Por William Ribas
Se existisse uma categoria dentro da cena brasileira para eleger a “banda do mês”, certamente abril seria do Angra.
Com a aproximação da apresentação especial do grupo no Bangers Open Air, no último domingo, dia 26, tivemos uma enxurrada de publicações nas redes (sim, esta é mais uma). O reencontro com Edu Falaschi e Aquiles Priester, a despedida do “mago” Fabio Lione e a chegada de um velho amigo da banda, Alírio Netto.
Confesso que, num primeiro momento, não me empolguei tanto. Mas, aos poucos, aquele adolescente que foi a um dos shows da turnê do Rebirth foi renascendo (desculpe, não resisti). Resolvi maratonar a discografia — e, por sorte, tenho todos os CDs — e passei a olhar tudo isso com outros olhos.
Por outro lado, caiu a ficha de quantas vezes o Angra simplesmente “jogou fora” momentos cruciais de seus 35 anos de história. O impacto inicial foi gigantesco — Angels Cry e Holy Land não são apenas marcos nacionais, mas obras fundamentais do metal mundial — e, pasmem, não temos registros ao vivo oficiais à altura dessa fase.
"Bonsoir Parri!!! Yeaaahhhhh!!!! Infelizmente, “Holy Live” é agridoce.
Fireworks, mesmo com todos os problemas internos, também não rendeu um documento histórico. Rafael Bittencourt e companhia deixaram escapar a chance de registrar ao vivo a formação clássica — a “fase MK I” do Angra.
Em 2001, uma nova era começou e trouxe o primeiro álbum ao vivo. Ainda assim, quando a banda atingiu um de seus ápices criativos e de reconhecimento com o aclamado Temple of Shadows, mais uma vez vieram os problemas, falhas nas gravações… e outra oportunidade se perdeu.
E é justamente por isso que o momento atual não pode ser tratado como “apenas mais um show”.
Se o Angra for esperto — aliás, se Rafael Bittencourt e o Baron, nos bastidores, forem inteligentes — agora é a hora de fazer diferente. E, de quebra, fazer dinheiro. Não sejamos inocentes, certo?
O hype está pronto. O terreno está fértil. Falta execução.
Primeiro: por que não retomar o conceito do Angra Fest? Mas não como antes — e sim algo mais coeso, mais temático, quase um “Angraverso” ao vivo. Um evento que reuna Angra, Edu Falaschi em carreira solo, Hangar e até um Shamangra — ou, no mínimo, Angra + Edu + Shamangra + Viper. É conteúdo histórico vivo. É narrativa. É celebração organizada.
Segundo: o show do Bangers deveria ter sido gravado. O show de ontem no Espaço Unimed (29 de abril) também — o “rec” deveria ter sido apertado. Não sei se silenciosamente houve algo, torço para tal — simples assim. Foram cerca de 2h30 — material perfeito para um lançamento triplo, bonito, caprichado, algo que realmente faça o fã sentir que está levando para casa um pedaço dessa noite. A estrutura já tinha. A mesa de som estava lá. Não estamos falando de reinventar a roda — estamos falando de não repetir erros básicos.
Noites especiais merecem ser imortalizadas.
Terceiro: Rafael recentemente compartilhou fotos raras do acervo da banda. Isso, por si só, já é meio caminho andado para um livro histórico — um material que percorra todas as fases e culmine nessa celebração atual. Existe demanda. Existe público. Falta transformar isso em produto. E aqui entra um ponto delicado, mas necessário: talvez esteja na hora de aprender com quem está fazendo isso muito bem. Edu Falaschi entendeu o valor do material físico de luxo. Já está no terceiro álbum solo e, nos três, entregou boxes especiais. No ao vivo, mais uma edição diferenciada. O próprio Shaman, na celebração do Ritual Live, também soube trabalhar esse formato — e funcionou.
Incrivelmente, o Angra — com toda sua história — praticamente não tem nada nesse nível.
Por que não lançar um box especial da Rebirth World Tour (25 anos)? Ou algo grandioso para os 30 anos de Holy Land? São discos emblemáticos, com peso histórico real. Não é nostalgia vazia — é patrimônio cultural do metal brasileiro.
O Angra carrega um histórico perigoso: perdeu registros da era Andre Matos. Perdeu o auge de "Temple of Shadows". Perdeu momentos que hoje seriam ouro puro.
Vai perder de novo?
Porque, no fim das contas, às vezes um único “jogo” é suficiente para derrubar o treinador.
E, infelizmente, o histórico do Angra joga mais contra do que a favor.
Hoje, o Angra tem três álbuns ao vivo completos na carreira — e apenas um realmente capturando um de seus momentos mais importantes.
Daqui a poucos meses, o Sepultura estará, simbolicamente, fechando a tampa do seu próprio caixão. E, com isso, aquela velha máxima de que as duas maiores bandas do Brasil são Angra e Sepultura deixará de existir como sempre conhecemos.
O cenário muda. O protagonismo muda.
E, inevitavelmente, o lugar de maior destaque passa a ser do Angra — ou, pelo menos, deveria ser.
Curiosamente, existe uma faixa no clássico "Beneath the Remains", do Sepultura, cujo título soa quase como um sussurro provocativo nesse contexto: “A Hora e a Vez do Cabelo Crescer”. Mas, não sei por quê, na minha cabeça isso vem se transformando insistentemente, quase como um mantra: “A hora e a vez do Angra crescer.”
Porque, no fim, é exatamente disso que se trata.
O momento chegou pela “décima vez”.
A dúvida é se eles vão reconhecê-lo — ou deixá-lo escapar, como tantas outras.



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