terça-feira, 30 de junho de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - HAMMERFALL

 


É praticamente impossível não relacionar a trajetória do HAMMERFALL com a própria sobrevivência e resgate do Heavy Metal tradicional em meados dos anos 90. Quando os suecos lançaram sua álbum de estreia em 1997, o cenário musical global estava dominado pelo Grunge, pelo Metal Alternativo e pelo avanço do Nu Metal, enquanto o metal mais tradicional ao qual estávamos familiarizados — leia-se guitarras gêmeas, vocais melódicos e velocidade — era sumariamente descartado pela grande mídia e por parte do público como uma espécie de relíquia datada e obsoleta dos anos 80. Ao assumirem orgulhosamente a postura do coro, aço e tudo mais considerado "clichê" (até mesmo por parte do público), o HammerFall não apenas desafiou as tendências comerciais da época, mas liderou uma verdadeira cruzada que provou que o público ainda ansiava pela energia pura e pelos hinos de batalha inspirados em gigantes como Judas Priest, Iron Maiden e Accept. Essa postura destemida funcionou como um catalisador para toda a cena europeia, abrindo portas e pavimentando o caminho para o renascimento e a explosão comercial do Power Metal e do Metal Tradicional na virada do milênio, influenciando dezenas de novas bandas a se voltarem para o estilo sem vergonha de soar clássicas. Ao longo de quase três décadas de uma carreira marcada por uma consistência inabalável, o grupo se transformou em uma instituição do gênero; sua importância reside não apenas na nostalgia, mas na capacidade de manter acesa uma chama que muitos consideravam extinta, transformando refrãos grandiosos e riffs tradicionais em um elo que consolidou a Suécia como uma das maiores potências exportadoras de Metal do planeta. Aqui, resgatamos a discografia do grupo trazendo nosso tradicional ranking, baseado única e exclusivamente na opinião de nosso redator. Quer gostem ou não...

Sergiomar Menezes

13º - INFECTED (2011)


De longe, o disco que mais divide opiniões entre os fãs da banda. Buscando quebrar as expectativas e sair da própria zona de conforto, INFECTED soa como o trabalho mais experimental da discografia do HAMMERFALL, deixando de lado o icônico mascote Hector na capa em favor de uma estética de apocalipse zumbi. Musicalmente, a banda abandonou grande parte dos elementos clássicos do Power Metal para focar em um Heavy Metal e Hard Rock muito mais moderno, cru, sombrio e focado em riffs secos, como evidenciado em "Patient Zero" e "One More Time". Por outro lado "B.Y.H." mantém aquela atmosfera mais clássica e tradicional do quinteto. Embora tenha chocado os fãs mais tradicionais pela ausência dos tradicionais refrãos épicos e das temáticas medievais, o disco merece créditos pela coragem de arriscar e mostrou uma faceta vocal muito mais madura, agressiva e versátil de Joacim Cans.



                                             12º - NO SACRIFICE, NO VICTORY (2009)


NO SACRIFICE, NO VICTORY chegou ao mercado apresentando o guitarrista Pontus Norgren (ex- The Poodles, Talisman, Humanimal) e trazendo de volta o baixista original Fredrik Larsson. A verdade é que o trabalho, apesar de ter injetado uma nova energia e um frescor técnico impressionante ao som do HAMMERFALL, o resultado foi um álbum que soa um tanto quanto pasteurizado se comparado a seus antecessores. Gravado parcialmente nos Estados Unidos (no estúdio de Andy LaRocque, guitarrista do King Diamond) e produzido por Charlie Bauerfeind, o álbum se destaca por soar muito mais agressivo, técnico e enérgico do que seu antecessor, "Threshold". A chegada de Pontus Norgren trouxe solos nitidamente mais complexos, rápidos e com uma pegada que flertava pesadamente com o Heavy Metal tradicional norte-americano e o Hard Rock virtuoso dos anos 80. A química renovada das guitarras é evidente em faixas como "Any Means Necessary" e "Hallowed Be My Name", mas ainda assim, não consegue resgatar todo o apelo tradicional e intenso que o grupo trazia. O álbum também chama a atenção pelo inusitado e divertido cover de "My Sharona" (do The Knack) - o grande destaque para este que vos escreve - mostrando que, apesar da temática de guerreiros e batalhas, a banda parecia que caminhava em uma direção que precisava de uma renovação. Só que o veio na sequência, não foi exatamente o que se esperava.



11º THRESHOLD (2006)


O fim de uma era. Assim que THRESHOLD ficou marcado, pois foi o último álbum com o guitarrista Stefan Elmgren e o baixista Magnus Rosén, e reflete uma banda operando em sua zona de conforto com máxima eficiência, mas talvez com menos criatividade e intensidade do que nos anos anteriores. Vindo na esteira do bem-sucedido "Chapter V: Unbent, Unbowed, Unbroken" (2005), o álbum mostra a banda operando dentro de sua zona de conforto. Embora não buscasse revolucionar a sonoridade ou trazer grandes experimentações, o álbum traz uma produção extremamente polida, moderna e por focar em alguns bons riffs, que grudam na mente do ouvinte logo na primeira audição. Dessa forma, o álbum traz bons momentos momentos, como a faixa de abertura "Threshold", a acelerada "The Fire Burns Forever" (que virou tema do Campeonato Europeu de Atletismo) e a pesada "Natural High", que demonstram a incrível habilidade da dupla de guitarras em criar harmonias cativantes. É um trabalho sólido, com uma produção moderna e polida, que fecha com chave de ouro a primeira grande fase dourada do HAMMERFALL antes das mudanças drásticas de formação que viriam a seguir.



10º - (r)EVOLUTION (2014)


Depois de um bom período longe dos palcos e dos álbuns, o HAMMERFALL retornou às suas raízes com força total em (r)EVOLUTION, um álbum que funciona como uma verdadeira declaração de amor aos fãs antigos e uma celebração de tudo o que tornou a banda gigante. Para entender o peso deste disco, é preciso lembrar o cenário que o antecedeu: em 2011, o grupo havia lançado "Infected", um álbum altamente criticado que experimentou uma sonoridade mais crua e moderna, abandonou a temática de fantasia e tirou o mascote Hector da capa. Após a recepção morna dos fãs e um desgaste natural de quase duas décadas de estrada, a banda anunciou um hiato estratégico em 2012 para recarregar as baterias. O álbum foi o retorno triunfal desse descanso forçado, e o título brinca perfeitamente com os conceitos de "evolução" e "revolução", significando uma volta  às origens. O recado era claro: os suecos estavam de volta para reivindicar o seu trono no Power Metal tradicional. O mascote Hector voltou triunfante à capa (assim como o mestre Andreas Marshall), e músicas como "Hector's Hymn" (uma colagem brilhante de referências a letras antigas) e "Bushido" trouxeram de volta a velocidade, os corais de batalha grandiosos e a produção como nos velhos tempos assinada novamente por Fredrik Nordström (produtor dos dois primeiros discos). Foi o retorno triunfal à fórmula clássica, provando que o hiato fez bem à banda e que o espírito "true" estava longe de ser extinto.



9º - HAMMER OF DAWN (2022)


Lançado logo após o fim da pandemia, em um mundo que ainda se recuperava do isolamento, HAMMER OF DAWN trouxe um pouco de otimismo através de um Metal tradicional (que o grupo resgatou e parece ter decidido não largar mais) e altamente energético. A produção, dividida entre o estúdio da banda e a mixagem do renomado Fredrik Nordström, trouxe um som cristalino e de um peso absurdo, destacando o entrosamento de uma formação que vinha se consolidando como uma das mais estáveis e técnicas da história do grupo. A faixa-título é um clássico instantâneo (baseado na própria obra do quinteto), com um dos refrãos mais grudentos e épicos de toda a carreira da banda, reforçada pela participação especial do mestre King Diamond na sombria "Venerate Me", que adicionou uma camada extra de densidade e ocultismo ao álbum. Mantendo a produção cristalina e os arranjos de guitarras gêmeas perfeitamente sincronizados, o disco é uma demonstração de vitalidade e consistência, provando que o HAMMERFALL continuava sendo uma verdadeira banda de Heavy Metal, com o mesmo peso e precisão cirúrgica de sempre.



8º - BUILT TO LAST (2016)


O décimo álbum de estúdio, BUILT TO LAST, faz jus ao seu título ("Feito para Durar") ao entregar exatamente o que o HAMMERFALL sabe fazer de melhor, consolidando a presença do baterista David Wallin (ex-Pain), cuja pegada enérgica e precisa trouxe um vigor renovado para a cozinha rítmica da banda ao lado do baixista Fredrik Larsson. Sob a liderança da lendária dupla formada por Oscar Dronjak e Joacim Cans, o HammerFall entregou um disco previsível no melhor dos sentidos possíveis: um Heavy/Power Metal tradicional de altíssimo nível, recheado de faixas feitas sob medida para arenas, mostrando uma banda extremamente confortável em sua própria identidade. Faixas como "Bring It!" e "The Sacred Vow" transbordam a energia clássica do Power Metal, com solos melódicos inspiradíssimos e ritmos galopantes que remetem aos tempos de "Legacy of Kings". É um álbum previsível e clichê, no melhor dos sentidos: cada refrão foi composto para ser cantado a plenos pulmões em festivais, reafirmando que o grupo sabe como criar faixas fortes e intensas, provando mais uma vez, que é uma instituição inabalável no mundo do Heavy Metal, (quase) imune às tendências passageiras do mercado.



7º - DOMINION (2019)


Trazendo consigo uma confiança renovada e uma agressividade que há muito não se ouvia com tanta intensidade, DOMINION se destaca como um dos melhores trabalhos da banda em sua história recente, equilibrando perfeitamente o peso esmagador com ganchos melódicos irresistíveis. O grande trunfo do álbum é a sensação de urgência e vontade de tocar heavy metal que o álbum transmite. O guitarrista Oscar Dronjak e o vocalista Joacim Cans declararam na época que a banda se deu ao luxo de trabalhar nas composições com mais tempo e sem a pressão de prazos sufocantes, o que resultou em músicas muito mais dinâmicas, repletas de riffs memoráveis.A faixa de abertura "Never Forgive, Never Forget" começa com um grito dilacerante de Joacim Cans que prova que sua voz desafia o tempo, enquanto a épica "(We Make) Sweden Rock" serve como um tributo orgulhoso e emocionante à história do Rock e Metal de seu país natal. Com uma produção orgânica, viva e riffs de guitarra que celebram a atmosfera do metal oitentista, mas sem soar datado, o álbum mostra que o HAMMERFALL não estava apenas sobrevivendo, mas dominando o cenário com a mesma paixão de duas décadas atrás.



6° - AVENGE THE FALLEN (2024)


Sem dúvidas, o melhor álbum da banda nos últimos 20 anos. AVENGE THE FALLEN, mostra o HAMMERFALL olhando para trás com orgulho, mas segundo em frente com uma determinação feroz e um foco renovado em composições mais densas e épicas. O álbum foi concebido sob uma premissa clara do guitarrista e fundador Oscar Dronjak e do vocalista Joacim Cans: a necessidade de continuar marchando em frente com fome de vitória, sem apenas viver das glórias do passado. Para isso, a banda apostou em músicas focadas em riffs de guitarra diretos, dinâmicas épicas e, acima de tudo, em performances individuais muito acima da média. O álbum traz uma atmosfera ligeiramente mais madura e pesada, com músicas que alternam entre a velocidade clássica do Power Metal e o peso cadenciado do metal tradicional europeu, mantendo a voz de Joacim Cans em um nível impressionante de clareza e alcance. A faixa título, que abre o álbum já traz consigo os riffs afiados de Oscar Dronjak e Pontus Norgren que homenageiam o passado enquanto cimentam o presente, além de composições fortes e inspiradas como "The End Justifies", "Freedom" (pesada e cadenciada, no melhor estilo da banda) e "Hero to All", que mostram que mesmo com o desgaste do tempo, o grupo segue sendo um dos grandes nomes do estilo. Este disco é a prova definitiva de que, após quase três décadas de estrada, os suecos continuam sendo os guardiões legítimos e incansáveis do verdadeiro Heavy Metal. Em uma época em que muitas bandas veteranas preferem a estagnação ou o experimentalismo sem rumo, o HammerFall entrega um álbum que honra o seu próprio legado e mantém a chama do "True Metal" acesa com um orgulho feroz. É o som de uma banda que sabe exatamente quem é, o que faz de melhor e que continua dominando o seu próprio império.



5º - CHAPTER V: UNBENT, UNBROKEN, UNBOWED (2005)


Último grande trabalho da primeira fase da banda, CHAPTER V: UNBENT, UNBROKEN, UNBOWED, quinto capítulo da saga do HAMMERFALL manteve a fórmula consagrada da banda, apostando na consistência e na entrega de um Metal tradicional direto, pesado e sem firulas desnecessárias. Após o sucesso astronômico de "Crimson Thunder" (2002) e o lançamento do aclamado registro ao vivo "One Crimson Night", a banda estava no topo do mundo do Heavy Metal tradicional. A resposta dos suecos para manter essa posição não foi inventar a roda, mas sim fincar os pés com orgulho em sua fórmula sagrada, entregando um disco direto, pesado e com uma atitude inabalável — como o próprio título ("Inflexível, Altivo, Invicto") deixa claro. O álbum abre com a poderosa "Blood Bound", que rapidamente se tornou um clássico de seus shows graças ao seu ritmo pulsante e refrão memorável, e passeia por momentos de grande inspiração como "Hammer of Justice" e a longa e atmosférica "Knights of the 21st Century", que conta com a participação de Cronos (Venom) entregando vocais guturais como nos velhos tempos. Embora não traga grandes inovações estruturais, o disco é um testemunho da resiliência da banda, que se recusava a seguir modas e continuava entregando exatamente o que os fãs leais esperavam: hinos que remetiam aos tempos áureos do estilo, permeados de aço e batalhas.



4º - RENEGADE (2001)


Confesso que até minutos antes de escrever esse ranking, RENEGADE estava em terceiro lugar. Mas ao procurar analisar mais friamente, optei por deixá-lo na colocação que aqui se encontra. Com a chegada do renomado produtor Michael Wagener (que já havia trabalhado com Accept e Ozzy Osbourne), o terceiro álbum HAMMERFALL marcou uma sutil mudança em direção a uma sonoridade mais polida, comercial e profundamente influenciada pelo Hard Rock dos anos 80, sem perder a espinha dorsal do Power Metal. A produção de Michael Wagener poliu as arestas mais cruas do som do grupo. O álbum soa incrivelmente limpo, com guitarras cristalinas, vocais perfeitamente destacados e coros milimetricamente alinhados. Na época, alguns fãs de Power Metal acusaram a banda de soar "comercial demais". No entanto, foi exatamente essa polidez e o flerte com o Hard Rock que permitiram ao grupo encabeçar turnês mundiais ainda maiores e alcançar o status de headliner de grandes festivais. A faixa-título tornou-se um sucesso comercial estrondoso na Suécia, impulsionada por um riff incrivelmente grudento, enquanto músicas como "Keep the Flame Burning", a "totalmente Manowar" "The Way of the Warrior" e "Templars of Steel" (na minha opinião, uma das melhores músicas da carreira da banda) mostravam que o peso e a velocidade ainda eram a lei. Como dito anteriormente, embora alguns fãs mais radicais tenham torcido o nariz para a produção mais limpa na época, o álbum é hoje visto como um clássico indispensável que expandiu o alcance global da banda e definiu o som do início dos anos 2000.



3º - CRIMSON THUNDER (2002)


Como cieti anteriormente, estive em dúvida quanto à posição neste ranking entre o trabalho anterior e este CRIMSON THUNDER. Mesmo que seja frequentemente apontado por muitos fãs como o ápice criativo e o álbum mais icônico da banda, o quarto trabalho do HAMMERFALL desacelerou um pouco o ritmo frenético dos discos anteriores em favor de riffs mais cadenciados, pesados e hinos de batalha que grudam na mente instantaneamente. A produção, assinada por Charlie Bauerfeind (conhecido por trabalhos com Blind Guardian e Helloween), trouxe guitarras extremamente encorpadas e uma cozinha de baixo e bateria esmagadora, criando a moldura perfeita para a performance vocal mais madura e confiante da carreira de Joacim Cans até então. É impossível falar deste trabalho sem reverenciar "Hearts on Fire", a música mais famosa da história do grupo, cujo refrão se tornou um hino e clássico do Metal tradicional, mas o álbum brilha intensamente em faixas como "Riders of the Storm", a espetacular "The Unforgiving Blade", o cover de "Angel of Mercy" (Chastain), além da grandiosa faixa título. Com uma atmosfera mais sombria, guitarras perfeitamente afinadas e a performance vocal mais confiante de Joacim Cans até então, este disco compreende perfeitamente o espírito do "True Metal" que a banda sempre jurou defender.



2º - GLORY TO THE BRAVE (1997)


Uma estreia acima de qualquer suspeita. Em uma época em que o Heavy Metal tradicional era considerado "morto" pela grande mídia, sufocado pelo Grunge e pelo Metal Alternativo dos anos 90 (como citado lá no início da introdução deste Rebel Rock Research), o HAMMERFALL surgiu como um verdadeiro milagre com sua estreia destruidora e repleta do mais puro e tradicional Heavy Metal. E foi exatamente assim que o guitarrista Oscar Dronjak e o vocalista Joacim Cans (ao lado de músicos que na época também faziam parte de bandas de Death Metal, como Jesper Strömblad do In Flames) decidiram fincar a bandeira do que chamavam de "True Metal" GLORY TO THE BRAVE não apenas colocou a banda no mapa, mas também reacendeu a chama do Power Metal europeu com hinos imaculados como "The Dragon Lies Bleeding" e a faixa-título emocionante. O álbum é uma celebração pura de guitarras gêmeas inspiradas em Judas Priest e Iron Maiden, vocais limpos e agudos cortantes de Joacim Cans, e uma estética de fantasia medieval que trouxe de volta o orgulho de usar jaquetas de couro e erguer os punhos. Da capa icônica pintada por Andreas Marschall — que introduziu o mascote da banda, o paladino Hector — às letras sobre honra, espadas, dragões e batalhas (impossível ser mais "true" e clichê, não é mesmo?), o HammerFall abraçou o Heavy Metal com tanta convicção e orgulho que fez o público se lembrar do porquê havia se apaixonado pelo estilo anos antes. É uma obra-prima atemporal que definiu as regras do jogo para a virada do milênio.



1º - LEGACY OF KINGS (1998)


Se algum outro álbum ou posição podem causar algum tipo de polêmico ou discussão, com certeza aqui não resta dúvidas: todos consideram LEGACY OF KINGS o melhor trabalho do HAMMERFALLA pressão sobre a banda era gigante. Eles precisavam provar que o Power Metal tradicional tinha força para se manter vivo e não era apenas uma onda passageira. Para isso, o líder e guitarrista Oscar Dronjak e o vocalista Joacim Cans se uniram ao lendário produtor Fredrik Nordström no Studio Fredman e entregaram um disco que supera o primeiro em termos de peso, velocidade e refinamento técnico. Consolidando o sucesso estrondoso de sua estreia, o segundo álbum do quinteto sueco provou que o HammerFall não era uma banda ou projeto de um álbum só, entregando uma produção visivelmente mais encorpada e composições ainda mais maduras sob a liderança do guitarrista Oscar Dronjak. Músicas como "Heeding the Call", uma das músicas mais rápidas, galopantes e influentes de toda a carreira da banda, cuja a introdução de bateria com bumbo duplo e o duelo de guitarras gêmeas dão o tom de um clássico instantâneo do Power Metal europeu, a espetacular "Let the Hammer Fall", além da faixa título, sintetizam perfeitamente a identidade da banda: refrãos grandiosos com coros imponentes feitos sob medida para arenas lotadas, riffs pesados inspirados em Accept e ganchos melódicos irresistíveis. Enquanto isso, a belíssima "The Fallen One" manteve a tradição das baladas sentimentais da banda. E o que dizer de faixas como "The End of the Rainbow", "Dreamland" e "Stronger Than All"? Este trabalho solidificou a identidade visual e temática do grupo, estabelecendo o mascote Hector definitivamente como um ícone do Metal e provando que a New Wave of Swedish Heavy Metal havia chegado para ficar.







domingo, 28 de junho de 2026

SAVATAGE - MADNESS REIGNS FROM THE GUTTER 1990 (2026)

 


SAVATAGE
MADNESS REIGNS FROM THE GUTTER (1990)
earMusic/Sound City/Valhall Music - Nacional

Tem lançamentos que chegam e passam. E tem lançamentos que chegam e ficam parados no tempo, te deixando imóvel, com aquela sensação de que você acabou de experimentar algo que não deveria nem ter sobrevivido ao esquecimento. Madness Reigns From The Gutter (1990) é exatamente isso: um capítulo da história do heavy metal que ficou inédito por mais de três décadas, e que finalmente ganhou o mundo no formato que sempre mereceu.

O contexto importa muito aqui. Estamos em 29 de junho de 1990, no The Palace, em Hollywood, Los Angeles. O Savatage havia lançado "Gutter Ballet" em 1989 e embarcou na "Rulin' Gutter Tour", com mais de 100 shows pelo mundo, a banda estava afiada como lâmina. O show daquela noite foi gravado para transmissão ao vivo pela rádio KNAC, uma das estações mais importantes da cena de hard rock e metal da Califórnia. Rádio era um outro bicho naquela época: uma transmissão ao vivo numa grande emissora significava que dezenas de milhares de pessoas estavam ouvindo sua música.

O material ficou guardado. Circulou por anos em bootleg com o nome Hollywood Babylon, mas nunca ganhou uma versão oficial até agora. Jon Oliva pegou as fitas originais, fez um trabalho de restauração, remix e remasterização com cuidado cirúrgico, e entregou ao mundo um produto primoroso com qualidade absurda. E aqui preciso dizer com toda sinceridade: isso não é só um lançamento de um arquivo que ficou “trancado” por anos. É um ato de amor. Uma homenagem justa ao legado de uma banda que ele ajudou a construir nota por nota, e ao parceiro de uma vida inteira que ele perdeu cedo demais. E com Jon Oliva no centro de tudo, dominando o palco com aquela combinação rara de brutalidade e sensibilidade que só ele conseguia sustentar ao mesmo tempo. Que homem meus amigos!
E é claro que a palavra que sempre volta quando se fala nesse álbum é Criss Oliva.

Ouvir Criss aqui dói e alegra ao mesmo tempo, nessa mistura estranha que só a música consegue provocar. Infelizmente, morreu em novembro de 1993, num acidente de carro que roubou do metal um dos guitarristas mais talentosos que tivemos o prazer de acompanhar na cena. E o que torna esse registro ainda mais precioso é o que ele revela sobre o músico: Criss não era o tipo de guitarrista que toca pra mostrar que sabe. Era um guitarrista que cantava com o instrumento. Cada solo era uma voz própria, uma frase que se completava dentro da música e não precisava de plateia para validar. Ouvi-lo aqui, nesse registro ao vivo do auge da sua carreira, é algo que nenhum disco de estúdio consegue capturar da mesma forma.

O setlist aqui é simplesmente formidável e não há uma música que se destaque mais que do que outras. Claro que cada um tem suas preferidas, isso é inevitável, mas isso passa batido no geral porque o que você escuta é um repertório que funciona como um organismo vivo, do começo ao fim. Dezenove faixas cobrindo praticamente toda a discografia até aquele ponto, do peso raivoso e direto dos primeiros álbuns ao teatro grandioso do Gutter Ballet, passando pelos momentos que já antecipavam o que viria em Streets: A Rock Opera. É o Savatage mostrando de onde veio e para onde estava indo, tudo no mesmo show, tudo encaixado com uma naturalidade que só bandas realmente grandes conseguem. Não tem faixa que você queira pular, não tem momento morno ou algo do tipo. Você simplesmente aperta o play, deixa rolar, e quando Devastation fecha o show a única coisa que você vai querer fazer é voltar para o começo e ouvir tudo de novo.

A mixagem merece um parágrafo próprio. Jon fez um trabalho muito inteligente aqui: o ruído da plateia é reduzido durante as músicas, mas preservado nos intervalos, dando aquela sensação real de presença sem sufocar o som. Baixo e bateria com punch de verdade, sem aquela sensação de que foram misturados em segundo plano. E dá pra ouvir claramente a separação entre as guitarras de Criss e Caffery nos canais, o que é raro e muito bem-vindo.

Chris Caffery, o jovem incendiário, segurando a base rítmica e liberando o Criss para ser o Criss. Johnny Lee Middleton firme como pedra. Doc Wacholz atrás do kit gigante sendo Doc Wacholz, quebrando tudo.

Madness Reigns From The Gutter (1990) não é só um álbum ao vivo. É prova do porquê o Savatage era uma das bandas mais especiais do planeta naquele momento, e de porque a morte de Criss Oliva deixou uma ferida que o metal nunca se fechou completamente. Jon fez a coisa certa em preservar isso e entregar ao mundo com o cuidado que merecia.

E pra finalizar, pegue o disco, coloque no volume máximo e agradeça por ter o privilégio de ter existido no mesmo mundo que Criss Oliva e não preciso dizer que é um item obrigatório em qualquer coleção.
Enjoy it!

Fernando Aguiar




quarta-feira, 24 de junho de 2026

BOLAN - GARGOYLE OF THE GARDEN STATE (2026)


 

BOLAN
GARGOYLE OF THE GARDEN STATE 
earMusic - Importado

Rachel Bolan é mundialmente conhecido por ser o responsável nos últimos quarenta anos, não apenas pelo baixo no Skid Row, mas também por ser um dos principais compositores e membro fundador da banda que tomou de assalto o mundo Hard Rock no final dos anos oitenta. Após a saída do vocalista Eric Gronwall o Skid Row parece ter ficado à deriva em busca de um novo cantor.

Sem perder tempo, Rachel Bolan deu início a compor e produzir “Gargoyle Of The Garden State”, seu primeiro álbum solo. Lançado agora no início do mês de junho, o álbum é uma ótima surpresa. Você que é familiarizado com a banda principal de Rachel, já aviso: não espere o Hard Rock vigoroso que fez o Skid Row famoso. O que temos aqui é o mais puro, violento e divertido Punk Rock!

Bolan nunca escondeu sua influência Punk, basta ver que o Skid Row gravou dois covers de expoentes do estilo: “Holidays In The Sun” do Sex Pistols e “Psycho Therapy” do Ramones, essa com o próprio Bolan nos vocais. Ao longo das onze faixas do álbum, tudo o que se houve é energia e vitalidade, embalado por uma honestidade de quem fez o trabalho de coração e alma abertos, sem querer e sem precisar provar alguma coisa à alguém.

Rachel toca guitarra, baixo e vocais ao longo do álbum, mas se cercou também de convidados estelares para a construção do seu trabalho solo. Danko Jones participa de “At War With Myself”, “Memory” traz o guitarrista Damon Johnson (Brother Cane, Alice Cooper, Black Star Riders), Nuno Bittencourt empresta um ótimo solo em “Jet Black Universe”, Corey Taylor do Slipknot aparece em “Big Stick” e Steve Conti (Michael Monroe e N.Y. Dolls) canta a bela semi-balada “Bridges”, o único refresco na paulada Punk do álbum. Os parceiros de Skid Row também participam: Dave Snake Sabo participa em “See You On The Other Side” e Scotti Hill no ótimo cover do Oasis, “Rock n' Roll Star”.

Gargoyle Of The den State” é uma excelente estreia de Rachel Bolan como artista solo e uma grata surpresa neste ano de 2026. Um álbum, forte, visceral, divertido e viciante, como um café forte pela manhã ou a primeira lata de cerveja ultra gelada naquele churrasco com os amigos. Rachel Bolan acertou em cheio na sua estreia como artista solo.

José Henrique Godoy




EPITAPH - DIGITAL SCREAMS (2026)

 



EPITAPH
DIGITAL SCREAMS
Independente - Nacional

Os veteranos gaúchos da Epitaph nos brindam com uma aula de heavy metal em seu segundo trabalho, “Digital Screams”, saindo agora do forno e já forte candidato a um dos melhores do ano. Já catimbados no cenário, os caras estão na batalha desde o ano 2000, com lançamentos aclamados como a demo “Waiting your Death“ (2001), o full lenght “Getting Down to Business” (2009) e participação em importantes coletâneas como Rock Soldiers VI, Roadie Metal vol 11 e Garagem Hermética Metal, além de mais de 150 shows na região sul. Unindo experiência e adotando uma temática atual e crítica, o resultado é um trabalho consistente e muito bem sacado.

“Loser’s Life” apresenta a bolacha de uma maneira interessante, com uma pegada meio Thrash metal eu diria, com um refrão bem marcante e uma crescente entre peso e velocidade.. A segunda faixa, “The Girl Who Loved the Dead” é destaque, com riffs inspirados e uma cozinha ditando um andamento mais sombrio, com aquela aura de clássico permeando os arranjos, com um solo muito bem construído e vocais contundentes. Vale dizer que a faixa contou com um clipe oficial gravado no estúdio Legato, em Porto Alegre, através da produção da Chama Vídeos Independente.

“Epitaph” traz mais peso e baixa um pouco a bola em relação a velocidade, mas se torna mais um destaque, tendo referências a obra de Edgar Allan Poe em sua letra e uma estrutura talvez mais old school, digamos. Uma das minhas favoritas do álbum. A próxima, “Road of Fire”, se aproxima mais do metal tradicional propriamente dito, uma canção bem direta e que agrada em cheio, os vocais de Joe F. Louder mais uma vez se destacam.

A faixa título, “Digital Screams”, sintetiza bem o que a obra busca em seu formato em si, digamos que é o seu ápice, desde o riff central aos solos, trazendo uma certa introspecção ao ouvinte, seja na sua estrutura melódica, seja no andamento quase hipnótico que apresenta. A letra é bastante atual, faz referência a inteligência artificial e fenômenos sociais que a alienação humana é capaz de atingir quando deixa a tecnologia prevalecer em relação a essência e força de vontade do indivíduo, e isso de certa forma gera inúmeros questionamentos. A própria arte da capa de Rômulo Dias, trazendo o mesmo personagem do “Getting Down to Business”, parecendo desfazer sua essência em algo vazio traz esse sentimento, percepção minha ao menos. A faixa conta com a participação mais uma vez de Gustavo Demarchi nos vocais ( ex-Apocalypse).

“National Guard“ pega um gancho da temática central explorando uma abordagem ríspida, ainda refletindo sobre a sociedade atual e suas nuances de opressão de pensamentos, e na ótima “Something Better Than God“ novamente podemos encontrar duelos de guitarra marcantes calçados por uma cozinha poderosa. Encerrando o trampo, “Blue Cave” é um heavy metal com certas nuances de hard rock, melodicamente grudento e mais despojado, mas ainda certeiro e mortal.

Considero o disco um grande momento do Metal nacional, uma excelente produção assinada por Lucas Santorum que tecnicamente evidencia um grande e competente time de músicos, seja nas melodias inspiradas e riffs cortantes com "coçadas" violentas nas composições e arranjos da dupla de guitarras Marlon Steindorff e André Carvalho, passando por uma cozinha esmagadora em questão de peso e versatilidade técnica com César “Five” Louis na bateria e Fábio Figueiredo no baixo, e contando com o vocalista Joe F. Louder que em todo o álbum evidencia que heavy metal se faz com uma performance agressiva e ao mesmo tempo melodiosa.

Achei grandes referências de monstros sagrados como Judas Priest, Exodus, Fight, Accept, mas também encontrei um caminho natural próprio que a banda conseguiu em questões de experiência e resultados, e a colaboração lírica com Denis Winston mais uma vez se mostrou produtiva e criativa. Com toda a certeza, os caras merecem alçar vôos mais altos, não acredito que o Metal nacional vá sempre se resumir em bandas midiáticas em detrimento a um colossal esforço que quem se destaca precisa fazer para penetrar em eixos centrais.

Precisamos fazer a nossa parte, eu já adquiri minha cópia e irei prestigiar ao show de lançamento dia 04 de julho no estúdio Legato, em Porto Alegre, juntos com a Sin Avenue.

Gustavo Jardim




segunda-feira, 15 de junho de 2026

EDU FALASCHI - MI'RAJ (2026)

 


EDU FALASCHI
MI'RAJ
Voice Music - Nacional

Desde o momento em que Edu Falaschi iniciou sua carreira solo, existiu um pequeno "fantasma" ao seu lado. Para o bem e para o mal, o nome Angra sempre estará inevitavelmente associado ao seu trabalho.

Em "Vera Cruz" (2021), o ouvinte se deparou com algo que poderia ser descrito como uma espécie de caricatura de "Temple of Shadows", com conexões e referências extremamente evidentes. Já em "Eldorado" (2023), Edu começou a cortar algumas das amarras que o prendiam ao passado — ao menos em termos de estúdio —, embora tenha introduzido certos exageros que renderam comparações com o DragonForce.

Pois bem, chegou o momento de Mi'raj. O álbum marca o capítulo final da trilogia conceitual que acompanha a jornada de Jorge e, ao mesmo tempo, representa mais um passo na busca de Edu Falaschi por uma identidade cada vez mais própria dentro de sua trajetória solo.

Desta vez, após tudo o que viveu nos capítulos anteriores, Jorge se vê diante de novos desafios e perseguições — a narrativa transporta o ouvinte para o Oriente Médio do século XVI, explorando temas como espiritualidade, autoconhecimento, fé, perdas e superação.

Primeiramente, é preciso dizer: a regra do "menos é mais" muitas vezes traz mais benefícios do que prejuízos. Sem exageros, o trabalho flui de maneira ímpar. Dentro da discografia solo, "Mi'raj" é o álbum de assimilação mais imediata. Mesmo se aproximando do metal progressivo e trazendo músicas com mais de oito minutos de duração, a audição transcorre de forma natural e arranca aquele sorriso de orelha a orelha dos fãs de Falaschi.

A faceta progressiva do álbum está longe de cair no exibicionismo técnico. Em vez disso, surge através de mudanças de andamento, passagens atmosféricas e arranjos que ampliam a ambientação de um instrumental pesado e extremamente melódico. É como se Genesis e Fates Warning se encontrassem em estúdio tendo a música oriental e a brasilidade — ou, se preferir, o DNA do Angra — como ingredientes obrigatórios.

O álbum abre com "Watchers of the Light". É, digamos, a abertura clássica de sempre: uma música bombástica, rápida e com um refrão criado para ser cantado em uníssono pelo público. Porém, existe algo interessante que dura apenas alguns segundos. Entre 1:57 e 2:04, temos Victor Franco encarnando Yngwie Malmsteen.

Já "Here I Stand" chega cheia de quebras de andamento, mais cadenciada e sustentada por excelentes coros. A música traz o primeiro momento em que o ouvinte pode dizer: "Opa, já ouvi isso aqui no Angra". Bem, no final das contas, a era Rebirth e Temple of Shadows faz parte do DNA de Edu Falaschi e, vamos ser sinceros? O fã quer ouvir isso. Vivemos em uma era profundamente nostálgica.

A faixa-título traz a participação de Veronica Bordacchini, do Fleshgod Apocalypse. A música passeia entre o power e o prog metal, enquanto Veronica dá um verdadeiro show à parte, enriquecendo de forma brilhante os refrãos. Em alguns momentos, é como se a canção tivesse escapado de algum dos álbuns mais atuais do Avantasia.

"Echoes of Vows" chega para apresentar a primeira balada do álbum — e Falaschi continua sendo um especialista nesse tipo de composição. As linhas vocais são bonitas, a calmaria transborda feeling e, em entrevistas, o vocalista revelou ter escrito a melodia principal imaginando Bruce Dickinson cantando a música. A faixa ainda reserva algumas surpresas em sua segunda metade, acelerando o ritmo e ganhando uma orquestração mais forte antes de retornar para um encerramento propositalmente clichê, sustentado pela repetição do refrão.

Em "Unchained", pule para 3:44. Se você não se arrepiar com o solo de saxofone, talvez já esteja morto por dentro. A música inteira é surpreendente, mas esse momento específico merece destaque. Raphael Dafras, com seu baixo cheio de groove e graves, assume papel de protagonista e ajuda a conduzir a faixa em diversos momentos.

Falando em surpresas, chegamos a "Intuição". A faixa marca a primeira vez que Edu grava uma música em português desde "Caça e Caçador", presente no EP Hunters and Prey (2002). Outro aspecto marcante é a participação especial de Rafael Bittencourt, responsável por um belíssimo solo. Falaschi e Bittencourt não trabalhavam juntos em estúdio desde Aqua, lançado em 2009. Ouvindo repetidamente a canção, é impossível não enxergar uma fusão entre "Gentle Change" e a já citada "Caça e Caçador", principalmente por causa da forte identidade brasileira presente em sua construção.

Caminhando para os momentos finais, encontramos uma grande variedade de ideias no material. Primeiro, temos "Circle of Dust". Pesada e cheia de boas nuances, a faixa tem como um de seus grandes destaques o estreante Jean Gardinalli. O cara simplesmente executa suas linhas de bateria de maneira primorosa, equilibrando técnica e musicalidade sem soar excessivo em nenhum momento.
Obviamente, o "duelo" entre Edu Falaschi e Roy Khan (ex-Kamelot) acaba sendo a cereja do bolo.

A última balada do álbum, "On Your Own", chega logo em seguida. E, sinceramente, se o Brasil desse mais valor à música pesada e aos seus artistas, essa faixa estaria tocando nas rádios e até em trilhas de novelas. Trata-se de uma das melhores baladas já compostas por Edu Falaschi. A faixa começa de forma minimalista, sustentada apenas por voz e piano, e vai crescendo gradativamente até explodir em um refrão emocionante. Diogo Mafra abrilhanta tudo com um solo de guitarra inspirado, tornando o resultado ainda mais grandioso.

O desfecho da história e do álbum acontece em "Wrath Into the War". É o encerramento de um ciclo, uma sensação de jornada completa. A composição parece revisitar os caminhos percorridos ao longo da trilogia, reunindo elementos característicos de Vera Cruz, Eldorado e Mi'raj. Há velocidade, melodias marcantes e passagens progressivas. Mais do que simplesmente concluir uma narrativa, a faixa funciona como uma síntese artística de tudo o que o músico construiu até aqui.

Quando os últimos acordes terminam, fica a impressão de que "Mi'raj" não apenas fecha uma trilogia, mas também representa o momento em que Edu finalmente aprende a caminhar em paz ao lado de seu passado. O velho "fantasma" continua presente, mas já não assombra. Agora, ele é apenas parte da história.

Ah, mas você não vai falar da voz?

Sinceramente, precisa?

Todos sabemos dos problemas que o vocalista enfrentou em suas cordas vocais. Da mesma forma, sabemos que ele não é mais o “mocinho” dos tempos de Symbols ou dos primeiros anos de Angra — os cinquenta anos chegaram para todos.

O que posso dizer é que, em "Mi'raj", Edu Falaschi soa o mais honesto possível com o ouvinte. Não há tentativa de mascarar limitações. Pelo contrário. Edu trabalha dentro de suas possibilidades atuais e utiliza a experiência acumulada para entregar emoção e personalidade.

No fim das contas, Mi'raj não é um álbum sobre nostalgia, embora ela esteja presente em diversos momentos. É um álbum sobre maturidade. Sobre compreender quem você foi, quem você é e seguir em frente sem precisar renegar nenhuma dessas versões.

Dentro da trilogia, é o melhor capítulo.

William Ribas