segunda-feira, 19 de outubro de 2026

THIN LIZZY - JOHNNY THE FOX 50 ANOS


 ESCRITO COMO SE NÃO HOUVESSE TEMPO A PERDER: OS 50 ANOS DE JOHNNY THE FOX

Do groove improvável de “Jimmy the Weed” à dor visceral de “Borderline”, o álbum onde o líder do Thin Lizzy tirou a armadura e fez a trilha sonora de nossas vidas

Por Fernando Aguiar

Escrito por um Phil Lynott doente e com pressa, gravado no meio de brigas e lançado à sombra de Jailbreak, o sétimo disco do Thin Lizzy completa meio século como o irmão “menos famoso”, e talvez o mais humano, da fase clássica da banda.

Para entender, precisa voltar para o começo de 1976. O Thin Lizzy tinha acabado de lançar "Jailbreak", em março, e pela primeira vez a coisa estava dando certo de verdade nos Estados Unidos. “The Boys Are Back in Town” tocava em todo lugar, a banda vinha abrindo para Aerosmith e Rush, e uma turnê americana com o Rainbow de Ritchie Blackmore estava marcada. Era o momento de virar gente grande na América. E foi exatamente aí que Phil Lynott caiu de cama com hepatite. A turnê foi cancelada, Phil voltou para o Reino Unido em junho e foi parar num hospital em Manchester.

Qualquer pessoa normal teria usado aquele tempo para descansar. Phil pegou papel e caneta e começou a escrever. Boa parte do que viria a ser Johnny the Fox saiu dali, de um sujeito doente, frustrado por ver o melhor momento da carreira escorrendo pelos dedos e decidido a não deixar a banda esfriar. Eu sempre acho que dá para ouvir isso no disco. Tem uma urgência ali, uma inquietação, que Jailbreak não tinha.

Em agosto, ainda se recuperando, Phil se juntou a Scott Gorham, Brian Robertson e Brian Downey para gravar, de novo com o produtor John Alcock, o mesmo de Jailbreak. As sessões começaram no Musicland, em Munique (que tinha a vantagem dos impostos tanto quanto a do som), mas logo voltaram para o Ramport, o estúdio do The Who em Londres, onde o disco anterior tinha sido feito.

E não foi um mês tranquilo. Ninguém estava satisfeito com o processo, conseguir um som de bateria decente virou novela, Phil ainda estava terminando de compor as letras e a banda brigava sobre o rumo musical. “Massacre”, segundo o próprio Alcock, foi escrita ali mesmo, no estúdio.


O atrito mais famoso, claro, foi entre Phil e Robertson. Quando Lynott apresentou “Don’t Believe a Word” pela primeira vez, ela era um blues lento, de doze compassos. Robbo, com a delicadeza que era a marca registrada dele, disse que aquilo era uma porcaria (a palavra original era bem menos educada). Phil ficou ofendido e simplesmente sumiu por alguns dias. Nesse meio tempo, Robertson se arrependeu de ter pegado pesado e foi com Downey retrabalhar a música: o baterista criou aquele shuffle acelerado, Robbo bolou o riff, e quando Phil voltou, gostou do que ouviu. A faixa saiu creditada só a ele, o que deixou Robertson irritado por anos. E a versão lenta não morreu: Phil a gravou com Gary Moore em Back on the Streets, de 1978.

Essa história resume bem o Thin Lizzy daquela época. Uma banda em que o conflito, quando dava certo, virava música boa.

Johnny the Fox chegou às lojas em 16 de outubro de 1976, apenas sete meses depois de Jailbreak. A capa, mais uma vez de Jim Fitzpatrick, tem aquela moldura de nós celtas que é uma das mais bonitas da discografia, e com um detalhe curioso: Fitzpatrick teve que entregar a arte antes de o disco ter nome.

“Johnny” abre o disco com peso e drama, Phil fazendo o que sabia como ninguém, que era transformar um personagem de rua em figura de lenda. “Rocky” vem na sequência, cheia de marra, e segundo Robertson foi escrita pensando nele. Faz todo sentido: é uma música sobre um rockstar convencido, e se tinha alguém naquela banda que se encaixava no perfil, era o escocês. Depois vem “Borderline”, que vou deixar para o final, pois essa merece espaço próprio. Aí “Don’t Believe a Word”, dois minutos e pouco de perfeição, provavelmente a melhor letra de “não confie em mim” que alguém já escreveu no hard rock. E fechando o lado, “Fool’s Gold”, com Phil voltando ao tema da Irlanda e da emigração, uma faixa grandiosa, que mostra o lado poeta e meio historiador dele.

Já “Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed” é o ponto fora da curva de toda a carreira do Lizzy: um groove meio funk, com metais, que soa mais como trilha de filme policial dos anos 70 do que como hard rock irlandês. Na época, muita gente torceu o nariz. Hoje, a faixa foi parar na coletânea Ultimate Breaks and Beats, aquela que os DJs de hip-hop usavam para garimpar batidas, o que diz muito sobre o ouvido de Downey e Gorham, que assinam a música junto com Phil.

“Old Flame” é o Phil cantor de rua, folk, com aquela melodia que gruda e uma doçura que só ele conseguia colocar sem soar meloso. “Massacre” é a pancada do disco, com as guitarras gêmeas a toda e um clima de urgência que justifica quem diz que Johnny the Fox é um dos álbuns mais pesados do Lizzy nos anos 70. “Sweet Marie”, parceria com Gorham, é uma balada linda que merecia ser muito mais lembrada.

E fechando, “Boogie Woogie Dance”, que costuma levar pancada de muita gente. Já li mais de uma resenha tratando a faixa como enchimento. Eu vejo de outro jeito. Depois de tanto drama, de personagens marginais, de emigração, de massacre e de coração partido, Phil termina tudo chamando a galera para a pista. É rock’n’roll de bar, sem pretensão nenhuma, com aquele balanço que o Lizzy tirava de letra. E tem algo de muito Phil nisso: o cara que escreveu o disco doente, numa cama de hospital, encerrando com um convite para dançar.


Comercialmente, o disco foi bem no Reino Unido: chegou ao 11º lugar e ganhou disco de ouro. “Don’t Believe a Word” saiu como single em novembro e bateu no 12º lugar por lá, e no segundo na Irlanda. Nos Estados Unidos, porém, o embalo de Jailbreak simplesmente não se repetiu. A turnê cancelada tinha custado caro.

E o azar continuou. Depois da turnê britânica de outubro e novembro (com uma banda americana chamada Clover abrindo, liderada por um tal de Huey Lewis), Robertson machucou feio a mão com uma garrafa numa briga de bar, atingindo artéria e nervo. A turnê americana foi adiada para janeiro de 1977, e quem segurou a guitarra no lugar dele foi Gary Moore. Johnny the Fox acabou sendo o último disco gravado com Robbo como membro pleno da banda do começo ao fim.

Ou seja: se o álbum não teve o mesmo tamanho de Jailbreak, foi por doença, por briga, por mão cortada e por timing. Nunca por falta de música. Ele costuma ser tratado como “o disco entre Jailbreak e Bad Reputation”, e isso sempre me incomodou. Para mim, Johnny the Fox é o Thin Lizzy no seu momento mais completo: pesado, variado, ousado, irlandês até a alma e liderado por um cara que tinha acabado de levar um susto com a própria saúde e escrevia como se não tivesse tempo a perder. Olhando hoje, sabendo como a história de Phil terminou, essa pressa fica ainda mais dolorida.


E agora, ela, a pérola escondida no meio da discografia da banda, que entre a marra de “Rocky” e a urgência de “Don’t Believe a Word”, “Borderline” é aquele tipo de música que você descobre meio sem querer e nunca mais esquece. Composta por Phil em parceria com Brian Robertson, é uma balada de coração partido com cheiro de country, guitarras chorosas e Lynott cantando como um cara sozinho no balcão de um bar, tentando entender onde foi que perdeu a mulher que amava. Não tem refrão para estádio, não tem riff para camiseta. Tem só verdade. Para mim, ela divide com “Still in Love with You” o posto de balada mais bonita e mais íntima que o Thin Lizzy já gravou. São duas músicas irmãs: as duas falam de um amor que acabou, mas que se recusa a ir embora, e nas duas Phil, o durão de jaqueta de couro, o rebelde de Dublin, tira a armadura e se mostra inteiro, frágil, sem pose nenhuma. A diferença é que “Still in Love with You” ganhou o mundo nos palcos, enquanto “Borderline” ficou guardada. Até onde se sabe, o Lizzy nunca a tocou ao vivo. O único registro dela fora do disco é uma aparição de Phil no Me and My Music, programa da RTÉ, a TV irlandesa, gravada em 15 de setembro de 1976, um mês antes de Johnny the Fox chegar às lojas, e exibida só em 2 de janeiro de 1977. Phil aparece sozinho, sem a banda, cantando em playback. Só ele, a música e aquela cara de quem está contando um segredo. Foi em casa, para os irlandeses, que ele apresentou “Borderline” pela primeira e única vez. Durante décadas ela ficou assim, um daqueles lados B que a gente mostra para os amigos com cuidado, quase como quem divide uma coisa íntima. Até que, em 16 de dezembro de 2022, no show beneficente Helping Hands, em Los Angeles, o Metallica, como de costume apresentou um set acústico e fez o que nem o próprio Lizzy tinha feito: tocou “Borderline” ao vivo. James Hetfield, que meses antes tinha entrado com o pedido de divórcio, cantou com aquela voz gasta de quem estava vivendo cada linha, e no final agradeceu a Phil Lynott por ter escrito uma música sobre a vida dele. Quando ouvi aquilo, eu entendi na hora. Porque é exatamente isso que “Borderline” é para mim também: a letra da minha vida. Tem música que a gente gosta, e tem música que parece ter sido escrita olhando por cima do nosso ombro, sabendo coisas que a gente nunca contou para ninguém. Phil não me conheceu, e mesmo se estivesse vivo a probabilidade de isso acontecer também seria mínima, e mesmo assim deixou ali, em quatro minutos e meio de um disco de 1976, tudo aquilo que eu um dia senti e não soube dizer. 

Cinquenta anos depois, uma canção que ele só cantou uma vez, em playback, numa TV irlandesa, ainda consegue colocar em palavras o sentimento de um headbanger do outro lado do planeta e a de outro que lota estádios no mundo inteiro. Obrigado, Phil por ter escrito a música da vida dele, e da minha também.



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