segunda-feira, 6 de abril de 2026

DREAM THEATER - LIVE IN TOKYO 2010 (2026)


DREAM THEATER
LIVE IN TOKYO 2010
Shinigami Records/Inside Out Music - Nacional


A série Lost Not Forgotten Archives vem trazendo muita coisa interessante para o fã de Dream Theater. Obviamente, estou falando daquele público longe do fanatismo — do ouvinte de álbuns de estúdio, que acompanha os lançamentos oficiais.

A banda abriu as gavetas de seus arquivos e, de tempos em tempos, despeja momentos únicos e curiosos, agora de forma oficial: demo tapes, shows em que prestaram tributos a álbuns clássicos na íntegra (leia-se bandas como Metallica, Deep Purple, Iron Maiden e Pink Floyd), além de registros próprios, capturados durante turnês de divulgação de seus trabalhos.

Live in Tokyo é um desses momentos únicos e especiais. Realizado no dia 8 de agosto de 2010, a data marca o fim da turnê do maravilhoso Black Clouds & Silver Linings — mas vai além disso. Após o encerramento da turnê, Mike Portnoy dava adeus ao Dream Theater.

Sim, esse “novo” ao vivo é a última dança de Portnoy antes de seu retorno em 2023. Um show que captura a banda no auge do seu “presente”: das seis músicas do tracklist, quatro pertencem justamente ao álbum que estava sendo promovido.

A abertura com “A Nightmare to Remember” e “A Rite of Passage” é um soco no estômago — peso e genialidade lado a lado. As linhas quebradas, o virtuosismo e o feeling de cada passagem são de arrepiar. Se em estúdio tudo já funcionava de maneira primorosa, ao vivo o nível sobe ainda mais, e a dobradinha “Wither” e “The Count of Tuscany” prova isso com sobras.

Para muitos, o grande “problema” do Dream Theater sempre foi James LaBrie. Sua voz é inconfundível, mas seu timbre, por vezes, incomoda. Aqui, porém, ele está em uma daquelas noites em que tudo se encaixa — como se os astros realmente tivessem se alinhado. O canadense entrega uma performance à parte. O material ainda traz “Prophets of War”, do antecessor "Systematic Chaos". O fechamento fica por conta de um medley que olha para o passado: “Pull Me Under” e “Metropolis”.

Mais do que um simples registro ao vivo, Live in Tokyo é um retrato de transição — o fim de uma era e o encerramento de um dos capítulos mais marcantes da história do Dream Theater. Um documento que captura a banda no auge técnico, emocional e criativo, pouco antes de uma mudança que redefiniria seus caminhos.

Aqui, não há apenas música — há história sendo tocada ao vivo.

William Ribas





EXODUS - GOLIATH (2026)

 


EXODUS
GOLIATH
Napalm Records - Importado

Poucas bandas no universo do thrash metal carregam tanto peso histórico e tanta bagagem acumulada quanto o Exodus. Fundado em 1979 em São Francisco, a banda foi um dos embriões da cena Bay Area, aquele caldeirão que trouxe o Metallica (não custa lembrar que Kirk Hammett veio de lá), o Slayer, o Megadeth e toda uma geração que redefiniu o heavy metal nos anos 80. O debut, melhor e maior clássico da banda, Bonded by Blood (1985), atrasado por problemas contratuais e trocas internas, chegou tarde demais para colher os frutos que merecia, mas com uma brutalidade que poucos discos da época ousavam. Quarenta anos depois, aquele atraso ainda dói um pouco, e talvez seja justamente esse ressentimento que mantém o Exodus com tanta fome de continuar sua saga.

O contexto que você precisa saber antes de ouvir:

Goliath não é só mais um disco. É um álbum carregado de decisões que mudam tudo o que você vai ouvir, se souber o que está rolando por trás.

A mais importante delas: pela primeira vez em toda a história do Exodus, Gary Holt não foi o único compositor. Lee Altus, que chegou junto com Dukes em 2005, assina quatro das dez faixas. Há também, letras escritas também pelo próprio Dukes e pelo baterista Tom Hunting. Algo realemente inédito. E faz diferença no resultado, pois Goliath soa menos como "um disco que Gary Holt escreveu quase tudo sozinho" e mais como trabalho de uma banda de verdade.

A mudança na produção também importa. A banda assumiu as rédeas dessa vez, com a mixagem e masterização nas mãos de Mark Lewis (conhecido por trabalhos com o Whitechapel e Nile) no lugar de Andy Sneap, parceiro de mais de três décadas. O resultado é mais orgânico e mais cru. As guitarras têm uma presença real. A bateria respira mais. No fim do dia, foi uma escolha que combina com o que o disco quer ser.

E para abrir o álbum, temos “3111”, que foi escrita por Lee Altus, ganhou notoriedade antes mesmo do lançamento, onde o clipe foi censurado e o YouTube ameaçou deletar o canal do Exodus por causa do clipe violento demais, então a banda criou um site próprio pra hospedar o vídeo. O título não é aleatório, 3.111 foi o número de homicídios registrados em Ciudad Juárez apenas no ano de 2010. A letra mergulha nessa realidade com imagens de praças ensanguentadas, sicários mascarados e cartéis controlando tudo enquanto os poderosos fecham os olhos. Há até versos em espanhol como: "trono de narco tortura" que dão à faixa uma crueza geográfica que vai além do thrash tradicional. Essa é a régua da temática do disco, brutalidade real, não ficção científica. A música começa com quase um minuto de introdução densa antes de explodir em thrash clássico de Bay Area. Riff bem construído, bateria certeira, Dukes soando agressivo e presente como sempre. Nem parece que ficou quase 12 anos fora da banda.

Já em “Hostis Humani Generis” (Inimigo da humanidade), é uma expressão latina usada historicamente para designar piratas e criminosos de guerra. É aqui que o disco realmente engrena. Tom Hunting abre na paulada, Holt e Altus se revezam em riffs que têm aquela urgência característica dos primeiros anos da cena. Dukes cospe as letras com aquela raiva genuína que conhecemos. É uma das faixas mais próximas daquela Exodus clássico dos anos 80, não por acaso, uma das mais fortes. Se você precisa de uma música pra convencer um amigo a ouvir Goliath, comece por aqui.

“The Changing Me” é uma grata surpresa no álbum. Após uma introdução que beira o groove moderno (ouvimos uma pitada de Machine Head aqui?) a faixa encontra seu caminho quando o baixo de Jack Gibson e a bateria de Hunting assumem o controle. A grande sacada aqui é o coro com vocais limpos e guturais que se sobrepõem em camadas, com Tägtgren (vocalista do Hypocrisy e Pain), dividindo o espaço com Dukes em uma troca visceral. A curiosidade é que Tägtgren já havia participado de Exhibit B (2010), na faixa The Sun Is My Destroyer. Que solo maravilhoso temos aqui, e o finale vem em um clima de death metal melódico surpreendente. Essa é uma das músicas mais experimentais que o Exodus já gravou e funcionou muito bem dentro da proposta do álbum.

E chegamos em “Promise You This”, que foi o último single liberado antes do lançamento oficial de Goliath e que traz um groove thrash direto. A letra é um manifesto de resiliência, homem de palavra, que apanhou, mas nunca se dobrou, que aprendeu com o pai que olho por olho é filosofia válida. Musicalmente, Dukes instiga a bagunça no verso, o refrão tem um tom um pouco mais simples e melódico, que dá uma forte impressão de ter sido inspirada no AC/DC, que são ídolos declarados da banda, além do solo de Holt que é um daqueles que lembram por que ele é considerado um dos maiores guitarristas do thrash metal. E foi este terceiro single que teve melhor recepção do público antes do lançamento.

Parafraseando Galvão Bueno (Haja coração amigo ), chegamos em “Goliath”. Essa é a faixa mais diferente não só do álbum, mas de toda a carreira da banda. O Exodus nunca tinha chegado tão perto do doom metal, e o próprio Gary Holt disse isso em entrevista. A faixa conta com a participação da violinista Katie Jacoby, que gravou dezoito faixas de cordas que transformam o que poderia ser um simples exercício de peso em algo genuinamente sombrio e teatral. O solo de guitarra contrasta com a lentidão do corpo da faixa de um jeito que vai crescendo a cada escuta. É a faixa que mais destoa de toda a agressividade e caos que o álbum traz, mas ainda assim, é corajosa e o Exodus nunca teve fama de covardia.

“Beyond the Event Horizon”: o ponto de não retorno ao redor de um buraco negro, além do qual nada mais escapa. A metáfora serve bem pra descrever o que acontece aqui, a faixa começa em velocidade máxima e vai te sugando pra dentro e aí você pensa: PQP, esse é o Exodus que eu quero P#@!aaa. A seção intermediária recua um pouco e abre espaço pra variações técnicas que mantêm a qualidade sem deixar a música cair de ritmo. Holt encerra com um solo épico e sem exagero. É a melhor faixa do disco e certamente minha favorita também. Ela consegue equilibrar aquele caos, agressividade e violência que só o Exodus sabe fazer.

O título de “2 Minutes Hate” diretamente de 1984, de George Orwell, o ritual diário em que a população era obrigada a direcionar ódio ao inimigo do Estado. A letra não esconde a referência: Big Brother, polícia do pensamento, memórias apagadas, conformidade forçada. "Guerra é paz, ignorância é força, liberdade é traição", os slogans do totalitarismo orwelliano reaparecem aqui traduzidos em agressividade do thrash metal. Os vocais em coro na reta final que vão funcionar muito bem ao vivo. Tem o espírito do Shovel Headed Kill Machine (2005), crua, agressiva e sem firula.

“Violence Works” abre com um riff que se destaca no contexto do álbum, mais marcado, mais denso e vai evoluindo ao longo da faixa. O refrão traz uma das melhores performances vocais de Dukes em todo o disco, e a ponte groovada antes do solo cria um respiro bem-vindo antes de Holt explodir de novo. É uma daquelas músicas que ficam melhores conforme você vai ouvindo mais vezes.

E chegamos em “Summon of the God Unknown”, a faixa mais ambiciosa de Goliath com seus quase oito minutos, ela tem uma estrutura épica, clima ritualístico e denso. Começa lenta, vai construindo por três minutos antes de acelerar, equanto Dukes varia entre seu vocal rasgado característico e linhas mais melódicas que mostram um alcance que muita gente nem imagina e associa a ele. O solo na reta final é o pico emocional, muito bem elaborado, épico, perfeito. Quem cresceu ouvindo o Exodus vai reconhecer a ambição das faixas longas de Exhibit A e sentir que essa aqui está à altura.

E finalmente chegamos em “The Dirtiest of the Dozen”, com letra escrita por Tom Hunting e isso diz muito sobre como esse disco foi feito de forma diferente. É uma celebração dos mais de quarenta anos de estrada do Exodus, com a energia de quem sabe que ainda tem muito o que contribuir para o metal. Começa acelerada e termina acelerada, o detaque vai para os solos duais harmônicos de Holt e Altus, que lembra muito o dueto que fizeram em Karma’s Messenger, e há também um breve espaço pra Jack Gibson sua habilidade na condução do baixo e Dukes encerrando cuspindo veneno. É o tipo de final que faz você querer apertar play de novo desde o começo.

Goliath certamente não é o melhor disco do Exodus, mas quem conhece a discografia inteira sabe que "Bonded by Blood", "Tempo of the Damned" e a trilogia Dukes dos anos 2000 tem um nível altíssimo. É um disco muito honesto, corajoso e o que mais importa é que o disco que soa como uma banda que ainda tem fome de verdade, não como um grupo aproveitando o legado pra rodar o circuito de festivais com o cruise control ligado.

O retorno de Rob Dukes trouxe de volta aquela energia característica que só ele tem. A abertura criativa pra Lee Altus e os outros membros contribuiu para sonoridades que o Exodus nunca havia explorado. E a coragem de fazer uma faixa-título doom com violino, sem pedir desculpa pra ninguém, é o tipo de atitude que faz uma banda durar quarenta anos sem virar caricatura de si mesma.

Fernando Aguiar




REBEL ROCK OPINIÃO - SEPULTURA

 


REBEL ROCK OPINIÃO - SEPULTURA


Sepultura: O final agonizante de um gigante que perdeu a alma


Por Jay K.

Quando o Sepultura anunciou, em dezembro de 2023, que encerraria suas atividades após uma turnê de despedida de 18 meses, a reação da comunidade metálica foi um misto de reverência e alívio. Reverência porque, afinal, estamos falando da maior instituição do metal sul-americano, uma banda que colocou o Brasil no mapa da música pesada mundial. Alívio porque, para muitos de nós que acompanhamos a trajetória do grupo desde os primórdios, o Sepultura já havia morrido há muito tempo. O que estamos testemunhando agora, com o fim marcado para o final de 2026, é apenas o desligamento dos aparelhos de um paciente que estava em estado vegetativo comercial há quase três décadas.

Não me entendam mal. Andreas Kisser é um guitarrista excelente, Paulo Jr. manteve a banda em pé como o único membro desde 1984, e Derrick Green é um vocalista competente que enfrentou o desafio mais difícil do metal: substituir um ícone. Mas a verdade é simples: o Sepultura sem Max Cavalera virou uma banda menor, vivendo das glórias de um passado que não consegue mais repetir.

Vamos deixar os sentimentos de lado e olhar para os números, porque os números não mentem. Eles mostram a realidade sem romantismo.

Na era Max Cavalera, o Sepultura era um rolo compressor comercial e criativo. O ápice dessa trajetória foi Roots (1996), um álbum que não apenas redefiniu o metal dos anos 90, mas que alcançou a posição #27 no Billboard 200 e conquistou certificações de platina em múltiplos países. A banda acumulou discos de ouro e platina em países como França, Austrália, Estados Unidos e, claro, Brasil. Eles não eram apenas uma banda de metal; eles eram um fenômeno cultural que ditava tendências.

Aí veio a ruptura no final de 1996. Max saiu, Derrick entrou, e o que aconteceu a seguir foi uma das quedas comerciais mais brutais da história da música pesada.

O primeiro álbum da nova era, Against (1998), alcançou a posição #25 no Billboard 200 e vendeu cerca de 130 mil cópias nos Estados Unidos. Uma queda brusca em relação a Roots, mas ainda números significativos para uma banda em transição. No entanto, a sangria não parou por aí. Nation (2001) caiu para a posição #40 nas paradas. Quando chegamos a Roorback (2003), o Sepultura desapareceu completamente das paradas americanas, saindo do top 40 e nunca mais voltando. Desde então, nenhum álbum de Derrick Green conseguiu entrar no top 100 do Billboard 200.

A partir daí, a trajetória comercial do Sepultura desabou. Álbuns como Dante XXI (2006), A-Lex (2009) e Kairos (2011) não conseguiram espaço nas paradas internacionais. Mesmo trabalhos elogiados pela crítica recente, como Machine Messiah (2017) e Quadra (2020), não conseguiram recuperar a relevância nas paradas. Para colocar isso em perspectiva: nenhum álbum de Derrick Green entrou no top 40 desde 2001. Isso é um quarto de século de irrelevância comercial nas paradas.

Mas as paradas são apenas parte da história. Quando você olha para o Spotify, a diferença fica ainda mais clara. As quatro músicas mais ouvidas do Sepultura na plataforma são todas da era Max Cavalera. Roots Bloody Roots (1996) sozinha tem 131 milhões de reproduções. Refuse/Resist tem 62 milhões. Territory e Ratamahatta têm 51 e 45 milhões de reproduções. Só essas quatro faixas somam 290 milhões de reproduções.

Agora compare com os álbuns inteiros da era Derrick Green: Against (1998) tem 6,4 milhões de reproduções, Nation (2001) tem 6,4 milhões, Roorback (2003) tem 3,3 milhões, Dante XXI (2006) tem 3,9 milhões, A-Lex (2009) tem 3,3 milhões. Mesmo os álbuns mais recentes e elogiados não conseguem acompanhar: Machine Messiah (2017) tem 18,1 milhões e Quadra (2020), o melhor deles, tem 23,1 milhões de reproduções. O álbum Roots (Expanded Edition) sozinho acumula 174 milhões de reproduções. Ou seja, um único álbum de Max tem 7 vezes mais reproduções que o melhor álbum de Derrick Green.

Os críticos especializados também contam a mesma história. Enquanto a era Max Cavalera foi sempre elogiada, a era Derrick Green recebeu críticas fracas ou negativas. Roorback (2003) foi criticado como "decadência decepcionante" e "sem inspiração". Nation (2001) recebeu nota 69 no Metacritic. Apenas Quadra (2020) conseguiu uma nota boa (83), sendo descrito como "o primeiro álbum do Sepultura em décadas que se compara aos clássicos". Ou seja, levou 22 anos para Derrick Green fazer um álbum à altura dos clássicos de Max.

E se você acha que as paradas e o streaming não refletem a realidade, basta olhar para os shows. Na era Max, o Sepultura enchia estádios. Há diversos relatos de shows lotados em grandes casas de show. Na era Derrick Green, a história é bem diferente. Em 2023, um show do Sepultura em Brisbane, Austrália, teve apenas 200 pessoas em uma sala de tamanho médio. A banda que antes enchia estádios agora luta para preencher salas pequenas?

Há também a questão da influência cultural. Roots é frequentemente citado como influência em bandas como Gojira e no surgimento do folk metal e metal tribal. Igor Cavalera, em entrevistas recentes, discute como Roots fez bandas de metal olharem para suas próprias raízes culturais. O álbum aparece regularmente em listas de "best of" do metal. Não existe nenhuma discussão similar sobre os álbuns de Derrick Green. Nenhum deles gerou impacto cultural comparável ou influenciou uma geração de bandas.

E o que a banda tem feito nestes últimos anos de vida? Lançou a turnê "Celebrating Life Through Death", prometendo gravar 40 faixas ao vivo em 40 cidades diferentes. Anunciou um EP final de quatro faixas, The Cloud of Unknowing, para abril de 2026. E, mais recentemente, protagonizou mais um capítulo da novela familiar que assombra a banda: convidaram Max e Iggor Cavalera para participar do show final, convite este que os irmãos prontamente recusaram, afirmando que "não querem fazer parte disso".



É irônico, né? A banda que passou décadas tentando provar que era maior que seus fundadores, no apagar das luzes, tenta desesperadamente trazer de volta a alma que perdeu em 1996 para validar seu próprio funeral. E a recusa dos irmãos Cavalera é o prego final no caixão de uma reconciliação que os fãs sonharam por 30 anos.

O Sepultura que está encerrando agora é uma banda de músicos bons, profissionais que mantiveram tudo em pé com muito trabalho e dedicação. Eles merecem respeito por não terem desistido quando ninguém mais acreditava. Mas o Sepultura que mudou a história da música, o Sepultura que assustava pais e inspirava uma geração inteira de garotos a pegar em guitarras, esse Sepultura morreu no dia em que Max Cavalera saiu pela porta.

O que estamos vendo agora não é uma celebração de vida através da morte. É apenas o atestado de óbito de um gigante que passou as últimas três décadas tentando convencer a si mesmo de que ainda estava vivo. Descanse em paz, Sepultura. A cova já estava aberta há muito tempo.





SAVATAGE - POETS AND MADMEN 25 ANOS

 


POETS AND MADMEN - 25 ANOS 


Por William Ribas

Muito do que ouvi na adolescência, sigo escutando até hoje — mesmo já tendo passado dos 40 anos. Aquilo que eu via na Rock Brigade, aquelas capas que chamavam atenção nas lojas de CD, tudo isso ainda segue firme aqui na estante. Poets and Madmen, do Savatage, foi exatamente um desses álbuns que bati o olho na arte e simplesmente pirei. Li a resenha, e a curiosidade só aumentava.

Naquele início de 2001, eu já conhecia trabalhos como "Edge of Thorns", "The Wake of Magellan" e a coletânea dupla "From the Gutter to the Stage" — ou seja, já entendia bem a identidade da banda. Mas ali havia algo diferente: era um novo capítulo, novas músicas, e principalmente a ausência de Zak Stevens, com Jon Oliva reassumindo completamente os vocais.

Hoje, 25 anos depois, o disco continua soando incrivelmente atual para mim. O peso ainda impacta, a teatralidade continua envolvente, e aquelas linhas vocais cheias de camadas — alternando entre momentos intensos e passagens mais calmas — ainda conseguem provocar a mesma sensação de descoberta. É como se, a cada play, tudo voltasse a ser ouvido pela primeira vez.

A abertura com a trinca “Stay With Me Awhile”, “There in the Silence” e “Commissar” já coloca o Savatage em um de seus momentos mais pesados e sombrios. Há uma densidade emocional muito forte nessas faixas, com arranjos que equilibram agressividade e melancolia de forma magistral — algo que sempre foi marca registrada da banda, mas que aqui ganha um peso quase dramático, potencializado pela interpretação de Jon Oliva.
Jon canta com emoção crua — muito disso vindo da dor que ainda ecoa pela ausência de Criss Oliva. Não é apenas técnica: é sentimento exposto, é cicatriz aberta, que em alguns momentos pode levar o ouvinte às lágrimas, como na faixa “Morphine Child”. Cheia de mudanças de andamento, a calmaria caminha lado a lado com as guitarras pesadas de Chris Caffery, tornando essa fase do Savatage algo único dentro da própria discografia do grupo.

Por outro lado, há momentos em que o álbum resgata com força a veia mais direta e pesada dos anos 80. Faixas como “I Seek Power”, “Drive” e “Man in the Mirror” remetem imediatamente à energia de Power of the Night e Hall of the Mountain King, trazendo um heavy metal mais “visceral” — quase como um elo entre o passado e o presente da banda dentro de um mesmo disco. Ainda nesse encontro, “The Rumor” surge como um momento especial: violão, voz e Al Pitrelli solando de forma brilhante, unindo feeling, velocidade e um instrumental cadenciado na medida certa.

A cozinha comandada por Johnny Lee Middleton (baixo) e Jeff Plate (bateria) se encarrega de trazer bastante groove, principalmente em “Man in the Mirror” e “Awaken”. O disco segue de maneira bastante uniforme dentro da característica do Savatage até chegar ao seu ápice com “Back to a Reason”. E aqui, quase como uma regra não escrita: quando há piano e voz, o Savatage raramente erra.

A faixa cresce de forma orgânica, camada por camada, com um refrão grudento que abre as portas para uma grandiosidade emocional. Toda a genialidade explorada em álbuns passados parece se fundir aqui — ecos da sofisticação de Queen, combinados com o peso do heavy metal, harmonias vocais ricas e um encerramento que traz calmaria após a tempestade. Um momento simplesmente ímpar dentro da discografia.

Poets and Madmen é, até aqui, o último suspiro do Savatage em estúdio. São 25 anos sem um novo lançamento — uma espera longa demais para uma banda desse tamanho. Um silêncio que pesa… e que, sinceramente, já passou da hora de ser quebrado.



quinta-feira, 2 de abril de 2026

NERVOSA - SLAVE MACHINE (2026)

 


NERVOSA
SLAVE MACHINE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Quantas vezes você já viu pessoas chamando a Prika Amaral de Dave Mustaine? Várias, né? Mas, após a audição de Slave Machine, fica claro que a possível chacota é, na verdade, um grande adjetivo para a líder. A Nervosa vem se reconstruindo após 2020 — nesses últimos seis anos, foram dois álbuns; o terceiro chega nesta Sexta-feira Santa.

Eu diria que o apocalipse chega perto neste dia 3 de abril, pois o que as meninas fizeram vai arrancar cabeças e fazer tímpanos sensíveis sangrarem.

Estou na terceira audição do álbum, o pescoço já está pedindo arrego e o volume aumentando. Possivelmente, o álbum mais maduro dentro da trajetória de pouco mais de quinze anos do grupo. Prika encontrou uma verdadeira parceira para dividir as responsabilidades. Helena Kotina divide os riffs com a líder, mas, a cada nota dos solos e passagens mais melódicas, fica evidente que a evolução da Nervosa também passa por ela — um pilar dentro desse caos sonoro.

Se em "Jailbreak" tínhamos a novidade, agora temos a consagração. Prika… aqui ela se firma de vez. Não está mais “testando” os vocais — ela domina. Os gritos são sufocantes, carregados de tensão, quase desesperadores. Há raiva e identidade. A abertura com “Impending Doom” já deixa claro o recado: não há espaço para respiro. A introdução cresce de forma ameaçadora até explodir em riffs cortantes e uma bateria esmagadora, preparando o terreno para um álbum que não pede licença — passa por cima como um caminhão desgovernado.

É interessante que, por contar com diversas nacionalidades dentro da banda, a sonoridade remete a vários nomes clássicos: Sepultura (fase Beneath the Remains e Arise), Exodus, Kreator e Sodom. Mas, ao mesmo tempo, quando se olha para dentro da própria discografia, a densidade e a brutalidade com que as faixas avançam remetem diretamente a Downfall of Mankind. Aqui, porém, tudo soa mais afiado, mais consciente — menos instintivo, mais calculado, sem perder agressividade.

A faixa-título carrega riffs secos, bateria esmagadora e um refrão que não te conquista — te atropela. É pesada, direta e com uma das melhores performances vocais do disco. Em “Ghost Notes”, a banda mostra inteligência: diminui levemente o ritmo, traz groove e trabalha mais o clima. Perde brutalidade — ganha profundidade e peso.

A cozinha também cumpre papel fundamental. A bateria de Michaela Naydenova é precisa e intensa, sustentando tanto os momentos mais velozes quanto os trechos mais arrastados com firmeza. Já o baixo, dividido entre Hel Pyre e Emmelie Herwegh, adiciona densidade ao som, reforçando a base sem se perder na mixagem.

“Beast of Burden” é thrash na jugular. Aqui mora aquela escola clássica oitentista, mas com identidade própria. “You Are Not a Hero” quebra a sequência óbvia: tem construção, tem um refrão forte e uma crítica direta. Fará um verdadeiro pandemônio nos shows, caso entre no setlist. “Hate” é imediata — sem firula, sem rodeio, com uma dose extra de agressividade. Prika varia os vocais com naturalidade. Quase um crossover perfeito — musicalmente, o álbum passeia por diferentes nuances dentro do metal extremo. Há espaço para o peso tradicional do thrash, incursões sombrias que tangenciam o black metal e até momentos mais cadenciados e cheios de groove.

Essa diversidade não fragmenta o disco — pelo contrário, contribui para uma audição mais rica e menos previsível. Por exemplo, “The New Empire” escurece o clima. Aqui, a coisa fica mais densa, mais pesada no sentido atmosférico. Há uma tensão diferente no ar. “30 Seconds” é um dos pontos mais interessantes do disco. O refrão foge do padrão, quase hipnótico, e mostra que a banda não está presa a uma fórmula. É onde digo que a banda amadureceu: não há tanta necessidade de pisar no acelerador; existe beleza nos momentos mais lentos.

“Crawl for Your Pride” é uma pancada curta — rápida, agressiva e sem espaço para pensar, só reagir. No caso, é ir para o moshpit. “Learn or Repeat” é caos controlado: alterna velocidade e pequenas pausas, mantendo a tensão lá em cima o tempo todo. “The Call” vem como um grito de urgência — é pressão contínua, como se a música estivesse correndo contra o tempo.

Liricamente, Slave Machine aponta para um mundo em colapso moral e psicológico. As letras abordam controle, alienação e manipulação coletiva, sempre com um tom crítico e direto. Não há sutileza na mensagem — e nem precisa haver. A proposta é confrontar, provocar e incomodar.

O fechamento com “Speak in Fire” é perfeito. Em vez de acelerar, a banda arrasta o peso. Fica mais denso, mais sufocante, mais sombrio. É aquele final que não explode — te esmaga devagar, a cada nota despejada.

No fim das contas, Slave Machine não apenas reafirma a relevância da Nervosa — ele escancara uma banda que segue em plena evolução, refinando sua identidade e expandindo suas possibilidades sem abrir mão da própria essência. Um trabalho sólido, brutal e, acima de tudo, consciente do próprio poder.

William Ribas