sábado, 19 de setembro de 2026

MEGADETH - PEACE SELLS... BUT WHO'S BUYING? - 40 ANOS


 ALÉM DO CAOS E DA PRECISÃO - O LEGADO IMORTAL DE PEACE SELLS

Quarenta anos depois, Peace Sells... But Who's Buying? continua sendo uma viagem no tempo entre o vinil, a fita K7 e a fúria incontrolável de Dave Mustaine

Por William Ribas

É curioso ouvir esse álbum novamente por esses dias e perceber como ele me fez voltar no tempo. Peace Sells... But Who's Buying? foi justamente o primeiro disco do Megadeth que ouvi inteiro. E existe uma lembrança muito específica: eu ouvi em vinil.

Lembro da sensação do meu primo pegando o disco para tocar, ouvir aquele pequeno ruído antes de tudo começar e, segundos depois, ser atropelado pela explosão de riffs de “Wake Up Dead”. Hoje, ouvindo novamente, é impossível não voltar para aquele momento.

E tem mais uma história. Peace Sells... But Who's Buying? foi também o álbum que gravei em fita K7 para poder ficar ouvindo depois. A fita acabou sendo a maneira de levar aquele Megadeth comigo para casa.

Talvez por isso esse álbum tenha um peso diferente para mim. Existem discos que você respeita. Outros, você simplesmente gosta. E existem aqueles que, mesmo depois de quatro décadas, ainda parecem estar te desafiando. Peace Sells... But Who's Buying?, segundo álbum do Megadeth, é desses.

Quarenta anos depois, é cada vez mais visível que Mustaine entregou algo que o colocou em um patamar técnico absolutamente singular — um trabalho irregular, é verdade, mas lapidado por uma fúria e uma virtuosidade quase inacreditáveis. O álbum é a representação perfeita de uma banda em fase de transição e metamorfose. Há uma tensão constante entre o caos e a precisão cirúrgica em cada nota hipnótica do tracklist.

É curioso como a história do Megadeth costuma ser lembrada por discos como Rust in Peace, Countdown to Extinction e Youthanasia. É perfeitamente compreensível, mas essa visão acaba deixando um pouco na sombra um álbum que já mostrava uma banda com identidade própria, muito antes da formação Mustaine/Friedman/Ellefson/Menza se tornar aquela espécie de escalação definitiva dos fãs.

Peace Sells... But Who's Buying? não é um rascunho do que viria depois. O Megadeth trouxe para o estúdio uma veia quase progressiva e influências improváveis, que iam do jazz ao punk, tudo que mostra quão singular ele é dentro da discografia da banda.

“Wake Up Dead” deixa isso claro imediatamente. Riffs entrando e saindo, mudanças de andamento, as guitarras de Dave Mustaine e Chris Poland se alternando em solos e aquela bateria quase inquieta de Gar Samuelson. Tudo parece prestes a sair do controle, mas nunca sai. E a voz de Mustaine, longe de ser convencional, combina perfeitamente com essa atmosfera.

“The Conjuring” leva essa fórmula ainda mais longe. O baixo de David Ellefson tem presença e personalidade, enquanto as guitarras conseguem ser técnicas sem transformar a música em uma demonstração de habilidade. Esse é um dos grandes méritos do álbum — as músicas vêm antes da técnica.


E então aparece “Peace Sells” — a faixa-título é o maior exemplo dessa ousadia: construir um hino do metal pesado a partir de uma linha de baixo swingada, com balanço único, e uma letra que mistura política, sociedade e ironia foi um risco que pouquíssimos grupos teriam a capacidade de correr, quanto mais de transformar em clássico.

“Devil's Island” é aquele tipo de música que resume muito do que gosto no thrash: velocidade, peso, mudanças e riffs que parecem simples até você tentar entender o que está acontecendo. “Good Mourning/Black Friday” segue outro caminho, começando de maneira quase hipnótica antes de explodir em uma das passagens mais violentas do disco.

E ainda existe “My Last Words”, uma maneira brilhante de encerrar o álbum. A tensão da letra sobre roleta-russa cresce junto com a música. Verdadeiras tempestades de riffs e solos acrobáticos, onde o trabalho de Chris Poland e Mustaine injeta uma dose de adrenalina absurda, sendo um dos momentos mais memoráveis daquele primeiro Megadeth.

Gar Samuelson merece uma menção especial. Sua escola no jazz fusion aparece claramente na maneira como toca, acrescentando uma liberdade que ajudou a diferenciar o Megadeth de tantas outras bandas da cena.

Talvez seja isso que faça Peace Sells... But Who's Buying? continuar tão especial. É o retrato sem filtro de um talento bruto descobrindo o tamanho da própria força — o registro imperfeito de um gênio ferido que, mesmo tropeçando nos seus fantasmas e vícios, conseguiu erguer um dos pilares do thrash metal.



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

OZZY OSBOURNE - NO MORE TEARS 35 ANOS

 



SEM LÁGRIMAS MAS COM MUITO SUCESSO - OS 35 ANOS DE NO MORE TEARS

Três décadas e meia após seu lançamento, o álbum que redefiniu o heavy metal dos anos 90 continua sendo um dos maiores clássicos do Príncipe das Trevas

Por Sergiomar Menezes

Lançado em 17 de setembro de 1991, NO MORE TEARS chegou às lojas em um momento de transição  na música mundial. O cenário do rock e do metal estava prestes a ser virado pelo avesso pelo movimento grunge, e figuras veteranas dos anos 1980 precisavam provar seu valor diante de uma nova era. É exatamente nesse contexto que o sexto álbum solo de OZZY OSBOURNE se ergue não apenas como um sobrevivente daquela década, mas como um dos pontos mais altos, refinados e comercialmente triunfantes de toda a sua carreira.

Gravado nos estúdios A&M e Devonshire, em Los Angeles, o álbum consolidou a transição de Ozzy para uma sonoridade mais polida, estruturada e de arena, sem perder a essência sombria que o acompanhava desde os tempos de Black Sabbath. De forma sucinta, mostrou um Ozzy que podia adentrar os anos 90 de forma comercial sem perder sua essência.

O grande trunfo criativo de "No More Tears" esteve na química avassaladora entre Ozzy e o jovem guitarrista Zakk Wylde. Se nas duplas do passado Ozzy contava com a genialidade de Randy Rhoads ou a agressividade de Jake E. Lee, com Wylde ele encontrou uma pegada visceral, repleta de harmônicos artificiais estridentes (algo que com o passar do tempo se tornou marca registrada de Zakk e que por vezes, chega a irritar), peso moderno e uma raiz profundamente sulista e estradeira. A cozinha, formada pelo baixista Bob Daisley (ainda que nos créditos tenhamos a presença de Mike Inez) e pelo baterista Randy Castillo, além dos teclados atmosféricos de John Sinclair, garantiu a cama perfeita para que as composições brilhassem.

O disco abre com a urgência de "Mr. Tinkertrain", uma introdução perturbadora sobre predadores infantis que mostrava que Ozzy continuava disposto a explorar temas sombrios e desconfortáveis. Logo em seguida, o ouvinte é atropelado por "I Don't Want to Change the World" (que renderia a Ozzy seu primeiro Grammy) e "Desire", faixas que exalam o melhor do hard rock americano do início dos anos 90: guitarras intensas, refrãos grudentos e uma produção impecável conduzida por John Purdel e Duane Baron, sendo a mixagem responsabilidade do veterano Michael Wagener.

Mas os grandes destaques (principalmente comerciais) foram a faixa-título "No More Tears", um épico de mais de sete minutos ancorado por uma das linhas de baixo mais icônicas do rock e um solo monumental de Zakk Wylde. A música cria uma atmosfera cinematográfica de tensão e desespero que se tornou obrigatória nos shows ao vivo, "Mama, I'm Coming Home", composta em parceria com Lemmy, que se transformou em um hino universal de saudade e retorno. A letra intimista, escrita por Lemmy, encaixou-se perfeitamente na voz de Ozzy, mostrando que, ainda, o "Príncipe das Trevas" dominava a arte de emocionar multidões. Por fim, "Road to Nowhere": uma reflexão melancólica e intimista sobre a jornada da vida e a inevitabilidade do destino, fechando o álbum com um senso de grandiosidade e aceitação madura.

"No More Tears" foi um sucesso absoluto de crítica e público. Alcançou o Top 10 da parada americana Billboard 200 e acumulou certificações multiplatina, pavimentando o caminho para a turnê lendária "No More Tours" — que inicialmente seria a turnê de despedida de Ozzy (uma promessa que, felizmente para os fãs, ele logo tratou de quebrar, algumas vezes, diga-se de passagem).

Completar 35 anos é olhar para trás e perceber que este trabalho não envelheceu. Ele capturou um OZZY maduro, cercado por músicos no topo de suas formas criativas, equilibrando perfeitamente o heavy metal com a sensibilidade melódica necessária para conquistar o rádio e os estádios. NO MORE TEARS permanece intocado: uma aula  de como se reinventar sem perder a alma.





GUNS N' ROSES - USE YOUR ILLUSION 35 ANOS


O VÔO DA FÊNIX E A QUEDA DE ÍCARO - OS 35 ANOS DE USE YOUR ILLUSION DO GUNS N' ROSES

Obra-prima megalomaníaca e laboratório de tensões internas, os álbuns duplos lançados em 1991 marcaram o ápice criativo e o início do fim da formação clássica da maior banda de rock do mundo

Por Sergiomar Menezes

Em 17 de setembro de 1991, o mundo do rock parou para respirar o mesmo oxigênio explosivo que moldaria a cultura pop daquela década. Há exatos 35 anos, o Guns N' Roses lançava simultaneamente os álbuns Use Your Illusion I e Use Your Illusion II. Mais do que simples continuações de um catálogo bem-sucedido, os discos representaram o ápice criativo, a megalomania artística e, ironicamente, o início do fim da formação clássica da banda mais perigosa do planeta.

Para entender a magnitude do lançamento, é preciso voltar os olhos para o cenário musical do final de 1991. Impulsionados pelo furacão de "Appetite for Destruction" (1987) e pelo pré-aquecimento acústico de "GN'R Lies" (1988), Axl Rose, Slash, Izzy Stradlin, Duff McKagan e Matt Sorum (que substituía Steven Adler na bateria) entraram nos estúdios não apenas para gravar músicas, mas para redefinir os limites do hard rock.

Aprofundar-se nos trinta e cinco anos de Use Your Illusion I & II exige ir além dos recordes de bilheteria e dos milhões de cópias vendidas. Significa dissecar o momento em que a maior gangue do rock mundial se transformou em um laboratório de experimentação sônica e, simultaneamente, em uma panela de pressão prestes a explodir.

Se "Appetite for Destruction" era a quintessência da rua, do suor e do perigo marginal de Los Angeles, os UYI eram a manifestação da mente ambiciosa de Axl Rose. O frontman queria pianos, arranjos de cordas, corais e complexidade estrutural — algo que começou a distanciar o núcleo criativo da banda.

Enquanto Slash e Duff ainda mantinham as raízes fincadas no rock de garagem, Axl empurrava o grupo em direção a um art-rock quase operístico. Essa fricção criativa, somada aos atrasos crônicos de Axl para subir aos palcos e aos crescentes problemas de bastidores, gerou uma tensão insustentável. Izzy Stradlin abandonou o barco no meio da turnê de divulgação, marcando o primeiro grande golpe mortal na formação clássica.

Resumindo, o som de Appetite for Destruction nasceu da fome e do asfalto de Hollywood. Use Your Illusion nasceu da riqueza, do isolamento e das obsessões megalomaníacas de Axl Rose. O vocalista passou a investir horas intermináveis no estúdio, reescrevendo partes de piano, adicionando arranjos de cordas sintetizadas e flertando com uma grandiosidade que pegou o restante da banda de surpresa.


A grandiosidade do projeto exigiu um preço altíssimo nos bastidores. O processo de gravação e, posteriormente, a titânica Use Your Illusion Tour (que durou mais de dois anos) funcionaram como catalisadores para a destruição do ecossistema interno da banda.

O fator Axl Rose: Os atrasos crônicos de Axl para subir aos palcos — muitas vezes motivados por perfeccionismo obsessivo, caprichos ou disputas contratuais — geravam revolta nos fãs e atritos violentos entre os integrantes.

A saída de Izzy: Sentindo-se sufocado pelo gigantismo da turnê, pelo comportamento errático de Axl e pela perda da dinâmica de grupo original, Izzy Stradlin abandonou o barco em novembro de 1991, logo após o lançamento. Sua saída representou a perda do principal compositor silencioso da banda.

A transição de bateristas: A ausência de Steven Adler (afastado por problemas graves com dependência química) abriu espaço para Matt Sorum. Embora Sorum trouxesse uma precisão técnica impecável de estúdio e peso ao vivo, a troca alterou o "balanço" rítmico orgânico que caracterizava o som original de 1987.

O resultado dessa imersão estúdio adentro foi um monstro duplo composto por 30 faixas e mais de duas horas e meia de música. A ousadia comercial pagou dividendos imediatos: os álbuns estrearam ocupando historicamente as duas primeiras posições da parada da Billboard 200 (com o Illusion II em primeiro e o Illusion I em segundo), um feito inédito na indústria fonográfica até então.

Divididos por capas icônicas de Mark Kostabi — diferenciadas apenas pelas cores contrastantes em azul e amarelo/vermelho —, os discos funcionavam como as duas faces de uma mesma moeda caótica:

Use Your Illusion I assumiu um papel mais visceral e cru, fortemente ancorado na pegada de Izzy Stradlin. O disco abriga clássicos absolutos como "Don't Cry", a crueza cortante de "Double Talkin' Jive" e a grandiosa, cinematográfica e chatíssima "November Rain", cuja superprodução bancada pela Geffen Records redefiniu o patamar dos videoclipes na MTV. Mas "Dead Horse", "Don't Damn Me", "The Garden of Eden", "Right Next Door to Hell", "Perfect Crime", "Coma" e "Back Off Bitch" (essa, resgatada de demos antigas), mostravam que a banda de "Appetite for Destruction" ainda respirava...

Use Your Illusion II, por sua vez, enveredou por caminhos mais melancólicos, políticos e experimentais. A abertura com "Civil War" dava o tom de um álbum que combinava o apelo comercial estrondoso de "You Could Be Mine" (consagrada em "Exterminador do Futuro 2"), a releitura de Bob Dylan em "Knockin' on Heaven's Door" e a profundidade dramática da balada progressiva "Estranged" (disparada, a melhor faixa dos dois álbuns). No entanto, outras composições como "14 Years" (obra prima composta por Stradlin), "Breakdown", "Pretty Tied Up" e "Locomotive" criaram atmosferas melódicas e pesadas. Agora, qual a necessidade de uma segunda versão de "Don't Cry" e aquela coisa horrorosa chamada "My World"?

Olhando em retrospectiva, a turnê "Use Your Illusion Tour" rodou o planeta entre 1991 e 1993 — incluindo passagens históricas e caóticas pelo Brasil —, consolidando a banda como o maior ato de rock do mundo em atividade.


Três décadas e meia após o seu nascimento, Use Your Illusion I & II resistem ao teste do tempo. Longe de serem criticados apenas pelos exageros ou faixas consideradas "excessivas" por alguns puristas, os álbuns são hoje celebrados como monumentos de uma era em que as grandes gravadoras ainda investiam em riscos artísticos colossais.

Eles capturaram o GUNS N' ROSES no exato momento em que tocaram o sol com as mãos, antes de se consumirem pelo próprio fogo. Para o rock n' roll, foi um divisor de águas; para os fãs, a eterna e inalcançável ilusão de uma banda que continha o universo inteiro dentro de si.





terça-feira, 15 de setembro de 2026

FAMOUS STRANGERS - FAMOUS STRANGERS (2026)

 


FAMOUS STRANGERS
FAMOUS STRANGERS
Rockshot Records - Importado

O autointitulado álbum de estreia do FAMOUS STRANGERS (nome muito bem sacado, diga-se) mostra uma banda que não tem medo de transitar pelos mais variados cenários musicais — do peso ao clima atmosférico. Com uma produção cuidadosa e uma identidade bem definida, o álbum prova que o grupo veio para marcar território e deixar o público sentindo suaa música em um nível mais profundo. O  grupo foi criado em Sherwood Park, Alberta (Canadá) e é formado por veteranos da cena local com mais de 20 anos de bagagem coletiva — passando por bandas como Pugnacious, Compromise, This Is War e The Order of Chaos. Dessa forma, o quarteto entrega um som que une a energia dos clássicos ao peso contemporâneo.

Amanda Kiernan (vocal), Jeff Kittlitz (guitarra e backing vocal), Braden Sustrik (baixo e backing vocal) e Brian "Beej" Jolly (bateria e backing vocal). nos trazem sete faixas bem produzidas e cheias de energia. Sem seguir uma fórmula específica, o grupo se deixa levar pelo sentimento que cada composição exige e mostra versatilidade em mesclar peso, melodia, vocais rasgados, cozinha alinhada e disposição pra escrever sua própria história.

O álbum começa com "Fire Inside", que como o próprio título entrega, vem numa energia intensa. Trazendo uma pegada bem atual, mas com peso e vocais bem técnicos por parte de Amanda (que sabe colocar sua voz à necessidade de cada composição), a faixa é o cartão de visitas perfeito para o restante do trabalho. "Ghosts of Men", segue a mesma linha e a curiosidade é que, sendo um dos primeiros singles da banda, quase ficou de fora do álbum. Mas foi "repaginada" com uma pegada mais crua e direta. Mais cadenciada e pesada, "Please Her", tem um quê de Hard Rock em sua estrutura, principalmente pelos riffs de Jeff Kittlitz. Já "As You Leader", vem com uma dose extra de peso, mas flerta demais com o metal "alternativo" (se é que me faço entender). Não é um ponto negativo, mas a banda mostrou que pode ser mais criativa e fugir desse estereótipo. Mas, a verdade é que a banda não se prende a fórmulas préestabelecidas. Portanto, ainda que não tenha me agradado, ponto pra eles. "Desires" é rock n' roll na veia! Veloz, intensa e sem muito papo, a faixa é o destaque do álbum! Composta pelo guitarrista Jeff quando este estava no festival Bloodstock, ela capta a energia de um show de rock intenso e vibrante. Uma pegada quase punk é o que encontramos "Far Away From Home", enquanto o final vem com "Rain", com seus 9 minutos de duração, composta ao violão. Trazendo uma interpretação bem interessante de Amanda (onde sua voz mais uma vez se encaixa no estilo), ela fecha o trabalho mostrando que a banda sabe fugir do lugar comum.

O álbum gira em torno do tema do autoconhecimento e de "conhecer o próprio valor", utilizando experiências pessoais para transmitir mensagens de amor-próprio, superação e crescimento, lembrando o ouvinte de que ele sairá mais forte de qualquer adversidade. Isso tudo, conforme o release da banda. No entanto, pelo lado sonoro, o FAMOUS STRANGERS traz um álbum que é uma jornada diversificada e sem amarras de gêneros, misturando riffs pesados com pegada alternativa, momentos altamente enérgicos e explosivos. Uma boa estreia. Agora é esperar se o grupo consegue se manter nesse disputado mundo do metal mundial.

Sergiomar Menezes





EXUMER - DARK MASK MESSIAH (2026)

 


EXUMER
DARK MASK MESSIAH
Shinigami Records/Metal Blade Records - Nacional

O EXUMER nunca precisou ocupar o topo do Teutonic Big Four para provar seu valor. Mas Death Mask Messiah chega com a força de um tiro de canhão devastando uma trincheira sem qualquer aviso. Sete anos depois de Hostile Defiance, a instituição alemã do Thrash Metal retorna reenergizada, furiosa e com disposição para transformar cada segundo deste álbum em uma nova pancada — ou, possivelmente, na melhor máquina de destroçar pescoços de 2026.

Existe uma conexão evidente com a essência que tornou Possessed by Fire um clássico, mas Death Mask Messiah não tenta simplesmente reproduzir o passado. O EXUMER pega aquela velha agressividade, acrescenta décadas de experiência e entrega tudo com uma execução moderna, precisa e impiedosa. É Thrash Metal rápido na medida certa, mas suficientemente dinâmico para não transformar velocidade em monotonia.

A produção entrega sujeira e peso, enquanto a nova cozinha, com Alex Voß no baixo e Jerome Reil na bateria, mostra serviço desde os primeiros minutos. Reil não economiza nos ataques e ajuda a empurrar as músicas para frente, enquanto o baixo dá sustentação ao paredão de guitarras formado por Ray Mensh e Marc Bräutigam.

A faixa-título não perde um segundo. O riff já chega cortando e estabelece o tom do álbum: agressividade, velocidade e aquela tensão típica do jeitão Thrash alemão. “Blinding Skies” mantém o ataque e mostra que a abertura não é exceção. A banda acelera, freia, volta a acelerar e constrói mudanças suficientes para manter o ouvinte preso à música.

“Eradication” e “Allocated Savagery” acrescentam uma veia Crossover que deixa o material ainda mais nervoso. “Serpent” traz uma pegada que, em determinados momentos, remete ao Exodus, enquanto “Scorcher” aposta em gritos coletivos e uma sequência de solos que aumenta ainda mais a temperatura. Já “Fratricide” mostra o outro lado do EXUMER: riffs mais pesados, secos e esmagadores, provando que a banda também sabe destruir sem precisar correr o tempo inteiro.

E essa é uma das virtudes do álbum. A velocidade não existe apenas para mostrar que os caras ainda conseguem tocar rápido. Ela serve às músicas. Os riffs são construídos para avançar, os vocais entram como golpes e a bateria mantém tudo em movimento, mas sempre existe um refrão ou uma passagem capaz de segurar a atenção.

Mem v. Stein continua sendo uma das grandes armas do EXUMER. Há uma mistura de urgência e violência em sua interpretação que combina perfeitamente com o instrumental alucinado das onze faixas. E, felizmente, Death Mask Messiah não é apenas uma coleção de pancadas. É possível terminar o álbum e ainda estar com algumas dessas passagens rodando na cabeça — o tipo de sequência de golpes que praticamente não dá espaço para respirar.

“Frozen Ground” encerra o material inédito mantendo a pressão até o último instante, antes de “Unchained Angel”, do Nasty Savage, fechar o trabalho como uma escolha certeira. É uma maneira perfeita de reafirmar as raízes sem transformar o álbum em uma peça de museu.

O EXUMER ainda está com fome.

E Death Mask Messiah é a prova de que essa fome continua sendo perigosa.

William Ribas




RUTHLESS - CURSE OF THE BEAST (2026)

 


RUTHLESS
CURSE OF THE BEAST
Shinigami Records/Fireflash Records - Nacional

Há dois anos conheci o Ruthless quando resenhei “The Fallen”, disco que fez a banda ressurgir após alguns bons anos de hiato. Após o silêncio ser cortado pelo riff inicial da faixa-título, passei a gostar da banda. Pois bem, estava curioso para este novo trabalho — e mantive o Ruthless no radar nesse período.

Formada nos anos 80, é óbvio que não teremos novidades. Não existe nada atual, nada moderno — a única e exclusiva intenção em “Curse Of The Beast” é fazer Heavy Metal à moda antiga. E, sinceramente, ainda bem.

Depois da breve intro “The Blood Moon”, a faixa-título entra como se alguém tivesse simplesmente aberto a porta de um galpão e soltado uma avalanche de riffs. É pesado, direto e cheio daquela energia que faz você imediatamente aumentar o volume. Não existe aqui a preocupação em transformar cada música em alguma experiência conceitual. O negócio é tocar Metal.

O Ruthless conhece perfeitamente a escola de onde veio. “Raging Violence” tem peso suficiente para agradar quem gosta de uma pegada mais agressiva, enquanto “Berserker” é daquelas músicas que parecem ter sido compostas com uma finalidade bastante específica: fazer o sujeito bater cabeça. Já “Suffocating Fear” apresenta uma dinâmica interessante, começando de maneira mais cadenciada e crescendo a cada nota.

Se existe uma coisa que me ganhou definitivamente neste disco, são as guitarras. Glen Paul e David Servantez parecem ter combinado que não existe espaço para economia quando o assunto é guitarra. Os riffs são pesados, os solos aparecem com frequência e as harmonizações estão espalhadas pelo álbum.Sabe quando duas guitarras fazem aquela velha conversa em harmonia que tanto amamos nos “velhos” álbuns do Judas Priest, Iron Maiden e Accept? A dupla entrega isso com maestria.

“Blood Coalition” engana por exatos 30 segundos. De possível balada para uma pedrada. Direta, potente e cheia de quebras. “Sign Of The Cross” é outro daqueles momentos em que a banda mostra sua capacidade de trabalhar com diferentes velocidades sem perder a identidade. “Killed By Fate”, por outro lado, vem mais para o ataque e mantém aquela sensação de que o álbum nunca realmente pisa no freio.

E existe uma coisa que também ajuda muito: o disco não fica tentando transformar cada faixa em um épico de oito minutos. A temática também não poderia ser mais adequada. Horror, guerra, sangue, caos, ocultismo... Às vezes, uma boa história de terror, um riff sinistro e um vocal rasgado já são capazes de nos fazer felizes.

São 12 músicas, pouco mais de 50 minutos, e a coisa anda. Quando você se dá conta, já está chegando ao final com “Metal Gods”. Fazendo o “simples”, sem mexer no sagrado, o Ruthless “paga” um belíssimo tributo ao Judas Priest e fecha de maneira certeira seu quinto álbum de estúdio.

E talvez seja justamente essa a melhor definição para “Curse Of The Beast”: não é um disco preocupado em reinventar o Heavy Metal. É o básico bem feito — o tal “menos é mais”.

Ouça!

William Ribas




ACCEPT - TEUTONIC TITANS 1976 - 2026 - HALF A CENTURY OF HEAVY METAL

 


ACCEPT
TEUTONIC TITANS 1976 - 2026 
Napalm Records - Importado

Para marcar seus 50 anos de carreira, o Accept fugiu do óbvio pacote de grandes sucessos remasterizado e lançou, em 4 de setembro pela Napalm Records, o "Teutonic Titans 1976-2026". São 19 clássicos regravados com a participação de 50 músicos convidados, um para cada ano de existência da banda, sob o comando de Wolf Hoffmann, que puxa a guitarra em praticamente todas as faixas, com Mark Tornillo segurando o vocal como fio condutor na maior parte do disco. Um fato curioso neste lançamento ficou conta da curadoria do repertório, que cobre apenas o período de 1980 a 1989, ou seja, as fases com Udo Dirkschneider e, em "Eat the Heat", David Reece nos vocais. Fica de fora tanto a estreia de 1979 quanto qualquer faixa da era Tornillo, que já dura mais de 15 anos, o que causa certa estranheza.

Dito isso, é dentro desse recorte específico que o disco funciona muito bem. Logo de cara, "Fast as a Shark" entrega o recado com Phil Anselmo mandando muito bem no vocal e Kirk Hammett arrasando no solo, enquanto Mikkey Dee e Billy Sheehan seguram uma cozinha daquelas, à altura de um dos riffs mais velozes da carreira da banda. Em seguida vem "Balls to the Wall", e aqui Wolf acerta em cheio ao colocar Rob Halford no maior clássico do Accept: o Metal God canta do seu próprio jeito, sem tentar imitar o Udo, e ainda assim entrega uma das participações mais marcantes do disco.

O meio do álbum concentra algumas das minhas faixas favoritas da carreira da banda, e é justamente aí que o disco mais brilha. "Aiming High" ganha uma excelente performance de Chuck Billy dividindo os vocais com Mark, com Gary Holt e David Ellefson completando o time, um som que honestamente deveria aparecer mais nos shows da banda. "Run If You Can" é, sem dúvida, um dos pontos altos do disco inteiro: Todd La Torre destrói em cima de uma das minhas músicas favoritas do Accept, dividindo os vocais com Mark, que canta junto com os convidados em praticamente todas as faixas. E "Metal Heart" ganha uma introdução linda de violino elétrico, com Dino Jelusick (uma grata surpresa, um dos melhores vocalistas da atualidade) dividindo os vocais com Mark e Joel Hoekstra somando guitarra com Wolf.

Tem ainda uma surpresa que merece destaque à parte: "Hellhammer", tirada justamente de "Eat the Heat", disco de 1989 injustamente execrado por boa parte do fandom (não por mim, que sempre gostei bastante desse trabalho mais hard rock da banda). A releitura da faixa é excelente e ajuda a resgatar o prestígio de um álbum que merece mais respeito do que costuma receber.

A sequência de clássicos segue forte com "Losers and Winners", perfeitamente dividida entre Mark, Wolf e os convidados, e "Save Us", elevada pela interpretação sempre teatral de Tobias Forge, que parece ter nascido pra cantar essa música. "Up to the Limit" traz John Bush, um dos vocalistas mais injustiçados e menos reconhecidos do metal, numa participação de peso, e "Wrong is Right" ganha uma bela contribuição de Ralf Scheepers dividindo vocais com Mark. "Starlight" e "Fight It Back" seguem a mesma toada de execução impecável, sem grandes sustos, mas também sem deixar a peteca cair. "Breaker" mantém o nível com a participação de Girish Pradhan, e "Demon's Night" ganha uma combinação e tanto entre Bobby Blitz e Mark. Já "T.V. War", faixa quase esquecida no repertório da banda, prova nessa regravação que é tão boa quanto os grandes clássicos, mérito também da escolha certeira dos convidados.

Nem tudo funciona, porém. "Love Child" é a escolha mais estranha e menos esperada do álbum: Billy Corgan no vocal deixa a música com menos força e poder do que o clássico pede, ainda mais tratando-se de uma das faixas mais queridas da banda. "London Leatherboys", com Sebastian Bach, e "Monsterman", com Jeff Scott Soto (um dos meus vocalistas favoritos de todos os tempos, que fique claro), também não encaixam tão bem quanto o resto do disco. Não que fiquem ruins, longe disso, mas simplesmente não soam tão "Accept" quanto as demais regravações.

O encerramento fica por conta de "Restless and Wild", com K.K. Downing dividindo guitarra com Wolf numa dupla e tanto, fechando o disco com chave de ouro num dos maiores clássicos da carreira da banda.

No saldo geral, "Teutonic Titans 1976-2026" acerta muito mais do que erra. É um disco que resgata clássicos menos lembrados, reforça o peso das faixas mais queridas e celebra com brilho cinco décadas de carreira. Fica, no entanto, a sensação de uma comemoração pela metade: ao se limitar às fases Udo e David Reece, o disco ignora completamente a era Tornillo, que já responde por mais tempo de banda do que muita gente lembra, e deixa de fora até o próprio Udo (mesmo que todos saibam do obvio), cuja voz é a marca registrada de praticamente tudo que está sendo celebrado aqui.

Fernando Aguiar






FLOTSAM AND JETSAM - RATS IN THE TEMPLE (2026)

 


FLOTSAM AND JETSAM
RATS IN THE TEMPLE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Há bandas que vivem eternamente daquilo que fizeram nos primeiros anos de carreira. Flotsam and Jetsam poderia facilmente estar nesse grupo. Afinal, quando uma banda começa sua discografia com "Doomsday for the Deceiver" e, pouco depois, entrega "No Place for Disgrace", é inevitável que qualquer lançamento posterior seja comparado àquela fase. Só que existe algo particularmente interessante na história dos americanos: mesmo depois de atravessar períodos bastante irregulares, eles nunca perderam completamente a capacidade de fazer um disco de metal realmente relevante.

Rats in the Temple chega justamente nesse ponto da carreira. Quarenta anos depois do início da história, a banda não parece interessada em simplesmente reproduzir o passado ou viver de nostalgia. Muito pelo contrário. Os últimos sete anos mostram o quão afiados estão. A sequência matadora, iniciada com "The End of Chaos" (2019), "Blood in the Water" (2021) e "I Am the Weapon" (2024), agora ganha mais um capítulo: Rats in the Temple.

O que existe aqui é uma tentativa de juntar diferentes momentos de sua identidade em um único trabalho: a velocidade e a agressividade do thrash, as melodias do power metal americano e algumas passagens mais tradicionais de heavy metal.

E eles novamente acertaram em cheio!

“Harvesting the Hate” já deixa isso bastante claro. A introdução cria uma expectativa quase cinematográfica antes de a banda entrar rasgando tudo. Quando Eric A.K. aparece, sua voz continua sendo um dos elementos que tornam Flotsam and Jetsam imediatamente reconhecível. Os anos passaram, evidentemente, mas, em vez de tentar esconder isso, a banda parece aproveitar as características atuais de sua voz. Talvez seja justamente essa combinação entre experiência e agressividade que faça o álbum funcionar tão bem.

“Damnation” mergulha em um clima mais pesado e sombrio, enquanto “Absolution” recupera aquele thrash que anda no bagageiro da banda desde os anos 1980. A diferença é que, aqui, os riffs rápidos dividem espaço com refrãos mais grandiosos e melódicos. Essa alternância entre ataque e melodia é praticamente a assinatura da fase atual, que, sinceramente, acho a melhor do Flotsam and Jetsam.

“Blame the Knife” aparece como uma das faixas mais fáceis de absorver. Há um groove particularmente contagiante e um refrão daqueles que são perfeitos para os shows. É uma música acessível sem transformar a banda em algo genérico. A faixa-título volta a colocar o pé no acelerador — a entrada dos riffs e da bateria muda completamente o cenário. Facilmente cresce no ouvinte a vontade de bater cabeça e erguer os punhos. “Rats in the Temple” é energética e melódica nos momentos certos, possivelmente a música que mais representa o que, de fato, são as 13 músicas do tracklist.

E, se existe uma característica que atravessa praticamente todo o álbum, é essa preocupação com melodias. Mesmo quando a banda está tocando pesado, existe quase sempre alguma guitarra trabalhando por trás, algum vocal adicional ou uma linha melódica tentando escapar do peso dos riffs. Michael Gilbert e Steven Conley têm papel fundamental nisso, dando uma personalidade ímpar às músicas.

“First on the Spike” traz uma leve mudança interessante. O peso ganha uma certa malícia de groove, e a banda mostra que não precisa permanecer presa à velocidade para soar agressiva. Já “The Edge of Nowhere” retoma a velocidade e coloca novamente as guitarras no centro da ação. No momento em que li “Last Rites”, juro que pensei que seria o momento de respiro no álbum. Engano meu. A banda não desacelera; pelo contrário, aposta em riffs rápidos e uma atmosfera quase sufocante.

A introdução de “A Taste for War” chama atenção pela interação entre baixo e bateria e cria uma expectativa interessante, mas a música não desenvolve completamente o potencial daquele começo. Não é ruim, mas se perde, sendo a mais fraca do disco. Felizmente, “Her Blood, Your Pain” aparece logo na sequência e recupera o equilíbrio com ótimas linhas melódicas. “Anthem for the Broken” é outro daqueles momentos em que a banda parece enxergar o palco antes mesmo de sair do estúdio. O refrão é direto e feito para funcionar ao vivo. Existe uma simplicidade calculada ali, uma maneira de construir tensão nos versos para depois hipnotizar nos refrãos — Rats in the Temple poderia se encerrar aqui que todos estaríamos sorrindo de orelha a orelha.

Mas não! “Not Goin’ Down That Way” é a responsável por fechar o álbum. É uma escolha interessante para o encerramento porque, consciente ou não, existe algo quase simbólico. Depois de quatro décadas, tantas mudanças na música pesada, fases boas e ruins, mudanças de formação, tendências que surgiram e desapareceram, Flotsam and Jetsam continua aqui.

E continua fazendo barulho. Até aqui, um dos melhores álbuns que escutei esse ano.

Rats in the Temple não é um disco que tenta convencer ninguém de que estamos novamente em 1986. É muito mais interessante: um trabalho de músicos veteranos que conhecem profundamente aquilo que construíram em todos esses anos — o lado pesado, melódico, sombrio e, acima de tudo, a honestidade com a identidade da banda.

É isso. Rats in the Temple é honesto — um redemoinho de riffs para fazer nossa cabeça balançar.

William Ribas




segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DEATH MAGNETIC 18 ANOS - QUANDO O METALLICA DECIDIU SER O METALLICA DE NOVO


Lançado em um mundo pré-streaming e sob a sombra de St. Anger, o álbum que completou a maioridade marcou não um retorno ao passado, mas a redenção sonora e o renascimento definitivo dos gigantes do thrash metal

Por William Ribas

Olhar no calendário e ver que hoje, o tal álbum com um caixão na capa está chegando à maioridade é, de certo modo, “estranho”. Quando o álbum saiu, estávamos na febre do Orkut e suas comunidades. O download ilegal reinava absoluto — Lars ainda era “odiado” por conta do processo contra o Napster. Estávamos longe do Spotify e o YouTube tinha acabado de parar de engatinhar e estava “dando seus primeiros passos”. Ou seja, outro mundo.

Death Magnetic vinha com uma enorme expectativa em torno dele. Afinal, haviam se passado cinco anos desde St. Anger. Uma enorme dúvida pairava pelo ar. Seria mais uma decepção? Ou agora Lars, James, Kirk e Rob voltariam a colocar esse “trem” nos trilhos? A turnê, que durou três anos, teve quatro DVDs, passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Europa, Ásia e Oceania, totalizando 182 shows, responde por si só.

A abertura com os batimentos cardíacos deixou todos apreensivos — mas a mão direita mais certeira do thrash metal tratou de mostrar que a banda estaria diferente agora. “That Was Just Your Life” era rápida, obviamente, não como nos quatro primeiros álbuns (esse Metallica não existe mais, ok?), mas fazia uma boa dupla com “The End of the Line”. Ambas trazem um bom impacto para os primeiros minutos.

A seguinte vinha como uma boa forma de resistência: “Levante, caia, levante novamente, aquilo que não te mata, te fortalece”. “Broken, Beat & Scarred” é arrastada, mas certeira. O refrão e os solos de Kirk são a cereja do bolo da música, o peso que antecede a calmaria.

“The Day That Never Comes” virou queridinha. Ganhou um clipe e o rótulo de uma nova “One”, tudo por aquele jeito Metallica de fazer power ballads — linhas dedilhadas e melódicas, peso no refrão e final rápido e explosivo. “Day” segue no set até hoje, tornando-se a música do álbum mais tocada até o momento: 232 vezes.

“All Nightmare Long” chega para trazer novamente a velocidade do início do álbum. Talvez seja uma das faixas que melhor representam aquilo que a banda queria entregar naquele momento: riffs, mudanças de andamento, um refrão forte e aquele clima sombrio que combina perfeitamente com o conceito por trás do disco.

“Cyanide” vem na sequência e mantém o álbum andando em uma velocidade confortável. De certo modo, a faixa traz consigo um ar mais “comercial”. E, indo nesse caminho, chegamos a “The Unforgiven III”. Distante das duas primeiras partes, tem na interpretação de Hetfield sua chama motriz — seus medos, erros e perdões.

“Judas Kiss” é outro daqueles momentos em que o disco lembra o ouvinte de que, sim, estamos falando do Metallica. O riff principal é daqueles que entram na cabeça imediatamente, e a música tem uma dinâmica que alterna momentos mais cadenciados com explosões de velocidade. É uma das faixas que mais se beneficiam daquele som enorme que a banda buscava para o disco.

E, sinceramente, para mim, é uma das heranças daquele trabalho tão odiado por todos: a volta das faixas longas, com grandes mudanças de andamento.

Falando em música longa, “Suicide & Redemption”. É uma faixa para ouvir com calma, prestando atenção nos riffs, nas mudanças e, principalmente, na interação entre os instrumentos. E tem um detalhe histórico interessante: é a primeira instrumental do Metallica desde “Orion” a trazer a formação completa da banda como compositores.

Depois disso tudo, ainda existe o golpe de misericórdia: “My Apocalypse”. Rápida, agressiva e direta, ela talvez seja a maior prova de que o Metallica queria recuperar parte daquela identidade que havia ficado tão distante em Load e Reload. Está longe de ser “Damage, Inc.” ou “Dyers Eve”, mas existe aqui uma banda tentando recuperar aquela sensação de urgência.

CONSEGUIRAM!

Em meio à turnê, abrirl de 2009 trouxe um daqueles momentos que entraram para a história da banda: o Metallica foi oficialmente introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame. Na cerimônia, além dos quatro integrantes da formação atual, subiram ao palco Jason Newsted e Ray Burton, pai do saudoso Cliff Burton. Newsted ainda se juntaria à banda para tocar “Master of Puppets” e “Enter Sandman”. Já em novembro do mesmo ano, o Metallica voltou ao icônico Madison Square Garden, em Nova York, para duas apresentações especiais. E 2010 reservaria outro capítulo histórico. Em junho, aconteceria o tão aguardado encontro do Big Four: Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax dividindo os mesmos palcos. O que começou com algumas apresentações em festivais se transformaria em um dos momentos mais emblemáticos da história do thrash metal, culminando com a gravação do show de Sofia, na Bulgária.

Death Magnetic não é perfeito. Novamente, a produção foi apontada como problemática. O som soa comprimido e estourado se o ouvinte resolve passar do “volume 10”, deixando uma ponta de decepção. Afinal, estamos falando de uma banda que chegou à perfeição em termos de mixagem e masterização em trabalhos dos anos 90.

Mas, olhando para o álbum 18 anos depois, talvez seja mais fácil entender sua importância.

Ele não trouxe o Metallica de 1983, 1986 ou 1991 de volta. Trouxe algo mais importante: o Metallica de volta a ser o Metallica.

Em sua turnê, a banda tocou 76 músicas diferentes e voltou a passar pelo Brasil após quase 11 anos longe de terras brasileiras. Passou por Porto Alegre, no dia 28 de janeiro, e por São Paulo, nos dias 30 e 31 de janeiro de 2010. Algo interessante é que todas as músicas do disco foram tocadas durante a World Magnetic Tour, fato que só havia ocorrido na divulgação de Kill 'Em All, em 1983.

12 de setembro, dentro da história da música pesada, pode ser lembrado como o renascimento musical do MetallicaDeath Magnetic é uma espécie de recomeço, colocando a banda definitivamente de volta ao topo.



CRIMSON GLORY - CHASING THE HYDRA (2026)

 


CRIMSON GLORY
CHASING THE HYDRA
BraveWords - Importado

Sempre que ouço, vejo ou leio o nome da banda Crimson Glory, volto a 1988, quando via nas revistas importadas da época, o anúncio do álbum “Transcendence”. Naquela época de dificuldades em encontrar material importado, consegui uma gravação em fita do álbum, cerca de um ano depois, e foi amor a primeira ouvida.

“Transcendence” me remetia ao Queensrÿche, banda que gostava muito, porém com mais peso e agressividade, mas com um toque progressivo. Os riffs e solos de guitarras junto a voz incrível do saudoso vocalista Midnight (falecido em 2009), tornaram “Transcendence” um clássico do U.S. Metal oitentista.

O álbum seguinte, “Strange and Beautiful” (1991) foi uma tentativa de atingir o grande público com uma sonoridade mais Hard Rock, fugindo totalmente do som clássico do Crimson Glory, e falhando miseravelmente, levando a dissolução da banda logo a seguir, e dando início a retornos e dissoluções ao longo dos anos. Neste período lançaram “Astronomica”(1999), sem muito destaque, e fizeram várias alterações na formação da banda, uma delas tendo Todd LaTorre (atual Queensrÿche) como seu vocalista.

Em 2023, a banda retorna definitivamente, com três membros originais: Jeff Lords (baixo), Dana Burnell (bateria) e Ben Jackson (guitarra). Completam a formação o guitarrista Mark Borgmeyer e o vocalista Travis Wills. E agora em 2026, o Crimson Glory nos apresenta seu quinto álbum, “Chasing the Hydra”, seu primeiro álbum de estúdio em 27 anos – um lançamento que poucos fãs de metal realmente esperavam acontecer, mas que ao ser ouvido, faz o tempo aguardado ter valido a pena.

Logo no inicio da primeira audição, é possível notar que o clássico som do Crimson Glory está de volta e com força. E não há nada de nostalgia piegas aqui, e sim, a verificação de uma interpretação contemporânea do som característico do Crimson Glory. O álbum começa com "Redden the Sun", uma faixa poderosa e energética que mistura estruturas progressivas com a intensidade clássica do U.S.Metal. É uma introdução forte e promissora. Em contraste, "Broken Together" começa com violão acústico, construindo gradualmente uma composição de seis minutos que mostra a amplitude musical da banda. A interpretação emotiva de Wills, remete a um dos elementos clássicos da banda.

"Angel in My Nightmare" segue um caminho semelhante, destacando-se como uma das melhores faixas do álbum ao unir com sucesso melodia, complexidade e peso emocional. "Indelible Ashes" ecoa a sua “banda irmã mais velha”, o Queensrÿche, e "Armor Against Fate" explora arranjos intricados. Por outro lado, temos a mais pesada e direta "Pearls of Dust”, outro destaque.

O álbum termina com “Triskaideka”, uma composição sombria e cheia de camadas que faz jus ao seu título enigmático. Sua complexidade e estruturas com muitas variações exigem várias audições para realmente apreciar a profundidade de suas melodias e arranjos. Uma faixa simplesmente fantástica. O Crimson Glory está de volta e com toda a força. Um dos lançamentos do ano de 2026.

José Henrique Godoy




MAIDENHEAD - MAXIMUM CLONAGE (2026)

 


MAIDENHEAD
MAXIMUM CLONAGE
Metal Devastation - Importado

Eu tenho uma certa felicidade por bandas que chegam sem pedir licença. Você abre o e-mail, vê uma banda que provavelmente não conhece, dá aquela olhada rápida na capa e pensa: “vamos ver o que esses malucos estão fazendo”. Cinco minutos depois, você está tentando entender por que diabos ainda não tinha ouvido falar deles.

Antes de tudo, ler MAIDENHEAD me fez pensar que estaria diante de algo bem próximo do Iron Maiden. “Ah, essa banda deve fazer algo na linha de Killers, segundo álbum da Donzela de Ferro.” Foi mais ou menos isso que passou pela minha cabeça. Só que, assim que apertei o play, “Enter The Killing Floor” começou e um ar de suspense tomou conta. Aí veio a faixa-título e derrubou qualquer ideia de semelhança com os britânicos.

O que temos aqui é thrash metal com uma dose generosa de death metal, sem qualquer preocupação em suavizar as arestas. A banda entra rápido no assunto e praticamente não perde tempo com apresentações. “Maximum Clonage” já deixa isso evidente, enquanto “False Masked Hero” coloca uma das melhores cartas da banda na mesa.

Os vocais são daqueles que imediatamente dão uma identidade ao disco. Em vez de simplesmente acompanhar os instrumentos, Zeping “Bella” Song acrescenta uma personalidade própria às músicas. Em “False Masked Hero”, especialmente, sua interpretação transforma a faixa em algo ainda mais ameaçador, enquanto “Magia Obscura” mostra uma abordagem diferente, acompanhando o clima mais sombrio da composição.

Maximum Clonage é o segundo álbum dos caras e, apesar de independente, não tem exatamente aquela cara de banda que resolveu gravar um disco no quarto. Pelo contrário. Tem gente bastante conhecida envolvida aqui, incluindo dois guitarristas que já passaram pelo Megadeth: Chris Poland, em “Kill Or Be Killed”, e Glen Drover, em “False Masked Hero”. Além deles, Rich Gray, do Annihilator, participa do baixo em boa parte do material.

Mas ainda bem que o MAIDENHEAD consegue jogar sozinho.

As guitarras de Zack Roberts e Vance Simmons têm bastante a dizer, mas o mérito está menos em mostrar serviço e mais na maneira como os riffs são encaixados. A dupla traz aquela escola de thrash americano em que a música pode mudar de direção sem precisar anunciar a curva com antecedência. Há um sabor de Megadeth em determinados momentos, principalmente na maneira como os riffs se movimentam, mas o MAIDENHEAD não passa o disco inteiro tentando imitar ninguém.

“Death March” segue por outro caminho. A faixa tem uma sensação quase mecânica, como se estivesse avançando em linha reta e arrastando tudo junto. “Kill Or Be Killed” merece atenção especial também, não apenas pela música em si, mas pela presença de Chris Poland. É sempre curioso ouvir um músico associado a uma determinada fase do Megadeth aparecendo em um trabalho tão distante daquela banda. E, felizmente, o solo não parece uma participação colocada ali apenas para enfeitar o encarte.

O álbum fica bastante curioso quando chegamos a “Hasta La Proxima” — A música começa com uma guitarra limpa, criando um espaço que praticamente inexistente até aquele momento. Eu sei que serviu com um fechamento,. E justamente por isso a faixa acaba mostrando uma possibilidade que o disco poderia explorar mais: contraste.

São aproximadamente trinta minutos. E, sinceramente? Obrigado. Maximum Clonage cumpre muito bem sua função. É curto e direto, e isso basta!

MAIDENHEAD talvez ainda seja um nome novo para muita gente. Depois deste disco, pelo menos para mim, deixou de ser.

William Ribas




SEPULTURA: O ADEUS QUE PERDEU O TAMANHO DA HISTÓRIA


Entre expectativas, planejamento, convidados que não vieram e uma turnê que se estendeu por quase três anos, a despedida acabou chegando sem o impacto que poderia ter.

Por William Ribas


Antes de qualquer coisa, deixo bem claro: não tenho lado. Obviamente, minha fase favorita é a mesma de 95% dos fãs de Sepultura, mas gosto bastante da fase Derrick Green. Sim, daquela fase que já dura 28 anos. Adoro Dante XXI, A-Lex, Kairos, Machine Messiah e Quadra. Também sou daqueles que gostariam de ver um show dedicado exclusivamente à era Green — inclusive, cansei de escrever nas redes sociais da banda pedindo uma apresentação assim antes do último show.

Estava preparado para estar “No Seu, No Meu, No Nosso, PACAEMBU” no dia 7 de novembro — e que saudade de ouvir isso nos dias de jogos —, mas infelizmente o local “caiu”. O show acabou transferido para um espaço com capacidade para 9 mil pessoas. Basicamente, um lugar com 31 mil pessoas a menos. E isso escancarou ainda mais os erros envolvendo essa tal despedida e tudo o que cercou esses quase três últimos anos.

Bem, nunca acreditei em uma possível participação dos Cavalera. Bastava olhar as entrevistas de ambos os lados: ninguém aliviava. “Os impostores”, “No Cavalera, No Sepultura”. Do outro lado: “Ele está preguiçoso”, “ele nem toca guitarra”. Existe tanta coisa envolvida, tantas versões e, provavelmente, uma verdade no meio de uma história de mais de 30 anos que nós nunca saberemos por completo.

Então, não dava para criar essa ilusão e muito menos usar a ausência dos Cavalera como justificativa para a mudança de local. Claro, uma participação de Max e Iggor teria capacidade de provocar uma nova mudança — mas, nesse caso, provavelmente para um estádio ainda maior.

Enfim, vamos aos outros fatos que, para mim, são mais determinantes.

Precisamos olhar para a história do metal brasileiro antes de qualquer coisa. Quando uma banda brasileira encheu um estádio? E sendo headliner? Pois é: nunca.

O próprio Sepultura, mesmo nos tempos de ouro, não conseguiu isso. Claro, você pode lembrar do show na Praça Charles Miller, mas estamos falando de uma apresentação gratuita, praticamente ao lado do Estádio do Pacaembu. No primeiro show oficial com Derrick Green, houve uma apresentação paga no estacionamento do Anhembi, com cerca de 30 mil pessoas, segundo os dados da época. Ainda assim, menos do que a capacidade prevista para o possível show no Pacaembu.

Pegando essa estreia como referência e trazendo para os dias atuais, o que diferencia uma situação da outra?

As participações especiais.

E aí entra um dos pontos centrais do declínio do estádio.

Em 1998, o Sepultura trouxe Jason Newsted, então baixista do Metallica; Mike Patton, do Faith No More; índios Xavantes; Jairo Guedz, primeiro guitarrista da banda; Zé do Caixão e Carlinhos Brown. Fora Pavilhão 9 e outras bandas de abertura.

E existe um detalhe histórico interessante. Em 2004, o Sepultura realizou o Sepulfest, no então Espaço das Américas — hoje Espaço Unimed —, em comemoração aos 20 anos da banda. Na época, Iggor Cavalera ainda fazia parte da formação e o grupo também estava divulgando Roorback, lançado no ano anterior. O evento contou com Claustrofobia, Ratos de Porão e Nação Zumbi e reuniu cerca de 7 mil pessoas.

Não estou dizendo que seja uma comparação perfeita — eram outros tempos, outro contexto e um formato diferente de evento —, mas o número é importante. Vinte anos atrás, ainda havia um Cavalera na formação, um disco relativamente novo para divulgar e uma celebração de duas décadas de história, e mesmo assim o evento ficou na casa dos 7 mil espectadores.

Isso ajuda a colocar as coisas em perspectiva. A capacidade de atração do Sepultura nunca foi tão linear quanto pode parecer quando olhamos apenas para os grandes momentos da carreira.

E isso nos leva novamente ao Pacaembu.

Vinte e oito anos depois, quem a banda está trazendo?

Até o momento, nenhum nome de peso para participar dessa celebração.

Com todo respeito às bandas de abertura, mas nenhuma delas consegue, sozinha, atrair um público extra significativo para o Sepultura. Krisiun e Sacred Reich são nomes respeitados dentro do underground. O Metal Allegiance possui músicos de peso em sua formação, mas ainda assim ocupa uma prateleira intermediária dentro do heavy metal.

Andreas Kisser e os empresários poderiam — e, na minha opinião, deveriam — ter arriscado mais.

O comparativo (Sim, mais um) chega a beirar o absurdo, mas faço apenas para o caro leitor entender o raciocínio. Ozzy, em sua despedida, chamou uma verdadeira constelação. Os ingressos foram disputados a tapa e esgotaram em menos de 30 minutos.

Será que, se tivéssemos nomes como Anthrax, Exodus, Death Angel, Pantera, novamente Jason Newsted e outros nomes importantes, os ingressos também não teriam vendido mais?

Muito mais de 9 mil, tenho certeza que sim.

Dentro disso, vale lembrar que o Sepultura tocou por três noites seguidas no Espaço Unimed, todas com ingressos esgotados. Se pararmos para pensar, a banda chegou aproximadamente perto da carga de ingressos prevista para o Pacaembu.

E aí chegamos a outro ponto: será que a enorme demora para anunciar a data oficial e uma turnê de dois anos de celebração da vida através da morte não tiveram justamente o efeito reverso?

A banda saiu tocando em todos os lugares. Capitais, interior, festivais, festas de aniversário... em tudo quanto é canto. Quem tinha que ver, já viu. E a data oficial da última dança, nada de sair.

Ela só veio em maio.

Enquanto Andreas e companhia faziam uma enorme turnê, o Brasil recebia festivais como Bangers Open Air, Monsters of Rock e Rock in Rio, para citar apenas alguns. Shows de AC/DC e Korn. Teremos Iron Maiden, Slayer, Testament, Rush, entre outros.

E tudo isso mexe diretamente com o público que poderia estar indo ao show do Sepultura. Afinal, a gente compra ingresso, parcela, escolhe prioridades. E quando aparecem bandas que dificilmente voltam ao país, elas naturalmente passam na frente.

Alguém gritou: S-L-A-Y-E-R?

No fim das contas, o evento flopou — palavra que aprendi nesta última semana — por diversos fatores. Não existe um único culpado ou uma única explicação.

Mas quase todos eles passam pelo mesmo erro de avaliação: acreditar que somente o nome Sepultura teria força suficiente para, sozinho, encher um estádio de futebol no Brasil.

Não teria.

Ainda mais depois de dois anos sendo arroz de festa de Norte a Sul do país.

A despedida poderia ter sido maior. Poderia ter sido mais especial. Poderia ter criado um acontecimento que justificasse o tamanho do palco que a banda escolheu para a última dança.

Mas, para isso, não bastava apenas anunciar que era o fim.


 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

TYGERS OF PAN TANG - ELECTRIFYED (2026)

 



TYGERS OF PAN TANG
ELECTRIFYED
Mighty Music/Target Group - Importado

O Tygers Of Pan Tang tem a peculiaridade dos felinos, ter várias vidas, no sentido de ter mudado de formação uma infinidade de vezes, ter alterado a sua sonoridade, passando do Heavy Metal tradicional da New Wave Of British Heavy Metal, passando pelo trabalho mais focado ao Hard Rock oitentista, e retornando revigorado nas últimas duas décadas, período no qual tem lançado alguns de seus melhores trabalhos.

Tudo isso só reforça o que penso sobre a banda capitaneada pelo guitarrista e fundador Robb Weir: se recusam a virar peça de Museu. Em “Eletricfyed” ao mesmo tempo que mantém a qualidade/sonoridade dos últimos trabalhos, o Tygers parece buscar inspiração na crueza dos seus primeiros trabalhos, como o que foi feito nos mais que clássicos “Wild Cat” (1980) e principalmente em “Spellbound” (1981).

“Rise Up!” a faixa deabertura já chega quebrando tudo e mostrando a força do novo trabalho. Riffs e refrão memoráveis. O vocalista Jack Meille tem a voz perfeita para a banda, que varia a agressividade e melodia e é um dos destaques do trabalho. Outras faixas a destacar: “Forevermore” vem mais melódica e cadenciada, mostrando que é possível cadenciar a agressividade e agregar melodia, sem descaracterizar o Heavy Metal tradicional.

“Electrifyed” é exatamente o que o título sugere: um choque elétrico que não te mata, mas que te dá altas doses de energia! Em “The Nail”, o Tygers mostra as garras com ferocidade mais uma vez. É um daqueles momentos em que a banda nos lembra por que sua existência foi tão importante para a NWOBHM: riffs simples, porém eficazes, uma seção rítmica pulsante e uma melodia que dispensa grandes adornos.

“Dark Skies” tem uma atmosfera mais “sombria”, com o perdão do trocadilho. Pesada e dramática, lembrando um pouco (e como não poderia deixar de ser) o pai de todos, o glorioso Black Sabbath, porém numa fase Tony Martin.

O Heavy Metal pode ser incrivelmente sofisticado em sua composição e, ao mesmo tempo, funcionar como um caminhão de mudanças sem freio ladeira abaixo. E é exatamente isso que queremos. Após mais de quatro décadas de serviços prestados, o Tygers Of Pan Tang atesta mais uma vez que não é o He-Man, mas tem a Força! Obrigado Robb Weir e sua trupe por nos entregar mais um trabalho acima da média.

José Henrique Godoy