quinta-feira, 30 de julho de 2026

JETHRO TULL - AQUALUNG LIVE (REMASTER 2025)


 

JETHRO TULL
AQUALUNG LIVE (REMASTER 2025)
Shinigami Records/Inside Out Music - Nacional

Se você curte Classic Rock, Heavy Metal Hard Rock e seus derivados, acredito que seja praticamente impossível não conhecer o riff inicial de “Aqualung”, a música, mesmo que você não curta/conheça o Jethro Tull. É uma faixa icônica do Rock, e praticamente é sinônimo da banda de Ian Anderson. “Aqualung”, o álbum é tido por muitos, como o melhor álbum da banda inglesa. E sendo assim, nada mais justo que uma releitura “ao vivo” realizada em 2004.

Escrevi “ao vivo“ entre aspas mesmo, pois o álbum foi gravado em frente a uma platéia pequena de quarenta a cinquenta pessoas, no XM Performance Theater in Washington, D.C. em 2004. A idéia era mesmo fazer uma performance intimista e ligeiramente menos polida do que a gravação original, porém com uma ótima qualidade de som.

Além de Ian Anderson (vocal e flauta), Martin Barre (guitarras), a formação à época contava com Doane Perry (bateria), Andrew Giddings (teclados) e o baixista Jonathan Noyce. O álbum original é tocado aqui na íntegra e na ordem em que as faixas foram gravadas. O grande atrativo é poder verificar a grandiosidade e o poder de um clássico do rock, gravado vinte e cinco anos antes, interpretado por outra formação do Tull.

Um álbum para fãs do Jethro Tull e colecionadores em geral, Lançamento Shinigami Records.

José Henrique Godoy




quarta-feira, 22 de julho de 2026

DOWN III: OVER THE UNDER (2007/2026) - RELANÇAMENTO

 


DOWN
III: OVER THE UNDER
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Após a estreia esfumaçada e canônica de "NOLA" (1995) e o denso e depressivo "Down II: A Bustle in Your Hedgerow" (2002), o hiato de cinco anos que antecedeu o terceiro capítulo da banda esteve longe de representar um simples descanso. Foi um período de sobrevivência. Entre a devastação causada pelo furacão Katrina, a perda irreparável de Dimebag Darrell, os problemas de saúde enfrentados pelos integrantes e uma longa batalha contra os próprios demônios, o Down tinha motivos de sobra para transformar dor em música.

E é exatamente isso que acontece em Over the Under.

Ao contrário do experimentalismo mais disperso do álbum anterior, "Over the Under" surge muito mais focado e coeso, sem perder um único miligrama da agressividade que sempre definiu o currículo de seus integrantes. O que se ouve é um verdadeiro rolo compressor de sludge sulista em alta voltagem. Estão presentes os riffs titânicos e viscerais com a assinatura inconfundível de Pepper Keenan, evocando momentos em que o peso dialoga diretamente com sua bagagem no Corrosion of Conformity, algo evidente na cadência magnética de "Beneath the Tides" e no soco no estômago que é "Three Suns and One Star".

Faixas como "Never Try" e "Her Majesty the Desert" revelam uma faceta mais melódica da banda, aproximando o grupo do blues e do southern rock sem abrir mão da intensidade. Afinal, no universo do Down, peso nunca depende de velocidade. Ele nasce de guitarras encorpadas, mudanças de andamento sutis e de uma construção que cresce de forma orgânica, sem recorrer às explosões previsíveis do tal metal moderno da época.

O grande diferencial do disco, porém, está em Phil Anselmo. Longe da agressividade quase incontrolável dos tempos de Pantera, o vocalista entrega uma de suas interpretações mais maduras e expressivas. Sua voz alterna entre melodias melancólicas, vocais rasgados e momentos quase confessionais, transmitindo desgaste, culpa, esperança e superação. Anselmo canta como quem está permanentemente numa linha tênue entre o colapso e a redenção. Isso fica evidente na arrastada "Pillamyd" e na contagiante "On March the Saints", um verdadeiro hino de perseverança após a tragédia do Katrina. Mais do que interpretar as letras, Anselmo parece viver cada verso, tornando impossível dissociar sua trajetória pessoal das emoções transmitidas pelo álbum.

Liricamente, Over the Under talvez seja o trabalho mais honesto do Down na sua discografia. O disco aborda sofrimento, perdas, vícios, frustrações e sobrevivência sem recorrer ao sentimentalismo fácil. A escuridão permeia praticamente todas as composições, mas sempre existindo um fio de luz de resistência — deixando de romantizar a dor, transformando tudo em combustível para seguir em frente, oferecendo uma visão profundamente humana sobre enfrentar as próprias cicatrizes.

O ápice dessa jornada atende pelo nome de "Nothing in Return (Walk Away)", uma obra-prima de quase nove minutos conduzida por guitarras impregnadas de blues, um padrão hipnótico de bateria e uma construção lenta que culmina em um clímax emocional devastador, encerrando o álbum de forma magistral.

Mais do que uma coleção de riffs memoráveis, Over the Under expande a identidade construída por seus antecessores sem soar repetitivo. O álbum reúne o impacto direto de "NOLA", a profundidade emocional de "Down II" e acrescenta uma maturidade adquirida através das marcas deixadas por um dos períodos mais turbulentos da história da banda — resultando num retrato sonoro da luta diária contra os próprios fantasmas.

Relançado no Brasil pela Shinigami Records, Over the Under ganha uma excelente oportunidade de ser redescoberto por uma nova geração de ouvintes e revisitado por quem já conhece sua força.

Um álbum sincero, pesado e emocionalmente devastador.

William Ribas




MASTERS OF VOICE - 13/07/2026 - AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA - PORTO ALEGRE/RS

 


MASTERS OF VOICE
EDU FALASCHI, JEFF SCOTT SOTO, ERIC MARTIN, TIM "RIPPER" OWENS
13/07/2026
AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA
PORTO ALEGRE/RS

Produção: Morphine/Opinião Produtora

Texto: José Henrique Godoy
Fotos: Carolina Godoy

Nada melhor do que comemorar o Dia Internacional do Rock, com um show de Rock, não é mesmo? Pois Porto Alegre teve a oportunidade de receber nesta data comemorativa, o show da Tour “Masters Of Voices”, contando com os vocalistas Eric Martin, Jeff Scott Sotto, Edu Falaschi e Tim “Ripper“ Owens. Para acompanhá-los, a banda de apoio formada por Edu Cominatto (bateria), Felipe Andreoli (baixo- Angra)) e os guitarristas Marcel Barbosa (Angra) e Léo Mancini.

A abertura ficou por conta da banda de Las Vegas, Velvet Chains, que iniciou seu set as 20h20. A banda apresentou seu som Hard Rock/Rock Alternativo, sem muita originalidade e sem entusiasmar muito os presentes, em um show morno, apesar de competente. Ao final de quarenta minutos, os americanos encerram seu set, e descem para a plateia para atender todos que quisessem tirar fotos com eles, e bater um papo com os músicos.


O relógio marcava 21h30, quando  e demais músicos adentram o palco para executar o primeiro set, baseado na carreira de Falaschi. Baseado praticamente nas músicas da sua época no Angra, Edu fez um bom show, e distribuiu simpatia e carisma. ”Rebirth”, “Heroes OF Sand” e “Waiting in Silence” executadas com perfeição, enquanto Edu entregava uma ótima performance. Ao anunciar “Bleeding Heart”, ele lembrou de forma bem humorada que muitas pessoas cantam esta música em português nos shows dele, tendo em vista o cover realizado pela banda de forró “Calcinha Preta”. “Acid Rain” fecha seu set e Edu chama ao palco o furacão Jeff Scott Sotto.


Bem mais magro e sem as famosas “Caipiroscas” no palco, Jeff incendiou o Araújo Vianna com o inicio de “One Love” do projeto W.E.T., mas devido a um problema no seu microfone, ele pediu para começar de novo. Antes, com seu bom humor tradicional, lascou: “Este é meu Rock n' Roll. Bom, ao menos vocês viram que não é playback e eu tô cantando mesmo”. Alô Vince Neil e outros menos votados, essa acho foi pra vocês! A seguir “Separate Ways” cover do Journey. Apesar de Jeff ter feito tours com a banda de Neal Schon, acho que ele poderia ter colocado outra musica de sua extensa discografia, mas o público aprovou e ao final dessa, o coro de “Soto, Soto” arranca sorrisos de Jeff. A clássica “I'll Be Waiting” do Talisman é tocada e cantada por toda a plateia, e ao meio dela, Jeff arrisca o refrão de "Livin On A Prayer" do Bon Jovi, um dos “hits da Copa do Mundo 2026”, e é respondido a altura. Aqui uma observação: o público era metade da lotação do Araújo Vianna, uma pena para um espetáculo tão bacana. Creio que no Opinião ficaria de bom tamanho, mas não sei nada de produção e estou aqui dando meus vinte centavos de palpite furado. O Medley “I Am a Viking/ I'lll See The Light Tonight” do álbum "Marching Out"  de Yngwie Malmsteen foi o ponto alto do show. Edu Cominatto inicia as intros de “Refuse/Resist” (Sepultura) “ We're Not Gonna Take It” (Twisted Sister) e “I Love It Loud” (Kiss) antes de iniciar a clássica “Stand Up And Shout”. Ao final desta, Soto abre caminho para o eterno vocalista do Mr. Big, Eric Martin.


Eric Martin parece ter algum tipo de pacto com as trevas ou algo divino, pois apesar do passar dos anos, seu aspecto jovial segue o mesmo. Show de simpatia e carisma também. Um set baseado com clássicos do Mr. Big, como "Daddy, Brother, Lover and Little Boy”, “Take Cover” ,”To be With You” e “Colorado Bulldog” fizeram a alegria dos fãs. A voz de Eric Martin parecia um pouco desgastada, mas nada que afetasse a sua performance no geral. A paulada “Addicted To That Rush” fechou seu ótimo set.


Tim “Ripper” Owens toma o palco de assalto as 23h20, com a clássica e preferida da casa, uma das músicas mais Heavy Metal de todos os tempos: “Hellion /Eletric Eye”. Não importa quantas vezes você escutou o álbum do Judas Priest “Screaming for Vengeance”, ou quantas vezes você escutou esta faixa ao vivo, seja com o Judas, ou com algum cover. Ela arrepia sempre. Tanto que Jeff Scott Sotto invadiu o palco pra cantar junto com Ripper. “Burning Hell” som do Judas da fase de Ripper abre caminho para a destruidora “Painkiller”, esta outra que não deixa pedra sobre pedra. “Breaking The Law” não poderia faltar e “Highway To Hell” (AC/DC) e “Heaven And Hell” (Black Sabbath) homenageiam Bon Scott E Ronnie James Dio. Inclusive, antes dessa segunda, Ripper fala que Dio é o seu vocalista preferido de todos os tempos. Para finalizar, Ripper chama de volta ao palco Jeff, Eric e Edu, e os quatro cantam juntos “Living After Midnight”! E assim se encerra este ótimo evento, pena que para um público que poderia e deveria ser bem melhor. Quem sabe na próxima.





ARMORED SAINT - EMOTION FACTORY RESET (2026)

 


ARMORED SAINT
EMOTION FACTORY RESET 
Metal Blade Records - Importado

Se existe uma banda no heavy metal que pode ser descrita como o "segredo mais bem guardado" do gênero, essa banda é o Armored Saint. Formados em Los Angeles em 1982, eles nunca atingiram o estrelato de arena de seus contemporâneos, mas construíram algo muito mais valioso: uma discografia praticamente impecável e uma base de fãs que os venera como deuses. Agora, em 2026, eles retornam com seu nono álbum de estúdio, Emotion Factory Reset, provando mais uma vez que são mestres na arte de equilibrar a tradição do metal clássico com uma energia incrivelmente moderna. Lançado via Metal Blade Records, o álbum chega com a difícil missão de suceder o fantástico "Punching the Sky" (2020), que muitos consideravam o ápice tardio da banda. 

Mas o Armored Saint não é de se acomodar. Com a produção afiada do baixista Joey Vera e a mixagem cristalina de Jay Ruston (Anthrax, Stone Sour), Emotion Factory Reset não apenas iguala seu antecessor, mas em muitos momentos o supera, entregando uma coleção de hinos que soam vibrantes, pesados e, acima de tudo, relevantes. O que torna o Armored Saint tão especial é a sua recusa em viver apenas do passado. Como o vocalista John Bush sabiamente apontou: "Não queremos fazer outro "March of the Saint". Quero continuar avançando, mas sabemos quem somos". E essa identidade está estampada em cada nota do novo disco. 

A banda continua a caminhar habilmente sobre a linha que divide o heavy metal direto e o hard rock cheio de groove. A abertura com "Close to the Bone" é um soco no estômago, um hino antêmico que prepara o terreno para o que está por vir. O single "Hit a Moonshot" é, possivelmente, a faixa que melhor define o som atual da banda: guitarras simples e diretas de Jeff Duncan e Phil Sandoval, plugadas em bons amplificadores e deixadas para rasgar, criando um groove irresistível. Mas o álbum não vive apenas de velocidade. Faixas como "It's a Buzzkill", "Ladders and Slides" e a penúltima "Bottom Feeder" mostram o lado mais cadenciado e roqueiro do grupo, onde a cozinha formada por Joey Vera e o baterista Gonzo Sandoval brilha intensamente. 

O único momento que talvez divida opiniões é "Buckeye", uma faixa mais suave com letras profundamente pessoais e uso de slide guitar, que exige bastante dos vocais de Bush e soa um pouco deslocada do peso geral do disco. O título do álbum, "Emotion Factory Rese"t, carrega um peso significativo para os dias atuais. Segundo os irmãos Sandoval, a ideia é sobre encontrar clareza em um mundo caótico. "Faça uma pausa e respire antes de responder ou reagir. Você não pode controlar eventos externos, mas pode controlar sua mente", explica Phil. Essa mensagem de reflexão e realinhamento permeia as letras de John Bush, que prefere levantar questões e abrir mentes em vez de ditar regras. E falando em John Bush, é impossível não destacar sua performance. Aos 62 anos, ele continua sendo um dos melhores vocalistas do metal, entregando paixão, melodia e agressividade com uma facilidade assustadora. Ele é a alma que eleva as composições da banda a outro patamar. Emotion Factory Reset é a prova definitiva de que o Armored Saint é uma banda rara. 

Eles mantêm praticamente a mesma formação desde o início dos anos 90 e continuam lançando material que rivaliza com seus clássicos. Não é um álbum de "velhos roqueiros tentando soar jovens", mas sim de músicos experientes que sabem exatamente o que fazem e fazem com maestria. Se você procura por inovação radical ou experimentações vanguardistas, procure em outro lugar. Mas se você quer heavy metal de altíssima qualidade, com ganchos memoráveis, riffs excelentes e um vocalista no topo de seu jogo, este álbum é obrigatório. O Armored Saint pode nunca ter conquistado o mundo, mas com discos como este, eles certamente conquistam o respeito eterno de quem realmente importa: os fãs de música pesada. Dois lados da mesma moeda: tradição e modernidade, perfeitamente equilibrados.

Jay K.




LEX LEGION - LEX LEGION (2026)


 

LEX LEGION
LEX LEGION
Valhall Music/MNRK Heavy - Nacional

Imagine só, caro leitor, em pleno 2026, ver que quase todo o lineup de 2 álbuns clássicos da discografia do mestre King Diamond, se reuniria para gravar um trabalho com o mesmo feeling daqueles longínquos anos, qual seria sua reação? Quando vi o lineup desta nova super banda realmente fiquei empolgado. Contando com o mestre Andy LaRoque (guitarra), Pete Blakk (guitarra), Hal Patino (baixo), Mikkey Dee (bateria) e o vocalista Nils k. Rue, a banda parece pronta para alçar voos grandiosos dentro da cena Heavy Metal mundial.

Nils K. Rue tem uma voz excelente para o que o Lex Legion se propõe a ser, com seu timbre que fica entre King Diamond e Biff Byford (Saxon), e sobre os instrumentistas nada mais precisa ser dito. O disco é curtinho, 9 faixas em pouco mais de 34 minutos de duração, sendo daqueles que ouvimos e nem sentimos o tempo passar.

A faixa de abertura, “Sleep Eternally” é a fusão perfeita entre King Diamond e Saxon, ou seja, Metal com um nível de pureza de um diamante. Mais uma vez, LaRoque é um mestre com seus solos alucinógenos. “Gyspsy Tears” não fica atrás e segue dando ao ouvinte aquela sensação de ouvir algo com tanto feeling e pegada bem Old School of Heavy Metal.

“When the Stars Align” perde um pouco do forte embalo inicial, mas nada que assuste ou desabone o trabalho como um todo. Mikkey Dee e LaRoque, são, pra variar, dois monstros que levantam a música que tem uma melodia um tanto quanto cansativa. “(I Am) the Resurrected” tem no seu início uma melodia que me lembrou um clássico dos The Rolling Stones, “Paint it Black”. Também tem um quê de Accept nela, realmente um destaque, talvez a melhor do trabalho. A fúria da guitarra de LaRoque está mais presente que nunca em “Life Eternal”, composição essa feita pra ele brilhar. Não tem como, missão dada é missão cumprida. “Dreams of Darkness” é a faixa onde Nils K. Rue tem uma performance realmente matadora, em certas passagens dá pra sentir um pouco da linha vocal de Ian Gillan, por exemplo. Indiscutivelmente, a faixa mais pesada do disco. Essa merecia ganhar um single.

O trio “Saviours”, “Life Eternal” e a bela instrumental “Far Away” fecham o trabalho com aquela levada que remete mais a fundo os trabalhos que fizeram lá em “Conspiracy” (King Diamond, 1989).

No geral, podemos concluir que qualquer uma das 9 faixas aqui inclusas, poderiam estar nos trabalhos mais clássicos de King Diamond, já que todas possuem aquele clima teatral, melódico, com cara de trilha sonora de filme de terror. Como o mestre King Diamond segue “nos enrolando” para lançar mais algum trabalho completo, o Lex Legion parece a solução perfeita para que gente do quilate de LaRoque brilhe intensamente. É tão bom quanto poderia ser? Talvez! Mas fato é, que quem curte boa música tem motivos de sobra pra ouvir Lex Legion. Então, cumpra sua parte e ouça! Vale a pena.

Mauro Antunes