálogo entre a guitarra melódica do Niclas Engelin e a rítmica do Björn Gelotte é intenso e muito bem pontuado pelo baixo, fazendo dessa junção entre os synths e as cordas o grande diferencial da melodia. Tudo isso apoia magistralmente o vocal poderoso do Anders. Que showzaço, meus amigos! Uma aula de como evoluir sem perder a essência.


Arch Enemy - Hot Stage

Headliner com asterisco duplo: o Arch Enemy chegou ao Bangers como substituto do Twisted Sister, que cancelou a turnê pelos problemas de saúde de Dee Snider e estreando Lauren Hart nos vocais, vinda do Once Human após a saída de Alissa White-Gluz. A banda entrou com "Ace of Spades" do Motörhead como intro, seguido de "Khaos Overture" preparando o clima. Um coisa precisa ser dita, havia expectativa, havia tensão e havia a polêmica de bastidores com Kiko Loureiro acusando a banda de plágio em "To the Last Breath".

Tudo isso evaporou em "Yesterday Is Dead and Gone". Lauren Hart tomou o palco como se estivesse nele há uma década com a banda e começa a cantar possuída, não parava um segundo, dominava o espaço com uma naturalidade que surpreende quem sabia da pressão que aquele momento representava. Chegou a se emocionar em cena quando a plateia cantou junto, agradecendo ao público brasileiro e a resposta foi à altura. "The World Is Yours", "Ravenous" e "War Eternal" foram confirmações imediatas de aprovação total. "Dream Stealer" preparou o terreno para "To the Last Breath" que foi muito bem recebida pela platéia.

Clássicos de todas as fases apareceram ao longo do set: "My Apocalypse", "Bury Me an Angel" da era Johan Liiva, que fez os fãs de longa data enlouquecerem, "The Eagle Flies Alone" e "No Gods, No Masters". "Dead Bury Their Dead" preparou o encerramento antes de "Snow Bound" chegar com um intro de solo de Joey Concepcion que parou tudo por alguns instantes. E "Nemesis" fechou a noite com o coro "One for all, all for one" tomando conta do Memorial inteiro. Entre pirotecnia, bandeiras tremulando e aquela energia caótica e avassaladora do Arch Enemy, mesmo com problemas técnicos de som, foi um show espetacular.

Overdose - Waves Stage

Encerrar o primeiro dia de festival no palco Waves, com o Overdose, foi como presenciar uma aula de história do metal brasileiro que se recusa a envelhecer. Ver esses precursores mineiros dos anos 80 ao vivo é entender que a sonoridade e a atitude heavy deles atravessam gerações sem perder um pingo de relevância. É puro suco de metal nacional com aquela autoridade de quem sabe o que está fazendo.

O show já começou mostrando a que veio. Quando mandaram a introdução de "Rio, Samba e Porrada no Morro", aquela batida firme de maracatu se misturando ao samba e à latada nordestina entregou de cara a brasilidade que eles carregam no DNA. É de arrepiar. Em "My Rage", o Bozó (Pedro Amorim) provou por que é uma lenda; os vocais dele, transitando entre o gutural e o rascante com uma técnica absurda, casaram perfeitamente com o instrumental pesadíssimo. A bateria cadenciada e o baixo com aquela pegada Doom do Fernando Pazzini trouxeram um clima denso, enquanto Claudio David e Sérgio Cichovicz faziam as guitarras dialogarem de um jeito ágil que não deixava ninguém parado.

Um dos momentos que mais me chamou a atenção foi "Progress of Decadence". A bateria do André Marcio tem uma dinâmica diferenciada, com uns diminuendos nas viradas para o refrão que são geniais. As guitarras aparecem com riffs encadeados e um diálogo sincopado, criando uma dissonância estudada que foge do óbvio e desemboca num refrão marcante com um pezinho no punk rock. É criatividade pura!

Quando chegou em "Children of War", o show entrou naquela cadência frenética de Power Metal que a gente ama, com as guitarras rascantes e a performance vocal do Bozó lá no topo. Mas o que me deixou de queixo caído foi "How to Pray". Pensar que essa música rompeu paradigmas na época em que foi escrita é loucura; ela tem elementos tão modernos, com uns breaks estratégicos e um toque de crossover no refrão que só viraria tendência dez anos depois. Que ousadia desses caras!

Para fechar com chave de ouro, "João Sem Terra" trouxe novamente aquele flerte com o maracatu — me lembrou até um quê de Alceu Valença — misturado a uma letra ácida de crítica social que, infelizmente, continua atualíssima. Ver o Overdose no palco é ter a certeza de que estamos diante de gênios da nossa música. Foi uma performance impecável e cheia de carisma. Genial, meus amigos!


Enfim, muitos motivos diferentes pra lembrar desse sábado para o resto da vida. Da descoberta do Lucifer ao encontro emocional com o Evergrey, do furacão ucraniano do Jinjer, passando pelo Torture Squad e indo à catarse coletiva do BLS com sua homenagem a Ozzy, do Killswitch Engage à festa thrash avassaladora do Tankard, do poderio do In Flames e do encerramento apoteótico do Arch Enemy com Lauren Hart e o orgulho brasileiro do Overdose. Foi um dia que provou, mais uma vez, que São Paulo é uma das capitais mundiais do metal pesado.


LUCIFER - 20/04/2026 - ESPAÇO MARIN - PORTO ALEGRE/RS

 


LUCIFER
20/04/2026
ESPAÇO MARIN - PORTO ALEGRE/RS

Texto: Gustavo Jardim
Fotos: José Henrique Godoy

O clima agradável na capital gaúcha nos ajudava a controlar as emoções de poder conferir pela primeira vez em Porto Alegre uma das mais sensacionais bandas da atualidade, os suecos do LUCIFER, que incluíram a capital gaúcha como parte de sua frutífera tour sul americana que incluiu grandes apresentações pelo Brasil e culminou com uma participação no festival Bangers Open Air em São Paulo. Contando aqui com uma parceria entre a Nevoeiro Produções e o Espaço Marin, posso garantir que a espera valeu cada minuto através de uma noite perfeita e memorável a qualquer fã de heavy metal que se preze.

Passavam pouco das vinte e uma horas e a força da gravidade do local nos fez despencar até o abismo com os mestres do Doom/Occult Rock, que após a sua blasfema intro, emendaram “Anubis”, iniciando o culto e incendiando de cara um lotado Espaço Marin, com seu peso atmosférico e incrivelmente “sabbathico”.

“Ghosts”, em seguida, com sua atmosfera setentista, demonstra sincronia e competência, com a banda mostrando a que veio, abrindo caminho pro primeiro clássico da noite, “Crucifix”, com seu refrão poderoso e uma performance irrepreensível de uma carismática e comunicativa Johanna Sadonis, que coordenou um coro em uníssono dos bangers.

“Riding Reaper”, a primeira do álbum “V” empolga o público e mostra de vez o quanto os suecos podem entregar algo único tanto em grandes estádios como em momentos mais intimistas em espaços menores. O que veio a seguir depois disso foram as pesadas “Wild Hearses”, essa na minha opinião uma das mais poéticas da história da banda, e “Lucifer”, contando novamente com uma interação forte nos refrãos e aquela aura de clássico que permeia cada centímetro do espaço. E que grande trabalho de guitarras de Mr. Max Eriksson (Mothercrown, Saturno) e Coralie Bauer, que ao vivo trouxeram exatamente o que foi criado, com louvores.


A sequência nos traz de volta ao último disco da banda, o “V”, com uma trinca de novos clássicos que renderam momentos mais intimistas como em “At the Mortuary”, “Slow Dance in The Crypt”, essa com bastante interação com o público e “The Dead Don’ t Speak”, deixando aquela sensação de introspecção e êxtase.

“California Son” volta a elevar o clima, e não poderia ser diferente, uma das mais poderosas ao vivo, com boas menções instrumentais a memória de “Starstruck” do grande Rainbow, com grande destaque aqui a forte pegada da cozinha de tambores de Kevin Kuhn e da baixista Claudia Gonzalez Diaz, que esbanjam alta performance e carisma. ”Bring me His Head”, na sequência, não deixa pedra sobre pedra. Que performance! Alguns problemas técnicos irrelevantes permeiam momentos aqui e ali, minúsculos, em relação a volumes e som, que em nada compromete e até rendem maior interação.

Dito isso, um momento realmente especial, após algumas menções ali na bateria com “Love It Loud” e “Strutter”, a banda saca um memorável cover de “Goin’ Blind”, do KISS, que traz lágrimas aos olhos de quem ali estava e acaba com qualquer coração de pedra, e que casamento perfeito entre duas sonoridades distintas. “Fallen Angel” encerra com chave de ouro o show do ano, ovacionada do começo ao fim e igualmente cantada em uníssono quase que enfeitiçado por um público ganho do início ao fim, já ensandecido. Uma rápida apresentação da nova banda termina o espetáculo e nos deixa na órfãos na expectativa do próximo.


O ponto alto a ressaltar aqui foi de quão incrível uma banda consegue entregar uma performance que além de irrepreensível, transita facilmente entre o começo do heavy metal e a essência do estilo em uma roupagem mais “moderna”, e o quanto isso pode ser poderoso ao vivo, com entrega e carisma que pega ao público do início ao fim com um transe quase hipnótico. É claro que faltaram sons como “Abracadabra”, “Dreamer”, “A Coffin Has No Silver Lining” entre outras, mas valeu. Vale destaque também a boa acolhida e simpatia da banda como um todo com o público, tanto no palco como no pós show… foi uma mágica noite de celebração com grandes amigos, que sempre nos deixará uma sombria lembrança e um sorriso no rosto.

O time da Rebel Rock estava lá, não houve credenciamento por parte da produção do evento mas de nossa parte sempre é especial, se enganam e muito quem pensa que estamos nessa por interesses quaisquer além de registrar em palavras o que vivemos, e pelo o que nos move, o amor pelo heavy metal. Ave Lucifer.

Gustavo Jardim

terça-feira, 28 de abril de 2026

ELEGANT WEAPONS - EVOLUTION (2026)

 


ELEGANT WEAPONS
EVOLUTION 
Exciter Records - Importado

Há discos que você simplesmente escuta — e há aqueles que te puxam para dentro, quase como uma experiência completa. Evolution, do Elegant Weapons, pertence claramente à segunda categoria. Mais do que um simples sucessor de "Horns For A Halo", o álbum soa como a afirmação definitiva de identidade de uma banda que, até pouco tempo atrás, ainda buscava seu próprio equilíbrio entre nomes gigantes e expectativas igualmente grandes. Desde o início, fica evidente que algo mudou. Se o primeiro álbum carregava um certo senso de urgência, como se tivesse sido feito por pessoas que se conheceram em um churrasco e foram direto para o estúdio, aqui há um sentimento de construção consciente. Tudo soa mais orgânico, mais coeso e, acima de tudo, com espírito de banda. Muito disso passa pela química consolidada entre Richie Faulkner e Ronnie Romero, que agora trabalham de forma muito mais próxima.

É impossível falar de Evolution sem destacar a evolução de Romero. Sua performance vocal não apenas impressiona, mas eleva o material a outro patamar. Diferente do primeiro trabalho, no qual precisou se adaptar a linhas melódicas já existentes, desta vez ele participou do processo desde a base, moldando melodias e explorando nuances. O resultado é um vocal mais expressivo, versátil e emocionalmente conectado às composições, brilhando tanto nas linhas melódicas de “Come Back To Me” quanto na agressividade carregada de atitude em “Holy Roller”. Musicalmente, o álbum evita a armadilha da ostentação técnica gratuita, apostando em músicas que respiram e dão espaço para cada instrumento cumprir seu papel. Há uma clara reverência ao passado, com ecos de Black Sabbath, Rainbow, Deep Purple e Whitesnake, mas tudo é filtrado por uma abordagem moderna e consciente. Não se trata de nostalgia vazia, mas de influência bem assimilada com uma dose cavalar de melodias cativantes.

Richie Faulkner, por sua vez, reafirma sua força como compositor de mão cheia. Seus riffs são menos sobre velocidade e mais sobre “peso” e groove, algo que fica nítido em faixas como “Generation Me” e “The Devil Calls”, que equilibram a crueza clássica com uma pegada contemporânea. Da mesma forma, “Bridges Burn”, mostra como o grupo consegue criar impacto sem recorrer a excessos desnecessários. Um dos momentos mais marcantes do álbum é a dobradinha “Rupture” e “Mercy Of The Fallen”. A primeira, instrumental, carrega uma carga emocional forte ao refletir a experiência pessoal de Faulkner com seu problema cardíaco. Não é apenas uma faixa — é uma conexão sonora impactante.

Ainda assim, é importante notar que Evolution busca se desenvolver de forma gradual, quase como um disco “das antigas”, feito para ser apreciado na íntegra. Essa característica pode afastar quem procura um impacto instantâneo, mas recompensa generosamente quem se permite na experiência completa. A entrada de Dave Rimmer (baixo) e Christopher Williams (bateria) também faz uma diferença crucial, entregando uma base rítmica mais sólida e integrada que reforça a sensação de unidade.

No fim das contas, o trabalho faz jus ao nome que carrega: não propõe uma revolução sonora, mas representa um passo firme e consciente na construção da identidade legítima do Elegant Weapons.

William Ribas




BLACK SWAN - PARALYZED (2026)

 


BLACK SWAN
PARALYZED
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Super grupos são sempre uma atração à parte no mundo do Rock. E o Black Swan é um dos melhores supergrupos de Hard Rock da atualidade. O quarteto formado por Rob McAuley (vocal), Reb Beach (guitarras), Jeff Pilson (baixo) e Matt Starr (bateria) apresenta seu terceiro trabalho, lançado agora em fevereiro de 2026 com o título de “Paralyzed”.

Após uma audição completa de “Paralyzed”, temos a impressão que o Black Swan apostou bastante desta vez no nome dos músicos envolvidos, e na base do que já foi feito nos seus ótimos dois primeiros álbuns. Se fosse no futebol, poderíamos dizer que o quarteto “jogou com o regulamento embaixo do braço”. Ou seja, seguiu a cartilha para fazer um bom disco de Hard Rock. Porém sem arriscar muito.

Apesar disso, “Paralyzed” nem de perto é um disco sem atrativos. “When The Cold Wind Blows”, a faixa de abertura, tem um riff fantástico de Reb Beach. Acelerada, dá um toque “metálico” a esta faixa, enquanto Robin McAulin entrega toda a sua classe aos vocais. Sem dúvida um dos melhores vocalistas do estilo. “Death of Me”, um hardão mais festeiro, com refrão pegajoso. “Different Kind Of Woman”, com excelente introdução do baterista Matt Starr tem um que de Van Halen fase Dave Lee Roth. De longe a minha faixa preferida.

“If Was a King” retorna pesadíssima, com um riff soturno e sombrio. Uma das melhores faixas do álbum. “Shakedown” novamente volta com o clima mais festivo, porém dessa vez previsível. Em “The Fire And The Flame” Reb Beach toca fogo no ambiente, com um riff sensacional que lembra bastante o Dokken, banda que ele fez parte junto a Jeff Pilson, entre 1999/2000. “I´m Ready” é a balada do álbum que se por um lado não compromete o trabalho, é uma faixa dispensável. A faixa título também, previsível, e meio que se perde no meio das demais, enquanto “Carry On” é uma faixa ok, porém relembra uma dezena de músicas já feitas inclusive pelo próprio Black Swan.

“Battered And Bruised” e “What The Future Holds” são as duas faixas que fecham o trabalho, ambas cadenciadas e com groove. No geral “Paralyzed” é um bom álbum de Hard Rock e vai agradar a todos os fãs do estilo, porém, dos três lançamentos do Black Swan, este é o mais fraco. Mas lembrando que ser o “mais fraco” não quer dizer que seja um álbum que não vale a pena, ainda mais quando foi concebido por este time de músicos. Lançamento nacional Shinigami Records.

José Henrique Godoy




AT THE GATES - THE GHOST OF A FUTURE DEAD (2026)

 


AT THE GATES
THE GHOST OF A FUTURE DEAD
Century Media - Importado

O fã do At the Gates ao ouvir os primeiros minutos do álbum The Ghost of a Future Dead, já fica com a certeza de estar diante de uma obra prima fiel ao estilo que consagrou os suecos com o chamado “som de Gotemburgo” ao lado de nomes como Dark Tranquility e In Flames. "The Fever Mask" traz consigo tudo que se espera de uma faixa de abertura do At the Gates sonoricamente e liricamente, e a euforia não é gratuita, já que temos aqui praticamente a formação clássica da banda depois que o guitarrista Anders Björler retornou em 2022. Esse foi o primeiro álbum composto com sua colaboração assinando todas as músicas junto do baixista Tomas Bjöeler e do nosso agora saudoso Tomas Lindberg, é praticamente a formação do primeiro álbum lá em 1992. 

Mas... não tem como falarmos desse álbum sem abordarmos tudo que envolveu seu lançamento, o querido vocalista “Tompa” foi diagnosticado com câncer ainda em 2023 e todo o processo de composição e gravação de The Ghost of a Future Dead se deu em meio ao tratamento do vocalista, tido como uma lenda no underground mundial. Ele gravou todos os vocais numa demo de pré-produção, e são exatamente esses vocais que foram colocados na mixagem final do álbum, que manteve-se com a sequência das músicas, o título, e todas as artes assim como a mix final definidas por ele antes de falecer em 2025 com apenas 52 anos. 

Encontramos aqui ao longo das 12 faixas desse álbum, todos os elementos que se transformaram na marca registrada da banda: velocidade, agressividade aliada a belas melodias de guitarra, vocais raivosos e o tradicional peso sueco nas bases do álbum do início ao fim. Fica difícil destacar alguma faixa, pois todas soam muito coesas e num nível altíssimo de death metal, chamado por vezes de Death Metal Melódico, mas nunca soando moderno. Se estivéssemos na época que se dava nota pros álbuns, esse estaria no nível da nota 10 sem sombra de dúvidas! Para mim, a faixa "Parasitical Hive", soa do meio para o fim, como uma marcha fúnebre, e, já antecedendo tristeza num clima de despedida, temos a linda instrumental "Förgangligheten". "The Unfathomable" é aquela faixa pra se ouvir o dia inteiro no repeat, e representa a síntese desse oitavo álbum dos precursores de Gotemburgo.

The Ghost of a Future Dead tem o brilhantismo de um "Slaughter of the Soul"? Talvez não, mas entra pra discografia da banda também como um clássico absoluto? Certamente sim! É a despedida de nosso querido “Tompa” em grande estilo, numa obra simplesmente perfeita, transformada agora, numa verdadeira homenagem póstuma ao vocalista.

Márcio Jameson 




PARTY ON WACKEN 2026 (EDIÇÃO BRASIL) - 18/04/2026 - AUDIO CLUB - SÃO PAULO/SP

 


PARTY ON WACKEN 2026 (EDIÇÃO BRASIL)
18/04/2026
AUDIO CLUB - SÃO PAULO/SP

Texto: Fernando Aguiar
Fotos: Alessandra Rosato (Metal na Lata)

Trinta e cinco anos. Essa é a marca que o Wacken Open Air chegou em 2026, e a pequena vila alemã que todo metalhead sonha em pisar pelo menos uma vez na vida escolheu celebrar o aniversário de um jeito inédito: espalhando o espírito do festival pelos quatro cantos do mundo ao mesmo tempo. Trinta e cinco países, um único dia e o lema "One World, One Stage" deixou de ser retórica bonita e virou realidade no último dia 18 de abril.

O Brasil, claro, não ficou de fora, já que a cena nacional tem uma linda relação com o Wacken construída há mais de duas décadas, e esse peso histórico fez ainda mais sentido quando o Bangers Open Air, com produção da HonorSounds, anunciou a edição nacional na Audio, em São Paulo. Quatro bandas. Quatro capítulos diferentes da história do metal extremo brasileiro.


The Mist

Abrir o Party On Wacken com o “The Mist” foi uma declaração de intenções. Não existe cena metal extremo brasileiro sem passar por Belo Horizonte nos anos 80, e não existe metal extremo mineiro sem passar pelo nome que estava naquele palco pontualmente às 15h30.

E para quem não conhece a banda, aqui vai uma breve introdução: A banda surgiu em 1988 a partir dos remanescentes do “Mayhem mineiro”, não, não é aquele o grupo norueguês, mas uma banda local de BH que logo ganhou um ingrediente que mudaria tudo: Vladimir Korg, vocalista que havia deixado o Chakal para se juntar ao grupo. Quem acompanha a cena sabe o peso disso. O Chakal é uma das bandas mais importantes do underground brasileiro fazendo parte da mesma geração que o Sepultura e o Sarcófago, que fora lançado pela Cogumelo Records e que foi elogiado até pela Kerrang! inglesa na época. Korg era o frontman daquele projeto antes de migrar para a The Mist e gravar Phantasmagoria (1989), o debut que colocou a banda no mapa. Mais tarde ele ainda retornaria ao Chakal por mais de uma década antes de se reunir ao The Mist novamente. Um vocalista com duas histórias majestosas nas costas e que merece todo nosso respeito.

O set refletiu bem a trajetória da banda: após a intro, a abertura com "The Tempest" estabeleceu o clima imediatamente: thrash arredio, pesado e com muita agressividade, com aquela atmosfera sombria e literária que sempre diferenciou o The Mist do resto da cena. "Curse" e "Peter Pan" vieram na sequência, essa última um dos momentos mais característicos do disco The Hangman Tree (1991), álbum conceitual que flertava com clássicos da literatura como Peter Pan e O Mágico de Oz de um jeito que nenhuma outra banda de metal extremo nacional ousava fazer. "Over My Dead Body" e "Nambers" mantiveram o ritmo antes de "The Enemy" e "The Hangman" aprofundarem o mergulho no catálogo. "The Dark Side" e "Geppetto" sustentaram a intensidade, com "My Inner Monster" que é o single mais recente, prova de que a banda não está operando só no modo nostalgia e assim fechando o set principal com uma energia de quem ainda tem algo novo a dizer.

O encore com "Lungs" foi o encerramento perfeito: sair de cena num pico, deixar o público ainda mais ansioso antes das três bandas que viriam depois. Uma aula de Thrash Metal.



The Troops of Doom

Se o The Mist abriu o evento com classe e história, o “The Troops of Doom” chegou para destruir tudo que restou de pé. Sem exagero: foi o melhor show da “matinê” para este que vos escreve. Ponto.
Jairo "Tormentor" Guedz não precisa de apresentação pra quem de fato vive o metal extremo brasileiro. O The Troops of Doom é o projeto com o qual ele decidiu honrar o passado sem romantizá-lo: death/thrash metal primitivo, pesado, sem enfeite, com Hellhammer e Celtic Frost no sangue e o Sepultura mais selvagem como coluna vertebral.

O show começou com "God of Thunder", o cover do Kiss na versão deles, que soou menos como homenagem e mais como aviso de que aquilo ali ia doer. E doeu. "Act I – The Devil's Tail" abriu o set oficial e o pit já começou a se formar antes do primeiro minuto acabar. Com "Chapels of the Unholy", "Far from Your God" a banda não dava espaço pra respirar, e o público não queria respirar, queríamos o caos e foi justamente isso que a tropa de Jairo entregou.

Aí veio "Bestial Devastation". Uma das músicas que o próprio Tormentor ajudou a criar décadas atrás, gravada com aquele Sepultura primitivo, que ainda não tinha nome grande, que ainda era só um bando de adolescentes de Belo Horizonte com raiva e talento sobrando. Ouvir aquilo naquele contexto, tocado por um dos seus criadores originais, com a produção crua da The Troops of Doom dando ao riff toda a brutalidade que ele merece, isso não tem preço. E NÓS lá no pit agradecemos da forma devida.

"Act II – The Monarch", "The Rise of Heresy" e "Denied Divinity" sustentaram a pressão no nível máximo antes de "Morbid Visions", sim, mais Sepultura, mais caos pra continuar derrubando a casa. "The Confessional", "Dethroned Messiah" e "Dawn of Mephisto" foram o corredor que levou ao encerramento, e aí chegou O momento.

"Troops of Doom". A música que dá nome à banda. Um dos riffs mais icônicos que o metal extremo brasileiro já produziu, do Morbid Visions (1986), obra que praticamente inventou o death metal nacional. Quando aquelas primeiras notas abriram, a Audio virou outra coisa. O moshpit que se formou ali foi daqueles que você não esquece, daqueles que você não consegue não entrar, mesmo que não possa. Este que vos escreve, claro, não ficou de fora. Seria impossível.

O The Troops of Doom não foi só o melhor show da matinê. Foi um lembrete físico, visceral, do porquê a gente ainda vem pra esses shows depois de décadas. Há momentos em que o metal para de ser entretenimento e vira experiência. Esse foi um deles em que tive o privilégio de presenciar. Que momento, meus amigos. Que momento!




Korzus

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o estado atual do “Korzus”, o show do dia 18 enterrou essa dúvida de vez. Foi um arregaço do começo ao fim e carregou um peso extra que foi além do setlist.

A banda entrou com "Dracula - The Beginning", o tema sombrio do compositor polonês Wojciech Kilar que virou introdução clássica dos shows da banda, preparando o clima antes de "Guilty Silence" explodir e transformar o local em um pandemônio. A partir daí, a pista não parou mais. "Truth", "Raise Your Soul", "Catimba" com aquele thrash paulistano na veia, sem cerimônia, sem pausa pra recuperar o fôlego, até porque o público não queria pausa de qualquer forma.

Mas o que deu ao show uma dimensão especial além da brutalidade foi o contexto: aquela noite marcou a estreia ao vivo da mais nova integrante na formação, ninguém menos que Jéssica Falchi, ex-Nervosa, sinalizando uma nova fase da banda. Mais de quarenta anos de história, e o Korzus ainda está em movimento, ainda está se reinventando, ainda está com fome e isso diz muito sobre o caráter da banda.

No meio do set veio "No Light Within", estreia ao vivo de material novo e que caiu muito bem. "Agony" e "Victim of Progress" colocaram mais querosene na fogueira antes de um dos momentos mais divertidos da noite: Marcello Pompeu chamou a convidada da noite, ninguém menos que Mayara Puertas, pois houve um imprevisto com ela e acabou entrando atrasada e por isso tocaram “Vampiro” antes, que foi muito bem recebida, cantada e agitada por quem estava ali na pista. Quando ela chegou, "Discipline of Hate" ganhou a participação especial dela e ficou ainda mais pesada. O tipo de imprevisto que só funciona quando a banda tem sangue frio e anos de estrada, e o Korzus tem os dois de sobra.
"Never Die", "What Are You Looking For" e "Guerreiros do Metal" foram empurrando a multidão em direção ao inevitável. E então chegou "Correria".

Dizer que a Audio foi à loucura é pouco. O mosh of death que se abriu ali foi um daqueles que tomam conta de toda a pista e não teve como ficar parado, não tem como não gritar junto. A música foi "berrada" coletivamente por quem estava na casa, num daqueles coros que só acontecem quando uma faixa realmente pertence às pessoas tanto quanto à banda que a gravou. Foi o encerramento apoteótico que o show merecia e que a noite toda estava pedindo.

E no centro de tudo isso estava Marcello Pompeu. Sessenta anos, mais de quatro décadas nessa estrada, e com uma performance absurda (voz, presença, energia, tudo no limite máximo). Não é sobre resistir ao tempo. É sobre provar que o tempo não mudou o que importa. Pompeu mostrou naquele palco que ainda tem muita lenha pra queimar, e o público sentiu cada segundo disso. Mais uma aula de thrash metal que certamente ficará na memória de quem presenciou tal momento.


Krisiun

A da banda história começa em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, em 1990. Três irmãos, Alex Camargo no vocal e baixo, Moyses Kolesne na guitarra e Max Kolesne na bateria, que herdaram o amor pelo metal do irmão mais velho, cresceram ouvindo Black Sabbath e Dio, e decidiram que iam tocar o metal mais brutal que conseguissem produzir. Sem grana pra equipamento de qualidade, sem estrutura, sem apoio de gravadora. Só fita demo, correio, fanzine e uma vontade de aço. Em 1995 saiu o debut Black Force Domain e o mundo do death metal nunca mais foi o mesmo. A partir daí vieram mais de uma dúzia de álbuns, turnês ao lado de Kreator, Cannibal Corpse e Dimmu Borgir, reconhecimento internacional que pouquíssimas bandas brasileiras de metal extremo conseguiram alcançar. O Krisiun não é só a maior banda de death metal do Brasil, é uma das maiores do planeta, e três décadas de estrada provam isso com uma consistência que poucos conseguem sustentar.

E é exatamente essa consistência que impressiona num show ao vivo da banda. O Krisiun não é uma banda que se apoia na nostalgia ou no legado pra segurar um público. É uma máquina que funciona no limite toda vez que sobe num palco e quem esteve na Audio sentiu isso na pele.

Depois da intro que preparou o terreno, "Kings of Killing" abriu o set e aqueles primeiros segundos já disseram tudo. A velocidade do Krisiun ao vivo é uma coisa que você não consegue preparar antes de experimentar, Max Kolesne na bateria parece fisicamente impossível, o tipo de performance que faz você parar no meio do mosh só pra olhar e confirmar se ele é realmente humano. Moyses Kolesne na guitarra constroí riffs com uma precisão cirúrgica e brutalidade que só ele consegue. E Alex Camargo, no vocal e no baixo ao mesmo tempo, com aquele gutural que carrega mais de trinta anos de estrada sem soar desgastado.

"Scourge of the Enthroned", "Combustion Inferno" e "Vicious Wrath" empilharam pressão sobre pressão antes de "Hatred Inherit" e "Necronomical" do Mortem Solis (2022), prova de que a banda não está no modo preservação de legado apenas para colocarem o pit em estado de colapso total. "Blood of Lions", "Serpent Messiah" e "Messiah's Abomination" formaram um bloco que não deu um segundo sequer de respiro. A pista não parou, o público não parou, a banda não parou. "Descending Abomination" preparou o terreno pra um drum solo de Max que foi parte aula de técnica, parte exibição de força bruta e quando o guitar solo de Moyses veio na sequência, a Audio ficou em silêncio respeitoso por alguns instantes antes de explodir novamente.

"The Will to Potency" e "Black Force Domain" do debut de 1995, um hino que carrega mais de trinta anos de história fechou o set com a autoridade de quem sabe exatamente onde colocar a última palavra.
A galera agitou até a última nota. Não tinha como ser diferente. Você não assiste ao Krisiun ao vivo e sobrevive a ele, você sai destruído e querendo mais.



Essa noite na Áudio foi o tipo de encontro que fica registrado, não apenas para a imprensa em geral, mas na memória de cada um que esteve lá, especialmente para este que vos escreve, onde foi a primeira vez em que vi as 4 bandas. Então foi uma tarde/noite muito mais que especial e que ficará na memória eternamente.

Thrash Ti’ll Death \m/...