terça-feira, 11 de agosto de 2026

NAZARETH - LATIN AMERICA HITS TOUR - 26/07/2026 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 


NAZARETH
Abertura: PHORNAX
LATIN AMERICA HITS TOUR
26/07/2026
BAR OPINIÃO
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Opinião Produtora/Top Link Music

Texto e fotos: José Henrique Godoy

Nazareth não é banda que só se escuta em fuscas”... Eu li esta frase, ao mesmo tempo pitoresca, confusa e meio sem sentido, naquele site que era o maior portal de noticias sobre Rock e Metal, há uns vinte anos... Lembro que na ocasião eu ri bastante ao ler a tal sentença, mas depois refleti sobre ela: Era um fã tresloucado defendendo a seminal banda escocesa da “acusação” de serem “bregas” pela quantidade de baladas constantes nas sua discografia, ou algo que o valha... Nada contra fuscas, pois ainda quero ter um, mas depois de pensar a frase fazia sentido, e era justa. O Nazareth é, foi e sempre será uma puta banda de HARD ROCK/ROCK N' ROLL!!!

Resolvi fazer essa introdução, pois toda a vez que penso no Nazareth, essa frase me vem a cabeça. Mas vamos ao que interessa, e relatar sobre esta nova visita dos escoceses ao Brasil, banda que tem muito carinho por eles, e vice-versa, tendo em vista a quantidade de tours que eles fizeram por aqui ao longo das décadas. Desta vez, com um novo vocalista: o suiço Gianni Pontillo. E aqui era o foco principal da atenção de todos os fãs: seria capaz o “cara novo” substituir minimamente o insubstituível Dan McCafferty?

A abertura da noite ficou com a banda gaúcha Phornax, que entrou no palco as 19h55 e entregou um show vigoroso e forte, com seu Power/Heavy Metal que vem se destacando no cenário nacional. O Phornax foi responsável por todos os shows de abertura da Tour do Nazareth no Brasil. Após 40 minutos, a banda se despede e agradece a ótima recepção do excelente público que tomava quase a totalidade dos espaços do Opinião.


Às 21h10, as luzes se apagam, e a intro com sons de gaitas de fole tradicionais da Escócia são ouvidas. Aos poucos os integrantes adentram o palco com a clássica faixa de abertura dos shows do Nazareth, na maioria das suas tours de 1976 para cá: “Telegram” inicia o espetáculo. Do lado esquerdo do palco, Pete Agnew, o baixista e único membro original, com seu baixo poderoso, óculos escuros e um sorriso que permaneceu no seu rosto do primeiro ao último acorde. Ao lado direito, Jimmy Murrison, o guitarrista do Nazareth desde 1994, e a sua postura “rocker-até-o-talo” . Ao fundo Lee Agnew, o baterista e filho de Pete, firme, pesado e seguro, dando a cadência do Nazareth. E lembram do cara novo, o tal Gianni? Pois bem, se havia dúvidas se ele era capaz de liderar a voz do Nazareth, após alguns minutos a dúvida se transformou em certeza absoluta.

O grande Dan McCafferty deixou o Nazareth em 2013, por motivos de saúde e ele foi substituído por Carl Sentance, até 2025. Carl era um bom vocalista, gravou discos e fez várias tours, porém sempre quis deixar a sua marca própria na banda. Já Gianni parece não querer nada além de manter o legado de Dan intacto e trazer o velho espírito do Nazareth de volta. E conseguiu!




O som estava perfeito, se ouvia perfeitamente todos os instrumentos, todos os clássicos foram executados com suprema perfeição: “Miss Misery”, “Razamanaz”, “Dream On”, “Holyday”, ”Changin Times”, do mais que clássico “Hair Of The Dog” (este álbum teve cinco faixas executadas, no total de dezessete, é verdadeiramente a Obra-Prima do Naz) teve uma versão extendida, onde Jimmy exibiu toda a sua técnica e habilidade com a guitarra. Sim, “Hair Of The Dog” e “Love Hurts” foram executadas e cantadas a plenos pulmões por todo Opinião, comandado por Gianni, que além de excelente vocalista, é um ótimo frontman. Inacreditável pensar que ele está na banda há apenas cinco meses.

Após noventa minutos, o Nazareth encerra seu excelente show com “Go Down Fighting”, do também clássico álbum de 1973, "Loud n' Proud". Uma sensação incrível ver o sorriso e as caras felizes de todos saindo do Opinião, fossem eles senhores na casa dos setenta anos, ou a garotada nova que vai atrás pesquisar sobre os grandes do Rock e ainda tem a sorte de poder ver alguns deles na ativa, como o Nazareth. Lembram da frase que abri esse texto? Ela é correta, mas eu me permito ajustá-la: “Nazareth não é banda só para se ouvir em fuscas. É pra se ouvir em qualquer lugar, pois sua obra é eterna!” Longa vida ao Nazareth, e que retornem ano que vem, como prometeram!





segunda-feira, 10 de agosto de 2026

RATT - DANCING UNDERCOVER 40 ANOS


 

OS 40 ANOS DE "DANCING UNDERCOVER", O CLÁSSICO SUBESTIMADO DO RATT


Lançado em agosto de 1986, Dancing Undercover, o terceiro álbum de estúdio do Ratt, chegou às prateleiras em um momento em que o glam metal e o hard rock viviam sua era de ouro. Naquele ano, nomes como Bon Jovi (Slippery When Wet), Europe (The Final Countdown) e Poison (Look What the Cat Dragged In) disputavam o topo das paradas e a veiculação direta de seus clipes na MTV.

Seguir o sucesso colossal de "Out of the Cellar" (1984) e "Invasion of Your Privacy" (1985) — ambos venderam milhões e foram alguns dos pilares estéticos do movimento de Los Angeles, e se pararmos pra pensar, lançados de forma regular — não era uma tarefa simples. O Ratt estava no olho do furacão, sob pressão extrema da gravadora Atlantic Records e de seu management para repetir a dose de hits instantâneos como "Round and Round" e "You Think You're Tough".

Quatro décadas após sua chegada, Dancing Undercover ressurge não apenas como um retrato fiel da Sunset Strip nos anos 80, mas como um trabalho fascinante de transição: um disco que trocou parte do apelo comercial óbvio por uma abordagem mais rítmica, crua e melancólica, consolidando-se como um dos tesouros mais injustiçados da discografia da banda.


Para a gravação do álbum, que ocorreu nos lendários estúdios Village Recorders, em Los Angeles, o Ratt manteve a fórmula vencedora ao lado do produtor Beau Hill. No entanto, os bastidores escondiam turbulências.

Conforme relatado posteriormente pelo baterista Bobby Blotzer, a banda foi jogada no estúdio sob forte pressão contratual e de agenda antes mesmo de o material estar totalmente lapidado. Havia depósitos financeiros não reembolsáveis em estúdios caríssimos, o que obrigou o quinteto — formado por Stephen Pearcy (vocais), Robbin Crosby (guitarra), Warren DeMartini (guitarra), Juan Croucier (baixo) e Bobby Blotzer (bateria) — a compor e arranjar sob o cronômetro.

Ironicamente, essa urgência e tensão criativa forçaram o grupo a explorar novos caminhos. Enquanto os dois primeiros álbuns focavam em refrãos explosivos e riffs diretos, "Dancing Undercover" revelou um foco maior na melodia e "seriedade". A cozinha formada por Blotzer e Croucier ganhou um destaque impressionante, injetando um balanço quase "dançante" (daí o irônico título do álbum) à base pesada de guitarras.

O álbum abre com "Dance", escolhida como o primeiro single e cartão de visitas da era. Com um riff marcante de DeMartini e Crosby e um videoclipe de forte presença na MTV (que garantiu aparições até na cultuada série Miami Vice), a faixa estabelece o tom rítmico do disco. Ela não tem a audácia imediata de "Round and Round", mas compensa com um refrão astuto e uma batida contagiante.

Em seguida, "One Good Lover" e "Drive Me Crazy" mantêm a energia alta. A primeira destaca a assinatura vocal rouca e arrastada de Stephen Pearcy, enquanto a segunda acelera o tempo, mostrando a habilidade de Blotzer na bateria e solos cortantes que lembram o melhor do heavy metal tradicional fundido à atitude de rua de Hollywood. Nunca é demais lembrar que uma das principais influências do quinteto era o Judas Priest...

Um dos pontos altos do disco é "Slip of the Lip", uma faixa cheia de malícia que exibe a perfeita simbiose entre as guitarras gêmeas de DeMartini e Crosby — uma dinâmica que rivalizava diretamente com a de duplas lendárias do rock. Logo depois vem "Body Talk", uma das músicas mais pesadas e viscerais gravadas pelo Ratt, escolhida para a trilha sonora do filme "The Golden Child", no Brasil, " O Rapto do Menino Dourado", (1986), estrelado por Eddie Murphy.

Já a segunda metade do álbum mergulha em cortes profundos que os fãs mais dedicados consideram o verdadeiro coração do disco: "Looking for Love" e "7th Avenue" trazem uma atmosfera urbana e noturna, onde a técnica refinada de Warren DeMartini nos solos ganha espaço de destaque sem perder a pegada pop. "It Doesn't Matter" e "Take a Chance" mantêm a consistência da parceria de composições entre Croucier, Pearcy e DeMartini. O encerramento fica por conta de "Enough Is Enough", fechando o alinhamento de 34 minutos de duração com uma descarga direta de hard rock.


Uma curiosidade interessante sobre "Dancing Undercover" é a ausência intencional de uma power ballad tradicional. Na metade dos anos 80, o mercado era fortemente impulsionado por baladas que tocavam nas rádios FM e atraíam o público geral (como "Home Sweet Home" do Mötley Crüe ou "Alone" do Heart). O Ratt havia flutuado com baladas melancólicas antes, mas optou por manter "Dancing Undercover" inteiramente calcado em faixas de andamento médio e rápido, com foco na eletricidade do "rock street".

Essa decisão artística, somada a um leve cansaço do público com o excesso de bandas similares no mercado em 1986, fez com que o álbum não alcançasse os mesmos patamares estratosféricos de vendas imediatas de seus antecessores. Embora tenha estreado bem, alcançado o Top 30 da Billboard 200 e garantido mais um disco de Platina pela RIAA, representou o primeiro sinal de estabilização comercial para o grupo.

Outro ponto curioso e interessante de "Dancing Undercover" é sua capa. Na foto, os integrantes estão separados por linhas brancas. A vida inteira eu sempre vi isso como realmente linhas. No entanto, meu amigo Tarcísio Chagas me atentou para o simples fato de que as tais linhas, seriam carreiras de cocaína, numa clara alusão ao que acontecia internamente com o grupo.

Com o passar das décadas, a percepção sobre Dancing Undercover mudou drasticamente entre críticos e entusiastas do gênero. Se na época alguns torceram o nariz por achá-lo linear, hoje ele é frequentemente reavaliado como o álbum mais coeso e tecnicamente afiado do Ratt.

Envolvidos por uma produção cristalina típica da época, os arranjos de guitarra de Robbin Crosby e Warren DeMartini soam impecáveis, servindo de referência e influência para guitarristas de hard rock. Além disso, a sonoridade do álbum evitou cair na pieguice que arruinou comercialmente muitas bandas do gênero no final daquela década.

Completar 40 anos é celebrar a resiliência de um momento em que o Ratt, mesmo sob intensa pressão da indústria, recusou-se a soar genérico e entregou um disco intenso, cheio de atitude e eletricidade. Dancing Undercover permanece eternizado como um monumento à era de ouro de Los Angeles — um clássico atemporal que continua a convidar o ouvinte para a atmosfera, por vezes, sombria e magnética do hard  oitentista.

Sergiomar Menezes