terça-feira, 20 de janeiro de 2026

EDENBRIDGE - SET THE DARK ON FIRE (2026)


 

EDENBRIDGE
SET THE DARK ON FIRE 
Steamhammer/SPV - Importado

O grupo austríaco EDENBRIDGE retorna com seu décimo segundo álbum, intitulado SET THE DARK ON FIRE, um trabalho que representa tanto o retorno da banda à Steamhammer/SPV quanto seu som mais pesado. Mas, ao mesmo tempo, permanecem fiéis ao estilo que lhes garantiu muitos fãs ao longo dos anos. O som do grupo sempre primou pela elegância e melodia, e dessa vez, não poderia ser diferente, considerando sua produção grandiosa. O álbum é mais um daqueles trabalhos que soam quase como se fossem uma "metal opera", trazendo elementos e letras unidas por um tema que aborda de narrativas e temas ligados à vida e aos elementos naturais da terra.

Completando 27 anos de carreira, o grupo formado pela vocalista Sabine Edelsbacher, pelo guitarrista e tecladista Arne "Lanvall" Stockhammer (principal compositor), Pelo também guitarrista Sven Sevens e pelos baixista e baterista, respectivamente, Stefan Gimpl e Johannes Jungreitmeier, nos traz um álbum, como já citado anteriormente, bastante pesado, mais voltado ao Heavy Metal, mas sem deixar de lado suas características melódicas, com passagens sinfônicas e orquestrações muito bem elaboradas, cortesia de Lanvall. A bonita capa entrega aquilo que ouviremos: uma mistura entre o peso e a harmonia, numa bela coleção de momentos que se fundem, criando o clima perfeito para a sonoridade do grupo.

"The Ghostship Diaries" abre o álbum com guitarras pesadas numa pegada bem metal tradicional, enquanto a bela voz de Sabine nos guia pelas harmonias da composição. E aqui eu deixo um questionamento: porque Sabine nunca é lembrada como uma das grandes vocalistas do estilo? Sua voz é suave e ao mesmo intensa, forte, sem precisar fazer malabarismos mirabolantes pra ficar em evidência. Baixo e bateria garante uma base pesada, mostrando a ótima escolha para a abertura: uma faixa impactante e criativa! Na sequencia, outro momento bastante pesado e denso "Cosmic Embrace". Apesar de passagens mais suaves, que ganham maior consistência na voz da vocalista, os riffs garantem a intensidade que o estilo praticado pelo grupo pede. No entanto, uma pegada mais medieval, com toques de Blackmore's Night, invade "Where the Wild Things Are", com um refrão melódico e de fácil assimilação. A curta instrumental "Tears of the Prophets" antecede "our Palce Among the Stars", que faz o ritmo cair, não em intensidade, mas em velocidade. Num andamento mais lento, a banda explora várias nuances, navegando entre o sinfônico e o melódico, enquanto Sabine mostra sua qualidade em belas linhas vocais.

A faixa-título, "Set the Dark on Fire", é uma composição com toques mais modernos, em mais um ótimo momento da duplas Stefan e Johannes, que formam uma cozinha coesa e entrosada. A faixa traz também um dos refrãos mais voltados ao metal melódico do álbum. "Bonded by the Light", por sua vez, me remeteu a alguma trilha sonora, daqueles filmes ambientados na Nova Yorque dos anos 50/60. Um momento mais suave e belo dentro de um álbum intenso. "Divine Dawn Reveal", outra pequena instrumental, com elementos folk e celtas, nos guia até "Lighthouse", uma faixa grandiosa, épica e imponente, de longe, o momento mais melódico e sinfônico do trabalho. O encerramento vem com "Spark of the Everflame", dividida em quatro partes. Na verdade, são quatro faixas totalmente diferentes. "Let Time Begin", é como se fosse uma intro majestosa, que antecede "The Winding Road to Evermore", que em certos momentos, nos remete ao metal mais atual, até mesmo ao que bandas como o Evanescence fez em algum de seus trabalhos. Mas eles não têm a classe e categoria de Sabine. "Per Aspera Ad Astra" traz elementos sinfônicos muito bonitos enquanto "Where it Ends, Where it Starts", encerra o álbum com todos os elementos do Edenbridge: melodias, belos vocais, solos técnicos, elementos sinfônicos e muita classe.

SET THE DARK ON FIRE não é um álbum inovador. Muito menos estará entre os melhores álbuns do ano deste que vos escreve. Mas é um trabalho revigorante de uma banda que merecia (e merece) um maior reconhecimento por parte do público e não apenas por seus fãs. Guitarras pesadas, belas melodias e uma vocalista que canta de forma suave sem exageros, fazem do EDENBRIDGE uma banda a se conhecer melhor.

Sergiomar Menezes






segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

REBEL ROCK ENTREVISTA - THE MIST

 


O álbum “The Dark Side of the Soul (An Anatomy of the Soul)”, sucessor do EP The "Circle of the Crow" (2022), marca o retorno da banda mineira — atualmente formada por Vladimir Korg (vocal), Edu Megale (guitarra), Wesley Ribeiro (baixo) e Lina Linassi (bateria) — às suas raízes mais puras do thrash metal, agora aprofundadas por uma atmosfera ainda mais sombria, conceitual e agressiva, com produção assinada por André Damien no estúdio Maçonaria do Áudio e mixagem e masterização a cargo do renomado produtor dinamarquês Tue Madsen, conhecido por trabalhos com nomes como Meshuggah, Rob Halford, Moonspell, Behemoth, Vader, Vio-lence, Ektomorf e Kataklysm, enquanto a impactante arte de capa resgata uma ilustração de 1983 do lendário artista Michael Whelan, célebre por trabalhos para Stephen King, H.P. Lovecraft e bandas como Obituary e Sepultura. Lançado mundialmente em novembro pela gravadora portuguesa Alma Mater Records, fundada por Fernando Ribeiro (Moonspell), com distribuição da BloodBlast, braço da Believe/Nuclear Blast, o disco dá continuidade à tradição de obras conceituais do grupo, como o clássico "The Hangman Tree", porém com uma abordagem ainda mais visceral e perturbadora, construindo uma narrativa distópica guiada por diálogos entre uma alma atormentada e um cérebro tomado pela fúria, em uma crítica cortante à condição humana contemporânea, onde vaidade, futilidade e ódio são expostos sem piedade em letras que, segundo Korg, pretendem “cortar o ouvinte em pedaços”, ideia reforçada pela própria gravadora, que destaca diálogos improváveis e provocações diretas — como a inquietante pergunta “É agora que todos vão morrer?” — para definir o álbum como uma obra intensa, sem concessões, que não apenas atualiza como fortalece o thrash metal forjado em Belo Horizonte, entregando da primeira à última faixa um verdadeiro “quebra-pescoços” brutal, crítico e absolutamente fiel à essência do gênero. William Ribas bateu um papo com Korg a respeito do novo álbum e o resultado você confere à seguir.

Por William Ribas
Fotos: Alexandre Biciati

Rebel Rock: São trinta anos separando Gottverlassen de The Dark Side of the Soul. A resenha que escrevemos destaca que o mundo mudou para pior nesse tempo — ficou mais cínico e medíocre. O que foi o "estopim" para que o The Mist decidisse que agora era o momento exato para quebrar esse silêncio e lançasse um novo trabalho de inéditas? 

Vladimir Korg: Tínhamos a possibilidade de um contrato com uma gravadora bastante renomada por meio de um agente, mas precisávamos ter algo novo. Eu e Megale nos concentramos para criar músicas novas dentro de um conceito que eu já tinha escrito desde 2019. Nosso tempo foi curto, e eu mesmo fiz a produção executiva para agilizar o processo. Tínhamos realmente o tempo contra nós, mas conseguimos. Só que precisávamos de um montante de dinheiro para dar andamento ao contrato, e não conseguimos levantar esse valor. Tínhamos um álbum, e eu acreditava muito no potencial do trabalho. Foi desgastante, principalmente para mim e para o Megale. Decidi levar a produção adiante e lançar o álbum como lancei o EP The Circle of the Crow, mas o Fernando Ribeiro (Moonspell), dono da Alma Mater Records, tinha me feito um convite para fazer parte do cast e lançar algo novo, e eu tinha esquecido totalmente disso. Isso ajudou bastante a alavancar o álbum e levá-lo para a Europa e para outros continentes. Ficamos com o álbum dois anos até o lançamento definitivo e, mesmo assim, ele não perdeu seu frescor, seu olhar contemporâneo de crítica e indignação. Acho que o conceito ajudou bastante, pois a questão da desumanização e da futilidade que vivemos hoje só piorou. 

Rebel Rock: As bandas dos anos 80/90 retornam apoiadas puramente na nostalgia. O novo álbum, contudo, soa moderno e soa como um "acerto de contas”. Como foi o processo mental da banda para evitar a armadilha de tentar soar como em 1991 e, em vez disso, criar algo que soe relevante?

Korg: Não foi difícil, porque não foi intencional. Apenas fizemos o que sabemos fazer: música! Soar como o passado é meio perda de tempo, porque, na época, queríamos falar sobre o nosso tempo e não sobre coisas antigas. O EP já dava uma pista de que não estávamos mais presos ao passado.Sempre puxamos a orelha dos nossos fãs quando citam 1991 ou o The Hangman Tree, porque somos a continuação do Gottverlassen e não do The Hangman Tree. Há uma cronologia lógica no caminhamento da banda. Mesmo que eu não tenha participado do Ashes to Ashes e do Gottverlassen, esses trabalhos não podem ser ignorados.Somos uma banda que trata de coisas do agora, como éramos quando fizemos nossos trabalhos do passado. É impossível e desnecessário fazer emulações dos anos passados, porque não somos mais as mesmas pessoas, e tampouco precisamos seguir cartilhas do metal moderno para parecermos atuais. 

Wesley Ribeiro, Edu Megale, Vladimir Korg, Lina Linassi

Rebel Rock: Aproveitando, como foi achar o equilíbrio certo entre preservar a essência clássica do The Mist e incorporar uma brutalidade contemporânea?

Korg: Não pensar sobre isso. Apenas fizemos o álbum. Nosso objetivo era sair daquilo vivos e razoavelmente normais (parece que falhamos neste último). Não tivemos muito tempo para pesquisar ou trilhar um caminho. Apenas passamos madrugadas compondo. Compusemos o álbum todo em dois meses e meio. Algumas músicas eu cantei pela primeira vez dentro do estúdio. 

Rebel Rock: O conceito de "Anatomia da Alma" é fascinante e perturbador. A ideia de dar voz a órgãos (Fígado, Pulmões, Coração) para dialogar com a alma cria uma narrativa muito visual. De onde surgiu essa ideia de dissecar a condição humana biologicamente e moralmente?

Korg: Foi algo planejado desde o início ou surgiu durante as composições? A ideia me veio à cabeça assistindo a uma dissecação de um cadáver na sala de anatomia da Faculdade de Medicina, em 2019. Comecei a escrever o álbum a partir daí. O lance era não fazer algo centrado em anatomia, e sim criar uma poética tendo como base as estruturas anatômicas.É claro que eu tinha represado muita coisa, muitos sentimentos e tal desde a pandemia. Foi colocar tudo em um caldeirão e mexer. É muito legal quando alguém sente essa perturbação que você disse, porque prova que o álbum foi ouvido — coisa difícil hoje em dia. 

Rebel Rock: Korg, seus vocais neste disco soam diferentes de tudo que você já fez. Há um desespero, uma alternância entre o escárnio e o pedido de socorro que soa incrivelmente. Como foi a preparação emocional para gravar vozes que precisavam soar como alguém "preso dentro do próprio corpo”? 

Korg: Acho que a urgência do álbum não me deu muito tempo para elaborar. Tive que me virar e me concentrar em como a música e as canções me afetavam. Tive uma excelente direção do André Damien, que me puxou a orelha às vezes quando minha falta de confiança batia. Sua presença na primeira fase da gravação foi muito importante. Acho que ele percebeu a responsabilidade do trabalho e o quão histórico, para a marca The Mist, era aquela confusão toda. 

Vladimir Korg

Rebel Rock: Na faixa “Geppetto's Song”, existe uma crítica ácida ao que chamamos de "contos de fadas”. Por que foi importante para vocês desconstruir essa visão inocente? Vocês acreditam que essa infantilização da sociedade é parte da doença moderna que o álbum diagnostica?

Korg: Sempre usei o The Mist como dispositivo para criticar uma moral muito “estadunidense”, à qual a minha geração foi submetida. E o universo da Disney foi muito utilizado para isso. A questão da mulher princesa, o homem como príncipe encantado, e como eram colocadas as coisas para as crianças, como elas deveriam se portar e tal. Sempre em um universo branco, perfeitinho demais e, é claro, inalcançável para pessoas nascidas no terceiro mundo, pessoas pretas ou fora do padrão que eles criaram. Sobre a infantilização, eu penso muito nisso de uma outra perspectiva. Acredito muito que seja uma imbecilização coletiva, e a internet e as redes sociais ajudaram muito para que isso acontecesse. Não que a internet seja a culpada por isso; ela se tornou um meio para que os imbecis se manifestem. Não estou falando sobre política, mas ela também está aí. As pessoas parecem ter descoberto que, sendo estúpidas, conseguem se comunicar melhor com mais pessoas e se destacar dentro desse universo; ou seja, os estúpidos estão mais organizados e em grupos imensos, em um universo de estupidez cada vez maior. As pessoas que realmente poderiam fazer diferença estão lendo livros ou angustiadas dentro de um mundo em que elas têm que dar uma espécie de moonwalker intelectual para serem entendidas. 

Rebel Rock: As letras expõem vaidade, futilidade, ódio e medo com brutalidade pouco comum. Vocês enxergam esse disco como um reflexo direto do mundo atual ou como algo mais íntimo e autobiográfico?

Korg: Um pouco dos dois. Às vezes, um pouco de alerta, mas sem nada messiânico. Quando eu falo que todo mundo morre e você tem que dar um jeito na porra da sua vida, isso é ingênuo? É o que os pais falam para os filhos desde que eles tomam consciência sobre o mundo. Mas como nos tornamos imbecis é bom lembrar. É claro, estou usando o termo “imbecil” de forma rudimentar, já que ele foi abolido para designar pessoas com desenvolvimento intelectual limitado no campo da neurologia. O termo se tornou um meio para ofender as pessoas; não é este o caso. Acho que “estúpidos” seria mais apropriado. Seja como for, ainda temos um certo nível de percepção para ver o quanto o mundo tem se tornado estranho e, muitas vezes, ridículo, e não nos importamos mais. As pessoas mentem sobre elas mesmas e sobre as coisas em volta. Construímos um simulacro onde depositamos o nosso pior e, mesmo assim, sorrimos com nossos sorrisos falsos em prol de uma imagem instável moldada por aquilo que foi — bastante apropriadamente — conceituado por Bauman como modernidade líquida. Acho que o álbum em si fala sobre o mundo que construímos para viver, mas no qual só alguns vivem. Quando falo de viver, é viver mesmo, e não sobreviver. O mundo que construímos não é para nós mesmos vivermos nele, e sim para alguns. Apenas temos uma visão ordinária sobre tudo.O que conhecemos é o que hoje nos permitem conhecer. Somos apenas óleo para as engrenagens que movem um mundo ao qual não pertencemos e do qual não usufruímos plenamente. Por isso, na primeira canção já tem um backing vocal insistente: Acorde

Rebel Rock: Em faixas como “The Curse of Life” e “Death – Return to Sender”, a morte surge não como metáfora distante, mas como presença constante. A consciência da finitude foi um motor criativo neste álbum?

Korg: Também. Em um mundo de mentiras, a morte é a verdade absoluta. Na música NAMBER, há um trecho que diz: “Estou vivendo na minha caverna de Platão, jogando com minhas sombras e, no final, eu sempre perco.” Eu fiz o possível para que essa frase fosse entendida de forma desesperada. Porque, às vezes, acho que a rapidez do mundo contemporâneo e a nossa rotina de sobrevivência se assemelham ao chamado “abraço do afogado”. 


Rebel Rock: O lançamento mundial ocorre pela Alma Mater Records, do Fernando Ribeiro (Moonspell). Ter um músico de uma banda icônica gerindo o selo muda a forma como o trabalho de vocês é tratado? Existe uma compreensão maior da "alma" da banda nesse caso? 

Korg: Fernando é um irmão do metal. Ele sempre foi um admirador do metal brasileiro e um grande fã do The Mist. Fomos tratados com muito respeito pela Alma Mater, e ele nos deu a possibilidade de termos um cara como Tue Madsen para finalizar nosso trabalho e um trabalho do Michael Whelan para a nossa capa.Ele tem consciência das dificuldades que temos por aqui, e eu sempre fui muito honesto com ele sobre isso. 

Rebel Rock: A última faixa, Return to Sender, encerra o disco com uma sensação de exaustão e entrega. O título sugere um fim, mas a energia da banda sugere um recomeço. O que podemos esperar do The Mist daqui para frente? A "jaula" foi aberta de vez? 

Korg: Hoje é difícil prever o futuro para uma banda. Sem querer, usei a mesma aura de fim para este álbum como usei em "Leave Me Alone", no The Hangman Tree. Mas não é um fim para este conceito. Este mundo é um terreno fértil para o heavy metal. O capeta hoje é tão inofensivo!!! 

Rebel Rock: Como é um trabalho cheio de conceitos, quase como atos de uma peça, acredito que seria extremamente interessante ter o álbum tocado na íntegra nos shows de divulgação. Vocês conversam sobre isso? Existe essa possibilidade? 

Korg: Não agora. Talvez um dia. O álbum acabou de nascer. Ele conversa bem com os primeiros álbuns, e conseguimos agradar a todos. Não vejo um setlist sem "Peter Pan Against the World" ou 'The Hangman Tree". 

Rebel Rock: Obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem para os nossos leitores. 

Korg: Eu que agradeço. Um abraço a todos os leitores do Rebel Rock. Ouçam o The Mist e comprem nossa nova marcha, que está foda. Na nossa bio do The Mist tem o endereço da nossa loja. Stay Metal!!!



MEGADETH - MEGADETH (2026)

 


MEGADETH
MEGADETH
Shinigami Records/BLKIIBLK - Nacional

A notícia do encerramento do Megadeth em meados de 2025 reverberou com o impacto sísmico de uma bomba. Não foi apenas o anúncio do fim de uma banda, mas o prenúncio do encerramento de um capítulo fundamental da história do heavy metal. O grupo vinha de dois ótimos álbuns (Dystopia e The Sick, The Dying… and the Dead!), trabalhos que provaram que criatividade, agressividade e relevância ainda pulsavam com força total. Claro, houve mudanças de integrantes — mas, sejamos sinceros, após mais de 40 anos de estrada, isso sempre fez parte do DNA do Megadeth.

Nos últimos meses, Dave Mustaine declarou que um dos principais motivos para essa decisão são os problemas em seu braço, o que nos leva inevitavelmente a revisitar o início dos anos 2000, quando a banda já havia encerrado suas atividades devido a sérios problemas nas mãos de Dave. A história, curiosamente, parece fechar um ciclo exatamente da forma como começou: com dor, resiliência e escolhas difíceis.

Outra declaração curiosa é a de que o álbum serviria como um encerramento no auge do Megadeth — e, após dias mergulhado nesse trabalho, é uma sentença com a qual é impossível discordar. Ainda estou buscando encontrar um lugar definitivo para o auto-intitulado entre meus favoritos do grupo e sigo em busca das fases da banda às quais o álbum me remete. Por ora, chego a duas conclusões bastante claras: Megadeth ocupa confortavelmente um top 8 pessoal, e a mistura de Youthanasia, Cryptic Writings, The World Needs a Hero e The Sick, The Dying… and the Dead! parece ser exatamente a fórmula que pavimentou o caminho para o possível sucesso do 17º — e derradeiro — trabalho de estúdio do grupo.

A formação que acompanhou Mustaine permanece a mesma dos últimos anos, com James LoMenzo (baixo), Dirk Verbeuren (bateria) e o estreante em estúdio Teemu Mäntysaari. Uma formação madura, entrosada, forjada no calor e perrengues da estrada faz com que as 11 músicas soem incrivelmente orgânicas, afiadas e vivas. Por mais que eu compreenda e respeite os motivos de Dave, a cada riff — e o álbum é abarrotado deles —, a cada solo ou linha de harmonia, surge aquela dúvida incômoda e inevitável: será que realmente é hora de guardar a guitarra? O cara está detonando, p***!

Como prelúdio do fim, o Megadeth optou por apresentar ao público, ao longo dos meses que antecederam o lançamento, três das quatro primeiras faixas como singles. “Tipping Point” veio primeiro, cumprindo com maestria o papel de faixa de abertura — dois pés no peito do fã, velocidade máxima e aquela sensação imediata de retorno aos melhores dias do thrash metal. Em seguida, a quase punk “I Don’t Care”, ácida, direta e insolente, deixa claro que o espírito rebelde continua intacto. Mais do que uma música, é um manifesto de como Mustaine jamais se curvou às expectativas alheias — ele sempre fez, e segue fazendo, o que bem entende. Depois, temos “Hey God?!”, pesada, com um andamento arrastado e linhas vocais surpreendentes. Arrisco dizer que este álbum seja o melhor desempenho vocal de Dave em toda a sua carreira. Talvez ele esteja mesmo certo: parar no auge.

A quarta faixa, também single, é “Let There Be Shred” (o título seria uma homenagem ao AC/DC?). Aqui, a agressividade assume o comando absoluto — pé no acelerador, solos velozes e aquela vontade quase instintiva de bater cabeça. “Puppet Parade” e “Another Bad Day” trazem uma breve sensação de calmaria. Não são músicas lentas, nem tão pesadas, mas faixas conduzidas pela melodia, com refrões que grudam e aquele apelo imediato de sair cantando. É impossível não ser transportado para 1997 e imaginar ambas rodando na programação da rádio rock da sua cidade.

“Made to Kill” já deixa clara sua missão logo no título. Dirk abre a faixa de forma primorosa, preparando o terreno para um riff monstruoso despejado pela mão direita de Mustaine. Se essa música entrar no setlist da turnê, preparem-se para o pandemônio. Teemu entrega um solo exemplar, cheio de virtuosismo, técnica e agressividade na medida exata. “Obey the Call” surge com uma falsa calmaria — linhas de baixo contidas, batidas calculadas, guitarras sutis — até que, pouco a pouco, tudo cresce, se acumula e explode de maneira surpreendente.

Por mais que o tracklist pareça longo — e eu mesmo, em certos momentos, defenda a volta dos álbuns com apenas oito faixas —, Megadeth é tão envolvente e de assimilação tão imediata que, quando nos damos conta, já estamos diante do final. “I Am War” surge como prova da criatividade do quarteto: pesada, repleta de linhas melódicas e quebras inteligentes. Confesso: “The Last Note” deveria ser o verdadeiro ato final deste álbum — e é quase um pecado que não seja. O que essa faixa entrega ao fã é uma carta aberta de Dave Mustaine aos seus súditos, aos fiéis escudeiros, àqueles que permaneceram ao seu lado no começo, na glória, no risco e na redenção.

Ela concentra tudo o que o Megadeth tem de melhor. Algumas passagens remetem diretamente à era Rust in Peace, enquanto seu final acústico e melancólico deixa um sabor agridoce raro, intenso e profundamente emocional.

Dave Mustaine declarou que “Ride the Lightning” não é apenas um cover, mas o fechamento de um ciclo, o retorno ao marco zero. Certo ou errado, cada um terá seu julgamento. O meu está claro acima: o álbum deveria ter silenciado na faixa anterior, mesmo que esta venha como a "cereja do bolo". Sobre a música em si: é uma execução fiel à original — talvez um pouco mais veloz? Sim. Mas funciona estritamente como uma homenagem direta ao início de tudo.

Tudo o que envolve Megadeth é, de certa forma, assertivo. A capa funciona de imediato — daquelas que você já imagina estampada em uma camiseta. As músicas são excelentes e entregam, em essência, tudo aquilo que a história da banda construiu até aqui. Este álbum não apenas honra o legado: ele o sela. Fecha de maneira grandiosa, digna e espetacular a trajetória de uma das bandas mais importantes da história do heavy metal.

Obrigado, Megadeth.
Obrigado, Dave Mustaine.

William Ribas




quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

BABYLON A.D. - WHEN THE WORLD STOPS (2025)


 

BABYLON A.D.
WHEN THE WORLD STOPS
Kivel Records/Apocalypse Records - Importado

Fundada no final da década de 80, mais precisamente me 1987, a banda BABYLON A.D. é uma cria da Bay Area de San Francisco. Obviamente que por ser uma banda de um estilo diferente, ela não carrega consigo riffs nervosos, bateria intensa e veloz e vocais rasgados. Muito pelo contrário. Prestes a completar 40 anos de carreira (entre algumas idas e vindas) o quinteto californiano chega agora ao seu 6º álbum de estúdio. WHEN THE WORLD STOPS, lançado lá fora pela Kivel Records em parceria com a Apocalypse Records, é um trabalho maduro, repleto de boas melodias, mas que não apresenta nada de novo, apenas uma mescla daquela Hard Rock clássico com toques mais modernos, criando boas composições mas que, invariavelmente, servem apenas para aqueles que já conhecem sua sonoridade. Uma pena, pois ainda que de certa forma genérico, o grupo nos traz músicas bem elaboradas, ótimos refrãos e intensidade.

Derek Davis (vocal e teclados), Ron Freschi (guitarra e backing vocals), John Matthews (guitarra), Craig Pepe (baixo e backing vocals) e Dylan Soto (bateria) - os dois últimos entraram na banda em 2023 - nos trazem 11 faixas que equilibram energia e emoção — transitando desde faixas mais hard rock repletas de adrenalina até instantes mais introspectivos. E isso parece refletir na sequência do álbum, faixa a faixa, pois as composições trazem linhas harmônicas bem variadas e demonstram a versatilidade de Babylon A.D. mesmo décadas depois.

Abrindo com a faixa-título, "When the World Stops", o grupo já nos entrega uma levada totalmente Hard Rock 80's, com boas linhas melódicas e com aquele típico refrão que apesar de repetitivo, não enjoa e gruda facilmente na cabeça. E se estamos falando de refrão com essa característica, na sequência temos a ótima "Come on Let's Roll", onde esse quesito assume ares de maior significado. Com uma pegada simples e eficaz, a música parece perpetuar na mente após a primeira audição. Ótimo momento! Uma quebra de ritmo em "Don't Ask Questions", mais cadenciada e com um ótimo solo, carregado de melodia e intensidade, mostram o que citei anteriormente: a versatilidade dos músicos. Como estamos falando de um álbum típico de Hard Rock, "Love is Cruel" é aquela balada que não pode faltar, pois traz consigo emoção e outro belo solo de guitarra. Aliás a dupla Ron Freschi e John Matthews tem um ótimo entrosamento, dosando feeling na medida certa, quando necessário. o Hard Rock volta à carga em "Toxic Baby" com aqueles vocais "espertos", enquanto baixo e bateria "marcam" a faixa em seu andamento.

"I Don't Believe in You", talvez seja o ponto fraco do trabalho. Cadenciada, um pouco mais pesada (pro som do Babylon A.D.), os vocais acabam saindo um pouco daquilo que se propõem. Não é ruim, mas destoa um pouco do restante. No entanto "Power of Music" é o grande destaque do álbum! Com som parecendo "ao vivo", a faixa empolga do início ao fim, com ótimos riffs, levada e refrão forte e intenso, a música é perfeita pra ser tocada num pub esfumaçado, num teatro ou numa arena. A empolgação será a mesma! Quando termina a gente quer ouvir de novo! A pesada "Torn" vem na sequência, com quebradas de ritmo e bons momentos, assim como "Damage is Done", onde a parte acústica ficou sob a responsabilidade do batera Dylan Soto. Aquele baixo gordo e vigorosa dita o ritmo da malemolente "Oh Suki", que antecede o final que vem com "Sadness Madness", dona de um ótimo riff, indo da power ballad ao hard sem fazer feio.

WHEN TEH WORLD STOPS não muda o mundo. E, tenho certeza que você concorda comigo, ele não tem essa intenção. Mas que com esse trabalho, o BABYLON A.D. nos garante bons momentos de diversão, eu não tenho dúvidas. Se você curte aquele Hard Rock com melodia e sem compromisso, confira sem medo!

Sergiomar Menezes




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

SUFFOCATION - LIVE IN NORTH AMERICA (2021/2025)


 

SUFFOCATION
LIVE IN NORTH AMERICA
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Se estivermos falando sobre um álbum ao vivo que representa o conceito de "brutalidade sem concessões", dentro do death metal brutal, esse álbum se chama LIVE IN NORTH AMERICA, do SUFFOCATION. Lançado em 2021, pela Nuclear Blast e chegando por aqui pela parceria com a Shinigami Records, o disco captura a banda em sua melhor fase, quando o death metal, apesar de técnico soa como deveria: cru, avassalador e implacável. Gravado em 22 de outubro de 2018, no Middle East Down, em Cambridge, Massachusetts, o trabalho é uma verdadeira explosão de peso e precisão que solidifica o reinado imbatível da banda. Um registro verdadeiro, sem concessões e sem limites.

Formado por Frank Mullen (vocal), Terrance Hobbs (guitarra), Charlie Errigo (guitarra), Derek Boyer (baixo) e pelo monstro Eric Morotti (bateria) o grupo nos entrega um ao vivo, com uma produção simples, honesta, mas autêntica. O som da guitarra é encorpado e denso, o baixo aparece em momentos importantes e a bateria mantém a banda em constante intensidade. O vocal de Frank, profundo e por vez rasgado, dá a impressão de vir das entranhas, intensificando o clima que caracteriza o Suffocation desde os anos 90. Já a capa criada por Jon Zig, reforça a atmosfera sombria e visceral do álbum, refletindo a brutalidade sonora que tornou o quinteto norte americano um dos grupos mais importantes e influentes do gênero.

Apesar de estarmos falando de um álbum ao vivo e de uma certa regularidade, algumas faixas acabam se destacando como “Thrones of Blood”, que abre o CD sem fazer nenhum tipo de concessão, “Liege of Inveracity” e sua fúria incontrolável, além das brutais e agressivas “Infecting the Crypts”, "Effigy of the Forgotten", "Pierced From Within" e "Breeding the Spawn" que acabam  por comprovar e demonstrar o motivo pelo qual a banda se tornou uma referência no brutal death metal: cada mudança de ritmo parece planejada para surpreender o público. O grande diferencial desse ao vivo é a incrível técnica do Suffocation que se mantém intacta no palco, mesmo com toda a intensidade apresentada. Os blasts beats são intensos, e os breakdowns parecem ainda mais impressionantes ao vivo, com o público reagindo como se estivesse lutando em um ringue sem regras.

LIVE IN NORTH AMERICA é um álbum pra quem procura pelo significado das palavras técnica e brutalidade. É um registro de uma banda que carrega o peso, a agressividade a fúria em sua bagagem. Uma representação direta de como o SUFFOCATION soa sem filtros, apenas a intensidade crua de uma das bandas mais influentes da história do death metal. Para aqueles que desejam conhecer o "metal da morte" em sua essência visceral, este álbum é essencial. Até rimou, mas é a mais pura verdade...

Sergiomar Menezes