segunda-feira, 15 de junho de 2026

MOONSPELL - FAR FROM GOD (2026)

 


MOONSPELL
FAR FROM GOD
Napalm Records - Importado

Cinco anos podem parecer uma eternidade para uma banda com a trajetória do Moonspell. Obviamente, nesse período longe dos estúdios tivemos turnês, o belíssimo álbum ao vivo "Opus Diabolicum" e mais turnês (inclusive aqui no Brasil, no início de 2026), mas já era tempo de um novo trabalho dos portugueses.

Em uma época em que muitos artistas lançam músicas em ritmo quase industrial para alimentar algoritmos e manter relevância digital, o grupo capitaneado pelo vocalista Fernando Ribeiro escolheu o caminho oposto: esperar. E essa decisão parece ter sido fundamental para a construção de Far From God, um álbum que surge não apenas como sucessor de "Hermitage (2021)", mas como uma reafirmação de propósito artístico.

Ao longo de sua carreira, o Moonspell sempre transitou entre diferentes atmosferas. Houve momentos de agressividade extrema, fases marcadas pela melancolia gótica e experimentações mais introspectivas. Em "Far From God", porém, a sensação é de reencontro. Não com o passado em si, mas com a essência emocional que tornou a banda uma das maiores referências do gothic metal europeu.

O álbum parece construído sobre contrastes cuidadosamente equilibrados. Há peso. Há melodias. Há escuridão. Há romantismo. E há uma boa dose da melancolia característica da estética gótica. O resultado é uma obra que respira criatividade, sem a necessidade de excessos técnicos ou produções infladas para causar impacto. As composições apostam em atmosferas densas, onde guitarras carregadas dividem espaço com arranjos elegantes e vocais que alternam entre o grave característico de Fernando e momentos de maior intensidade emocional.

A abertura fica por conta das já conhecidas “Cross Your Heart” e da faixa-título, “Far From God”, ambas lançadas como singles. Elas dão um norte do que o álbum é: orgânico, de fácil assimilação e viciante.

“Biblical” se inicia com uma linha de baixo marcante e uma atmosfera sombria ao fundo. A faixa é carregada, pesada — não necessariamente pelo aspecto instrumental, mas pelo clima que a domina, trazendo consigo um ar de suspense que abraça a beleza da escuridão. Já “The Great Wolf in the Sky” celebra a emoção acima da conveniência e lembra por que o Moonspell continua ocupando um lugar tão especial. A cada nova faixa, existe a sensação de que cada elemento está exatamente onde deveria estar.

Liricamente, "Far From God" mergulha em territórios que sempre fizeram parte do imaginário da banda: amor, morte, espiritualidade e culpa. Entretanto, o tratamento dado a esses temas evita qualquer sensação de nostalgia. Vampiros, símbolos religiosos e criaturas noturnas aparecem menos como figuras fantásticas e mais como metáforas para desejos, perdas e conflitos humanos. É um disco que utiliza o fantástico para falar sobre emoções reais — algo perceptível em faixas como “Your Promise of Light” e “For the Love of Mortals”.

Algo que "Far From God" carrega consigo é uma aura constante de perigo, elegância e melancolia. Para quem espera peso — leia-se riffs pesados — pode esquecer. Eles estão aqui, mas surgem apenas em momentos específicos, quando a música realmente pede. O tracklist como um todo remete à capacidade que a banda sempre teve de criar música sombria sem abrir mão da personalidade. E talvez aí resida o maior mérito da obra: sua autenticidade.

A demonstração de que algumas chamas nunca deixam de arder vem com “Our Freedom to Fall”. Pesada, com andamento mais acelerado, a faixa entrega um excelente contraste entre agressividade e melancolia, como uma brutalidade escondida sob as sombras da noite. O álbum se encerra com “Reconquista”, abraçando o que o Moonspell fez de melhor nas faixas anteriores — um best of de "Far From God" dentro de uma única música: reafirmando que a escuridão e identidade continuam sendo um dos elementos mais fascinantes da discografia da banda.

Ao final, Far From God é apaixonante. Em época de Copa do Mundo, cabe a analogia perfeita: um golaço de Portugal!

William Ribas




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