terça-feira, 5 de maio de 2026

AEROSMITH - ROCKS 50 ANOS

 


ROCKS - OS 50 ANOS DO ÁLBUM QUE MOLDOU O HARD ROCK 

Por Sergiomar Menezes

Quando pensamos no ano de 1976, é comum lembrarmos do auge da discoteca, do nascimento do punk rock em Nova York e Londres, e da dominância do rock progressivo. No entanto, no meio desse turbilhão, este que vos escreve, veio ao mundo. Mas, alémm de tudo isso, o AEROSMITH entregou, em 3 de maio, o disco que serviria de guia para o que chamamos de Hard Rock.

ROCKS não é apenas o sucessor de "Toys in the Attic". "Rocks" é a declaração de independência da banda. Se o trabalho anterior trouxe os sucessos que os colocaram nas paradas, "Rocks" é onde a banda decidiu: "nós somos a banda mais perigosa dos Estados Unidos".

Para entender o impacto de "Rocks", precisamos entender a atmosfera da época. O Led Zeppelin estava lançando Presence, um disco que apresentava uma banda sob extrema pressão. O Aerosmith, por outro lado, estava no auge da sua forma física e criativa. Eles não queriam soar como os "novos Rolling Stones" ou seguir as tendências do progressivo. Eles queriam capturar e externar a agressividade dos clubes noturnos diretamente no estúdio.

Um fato fundamental sobre Rocks é a produção de Jack Douglas. Diferente de muitos álbuns da época, Douglas focou no que ele chamava de "som de ambiente". Eles gravaram em um depósito convertido em estúdio, o The Wherehouse em Waltham, Massachusetts. 


A filosofia era simples: deixar a banda soar como banda. O som de bateria de Joey Kramer é seco e direto, o baixo de Tom Hamilton é pesado e melódico, e a interação de guitarras entre Joe Perry e Brad Whitford atingiu um nível que raramente foi igualado desde então. Eles não estavam apenas tocando as músicas: eles estavam vivendo as canções enquanto as registravam.

Rocks é um álbum sem "gordura". Não há baladas forçadas ou experimentos desnecessários. Alguns destaques de um álbum que definiu toda uma geração: "Back in the Saddle", que abre o disco com o som de um chicote e um riff que é a própria definição de "heavy". Foi a declaração de que eles estavam no comando da cavalaria do Rock. Cabe lembrar que essa faixa foi regravada décadas depois por Sebastian Bach nun dueto bem bacana com Axl Rose em seu álbum solo "Angel Down" (2007); "Last Child" mostra uma face mais blues e funk da banda, provando que o hard rock não precisa ser apenas rápido. Já "Nobody’s Fault" é, talvez, o ponto de maior conexão com o heavy metal que viria nos anos 80. A agressividade da letra combinada com a afinação mais sombria influenciou diretamente bandas como Metallica e Soundgarden. "Rats in the Cellar", que segundo Tyler era uma espécie de resposta à "Toys in the Attic" evoluiu de "Rattlesnake Shake", do Fleetwood Mac, um marco dos primeiros setlists da banda. “Combination” apresenta Perry dividindo os vocais principais com Tyler pela primeira vez, e o guitarrista admitiu em 1997 que a música era “sobre heroína, cocaína e eu”. 

Se hoje você ouve bandas como Guns N' Roses, Mötley Crüe ou Skid Row, você está ouvindo os ecos de "Rocks". O álbum criou o modelo para o que seria o "som das ruas" do hard rock dos anos 80. Ele provou que era possível ser comercialmente viável sem sacrificar a pegada e a atitude punk que estava borbulhando na cena subterrânea da época.

Enquanto muitos álbuns de 1976 soam datados pela produção da época, "Rocks" soa atemporal. Ele capturou o momento exato em que a química dos "Bad Boys from Boston" atingiu a perfeição atômica.

Celebrar 50 anos de ROCKS é mais do que nostalgia: é um exercício de estudo sobre o que torna o rock autêntico. Cinquenta anos depois, o disco continua a ser uma aula de como construir riffs memoráveis, como manter uma cozinha coesa e, acima de tudo, como ser autêntico em um mercado que sempre tenta vender o artista como um produto polido.

E a propósito: você sabia que "Rocks" era um dos álbuns preferidos de Kurt Cobain? Que em "Diários da Heroína", Nikki Sixx cita o Aerosmith diversas vezes? Que James Hetfield disse que "Rocks", assim como o Aerosmith, são influências importantes em sua música, afirmando que a banda foi a razão pela qual ele quis aprender a tocar guitarra? Que "Rocks" foi o álbum que mudou sua vida e o fez quere aprender a tocar guitarra?

Não á toa, Joe Perry, em sua autobiografia escreveu que "Rocks veio para nos redefinir como a mais importante banda de garagem da América, com guitarras devastadoras, vocais devastadores, produção ao máximo que destrói seus tímpanos... A capa mostrava cinco diamantes, um para cada um de nós. Víamos aquele disco como uma joia, o auge de toda a nossa angústia, raiva, empolgação e alegria como roqueiros que se entregam de corpo e alma".

Se você quer entender a espinha dorsal do Hard Rock americano, o caminho é um só: coloque ROCKS para girar no volume máximo. Ele continua atual. Como sempre foi.



segunda-feira, 4 de maio de 2026

VENOM - INTO OBLIVION (2026)

 


VENOM
INTO OBLIVION
Noise Records - Importado

O Venom é uma entidade, não apenas uma banda qualquer. Falar isso é ser simplório e até piegas e ingênuo. Mas precisa ser dito sempre. Pois verdades, ás vezes, precisam ser relembradas. Esta análise de álbum é feita por um fã do Venom, e se você não curte a banda, ou é um “hater” de carteirinha da banda de Newcastle, aconselho a parar a leitura do texto por aqui. Aqui é um “sócio-torcedor” da banda de Cronos e seus derivados (sim, pois agora temos três “Venoms” ativos) que escreve, e não há "liberdade de expressão" para quem não os curte.

Lembro como se fosse “anteontem” quando tive contato com o Venom original. Sim, a trindade Infernal: Cronos, Mantas e Abaddom. A música foi “Angel Dust” do obrigatório álbum “Welcome To Hell” e tocou na Rádio Ipanema FM , no programa Central Rock do saudoso “Guru” Ricardo Barão. Lembro de apenas querer ter o LP e descobrir que só existia o importado, com preço proibitivo para um garoto de 14 anos que recebia mesada dos pais. O jeito foi gravar em fita cassete na também saudosa Loja Megaforce, e com minha mesada gravei “Welcome to Hell” e “Black Metal”. Ouvi as fitas até gastar. E de lá para cá, foi fanatismo puro. Então vou tentar ser apenas fã, para descrever o que temos neste novo “Into Oblivion”.

Pesado, visceral, brutal e insanamente Metal. Este é “Into Oblivion”, o décimo sexto álbum de estúdio do Venom. Para nós do “Venom Army”, o álbum é perfeito. O que Cronos (baixo, vocal e líder supremo do Inferno), Dante (bateria) e Rage (guitarras) entregam aqui, é pura fúria, mantendo a tradição que fez o Venom ser a besta furiosa que sempre foi, mesclando com os timbres e recursos da atualidade, sem se tornar “modernoso”. A impressão que temos, é que o trio entrou no estúdio e decidiu: “Vamos abrir os microfones, vamos tocar e o que criarmos vamos gravar”. E piamente eu acredito que Cronos e comandados assim fizeram.

“Into The Oblivion, a faixa inicial, é o Venom como veio ao mundo, Um soco na vida do desavisado!. “Lay Down Your Souls” é uma das frases mais icônicas em uma letra no mundo do Metal, e aparece na letra do hino “Black Metal” de 1982, e ela retorna e intitula a segunda faixa. Aqui “deus não é Deus ou Satanás. É o Rock n' Roll! Essencialmente suja, pesada e extremamente metal, já nasceu clássica. ”Nevermore” é um pesadelo típico, mas um pesadelo acessível, que podemos conviver e até torcer para que ele volte. Peso sobre peso. “Man and Beast” é uma faixa típica do que se costumava chamar de Power Metal. Não o que se convencionou chamar depois, espadinhas, vocais felizes e solos de guitarra virtuosos”. Era o Metal Poderoso, que Venom, Exciter, Nasty Savage e outros trouxeram para o mundo.

“Death To Leveller” é a prova de que o Venom é representante legítimo da NWOBHM enquanto “As Above, So Below” desacelera o ritmo para invocar o Anjo Caído. “Kicked Outta Hell” e “Legend” demonstram que num mundo tão perturbado como o que vivemos, o Venom ainda consegue ser tão perturbador quanto.”Live Loud” cadenciada e convidativa ao headbanging é outro hino, que explicita a necessidade de viver em alto e bom som. “Metal Bloody Metal”.... com um título desses, não precisa de explanações: escute o trabalho está feito. “Dogs Of War” é uma faixa dedicada aos detratores que sempre vociferaram contra o Venom, os chamando de maus músicos e inimigos da melodia. Melodia?Temos aqui sim, mas sem deixar a agressividade para trás. Que faixa senhoras e senhores.

“Deathwish” é aquela faixa para relembrar de onde o Venom e todo o Metal veio: um fantástico riff Iomminiano executado por Rage relembra até o menos catedrático headbanger, que o pai de todos se chama Black Sabbath. “Unholy Mother” fecha este trabalho sensacional, com um clima gótico e vampiresco, com mais um riff de arrepiar por parte de Rage. O Venom está mais vivo que nunca e Cronos e os “caras novos” (que já estão a mais de década na banda) souberam fazer um álbum que não apenas reafirma o Venom como uma banda relevante e influente após quatro décadas, como também como uma banda que tem muito o que entregar ainda! Para este que vos digita, é o álbum do ano! Caso você discorde, eu avisei lá no início do texto que ele não era para você! Entregue sua alma para os Deuses do Rock n Roll!!! Eu fiz isso com 13 anos de idade e sou feliz para caraca!!!! E faz tempo, viu!!! VENOM FOR LIFE!!!




BATTLE BEAST - STEELBOUND (2025)

 


BATTLE BEAST
STEELBOUND
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

O Battle Beast é mais uma cria do Metal Sueco. Vai ser terra abençoada essa tal de Escandinávia! Desde a sua formação em 2008, é uma banda que conseguiu unir Power/Heavy Metal, Hard Rock e Pop Music numa mesma embalagem, e que agrada em cheio. Presença constante nos festivais de Metal e Rock europeus, o Battle Beast fixou seu nome entre uma das bandas mais solicitadas da Europa.

No seu mais recente trabalho, batizado de Steelbound, a banda finlandesa retorna com força total com músicas simples, diretas e concisas de aproximadamente três minutos cada, nas quais não arriscam, mas sim recorrem à fórmula que lhes trouxe sucesso: guitarras e teclados que misturam agressividade, inspiração oitentista e diversão, ocasionalmente combinados com sonoridades épicas.

Tudo isso forma a base do elemento mais marcante da banda: a voz poderosa e impactante de Noora Louhimo , que personifica virtuosismo e versatilidade, transitando sem esforço de notas incrivelmente altas e roucas para tons mais graves, adotando também uma voz melódica, doce e emotiva quando a situação pede.

E a fórmula vitoriosa do Battle Beast segue em “Steelbound”. “The Burnin WIthin“ é praticamente Power Metal, porém vibrante e poderosa, enquanto “Here We Are” é mais festiva, com teclados em destaque e bateria reta no estilo anos oitenta. Imagine o a-ha com distorção e timbres mais metalizados? É isso! Porém sem deixar o lado Hard/heavy de lado. Soa empolgante do inicio ao fim. Eu peguei apenas as duas primeiras faixas como destaques do álbum, para definir como “Steelbound” segue.

É um álbum menor em relação aos anteriores, porém é acima da média do que se ouve no geral. O Battle Beast é uma banda diferenciada e se “Speelbound“ não segue no mesmo nível dos trabalhos anteriores, mantém a banda num patamar de “se você anda não conhece, deve conhecer”. Lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




JOHN CORABI - NEW DAY (2026)


JOHN CORABI
NEW DAY 
Frontiers Music srl. - Importado

Um belo dia você abre o seu site preferido de noticias de Rock/Metal e pensa: “Nossa, o gigante John Corabi lançou um novo cd!!! E já vendeu um milhão de cópias!!!”. Esqueça, isso nem o próprio Corabi deve ter sonhado um dia, mas uma coisa eu posso garantir com a certeza de que o Pavón, jogador do meu Grêmio é um dos piores jogadores da história do esporte: John Corabi é um dos artistas do Rock e Metal mais injustiçados de todos os tempos.

Conheci o tal Corabi como vocalista da banda The Scream, um suposto “supergrupo” formado das cinzas do Racer X, do baixista monstro John Alderete e do incrível guitarrista Bruce Boillet. O álbum do The Scream , “Let It Scream” foi lançado em 1991, e muito por conta de um tal John Corabi, um misto de Steven Tyler/Ronnie James Dio se tornou um álbum cultuado e preferido do undergorund do Hard Rock noventista (estranho mas até 1993, temos excelentes álbuns sem a influência nefasta do Grunge Rock). E desde então me tornei fã do cara.

Não é necessário falar que ao substituir Vince Neil no Mötley Crüe, após o lançamento do álbum homônimo, ele dividiu opiniões: um álbum pesadíssimo de muita qualidade, porém diferente do Hard Rock tradicional do Crüe, não agradou no geral e a “culpa” recaiu em cima de John.

Particularmente eu acho o “Mötley Crüe 1994” um álbum espetacular, mas entendo que na época decepcionou os fãs, mas enfim, eram os anos 1990. Após sair do Crue, Corabi tocou guitarra em uma das encarnações do Ratt, montou o Union com Bruce Kulick e se tornou vocalista do Dead Daisies. Além de gravar um CD acústico e um álbum ao vivo tocando o “Crue 94” na íntegra. Mas faltava um disco solo de verdade, e a espera termina agora com “New Day”.

“New Day” é um trabalho inspirado e criado sob a influencia do Classic Rock dos anos 1960 e 1970, e COoabi não tenta esconder isso em nenhum segundo do álbum. A primeira música que os fãs ouviram do álbum foi "Così Bella". Lançada como single ainda em 2021, foi seguida por por "Your Own Worst Enemy', lançada no mesmo ano. Ambas as faixas estão incluídas no álbum, mostrando que o projeto já vinha há tempos sendo planejado. "Così Bella" é uma música de rock animada. Seu ritmo contagiante e melodia cativante a tornam uma canção leve e descontraída. O título, "Così Bella", significa 'tão bonita', que é exatamente a vibe que a música evoca. Em contraste, "Your Own Worst Enemy" é mais sombria e melancólica. É uma música com influência de blues e um toque funky. A faixa-título, "New Day", abre o álbum e é uma música de rock n' roll também vibrante, que promove uma mentalidade positiva. Novos dias oferecem novas oportunidades, e ouvir essa canção automaticamente imprime uma energia positiva, e vontade de escutar de novo!

“That Memory” é um Rock n' Roll direto, com influências dos anos 70, antes de “Faith, Hope and Love” adicionar um toque melancólico ao álbum. Esta música pode ser chamada de uma balada, mas é muito mais do que um clichê choroso de coração partido. “Faith, Hope and Love” é comovente e tem um nível de profundidade, o que também se deve aos vocais emocionais de Corabi. O homem realmente sabe colocar emoção no que canta.

“1969” é uma homenagem a uma época em que a música rock estava no auge. Tem uma vibração saudosa, e o álbum oferece profundidade emocional ao longo de toda a audição, seja quando você ouve os rocks animados ou os momentos comoventes. Isso se deve à toda emoção que Corabi imprime às suas composições e à sua voz distinta. Essas qualidades dão a cada uma das músicas uma sensação pessoal e muito autêntica, contribuindo para a impressão positiva de “New Day” como um todo.

O impressionante álbum de estreia de John Corabi vê rock, blues e soul se unirem. Tomando inspiração dos anos 1970, o cantor criou um álbum que se baseia nas suas origens e influências, o que torna “New Day” um “jogo ganho. Que grande Rocker e autêntico artista é John Corabi. Que “New Day” seja apenas o primeiro de uma extensa discografia solo.

José Henrique Godoy






 

MEGADETH - THIS WAS OUR LIFE TOUR - 02/05/2026 - ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP



MEGADETH
THIS WAS OUR LIFE TOUR
02/05/2026
ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP 

Texto e fotos: Fernando Aguiar

Há shows que você assiste. E há shows que você testemunha. A passagem do Megadeth por São Paulo na noite de 2 de maio, única data no Brasil da turnê de despedida This Was Our Life, caiu claramente na segunda categoria. Não porque tudo foi perfeito. Longe disso. Mas porque havia um peso específico naquela noite que nenhuma imperfeição técnica seria capaz de apagar.

Esta foi a 17ª visita do Megadeth ao Brasil, o 42º show da banda em solo nacional. Dave Mustaine (um dos precursores do thrash metal) tem 64 anos, enfrentou um câncer na garganta e carrega nas mãos artrite, Contratura de Dupuytren na mão esquerda e paralisia do nervo radial, condições que o levaram a anunciar o encerramento das atividades do Megadeth ao fim dessa turnê. Quando as luzes se apagaram no Espaço Unimed e a banda simplesmente entrou no palco, sem introdução, sem vídeo, sem cortina caindo, a sensação foi a de quem sabe que está vivendo algo único.

"Tipping Point" abriu o show como single de apresentação do álbum final e homônimo da banda, e aqui aconteceu um dos momentos mais bonitos da noite: Dave Mustaine percebeu o público cantando a letra inteira de uma música lançada há poucos meses e se mostrou genuinamente surpreso e satisfeito com isso. Quem estava na plateia sentiu que a reação era real, não protocolar.

Logo em seguida veio a surpresa que ninguém tinha colocado na conta: "The Conjuring". Mustaine, cristão convertido, se arrependeu publicamente de ter escrito a letra (repleta de referências a um ritual satânico de uma época em que se envolveu com magia negra) e a faixa ficou fora dos setlists por décadas, entre 2001 e 2018. Ver essa música aparecer nessa turnê de despedida soou como um acerto de contas com o próprio catálogo.

A trinca seguinte foi de arrasar quarteirão. "Hangar 18" fez o que sempre faz, transformando a plateia num coro coletivo de "Me-ga-deth" entre os solos enlouquecedores e magnificos. "She-Wolf" veio logo na sequência mantendo (como sempre) o clima lá em cima e que também foi cantada e ovacionada antes de "Sweating Bullets" chegar com o monólogo de alguém em surto esquizofrênico que funciona ao vivo com uma intensidade que a gravação nunca capturou completamente. Foi a melhor performance vocal de Dave na noite, e aqui preciso ser honesto: a voz estava comprometida durante boa parte da primeira metade do show, algo perceptível a quem presta atenção e comentado por pessoas que estavam em diferentes pontos da pista e que encontrei após o show. "Sweating Bullets" foi o momento em que isso importou menos, porque a entrega compensou com folga.


A banda trouxe um pouco de “calmaria” com "I Don't Care" (a faixa mais punk do novo álbum, direta e sem rodeios) e "Dread and the Fugitive Mind", que voltava ao repertório após ausência na passagem anterior pelo Brasil. Dois momentos de respirada antes do set entrar na sua fase mais “agressiva”.

Até aqui o público respondia bem, mas faltava aquela agitação característica de um show de thrash metal de verdade. Os mosh pits eram tímidos, a energia mais contida. Foi a dobradinha "Wake Up Dead" e "In My Darkest Hour" que mudou o jogo. A galera foi junto nota a nota, estrofe por estrofe, cantando cada palavra com Dave, e a sensação de estar num show de thrash de verdade finalmente tomou conta do Espaço Unimed. Uma combinação que a banda já fez no passado e que raramente reaparece nos shows mais recentes, e que aqui funcionou como o gatilho que a noite precisava. A voz de Dave também começou a dar sinais de melhora a partir desse ponto, o que ajudou bastante.

"Hook in Mouth" voltou ao setlist após ausência em 2024 e foi recebida com entusiasmo por quem conhece o catálogo mais a fundo. "Let There Be Shred", do novo álbum, foi o espaço de Teemu Mäntysaari brilhar individualmente. O guitarrista finlandês (escolhido e preparado pelo próprio Kiko Loureiro para ocupar seu lugar) mostrou muito mais desenvoltura do que na passagem anterior por aqui, circulando mais pelo palco e transmitindo uma confiança que o diferencia da imagem mais contida que tinha no início.
Em seguida, veio a sequência mais devastadora da noite. "Symphony of Destruction" é "Symphony of Destruction" (preciso dizer mais alguma coisa?). Ao vivo, naquele contexto, com aquela galera, soou ainda maior do que qualquer gravação consegue sugerir. "Tornado of Souls" trouxe um dos solos mais reverenciados da história da banda, executado com a precisão que a faixa exige e com o peso de saber que você está ouvindo aquilo ao vivo. "Mechanix" chegou fechando o bloco e a insanidade já tinha tomado conta de vez. A pista estava em ebulição total.

E então veio o momento mais histórico da noite, para quem não estava acompanhando de perto as novidades da turnê. "Ride the Lightning", composição que Dave Mustaine criou junto a Lars Ulrich e James Hetfield ainda nos primórdios do Metallica, regravada no álbum final do Megadeth. Ver a música ao vivo foi algo que dificilmente se repete: foi cantada em uníssono pela plateia inteira, agitada com uma energia que remetia ao que seria um show do próprio Metallica. Dave tem co-autoria na faixa, e faz todo o sentido que ela apareça num disco e numa turnê de despedida.

O encerramento apoteótico foi o que precisava ser. "Peace Sells" e "Holy Wars… The Punishment Due" juntas no fechamento são quase uma crueldade, no bom sentido é claro, com dois dos maiores hinos do thrash metal em sequência e dois mascotes Vic Rattlehead subindo ao palco durante "Peace Sells" em referência à capa do novo álbum.

Dave Mustaine disse ao palco que o público de São Paulo foi ótimo e que "eles foram o Megadeth". Em entrevistas recentes sinalizou que gostaria de voltar a outras cidades brasileiras antes do encerramento definitivo, citando nominalmente Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília. A sensação que a noite deixou é mais de "até logo" do que de "adeus".

Mas independentemente do que vier a seguir, o que aconteceu no Espaço Unimed ontem foi um espetáculo digno de um dos precursores do thrash metal. Com limitações físicas e uma voz que já não é a mesma de Peace Sells ou Rust in Peace, Dave Mustaine ainda sobe num palco e lembra ao mundo por que o Megadeth existe, e porque vai fazer falta quando não existir mais (e essa é a parte mais triste de tudo).

A Rebel Rock marcou presença, mesmo sem credenciamento para o evento. Mas quem nos conhece sabe que isso nunca foi o que nos move. Não estamos aqui por protocolo, por acesso facilitado ou por qualquer interesse além do óbvio: o amor pelo heavy metal. É ele que nos leva aos shows, que nos faz escrever, que nos mantém de pé até o último acorde. Sempre foi assim, sempre será.