terça-feira, 1 de setembro de 2026

SANCTUARY - O FIM DA ESPERA DE 40 ANOS DE UM ÍCONE DO HEAVY METAL (BURNING HOUSE 30/08/2026 - SÃO PAULO/SP)


SANCTUARY
30/08/2026
BURNING HOUSE
SÃO PAULO - SP
Produção: DARK DIMENSIONS
Assessoria de Imprensa: JZ PRESS

Texto e fotos: Fernando Aguiar

Demorou quatro décadas, mas aconteceu. Neste domingo, 30 de agosto, o Sanctuary finalmente pisou em solo brasileiro pela primeira vez na história da banda, e escolheu a Burning House, na Água Branca, para fechar a passagem latino-americana da 40 Years of Sanctuary Tour, depois de datas no México, Peru, Chile e Argentina. E quem esperou anos para ver ao vivo os responsáveis por hinos como "Battle Angels" e "Die for My Sins" saiu de lá com a sensação de ter presenciado algo mágico.

A casa já estava tomada antes mesmo das 20h, com um público de gerações misturadas, veteranos que acompanham a banda desde o fim dos anos 80 ao lado de gente que provavelmente descobriu o Sanctuary através do Spotify. Isso por si só já diz muito sobre o peso que esse nome carrega na história do heavy metal americano, mesmo sem nunca ter alcançado o estrelato comercial de contemporâneos como o próprio Megadeth, mesmo Dave Mustaine produzindo o clássico "Refuge Denied" em 1987. Um ponto de destaque inicial à parte vai para o som da casa: a equalização estava excelente a noite inteira, um detalhe técnico que faz toda diferença numa apresentação assim e que nem sempre a gente encontra em casas menores como a Burning House.

"Arise and Purify" abriu a noite sem cerimônia, e a resposta imediata da galera deixou claro que não "teríamos um aquecimento" inicial. Teve um pequeno incidente técnico no microfone do Joseph logo no início, mas o problema foi prontamente resolvido durante a execução da primeira música, o que fez esse imprevisto do começo virar só um detalhe sem importância. “Frozen” veio na sequência mantendo o ritmo, mas foi com 'Die for My Sins', primeiro clássico da noite a ser tocado, que a Burning House explodiu de verdade: a galera entrou em êxtase total, cantando cada palavra com uma euforia contagiante, como se aquele riff sozinho já valesse os quarenta anos de espera.


É impossível falar desse show sem parar pra comentar a química entre os integrantes, que foi excepcional do início ao fim. O grande destaque da noite, pra este que vos escreve, foi o vocalista Joseph Michael. Carismático com o público desde a primeira música, ele entregou um vocal extremamente poderoso, viciante, que remete muito ao Warrel Dane do início da banda sem deixar de ter identidade própria. Que homem! Outro nome que se destacou foi o baterista Dave Budbill, membro original da banda, que desceu a mão no kit sem dó nenhuma e com uma precisão absurda a noite inteira, assim como Lenny Rutledge, o outro fundador ainda na ativa, também extremamente carismático, técnico e preciso em cima do palco, e até chegou a dividir algumas cervejas com Joseph Michael durante o show, num clima de descontração que contagiava a todos. George Hernandez no baixo e William Wallner na segunda guitarra cumpriram seus papéis com muita competência, segurando a base e reforçando os riffs sem ficarem devendo aos veteranos.

Foi com esse time entrosado que o show entrou no seu trecho mais especial da noite: o que vimos foi um bloco dedicado a "Into the Mirror Black", uma das obras-primas do heavy metal contemporâneo. "Seasons of Destruction" abriu essa sequência e já bastou pra transformar a Burning House num coro só, com a plateia cantando cada verso em uníssono. "Veil of Disguise", essa ainda do primeiro álbum "Refuge Denied", manteve o clima sem deixar a energia cair, servindo de ponte até "Future Tense", que aí sim já mergulhava de cabeça no disco de 1990, com gente de todas as idades berrando junto, de olho fechado, sem se importar com nada. "Taste Revenge" foi o ponto fora da curva desse trecho: a galera simplesmente enlouqueceu, num nível de insanidade que não tinha alcançado até ali. "Long Since Dark" manteve o patamar lá em cima, e "Epitaph" levou tudo ainda mais longe, mas foi em "The Mirror Black", faixa-título do álbum, que a coisa ficou surreal, o refrão inteiro tomou conta da casa, e por alguns segundos pareceu que quem estava no palco era só um detalhe, porque o verdadeiro show ali era feito pelo público. Um bloco de sete músicas emendadas sem parar, prova de que "Into the Mirror Black" foi o disco que mais marcou os fãs brasileiros ao longo desses quarenta anos, mesmo com o Sanctuary nunca tendo pisado aqui antes.

O momento mais inesperado da noite veio logo depois, com os covers de "Breathe", do Pink Floyd, e "White Rabbit", do Jefferson Airplane. Pode parecer um desvio estranho de percurso no meio do set, mas foi bem legal essa diversificada logo depois de um bloco inteiro cantado a plenos pulmões, foi uma pausa quase psicodélica antes de a banda voltar com tudo para o lado mais pesado do catálogo.
E aí veio "Battle Angels". Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o motivo de tanta expectativa em torno desse show, ela acabou ali, porque foi provavelmente o momento mais insano da noite inteira, brigando de igual pra igual com o próprio bloco de "Into the Mirror Black" pelo título. A galera foi à loucura total desde o primeiro riff, pulando e gritando cada palavra junto com o Joseph. Foi, sem dúvida nenhuma, uma das faixas mais celebradas do repertório da banda.



Um dos pontos mais interessantes da noite foi ver como "Not of the Living", o single novo lançado em abril e a primeira música inédita em doze anos, se encaixou muito bem entre os clássicos. Ela soa como uma banda que ainda tem muita lenha pra queimar e entregar material de relevância e extrema qualidade, o que é uma excelente notícia pra quem está na expectativa pelo próximo álbum, já batizado de "Transmutation".

O encerramento do set principal ficou com "The Year the Sun Died", fechando com o álbum do retorno de 2014, antes do bis com "Soldiers of Steel" aumentando a energia mais uma vez para mandar todo mundo pra casa com aquele ar de imensa satisfação.

Fica difícil resumir em poucas linhas o que foi assistir a uma banda com essa história tocando pela primeira vez por aqui. Depois de quatro décadas, mudanças de formação, uma pausa de quase vinte anos e a perda de uma de suas vozes mais importantes do heavy metal, ver o Sanctuary na ativa chutando bundas, tocando com essa intensidade e ainda produzindo material novo relevante, é motivo de sobra para comemorar. Espero que não sejam mais quarenta anos até a próxima vez.




segunda-feira, 31 de agosto de 2026

BEHEMOTH - THE APOSTASY (2007/2026) RELANÇAMENTO

 


BEHEMOTH
THE APOSTASY
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

The Apostasy” é o oitavo álbum da besta-fera polonesa que atende pelo nome de Behemoth. Lançado no já distante ano de 2007, o álbum é um dos clássicos da discografia do Behemoth. pois trata-se de um marco técnico e intenso no estilo “Blackned-Death Metal".

Sendo o lançamento seguinte a outro clássico, “Demigod” (2004), “The Apostasy” é pura fúria. Uma enxurrada de blast beats ultra-rápidos providos pelo batera Inferno e riffs de Thrash Metal, junto a temática sombria criam camadas infernais de pura blasfêmia e brutalidade.

Os vocais de Nergal estão perfeitos aqui, bem como riffs e solos dele e de Seth, tornando todas as faixas, poderosas. Garra, poder e técnica, dominam todas as faixas, do início ao fim, não dando trégua e nem descanso ao ouvinte. Não há a mínima chance de ficar entediado durante a audição de “The Apostasy”. Em um trabalho tão acima da média, fica difícil destacar alguma música, pois o álbum é irrepreensível do inicio ao fim, porém deixo destacado aqui “Inner Sanctum”, por suas variações e climas, incluindo pianos e coros, mas também por contar com a participação do saudoso Warrel Dane (Nevermore/Sanctuary), nos backing vocals.

The Apostasy” é um clássico indiscutível, e um dos pontos mais brilhantes da carreira do Behemoth. Relançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




IMMOLATION - DESCENT (2026)



IMMOLATION
DESCENT
Shimigami Records/Nuclear Blast - Nacional

A grande lenda está de volta. São quase quatro décadas de velha escola, e desde seu debut álbum “Dawn of Possession” de 1991, os novaiorquinos sempre se mantiveram íntegros em sua discografia, nos brindando com gemas do estilo como poderia citar igualmente “Here in After” (1996), “Close to a World Below” (2000) e “Atonement” (2017), e nesse seu novo opus, denominado “Descent”, posso dizer que a banda reafirma que é uma das maiores e mais importantes do estilo, não só por manter a qualidade mas principalmente por não abdicar de sua essência.

Logo de cara com “These Vengeful Winds” já percebemos a sintonia perfeita entre riffs cortantes e harmonias dissonantes e sombrias, com a já conhecida precisão e técnica que dita o estilo peculiar da banda, e uma violência que ainda se assevera na segunda faixa, “The Ephemeral Curse”, onde blast beats rolam de forma natural e se moldam às composições que se alternam entre cadência e velocidade. “God’s Last Breath” é realmente desoladora, inicia mais lenta, obscura e tem uma crescente matadora de brutalidade, balizando um caminho mórbido até “Adversary”, uma faixa com cara de clássico onde é notável o nível de entrosamento dos caras, especialmente o belo trabalho de guitarras de Alex Bouks e o mentor Robert Vigna, contando com a produção de um clipe oficial caótico.

“Atrition”, outra faixa interessante, traz um destaque a precisão do baterista Steve Shalaty, viradas impressionantes e brutalidade sem firulas, firmando cada vez mais seu estilo inconfundível na história da banda. “Bend Towards the Dark” é outra que virou clip oficial (essa última trinca de faixas, na verdade) e é grande destaque, trazendo ao ouvinte uma boa dose de caos e harmonias insanas. O baixista e vocalista Ross Dolan, outro mentor fundamental da história da banda, soa agressivo e marcante. A sétima faixa, “Host”, apresenta uma levada inicial tribal bem interessante, e vai encontrando as harmonias perturbadoras ao longo do caminho, e conta com participação de Dany Lilker (S.O.D./ Anthrax/ Nuclear Assault), bem como na próxima e mais direta ao ponto “False Ascent”, mais agressiva e voltando à brutalidade em sua forma mais crua, um dos destaques. Finalizando, a perturbadora e bela instrumental “Banished” abre portas para o último lamento em “Descent”, uma faixa típica do que é o Immolation, caótico e brutal simplesmente, na melhor concepção do que é historicamente a identidade da banda.

As composições apresentadas em seus pouco mais de quarenta minutos levam ao ouvinte sensações de total inquietude, o conceito de “queda” é bastante explorado, mostrando uma humanidade absorvida em falsos dogmas e auto destruição, em um conceito apocalíptico em que os caras se provaram mestres, disco após disco, com sua atmosfera densa e sombria. A arte da capa traduz um pouco essa abordagem, de autoria de Eliran Kantor, responsável por ilustrar horror e beleza em bandas como Testament, My Dying Bride e Cavalera, traduz agonia e dor na figura de um anjo caindo e sendo despedaçado. Não há esperança.

Um grande marco para a banda e um dos melhores álbuns já feitos pelos caras, na minha opinião, mas só o tempo o ratificará como clássico. Saindo aqui pra nosso deleite pela Shinigami Records em uma parceria com a Nuclear Blast, e altamente recomendável pra quem curte o metal da morte.

Gustavo Jardim




BIG BIG TRAIN - WOODCUT (2026)

 


BIG BIG TRAIN
WOODCUT
Shinigami Records/Inside Out Music - Nacional

O grupo inglês de Rock Progressivo Big Big Train chega a 2026, lançando seu décimo sexto álbum de estúdio, o já aclamado “Woodcut”. Para quem não conhece o Big Big Train, a banda executa o progressivo clássico, com muita influência dos dinossauros setentistas do estilo Prog. “Woodcut” é um álbum conceitual, e nos seus setenta minutos de duração, conta a trajetória de um entalhador desiludido, personagem batizado apenas como “O Artista” que enfrenta dificuldades criativas antes de produzir uma xilogravura que parece ganhar vida. Liricamente a estória é bastante interessante.

“Woodcut” é o segundo álbum a contar com o vocalista Alberto Bravin, que também toma conta da produção do álbum. Aliás, produção essa que é destaque, pois é cristalina, como sempre se espera de um álbum de Rock Progressivo. Musicalmente todos os músicos são excelentes, com destaque para o batera Nick D´Virgillio, na banda desde 2009, e que gravou o último álbum do Mr. Big, “Ten (2024). Como “highlights” em “Woodcut”, cito a abertura instrumental “Inkwell Black”, "The Artist", cheia de nuances e camadas, a faixa de sonoridade mais sombria "The Sharpest Blade" e o grandioso épico de encerramento "Last Stand".

Woodcut” é um ótimo álbum para os apreciadores do Rock Progressivo clássico. Fãs de Yes, Jethro Tull, Genesis, e Van Der Graff Generator se sentirão representados e muito satisfeitos com este álbum. E o melhor, lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




sexta-feira, 28 de agosto de 2026

METAL CHURCH - GENERATION NOTHING (2013/2025) RELANÇAMENTO

 


METAL CHURCH
GENERATION NOTHING
Shinigami Records/Reaper Entertainment - Nacional

Lançado em 2013, GENERATION NOTHING chegou em um momento curioso da trajetória do METAL CHURCH. Após anunciarem o fim das atividades em 2009, a instituição do heavy/thrash americano liderada pelo por Kurdt Vanderhoof retornou da breve aposentadoria movida por uma urgência renovada. Este décimo álbum de estúdio consolida a última fase do vocalista Ronny Munroe à frente da banda, apostando em uma sonoridade que tenta equilibrar o peso tradicional da velha guarda com texturas um pouco mais diretas.

Ainda que a banda tenha se dissolvido em 2009, a formação que se reuniu para gravar o presente tranbalho foi a mesma de "This Present Wasteland": Ronny Munroe (vocal), o mastermind Kurdt Vanderhoof (guitarra), Rick Van Zandt (guitarra), Steve Unger (baixo) e Jeff Plate (bateria), e assim, se criou uma atmosfera intencionalmente crua que remete aos anos 80, funcionando como um esforço consciente de Vanderhoof para reconectar a banda às suas origens em álbuns como o homônimo de 1984 e "The Dark".

O disco abre com a combustão de “Bullet Proof” e “Dead City”, duas faixas que exibem o DNA clássico do grupo: riffs funcionais, uma cozinha pesada e entrosada — impulsionada pela bateria precisa de Jeff Plate — e o timbre rasgado de Munroe. Músicas como “Scream” entregam momentos de puro thrash metal enérgico, enquanto faixas do miolo do disco, a exemplo de “Suiciety” e “Hits Keep Comin’”, dialogam diretamente com a herança técnica e grooveada que o grupo lapidou nos anos 90 com "The Human Factor".

O grande "senão" do ábum" reside em suas ambições um tanto quanto progressivas. É o caso de “Noises in the Wall”, uma faixa de nove minutos que se desenvolve através de escalas e uma forte densidade instrumental, exigindo mais do ouvinte. O encerramento com “The Media Horse” reforça essa postura analítica, trazendo críticas sociais ácidas embaladas em um heavy metal cadenciado.

Embora divida opiniões entre os fãs mais saudosistas, GENERATION NOTHING se sustenta como um manifesto de sobrevivência criativa. É um trabalho honesto que prova que, mesmo diante das intempéries da indústria e das idas e vindas, o METAL CHURCH continuava sua saga em prol do Heavy Metal.

Sergiomar Menezes