terça-feira, 3 de março de 2026

LIVING COLOUR - THE BEST OF 40 YEARS TOUR - 26/02/2026 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 


LIVING COLOUR - THE BEST OF 40 YEARS TOUR 
Abertura: MADZILLA
26/02/2026 
BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS
Produção: ABSTRATTI PRODUTORA

Texto: José Henrique Godoy
Fotos: Sergiomar Menezes

O Living Colour é uma daquelas bandas que, apesar da longevidade e da extrema qualidade da sua discografia e das suas apresentações ao vivo, merecia uma atenção e destaque muito maior do que recebem do cenário musical mundial. E na noite do dia 26 de fevereiro, este pensamento me passou várias vezes pela cabeça, enquanto eu contemplava a incrível performance do quarteto novaiorquino.

Em sua terceira passagem pela capital gaúcha, (as anteriores foram em 2004 e 2009), finalmente a banda teve um público à altura da sua obra. O Bar Opinião estava praticamente lotado para reverenciar a sensacional performance de Corey Glover, Vernon Reid, Doug Wimbish e Will Calhoun. E que performance.

A abertura da noite ficou por conta da banda Madzilla, de Las Vegas. O quarteto formado por David Cabezas (vocal/guitarra), Sarah Dugdale (guitarra), Thomas Palmer (baixo) e Courtney Lourenco (bateria) executa um Thrash Metal com bastante melodia, porém me pareceu um pouco deslocado para o evento. Se o publico presente aplaudiu com respeito, ao mesmo tempo não demonstrou muito entusiasmo, apesar do esforço de David Cabezas, que se comunicou sempre em português e se mostrou bastante simpático. Mas o saldo final do Madzilla é que, apesar de ser uma boa banda, pouco acrescentou à noite.



O relógio marcava 21h10 quando o Living Colour adentrou o palco e iniciou o set com "Leave It Alone”. Corey Glover trajando um elegante terno quadriculado é o mestre de cerimônias, ao seu lado direito Vernon Reid, um mestre das seis cordas, que justamente foi apontado dentro dos 50 melhores guitarristas de Rock de todos os tempos, numa lista da Revista Rolling Stone. Do outro lado, Doug Wimbish demonstra desde o início que é uma baixista de algumas “prateleiras acima” da média. Ao fundo ele, Will Calhoun, um dos bateras mais espetaculares do mundo todo.

“Middle Man” e “Memories Can´t Wait (cover do Talking Heads) são tocadas na sequência e trazendo a tona as memórias lá do final dos anos 1980, quando eu comprei o LP “Vivid” e simplesmente gastei de tanto ouvir. Ouvir ao vivo estas duas faixas presentes nele, em sequência foi um deleite! “Ignorance Is Bliss” e “Go Away”, ambas faixas do pesadíssimo álbum de 1993 “Stain” são executadas com muita classe, enquanto a divertida “Funny Vibe” mostra todo o virtuosismo do quarteto.



Então chega a vez de Corey Glover brilhar solo, e ele arregaça numa versão de “Hallellujah” de Leonard Cohen. O homem canta demais. Sem mais. Segue a minha preferida “Open Letter (To A Landlord) e sem dar tempo para respirar, Will Calhoun detona um solo cheio de técnica nos tambores e utilizando percussão e recursos eletrônicos, arranca aplausos e mais aplausos dos presentes.

“This is the life“ vem na sequência e logo após uma versão de “Pride” diferente de como a conhecemos, com mais suingue e ligeiramente mais rápida na velocidade. É chegada a vez de Doug Wimbish tomar conta do palco, e ele fala que é o caçula da banda, pois está há apenas 37 anos como Living Colour (ele substituiu o baixista original Muzz Skillings em 1992) e então executa um medley com as músicas “White Lines/Apache/The Message”, enquanto demonstra um domínio absurdo do instrumento, ao mesmo tempo que se diverte e diverte a plateia. Aliás a satisfação e alegria de estarem num palco é visível no rosto dos quatro. Assim sendo, eles até passam a falsa impressão de que é “fácil” tocar música da forma que eles fazem.



“Glamour Boys”, “Love Rears Its A Ugly Head”, “Type”, “Time´s Up / What´s You Favotite Color?” e “Cult Of Personality”, nesta sequência nos dão o prazer de ouvir/ver um “Best Of “ ao vivo e em auto e bom som. A banda se despede e sai do palco, para retornar logo em seguida com “Solace Of You” e encerrar com um explosivo cover de “Should I Stay Or Should I Go” clássico atemporal do The Clash. "Fim de festa”. Vernon Reid e Corey glover ainda ficaram um tempo no palco autografando itens e tirando fotos.

È impossível classificar o Living Colour com algum rótulo. Hard Rock, Metal, R&B, Crosssover, Jazz... Eles trabalham com tudo isso e muito mais. É uma banda simplesmente incrível. Que voltem quantas vezes forem possíveis. Obrigado mais uma vez a Abstratti pelo credenciamento e ao staff do Bar Opinião e sua costumeira cordialidade.

MASTER OF PUPPETS - 40 ANOS DO ÁLBUM DIVISOR DE ÁGUAS DO METALLICA

 


MASTER OF PUPPETS - 40 ANOS (1986/2026)


Por William Ribas
Fotos: Divulgação (Milanica Channel)


Em outono de 1985, o Metallica se isolou no frio de Copenhague para criar o que se tornaria o marco definitivo do thrash metal, e da fase inicial da banda. O nome do estúdio, Sweet Silence Studios (Doce Silêncio), carregava uma ironia quase profética: aquelas paredes estavam prestes a conter o som mais barulhento, ambicioso e sofisticado que o grupo já havia produzido até então.

Durante quatro meses, entre setembro e dezembro, a banda trabalhou sob a disciplina rigorosa do produtor Flemming Rasmussen. Ali, cada detalhe foi lapidado com precisão. A gravação capturou a dualidade do Metallica naquele momento: agressividade crua aliada a uma grandiosidade estrutural que começava a expandir os limites do próprio gênero.


Quarenta anos de um trabalho atemporal. Acredito que datas e números, para alguns álbuns, são irrelevantes. Master of Puppets, quando saiu em 3 de março de 1986, foi uma explosão na música pesada. É uma versão melhorada de "Ride the Lightning" — o modo operante seguiu quase à risca: introdução hipnótica, seguida de um ataque de riffs e “brutalidade”. Músicas pesadas, densas, lentas e melódicas; o tracklist é um verdadeiro banquete. Temos mais uma instrumental: “Orion” é toda a genialidade de Cliff Burton. A faixa é tão especial que, anos depois, virou nome de festival da banda, e James Hetfield ainda tatuou a tablatura em homenagem ao grande amigo.

Quatro décadas em que a história do Metallica mudou. Conquistas, perdas e recomeços — o ano de 1986 para Lars Ulrich, Hetfield e Kirk Hammett. Master of Puppets colocou a banda em turnê com um de seus ídolos, Ozzy Osbourne, pelos Estados Unidos. A alegria e a inocência eram tantas que, nas passagens de som ou dentro do trailer, o que se ouvia era Black Sabbath, na esperança de Ozzy aparecer e fazer uma jam com eles (fato que somente ocorreu 23 anos depois). O cantor inglês apareceu, mas não foi pela música — a fama do “Alcoholica” fez nascer uma amizade.


A primeira parte da turnê com Ozzy se iniciou em 27 de março, em Wichita, no Kansas, com o Metallica tocando o seguinte setlist:

Battery
Master of Puppets
Seek & Destroy
Welcome Home (Sanitarium)
For Whom the Bell Tolls
Ride the Lightning
Creeping Death
Am I Evil?
Damage, Inc.

O Metallica se apoiou no seu presente: Master of Puppets. O início com Kill 'Em All era “passado”. Começar e encerrar os shows de maneira brutal foi o tiro certeiro para as datas iniciais. Quanto mais shows, mais o álbum vendia, e mais a popularidade dos quatro integrantes aumentava. A banda que, quatro anos antes, tocava em todos os “buracos” da Califórnia agora era a queridinha. Começavam a ganhar dinheiro, vendiam merchandising e virariam headliner. As datas com Ozzy Osbourne foram até Salt Lake City, em Utah, no dia 17 de maio. Após isso, eles eram os donos do palco.

Com isso, houve mais tempo para “chutar bundas” nos shows, o que colocaria ainda mais Master of Puppets para todos baterem cabeça. Em Tulsa, no estado de Oklahoma, no dia 23 de maio, a banda tocou as seguintes músicas:

Battery
Master of Puppets
For Whom the Bell Tolls
Ride the Lightning
Welcome Home (Sanitarium)
The Four Horsemen
The Thing That Should Not Be
(Anesthesia) – Pulling Teeth
Damage, Inc.
Fade to Black
Seek & Destroy
Creeping Death
Disposable Heroes
Am I Evil?
Whiplash

De “Battery” a “Damage, Inc.”, passando pela faixa-título e “Disposable Heroes”, o Metallica aumentou a agressividade. “The Thing That Should Not Be” e “Welcome Home (Sanitarium)” traziam a falsa calmaria. Era o Metallica apostando pesado no novo álbum — seis das oito faixas estavam presentes no set. Era a consolidação definitiva do disco nos palcos.


É uma pena que o mundo não teve a honra de ver Cliff tocando “Orion” — a faixa foi justamente a última música do disco a ganhar vida nas apresentações do grupo, sendo tocada pela primeira vez em 2005. No dia 10 de setembro, tocaram em Cardiff, no País de Gales, e iniciaram a divulgação do álbum no velho continente (antes haviam tocado em dois festivais: Finlândia e Dinamarca, em julho). Foram duas semanas incríveis, em que o “quinteto” — John Marshall assumiu a guitarra base por conta de James estar com o braço engessado — passou por Escócia, Inglaterra, Irlanda, Irlanda do Norte, Suécia e Noruega e, no dia 26, novamente pela Suécia, em Estocolmo.

Na madrugada do dia 27, na região rural próxima a Dörarp/Ljungby, o jogo mudou. A morte prematura e trágica de Burton levou para sempre parte da alma da banda. Não apenas musicalmente — embora isso seja inegável —, mas na camaradagem, na liderança silenciosa, no respeito a um irmão mais velho. Lars e James sempre deixaram claro o quanto valorizavam os conselhos de Cliff.


Poucos meses depois, o Metallica continuou: Jason Newsted assumiu o posto de baixista, e a turnê do disco prosseguiu.

No decorrer dos anos, mesmo com sucessos comerciais, o Metallica jamais esqueceu seu principal trabalho. Em 2006, o grupo decidiu celebrar os 20 anos de Master of Puppets de forma especial: tocando o álbum na íntegra durante a turnê Escape from the Studio ’06. Ao todo, a banda apresentou o disco completo 12 vezes. A primeira execução aconteceu em 3 de junho de 2006, no Rock am Ring, em Nürburgring, na Alemanha, e a última no Bilbao BBK Live, em Bilbao, na Espanha, no dia 29 de junho de 2007.

Abaixo segue a quantidade de vezes em que cada música do álbum foi tocada até a publicação desta matéria:

Battery – 981 vezes
Primeira vez: 27 de março de 1986
Última vez: 5 de julho de 2025

Master of Puppets – 1747 vezes
Primeira vez: 31 de dezembro de 1985
Última vez: 6 de dezembro de 2025

The Thing That Should Not Be – 267 vezes
Primeira vez: 23 de maio de 1986
Última vez: 13 de junho de 2019

Welcome Home (Sanitarium) – 1005 vezes
Primeira vez: 27 de março de 1986
Última vez: 29 de junho de 2025

Disposable Heroes – 159 vezes
Primeira vez: 14 de setembro de 1985
Última vez: 14 de dezembro de 2020

Leper Messiah – 135 vezes
Primeira vez: 20 de agosto de 1987
Última vez: 5 de novembro de 2025

Orion – 112 vezes
Primeira vez: 13 de novembro de 2005
Última vez: 27 de junho de 2025

Damage, Inc. – 303 vezes
Primeira vez: 27 de março de 1986
Última vez: 8 de julho de 2022

Master of Puppets se tornou mais do que um clássico. Tornou-se o último retrato de uma formação que estava no auge criativo.

Neste dia 3 de março, nestes 40 anos, OUÇA O ÁLBUM ALTO.

Ouça por você e por Cliff Burton.

Pancakes, Go!