ALÉM DO CAOS E DA PRECISÃO - O LEGADO IMORTAL DE PEACE SELLS
Quarenta anos depois, Peace Sells... But Who's Buying? continua sendo uma viagem no tempo entre o vinil, a fita K7 e a fúria incontrolável de Dave Mustaine
Por William Ribas
É curioso ouvir esse álbum novamente por esses dias e perceber como ele me fez voltar no tempo. Peace Sells... But Who's Buying? foi justamente o primeiro disco do Megadeth que ouvi inteiro. E existe uma lembrança muito específica: eu ouvi em vinil.
Lembro da sensação do meu primo pegando o disco para tocar, ouvir aquele pequeno ruído antes de tudo começar e, segundos depois, ser atropelado pela explosão de riffs de “Wake Up Dead”. Hoje, ouvindo novamente, é impossível não voltar para aquele momento.
E tem mais uma história. Peace Sells... But Who's Buying? foi também o álbum que gravei em fita K7 para poder ficar ouvindo depois. A fita acabou sendo a maneira de levar aquele Megadeth comigo para casa.
Talvez por isso esse álbum tenha um peso diferente para mim. Existem discos que você respeita. Outros, você simplesmente gosta. E existem aqueles que, mesmo depois de quatro décadas, ainda parecem estar te desafiando. Peace Sells... But Who's Buying?, segundo álbum do Megadeth, é desses.
Quarenta anos depois, é cada vez mais visível que Mustaine entregou algo que o colocou em um patamar técnico absolutamente singular — um trabalho irregular, é verdade, mas lapidado por uma fúria e uma virtuosidade quase inacreditáveis. O álbum é a representação perfeita de uma banda em fase de transição e metamorfose. Há uma tensão constante entre o caos e a precisão cirúrgica em cada nota hipnótica do tracklist.
É curioso como a história do Megadeth costuma ser lembrada por discos como Rust in Peace, Countdown to Extinction e Youthanasia. É perfeitamente compreensível, mas essa visão acaba deixando um pouco na sombra um álbum que já mostrava uma banda com identidade própria, muito antes da formação Mustaine/Friedman/Ellefson/Menza se tornar aquela espécie de escalação definitiva dos fãs.
Peace Sells... But Who's Buying? não é um rascunho do que viria depois. O Megadeth trouxe para o estúdio uma veia quase progressiva e influências improváveis, que iam do jazz ao punk, tudo que mostra quão singular ele é dentro da discografia da banda.
“Wake Up Dead” deixa isso claro imediatamente. Riffs entrando e saindo, mudanças de andamento, as guitarras de Dave Mustaine e Chris Poland se alternando em solos e aquela bateria quase inquieta de Gar Samuelson. Tudo parece prestes a sair do controle, mas nunca sai. E a voz de Mustaine, longe de ser convencional, combina perfeitamente com essa atmosfera.
“The Conjuring” leva essa fórmula ainda mais longe. O baixo de David Ellefson tem presença e personalidade, enquanto as guitarras conseguem ser técnicas sem transformar a música em uma demonstração de habilidade. Esse é um dos grandes méritos do álbum — as músicas vêm antes da técnica.
E então aparece “Peace Sells” — a faixa-título é o maior exemplo dessa ousadia: construir um hino do metal pesado a partir de uma linha de baixo swingada, com balanço único, e uma letra que mistura política, sociedade e ironia foi um risco que pouquíssimos grupos teriam a capacidade de correr, quanto mais de transformar em clássico.
“Devil's Island” é aquele tipo de música que resume muito do que gosto no thrash: velocidade, peso, mudanças e riffs que parecem simples até você tentar entender o que está acontecendo. “Good Mourning/Black Friday” segue outro caminho, começando de maneira quase hipnótica antes de explodir em uma das passagens mais violentas do disco.
E ainda existe “My Last Words”, uma maneira brilhante de encerrar o álbum. A tensão da letra sobre roleta-russa cresce junto com a música. Verdadeiras tempestades de riffs e solos acrobáticos, onde o trabalho de Chris Poland e Mustaine injeta uma dose de adrenalina absurda, sendo um dos momentos mais memoráveis daquele primeiro Megadeth.
Gar Samuelson merece uma menção especial. Sua escola no jazz fusion aparece claramente na maneira como toca, acrescentando uma liberdade que ajudou a diferenciar o Megadeth de tantas outras bandas da cena.
Talvez seja isso que faça Peace Sells... But Who's Buying? continuar tão especial. É o retrato sem filtro de um talento bruto descobrindo o tamanho da própria força — o registro imperfeito de um gênio ferido que, mesmo tropeçando nos seus fantasmas e vícios, conseguiu erguer um dos pilares do thrash metal.



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