EXODUS
GOLIATH
Napalm Records - Importado
GOLIATH
Napalm Records - Importado
Poucas bandas no universo do thrash metal carregam tanto peso histórico e tanta bagagem acumulada quanto o Exodus. Fundado em 1979 em São Francisco, a banda foi um dos embriões da cena Bay Area, aquele caldeirão que trouxe o Metallica (não custa lembrar que Kirk Hammett veio de lá), o Slayer, o Megadeth e toda uma geração que redefiniu o heavy metal nos anos 80. O debut, melhor e maior clássico da banda, Bonded by Blood (1985), atrasado por problemas contratuais e trocas internas, chegou tarde demais para colher os frutos que merecia, mas com uma brutalidade que poucos discos da época ousavam. Quarenta anos depois, aquele atraso ainda dói um pouco, e talvez seja justamente esse ressentimento que mantém o Exodus com tanta fome de continuar sua saga.
O contexto que você precisa saber antes de ouvir:
Goliath não é só mais um disco. É um álbum carregado de decisões que mudam tudo o que você vai ouvir, se souber o que está rolando por trás.
A mais importante delas: pela primeira vez em toda a história do Exodus, Gary Holt não foi o único compositor. Lee Altus, que chegou junto com Dukes em 2005, assina quatro das dez faixas. Há também, letras escritas também pelo próprio Dukes e pelo baterista Tom Hunting. Algo realemente inédito. E faz diferença no resultado, pois Goliath soa menos como "um disco que Gary Holt escreveu quase tudo sozinho" e mais como trabalho de uma banda de verdade.
A mudança na produção também importa. A banda assumiu as rédeas dessa vez, com a mixagem e masterização nas mãos de Mark Lewis (conhecido por trabalhos com o Whitechapel e Nile) no lugar de Andy Sneap, parceiro de mais de três décadas. O resultado é mais orgânico e mais cru. As guitarras têm uma presença real. A bateria respira mais. No fim do dia, foi uma escolha que combina com o que o disco quer ser.
E para abrir o álbum, temos “3111”, que foi escrita por Lee Altus, ganhou notoriedade antes mesmo do lançamento, onde o clipe foi censurado e o YouTube ameaçou deletar o canal do Exodus por causa do clipe violento demais, então a banda criou um site próprio pra hospedar o vídeo. O título não é aleatório, 3.111 foi o número de homicídios registrados em Ciudad Juárez apenas no ano de 2010. A letra mergulha nessa realidade com imagens de praças ensanguentadas, sicários mascarados e cartéis controlando tudo enquanto os poderosos fecham os olhos. Há até versos em espanhol como: "trono de narco tortura" que dão à faixa uma crueza geográfica que vai além do thrash tradicional. Essa é a régua da temática do disco, brutalidade real, não ficção científica. A música começa com quase um minuto de introdução densa antes de explodir em thrash clássico de Bay Area. Riff bem construído, bateria certeira, Dukes soando agressivo e presente como sempre. Nem parece que ficou quase 12 anos fora da banda.
Já em “Hostis Humani Generis” (Inimigo da humanidade), é uma expressão latina usada historicamente para designar piratas e criminosos de guerra. É aqui que o disco realmente engrena. Tom Hunting abre na paulada, Holt e Altus se revezam em riffs que têm aquela urgência característica dos primeiros anos da cena. Dukes cospe as letras com aquela raiva genuína que conhecemos. É uma das faixas mais próximas daquela Exodus clássico dos anos 80, não por acaso, uma das mais fortes. Se você precisa de uma música pra convencer um amigo a ouvir Goliath, comece por aqui.
“The Changing Me” é uma grata surpresa no álbum. Após uma introdução que beira o groove moderno (ouvimos uma pitada de Machine Head aqui?) a faixa encontra seu caminho quando o baixo de Jack Gibson e a bateria de Hunting assumem o controle. A grande sacada aqui é o coro com vocais limpos e guturais que se sobrepõem em camadas, com Tägtgren (vocalista do Hypocrisy e Pain), dividindo o espaço com Dukes em uma troca visceral. A curiosidade é que Tägtgren já havia participado de Exhibit B (2010), na faixa The Sun Is My Destroyer. Que solo maravilhoso temos aqui, e o finale vem em um clima de death metal melódico surpreendente. Essa é uma das músicas mais experimentais que o Exodus já gravou e funcionou muito bem dentro da proposta do álbum.
E chegamos em “Promise You This”, que foi o último single liberado antes do lançamento oficial de Goliath e que traz um groove thrash direto. A letra é um manifesto de resiliência, homem de palavra, que apanhou, mas nunca se dobrou, que aprendeu com o pai que olho por olho é filosofia válida. Musicalmente, Dukes instiga a bagunça no verso, o refrão tem um tom um pouco mais simples e melódico, que dá uma forte impressão de ter sido inspirada no AC/DC, que são ídolos declarados da banda, além do solo de Holt que é um daqueles que lembram por que ele é considerado um dos maiores guitarristas do thrash metal. E foi este terceiro single que teve melhor recepção do público antes do lançamento.
Parafraseando Galvão Bueno (Haja coração amigo ), chegamos em “Goliath”. Essa é a faixa mais diferente não só do álbum, mas de toda a carreira da banda. O Exodus nunca tinha chegado tão perto do doom metal, e o próprio Gary Holt disse isso em entrevista. A faixa conta com a participação da violinista Katie Jacoby, que gravou dezoito faixas de cordas que transformam o que poderia ser um simples exercício de peso em algo genuinamente sombrio e teatral. O solo de guitarra contrasta com a lentidão do corpo da faixa de um jeito que vai crescendo a cada escuta. É a faixa que mais destoa de toda a agressividade e caos que o álbum traz, mas ainda assim, é corajosa e o Exodus nunca teve fama de covardia.
“Beyond the Event Horizon”: o ponto de não retorno ao redor de um buraco negro, além do qual nada mais escapa. A metáfora serve bem pra descrever o que acontece aqui, a faixa começa em velocidade máxima e vai te sugando pra dentro e aí você pensa: PQP, esse é o Exodus que eu quero P#@!aaa. A seção intermediária recua um pouco e abre espaço pra variações técnicas que mantêm a qualidade sem deixar a música cair de ritmo. Holt encerra com um solo épico e sem exagero. É a melhor faixa do disco e certamente minha favorita também. Ela consegue equilibrar aquele caos, agressividade e violência que só o Exodus sabe fazer.
O título de “2 Minutes Hate” diretamente de 1984, de George Orwell, o ritual diário em que a população era obrigada a direcionar ódio ao inimigo do Estado. A letra não esconde a referência: Big Brother, polícia do pensamento, memórias apagadas, conformidade forçada. "Guerra é paz, ignorância é força, liberdade é traição", os slogans do totalitarismo orwelliano reaparecem aqui traduzidos em agressividade do thrash metal. Os vocais em coro na reta final que vão funcionar muito bem ao vivo. Tem o espírito do Shovel Headed Kill Machine (2005), crua, agressiva e sem firula.
“Violence Works” abre com um riff que se destaca no contexto do álbum, mais marcado, mais denso e vai evoluindo ao longo da faixa. O refrão traz uma das melhores performances vocais de Dukes em todo o disco, e a ponte groovada antes do solo cria um respiro bem-vindo antes de Holt explodir de novo. É uma daquelas músicas que ficam melhores conforme você vai ouvindo mais vezes.
E chegamos em “Summon of the God Unknown”, a faixa mais ambiciosa de Goliath com seus quase oito minutos, ela tem uma estrutura épica, clima ritualístico e denso. Começa lenta, vai construindo por três minutos antes de acelerar, equanto Dukes varia entre seu vocal rasgado característico e linhas mais melódicas que mostram um alcance que muita gente nem imagina e associa a ele. O solo na reta final é o pico emocional, muito bem elaborado, épico, perfeito. Quem cresceu ouvindo o Exodus vai reconhecer a ambição das faixas longas de Exhibit A e sentir que essa aqui está à altura.
E finalmente chegamos em “The Dirtiest of the Dozen”, com letra escrita por Tom Hunting e isso diz muito sobre como esse disco foi feito de forma diferente. É uma celebração dos mais de quarenta anos de estrada do Exodus, com a energia de quem sabe que ainda tem muito o que contribuir para o metal. Começa acelerada e termina acelerada, o detaque vai para os solos duais harmônicos de Holt e Altus, que lembra muito o dueto que fizeram em Karma’s Messenger, e há também um breve espaço pra Jack Gibson sua habilidade na condução do baixo e Dukes encerrando cuspindo veneno. É o tipo de final que faz você querer apertar play de novo desde o começo.
Goliath certamente não é o melhor disco do Exodus, mas quem conhece a discografia inteira sabe que "Bonded by Blood", "Tempo of the Damned" e a trilogia Dukes dos anos 2000 tem um nível altíssimo. É um disco muito honesto, corajoso e o que mais importa é que o disco que soa como uma banda que ainda tem fome de verdade, não como um grupo aproveitando o legado pra rodar o circuito de festivais com o cruise control ligado.
O retorno de Rob Dukes trouxe de volta aquela energia característica que só ele tem. A abertura criativa pra Lee Altus e os outros membros contribuiu para sonoridades que o Exodus nunca havia explorado. E a coragem de fazer uma faixa-título doom com violino, sem pedir desculpa pra ninguém, é o tipo de atitude que faz uma banda durar quarenta anos sem virar caricatura de si mesma.
Fernando Aguiar


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