REBEL ROCK ENTREVISTA - EPITAPH
Formada em Porto Alegre (RS) no ano 2000, a EPITAPH é uma das bandas mais consistentes da cena brasileira de heavy metal tradicional. Com mais de duas décadas de estrada, o grupo acumula mais de 150 apresentações nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, consolidando sua identidade através de uma sonoridade que combina o peso clássico do metal com elementos modernos, resultando em um estilo próprio e marcante. Formada por Joe F. Louder (vocal), Marlon Steindorff (guitarra), André Carvalho "Canhoto" (guitarra), Fábio Figueiredo (baixo) e César Five (bateria), a banda lançou agora em 2026 seu segundo álbum, "Digital Screams". . Com oito faixas inéditas, o álbum reforça a identidade construída ao longo de sua trajetória, fundindo Heavy Metal, Thrash Metal e Hard Rock de forma equilibrada e autêntica. Produzido por Lucas Santorum, o disco evidencia a evolução técnica e artística dos músicos, mantendo a energia e a personalidade que sempre caracterizaram a Epitaph. Batemos um papo com o guitarrista Marlon e o baterista César sobre o mais recente trabalho e sobre a carreira do grupo. Confira!
Por Sergiomar Menezes
Fotos: Divulgação
Rebel Rock: "Digital Screams" chega com um peso impressionante, misturando elementos de Heavy Metal tradicional e Thrash Metal. Como vocês definem o processo de evolução sonora da banda desde o debute Getting Down to Business até este novo trabalho?
César: É um prazer para a Epitaph responder a esta entrevista para o Rebel Rock. Obrigado pelas palavras! Realmente, o processo de composição e evolução da banda foi longo: dezessete anos. Nesse período, enfrentamos os problemas que a maioria das bandas enfrenta, como mudanças de integrantes, definição das composições e decisão de lançar o álbum no momento apropriado. Por outro lado, tudo isso contribuiu para a qualidade do material, pois todos os que passaram pela banda, em algum momento, contribuíram para o produto final. O mais importante é que mantivemos nosso som e acrescentamos um pouco mais de modernidade ao nosso metal tradicional, sem alterar nossa proposta.
Rebel Rock: O conceito do álbum traz fortes reflexões sobre o impacto das redes sociais, a inteligência artificial e as transformações da sociedade moderna. De que maneira as angústias do século XXI influenciaram a composição das letras?
César: A Epitaph sempre colocou as letras no mesmo patamar que as músicas. Sempre buscamos mostrar, de forma inteligente, com um pouco de sarcasmo e humor, as loucuras dessa sociedade caótica em que vivemos. As letras do primeiro álbum, "Getting Down to Business", escritas a partir do início dos anos 2000, ainda se mantêm atuais, porque o mundo repete seus ciclos de guerras, perseguições etc. A diferença é que agora temos a forte influência das redes sociais e da inteligência artificial na vida das pessoas. Felizmente, contamos com um ótimo time de letristas que voltou a colaborar neste novo álbum: Dênis Winston e Gustavo Demarchi, que, além de escrever a faixa-título, também dividiu os vocais com Joe nessa música. Joe F. Louder também escreveu sua letra em homenagem à atriz Andressa Urach. O encarte do CD ajuda o ouvinte a acompanhar novamente as letras e as músicas, algo que acabou ficando esquecido nas plataformas digitais.
Rebel Rock: A faixa-título “Digital Screams” carrega um peso conceitual enorme. O que esse “grito digital” representa para vocês no contexto atual do mundo e da música?
César: Gustavo Demarchi foi certeiro na composição de "Digital Screams". Ele ouviu a música ainda na pré-produção e se ofereceu para escrever a letra, que fala sobre o domínio das redes sociais e, agora, da inteligência artificial sobre as pessoas. A música também aborda como a guerra virtual entre as pessoas, seja por questões políticas ou por qualquer outro assunto, acaba afastando e isolando indivíduos. Infelizmente, muitas pessoas abandonaram o diálogo e preferiram se fechar em suas próprias verdades. A música é excelente, tem um clima de Queensrÿche, e os vocais divididos entre Gustavo e Joe ficaram ótimos. A composição é minha e do Marlon Steindorff, e juntos fazemos um bom trabalho de composição. André também acrescentou alguns detalhes.
Temos orgulho dessa música!
Rebel Rock: O álbum conta com a produção de Lucas Santorum. Como foi a dinâmica de trabalho em estúdio com ele para alcançar essa sonoridade moderna, robusta e técnica que ouvimos no disco?
César: Quando reunimos o material para gravar, já tínhamos as pré-produções prontas, mas ainda faltava algo. Eu já havia gravado minhas baterias. A descoberta do Lucas foi primordial. Eu já estava trabalhando com ele na gravação do álbum do Volúpia, e ele entendeu que tipo de som eu queria. Na gravação da Epitaph, além de técnico, ele foi produtor, aconselhando-nos sobre detalhes das músicas, cobrando aquele take a mais e direcionando o foco da banda. Ele gravou grande parte dos vocais do Joe e todas as guitarras. Algumas partes foram gravadas com amplificadores digitais e outras com amplificadores reais, o que proporcionou o peso que queríamos. O baixo do Fábio também foi gravado muito rapidamente. Ficamos muito satisfeitos com o resultado final, e o Lucas ganhou de presente o solo de introdução da música "National Guard". Estamos ansiosos para gravar com ele novamente, pois algumas músicas não entraram neste álbum.
Rebel Rock: O disco abre com “Loser’s Life” e traz faixas marcantes como “The Girl Who Loved the Dead” (que ganhou videoclipe oficial), “NationalGuard” e “Blue Cave”. Como foi a seleção dessas 8 faixas inéditas entre o material que vocês compuseram?
César: Tínhamos 12 músicas compostas, e foi difícil escolher quais entrariam no álbum. Optamos por oito, que somam 46 minutos, um tempo excelente para um disco. A ideia é gravar o material que sobrou e lançá-lo como singles ou em um EP. São músicas excelentes! Montar o repertório do CD foi difícil, mas conseguimos distribuir as faixas de uma maneira que agradou bastante às pessoas. Adorei o final com influências de Southern Rock e blues de Blue Cave, que encerra o álbum e traz esses elementos para a nossa música.
Rebel Rock: Há uma faixa homônima à banda (“Epitaph”) bem no meio do tracklist. Qual é o significado especial dessa música em termos de identidade para o grupo?
César: A ideia de ter uma música com o nome da banda é antiga. Pedimos ao Dênis que escrevesse a letra, e o resultado ficou exatamente como queríamos. Ela dá identidade à banda e é utilizada na abertura dos nossos shows. Funciona muito bem ao vivo. Um spoiler: a música terá seu videoclipe oficial, que já foi gravado e será lançado em breve!
Rebel Rock: Como funciona o processo de composição das guitarras na Epitaph? Tendo duas mentes nas seis cordas (Marlon Steindorff e André Carvalho “Canhoto”), como dividem os riffs, harmonias e solos?
Marlon: Quando o André Canhoto entrou na banda, já tínhamos praticamente 90% do álbum composto em termos de riffs. Então, trabalhamos especialmente nas harmonias para duas guitarras, nos solos dobrados e nos solos individuais de cada guitarrista, dando ao Canhoto total liberdade de composição.
Particularmente neste disco, tivemos um processo de composição bastante variado na parte instrumental.
Algumas composições, como "Epitaph", "Something Better Than God" e "Digital Screams", tiveram os riffs criados em conjunto por Marlon e César (bateria). Alguns ex-integrantes também tiveram participação importante em determinadas músicas, como Márcio Supertti em "Road of Fire", e Raul Severo em "Blue Cave".
Rebel Rock: Musicalmente, a banda bebe de fontes clássicas como Black Sabbath, Judas Priest, Saxon e Accept, mas com uma pegada atual. Como é equilibrar essa paixão pela velha escola do metal com a modernidade ?
Marlon: Exatamente! Como uma banda de Heavy Metal, temos os grandes expoentes do gênero como referências principais, mas também incorporamos uma pitada de outros estilos, como o Thrash Metal. Isso é interessante porque confere uma identidade diferente às composições. Não nos apegamos a rótulos. Às vezes, surge algo bem pesado, mas logo em seguida aparece um clima totalmente diferente, como acontece em "The Girl Who's Loved the Dead" e também em "Metal Wings", do primeiro álbum. Essa é uma das marcas da Epitaph, que conseguimos manter em nossos dois álbuns.
Rebel Rock: A banda possui mais de duas décadas de história no underground brasileiro. Olhando para trás, quais foram os maiores desafios para manter a Epitaph ativa e relevante na cena por tanto tempo?
César: O maior desafio é manter o foco, acreditar na banda e amar a música que fazemos. Infelizmente, as mudanças de músicos fazem parte da trajetória de uma banda, mas nunca houve brigas quando alguém saiu. Todos os que tocaram conosco ao longo desses anos contribuíram para as composições e fazem parte da história da Epitaph. Na minha opinião, para uma banda continuar viva, ela precisa estar fazendo shows, pois é isso que motiva e dá continuidade ao grupo. A Epitaph já fez mais de 150 shows, em ótimos locais e em outros nem tanto. Todos foram importantes para nós, pois é nos shows que encontramos nossos fãs e conquistamos novos admiradores. Sobrevivemos à pandemia e à enchente e, felizmente, continuamos na ativa, orgulhosos de nossos 26 anos de estrada.
Rebel Rock: Com o lançamento recente e os shows ao vivo — como a festa de lançamento em Porto Alegre —, quais são as expectativas da banda para levar a turnê de "Digital Screams" para outras regiões do país?
César: Nossa expectativa é sempre buscar novos shows, mas todos sabemos que a logística é complicada para uma banda independente. Todos temos famílias e empregos regulares, mas conseguimos adaptar nossas agendas pessoais para viabilizar as apresentações. Obviamente, estamos fazendo contatos para realizar shows em outras regiões, que serão anunciados oportunamente.
Rebel Rock: O mercado musical mudou drasticamente com o streaming e o consumo digital (um tema bem alinhado com o conceito do disco). Como a Epitaph lida com a divulgação e o alcance da sua música nas plataformas digitais hoje em dia?
César: As plataformas digitais estão aí e hoje são a principal forma de ouvir música. Eu, particularmente, não as utilizo. Também não abri mão de lançar o CD físico, ainda que em quantidade limitada. O CD foi lançado antes de o álbum chegar às plataformas digitais, e isso ajudou muito nas vendas, pois as pessoas não estão acostumadas com esse tipo de lançamento. Meu sonho seria ter uma tiragem em LP, mas estou muito feliz com o CD, pois ele coroou o trabalho de todos os envolvidos: a arte da capa, criada por Rômulo Dias; o trabalho gráfico, realizado por Juliana Louis; enfim, todos os profissionais que trabalharam para que um excelente material físico chegasse ao ouvinte final e pudesse ser apreciado. Não há comparação com a frieza das plataformas digitais! (risos). Conseguimos fazer com que o álbum chegasse a ouvintes da Grécia, do Japão e de alguns países da Europa, além de recebermos ótimas resenhas. Pretendemos continuar esse trabalho de divulgação. Aqui no Brasil, também estamos recebendo excelentes avaliações. Isso comprovou o que já sabíamos: tínhamos um ótimo material, que demonstrou nossa evolução como músicos e compositores.
Rebel Rock: Para os fãs de longa data e para quem está conhecendo a banda agora através de "Digital Screams", qual mensagem vocês gostariam de deixar sobre o atual momento da Epitaph e o futuro do Heavy Metal brasileiro?
César: A Epitaph já passou por várias fases do Metal. Vivemos a época em que as bandas faziam shows lotados por conta própria, enfrentamos períodos de baixa e sobrevivemos a tudo isso. Atualmente, o público do metal tradicional não se renovou muito, mas temos conquistado novos fãs que não conheciam a banda e que nem sequer eram nascidos quando começamos nossa trajetória. É importante fazer com que as novas gerações se conectem com o Metal, pois muitos ainda olham para o gênero com desconfiança, por acharem que é música de tiozões conservadores. Outro problema recorrente é a escassez de lugares que abrem espaço para a música autoral, muitas vezes oferecendo datas pouco favoráveis. Porém, temos bandas parceiras que trabalham conosco, como Sin Avenue, Fire Machine, Cãonibal e Volúpia, entre outras, que também têm seu público. A Epitaph tem produzido seus próprios shows em locais com bons equipamentos. Além disso, eu e Marlon organizamos o Metal for Pets, evento que já teve três edições realizadas, nas quais arrecadamos alimentos para cães e gatos. No ano que vem, teremos mais uma edição!
Rebel Rock: Obrigado pela entrevista! Deixe um recado para os fãs e os leitores do Rebel Rock!
César: Quero agradecer à Rebel Rock pelo espaço e por sempre apoiar nosso trabalho. Também quero convidar as pessoas a seguirem nossas redes sociais e a adquirirem o CD. O apoio de vocês é muito importante, pois a Epitaph é formada por músicos que amam o Heavy Metal e fazem música de verdade.
Um grande abraço a todos!


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Agradecimentos ao Sergiomar e todo pessoal da Rebel Rock
ResponderExcluirGrande banda, e excelente álbum de Metal.
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