DOWN
III: OVER THE UNDER
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
III: OVER THE UNDER
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
Após a estreia esfumaçada e canônica de "NOLA" (1995) e o denso e depressivo "Down II: A Bustle in Your Hedgerow" (2002), o hiato de cinco anos que antecedeu o terceiro capítulo da banda esteve longe de representar um simples descanso. Foi um período de sobrevivência. Entre a devastação causada pelo furacão Katrina, a perda irreparável de Dimebag Darrell, os problemas de saúde enfrentados pelos integrantes e uma longa batalha contra os próprios demônios, o Down tinha motivos de sobra para transformar dor em música.
E é exatamente isso que acontece em Over the Under.
Ao contrário do experimentalismo mais disperso do álbum anterior, "Over the Under" surge muito mais focado e coeso, sem perder um único miligrama da agressividade que sempre definiu o currículo de seus integrantes. O que se ouve é um verdadeiro rolo compressor de sludge sulista em alta voltagem. Estão presentes os riffs titânicos e viscerais com a assinatura inconfundível de Pepper Keenan, evocando momentos em que o peso dialoga diretamente com sua bagagem no Corrosion of Conformity, algo evidente na cadência magnética de "Beneath the Tides" e no soco no estômago que é "Three Suns and One Star".
Faixas como "Never Try" e "Her Majesty the Desert" revelam uma faceta mais melódica da banda, aproximando o grupo do blues e do southern rock sem abrir mão da intensidade. Afinal, no universo do Down, peso nunca depende de velocidade. Ele nasce de guitarras encorpadas, mudanças de andamento sutis e de uma construção que cresce de forma orgânica, sem recorrer às explosões previsíveis do tal metal moderno da época.
O grande diferencial do disco, porém, está em Phil Anselmo. Longe da agressividade quase incontrolável dos tempos de Pantera, o vocalista entrega uma de suas interpretações mais maduras e expressivas. Sua voz alterna entre melodias melancólicas, vocais rasgados e momentos quase confessionais, transmitindo desgaste, culpa, esperança e superação. Anselmo canta como quem está permanentemente numa linha tênue entre o colapso e a redenção. Isso fica evidente na arrastada "Pillamyd" e na contagiante "On March the Saints", um verdadeiro hino de perseverança após a tragédia do Katrina. Mais do que interpretar as letras, Anselmo parece viver cada verso, tornando impossível dissociar sua trajetória pessoal das emoções transmitidas pelo álbum.
Liricamente, Over the Under talvez seja o trabalho mais honesto do Down na sua discografia. O disco aborda sofrimento, perdas, vícios, frustrações e sobrevivência sem recorrer ao sentimentalismo fácil. A escuridão permeia praticamente todas as composições, mas sempre existindo um fio de luz de resistência — deixando de romantizar a dor, transformando tudo em combustível para seguir em frente, oferecendo uma visão profundamente humana sobre enfrentar as próprias cicatrizes.
O ápice dessa jornada atende pelo nome de "Nothing in Return (Walk Away)", uma obra-prima de quase nove minutos conduzida por guitarras impregnadas de blues, um padrão hipnótico de bateria e uma construção lenta que culmina em um clímax emocional devastador, encerrando o álbum de forma magistral.
Mais do que uma coleção de riffs memoráveis, Over the Under expande a identidade construída por seus antecessores sem soar repetitivo. O álbum reúne o impacto direto de "NOLA", a profundidade emocional de "Down II" e acrescenta uma maturidade adquirida através das marcas deixadas por um dos períodos mais turbulentos da história da banda — resultando num retrato sonoro da luta diária contra os próprios fantasmas.
Relançado no Brasil pela Shinigami Records, Over the Under ganha uma excelente oportunidade de ser redescoberto por uma nova geração de ouvintes e revisitado por quem já conhece sua força.
Um álbum sincero, pesado e emocionalmente devastador.
William Ribas


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