terça-feira, 14 de novembro de 2023

GLENN HUGHES - 07/11/2023 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 

GLENN HUGHES
PERFORMS CLASSIC DEEP PURPLE LIVE
BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS
07/11/2023
Produção: ABLAZE Productions

Texto: Sergiomar Menezes
Fotos: Uillian Vargas

"I'm the last man standing". Essa foi uma das inúmeras frases marcantes que GLENN HUGHES, THE VOICE OF ROCK proferiu ao público na noite do dia 07/11/2023 no histórico palco do Bar Opinião em Porto Alegre/RS. E a cada nota tocada, cada performance executada, cada comunicação com o público e, principalmente, a cada entrega realizada pelo músico no auge dos seus 72 anos anos, essa certeza ficava ainda mais evidente. Glenn não precisa provar nada a ninguém, mas o que ele protagonizou ao lado de sua excelente banda, foi algo que deve (e vai) ficar na mente de cada uma das cerca de 1200 pessoas que compareceram a essa verdadeira celebração da música, e porque não dizer, da vida de um ícone do rock.

Desde cedo a expectativa do público era grande, visto que esse show havia sido cancelado por causa da pandemia. No entanto, para minha surpresa (felizmente) o público presente foi excelente. E o mais curioso, e bacana, foi ver a quantidade de "tiozões do rock" presentes, cantando todas as músicas, numa empolgação praticamente juvenil, como reza a cartilha do rock. Se fisicamente a idade já não é mais a mesma, o espírito continua jovem, liberto e cheio de disposição. E foi para esse público que às 21h, Soren Andersen (guitarra), Ed Roth (teclados) e o monstro Ash Sheehan (bateria) subiram ao palco e precederam a entrada do mestre. Não é preciso dizer que o público foi à loucura não é mesmo?

De cara, para mostrar que o jogo era fácil e já estava ganho (risos) "Stormbringer", faixa título do mais que clássico álbum lançado pelo Deep Purple em 1974, foi executada com maestria pela excelente banda. Um simpático e entusiasmado Hughes, mas também extremamente incomodado com os problemas técnicos em seu baixo, mostrou que apesar da idade (e do seria revelado) logo em seguida, continua com uma voz impecável. Obviamente que não podemos esperar a performance de 10, 20, 30 anos atrás. Mas basta fazer um leve exercício: qual outro vocalista passou por todos os perrengues que Glenn e está ainda na ativa cantando dessa forma? Logo em seguida, o vocalista/baixista agradece o público (a primeira de muitas vezes) e diz feliz por estar no palco novamente e emendam com "Might Just take Your Life", segunda faixa de "Burn", o melhor álbum do Deep Purple, também lançado em 1974. Confesso que ouvir as músicas desse álbum mexem com meu emocional, pois ainda que o quinteto inglês tenha excelentes discos, esse em especial, mostra a verdadeira face do grupo (ao menos para este que vos escreve).



"Sail Away", outra pérola presente m "Burn" veio na sequência, já com o problema no baixo quase resolvido. Digo quase por que um bem humorada Hughes soltou a seguinte pérola: "Porto Alegre! You're in my heart! But... there's someone in may back!", fazendo referência ao roadie que estava tentando resolver o problema e que acabou sendo solucionado. Mais uma grande performance da banda que seria coroada com a apresentação da faixa seguinte. "Porto Alegre, vamos relembrar California Jam"? E tem início "You Fool No One". Meus amigos... Que momento! Uma banda afiada, entrosada e coesa como poucas vezes se viu, principalmente quando não estamos falando de um "grupo", se é que me faço entender. Ed Roth, ainda que discreto, se mostrou mais que competente, com classe estilo e boa dinâmica de palco. Já Soren Andersen ("meu amigo desde os anos 70, nas palavras de Hughes), honrou como poucos as seis cordas empunhadas por Blackmore e Bollin. Mas o destaque da banda, sem dúvidas, é Ash Sheehan. O que esse cara toca é brincadeira! Como estávamos relembrando o "California Jam", houve ainda o insert de "High Ball Shooter" e o solo de bateria. Já adianto à todos que nenhum tipo de solo me atrai nos shows de rock e heavy metal. A não ser que seja de alguém extra classe. Mas o que esse cara fez foi fantástico. Um solo repleto de técnica e felling como poucas vezes vi. Com a volta dos demais integrantes, "You Fool No One" é encerrada e Glenn nos relata algo que era um tanto quanto perceptivo, mas que veio a ser confirmado por ele próprio.

"Gostaria de agradecer a todos e dizer que estou feliz em estar aqui. Mas eu estou muito doente. Esse show não ia acontecer. Mas eu sei que vocês estão aqui por minha causa. Vocês são a minha voz. Mesmo estando com problemas, eu não podia cancelar o show. Eu amo vocês!" Meus amigos... mesmo ardendo em febre, Hughes (que tomou alguns comprimidos durante o show) nos trouxe uma performance que deixa muito moleque saudável no chinelo. Pergunte para quem esteve lá! Depois dessa explicação, parece que o público, que já estava interagindo de forma consistente, decidiu apoiar ainda mais o vocalista, e o que se viu dali em diante foi uma troca de energia fantástica entre público/banda. Isso ficou ainda mais nítido em "Mistreated", uma das mais belas músicas já lançadas na história, e que "curiosamente" também está em "Burn"... Brincadeiras à parte, Glenn mostrou toda a potência de sua voz, que volto a lembrar, está muito bem obrigado! Bacana de olhar para os lados e ver todos cantando e sentindo a música. Coisas que só um show de rock/metal podem proporcionar.



Era chegada a hora de homenagear "my brother Tommy Bolin" e "Gettin' Tighter", faixa de "Come Taste the Band", álbum de 1975 do Deep Purple. Como é bom poder ouvir essas faixas tocadas de forma perfeita, num jeito clássico de tocar rock n' roll, sem que se precisa fazer uso de nenhum recurso externo. Então "You Keep on Moving", trouxe um dos mais belos momentos da apresentação. A química entre banda e público foi algo único. A interpretação de Hughes, sabendo de seu estado de saúde, só comprovou que o apelido "The Voice of Rock" só pode pertencer mesmo, a uma pessoa. Quanta entrega, sentimento e magia presentes durante a execução dessa música espetacular. Sem nenhum medo de errar, um dos mais lindos momentos já presenciados por mi em um show. Simplesmente fantástico.

Ao término da faixa, a banda agradece e um Hughes emocionado se despede do público. Admito que temi por realmente ser o fim do show, o que me deixaria um tanto quanto frustrado, pois ainda faltava, pelo menos, a música que eu não posso ouvir quando dirijo: "Burn". Mas após alguns poucos minutos, a banda retorna e detona esse clássico de forma visceral, sem muito papo. E um dos pontos mais legais disso foi que Glenn cantou apenas partes do refrão, principalmente os agudos, deixando sob a responsabilidade do público o restante da letra. e não fizemos feio! Dessa forma, chegava ao fim essa noite mágica e especial. Hughes agradece novamente ao público pela presença e pede desculpas por estar doente e não ter entregado mais. Não precisa pedir desculpas, mestre. A gente é que AGRADECE!

Quero aqui deixar meu agradecimento à ABLAZE Productions e ao Homero Pivotto Jr pelo credenciamento e cordialidade de sempre no atendimento à imprensa. Digo e não canso de repetir: In UNION WE STAND!



segunda-feira, 13 de novembro de 2023

INFESTATION - THE VERMIN WITHIN

 

INFESTATION
THE VERMIN WITHIN
MDPR - Importado

Existem certas coisas na vida que você sabe, mesmo antes de provar, que vai gostar. Um exemplo? Pizza. Tem um ditado que fala que pizza até quando é ruim é bom. Ao menos que você não goste de pizza. Há ressalvas na veracidade do ditado, mas o mesmo você pode aplicar para bandas de Thrash Metal vindas da Alemanha (ao menos que você não curta Thrash Metal germânico old school).

Comparações culinárias a parte, vamos falar do novo álbum "TheVermin Within” da banda Infestation, oriunda da cidade de Schaumburg. O quinteto estreia com este trabalho em treze faixas avassaladoras, de puro e violento Thrash Metal, como o estilo pede e como fora forjado há décadas passadas.

Obviamente, faixas como “Executioner", “Kill The Traitor”, “Ravage Unleashed”, “1,2, Fuck You” não são nenhuma fonte de originalidade, mas quem precisa ser original quando a sonoridade nos envia lá para os primeiros álbuns do Destruction e Sodom? Claro que existem algumas diferenças, um “blast beat” aqui e ali, mas num geral é aquela batida “tum-pá/tum-pá” tradicional da primeira leva thrasheira teutônica, riffs rapidíssimos e o vocal num misto de Tom Angelripper e Mille Petrozza .

O trabalho foi lançado agora em outubro de 2023, e já vai para a minha lista de melhores álbuns de Thrash Metal do ano. Se você se agradou das características listadas aqui, corra atrás para conhecer “The Vermin Within” do Infestation, pois a banda tem tudo para apontar como um novo nome expoente dentro do estilo.

José Henrique Godoy




sexta-feira, 10 de novembro de 2023

SIEGRID INGRID - BACK FROM HELL (2023)

 

SIEGRID INGRID
BACK FROM HELL (2023)
Rock Brigade Records/ Cogumelo Records/ Tumba Records/BC Noise Records/ Undergrind Recs/ Two Beers/ FuckitAll Records/ Lokaos/ Tu. Pank Records/ Cianeto Discos

Existem bandas que possuem uma grande relevância dentro do underground nacional. Seja pela sua qualidade musical, seja pela sua batalha dentro de um cenário na maioria das vezes hostil, seja por manter sua integridade ao longo dos anos. E o grupo paulista SIEGRID INGRID se encaixa perfeitamente nestes quesitos. Na luta desde 1989, o hoje quinteto chega ao seu terceiro full lenght (o grupo possui vários EPs, participações em coletâneas, entre outros lançamentos) e, como o próprio nome entrega, faz uma "volta do inferno", mostrando que a energia e agressividade da banda continua intacta. "BACK FROM HELL" nos apresenta dez faixas (sendo uma intro) onde podemos ouvir um grupo coeso, entrosado mas, acima de tudo, dedicado em fazer o seu melhor!

M. Punk (vocal), André Gubber (guitarra), L. Morales "Borô" (guitarra), Luiz Berenguer (baixo) e Herbert Loureiro (bateria) integram essa verdadeira lenda do underground brasileiro. M.Punk, figura emblemática da cena, é um sobrevivente e ícone, e mostra aqui que aquela ira e indignação dos primeiros anos continua a mesma. O trabalho conta ainda com algumas participações especiais como Rohh Krammer (Nephall), Henrique Fogaça (Oitão) e Mayara Puertas (Torture Squad). Depois de 24 anos, o grupo vol,tou ao estúdio sob a produção de Michel Oliveira, no Sputnik Studio, sendo q e os vocais foram gravados no Dual Noise Studio. A capa é obra do baterista Hebert Loureiro e teve seu complemento e lay out criados pelo experiente Wanderley Perna (Genocídio). Trazendo a sua já característica sonoridade, aliando de forma inteligente o Thrash, o Death, o Hardcore e o Grindcore, o quinteto traz um álbum maduro, brutal e agressivo!

A intro "Back From Hell", nos prepara para "Nojo", faixa que já havia sido disponibilizada anteriormente. Um verdadeiro tapa na cara de uma sociedade hipócrita, a letra aborda a romantização da humanidade em tempos difíceis, o que se mostrou uma verdadeira bobagem durante a pandemia. Uma mistura entre o Thrash e o Hardcore, numa sucessão de riffs viscerais e técnica, criaram uma das melhores faixas do trabalho. Na sequência, "In Search of Light", um petardo thrash, com guitarras que lembram bastante o Slayer em seu início, a faixa apresenta um andamento quase hipnótico, frenético, numa pegada bem típica, mostrando que o grupo não está pra brincadeira... Já "Drásticas Consequências" é aquele hardcore veloz, invasivo e repleto de fúria, com um pé no grindcore, uma praia que é sempre bem explorada pela banda. "Never Again", na opinião deste que vos escreve, a melhor faixa do álbum, também havia sido disponibilizada antes, traz o primeiro convidado: Rohh Krammer nos vocais. Que dueto foda entre M. Punk e Rohh! Além disso, as guitarras aqui ganham destaque por sua rispidez, ainda que mantenha a técnica em evidência. Um petardo, no sentido literal da palavra!

O "chef" Henrique Fogaça traz sua participação na poderosa "Fuck! I Hate You", outra pedrada na mente! O Siegrid Ingrid consegue manter toda sua raiva e agressividade intactas, abusando da velocidade, num excelente crossover entre o metal e o hardcore. É chegada a vez de Mayara Puertas mostrar sua brutalidade vocal em " Dead Inside", outro grande destaque do trabalho. Com passagens mais "groovadas", a composição revela uma faceta mais atual do grupo, trazendo à tona, a versatilidade do quinteto, que não prende aos limites impostos por nenhum estilo. E se falamos em velocidade e Hardcore, "Templo de los Vermes" mantém a adrenalina lá em cima, sem chance de respirar! É porrada em cima de porrada! "The Visionary" e "Suffocated" encerram o álbum de forma agressiva, sem nenhum tipo de concessão, mostrando e evidenciando ainda mais o poder de fogo da banda!

BACK FROM HELL é mais do que um álbum. É a redenção de uma banda que ressurge de forma vitoriosa, ainda que não precisasse provar nada a ninguém. Músicas fortes, poderosas e extremamente bem trabalhadas só fazem mostras que o SIEGRID INGRID não pode ficar mais tanto tempo sem gravar. O Metal nacional precisa (e como) de bandas assim!

Sergiomar Menezes




quarta-feira, 8 de novembro de 2023

ANGRA - CYCLES OF PAIN (2023)


ANGRA
CYCLES OF PAIN (2023)
Atomic Fire/Voice Music - Nacional

Um dos nomes mais esperados do ano para a cena já tinha nome. Desde quando foi anunciado em julho pelo Angra – uma banda que já alçou o status de instituição no metal brasileiro – “Cycles of Pain” consagrou-se como uma grande promessa. Inicialmente, por ser o mais novo trabalho do grupo desde Omni (2018) com a mesma formação, agora, mais estabilizada desde então. Em segundo ponto, o primeiro single relativo ao álbum em questão, “Ride Into de Storm”, colocou as expectativas em alta, pois a música, além de apresentar uma música de altíssimo nível e sonoridade impecável, jogou para os fãs várias referências históricas da banda no clipe, entre elas, o emocional momento de homenagem ao maestro André Matos, vocalista fundador do grupo, e, lamentavelmente, falecido em 2019.

Independente dos singles posteriores e de tudo que se cogitou (até mesmo tendenciosamente!) pelas redes sociais, finalmente chegou o momento em que a nova obra do Angra – formado por Fabio Lione (voz), Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) – chegou aos nossos ouvidos.

Neste momento, agradeço por uma determinada serenidade e resiliência musical a qual desenvolvi nos últimos anos. Não li ou assisti a nenhuma resenha do álbum antes de eu mesmo ter o meu momento com a obra, para poder analisar e resenhar, destituído de opiniões externas - algumas até bem acaloradas e polemicamente intituladas as quais passaram em constância pelo meu feed nos últimos dias. Assim, posso enunciar com extremo bom grado: “Cycles of Pain” é um dos melhores trabalhos do Angra, especialmente quando pensado sobre todas transformações pelo qual passou. Se o grupo ainda precisava alinhar-se em termos vocais, pois Fabio Lione constantemente foi julgado por não ter seu potencial vocal bem aproveitado, ou pelo fato de Marcelo Barbosa ainda precisar de identidade mediante o difícil encargo de ser substituto de Kiko Loureiro na guitarra – fiquem tranquilos. Este é um trabalho em que você escuta o Angra atual pelo o que o Angra atual quer mostrar, inclusive com destaque a esses dois músicos que justamente citei.

Se você espera escutar o Angra soando como “Angels Cry” (1993), “Holy Land” (1996), “Temple of Shadows” (2004) ou até mesmo similar ao último lançamento “Omni” (2018), sinto desapontar você. Ainda que possamos encontrar ressoares dessas épocas, “Cycles of Pain” é um álbum de ressignificação, de ressurgimento, de fim de um ciclo – doloroso, como o próprio título metaforicamente sugere – e marca um novo encaminhamento sonoro do grupo, bem mais progressivo do que power. Obviamente, a velocidade ainda está lá, assim com a brasilidade típica e a agressividade que colocou o grupo como um dos maiores expoentes do metal mundial, todavia, é visível que a essência do Angra neste álbum amadureceu para um contexto mais progressivo – talvez até pelo protagonismo de Felipe Andreoli na composição do disco ao lado do líder Rafael Bittencourt; afinal, não é segredo para ninguém a admiração e influência que o baixista tem pelo o estilo.

Produzido pelo americano Dennis Ward, o disco abre ao som de sinos e chuva, alegorias clássicas de um funeral. Coros em latim, órgãos de catedrais, a cerimônia começa com o introito chamado “Cyclus Doloris”, até conduzir o ouvinte à já conhecida “Ride Into The Storm”. A música que te induz em termos de letra e música a um atravessamento emocional e que fala de mudança e crescimento ("There is a way, I know. We change our forms and grow”) é, para este que vos escreve, uma das melhores músicas compostas pelo grupo. Com passagens agressivas, melódicas e sentimentais, o grupo entrega nessa progressão uma música forte em que o baixo de Andreoli e a guitarra de Barbosa brilham. Instrumentalmente, intocável.

Aos fãs do heavy Angra, “Dead Man on Display” rememora esse semblante clássico do grupo. Após a crescente intro, as guitarras em duelo de Bittencout e Barbosa mostram ao mundo uma das marcas mais típicas dos brasileiros. Lione também solta sua voz entre a velocidade e a ferocidade da faixa. Uma música em que tudo está ali: peso, melodia e virtuose. Uma faixa perfeita para seguir a audição após a pérola anterior.

O play segue em uma música dividida em duas partes (viés clássico de músicas progressivas): chamada de “Tides of Chances”. A primeira parte, acústica e mais curta, traz uma interpretação bem emotiva de Fabio Lione. Justamente sua voz é um dos destaques da segunda parte da música (a qual já havia sido apresentada em single), especialmente no refrão pegajoso e emotivo. Além disso, o trabalho de Felipe Andreoli no contrabaixo ganha novamente destaque e evidência. Certamente, uma das músicas mais memoráveis de “Cycle of Pain”. Um pormenor, no entanto, surge ao perceber que a voz da cantora Vanessa Moreno, chamada como participação especial, foi mal aproveitada na música. Ainda assim, ela participa de outra faixa a seguir no disco.

Falando em participações especiais, a próxima música intitulada de “Vida Seca”, traz o cantor pernambucano Lenine, uma referência do MPB e música regionalista. Como o nome da faixa sugere – até pela referência à icônica obra de Graciliano Ramos – trata-se do perpétuo sofrimento vivido pelo Nordeste brasileiro, e inicia com instrumentação típica do regionalismo nacional com a voz do cantor convidado narrando, em português, da dor e da agonia dessa população. Impossível neste ponto do álbum, não viajarmos para uma nostalgia sonora que havíamos aprendido a apreciar no “Holy Land”, pois a brasilidade e orquestração desse som, ainda que derive mais ao final a um prog estilo Dream Theater, é um dos pontos mais fortes do álbum.

E como o álbum está assumidamente calcado no solo do prog metal e, na frase acima eu falei de Dream Theater, “Gods of The World” tem um começo que remeteu ao grupo americano lá pelos anos 90, especialmente pelo teclado que poderia, com certeza, ter sido tocado pelo Kevin Moore. Contudo, a música envereda para um power metal tradicional que, apesar de bom, não traz nada de extraordinário. Uma faixa de menor destaque na minha opinião. Em seguida, temos a faixa título, “Cycles of Pain” uma balada emocional e que a banda destila sua potencialidade instrumental, trazendo novamente um refrão pegajoso e dramático, além da pegada progressiva. Destaque ao belíssimo solo de Marcelo Barbosa, um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade como toda certeza.

“Faithless Sanctuary” também traz uma intro com ritmos brasileiros, mais referentes à cultura indígena em questão, e embarca em um trabalho de cadência instrumental em que o brilhantismo rítmico do baterista Bruno Valverde vem à tona. Trata-se de mais uma faixa progressiva em que o ouvinte viaja por vários estilos, uma possível nova assinatura da banda. A próxima faixa, “Here In The Now”, traz um lindíssimo trabalho de cordas em sua abertura. A voz da cantora Vanessa Moreno dá a tônica à música, uma faixa de bela melodia e de refrão, mais uma vez, emocionante. Uma das melhores músicas do álbum, embora mais discreta e menos ousada.

Porém, a ousadia volta no vibrante power metal de “Generations War”, uma música veloz que lembra o Angra da fase “Rebirth”. Talvez o momento que mais alude ao espírito clássico e de metal melódico do grupo. Bateria veloz, guitarras dobradas, vocais em avante, solos épicos – tudo está lá. Se havia algum ouvinte desconcertado com a mudança de estilo do grupo, ele pode sossegar e ouvir esse som até cansar e entender que uma parte do velho Angra ainda existe – e com muita força!

O álbum encerra com a belíssima “Tears of Blood”, faixa que conta com participação da excepcional cantora Amanda Somerville - um nome bem conhecido na cena de heavy metal melódico. Ela e Fabio Lione promovem as linhas vocais mais belas da obra, abusando do lado soprano da americana e do barítono do italiano. Um fino presente entregue aos fãs da banda e do estilo, encerrando a obra do Angra com a devida excelência apresentada em todo percurso do disco.

“Cycles of Pain” é de fato uma obra de ressignificação, de ressurgimentos – e por que não? – reafirmação. O Angra é um dos nomes mais importantes do metal brasileiro e mundial, uma instituição, conforme disse ao começo dessa resenha, o que, fatalmente, vira uma vidraça para ser apedrejado por muitos. O grupo que enfrentou tantas transformações e mudanças em seu caminho em mais de 30 anos de estrada viveu muitas dores, e elas precisavam ser artisticamente elaboradas. O resultado dessa catarse está neste trabalho, um dos melhores da carreira do grupo e um dos melhores lançamentos do ano. Bravo e majestoso, um verdadeiro orgulho do metal nacional. Aos contrários, minha vez de polemizar: você precisa não entender nada de música ou ser muito teimoso para não perceber a extrema qualidade técnica que o Angra imprimiu aqui. A vida segue em frente, e após passar por ciclos, é exatamente o que a banda brasileira faz. Sugiro que muita gente devesse fazer o mesmo.

Gregory Weiss Costa






terça-feira, 7 de novembro de 2023

MACHINE HEAD - 29/10/2023 - TOKIO MARINE HALL - SÃO PAULO/SP

 

MACHINE HEAD
Abertura: PROJECT 46
Local: Tokio Marine Hall - São Paulo/SP
29/10/2023
Produção: HonorSounds

Texto: Mauro Antunes
Fotos: André Tedim (Metal na Lata/André Tedim Photography)


Nem sempre o domingo em São Paulo é para descanso após semana cheia. O Tokio Marine Hall não é uma casa propriamente bem localizada, para quem não mora na Zona Sul (este é o meu caso) a opção foi pegar um trem que felizmente possui uma estação a poucos metros da casa, já que como em todos os lugares, o preço do estacionamento é exorbitante e deixar o carro nas ruas não é propriamente, digamos, seguro! A chuva estava fina, porém intermitente o que atrapalhou um pouco a concentração dos fãs que se amontoavam nas barraquinhas de lanches e bebidas em frente à casa desde as primeiras horas do período vespertino daquela data.

Infelizmente como chegamos em cima da hora, deu pra conferir muito pouco do show do Project 46, banda paulistana que foi incumbida da abertura dos trabalhos de palco. Para a banda, poder se apresentar em um local com essas dimensões e com este público deve ser uma experiência fascinante. Com um som potente, moderno e revigorante e com uma “parafernália” de equipamentos de primeira linha, não tem como errar que o show do Project 46 foi perfeito para abrir a noite.



Enquanto esperávamos pelo show do Machine Head, a casa foi enchendo de forma que até me surpreendeu. Quando entramos, a fila estava pequena; com a chuva, o pessoal acabou deixando pra chegar em cima da hora e logo entrar na casa e pouco antes das 21hs, começou o show.

“Imperium” é a escolhida para abrir o set, faixa que ao longo da discografia da banda liderada por Rob Flynn, foi a que inseriu o Machine Head de volta às suas origens, já que é a faixa de abertura de “Through the Ashes od Empres” (2003), disco que é quase que o “Brave New World” deles, que os trouxe de volta ao Thrash Metal que os consagraram. “Ten Ton Hammer” é um clássico dos anos 90 (talvez o maior deles!), sucedida pela rápida “Choke on the Ashes of Your Hate” e que ao vivo foi capaz de mostrar o poderio de Flynn e os novos integrantes Wacław Kiełtyka (guitarra) e Matt Alston (bateria), este último uma máquina humana que mais parecia um polvo com 8 braços ou mais. Que performance!
“Now We Die” foi por mim uma das mais celebradas já que possuo uma ligação afetiva muito grande com o álbum “Bloodstone & Diamonds” (2014). Pulei e gritei nessa como um garoto de 18 anos. Quatro músicas e já estava exausto, mas sabia que muito mais ainda estava por vir.

O setlist seguiu e não pude deixar de perceber a variedade das escolhas e deu pra perceber que a apresentação não era propriamente uma divulgação do mais recente trabalho, “Øf KingdØm and CrØw” (2022), mas Flynn e cia. queriam marcar profundamente os corações dos headbangers que àquela altura lotavam o Tokio Marine Hall. Em certo momento, Flynn deu 4 opções para ao público para que escolhessem qual executar. Vejam as opções: “Seasons in the Abyss”, “Whiplash” e “Hallowed Be Thy Name” (essas aqui vou me furtar a dizer a quais bandas pertencem porque se você está lendo essa resenha, sabe e conhece muito bem esses hinos do metal); ah, e teve também “All the Small Things” do mais do que improvável Blink 182 (inclusive chegaram a tocar esta por alguns segundos e pasmem, ficou até bem legal!). A escolhida foi “Seasons in the Abyss” e vê-los tocando esta que é uma das mais técnicas que o Slayer já gravou ficou surreal. Pronto, ganhamos a noite mas a pancadaria estava longe de acabar.



Para minha surpresa até “Bulldozer” do disco não muito querido, “Supercharger” (2001) se fez presente em nossos ouvidos, com sua pegada a la Slipknot. Não posso negar: achei sensacional!

Quando estávamos por volta das 23:30hs e “Davidian” começou, vibrei mais uma vez como um garoto e decidi curtir aquele som como se não houvesse amanhã e não estava mais aguentando, afinal são 50 anos nas costas, mas para minha surpresa ainda teve outro hino “Halo” que me pareceu ter 714 minutos de duração já que estava completamente exausto.

Quando você é fã e conhece/tem tudo em material físico de uma banda com uma longeva discografia como aqui é o caso, você pensa nas faixas que gostaria de ter ouvido e claro, não ficarei no muro e incluo aqui hinos supremos como “Clenching the Fists of Dissent” e “Slaughter the Martyr”, estas duas talvez por terem mais de 10 minutos de duração, ou então “I Am in Hell”, Killers & Kings” ou então a polêmica “Bastards” (ah, essa eu queria de verdade!”), foi perceptível que o setlist passou por todos os trabalhos de Flynn e cia., até “Is There Anybody Out There?” que é apenas um single digital deu as caras no show. Surpreendente e incrível!


Esta foi a terceira passagem da banda por São Paulo e minha segunda presença, já que também estive em 2015 no Via Marquês. Incrível como o tempo parece não passar para algumas bandas, e para o Machine Head, isso é mais do que evidente., afinal Rob Flynn possui 56 anos de idade e fôlego de garoto. Quase 3 horas de duração, 20 músicas, a maioria delas de longa duração, não houve quem saísse triste ou decepcionado. Show grande, casa idem, banda idem, show longo, dá pra querer mais o quê? Quem foi curtir demais, quem não foi, perdeu..
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Em tempo, obrigado a MM Assessoria de Imprensa e Honorsounds pela parceria e credenciamento, respeito e confiança em nosso trabalho, e também ao Johnny Z. e André Tedim (METAL NA LATA) pelas fotos! In Union We Stand!