sexta-feira, 5 de junho de 2026

POWERWOLF - WILDLIVE (LIVE AT OLYMPIAHALLE - 2 CDs) (2026)

 


POWERWOLF
WILDLIVE (LIVE AT OLYMPIAHALLE)
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Eis que, após 20 anos, podemos afirmar que o POWERWOLF se tornou um grande nome do metal mundial. E esse se torna ainda mais indiscutível com o lançamento de WILDLIVE (LIVE AT OLIMPIAHALLE), álbum que não é apenas um registro ao vivo: é uma verdadeira celebração ao Heavy Metal que desafia a imaginação. Gravado no emblemático show de encerramento da Wolfsnächte Tour 2024, em Munique, o álbum captura com perfeição a energia magnética e o brilhantismo teatral da maior turnê já realizada pelo quinteto. E jogar em casa, deixa tudo mais fácil, não é mesmo? E para os fãs, nada melhor do que saber que o trabalho sai por aqui num belo digifle sobressalente duplo, com capa e contracapa sobressalente, cortesia mais uma vez da parceria Shinigami Records/Napalm Record.

O grupo formado por Attila Dorn (vocal), Charles Greywolf (guitarra/baixo), Matthew Greywolf (guitarra), Falk Maria Schlegel (órgão) e Roel van Helden (bateria) entregaram aos fãs que estavam presentes no Olympiahalle um show repleto de energia, força e o mais puro power metal germânico capturando perfeitamente o amadurecimento sonoro e visual do grupo. O balanço impecável entre o peso das guitarras de Matthew e Charles Greywolf, as orquestrações do teclado/órgão de Falk Maria Schlegel e a cozinha precisa dão a base para que Attila Dorn tenha uma performance impecável, alcançando tons operísticos impressionantes sem perder o fôlego diante de uma plateia lotada e enérgica. A mixagem (assinada por Joost van den Broek) merece um destaque especial. Ela consegue equilibrar o peso da banda com a resposta ensurdecedora do público, fazendo com que o ouvinte se sinta no meio da pista.

Logo após a introdução, a banda emenda "Bless'em With the Blade" e "Incense & Iron", mostrando que não estavam ali para brincadeira. A execução de "1589" (faixa de "Wake Up The Wicked" - 2024) ganha contornos dramáticos no palco, carregada de corais épicos e uma atmosfera sombria sobre as caças às bruxas e lobisomens do século XVI.  Hinos obrigatórios como "Army Of The Night", "Amen & Attack", "Armata Strigoi" e "Demons Are a Girl's Best Friend" ganham maior intensidade nos arranjos, enquanto a emocionante "Alive or Undead" cria um dos momentos mais intensos da noite. Sob o comando da dinâmica impecável entre o vocalista Attila Dorn e o tecladista Falk Maria Schlegel, cada faixa se transforma em um ritual inesquecível. É impossível não se arrepiar com a trinca final do show: "Sanctified With Dynamite", "We Drink Your Blood" e o encerramento com "Werewolves of Armenia". 

WILDLIVE (LIVE AT OLYMPIAHALLE) não faz do POWERWOLF uma banda especial. Ele apenas reafirma sua posição já consolidada no cenário e abre  um novo capítulo na jornada do quinteto alemão. Um reconhecimento aos 20 anos de carreira e uma promessa do que está por vir. O grupo, há muito tempo, ultrapassou as fronteiras do gênero e, com este lançamento, prova mais uma vez que, para seu fãs (e não são poucos), sua arte vai além da música... é uma religião.

Sergiomar Menezes




METALLICA - LOAD 30 ANOS

 



OS 30 ANOS DO ÁLBUM MAIS CONTROVERSO DO METALLICA (ATÉ ENTÃO...)

Por William Ribas

Existe uma linha tênue entre o amor e o ódio. Durante a primeira década após seu lançamento, LOAD esteve sempre do lado mais sombrio dessa balança. O álbum ficava na prateleira apenas “por estar”. Em 1996, era surreal acreditar que o METALLICA tinha feito aquilo com o seu som. Aliás, com sua imagem também — aquelas fotos continuam grotescas.

Trinta anos depois, é justamente o álbum que mais escuto da banda (inclusive, estou ouvindo agora). É um trabalho tão abrangente que leva tempo para ser assimilado. Sim, eu sei que a gente quer agressividade. Mas e se eu te disser que o aniversariante do dia é o álbum mais honesto do Metallica?
Em sua última entrevista, Cliff Burton declarou que eles não ouviam thrash metal em casa. Falou sobre R.E.M., baladas e sobre apreciar outros estilos musicais. Dez anos depois, o Metallica fez exatamente o que seu ex-baixista já falava uma década antes: resolveu ser mais musical. Colocou todas as suas influências na mesa — hard rock, blues, country e stoner rock. O álbum passeia por diversos estilos sem perder o peso (sim, a agressividade foi embora).

Durante o processo de composição do álbum, o pai de James Hetfield faleceu. Outro fato importante que marcou a época foi o período de quase um ano em que o guitarrista e vocalista ficou longe do álcool. Tudo isso transpareceu nas letras de músicas como “Until It Sleeps”, “Bleeding Me”, “Mama Said” e “The Outlaw Torn”.

Um destaque particular é “2 x 4” — acho aquele início de bateria sensacional. Lars começa de maneira ímpar. Sim, eu sei que ele é limitado, ou que se tornou limitado com o passar dos anos. Mas a inteligência dele na forma de construir músicas e gerir o Metallica é o que o torna um gênio, ponto final.

Lembro muito de ver na MTV os clipes de “Until It Sleeps”, “King Nothing” e “Mama Said”. A cada novo Top 10, às 18 horas, eu odiava ver aqueles caras cheios de maquiagem passando na televisão. E “King Nothing”, com aquele finalzinho fazendo referência ao “Off to Never Never Land” de “Enter Sandman”?, Não tinham nada melhor pra encerrar a música e se auto copiaram?Dentro do álbum, a sequência de “Cure” e “Poor Twisted Me” era pavorosa. Eu, no auge da minha rebeldia aos 11 anos, pensava: “Cliff Burton deve estar muito puto com vocês”.


Mas tudo passa.

No fim de 1998, saí do último dia de aula e fui direto para uma loja de CDs. Lá estava o VHS Cunning Stunts. Comprei com o dinheiro que tinha guardado e assisti àquele vídeo feito um louco. Foi quando minha percepção começou a mudar. Pô, até que algumas músicas soavam ótimas ao vivo. “Ain't My Bitch” era rápida e dava para bater cabeça.

Mas a birra ainda existia e só foi embora de vez por volta de 2006.
Com a internet, comecei a acompanhar — de longe, infelizmente — as turnês do Metallica. Vídeos, atualizações e, a cada show, a banda lançando seus registros ao vivo, algo que segue acontecendo até hoje. E a cada turnê crescia aquela vontade de ouvir algo diferente, algo novo. Foi aí que o ódio virou amor.

Cada vez que uma música do Load aparecia no setlist, era como um gol de classificação do meu time. Três décadas depois, apenas quatro músicas do álbum nunca “subiram ao palco” em um show: “Cure”, “Thorn Within”, “Ronnie” e “The House Jack Built”. Um fato curioso, e que surpreendeu muitos fãs, foi a descoberta, através do box lançado no ano passado, de que esta última chegou a ser ensaiada durante uma passagem de som em Birmingham, em 1996.

Bem, e foi assim, com o passar dos que o álbum que odiei tanto desde o seu lançamento, em 4 de junho de 1996, acabou conquistando meu coração.

Hoje, todas as vezes que me refiro ao Load, digo a mesma coisa sempre:

“I Love This Shit”.





DIMMU BORGIR – GRAND SERPENT RISING (2026)


 

DIMMU BORGIR
GRAND SERPENT RISING
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Foram longos oito anos de espera! O mundo era muito diferente do atual desde o lançamento de “Eonian” (2018). Messi ainda não tinha ganho uma Copa do Mundo, ainda não tínhamos enfrentado uma pandemia de tamanhas proporções, o Brasil ainda não era tão polarizado politicamente, o presidente ainda era Michel Temer, ou seja, o mundo capotou durante este longo período.

Cheguei a achar que o Dimmu Borgir nunca mais retornaria deste período sabático! A banda precisava se reciclar, se reencontrar com os seus áureos tempos e parece que eles estão de volta. De 2004 pra cá, não tenho dúvidas em afirmar que este é o trabalho que mais aproxima a banda do que ela mesma fez no início de sua carreira.

Grand Serpent Rising” já nasceu gigante em todos os sentidos. Primeiro, pela duração do álbum, com cerca de 69 minutos. Segundo, porque apesar do silêncio duradouro de anos sem algo inédito, o Dimmu ainda continua sendo inacreditavelmente grande e relevante na cena underground. Ao saber que o novo trabalho estava chegando, pude mais uma vez, revisitar toda a discografia da banda e percebi que a banda precisava, mais do que nunca, se reinventar para voltar a fazer jus ao tamanho que alcançou. E, para minha surpresa, conseguiram com larga margem!

O primeiro single divulgado antecipadamente, “Ulvgjeld & Blodsodel” já deu uma boa animada nos fãs. Dimmu Borgir clássico, mesclando passagens muito agressivas com passagens melódicas e orquestra a todo vapor. Tudo isso, já amplamente executado desde “Death Cult Armageddon” (2003). Mesmo com letra em norueguês, o saldo inicial foi ótimo, quase excelente.

Se o primeiro single não atingiu o status de “excelente”, o segundo o fez com sobras. “Ascent” é a mais pesada e furiosa faixa do Dimmu dos últimos 3 discos, feitos após as lamentáveis e quase irreparáveis saídas de Mustis (teclado) e ICS Vortex (baixo e vocal) em 2009. Ouvindo-a, tive a certeza de que o Dimmu Borgir estava realmente de volta e faminto pelo Metal. Que alívio ouvir e escrever isso!

E, finalmente, o dia 22/5 chegou e pude botar meu Spotify pra rodar e tive a chance de ouvir o disco completo nas primeiras horas deste dia, já que minha vida profissional tem ocorrido noites e madrugadas adentro.

Muito legal, a imensa intro “Tridentium” que dá aquele ar maquiavélico e arrepiante que remete aos tempos mais sombrios que os caras protagonizaram. “As Seen in the Unseen” poderia tranquilamente estar no já citado “Death Cult Armageddon”, com sua longa intro e o lado mais orquestral que aqui está mais afiado do que nunca. Candidata a clássica, apesar de não superar a faixa anterior, “Ascent”.

“The Qryptfarer” é a mais Old School do disco, dá até pra imaginá-la por exemplo, em “Enthrone Darkness Triumphant” (1997), com seu teclado melódico e os efeitos fantasmagóricos bem característicos daquela época. “Repository of Divine Transmutation” me lembrou em certos momentos, alguns petardos dos áureos tempos de “Puritanical...” (2001), uma faixa repleta de reviravoltas, mudanças bruscas de andamento, com andamento acelerado na maior parte do tempo, uma composição de gente grande. Mais uma candidata a clássica (essa merecia um videoclipe!).

A melódica “Slik Minnes en Alkymist” poderia estar em “Stormblast MMV” (2005), por ser cantada em norueguês e uma mixagem linda de se ouvir, o som das guitarras está soberbo em especial nos solos. Linda demais!

Após a também ótima “Phantom of the Nemesis”, veio “The Exonerated”, a minha favorita do disco. Essa merecia ser lançada como single. Ela tem absolutamente tudo o que um fã de Dimmu Borgir ama: lindos e melódicos riffs, refrão marcante, uma aula de bateria cadenciada e ao mesmo tempo soando como os bumbos do inferno, uma verdadeira aula de composição. Soberba!

“Recognizant” segue uma pegada mais moderna, que a faz ser o estilo de discos como “In Sorte Diaboli” (2007), o que a transforma em uma faixa coadjuvante do disco. Essa seria perfeita pra ICS Vortex brilhar com seu vocal operístico, mas isso, obviamente, ficará apenas em nossa imaginação.

“At the Precipice of Convergence” é a mais cadenciada do disco e “Shadows of a Thousand Perceptions” parece um filme de terror de tão assustadora, e a instrumental “Gjǫll” fecha o trabalho como um respiro após mais de uma hora de destruição, urros desesperadores, melodias sombrias e tudo aquilo que o fã de longa data do Dimmu mais ama.

Grand Serpent Rising” é grandioso, ousado e impactante desde o primeiro minuto ou segundo de audição. Nada nele é mais ou menos, poderia ser ainda mais perfeito se a mixagem fosse mais generosa com a bateria, mas nada que tire o brilho ou quaisquer um dos adjetivos já citados acima. Ouvi o disco umas 5 vezes e a cada vez, descubro mais detalhes, mais elementos que fazem com que o Dimmu Borgir seja tão especial como é. Ótimo, ouça o mais breve possível!

Mauro Antunes



sexta-feira, 22 de maio de 2026

POISON - LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN 40 ANOS

 


OS 40 ANOS DO ÁLBUM QUE MARCOU A ESTREIA DA BANDA QUE MUITOS AMAM ODIAR


Por Sergiomar Menezes

23 de maio de 1986, dia exato em que o álbum de estreia do POISON, LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN, celebra quatro décadas de história. Mais do que apenas um disco de hard/glam/hair metal, esse álbum foi o início de uma verdadeira revolução estética e musical que definiu o auge da cena Hard Rock  na lendária Sunset Strip de Los Angeles, transformando quatro jovens da Pensilvânia em astros do rock.

Antes mesmo de colocar o álbum pra tocar, a verdade é que LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN já causava impacto imediato pela capa. Trazendo fotos de seus integrantes mega-ultra-hiper-super maquiados (Bret Michaels, C.C. DeVille, Bobby Dall e Rikki Rockett), o encarte ostentava tanto laquê, batom, blush e delineador que quebrou barreiras de gênero na época. Tanto que um amigo chegou ame dizer que, em uma festa, depois de algumas cervejas, tranquilamente "tiraria um deles pra dançar"...

A androginia era tão extrema que, nas primeiras semanas de lançamento, muitas lojas de discos nos EUA listaram e organizaram o álbum erroneamente na seção de "Bandas Femininas". Relatos da época dizem que muitos homens heterossexuais compraram o vinil encantados pelas "garotas" da capa, apenas para descobrir que eram quatro rapazes cheios de atitude de Hollywood. Ou seja, meu amigo precisava beber pra pensar isso (risos), já nos EUA...

A provocação era milimetricamente calculada. O POISON levou o conceito de "glamour" ao extremo, envelopando uma atitude rebelde, suburbana e festeira em uma estética visual que se tornou a marca registrada da era de ouro da MTV.


Mas, ao contrário dos discos multimilionários que o Def Leppard ou o Mötley Crüe gravavam na época, o Poison era uma banda de garagem sem dinheiro quando assinou com a independente Enigma Records.

O álbum foi gravado em apenas 12 dias no estúdio Music Grinder, em Hollywood, com um orçamento curtíssimo de aproximadamente 30 mil dólares — uma pechincha para os padrões da indústria fonográfica de 1986. O produtor Ric Browde conseguiu extrair um som cru, direto e sem firulas, onde a falta de tecnologia de ponta foi compensada por pura energia rock and roll e refrãos feitos para arenas.

O sucesso não veio da noite para o dia, mas quando estourou em 1987, empurrou o álbum para a terceira posição da Billboard 200 e vendeu mais de 4 milhões de cópias só nos EUA. Isso se deu devido a uma sequência de singles imbatíveis:"Cry Tough"faixa de abertura funcionava como o manifesto da banda. Era uma mensagem de perseverança para todos os jovens que, assim como eles, largaram suas cidades natais e foram morar em vans em Los Angeles atrás do sonho americano,"Talk Dirty to Me", um hino e verdadeiro divisor de águas. O riff grudento de C.C. DeVille e a letra sacana transformaram a música em um hino geracional, e pra quem ouve música sem preconceito, percebe uma certa urgência punk em sua slinhas. O solo de guitarra dessa música é, na verdade, uma reciclagem, pois C.C. DeVille já usava exatamente esse mesmo arranjo em sua banda anterior, o "Screaming Mimi". Já "I Want Action" divide opiniões, pois apesar da energia traduzida em guitarras distorcidas, trata-se na verdade de um plágio mais que descarado da banda sueca "Easy Action"! Procure pela internet e você vai entender melhor essa história.... O clipe, cheio de cores neon e closes provocantes, foi censurado em alguns países pelo teor das imagens e da letra. E como todo bom disco do estilo, "I Won't Forget You" é a balada obrigatória. Ela provou que o grupo sabia falar de corações partidos e garantiu a rotação pesada da banda nas rádios, mostrando a versatilidade comercial do grupo.

Algumas curiosidades: 

- Antes de C.C. DeVille entrar na banda, um jovem guitarrista chamado Saul Hudson fez testes para o Poison. Ele chegou a passar pelas primeiras fases e era o favorito de Bobby Dall e Rikki Rockett. No entanto, o vocalista Bret Michaels achou que o visual dele não batiam com a proposta pop/glam que ele queria para o grupo. Esse guitarrista era ninguém menos que Slash, que logo depois se juntaria ao Guns N' Roses. No fim, a entrada de C.C. DeVille trouxe o senso de melodia pop que o Poison precisava para explodir., e convenhamos, foi o melhor para ambas as bandas. 

- Com o intuito de promover o álbum, o Poison foi escalado para abrir shows de bandas maiores. Uma das turnês mais emblemáticas foi abrindo para o Iron Maiden na "Somewhere on Time Tour". A mistura não funcionou bem: o público headbanger do Maiden detestava o visual maquiado do Poison e os cobria de vaias e objetos jogados no palco. O grupo aguentou firme, usando a rejeição para tocar com ainda mais agressividade.

- A expressão "Look What the Cat Dragged In" (algo como "olha o que o gato trouxe para dentro", usada para descrever alguém com aparência deplorável) não foi escolhida ao acaso. A banda dividia uma quitinete infestada de baratas em L.A. e vivia de restos de comida e festas. Certa manhã, após uma noite de excessos, um dos membros olhou para o outro e disse a frase. Eles acharam perfeita para resumir o contraste entre o visual impecável do palco e a realidade decadente de suas vidas pessoais na época.

Quarenta anos após sua chegada às lojas, LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN (hoje certificado com tripla platina) permanece como um documento histórico fascinante de uma era que não existe mais. Ele define perfeitamente o espírito colorido, exagerado e livre dos anos 80, onde a única regra real era se divertir até o amanhecer.

Mesmo enfrentando as viradas radicais do mercado musical nos anos 90 com a chegada do Grunge, as canções deste álbum provaram sua imortalidade. Elas continuam vivas em turnês de arena, trilhas sonoras de cinema, séries de TV e jogos de videogame .

Ao atingir a marca de 40 anos, o debute do POISON nos lembra de uma lição valiosa: o Rock n' Roll nem sempre precisa ser sério, político ou complexo — às vezes, ele só precisa ser alto, divertido e ter uma quantidade generosa de spray de cabelo.



terça-feira, 19 de maio de 2026

RAMONES - ANIMAL BOY 40 ANOS


RAMONES - OS 40 ANOS DO ÁLBUM MAIS POLÍTICO E VARIADO DA BANDA

Por Sergiomar Menezes

Em maio de 1986, o quarteto de Forest Hills, Queens, havia mudado bastante em relação ao grupo de jovens de jaqueta de couro que causou uma revolução no mundo em 1976. Uma década após o lançamento, o RAMONES lidava com crises de identidade, frustração comercial e conflitos internos intensos. Nesse contexto de tensão, nasceu ANIMAL BOY, o nono álbum de estúdio do grupo, que celebra 40 anos de carreira.

ANIMAL BOY é um dos álbuns mais intrigantes, controversos e subestimados da discografia da banda, e não é unanimemente aceito. Ele retrata uma banda tentando sobreviver aos anos 80, equilibrando a intensidade do Punk/HC emergente com as demandas de produção. E entenda-se por demandas de produção o uso de sintetizadores.

Para entender melhor o contexto do trabalho, é necessário ter um entendimento do ano de 1986. O punk rock foi absorvido pelo mainstream ou superado pela rapidez do hardcore de grupos como Dead Kennedys e Black Flag. Dessa forma, ou a banda se adaptava ao mercado (comercialmente) ou mantinha sua identidade sem se render ao modismo. A saída? Unir as duas alternativas!

Em busca de relevância e manter seu status (que sempre foi muito maior fora dos EUA), o RAMONES contratou o produtor Jean Beauvoir, ex-integrante da banda The Plasmatics. A missão era ingrata: preservar a brutalidade da banda, mas envolvê-la em uma sonoridade que permitisse sua veiculação nas rádios dos Estados Unidos. Os puristas ficaram surpresos com o resultado. Guitarras que antes erma ríspidas e nervosas, agora caminhavam ao lado de teclados e uma produção de bateria claramente "oitentista".

Embora tenha uma produção refinada, Animal Boy é um dos álbuns mais incisivos e políticos da banda em termos de letras. "Bonzo Goes to College" é, sem dúvida, o principal destaque.

Escrita por Dee Dee e Joey, "Bonzo Goesto Bitburg" (na opinião deste que vos escreve, uma das melhores músicas da banda) foi uma resposta direta e contundente à visita do presidente americano Ronald Reagan a um cemitério militar em Bitburg, na Alemanha, onde soldados da SS nazista estavam sepultados. A canção transformou-se em um hino anti-Reagan e demonstrou que a banda era capaz de muito mais do que compor músicas sobre cheirar cola.


O Hardcore surge em faixas como "Eat That Rat" e a faixa-título "Animal Boy", que exibem um Dee Dee Ramone despejando frustração em ritmos acelerados. Dee Dee, aliás, assumiu um maior protagonismo nas composições, sendo que nessas faixas ele contou com a participação de Johnny, um confesso admirador da velocidade do HC. "She Belongs to Me" e "Something to Believe In" revelam o coração de, exibindo a sensibilidade pop que o vocalista sempre teve, sendo que a última trazia um videoclipe sensacional, satirizando as campanhas de arrecadação de fundos para entidades beneficentes, dessa vez, intitulada "Ramones Aid". Por sua vez, "Love Kills", a homenagem de Dee Dee ao infeliz romance entre Sid Vicious e Nancy Spungen, é uma expressão pura do punk, é a cara do baixista.

Mas, é impossível falar de ANIMAL BOY sem citar Richie Ramone. O terceiro baterista da banda trouxe uma técnica e uma velocidade que não eram vistas com Tommy ou Marky. Richie não só acompanhava o ritmo acelerado das composições de Dee Dee, como também participava ativamente. Ele é o autor de "Somebody Put Something in My Drink", a canção de abertura do álbum que se transformou em um clássico instantâneo e indispensável nos shows até o término da carreira da banda.

Quarenta anos depois, ao olhar para trás, percebe-se que o álbum envelheceu muito melhor do que se esperava na época. Apesar de faixas como "Crummy Stuff" que podem parecer estranhas para quem procura o som cru de Rocket to Russia, o álbum irradia a urgência e a essência dos Ramones.

Ele representa perfeitamente uma banda em transformação, batalhando para permanecer relevante em uma década que não tinha certeza de como lidar com os dinossauros do punk. Quarenta anos depois, ANIMAL BOY deve ser comemorado não como um experimento, mas como o álbum que demonstrou que, mesmo sob a estética dos anos 80, o coração do RAMONES ainda pulsava com protesto, barulho e pura atitude.