quarta-feira, 10 de junho de 2026

LOST SOCIETY - HELL IS A STATE OF MIND (2026)

 


LOST SOCIETY
HELL IS A STATE OF MIND
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Quando o Lost Society lançou "Fast Loud Death" em 2013, poucos imaginariam que a banda finlandesa chegaria a um ponto em que elementos de metal moderno, música orquestral, rock alternativo e industrial coexistiriam dentro de um mesmo álbum. "Hell Is a State of Mind" representa justamente o capítulo mais ousado dessa transformação, um trabalho que abandona de vez qualquer vínculo com o thrash metal dos primeiros anos para mergulhar em uma identidade própria e ambiciosa.

Desde os primeiros momentos de "Afterlife", fica claro que o grupo não está interessado em seguir fórmulas previsíveis. Cordas grandiosas, riffs pesados, sintetizadores modernos e uma alternância constante entre vocais melódicos e agressivos criam uma atmosfera que serve como porta de entrada para um disco determinado a desafiar expectativas em seus 38 minutos de duração.

A presença da orquestração é um dos aspectos mais marcantes do álbum. Longe de funcionar apenas como um elemento decorativo, ela assume papel fundamental na construção das músicas. Faixas como "Blood Diamond" e a faixa-título demonstram como a banda encontrou uma maneira interessante de combinar peso contemporâneo com uma dramaticidade quase épica, evocando, em alguns momentos, a tradição finlandesa de criar passagens grandiosas e bombásticas.

Ao mesmo tempo, o álbum vive de contrastes. "Synthetic" surge como um verdadeiro laboratório sonoro, misturando guitarras esmagadoras, batidas eletrônicas, influências industriais e momentos cinematográficos em uma composição que pode soar fascinante ou caótica, dependendo da disposição do ouvinte. É justamente esse tipo de risco que define grande parte da experiência proposta pelo Lost Society neste trabalho.

O lado mais emocional aparece em "Is This What You Wanted?", uma balada melancólica e introspectiva que oferece um raro momento de vulnerabilidade dentro do álbum. Já "L'Appel du Vide" e "No Longer Human" exploram temas existenciais e reflexivos, ampliando a sensação de inquietação que percorre praticamente todo o tracklist. Existe uma constante dualidade entre luz e escuridão, esperança e decadência, humanidade e autodestruição.

Por outro lado, essa busca incessante por variedade também se torna o principal desafio do disco. Em vários momentos, as músicas parecem pertencer a universos completamente diferentes. "Dead People Scare Me (But the Living Make Me Sick)" aposta em uma abordagem mais direta e explosiva. Já "Personal Judas" mergulha em texturas eletrônicas e experimentações que nem sempre encontram um encaixe natural dentro do conjunto. Talvez seja exatamente isso que a banda busque: não se prender a rótulos, mas simplesmente ser identificada como Lost Society.

É justamente essa falta de uniformidade que torna "Hell Is a State of Mind" uma audição tão peculiar. Dificilmente você terá um amor à primeira vista. O álbum frequentemente lembra uma coleção de ideias gigantescas disputando espaço entre si. Algumas dessas ideias funcionam brilhantemente; outras parecem ainda estar em processo de amadurecimento.

Ainda assim, seria injusto ignorar a coragem artística demonstrada aqui. O Lost Society claramente recusou o caminho mais seguro. Em vez de repetir fórmulas ou tentar reviver os primeiros dias, a banda decidiu ampliar seus horizontes e explorar novos territórios.

O resultado é um disco imprevisível, mas também repleto de personalidade. "Hell Is a State of Mind" talvez não seja o álbum mais consistente da carreira do Lost Society, mas certamente é o mais audacioso. É uma obra construída sobre contrastes, conflitos e experimentações constantes. Alguns ouvintes enxergarão um mosaico criativo repleto de possibilidades; outros encontrarão um excesso de elementos competindo entre si. Em ambos os casos, uma coisa é inegável: o Lost Society continua evoluindo e recusando os limites daquilo que sua música pode ser.

William Ribas




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