segunda-feira, 14 de setembro de 2026

SEPULTURA: O ADEUS QUE PERDEU O TAMANHO DA HISTÓRIA


Entre expectativas, planejamento, convidados que não vieram e uma turnê que se estendeu por quase três anos, a despedida acabou chegando sem o impacto que poderia ter.

Por William Ribas


Antes de qualquer coisa, deixo bem claro: não tenho lado. Obviamente, minha fase favorita é a mesma de 95% dos fãs de Sepultura, mas gosto bastante da fase Derrick Green. Sim, daquela fase que já dura 28 anos. Adoro Dante XXI, A-Lex, Kairos, Machine Messiah e Quadra. Também sou daqueles que gostariam de ver um show dedicado exclusivamente à era Green — inclusive, cansei de escrever nas redes sociais da banda pedindo uma apresentação assim antes do último show.

Estava preparado para estar “No Seu, No Meu, No Nosso, PACAEMBU” no dia 7 de novembro — e que saudade de ouvir isso nos dias de jogos —, mas infelizmente o local “caiu”. O show acabou transferido para um espaço com capacidade para 9 mil pessoas. Basicamente, um lugar com 31 mil pessoas a menos. E isso escancarou ainda mais os erros envolvendo essa tal despedida e tudo o que cercou esses quase três últimos anos.

Bem, nunca acreditei em uma possível participação dos Cavalera. Bastava olhar as entrevistas de ambos os lados: ninguém aliviava. “Os impostores”, “No Cavalera, No Sepultura”. Do outro lado: “Ele está preguiçoso”, “ele nem toca guitarra”. Existe tanta coisa envolvida, tantas versões e, provavelmente, uma verdade no meio de uma história de mais de 30 anos que nós nunca saberemos por completo.

Então, não dava para criar essa ilusão e muito menos usar a ausência dos Cavalera como justificativa para a mudança de local. Claro, uma participação de Max e Iggor teria capacidade de provocar uma nova mudança — mas, nesse caso, provavelmente para um estádio ainda maior.

Enfim, vamos aos outros fatos que, para mim, são mais determinantes.

Precisamos olhar para a história do metal brasileiro antes de qualquer coisa. Quando uma banda brasileira encheu um estádio? E sendo headliner? Pois é: nunca.

O próprio Sepultura, mesmo nos tempos de ouro, não conseguiu isso. Claro, você pode lembrar do show na Praça Charles Miller, mas estamos falando de uma apresentação gratuita, praticamente ao lado do Estádio do Pacaembu. No primeiro show oficial com Derrick Green, houve uma apresentação paga no estacionamento do Anhembi, com cerca de 30 mil pessoas, segundo os dados da época. Ainda assim, menos do que a capacidade prevista para o possível show no Pacaembu.

Pegando essa estreia como referência e trazendo para os dias atuais, o que diferencia uma situação da outra?

As participações especiais.

E aí entra um dos pontos centrais do declínio do estádio.

Em 1998, o Sepultura trouxe Jason Newsted, então baixista do Metallica; Mike Patton, do Faith No More; índios Xavantes; Jairo Guedz, primeiro guitarrista da banda; Zé do Caixão e Carlinhos Brown. Fora Pavilhão 9 e outras bandas de abertura.

E existe um detalhe histórico interessante. Em 2004, o Sepultura realizou o Sepulfest, no então Espaço das Américas — hoje Espaço Unimed —, em comemoração aos 20 anos da banda. Na época, Iggor Cavalera ainda fazia parte da formação e o grupo também estava divulgando Roorback, lançado no ano anterior. O evento contou com Claustrofobia, Ratos de Porão e Nação Zumbi e reuniu cerca de 7 mil pessoas.

Não estou dizendo que seja uma comparação perfeita — eram outros tempos, outro contexto e um formato diferente de evento —, mas o número é importante. Vinte anos atrás, ainda havia um Cavalera na formação, um disco relativamente novo para divulgar e uma celebração de duas décadas de história, e mesmo assim o evento ficou na casa dos 7 mil espectadores.

Isso ajuda a colocar as coisas em perspectiva. A capacidade de atração do Sepultura nunca foi tão linear quanto pode parecer quando olhamos apenas para os grandes momentos da carreira.

E isso nos leva novamente ao Pacaembu.

Vinte e oito anos depois, quem a banda está trazendo?

Até o momento, nenhum nome de peso para participar dessa celebração.

Com todo respeito às bandas de abertura, mas nenhuma delas consegue, sozinha, atrair um público extra significativo para o Sepultura. Krisiun e Sacred Reich são nomes respeitados dentro do underground. O Metal Allegiance possui músicos de peso em sua formação, mas ainda assim ocupa uma prateleira intermediária dentro do heavy metal.

Andreas Kisser e os empresários poderiam — e, na minha opinião, deveriam — ter arriscado mais.

O comparativo (Sim, mais um) chega a beirar o absurdo, mas faço apenas para o caro leitor entender o raciocínio. Ozzy, em sua despedida, chamou uma verdadeira constelação. Os ingressos foram disputados a tapa e esgotaram em menos de 30 minutos.

Será que, se tivéssemos nomes como Anthrax, Exodus, Death Angel, Pantera, novamente Jason Newsted e outros nomes importantes, os ingressos também não teriam vendido mais?

Muito mais de 9 mil, tenho certeza que sim.

Dentro disso, vale lembrar que o Sepultura tocou por três noites seguidas no Espaço Unimed, todas com ingressos esgotados. Se pararmos para pensar, a banda chegou aproximadamente perto da carga de ingressos prevista para o Pacaembu.

E aí chegamos a outro ponto: será que a enorme demora para anunciar a data oficial e uma turnê de dois anos de celebração da vida através da morte não tiveram justamente o efeito reverso?

A banda saiu tocando em todos os lugares. Capitais, interior, festivais, festas de aniversário... em tudo quanto é canto. Quem tinha que ver, já viu. E a data oficial da última dança, nada de sair.

Ela só veio em maio.

Enquanto Andreas e companhia faziam uma enorme turnê, o Brasil recebia festivais como Bangers Open Air, Monsters of Rock e Rock in Rio, para citar apenas alguns. Shows de AC/DC e Korn. Teremos Iron Maiden, Slayer, Testament, Rush, entre outros.

E tudo isso mexe diretamente com o público que poderia estar indo ao show do Sepultura. Afinal, a gente compra ingresso, parcela, escolhe prioridades. E quando aparecem bandas que dificilmente voltam ao país, elas naturalmente passam na frente.

Alguém gritou: S-L-A-Y-E-R?

No fim das contas, o evento flopou — palavra que aprendi nesta última semana — por diversos fatores. Não existe um único culpado ou uma única explicação.

Mas quase todos eles passam pelo mesmo erro de avaliação: acreditar que somente o nome Sepultura teria força suficiente para, sozinho, encher um estádio de futebol no Brasil.

Não teria.

Ainda mais depois de dois anos sendo arroz de festa de Norte a Sul do país.

A despedida poderia ter sido maior. Poderia ter sido mais especial. Poderia ter criado um acontecimento que justificasse o tamanho do palco que a banda escolheu para a última dança.

Mas, para isso, não bastava apenas anunciar que era o fim.


 

Um comentário:

  1. Reinaldo Fernandes da Silva14 de setembro de 2026 às 09:45

    Willian Ribas falou o que muitos diriam e assinam em baixo, poderia muito mais...

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