segunda-feira, 30 de março de 2026

SOULFLY - ARCHANGEL (2015/2025) - RELANÇAMENTO

 


SOULFLY
ARCHANGEL
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

A capacidade criativa de Max Cavalera parece não ter limites. Ainda que muitos digam que ele vive do passado, basicamente por ter regravado junto à Iggor Cavalera os três primeiros trabalhos do Sepultura, estes mesmos esquecem que o SOULFLY lança álbuns regularmente (sem falar no Cavalera Conspiracy, Killer be Killed, Go Ahead and Die, entre outros) e que nas turnês da banda é quase nula a execução de músicas do Sepultura. Ou seja, Max não vive do passado. Pelo contrário, cada lançamento do Soulfly nos mostra um músico incansável, explorando novos horizontes mas mantendo a chama do metal sempre acesa. E ARCHANGEL, décimo álbum de estúdio do grupo, é aprova cabal disso. Relançado por aqui pela parceria Shinigami Records/Nuclear Blast, o trabalho trás um pé maior no death metal, deixando um pouco de lado aquele groove mais característico que sempre permeeou a carreira da banda.

Com as guitarras e vocais únicos de Max, o grupo è época do lançamento de "Archangel" era formado por Marc Rizzo (guitarras - e que, apesar da regularidade dos mais recentes trabalhos, tá fazendo falta), Tony Campos (baixo) e Zyon Cavalera (bateria). O álbum também traz as participações de Richie Cavalera (Incite), Todd Jones (Nails) Matt Young (King Parrot) e Igor Cavalera Jr (Goa Ahead and Die). Uma das coisas que mais chama a atenção é a capa: uma representação de São Miguel Arcanjo feita pelo artista Eliran Kantor. Ela dita o tom do álbum. Esqueça os temas voltados à política ou problemas urbanos de antigamente: "Archangel" é um mergulho em temas teológicos, batalhas celestiais e civilizações antigas. A produção de Matt Hyde  (que já trabalhou com Slayer e Behemoth) foi essencial para dar ao Soulfly um som mais ousado e poderoso. A parede de som é opressiva, mas permite que cada detalhe — das percussões tribais  aos solos virtuosos de Rizzo — seja ouvido. Já Max soa mais furioso do que em muitos discos dos anos 2000. Seus vocais estão mais próximos do gutural puro, abandonando quase completamente as linhas de voz mais limpas, que diga-se de passagem, deixam a desejar.

Por se tratar de um relançamento, vamos aos principais destaques, mas salientando que o álbum é bem acima da média e mantém uma regularidade mais que positiva. A faixa de abertura, " We Sould Ours Souls to Metal", é aquele chute na porta que escancara a aula de violência e agressividade que nos é apresentada. Refrão que gruda, riffs insanos, baixo e bateria pesados e vocais absurdos são os ingredientes dessa mistura explosiva. Já a faixa-título abre com um riff épico e cadenciado que logo explode em uma agressividade típica do Death Metal. O refrão é um mantra ("Archangel! Archangel!") que funciona perfeitamente ao vivo. É uma das músicas mais curtas do Soulfly, o que mostra a intenção do álbum: ser direto e brutal (o álbum no total não passa dos 36 minutos de duração). Com a participação de Todd Jones (Nails), "Sodomites" é um "trator". O ritmo é mais lento, focado no peso absurdo das guitarras afinadas em tons baixíssimos. A letra reconta a destruição de Sodoma e Gomorra sob uma ótica de julgamento divino implacável (o que diria Max Possessed sobre isso em 1985?). Em "Ishtar Rising", Max explora as raízes babilônicas. A faixa tem um "balanço" que remete ao antigo Soulfly, mas com uma produção muito mais densa. A bateria de Zyon Cavalera (filho de Max) brilha intensamente, mostrando que o DNA da família continua se expandindo. Ainda podemos citar "Bethlehem’s Blood" e "Shamash". Enquanto a primeira utiliza metais (trompetes) para criar um clima de "marcha para a guerra", a segunda foca na mitologia mesopotâmica com um dos solos mais inspirados de Marc Rizzo.

ARCHANGEL é um álbum curto, o que é seu maior trunfo. Ele não cansa o ouvinte: ele o atropela. É uma obra que mostra uma banda veterana que não tem medo de abraçar a obscuridade e a complexidade técnica para se manter relevante. "Archangel" é o SOULFLY em sua forma mais mística e feroz, provando que Max Cavalera ainda tem muita lenha para queimar.

Sergiomar Menezes




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