segunda-feira, 15 de junho de 2026

EDU FALASCHI - MI'RAJ (2026)

 


EDU FALASCHI
MI'RAJ
Voice Music - Nacional

Desde o momento em que Edu Falaschi iniciou sua carreira solo, existiu um pequeno "fantasma" ao seu lado. Para o bem e para o mal, o nome Angra sempre estará inevitavelmente associado ao seu trabalho.

Em "Vera Cruz" (2021), o ouvinte se deparou com algo que poderia ser descrito como uma espécie de caricatura de "Temple of Shadows", com conexões e referências extremamente evidentes. Já em "Eldorado" (2023), Edu começou a cortar algumas das amarras que o prendiam ao passado — ao menos em termos de estúdio —, embora tenha introduzido certos exageros que renderam comparações com o DragonForce.

Pois bem, chegou o momento de Mi'raj. O álbum marca o capítulo final da trilogia conceitual que acompanha a jornada de Jorge e, ao mesmo tempo, representa mais um passo na busca de Edu Falaschi por uma identidade cada vez mais própria dentro de sua trajetória solo.

Desta vez, após tudo o que viveu nos capítulos anteriores, Jorge se vê diante de novos desafios e perseguições — a narrativa transporta o ouvinte para o Oriente Médio do século XVI, explorando temas como espiritualidade, autoconhecimento, fé, perdas e superação.

Primeiramente, é preciso dizer: a regra do "menos é mais" muitas vezes traz mais benefícios do que prejuízos. Sem exageros, o trabalho flui de maneira ímpar. Dentro da discografia solo, "Mi'raj" é o álbum de assimilação mais imediata. Mesmo se aproximando do metal progressivo e trazendo músicas com mais de oito minutos de duração, a audição transcorre de forma natural e arranca aquele sorriso de orelha a orelha dos fãs de Falaschi.

A faceta progressiva do álbum está longe de cair no exibicionismo técnico. Em vez disso, surge através de mudanças de andamento, passagens atmosféricas e arranjos que ampliam a ambientação de um instrumental pesado e extremamente melódico. É como se Genesis e Fates Warning se encontrassem em estúdio tendo a música oriental e a brasilidade — ou, se preferir, o DNA do Angra — como ingredientes obrigatórios.

O álbum abre com "Watchers of the Light". É, digamos, a abertura clássica de sempre: uma música bombástica, rápida e com um refrão criado para ser cantado em uníssono pelo público. Porém, existe algo interessante que dura apenas alguns segundos. Entre 1:57 e 2:04, temos Victor Franco encarnando Yngwie Malmsteen.

Já "Here I Stand" chega cheia de quebras de andamento, mais cadenciada e sustentada por excelentes coros. A música traz o primeiro momento em que o ouvinte pode dizer: "Opa, já ouvi isso aqui no Angra". Bem, no final das contas, a era Rebirth e Temple of Shadows faz parte do DNA de Edu Falaschi e, vamos ser sinceros? O fã quer ouvir isso. Vivemos em uma era profundamente nostálgica.

A faixa-título traz a participação de Veronica Bordacchini, do Fleshgod Apocalypse. A música passeia entre o power e o prog metal, enquanto Veronica dá um verdadeiro show à parte, enriquecendo de forma brilhante os refrãos. Em alguns momentos, é como se a canção tivesse escapado de algum dos álbuns mais atuais do Avantasia.

"Echoes of Vows" chega para apresentar a primeira balada do álbum — e Falaschi continua sendo um especialista nesse tipo de composição. As linhas vocais são bonitas, a calmaria transborda feeling e, em entrevistas, o vocalista revelou ter escrito a melodia principal imaginando Bruce Dickinson cantando a música. A faixa ainda reserva algumas surpresas em sua segunda metade, acelerando o ritmo e ganhando uma orquestração mais forte antes de retornar para um encerramento propositalmente clichê, sustentado pela repetição do refrão.

Em "Unchained", pule para 3:44. Se você não se arrepiar com o solo de saxofone, talvez já esteja morto por dentro. A música inteira é surpreendente, mas esse momento específico merece destaque. Raphael Dafras, com seu baixo cheio de groove e graves, assume papel de protagonista e ajuda a conduzir a faixa em diversos momentos.

Falando em surpresas, chegamos a "Intuição". A faixa marca a primeira vez que Edu grava uma música em português desde "Caça e Caçador", presente no EP Hunters and Prey (2002). Outro aspecto marcante é a participação especial de Rafael Bittencourt, responsável por um belíssimo solo. Falaschi e Bittencourt não trabalhavam juntos em estúdio desde Aqua, lançado em 2009. Ouvindo repetidamente a canção, é impossível não enxergar uma fusão entre "Gentle Change" e a já citada "Caça e Caçador", principalmente por causa da forte identidade brasileira presente em sua construção.

Caminhando para os momentos finais, encontramos uma grande variedade de ideias no material. Primeiro, temos "Circle of Dust". Pesada e cheia de boas nuances, a faixa tem como um de seus grandes destaques o estreante Jean Gardinalli. O cara simplesmente executa suas linhas de bateria de maneira primorosa, equilibrando técnica e musicalidade sem soar excessivo em nenhum momento.
Obviamente, o "duelo" entre Edu Falaschi e Roy Khan (ex-Kamelot) acaba sendo a cereja do bolo.

A última balada do álbum, "On Your Own", chega logo em seguida. E, sinceramente, se o Brasil desse mais valor à música pesada e aos seus artistas, essa faixa estaria tocando nas rádios e até em trilhas de novelas. Trata-se de uma das melhores baladas já compostas por Edu Falaschi. A faixa começa de forma minimalista, sustentada apenas por voz e piano, e vai crescendo gradativamente até explodir em um refrão emocionante. Diogo Mafra abrilhanta tudo com um solo de guitarra inspirado, tornando o resultado ainda mais grandioso.

O desfecho da história e do álbum acontece em "Wrath Into the War". É o encerramento de um ciclo, uma sensação de jornada completa. A composição parece revisitar os caminhos percorridos ao longo da trilogia, reunindo elementos característicos de Vera Cruz, Eldorado e Mi'raj. Há velocidade, melodias marcantes e passagens progressivas. Mais do que simplesmente concluir uma narrativa, a faixa funciona como uma síntese artística de tudo o que o músico construiu até aqui.

Quando os últimos acordes terminam, fica a impressão de que "Mi'raj" não apenas fecha uma trilogia, mas também representa o momento em que Edu finalmente aprende a caminhar em paz ao lado de seu passado. O velho "fantasma" continua presente, mas já não assombra. Agora, ele é apenas parte da história.

Ah, mas você não vai falar da voz?

Sinceramente, precisa?

Todos sabemos dos problemas que o vocalista enfrentou em suas cordas vocais. Da mesma forma, sabemos que ele não é mais o “mocinho” dos tempos de Symbols ou dos primeiros anos de Angra — os cinquenta anos chegaram para todos.

O que posso dizer é que, em "Mi'raj", Edu Falaschi soa o mais honesto possível com o ouvinte. Não há tentativa de mascarar limitações. Pelo contrário. Edu trabalha dentro de suas possibilidades atuais e utiliza a experiência acumulada para entregar emoção e personalidade.

No fim das contas, Mi'raj não é um álbum sobre nostalgia, embora ela esteja presente em diversos momentos. É um álbum sobre maturidade. Sobre compreender quem você foi, quem você é e seguir em frente sem precisar renegar nenhuma dessas versões.

Dentro da trilogia, é o melhor capítulo.

William Ribas




MOONSPELL - FAR FROM GOD (2026)

 


MOONSPELL
FAR FROM GOD
Napalm Records - Importado

Cinco anos podem parecer uma eternidade para uma banda com a trajetória do Moonspell. Obviamente, nesse período longe dos estúdios tivemos turnês, o belíssimo álbum ao vivo "Opus Diabolicum" e mais turnês (inclusive aqui no Brasil, no início de 2026), mas já era tempo de um novo trabalho dos portugueses.

Em uma época em que muitos artistas lançam músicas em ritmo quase industrial para alimentar algoritmos e manter relevância digital, o grupo capitaneado pelo vocalista Fernando Ribeiro escolheu o caminho oposto: esperar. E essa decisão parece ter sido fundamental para a construção de Far From God, um álbum que surge não apenas como sucessor de "Hermitage (2021)", mas como uma reafirmação de propósito artístico.

Ao longo de sua carreira, o Moonspell sempre transitou entre diferentes atmosferas. Houve momentos de agressividade extrema, fases marcadas pela melancolia gótica e experimentações mais introspectivas. Em "Far From God", porém, a sensação é de reencontro. Não com o passado em si, mas com a essência emocional que tornou a banda uma das maiores referências do gothic metal europeu.

O álbum parece construído sobre contrastes cuidadosamente equilibrados. Há peso. Há melodias. Há escuridão. Há romantismo. E há uma boa dose da melancolia característica da estética gótica. O resultado é uma obra que respira criatividade, sem a necessidade de excessos técnicos ou produções infladas para causar impacto. As composições apostam em atmosferas densas, onde guitarras carregadas dividem espaço com arranjos elegantes e vocais que alternam entre o grave característico de Fernando e momentos de maior intensidade emocional.

A abertura fica por conta das já conhecidas “Cross Your Heart” e da faixa-título, “Far From God”, ambas lançadas como singles. Elas dão um norte do que o álbum é: orgânico, de fácil assimilação e viciante.

“Biblical” se inicia com uma linha de baixo marcante e uma atmosfera sombria ao fundo. A faixa é carregada, pesada — não necessariamente pelo aspecto instrumental, mas pelo clima que a domina, trazendo consigo um ar de suspense que abraça a beleza da escuridão. Já “The Great Wolf in the Sky” celebra a emoção acima da conveniência e lembra por que o Moonspell continua ocupando um lugar tão especial. A cada nova faixa, existe a sensação de que cada elemento está exatamente onde deveria estar.

Liricamente, "Far From God" mergulha em territórios que sempre fizeram parte do imaginário da banda: amor, morte, espiritualidade e culpa. Entretanto, o tratamento dado a esses temas evita qualquer sensação de nostalgia. Vampiros, símbolos religiosos e criaturas noturnas aparecem menos como figuras fantásticas e mais como metáforas para desejos, perdas e conflitos humanos. É um disco que utiliza o fantástico para falar sobre emoções reais — algo perceptível em faixas como “Your Promise of Light” e “For the Love of Mortals”.

Algo que "Far From God" carrega consigo é uma aura constante de perigo, elegância e melancolia. Para quem espera peso — leia-se riffs pesados — pode esquecer. Eles estão aqui, mas surgem apenas em momentos específicos, quando a música realmente pede. O tracklist como um todo remete à capacidade que a banda sempre teve de criar música sombria sem abrir mão da personalidade. E talvez aí resida o maior mérito da obra: sua autenticidade.

A demonstração de que algumas chamas nunca deixam de arder vem com “Our Freedom to Fall”. Pesada, com andamento mais acelerado, a faixa entrega um excelente contraste entre agressividade e melancolia, como uma brutalidade escondida sob as sombras da noite. O álbum se encerra com “Reconquista”, abraçando o que o Moonspell fez de melhor nas faixas anteriores — um best of de "Far From God" dentro de uma única música: reafirmando que a escuridão e identidade continuam sendo um dos elementos mais fascinantes da discografia da banda.

Ao final, Far From God é apaixonante. Em época de Copa do Mundo, cabe a analogia perfeita: um golaço de Portugal!

William Ribas




WINGS OF STEEL - WINDS OF TIME (2025)

 


WINGS OF STELL
WINDS OF TIME
Shinigami Records - Nacional

É interessante como gosto de heavy/power metal, mas dificilmente bandas mais novas conseguem realmente chamar minha atenção — e não é por falta de talento. Aquela saturação que o estilo viveu em meados dos anos 2000 continua firme e forte. Nomes de bandas, títulos de músicas, capas, conceitos... tudo parece preso a um eterno ciclo de repetição.

Quando você vê um nome como Wings of Steel e um álbum chamado Winds of Time, seu cérebro já monta o quebra-cabeça antes mesmo de apertar o play. É como se você já conhecesse toda a história de cor e salteado, mesmo sendo a primeira vez que escuta a banda.

E esse talvez seja o maior desafio enfrentado pelo power metal moderno. Não é uma questão de qualidade. "Winds of Time" pode muito bem ser um excelente álbum, com músicos talentosos, ótimas composições e uma execução impecável. Mas, às vezes, o problema não está naquilo que a banda faz, e sim na sensação de familiaridade que acompanha a audição.

A faixa-título deixa isso claro desde os primeiros minutos. Com duração épica e uma construção que se desenvolve lentamente, a música funciona quase como uma declaração de intenções. Em vez de apostar apenas na velocidade e nos refrões grandiosos normalmente associados ao power metal, a banda investe em mudanças de dinâmica, passagens atmosféricas e linhas vocais extremamente agudas — talvez até em doses excessivas.

Embora o álbum apresente uma faceta mais robusta e agressiva, a banda cai na armadilha da repetição. "Saints And Sinners" surge como um verdadeiro ataque de heavy metal clássico, impulsionado por energia contagiante e refrãos que pedem a participação do público. Já "To Die In Holy War" combina peso e melodia em proporções quase perfeitas, trazendo uma intensidade emocional que amplia ainda mais seu impacto.

Em contrapartida, faixas como "Crying" revelam um lado mais sensível. Sem mergulhar completamente no território das power ballads, a música oferece um momento de respiro. Mais adiante, "Lights Go Out" introduz elementos sombrios e um groove carregado de influência setentista, sem perder a identidade melódica do grupo.

Os momentos finais representam talvez o ápice da experiência. "We Rise" transforma-se em um hino de superação construído sobre uma progressão gradual e eficiente, enquanto "Flight Of The Eagle" encerra o disco com uma atmosfera grandiosa e emocional. É uma conclusão que recompensa a paciência do ouvinte.

No fim das contas, Winds of Time respeita profundamente a tradição do heavy metal clássico. Ao mesmo tempo, reforça uma percepção que muitos fãs do estilo provavelmente compartilham: depois de décadas ouvindo o gênero, certos refrãos, melodias, temas líricos e estruturas musicais se tornaram tão previsíveis que o ouvido reconhece o caminho da música antes mesmo de ela chegar lá.

Não se trata necessariamente de uma crítica ao álbum ou à banda. É apenas a consequência natural de um estilo que, em muitos aspectos, ainda parece contar a mesma história repetidas vezes.

Ainda assim, para os fanáticos de plantão, Winds of Time certamente tem qualidades suficientes para merecer uma audição atenta.

William Ribas




WINGS OF STEEL - GATES OF TWILIGHT (2023)

 


WINGS OF STEEL
GATES OF TWILIGHT
Shinigami Records - Nacional

Acredito que comecei essa descoberta pelo caminho mais difícil. Ao partir diretamente para o álbum mais recente, acabei deixando passar aquilo que, ao menos por enquanto, parece ser o verdadeiro ponto alto da recém iniciada discografia do Wings of Steel. Esse momento atende pelo nome de Gates of Twilight, lançado em 2023.

Não que as influências — e até certas semelhanças bastante evidentes — que mencionei ao falar de "Winds of Time" estejam ausentes aqui. Elas continuam presentes, mas aparecem de forma muito mais natural. Em vez de soar como uma simples coleção de referências, a banda consegue absorver suas inspirações e transformá-las em algo convincente.

Há momentos em que o Wings of Steel remete aos melhores dias do Queensrÿche, especialmente pelas linhas vocais. Em outros, surge aquela energia contagiante dos primeiros trabalhos do Helloween, com refrãos fortes, guitarras inspiradas e uma sensação constante de aventura.

Essa proposta fica clara logo na abertura. "Liar in Love" estabelece o tom do álbum com melodias marcantes, guitarras elegantes e uma performance vocal que imediatamente chama a atenção. Em seguida, "Fall in Line" aparece como uma das grandes candidatas a destaque da obra, trazendo riffs afiados, velocidade, refrãos memoráveis e uma energia que remete aos grandes clássicos do metal.

Já "Cry of the Damned" reforça o lado mais direto da banda e entrega um dos momentos mais fortes de todo o disco. Mas o grande mérito de "Gates of Twilight" está justamente em não permanecer confortável dentro de uma única fórmula. "Garden of Eden" desacelera o ritmo e explora uma atmosfera mais arrastada, enquanto "Lady of the Lost" investe em melodias carregadas de emoção sem abrir mão do peso.

Em "Leather and Lace", a banda mergulha sem medo em influências hard rock, funcionando como um dos momentos mais ousados do álbum. A faixa-título representa, talvez, a síntese perfeita da proposta do grupo. "Gates of Twilight" reúne peso, dramaticidade, senso épico e diversas mudanças de dinâmica em uma composição ambiciosa que evidencia tanto as qualidades quanto algumas limitações da banda. É uma música impressionante, mas que também revela uma característica recorrente ao longo do disco: a dificuldade em resistir à tentação de adicionar mais uma ideia, mais uma mudança ou mais uma camada de complexidade. Às vezes, menos é mais.

E esse é, talvez, o principal ponto de evolução para o futuro. Em diversos momentos, o álbum parece tão determinado a demonstrar suas capacidades que acaba sacrificando um pouco da fluidez. Não existem músicas ruins aqui, longe disso. Porém, algumas composições poderiam causar um impacto ainda maior se fossem ligeiramente mais diretas e objetivas. O Wings of Steel claramente possui talento suficiente para fazer muito; agora resta descobrir quando fazer menos.

No fim das contas, "Gates of Twilight" impressiona mais pela coragem do que pela perfeição. É um álbum que transborda entusiasmo, talento e ambição. Nem todas as ideias funcionam com a mesma eficácia, mas mesmo seus excessos são reflexo de uma banda que pensa grande. Se conseguir encontrar um equilíbrio mais refinado entre complexidade e objetividade nos próximos trabalhos, o Wings of Steel tem potencial para se tornar um dos nomes mais interessantes da nova geração do heavy metal tradicional.

Por enquanto, porém, Gates of Twilight já cumpre uma função importante: provar que seu sucessor, "Winds of Time", foi um deslize — ao menos aos meus ouvidos — e que devo manter o Wings of Steel no radar.

William Ribas




quinta-feira, 11 de junho de 2026

SKID ROW - SLAVE TO THE GRIND 35 ANOS

 


SLAVE TO GRIND - 35 ANOS DO ÁLBUM QUE GANHOU PESO NAS GUITARRAS SEM PERDER A MELODIA

Por Sergiomar Menezes

Em 11 de junho de 1991, o SKID ROW disponibilizava ao mundo um trabalho que não apenas mexia com as expectativas da sua gravadora, mas também faria história na música pesada. Ao completar 35 anos, SLAVE TO THE GRIND permanece como um marco fundamental de transição e coragem, uma vez que o Hard mais festeiro e despojado do primeiro álbum, deu lugar a guitarras mais pesadas, vocais mais rasgados e uma atmosfera mais densa no que diz respeito às letras. Após estourarem mundialmente, impulsionados por megahits como "18 and Life" e "I Remember You", o caminho comercial mais seguro para o Skid Row seria repetir a fórmula. Havia uma pressão imensa para manter o visual perfeitamente alinhado e as baladas de rádio no topo.

No entanto, a banda liderada pelas guitarras de Dave "The Snake" Sabo e Scotti Hill, pelo baixo pulsante de Rachel Bolan e pela bateria de Rob Affuso decidiu endurecer o jogo. Eles recrutaram novamente o produtor Michael Wagener, mas deixaram claro: o novo som seria cru, agressivo e sem concessões. O resultado foi um soco na boca do estômago da indústria. As guitarras ganharam afinações mais baixas, flertando abertamente com o peso do heavy metal tradicional. Como citado anteriormente, as letras abandonaram os clichês festivos e de romance da Sunset Strip para focar em críticas sociais, isolamento, corrupção e saúde mental.


Mesmo sem o apelo comercial do primeiro disco, Slave to the Grind realizou um feito inédito: foi o primeiro álbum de heavy metal a estrear diretamente no número 1 da Billboard 200 na era SoundScan (o sistema informatizado que passou a computar com precisão as vendas reais de discos). O feito provou que o público estava sedento por uma sonoridade mais visceral exatamente no ano em que o cenário musical mudaria drasticamente com o estouro do grunge.

"Slave to the Grind" se destaca por não dar trégua ao ouvinte, equilibrando perfeitamente a velocidade com baladas densas e sombrias. A abertura com "Monkey Business" dita as regras com um riff icônico arrastado que explode em velocidade. Já a faixa-título, "Slave to the Grind", e a veloz "Riot Act" mostram uma banda tocando no limite da agressividade, com andamentos que lembram o som de bandas como Pantera e Anthrax (com quem o Skid Row dividiria palcos em turnê). No que diz respeito as baladas, longe de serem canções de amor açucaradas, neste disco elas lidam com temas complexos. "Quicksand Jesus" questiona a fé e a humanidade em momentos de crise. "In a Darkened Room" aborda o abuso e o trauma de forma profundamente melancólica e "Wasted Time", um dos pontos altos da carreira da banda, narra a dolorosa decadência de um amigo devido ao vício em drogas.

Mas é praticamente impossível falar de "Slave to the Grind" sem destacar a performance de Sebastian Bach. Se no primeiro disco ele já mostrava alcance, aqui ele entregou uma das interpretações vocais mais impressionantes da sua carreira. Bach transita entre vocais limpos e profundos nas partes melódicas e agudos rasgados nas faixas mais pesadas. O controle dinâmico e a raiva legítima que ele imprimiu em estúdio se tornaram o padrão de ouro para vocalistas do gênero, imortalizando canções que pouquíssimos cantores no mundo conseguem reproduzir com a mesma entrega.

SLAVE TO THE GRIND foi uma declaração de liberdade do grupo, provando que a banda era musicalmente muito mais robusta, pesada e madura do que os clichês visuais da Sunset Strip sugeriam. Para o Hard Rock em geral, o álbum quebrou barreiras ao se tornar o primeiro disco a estrear no topo da Billboard na era moderna de contagem de vendas, mostrando que era possível alcançar o sucesso comercial massivo sem abrir mão da agressividade. Ao adentrar no mundo das guitarras pesadas, o SKID ROW antecipou os rumos dos anos 1990, deixando como legado uma obra atemporal que serve de ponte perfeita entre o hard rock clássico e o metal moderno.