quinta-feira, 23 de abril de 2026

SEPULTURA - THE CLOUD OF UNKNOWING (EP - 2026)

 


SEPULTURA
THE CLOUD OF UNKNOWING (EP)
Dynamo Records/Nuclear Blast - Nacional

Falar sobre o SEPULTURA é sempre mexer em um vespeiro. De um lado aqueles fãs incondicionais, que se a banda lança um ovo de Páscoa (sim, a banda fez isso), compram porque isso mostra a importância da banda. Do outro, aquelas viúvas dos Cavalera que acreditam piamente que a banda morreu em 1996. E tem aqueles que apenas ouvem a música e analisam os fatos, o que é o caso desse que vos escreve. Ainda que eu possa ser enquadrado na categoria de "viúvas", eu considero que a banda lançou alguns interessantes ("Dante XXI", 2006), bons discos ("Kairos", 2011 e "Machine Messiah", 2017) e um muito bom ("Quadra", 2020), o fato é que a banda nunca conseguiu repetir a genialidade dos áureos tempos. Obviamente que Andreas e cia. tiveram coragem de seguir adiante com o legado, mas a verdade é que por mais que tentasse, o nível de excelência só veio a ser atingido 25 anos depois da saída de Max. Mas dito isso, o grupo decidiu pendurar as guitarras de vez (ainda que eu não acredite muito nisso) e lançou no mercado seu último trabalho: THE CLOUD OF UNKNOWING, que sai nesta sexta-feira, 24 de abril, pela Nuclear Blast.

Derrick Green (vocal), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Xisto Jr. (baixo) e o estreante Greyson Nekrutman (bateria) nos trazem neste EP, quatro faixas distintas e que de certa forma, mostram o quão perdida a banda esteve nestes 30 anos. Temos brutalidade e agressividade, um certo ar de esquisitice e uma balada. Sim, uma balada. O trabalho, de forma simples e direta, encerra uma carreira que viveu dias de glória, de incerteza, de buscas e de um final não menos que melancólico. E, vou deixar bem claro: a resenha à partir daqui, é única e exclusivamente pra falar sobre as quatro faixas do EP, comparando o Sepultura de agora, com ele próprio, sem buscar comparações com o passado glorioso dos "jungle boys".

O EP abre com a violenta "All Souls Rising". Violenta mesmo, uma verdadeira porrada em seu início mas com algumas incursões interessantes que buscar fugir do lugar comum. Andreas mostra que é (e sempre foi) um grande guitarristas, com ótimos riffs e solos inspirados. Derrick por sua vez, continua com aquele vocal que soa deveras forçado, o que vai se comprovar mais adiante nessa mesma resenha. Mas, é uma ótima faixa de abertura. "Beyond the Dream" é a "balada" que pela primeira vez, se faz presente em um trabalho da banda. E aqui entra o que disse sobre a voz de |Derrick: ele é sim um bom vocalista, mas usando sua voz sem forçar, mostrando boa técnica e timbre diferenciado. Posso até estar errado, mas a faixa me lembrou um pouco as "baladas" do Testament. E entenda-se por balada, uma faixa pesada e intensa, não uma balada pra curtir a dois. Uma faixa não mais que interessante, muito mais por mostrar essa faceta de Derrick do que qualquer outra coisa. Na sequência "Sacred Books", pesada e equilibrada, a faixa passaria despercebida em qualquer outro trabalho da banda, ainda que o piano em alguns momentos crie uma atmosfera interessante. Pra fechar o caixão do SEPULTURA (perdoem o trocadilho infame), temos "The Place", faixa que havia sido divulgada anteriormente, erroneamente por alguns como sendo a "balada" do trabalho. Mesmo pesada, é outra composição que não acrescenta nada, apenas nos mostra o vocal limpo de Derrick novamente, que poderia ter sido muito melhor explorados nestes 30 anos.

Como eu disse lá no início, "THE CLOUD OF UNKNOWING" veio para ser o último prego no caixão do SEPULTURA. Um EP irregular, como foi a carreira da banda nestes últimos 30 anos. Se por um lado, enquanto fã de Heavy Metal fico triste em saber que esse é o "último" lançamento da banda, por outro fico contente em saber que é apenas um EP e não um álbum completo. Obviamente que muitos irão me criticar, xingar, etc... A verdade é que esse EP é muito mais uma amostra da melancolia que se tornou o grupo do que uma nostalgia. Triste fim de um gigante do metal mundial.

Sergiomar Menezes






BLOODHUNTER - SONS OF THE ABANDONED (2026)


 

BLOODHUNTER
SONS OF THE ABANDONED
ROAR - Importado

Vindo diretamente da Galícia, Espanha, o BLOODHUNTER reafirma sua posição como uma das forças mais resilientes do metal extremo europeu. Sob a liderança visceral de Diva Satanica, o grupo moldou sua identidade única que equilibra a brutalidade do Death Metal Melódico com um groove técnico e uma densa carga emocional. Com quase 20 anos de estrada e uma evolução artística constante, a banda entra agora em sua fase mais madura com SONS OF THE ABANDONED. Com lançamento pela gravadora ROAR, o novo trabalho marca um mergulho introspectivo e ambicioso, consolidando a banda espanhola como um nome forte e consistente para quem busca agressividade aliada à sofisticação narrativa. 

Formado pela já citada Diva Satanica (How We End, ex-Nervosa - vocal), que apresenta uma grande evolução a cada álbum lançado, pelos guitarristas Dani Arcos (criador de ótimos riffs) e Guillermo Starless, pelo baixista Fabian Tejada e pelo baterista Adrián Perales, o grupo mostra consistência e brutalidade em cada faixa presente no trabalho. Tue Madsen (Ektomorf, Gorefest, Sick of it All, Vader, The Haunted, entre outros) renomado produtor traz sua capacidade técnica para ensejar de forma brilhante o peso das guitarras e o equilíbrio da cozinha. Diva Satanica, após sua saída do Nervosa, parece ter encontrado no Bloodhunter o espaço ideal para expandir sua performance vocal. Seu gutural continua sendo um dos mais poderosos da cena atual, mas há uma entrega emocional mais latente nas novas letras, que abordam temas como autodeterminação e a busca por sentido em um mundo caótico.

O álbum abre com "The Devils Own", primeiro single. Aqui, a banda flerta com uma direção ligeiramente mais melódica, evidenciando que não têm medo de evoluir e desafiar as expectativas dos puristas do gênero. Aliás, o vídeo que a banda lançou para essa faixa tem um conceito bem interessante, além de contar com a presença marcante de Diva. "The Outspoken" é um manifesto de autenticidade e autodeterminação, com riffs agressivos, coma dupla Dani Arcos e Guillermo Starless mostrando ótimo entrosamento. Já "Threshold of Hell" traz a participação de Fernando Ribeiro (Moonspell) que dá um brilho extra à faixa que é um dos destaques do trabalho. Uma faixa visceral e que carrega consigo o posto de composição mais completa da banda até hoje, misturando o groove do metal moderno com camadas atmosféricas densas. "Ephemeral Youth" é outro momento brutal e agressivo, com guitarras ríspidas e baixo/bateria que intercalam momentos mais cadenciados com outros "bate estaca", reafirmando a capacidade do grupo de agrupar suas influências e manter sua personalidade. Já a faixa-título consegue traduzir musical e liricamente, todas as incertezas de uma geração que busca identidade em meio ao caos que vivemos no dia a dia.

"No One Beats Death", mostra DIva usando sua capacidade vocal de forma extrema, saindo de vocais mais rasgados até os mais guturais, explorando sua versatilidade. O que não é nenhuma novidade pra quem acompanha seu trabalho. Um andamento mais cadenciado, mas não menos brutal, é o que temos em "Code Aeternam", onde a dupla das seis cordas alternas riffs e solos intrincados, mas que buscam a melodia em determinados momentos. Algo que o Arch Enemy de outros tempos sabia fazer com maestria. Já faixa "The Path That Never Ends" traz um duelo de vozes e beldades: Diva Satanica e Laura Guldemond (Burning Witches). Belas, simpáticas e donas de vozes fortes e potentes, cada uma dentro de seu estilo, as duas representam bem a força do metal feminino na atualidade. O grupo mantém a tradição de faixas instrumentais com "The Night is Darker Before Dawn", explorando a versatilidade de seus integrantes. "Masters of Deceive" e "Human Insecticide" encerram o álbum, de forma consistente. E talvez, a palvra que melhor define esse trabalho é essa: CONSISTÊNCIA, pois o grupo mantém o nível elevado nas suas composições trazendo, pelo menos até aqui, seu trabalho mais maduro e intenso.

Com SONS OF THE ABANDONED, o BLOODHUNTER, definitivamente, deixa de ser uma promessa pra se tornar uma realidade entre os bons nomes do metal europeu. Uma pena que a turnê que o grupo faria pelo Brasil no ano passado acabou não rolando. Mas com o lançamento desse excelente trabalho e tudo mais que tem envolvido a banda, acredito que chegou a agora de aportar pelas terras brasileiras. Um álbum forte, intenso e de muita qualidade. Ao menos por enquanto, um dos melhores álbuns de 2026!

Sergiomar Menezes





TYKETTO - CLOSER TO THE SUN (2026)


 

TYKETTO
CLOSER TO THE SUN
Shinigami Records/Silver Lining Music - Nacional

Para todo o fã de Hard Rock, os novaiorquinos do Tyketto são considerados uma das bandas mais injustiçadas da história do Hard Rock. Formado em 1987, a banda só conseguiu lançar seu álbum de estreia, o clássico “Don´t Come Easy”, em 1991, bem no final de festa do estilo que dominou os anos 80.

Com o vocal poderoso de Dany Vaughn e riffs de guitarra cheios de groove e malícia, produzidos pelo guitarrista Brooke St. James, a banda rapidamente conquistou fãs de Hard Rock mundo afora, mas infelizmente foi mais uma banda que “chegou tarde” para ter um sucesso maior.

Mas de qualquer forma, entre idas e vindas, a banda se manteve ativa nas décadas seguintes e nos presenteia agora com o novo trabalho: “Closer To The Sun”. Da banda original temos apenas Danny Vaughn nos vocais guitarras acústicas e harmonica. Os demais músicos são o tecladista Ged Rylands (na banda desde 2012), Chris Chylds (baixista também da banda inglesa Thunder), o excelente guitarrista Harry Scott Elliot e o baterista Johnny Dee (Britny Fox/Doro).

O que temos em “Closer To The Sun” é um trabalho que vai agradar em cheio quem já conhece a discografia do Tyketto. Neste sexto trabalho de estúdio, posso afirmar que é o que mais se aproxima do favorito “Don´t Come Easy”. Riffs fortes, letras positivas e cheias de energia, cantadas com uma vibrante interpretação de Vaughn. Do início com o hardão “Higher Than High”, passamos pela bluseada à lá Whitesnake “Donnowhuddidis” (êta nome estranho e difícil de escrever). A faixa título é um AOR de arrepiar. ”Harleys & Indians “, um surpreendente cover dos suecos Roxette. “Hit Me Where It Hits”, mais pesada e certeira. Citei essas faixas como destaque, para mostrar que o álbum tem uma variação sem fugir do estilo do Tyketto.

Closer To The Sun” é um puta álbum, de uma banda que não teme seguir o coração e fazer músicas de alto nível, sem fugir de suas características e sem ceder a modismos. Fortemente indicado para os fãs de Hard Rock. Saindo nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




RAMONES - RAMONES 50 ANOS

 


OS 50 ANOS DO ÁLBUM QUE MOSTROU AO MUNDO QUE O ROCK ESTAVA (E SEMPRE ESTARÁ) VIVO!


Por Sergiomar Menezes

Neste exato 23 de abril, em 1976, era lançado o álbum que redefiniria aquilo que muitos entendiam como rock n' roll. Se por um lado, algumas guitarras pesadas começavam a surgir pelos bares da Inglaterra, pelos lados dos Estados Unidos, quatro degenerados davam mostra que o estilo, que naquele momento se via cercado por viagens de teclado, músicas intermináveis e um virtuosismo que chagava a dar náusea, podia ser reinventado sem que fosse preciso zerar a conta. Inspirados por muitos nomes da cena de Nova York, Jeffrey Ross Hyman,  John William Cummings, Douglas Glenn Colvin e Thomas Erdélyi (nascido Tamás Elderlyi), ou mais precisamente, Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy, pegaram pra si o pseudônimo que Paul MCCartney usava quando se hospedava em hotéis para fugir dos fã e imprensa (Paul Ramon) e se denominaram RAMONES. E mal sabiam eles que 50 anos depois, o trabalho continuaria tão cru, tão vivo e tão revolucionário como nos idos dos anos 70.

Há 50 anos, quatro malucos vestidos com jaquetas de couro e calças jeans rasgadas deixaram Forest Hills, no Queens, para alterar a trajetória da música. Eles não traziam solos elaborados, não possuíam instrumentos caros e definitivamente não estavam interessados em canções de dez minutos sobre feiticeiros ou fadas. O álbum de estreia do Ramones, que leva o mesmo nome da banda, não foi apenas mais um disco; representou um manifesto de simplicidade que demonstrou que, para tocar rock, eram suficientes três acordes e uma necessidade quase desesperadora de ser escutado.

Na sede da Sire Records

O que faz deste álbum um divisor de águas não é apenas sua rapidez, mas também sua autenticidade. Em tempos em que o rock progressivo e o disco predominavam, os Ramones apresentaram 14 canções em somente 29 minutos. A imagem da capa, capturada por Roberta Bayley, se tornou o símbolo oficial do rock alternativo. O muro de tijolos e as expressões indiferentes dos quatro escancararam a filosofia do "faça você mesmo". Com um custo extremamente baixo de aproximadamente US$ 6.400, o álbum exibe uma sonoridade áspera. A nítida separação dos canais (a guitarra de um lado e o baixo do outro) remetia aos primeiros álbuns dos Beatles, mas com uma distorção que se aproximava do industrial. Essa técnica, visava a clareza total: cada instrumento deveria ser ouvido em sua forma mais pura e brutal.

Embora Joey fosse o rosto (feio, diga-se de passagem) e Dee Dee a alma caótica, a estrutura do álbum foi moldada pela visão de Tommy Ramone (o estrategista e produtor implícito) e pela disciplina de ferro de Johnny Ramone. Johnny, com sua guitarra, aboliu os solos. Sua técnica de downstrokes (palhetadas apenas para baixo) criou uma parede de som monofônica e percussiva. Não havia espaço para o "respiro" do blues; era uma cadência insana e ininterrupta. A profundidade do álbum reside na sua contradição interna. Musicalmente, o Ramones bebia da fonte dos grupos vocais dos anos 60, como as Ronettes e os Beach Boys. No entanto, as melodias "doces" eram entregues por Joey com uma dicção britânica afetada (algo que seria confirmado nos próximos trabalhos).


Com faixas como "Blitzkrieg Bop" e "Now I Wanna Sniff Some Glue", as letras combinavam humor sombrio, monotonia suburbana e referências a filmes de baixo orçamento. Era a cultura pop digerida e devolvida com uma ironia agressiva. "53rd & 3rd" aborda a prostituição masculina e o trauma de guerra (temas recorrentes na vida de Dee Dee). "Beat on the Brat" e "Chain Saw" transformavam a agressividade em algo quase performático, uma catarse contra o tédio suburbano.

Embora o álbum não tenha sido um sucesso comercial imediato nos EUA, sua exportação para o Reino Unido foi a mola de impulso do movimento punk britânico. Quando o Ramones tocou no Roundhouse em Londres, em julho de 1976, membros do The Clash e Sex Pistols estavam na plateia. A mensagem foi captada instantaneamente: "se eles podem fazer isso, nós também podemos". Mas diferente do que viria a se tornar o Punk britânico, o Ramones não era explicitamente político. A "política" deles era a da presença cotidiana. Ao subirem no palco do CBGB com roupas que qualquer garoto de classe média baixa poderia ter, eles destruíram a barreira entre ídolo e fã.

O Ramones tratava o rock como um objeto de consumo rápido: as faixas raramente ultrapassavam os 2 minutos e meio. A repetição era usada como mantra, transformando o "simples" em "icônico". Eles pegaram o clichê do "bad boy" dos anos 50 (jaquetas de couro, calças rasgadas e tênis surrados) e o transformaram em um uniforme urbano atemporal. Eles não inventaram a roda; eles apenas decidiram que a roda estava pesada demais e a chutaram ladeira abaixo em alta velocidade. Meio século depois, ainda estamos todos correndo para tentar alcançá-la.

O que torna o álbum RAMONES um objeto de estudo contínuo são suas urgência e relevância. Ele soa como se sempre tivesse existido, esperando apenas que alguém tivesse a coragem de tocar as cordas com força suficiente. Ele não apenas fundou um gênero; ele estabeleceu os limites de quão longe você pode ir removendo as partes de uma canção até sobrar apenas a sua essência vibrante. Ao celebrarmos meio século desse disco, não estamos apenas celebrando a nostalgia, mas sim o momento exato em que o rock recuperou sua capacidade de ser perigoso e sua acessibilidade. O álbum de 1976 permanece como a prova definitiva de que a sofisticação intelectual pode, sim, ser entregue através de três acordes e um grito de contagem.

1,2,3,4... HEY HO, LET'S GO!





quarta-feira, 22 de abril de 2026

STRATOVARIUS - EPISODE 30 ANOS


 STRATOVARIUS - EPISODE 30 ANOS

Por William Ribas

Há 30 anos, o grupo na época formado por Timo Kotipelto (vocal), Timo Tolkki (guitarra), Jörg Michael (bateria), Jens Johansson (teclado) e Jari Kainulainen lançava Episode, o quinto álbum de estúdio da banda. O aniversariante do dia marcou o início de uma sequência de excelentes lançamentos e carrega a estreia da formação clássica — ou melhor, a unidade definitiva do Stratovarius.

Os finlandeses foram o principal nome do Power Metal da metade dos anos 90 até o início dos anos 2000. O tracklist é recheado de clássicos: faixas ultra velozes, cadenciadas e uma balada que ficou eternizada em sua versão ao vivo, lançada alguns anos depois. O quinteto acertou no equilíbrio perfeito entre técnica, melodias grudentas e velocidade. Afinal, quem não se lembra da rapidez absurda de "Father Time" ou da grandiosidade de "Will the Sun Rise?"? Um início arrebatador, no qual Kotipelto trazia um timbre de voz belíssimo e alcançava notas altas; tenho certeza de que todos que ouviram o disco na época ficavam se "esgoelando" ao tentar imitar o vocalista.

Os riffs certeiros e o teclado são o charme de "Speed of Light", trazendo o toque neoclássico que se tornaria marca registrada do metal melódico daquela era. Já o peso de "Uncertainty", com seu andamento cadenciado, tem Jörg e Jari como verdadeiros condutores de uma das faixas mais subestimadas da carreira do grupo. Mas ficar entre duas das melhores músicas do álbum é uma tarefa difícil, pois o momento seguinte é uma obra-prima: "Season of Change". Com suas linhas calmas e a voz quase sussurrada, a tensão aumenta a cada segundo, com a música crescendo de maneira única. O solo afiado de Tolkki, aliado à ambientação gloriosa de Jens e a um caminho surpreendente em seus minutos finais, torna essa faixa a minha favorita não só do álbum, mas de toda a carreira do Stratovarius.
Episode contou com uma produção ambiciosa para a época, incluindo um coral de 40 vozes e uma orquestra de cordas, elevando a sonoridade a um patamar de grandiosidade. A sequência com "Stratosphere" (uma deliciosa faixa instrumental), "Babylon", "Tomorrow" e "Night Time Eclipse" exemplifica como a aposta de Tolkki se mostrou extremamente acertada, consolidando a identidade sonora da banda para sempre. A emoção final vem com a belíssima "Forever" (que, por ironia do destino, prefiro em seu jeito simples no álbum Visions of Europe). Uma balada orquestrada, acessível e cheia de sentimento: a cereja do bolo de um álbum cativante do início ao fim.

Embora o Visions, lançado em 1997 (e que completa 29 anos amanhã), seja considerado o ápice ao lado de Infinite, é inegável que o Episode pavimentou esse caminho e estabeleceu as bases para o sucesso estrondoso que viria. É um álbum que, mesmo após três décadas, continua marcante com sua energia contagiante. Pode-se dizer que é uma das pedras fundamentais do "boom" do Power Metal dos anos 90.



segunda-feira, 13 de abril de 2026

LYNYRD SKYNYRD - 07/04/2026 - ARAÚJO VIANNA - PORTO ALEGRE/RS

 


LYNYRD SKYNYRD
07/04/2026
ARAÚJO VIANNA
PORTO ALEGRE/RS
Produção: EntreLike/ Mercury Concerts

Texto: Sergiomar Menezes
Fotos: José Henrique Godoy/Marcela Wild
Foto de capa: DS Creatives 


Existem noites que transcendem a ideia de um simples show: são verdadeiros ritos de passagem. E o que aconteceu na noite do dia 07 de abril de 2026, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, pode ser inserido nesse momento. Nesta data, a capital dos gaúchos, se preparou para acolher uma lenda viva. A ansiedade que tomava as ruas da capital gaúcha não era sem motivo. Afinal, receber um show de um grupo que resistiu ao passar do tempo, superou tragédias e converteu a dor em canções que ressoam há décadas, não acontece todos os dias. E coincidentemente, ou não, o LYNYRD SKYNYRD possui uma aura que poucas bandas de rock conseguem manter: a bandeira do Sul, uma resiliência inabalável e a sonoridade distinta das guitarras triplas, que parece pintar o pôr do sol no horizonte. Sul, resiliência e pôr do sol. Algo que Porto Alegre e os gaúchos conhecem bem...

Logo na chegada, era perceptível que não estávamos diante de um show corriqueiro: o volume do público aumentava a cada minuto, e era muito interessante e ao mesmo tempo bacana, notar a grande quantidade de jovens senhores e senhoras que chegavam, seja ostentando camisetas da banda (ou de outros ícones dos anos 70), seja com chapéus de cowboy, todos sintonizados na mesma frequência. Ao adentrar o Araújo Vianna, já percebemos que teríamos casa cheia, pois em questão de minutos os 5000 lugares disponíveis foram preenchidos. E entre uma cerveja e outra, bate papo com amigos que não víamos há muito tempo, eis que poucos minutos antes do previsto, o palco ganha vida com um vídeo no telão e a banda entra em cena.

A comoção foi geral, pois o público que ali estava, sabia que no palco, uma banda única, que influenciou centenas de outras mundo afora, ocupava o lugar que lhe aguardava há muito tempo. Com uma simpatia ímpar e muita energia, Johnny Van Zant (vocal), Rickey Medlocke (guitarra, que integrou a banda entre os anos de 1971 e 1972 na bateria e que voltou em 96 assumindo uma das seis cordas do trio de guitarristas do grupo), Damon Johnson (guitarra), Mark "Spark" Matejka (guitarra), Keith Christopher (baixo), Michael Cartellone (bateria), Peter Keys (teclados) e as backing vocals Carol Chase e Stacey Michelle adentram o palco com "Work for MCA", cantada por todos os presentes, o que de certa forma, pareceu surpreender a banda, em especial Johnny Van Zant, que soltou um sorriso de satisfação para logo em seguida emendar com "What's Your Name", que da mesma forma, fez todos ps presentes cantarem de forma uníssona. E isso foi uma constante durante o show, o que só veio a comprovar a sensação que tivemos na chegada: quem estava ali eram fãs, de muito ou de pouco tempo, mas fãs. 


"That Smell", com sua veia "bluesy" continuou a sequência de clássicos. Johnny, esbanjando simpatia, interagia com o público sempre que podia, enquanto o trio de guitarrista mostrava grande entrosamento no palco, com destaque para Medlocke.Aliás, sobre algumas críticas que o grupo recebeu por se apresentar como LYNYRD SKYNYRD sem ter mais nenhum integrante original, o guitarrista foi enfático em entrevista a GZH: "Existem muitas bandas tributo ao Lynyrd por aí hoje em dia, mas nós não nos consideramos uma delas. Nós somos o grupo real. O que as pessoas não entendem é que Gary Rossington, antes de falecer, fez eu e Johnny prometermos que nunca deixaríamos essa banda se tornar apenas uma memória". Não é preciso dizer mais nada, certo? " I Need You", foi oferecida à todas as mulheres presentes, o que levantou gritos de agradecimento por parte das presentes. No entanto a trinca que veio na sequência foi de arrasar: "Gimme Back My Bullets", "Down South Jukin" e "Saturday Night Special", sendo esta última uma das mais aguardadas pelo público.

"Still Unbroken", faixa pesadíssima do álbum "God & Guns", lançado em 2009, mostra que a banda precisa não vive apenas do passado de seus integrantes, mas busca também valorizar aqueles que mantiveram e mantém a banda na ativa. "The Needle and the Spoon", com sua letra sombria e reveladora, contrata com a melodia mais intensa da composição. Então, um dos momentos mais emocionantes do show, chega e chega forte. "Tuesday's Gone" homenageou Gary Rossington, último integrante original do grupo que faleceu em 2023. Enquanto a faixa era executada, imagens do guitarrista apareceram no telão em diversos momentos, num dos momentos que levaram muitos dos presentes às lagrimas.


Mas se com "Tueday's Gone", as primeiras lágrimas vieram, o que dizer quando Johnny anunciou "Simple Man"? Meus amigos, poucos momentos nessa minha vida assistindo shows ou até mesmo cobrindo foram tão emocionantes... Confesso, que precisei segurar as lágrimas, algo que não aconteceu com a maioria dos presentes, inclusive com um certo fotógrafo que estava do meu lado. Essa música consegue equalizar os sentimentos dos presentes de uma forma que o ambiente se torna uma coisa única, carregada de emoção e sentimento, transcendendo o mundo real. Só quem estava lá vai entender o que escrevo. Ainda mais quando é jogada no palco uma bandeira do Rio Grande do Sul, e logo após estender a bandeira, Van Zant a amarra ao seu pedestal e segue o show come ela ali. Uma bandeira do Brasil também foi jogada e estendida pelo vocalista, ao mesmo tempo em que ela apareceu no telão. "Gimme Back my Bullets" e "Call Me the Breeze" (cover de J.J. Cale) foram tocadas com entusiasmo e logo após a intro "Red, White and Blue" nos adiantou que a clássica "Sweet Home Alabama" ganharia o palco com sua simplicidade e genialidade". Em seguida, a banda deixa o palco aos gritos de pedido para retornarem, o que todos nós sabíamos que aconteceria, afinal, um dos maiores clássicos da música universal ainda não tinha sido tocado.

Ao retorno pro palco, os primeiros acordes de "Free Bird", imagens de todas as épocas da banda surgem no telão, incluindo o início da carreira da banda, situações vividas por eles, incluindo imagens do avião (não do acidente) que vitimou alguns integrantes. Além da própria música ser uma das mais emocionantes já compostas, o casamento com as imagens foi o combustível para acenos, lanternas do celular, abraços, lágrimas e muita celebração. Na metade da faixa, Johnny dá lugar ao seu irmão Ronnie que surge no telão e ele canta a segunda parte da composição, ao lado de Gary Rossington. Que momento único! Ao final, a banda agradece e Johnny ao lado de Peter Keys empunham uma bandeira que une Brasil e Estados Unidos numa só. Sintomático, pois ambos os países vivem momentos difíceis e tudo que queremos é apenas nossa liberdade!



Fica aqui o agradecimento especial à EntreLike pelo credenciamento e cordialidade no atendimento, à Mercury Concerts por proporcionar esse momento único na vida dos gaúchos, ao staff do Araújo Vianna, sempre gentil e prestativo e à Marcela Wild e Rafa Drink Wine pelas fotos. Um show que ficará emoldurado na memória de todos que estiveram presentes.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

GOREFEST - THE EINDHOVEN INSANITY (1993/2025) RELANÇAMENTO


 

GOREFEST
THE EINDHOVEN INSANITY (1993/2025)
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Em uma década que o Metal estava “em baixa”, mercadologicamente falando, o Death Metal, uma das suas vertentes mais brutais, era um dos pilares que sustentavam o estilo vivo. Muitas bandas gravavam e lançaram no ínicio da década de mil novecentos e noventa, seus álbuns mais clássicos e trabalhos marcantes. Dentre eles, este épico “The Eidhoven Insanity” do Gorefest.

Gravado no Festival Dynamo em Eidhoven, em trinta de maio de 1993, este registro ao vivo é um clássico absoluto que mostra uma banda ainda no inicio da sua trajetória e cuspindo brutalidade. Até aquele ponto, o Gorefest tinha apenas dois álbuns lançados: “Mindloss” (1991) e “False” (1992) e o show por óbvio baseia-se nestes registros.

A produção sonora é decente considerando que esta é uma gravação ao vivo de death metal de 1993. É raro que álbuns de death metal ao vivo sejam melhores do que as gravações de estúdio de uma banda, e eles frequentemente acabam sendo apenas versões inferiores e mais falhas de faixas que você já conhece e lembra com valores de produção muito melhores e sem erros de performance. Isso tem muito a ver com a natureza dos shows de death metal, que são simplesmente melhores quando experimentados ao vivo pessoalmente. A energia e a atmosfera de um show como este realmente não são sentidas através das caixas de som quando experimentadas neste formato. Porém, estas observações não se aplicam aqui neste “Eidhoven Insanity”, pois desde os primeiros segundos de audição, parece que você foi sugado para dentro do show.

O Gorefest entrega uma performance sólida, e faixas como "Confessions of a Serial Killer" e "Reality - When You Die" são uma aula de Death Metal. O público certamente soa como se estivesse aproveitando o show na faixa de agradecimento ao público no final, "Eindhoven Roar". Há várias gravações de vídeo amadoras deste show disponíveis, e é óbvio pelo material de vídeo que o público aproveitou o show. Procure no Youtube e veja por si mesmo. Este álbum foi relançado nacionalmente pela Shinigami Records, e se você curte o Death Metal em seu estado mais puro, este álbum torna-se obrigatório na sua coleção.

José Henrique Godoy




quinta-feira, 9 de abril de 2026

EXTREME - 06/04/2026 - ARAÚJO VIANNA - PORTO ALEGRE/RS


 

EXTREME
06/04/2026
ARAÚJO VIANNA
PORTO ALEGRE/RS
Produção: EntreLike/Mercury Concerts

Texto e fotos: José Henrique Godoy

Dentre todos os estilos de Rock/Metal que aprecio, o meu preferido sempre foi o Hard Rock. O que causava uma certa estranheza, até para mim, é que até 2015 eu nunca havia dado muita atenção para o Extreme. Sabia de quão exímio era seu guitarrista Nuno Bittencourt, e de seus hits, mas sei lá, não me “apetecia“ muito consumir o material fonográfico da banda.

Em junho de 2015, isso mudou drasticamente, pois ao ver o Extreme ao vivo, me tornei rapidamente fã da banda, comprei todos os CDs, e Nuno Bittencourt passou rapidamente a ser um dos meus guitarristas preferidos. Então, para esta segunda passagem pela capital gaúcha, estava bem ansioso para assistir a banda ao vivo novamente.

Com um pequeno atraso, as 21h15, o Extreme invade o palco do Araújo Vianna, de cara detonando as clássicas “It´s a Monster“ e “Decadance Dance”, ambas do mais que clássico e multiplatinado “Pornografitti”(1990). A qualidade do som se destacava já nos primeiros acordes, altos e claros, como tem que ser um show de Rock n' Roll.

Gary Cherone é um frontman de mão cheia, um verdadeiro entertainer, um misto de Freddie Mercury com Dave Lee Roth e Steven Tyler. Guardadas as devidas proporções, é claro. Seu vocal soa impecável. Nuno é um monstro! Chega a ser difícil adjetivar o que esse cara faz com as suas guitarras. Parece estar pegando fogo. O baixista Pat Badger segura os graves com maestria e detona nos backing vocals, enquanto Kevin Figueiredo é um animal nos tambores, o baterista estilo “lenhador”: pesado e preciso.


O público não lotou a Auditório, porém a plateia era formada apenas por fãs da banda, isso era visto apenas em uma olhada no numeroso número de camisetas do Extreme, ou por alguns presentes com visual mais caprichado, remetendo a “era de ouro do Hair Metal”. A Tour atual do grupo promove o seu sexto álbum, e a prova que as composições deste trabalho são fortes, é que elas casam muito bem com faixas clássicas da banda.: “Rebel”, "Thicker Than Blood” e “Banshee” casam perfeitamente com “Rest In Peace”, “Hole Hearted|”, “Cupid s Dead”, dentre outras.

Nuno exibe toda a sua técnica na instrumental acústica “Midnight Express”, que introduz a popularíssima balada “More Than Words”. “Façam muito barulho para meu irão Gary Cherone”, diz ele em um português cheio do simpático sotaque lusitano. Aliás, Nuno toma a frente ao se comunicar com a plateia, especialmente pela similaridade de idiomas. Ele perguntou quem assistia ao Extreme pela primeira vez. E ao perguntar quem assistiu em 1992 (primeira passagem da banda no Brasil), ele apontou para quem levantou o braço e respondeu em tom de zoeira: ”velho, velho...muito velho!”.


O final com “Get The Funk Out”, e após uma tradicional “saída falsa de palco”, o Extreme fecha com chave de ouro seu show, após 1h40h com a pesadíssima “Rise”, faixa de abertura do álbum “Six”. Se o Extreme é ótimo nos seus álbuns, melhores ainda eles são ao vivo. É uma banda para se ver ao vivo sempre que possível. Que voltem muito em breve. Nossos agradecimentos para a Mercury Concerts e Entrelike e para todo o staff do Auditório Araújo Vianna.





REBEL ROCK ENTREVISTA - PEACE WILL COME


 REBEL ROCK ENTREVISTA - PEACE WILL COME


O rock brasileiro ganha um novo fôlego com a chegada de "Rock n’ Roll City", o mais recente álbum da banda Peace Will Come. O trabalho, que mergulha fundo nas raízes do gênero com uma roupagem moderna e vigorosa, marca um momento importante na trajetória do grupo. 

Para entender os detalhes dessa nova fase, conversamos com o guitarrista Emerson Macedo. Em um papo direto e revelador, o músico nos contou sobre o processo de composição do álbum, os desafios da produção e o conceito por trás do título que celebra a cultura rock.

Além do novo disco, aproveitamos a oportunidade para falar sobre influências, carreira e os próximos passos da Peace Will Come na estrada. Confira abaixo a entrevista completa.

Por Sergiomar Menezes
Fotos: Stephanie Veronezzi

Rebel Rock: O título "Rock n' Roll City" soa como uma declaração de princípios. O que essa "cidade" representa para vocês e como ela se conecta com a realidade do rock no Brasil hoje?

Emerson Macedo: A ideia por trás do título Rock n’ Roll City é reafirmar que o rock’n’roll continua vivo, pulsante e vibrante como sempre. O rock sempre foi um estilo de agregação, capaz de unir pessoas em torno da energia da música, e acreditamos que isso jamais se perderá. Mesmo que saia do chamado “mainstream”, ele continua forte: se você procurar, vai encontrar algo que te mova — seja novo, clássico ou até um “novo clássico”.

Para nós, Rock n’ Roll City é um lugar — real ou imaginário — onde a força do rock toca a alma. É onde você se reconecta com aquilo que desperta sua paixão, onde a música ganha significado e onde fica clara a certeza de que você nunca está sozinho.

É verdade que o rock no Brasil hoje não ocupa mais o centro do mercado, mas existe uma produção nacional de altíssima qualidade em todas as vertentes do gênero. Muitos artistas estão lançando seus trabalhos de forma independente e divulgando pelas redes sociais. O desafio é que essa produção ainda tem pouco espaço em eventos de maior visibilidade: em grandes festivais, por exemplo, as bandas nacionais costumam tocar em palcos menores ou em horários menos nobres. Ainda assim, elas estão presentes e ativas.

Também há menos casas noturnas com rock ao vivo, mas elas existem e dependem do público. Acreditamos que um caminho de fortalecimento da cena passa por ampliar o espaço para bandas autorais nesses locais, que hoje são majoritariamente ocupados por covers e tributos. O autoral enfrenta mais dificuldades, mas é justamente nele que a cena se renova e segue viva.

Rebel Rock: Como foi o equilíbrio entre as composições individuais e o trabalho de jam session no estúdio para chegar ao som final do álbum? 

Emerson: Todas as composições do álbum surgiram a partir de jam sessions na fase de criação, com exceção de "Don’t Panic", que é uma música mais antiga de uma outra banda chamada Arsenal, com outros compositores. Para essa faixa, fizemos novos arranjos e escrevemos uma nova letra.

Durante as jam sessions, eu geralmente trago riffs de guitarra — ou uma sequência de riffs — e, a partir disso, fomos construindo as músicas coletivamente, adicionando ideias até chegar a uma estrutura sólida para cada faixa.

Antes de entrar em estúdio, fizemos uma espécie de pré-produção para aproveitar ao máximo o tempo de gravação, trabalhando com cuidado os timbres dos instrumentos e a sonoridade geral do álbum. A etapa final foi a escrita das letras e a gravação dos vocais. Com exceção das guitarras, que gravamos apenas eu e o Cesar Bottinha no estúdio dele, todo o restante do processo de composição e gravação foi feito com os quatro integrantes juntos, do começo ao fim.

Emerson Macedo, Cesar Bottinha, Andria Busic e Ivan Busic

Rebel Rock: Compor em inglês abre portas internacionais, mas exige um cuidado extra com a fonética e a interpretação. Como vocês trabalharam para que a mensagem das letras soasse autêntica e orgânica?

Emerson: Como já compomos em inglês há muito tempo, esse processo é algo bastante natural para nós. Quase todos viemos de bandas autorais que já escreviam em inglês, além da experiência em bandas de repertório e covers, o que contribuiu para uma familiaridade grande com o idioma.

Somos fluentes e isso facilita muito, porque a estrutura das letras, as melodias vocais e a interpretação já surgem dessa forma de maneira orgânica. Ainda assim, temos um cuidado especial com a escolha das palavras, com a métrica e com a rítmica das letras, sempre atentos à fonética. Tudo isso é feito sem jamais sacrificar a mensagem ou a emoção da música. Para nós, o mais importante é que a letra soe verdadeira e conectada com o que queremos expressar.


Rebel Rock: O álbum tem um pé nos anos 70/80 e outro na atualidade. Quais foram as maiores referências de timbragem (guitarras, bateria) que vocês buscaram para não soarem apenas como um "revival"?

Emerson: As nossas principais referências, nossos ídolos, são praticamente todos das décadas de 70 até 90, e isso transparece de fato nas composições — seja na dinâmica das músicas, nas melodias vocais, no estilo dos solos de guitarra, no baixo mais pesado e na bateria mais “à frente”. É possível perceber influências de bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin, Dio, Kiss, RATT, Lynch Mob e Whitesnake, mas também de sonoridades um pouco diferentes, como o King’s X, por exemplo.

Acreditamos que o principal elemento que nos conecta a essa atmosfera dos anos 70 e 80 é o fato de as músicas serem alicerçadas nos riffs de guitarra. Ao mesmo tempo, tivemos muita atenção aos processos de gravação, mixagem e masterização, buscando um som grande e poderoso, mas com equilíbrio e, principalmente, deixando a música “respirar”.

Tomamos cuidado para não abusar das compressões de áudio, que muitas vezes deixam tudo muito alto, porém com pouca dinâmica. O que tínhamos em mente durante todo o processo era criar um álbum com uma sonoridade que transmitisse ao ouvinte a sensação mais próxima possível de ouvir a banda tocando de verdade. Acreditamos que é justamente isso que faz com que o álbum soe moderno, mesmo dialogando fortemente com referências clássicas.


Rebel Rock: Existe uma coesão nítida entre o vocal e as guitarras neste trabalho. Como vocês sentem que a dinâmica interna da banda evoluiu desde os primeiros ensaios até a gravação deste disco?

Emerson: Eu diria que, especialmente em comparação com nosso primeiro álbum, a evolução foi imensa. Não pela vontade ou pelo empenho em fazer um ótimo trabalho — porque essa já era nossa abordagem desde o início —, mas pelas circunstâncias em que cada disco foi concebido.

O primeiro álbum foi feito durante a pandemia, com as composições acontecendo de forma remota e partindo de um repertório de ideias bastante heterogêneo. Já existia uma sintonia muito forte entre mim e o Cesar Bottinha como guitarristas, vinda do trabalho que fizemos naquele disco, além da experiência com o Ivan Busic, que havia gravado as baterias como convidado.

Mas Rock’n’Roll City foi composto, gravado e produzido como uma banda de fato. A grande novidade neste segundo álbum foi a chegada do Andria Busic e a permanência do Ivan, agora como membros oficiais. A partir daí, fizemos todo o processo de composição e gravação juntos, durante um período significativo e de forma realmente colaborativa. Esse convívio mais intenso resultou em um trabalho que reflete o melhor de cada um de nós, sempre com foco na canção. Acreditamos que foi justamente a vontade coletiva de fazer com que cada música fosse a melhor possível — dando espaço para todos brilharem nos seus momentos — que fortaleceu essa química e dinâmica interna. Além disso, o fato de nos divertirmos muito juntos, mesmo fora do estúdio e dos palcos, contribuiu diretamente para essa coesão que aparece no disco.


Rebel Rock: Se vocês tivessem que escolher uma única faixa do álbum para apresentar a banda a alguém que nunca os ouviu, qual seria e por quê?

Emerson: Para mim é muito difícil apontar apenas uma música, mas eu escolheria Rock’n’Roll City, que foi o single lançado antes do álbum completo. Essa faixa mostra nosso lado mais rock’n’roll, mais para cima, e funciona como uma verdadeira celebração do rock.

Com ela, fica evidente que queremos que o álbum seja uma fonte de energia, inspiração e conexão com as pessoas que ouvem nossa música. Inclusive, Rock’n’Roll City é a faixa com que abrimos nossos shows ao vivo, o que reforça ainda mais esse espírito.

Ao mesmo tempo, o álbum tem muitos outros elementos de destaque: músicas mais pesadas como "Digital Pollution" e "Don’t Panic", ainda dentro da vertente hard rock; faixas com uma pegada mais blues rock, como "Time Will Heal the Pain"; "The Song" e "Get Ready" que seguram a energia no alto; e a acústica "Winds of Hope", que encerra o disco. No fim, o mais importante para nós é essa combinação de músicas que adoramos e que se sucedem de forma natural ao longo do álbum, fazendo com que o ouvinte fique esperando pela próxima faixa e aproveite o disco do começo ao fim.

Rebel Rock: Houve alguma música que quase ficou de fora ou que deu muito trabalho para ser finalizada? Como vocês resolveram o "quebra-cabeça" dela?

Emerson: Pode parecer quase incrível, mas não — não houve nenhuma música que tenha ficado de fora. Quando percebemos que já tínhamos material forte o suficiente para um álbum, direcionamos nossa energia para arranjar as partes, amarrar as estruturas e fazer a pré‑produção pensando no disco como um todo, não como faixas soltas.

E isso tem muito a ver com a forma como a gente enxerga um álbum: como uma obra completa. A gente nem chegou a fazer demos; eu e o Cesar Bottinha gravamos apenas guias de guitarra e tudo foi construído a partir delas, justamente para manter esse senso de unidade e de “banda tocando de verdade” ao longo do trabalho.

O “quebra‑cabeça”, como você colocou, apareceu na hora de definir a sequência. A grande decisão foi encontrar um flow natural — como se cada faixa fosse um capítulo — para que a primeira audição tivesse sempre essa sensação de descoberta: “o que vem agora?”, “para onde o disco vai me levar?”.
E a gente sentiu que isso funcionou bem. Mesmo nas ouvidas seguintes, quando a surpresa já não é a mesma, o disco ainda conduz por diferentes emoções e vibrações. Isso vem muito da cultura de ouvir álbuns do começo ao fim, como a leitura de uma história — porque, no fim, é exatamente isso que ele é para nós: uma história musical.


Rebel Rock: As músicas de "Rock n' Roll City" exalam uma energia muito "ao vivo". Como está sendo o planejamento para traduzir essas camadas sonoras para os shows?

Emerson: Essa foi uma decisão consciente de produção, e acreditamos que tivemos sucesso nesse aspecto. Desde o início, pensamos o álbum para que ele pudesse ser reproduzido ao vivo com a mesma força e qualidade do que está gravado, somando a energia da música sendo tocada ali, na frente do ouvinte, sem truques e sem disfarces — música alta, olho no olho e todo mundo vibrando junto.

Por isso, não há camadas excessivas de instrumentos ou de vozes, nem a adição de elementos que não estejam presentes nas apresentações ao vivo. Usamos apenas alguns recursos pontuais, como uma camada muito discreta de teclados em “The Song” e pequenas percussões em alguns trechos, que não reproduzimos quando estamos somente nós quatro no palco.

Em shows realizados em espaços maiores e com melhor infraestrutura, nosso plano é ampliar essa experiência com a presença de mais duas backing vocals, que também fazem percussões. A ideia é manter a essência da banda ao vivo, mas com uma dimensão maior, acompanhando a estrutura do palco sem perder a honestidade sonora.


Rebel Rock: Como vocês enxergam a recepção do Hard Rock autoral no Brasil atualmente? Vocês sentem que há um novo público surgindo para esse estilo?

Emerson: Aqui existe uma diferença importante em relação ao que você perguntou. Para grandes bandas clássicas internacionais, há sim uma renovação de público, com muita gente mais jovem indo aos shows levada pelos pais ou por alguém mais velho da família. É quase como uma tradição que vai sendo passada entre gerações, e é muito estimulante ver isso acontecendo. Eu mesmo comecei a gostar de rock — principalmente de hard rock e heavy metal — por influência do meu irmão, que era 16 anos mais velho do que eu.

Por outro lado, não vejo esse mesmo movimento de renovação acontecendo com a mesma força no hard rock autoral nacional. Quando olhamos para os dados de demografia dos ouvintes da Peace Will Come nas plataformas de streaming e para nossos seguidores nas redes sociais, percebemos um público majoritariamente acima dos 25 anos, com maior concentração entre 35 e 55 anos.

Isso nos mostra que ainda existe um espaço enorme para que um novo público se aproxime desse estilo e se engage com as bandas e artistas nacionais. O desafio está justamente em criar pontes para que essa renovação aconteça, como haver mais espaços para shows de bandas autorais por exemplo, mas o potencial está claramente ali.

Rebel Rock: Com o lançamento de "Rock n' Roll City", qual é a principal meta que a Peace Will Come pretende alcançar nos próximos 12 meses? 

Emerson: Nossa principal meta nos próximos 12 meses é levar o álbum Rock n’ Roll City para o palco. Queremos fazer apresentações ao vivo para tocar as músicas do disco, revisitar algumas faixas do primeiro álbum com uma roupagem mais alinhada à atual formação da banda e incluir alguns covers de artistas que amamos. A estréia desse ciclo aconteceu no dia 27 de fevereiro passado no House of Legends aqui em São Paulo e a experiência foi sensacional.

O nosso objetivo é realizar pelo menos uma apresentação a cada dois meses. Com isso, esperamos fortalecer o engajamento das pessoas que já acompanham a banda pelas redes sociais, ampliar o nosso público e, principalmente, formar uma comunidade ativa em torno do nosso trabalho.
São metas ambiciosas para nós que somos uma banda ainda pouco conhecida, embora com músicos muito experientes e com uma longa história dentro do hard rock nacional — o que nos dá confiança para construir esse caminho passo a passo, com consistência e presença ao vivo.


Rebel Rock: Obrigado pela entrevista! Deixe uma mensagem para os fãs e para aqueles que ainda não conhecem a banda!

Emerson: Muito obrigado pela oportunidade e a todos que já acompanham nosso trabalho de alguma forma, seja nas plataformas de streaming ou nas redes sociais.

Para quem ainda não conhece a Peace Will Come, o convite é simples: escute o álbum Rock n’ Roll City, vá aos shows e se permita entrar nesse lugar que ele representa. Um espaço onde o hard rock segue vivo, pulsante, e onde pessoas se conectam pela mesma energia e paixão pela música.

Mais do que ouvir nossas canções, o que queremos é convidar as pessoas a fazer parte dessa “cidade” — uma comunidade de entusiastas do hard rock autoral, que acredita na força da música tocada de verdade e na importância de manter essa cena viva e em movimento.

Para quem gosta de ter uma mídia física, prensamos uma quantidade limitada de CDs, que neste momento pode ser adquirido no site da Animal Records ou presencialmente na loja, localizada na Galeria do Rock, em São Paulo. Busquem informações sobre a banda, os integrantes e as músicas nas redes sociais, principalmente no Instagram (@peacewillcomeband). Valeu, grande abraço!




terça-feira, 7 de abril de 2026

GOTTHARD - MORE STEREO CRUSH (2026)

 


GOTTHARD
MORE STEREO CRUSH
Reigning Phoenix Music - Importado

Com um legado impressionante, o GOTTHARD consolidou sua posição no cenário musical global através de números incontestáveis: 17 álbuns no topo das paradas e mais de 3,5 milhões de cópias vendidas mundialmente. A banda ostenta conquistas raras, como um Prêmio Diamante na Suíça e o sucesso estrondoso do álbum "Homerun" (quádrupla platina). Com mais de 2.000 apresentações ao vivo e hits icônicos como "Heaven", o grupo reafirma sua relevância histórica no rock, lançando agora o  seu novo álbum (ou EP) MORE STEREO CRUSH, já disponível pela Reigning Phoenix Music. O lançamento de oito faixas expande o álbum "Stereo Crush", de 2025, e oferece aos fãs uma visão mais profunda das sessões criativas por trás do disco.

Composta pelos membros originais Leo Leoni (guitarra) e Marc Lynn (baixo), ao lado de Freddy Scherer (guitarra), Nic Maeder (vocal) e Flavio Mezzodi (bateria), a banda mantém sua chama acesa. O novo trabalho conta novamente com a assinatura do produtor Charlie Bauerfeind e o talento de vários compositores, provando que a energia e o compromisso do GOTTHARD com o hard rock continuam tão intensos quanto no primeiro dia. Embalada pelo sucesso de sua recente turnê europeia com o Y&T, o grupo mantém o ritmo acelerado. Após uma temporada intensa de festivais e três apresentações monumentais nas arenas do "Rock Monsters of Switzerland", ao lado do Krokus, a banda demonstra que sua sede criativa e energia de palco seguem em plena expansão. Não à toa, o vocalista Marc Storace participa como convidado em uma das faixas.

O trabalho traz cinco músicas inéditas das gravações do "Stereo Crush" (também conhecidas como "sobras"), junto com a faixa "Mayday", que até então só estava disponível em vídeo. O EP também inclui uma edição para rádio da balada "Burning Bridges" e uma nova versão em dueto de uma da músicas favoritas dos fãs: "Liverpool", interpretada pelo vocalista Nic Maeder junto com o já citado Marc Storace, vocalista do Krokus.

Com relação as faixas inéditas, "Right Now" abre o trabalho com aquela pegada típica do Gotthard: guitarras melódicas, vocais afinados e harmonias que marcam o ouvinte. Na sequência, "Ride the Wave", traz um pouco mais de peso na s guitarras, num belo trabalho da dupla Leoni e Scherer, que mantém uma ótima sintonia. Já "Smiling in the Pounding Rain" é uma bela balada, marca registrada da banda. Tocada ao piano, a faixa mostra a classe e categoria do quinteto nesse tipo de composição. O Hard Rock com a veia européia volta a dar as caras com a excelente "Snafu", enquanto "Don't Miss the Call", parece ter sido composta exclusivamente pra ser tocada ao vivo, tamanha a energia da ponte e refrão presentes na faixa. "Mayday", que já havia sido disponibilizada em vídeo, é outro momento bem "Gotthard, com guitarras mais pesadas. A participação de Marc Storace em "Liverpool" dá aquele "plus a mais" na composição, ao contrastar os vocais mais melódicos de Nic Maeder e os rasgados do experiente vocalista. Pra fechar, uma versão editada para as rádios da balada "Burning Bridges".

Apesar de não inovar (e quem disse que precisa), o GOTTHARD segue sendo uma das forças do Hard Rock mundial. Prova disso, é esse trabalho, que traz faixas não gravadas para o álbum "Stereo Crush", lançado no ano passado. Classe, categoria e técnica aliados à composições bem elaboradas e com a marca registrada do grupo impressa, fazem de MORE STEREO CRUSH um trabalho que deve ser apreciado por todo fã de Hard Rock. Ou simplesmente, fã de música boa.

Sergiomar Menezes




segunda-feira, 6 de abril de 2026

THE SHEEPDOGS - KEEP OUT OF THE STORM (2026)

 


THE SHEEPDOGS
KEEP OUT OF THE STORM
Right on Records - Importado

O homem tem o sonho da máquina de viajar no tempo há muitas décadas, basta vermos a quantidade de obras literárias e cinematográficas que tratam deste tema. Porém a música tem o poder de fazer este oficio, nos levar de volta no tempo quando escutamos uma música ou o trabalho de algum artista. E o quinteto canadense The Sheepdogs tem este dom e o exerce com maestria.

Formado em 2004, na cidade de Saskatoon, The Sheepdogs pratica o que se convencionou chamar de Classic Rock, e em seu mais novo trabalho, “Keep Out Of The Storm”, o nono álbum de sua discografia, o quinteto nos pega pela mão e nos joga lá nos anos 1970. As influencias são obvias: Lynyrd Skynyrd encontrando o Led Zeppelin, e o Alman Brothers Band convidando o Thin Lizzy para um passeio.

Não querendo parafrasear o treinador Roger Machado, que adora frases sem sentido para parecer mais culto, mas “Keep Out Of The Storm” é complexo na sua simplicidade, se é que me faço entender. A audição deste trabalho é fácil e muito agradável, e aos poucos você vai entrando numa vibe que mescla tranquilidade e excitação, pela qualidade de todas as composições.

Arranjos grooveados, riffs de guitarra cativantes, vocais no lugar certo e sem exageros conduzem o ouvinte para uma das melhores décadas da música, porém sem soarem datados e/ou manjados. Como falei, as influências são claras, mas por outro lado, o trabalho tem uma originalidade que faz “Keep Out The Storm” soar com frescor e oxigenado. Eles merecem.

Embora The Sheepdogs não sejam uma banda que  toca alto e soe barulhenta, o álbum inclui músicas de rock pulsantes, como “All I Wanna Do” e a animada “I Do”.

No geral, porém, The Sheepdogs focam no groove e na melodia. “Keep Out of the Storm” apresenta músicas de rock suaves que ressoam com emoção. “Take a Look at Me Riding” destaca a intensidade emocional da banda. É um dos momentos mais cheios de alma no álbum e demonstra as habilidades excepcionais de composição da banda. O arranjo, que inclui um trompete, adiciona uma faísca extra a essa grande canção.

Enfim, The Sheepdogs ainda não são muito conhecidos internacionalmente , mas espero de verdade que esta história mude com o lançamento de “Keep Out The Storm”. A banda merece o sucesso e os apreciadores do Classic Rock e da boa música merecem conhece-los.

José Henrique Godoy