quinta-feira, 24 de setembro de 2026

RED HOT CHILI PEPPERS - BLOODSUGARSEXMAGIK 35 ANOS

 


O ÚLTIMO GRANDE TRABALHO DO RED HOT CHILI PEPPERS - OS 35 ANOS DE BLODSUGARSEXMAGIK

Há 35 anos, o RED HOT CHILI PEPPERS criaram o momento em que o caos, a genialidade instrumental e a vulnerabilidade se fundiram em um dos discos mais influentes da história da música alternativa

Por Sergiomar Menezes

Em 24 de setembro de 1991 — curiosamente o mesmo dia em que o Nirvana mudaria os rumos do rock com Nevermind —, o RED HOT CHILI PEPPERS cruzou a linha de chegada de sua própria odisseia particular e entregou ao mundo um trabalho que redefiniu os anos 90. Longe das praias ensolaradas e da agitação frenética que marcaram seus primeiros anos de funk-punk desbocado, a banda se isolou em uma mansão assombrada para criar um monstro sônico.

Trinta e cinco anos depois, BLOODSUGARSEXMAGIK permanece não apenas como o último grande álbum do quarteto, mas como o trabalho que consagrou a nova formação da banda.

Para evitar o looping autodestrutivo de gravações convencionais e dar espaço para a nova dinâmica da banda, o produtor Rick Rubin teve uma sacada revolucionária: tirar os músicos do estúdio tradicional. O local escolhido foi a célebre mansão em Laurel Canyon que pertenceu ao ilusionista Harry Houdini — um espaço lendário, cercado por rumores de fantasmas e vibrações místicas, onde a banda passou semanas imersa em um processo criativo quase ritualístico.

O álbum é, acima de tudo, um momento definitivo de coesão e entrosamento entre o guitarrista John Frusciante (então com apenas 21 anos) e o baixista Flea. Frusciante abandonou os excessos puramente acelerados do funk-rock para construir texturas melódicas complexas, riffs intensos e uma atmosfera que transitava perfeitamente entre a crueza do blues e o psicodelismo. Enquanto isso, Flea entregou algumas das linhas de baixo mais icônicas, viscerais e grooveadas já gravadas.

Na bateria, o monstro Chad Smith transformava-se em furacão criativo com uma solidez impecável, garantindo que o swing funk estivesse sempre presente, mesmo quando as músicas flertavam com o peso do rock alternativo ou com a melancolia acústica. Nas letras e vocais, Kiedis equilibrava sua habitual persona de malandro californiano hedonista com uma confissão muito mais madura sobre perda, dependência química, dor e redenção.


A audácia de misturar funk, rap, rock pesado, baladas acústicas e psicodelia deu frutos de maneira estrondosa. Impulsionado pela direção cinematográfica e inventiva do videoclipe de "Under the Bridge" — um desabafo doloroso de Kiedis sobre solidão e abstinência —, o álbum catapultou o Red Hot Chili Peppers para o topo do mainstream global.

Faixas como "Give It Away", "Suck My Kiss" e "Breaking the Girl" dominaram as rádios e a MTV, provando que a música alternativa podia ser comercialmente imbatível sem abrir mão da identidade marginal. BloodSugarSexMagik vendeu mais de 15 milhões de cópias mundialmente, transformando o grupo em headliner de arenas e redefinindo o som de toda uma geração de bandas que tentaria misturar guitarras e grooves nas décadas seguintes.

"My Lovely Man", a segunda parte de "Knock me Down" (gravada no trabalho anterior, o magistral "Mother's Milk"), seguiu tributo saudosista ao guitarrista Hilel Slovak, enquanto o peso de "Funky Monks", "The Righteous and the Wicked" e "Apache Rose Peacock", mostravam que a banda fazia um som de nível como poucas. "I Could Have Lied", uma das mais belas baladas da banda e "Sir Psycho Sexy", uma loucura funkeada também deram mais brilho ao álbum.

Contudo, a intensidade que deu vida ao álbum também cobrou seu preço. A pressão da turnê mundial e o peso repentino do estrelato em massa provaram ser insuportáveis para a frágil estabilidade da banda na época, culminando na saída abrupta de John Frusciante durante a etapa japonesa da turnê em 1992 — um hiato doloroso que quase custou a alma criativa do grupo.

Ainda hoje, BLOODSUGARSEXMAGIK continua a soar fresco, magnético e perigoso. É o retrato de quatro músicos no topo absoluto de suas capacidades, dispostos a trancarem-se em uma casa mal-assombrada para canalizar seus demônios mais profundos em puro ritmo, poesia e eletricidade. Uma pena que depois disso, a banda entrou em decadência...



Um comentário:

  1. Mais uma matéria sensacional de quem viveu e soube passar com muita precisão tudo que esse disco significa.

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