OS 40 ANOS DE "DANCING UNDERCOVER", O CLÁSSICO SUBESTIMADO DO RATT
Lançado em agosto de 1986, Dancing Undercover, o terceiro álbum de estúdio do Ratt, chegou às prateleiras em um momento em que o glam metal e o hard rock viviam sua era de ouro. Naquele ano, nomes como Bon Jovi (Slippery When Wet), Europe (The Final Countdown) e Poison (Look What the Cat Dragged In) disputavam o topo das paradas e a veiculação direta de seus clipes na MTV.
Seguir o sucesso colossal de "Out of the Cellar" (1984) e "Invasion of Your Privacy" (1985) — ambos venderam milhões e foram alguns dos pilares estéticos do movimento de Los Angeles, e se pararmos pra pensar, lançados de forma regular — não era uma tarefa simples. O Ratt estava no olho do furacão, sob pressão extrema da gravadora Atlantic Records e de seu management para repetir a dose de hits instantâneos como "Round and Round" e "You Think You're Tough".
Quatro décadas após sua chegada, Dancing Undercover ressurge não apenas como um retrato fiel da Sunset Strip nos anos 80, mas como um trabalho fascinante de transição: um disco que trocou parte do apelo comercial óbvio por uma abordagem mais rítmica, crua e melancólica, consolidando-se como um dos tesouros mais injustiçados da discografia da banda.
Para a gravação do álbum, que ocorreu nos lendários estúdios Village Recorders, em Los Angeles, o Ratt manteve a fórmula vencedora ao lado do produtor Beau Hill. No entanto, os bastidores escondiam turbulências.
Conforme relatado posteriormente pelo baterista Bobby Blotzer, a banda foi jogada no estúdio sob forte pressão contratual e de agenda antes mesmo de o material estar totalmente lapidado. Havia depósitos financeiros não reembolsáveis em estúdios caríssimos, o que obrigou o quinteto — formado por Stephen Pearcy (vocais), Robbin Crosby (guitarra), Warren DeMartini (guitarra), Juan Croucier (baixo) e Bobby Blotzer (bateria) — a compor e arranjar sob o cronômetro.
Ironicamente, essa urgência e tensão criativa forçaram o grupo a explorar novos caminhos. Enquanto os dois primeiros álbuns focavam em refrãos explosivos e riffs diretos, "Dancing Undercover" revelou um foco maior na melodia e "seriedade". A cozinha formada por Blotzer e Croucier ganhou um destaque impressionante, injetando um balanço quase "dançante" (daí o irônico título do álbum) à base pesada de guitarras.
O álbum abre com "Dance", escolhida como o primeiro single e cartão de visitas da era. Com um riff marcante de DeMartini e Crosby e um videoclipe de forte presença na MTV (que garantiu aparições até na cultuada série Miami Vice), a faixa estabelece o tom rítmico do disco. Ela não tem a audácia imediata de "Round and Round", mas compensa com um refrão astuto e uma batida contagiante.
Em seguida, "One Good Lover" e "Drive Me Crazy" mantêm a energia alta. A primeira destaca a assinatura vocal rouca e arrastada de Stephen Pearcy, enquanto a segunda acelera o tempo, mostrando a habilidade de Blotzer na bateria e solos cortantes que lembram o melhor do heavy metal tradicional fundido à atitude de rua de Hollywood. Nunca é demais lembrar que uma das principais influências do quinteto era o Judas Priest...
Um dos pontos altos do disco é "Slip of the Lip", uma faixa cheia de malícia que exibe a perfeita simbiose entre as guitarras gêmeas de DeMartini e Crosby — uma dinâmica que rivalizava diretamente com a de duplas lendárias do rock. Logo depois vem "Body Talk", uma das músicas mais pesadas e viscerais gravadas pelo Ratt, escolhida para a trilha sonora do filme "The Golden Child", no Brasil, " O Rapto do Menino Dourado", (1986), estrelado por Eddie Murphy.
Já a segunda metade do álbum mergulha em cortes profundos que os fãs mais dedicados consideram o verdadeiro coração do disco: "Looking for Love" e "7th Avenue" trazem uma atmosfera urbana e noturna, onde a técnica refinada de Warren DeMartini nos solos ganha espaço de destaque sem perder a pegada pop. "It Doesn't Matter" e "Take a Chance" mantêm a consistência da parceria de composições entre Croucier, Pearcy e DeMartini. O encerramento fica por conta de "Enough Is Enough", fechando o alinhamento de 34 minutos de duração com uma descarga direta de hard rock.
Uma curiosidade interessante sobre "Dancing Undercover" é a ausência intencional de uma power ballad tradicional. Na metade dos anos 80, o mercado era fortemente impulsionado por baladas que tocavam nas rádios FM e atraíam o público geral (como "Home Sweet Home" do Mötley Crüe ou "Alone" do Heart). O Ratt havia flutuado com baladas melancólicas antes, mas optou por manter "Dancing Undercover" inteiramente calcado em faixas de andamento médio e rápido, com foco na eletricidade do "rock street".
Essa decisão artística, somada a um leve cansaço do público com o excesso de bandas similares no mercado em 1986, fez com que o álbum não alcançasse os mesmos patamares estratosféricos de vendas imediatas de seus antecessores. Embora tenha estreado bem, alcançado o Top 30 da Billboard 200 e garantido mais um disco de Platina pela RIAA, representou o primeiro sinal de estabilização comercial para o grupo.
Outro ponto curioso e interessante de "Dancing Undercover" é sua capa. Na foto, os integrantes estão separados por linhas brancas. A vida inteira eu sempre vi isso como realmente linhas. No entanto, meu amigo Tarcísio Chagas me atentou para o simples fato de que as tais linhas, seriam carreiras de cocaína, numa clara alusão ao que acontecia internamente com o grupo.
Com o passar das décadas, a percepção sobre Dancing Undercover mudou drasticamente entre críticos e entusiastas do gênero. Se na época alguns torceram o nariz por achá-lo linear, hoje ele é frequentemente reavaliado como o álbum mais coeso e tecnicamente afiado do Ratt.
Envolvidos por uma produção cristalina típica da época, os arranjos de guitarra de Robbin Crosby e Warren DeMartini soam impecáveis, servindo de referência e influência para guitarristas de hard rock. Além disso, a sonoridade do álbum evitou cair na pieguice que arruinou comercialmente muitas bandas do gênero no final daquela década.
Completar 40 anos é celebrar a resiliência de um momento em que o Ratt, mesmo sob intensa pressão da indústria, recusou-se a soar genérico e entregou um disco intenso, cheio de atitude e eletricidade. Dancing Undercover permanece eternizado como um monumento à era de ouro de Los Angeles — um clássico atemporal que continua a convidar o ouvinte para a atmosfera, por vezes, sombria e magnética do hard oitentista.
Sergiomar Menezes
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