REBEL ROCK OPINIÃO - SEPULTURA
Sepultura: O final agonizante de um gigante que perdeu a alma
Por Jay K.
Quando o Sepultura anunciou, em dezembro de 2023, que encerraria suas atividades após uma turnê de despedida de 18 meses, a reação da comunidade metálica foi um misto de reverência e alívio. Reverência porque, afinal, estamos falando da maior instituição do metal sul-americano, uma banda que colocou o Brasil no mapa da música pesada mundial. Alívio porque, para muitos de nós que acompanhamos a trajetória do grupo desde os primórdios, o Sepultura já havia morrido há muito tempo. O que estamos testemunhando agora, com o fim marcado para o final de 2026, é apenas o desligamento dos aparelhos de um paciente que estava em estado vegetativo comercial há quase três décadas.
Não me entendam mal. Andreas Kisser é um guitarrista excelente, Paulo Jr. manteve a banda em pé como o único membro desde 1984, e Derrick Green é um vocalista competente que enfrentou o desafio mais difícil do metal: substituir um ícone. Mas a verdade é simples: o Sepultura sem Max Cavalera virou uma banda menor, vivendo das glórias de um passado que não consegue mais repetir.
Vamos deixar os sentimentos de lado e olhar para os números, porque os números não mentem. Eles mostram a realidade sem romantismo.
Na era Max Cavalera, o Sepultura era um rolo compressor comercial e criativo. O ápice dessa trajetória foi Roots (1996), um álbum que não apenas redefiniu o metal dos anos 90, mas que alcançou a posição #27 no Billboard 200 e conquistou certificações de platina em múltiplos países. A banda acumulou discos de ouro e platina em países como França, Austrália, Estados Unidos e, claro, Brasil. Eles não eram apenas uma banda de metal, eles eram um fenômeno cultural que ditava tendências.
Aí veio a ruptura no final de 1996. Max saiu, Derrick entrou, e o que aconteceu a seguir foi uma das quedas comerciais mais brutais da história da música pesada.
O primeiro álbum da nova era, Against (1998), alcançou a posição #25 no Billboard 200 e vendeu cerca de 130 mil cópias nos Estados Unidos. Uma queda brusca em relação a Roots, mas ainda números significativos para uma banda em transição. No entanto, a sangria não parou por aí. Nation (2001) caiu para a posição #40 nas paradas. Quando chegamos a Roorback (2003), o Sepultura desapareceu completamente das paradas americanas, saindo do top 40 e nunca mais voltando. Desde então, nenhum álbum de Derrick Green conseguiu entrar no top 100 do Billboard 200.
A partir daí, a trajetória comercial do Sepultura desabou. Álbuns como Dante XXI (2006), A-Lex (2009) e Kairos (2011) não conseguiram espaço nas paradas internacionais. Mesmo trabalhos elogiados pela crítica recente, como Machine Messiah (2017) e Quadra (2020), não conseguiram recuperar a relevância nas paradas. Para colocar isso em perspectiva: nenhum álbum de Derrick Green entrou no top 40 desde 2001. Isso é um quarto de século de irrelevância comercial nas paradas.
Mas as paradas são apenas parte da história. Quando você olha para o Spotify, a diferença fica ainda mais clara. As quatro músicas mais ouvidas do Sepultura na plataforma são todas da era Max Cavalera. Roots Bloody Roots (1996) sozinha tem 131 milhões de reproduções. Refuse/Resist (de Arise, 1991) tem 62 milhões. Territory e Ratamahatta (ambas de Roots) têm 51 e 45 milhões de reproduções. O álbum Roots (Expanded Edition) acumula 173 milhões de reproduções no Spotify. Os álbuns recentes da era Derrick Green? Muito menos que isso.
Os críticos especializados também contam a mesma história. Enquanto a era Max Cavalera foi sempre elogiada, a era Derrick Green recebeu críticas fracas ou negativas. Roorback (2003) foi criticado como "decadência decepcionante" e "sem inspiração". Nation (2001) recebeu nota 69 no Metacritic (misto). Apenas Quadra (2020) conseguiu uma nota boa (83), sendo descrito como "o primeiro álbum do Sepultura em décadas que se compara aos clássicos". Ou seja, levou 22 anos para Derrick Green fazer um álbum à altura dos clássicos de Max.
E se você acha que as paradas e o streaming não refletem a realidade, basta olhar para os shows. Na era Max, o Sepultura enchia estádios. Há diversos relatos de shows lotados em grandes casas de show. Na era Derrick Green, a história é bem diferente. Em 2023, um show do Sepultura em Brisbane, Austrália, teve apenas 200 pessoas em uma sala de tamanho médio. A banda que antes enchia estádios agora luta para preencher salas pequenas?
Há também a questão da influência cultural. Roots é frequentemente citado como influência em bandas como Gojira e no surgimento do folk metal e metal tribal. Igor Cavalera, em entrevistas recentes, discute como Roots fez bandas de metal olharem para suas próprias raízes culturais. O álbum aparece regularmente em listas de "best of" do metal. Não existe nenhuma discussão similar sobre os álbuns de Derrick Green. Nenhum deles gerou impacto cultural comparável ou influenciou uma geração de bandas.
E o que a banda tem feito nestes últimos anos de vida? Lançou a turnê "Celebrating Life Through Death", prometendo gravar 40 faixas ao vivo em 40 cidades diferentes. Anunciou um EP final de quatro faixas, The Cloud of Unknowing, para abril de 2026. E, mais recentemente, protagonizou mais um capítulo da novela familiar que assombra a banda: convidaram Max e Iggor Cavalera para participar do show final, convite este que os irmãos prontamente recusaram, afirmando que "não querem fazer parte disso".
É irônico, né? A banda que passou décadas tentando provar que era maior que seus fundadores, no apagar das luzes, tenta desesperadamente trazer de volta a alma que perdeu em 1996 para validar seu próprio funeral. E a recusa dos irmãos Cavalera é o prego final no caixão de uma reconciliação que os fãs sonharam por 30 anos.
O Sepultura que está encerrando agora é uma banda de músicos bons, profissionais que mantiveram tudo em pé com muito trabalho e dedicação. Eles merecem respeito por não terem desistido quando ninguém mais acreditava. Mas o Sepultura que mudou a história da música, o Sepultura que assustava pais e inspirava uma geração inteira de garotos a pegar em guitarras, esse Sepultura morreu no dia em que Max Cavalera saiu pela porta.
O que estamos vendo agora não é uma celebração de vida através da morte. É apenas o atestado de óbito de um gigante que passou as últimas três décadas tentando convencer a si mesmo de que ainda estava vivo. Descanse em paz, Sepultura. A cova já estava aberta há muito tempo.



Excelente!!! Ótimo texto e pesquisa! Só acrescentaria que o Soulfly, desde o início e durante todos esses anos, foi uma banda maior que o Sepultura, vide os números!!! Fica a dica uma nova matéria! Valeu
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