quinta-feira, 5 de novembro de 2026

WIZARDS - GLORIOUS (2026)

 



WIZARDS
GLORIOUS
Metal Relics - Nacional

Se o retorno do WIZARDS à ativa com o álbum "Seven", lançado em 2022 foi uma espécie de recomeço, GLORIOUS, que saiu agora em outubro de 2026 é a volta à sonoridade mis clássica da banda, qual seja, o power metal melódico intenso, pesado e verdadeiro. Sim, ainda que o antecessor tenha sido um bom trabalho, aqui o Wizards mostrou que das bandas atuais do estilo, ela se mantém fiel e apresenta uma qualidade acima da média, com um álbum muito superior ao que alguns "medalhões" do estilo vem fazendo. Longe de tretas, reuniões caça-níqueis ou algo do gênero, a banda investiu na música, razão maior da existência de qualquer grupo e acertou em cheio: um trabalho que lembra em muitos momentos um dos maiores discos do estilo já lançados no metal nacional, o excelente "The Kingdom", de 2001, lançado por eles próprios.

Mantendo a formação do trabalho anterior e estabilizada com Christian Passos (vocal), Leo Mancini (guitarra), Mendel Waisberg (baixo), Charles Dalla (teclados) e Gabriel Triani (bateria), o grupo contou com a produção, mixagem e masterização de Tito Falaschi, que também gravou algumas guitarras e teclados no álbum. A bonita capa foi concebida e idealizada por Sammy Coral enquanto o belo trabalho gráfico ficou por conta de Alcides Burn. Dessa vez, as composições em sua maioria ficaram sob a responsabilidade de Christian, enquanto Charles ficou com apenas uma (a saber, "Grand and Bold"), e talvez por isso, a sonoridade tenha maior proximidade com o clássico de 2001. Composições fortes, com guitarras intensas e aquela linha power metal melódica que consagrou o grupo no início dos anos 2000. 

"Magic Moment" abre o álbum de forma consistente, e digo aqui sem nenhum medo: se ela estivesse em "The Kingdom", abrilhantaria ainda mais o trabalho. Mas por sorte, a faixa surge em 2026, o que reforça que o Wizards é e sempre foi uma das maiores do estilo, não só por aqui, mas mundialmente. Linhas melódicas sem abdicar do peso, vocais muito bem encaixados, backing vocals propositalmente alinhados à estrutura e uma base baixo/bateria coesa, transformam a faixa em uma das melhores já compostas pelo grupo. Só que na sequência, "Lady Wonder" vem para mostrar que o peso do metal também aflora na linha de composição, pois a faixa possui uma cadência e riffs que se encaixam mais no lado metal do grupo. O metal melódico retorno com "Midnight Dreamers", outro ótimo momento. Uma característica do trabalho é que todas as faixas ficam dentro dos três minutos, o que comprova que não é necessário fritar, quebrar, encher as composições com viradas e solos intermináveis pra mostrar classe. Um ótimo refrão deixa tudo ainda melhor. "Beggin' Eyes" é uma balada linda, com ótima performance de Christian, que não precisa exagerar em agudos pra mostrar sua técnica e talento. E assim, a música de verdade agradece. E tome mais metal melódico puro e natural em "The Rising King", outra faixa que poderia estar em "The Kingdom". A capacidade do grupo em criar ótimas composições dentro do estilo é algo a ser estudado!

Um teclado um tanto quanto melancólico introduz a pesada "Solitude Walker", que traz consigo alguns toques mais modernos (mas sem exageros), invocando a versatilidade dos músicos. Já "Grand and Bold", composta por Charles Dalla, é outra pérola melódica, com excelentes linhas de teclado e ótima base criada por Mendel (único remanescente da formação original ao lado de Christian) e Gabriel, que formam uma cozinha que além de técnica, senta a mão sem pena dos instrumentos. "Answer Your Call" é mais cadenciada, mas possui linhas vocais bem melódicas, com os backing vocals novamente colocados de forma correta na composição. "Riser Man" mantém a pegada power/melódica e antecede o final que vem com "RF", uma bonita peça ao teclado, que fecha o álbum de forma suave e tranquila.

Sem se importar com o que o mercado impõe, o WIZARDS decidiu mostrar ao mundo que o metal melódico, power metal, heavy metal... chame como quiser, continua vivo (e muito) em 2026. Se, como eu escrevi lá em cima, os medalhões do estilo não conseguem sair da bolha do passado, a banda consegue revisita-lo sem se prender ao próprio. Composições carregadas de feeling, capacidade técnica altíssima, mas acima de tudo, uma qualidade musical muito, mas muito acima da média, fazem de GLORIOUS um dos melhores álbuns deste ano. Ah... e passou da hora da banda ser chamada para os grandes festivais, hein???

Sergiomar Menezes





BENEDICITION - RAVAGE OF EMPIRES LATIN TOUR 2026 - 04/11/2026 - ESPAÇO MARIN - PORTO ALEGRE/RS


BENEDICITION - RAVAGE OF EMPIRES LATIN TOUR 2026
Banda convidada: DISTRAUGHT
04/11/2026
ESPAÇO MARIN
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Caveira Velha/Xaninho Discos/Nevoeiro Produções

Texto e fotos: José Henrique Godoy

As noites de quarta-feira são tradicionalmente conhecidas como a noite do futebol na TV. Mas por sorte existe o Metal, no caso desta quarta, o Old School True Death Metal do Benediction, que se apresentou no Espaço Marin, e me fez “perder” mais um fiasco do meu Grêmio diante do Flamengo. Os veteranos britânicos se apresentaram pela primeira vez na capital gaúcha, e contaram com o lendário Kam Lee (Massacre), que veio substituir o vocalista Dave Ingram, que por motivos de saúde não pode fazer parte da atual turnê.

A abertura da noite ficou por conta da máquina de destruição conhecida como Distraught. Às 20h30 a clássica banda gaúcha subiu ao palco e despejou seu Thrash Metal altamente técnico para um público não muito numeroso, porém entusiasmado. Capitaneada pelo vocalista André Meyer, a Dstraught fez uma excelente apresentação, com destaques para as faixas “Extermination of Mother Earth” e “Truth Denied”, ambas do mais recente trabalho, o EP “Involution”, lançado em 2025, e também a clássica “The Human Negligence is Repugnant”, que fechou o ótimo set de quarenta e cinco minutos.



Por volta das 21h30, o Benediction entra no palco do Espaço Marin, para lecionar uma verdadeira aula de brutalidade metálica. Contando com os membros fundadores, os guitarristas Peter Rew e Darren Brookes, o baixista George Chick e o baterista Giovanni Durst, e o já citado Kam Lee, o Benediction demonstrou desde o primeiro segundo no palco, porque é uma das bandas mais emblemáticas e históricas do Death Metal Mundial. Kam Lee parece ter sempre feito parte da bana, pois estava muito a vontade no palco, sendo nos momentos de pura violência sonora, ou quando brincava quando os presentes gritavam “Benedito”, em alusão ao nome da banda. Lee respondia: “Meu português é muito bom, entendo o que vocês estão dizendo”.

“Engines Of War” (do magnifico e mais recente trabalho “Ravage Of Empires”) deu inicio ao massacre sonoro, seguidas por ”Unfold Mortality”, “The Croocked Man” e “A Carrion Harvest”. Então Kam Lee nos convidou a retornarmos a 1989, para ouvirmos “Artefacted Irreligious” e “Subconcious Terror”, uma sequência mais que clássica. As rodas se formaram na pista e não cessaram até o final do show. Kam Lee cita que ele nunca tinha vindo para o Brasil e agradeceu ao Benediction por ter lhe dado a oportunidade de conhecer nosso país.



“Dread Of The Night”, “Grotesque” e “Psychosister” seguem estremecendo as estruturas do Espaço Marin. O baterista Giovanni Durst é um monstro, e destrói seja nos andamentos mais cadenciados, ou seja na hora da pura sarrafeira. O guitarrista Darren era puro sorrisos, embalado por uma meia dúzia de latinhas de Heineken, não deixava de transparecer a felicidade de estar no palco, desenvolvendo o Death Metal Old School como se tivesse começado ontem. Vamos lembrar que a banda está prestes a completar quarenta anos. Um dos momentos mais icônicos da noite, foi quando os guitarristas iniciaram o riff inicial de “Biohazard”, clássico supremo do Massacre, banda original de Kam Lee. Ouvir esta música com o vocal original, entrelaçado com a brutalidade histórica do Benediction foi mais que um ponto alto, foi testemunhar um momento único, a união de lendas do “Metal da Morte”.


Kam Lee passa o microfone para Darren que agradece aos presentes e ao próprio Kam Lee, dizendo que só por causa de Lee, o Benediction conseguiu seguir a turnê. O final do show foi com “Crawling Over Corpses” e a faixa título do clássico álbum de 1995 “Dreams You Dread”, com as rodas se tornando ainda mais infernais. Que noite perfeita, protagonizadas por duas bandas clássicas, cada uma no seu estilo. O Benediction justifica a sua história e sua origem, lá no final dos anos oitenta, vindos da mesma cidade do Black Sabbath, Judas Priest e Napalm Death. Realmente a água desta cidade deve ser "benta". Que o Benediction não se arrependa e que volte mais vezes para Porto Alegre. Agradecemos a Nevoeiro Produções pelo credenciamento e ao staff gentil do Espaço Marin.


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

EUROPE - COME THIS MADNESS (2026)

 


EUROPE
COME THIS MADNESS
Shinigami Records/Silver Lining Music - Nacional

O Europe é um raro caso de banda que tem duas vidas distintas na carreira e em ambas seguiu com sucesso e qualidade. A primeira abrange os anos de maior sucesso comercial, durante os anos 1980, com lançamentos álbuns mais que clássicos do Hard Rock, como “Final Countdown” (1986) e “Out Of This World” (1988). 

Após um hiato de doze anos, a banda retornou em 2004, com o ótimo “Start From The Dark” e a partir daí, deu sequência ininterrupta na carreira, agora focado num Hard Rock mais maduro e pesado, se aproximando e flertando bastante com o Classic Rock. O último lançamento do Europe havia sido “Walk Of The World”, no já longínquo 2017, mas agora, nove anos depois, a espera por novas músicas terminou, com o lançamento de “Come This Madness”.

"Come This Madness" é um acréscimo sólido ao catálogo do Europe. A banda mantém suas características marcantes intactas, ao mesmo tempo em que continua a fazer sua sonoridade evoluir. O álbum representa mais um capítulo interessante na longa trajetória dos suecos, equilibrando melodias cativantes com peso e intensidade suficientes para evitar que o resultado se torne previsível. Há referências claras às sonoridades das décadas de 1970 e início da de 1980, mas, nesse processo, o Europe jamais perde sua própria identidade.

Os riffs e solos de John Norum seguem um dos maiores destaques. Norum é um guitar hero de mão cheia, e demonstra isso em todas as faixas. Os teclados de Mic Micheli estão mais proeminentes, mais a frente inclusive com mais destaque, inclusive nos momentos de solos. Joey Tempest é irretocável, sua voz inconfundível e cheia de interpretação e emoção está muito em forma. A dupla formada pelo baixista John Léven e o baterista Ian Haugland mantém todo o groove e peso nas composições.

“One On One” é a abertura perfeita para esta audição, cheia de groove. “Come This Madness", a faixa título com um excelente riff de guitarra e com refrão marcante. “This Time Of Year” é a bela balada do álbum. É mais uma prova de que o Europe consegue criar densidade emocional sem precisar elevar o volume ao máximo.

Em “In a Different World”, a banda conecta, mais uma vez, suas letras à realidade que nos cerca, encontrando um equilíbrio sólido entre melodia e atmosfera. Já “Scandinavian Eyes” segue um caminho diferente. Sua abertura cinematográfica introduz uma canção profundamente enraizada na sonoridade dos anos 1970. O Deep Purple e a era clássica do hard rock servem, claramente, como referência, mas o Europe imprime personalidade suficiente ao arranjo para que a faixa se encaixe perfeitamente neste álbum. O resultado é uma composição de hard rock densa e atmosférica, que traz essa aura retrô para o presente sem soar como uma aula de história.

“Takin’ It Back” é uma daquelas faixas que agradam logo na primeira audição, mas que não deixam uma impressão tão marcante quanto outras presentes no disco. “The Angels Must Have Flown” entrega aqui o Deep Purple como principal influência, um Hard Rock com toda aquela pompa setentista. “The Devil's Back” é a mais pesada do álbum, “Nothing Can Follow This” traz mais um momento grandioso, com ares de hino. A  faixa encerra o álbum com o tipo de segurança melódica que se tornou uma das marcas registradas do Europe.

Com o lançamento de “Come This Madness”, o Europe acrescenta mais uma peça a sua bela discografia, e a espera valeu muito a pena. Que não levem mais nove anos para o próximo lançamento. Lançado no mercado nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




GRUESOME LATIN AMERICAN TOUR 2026 - 17/10/26 - BURNING HOUSE - SÃO PAULO/SP

 


GRUESOME LATIN AMERICAN TOUR 2026

Abertura: 
TRACHOMA
CHAOSLACE
17/10/26
BURNING HOUSE
SÃO PAULO/SP
Produção: Caveira Velha/Xaninho Discos
Assessoria: Tedesco Mídia

Texto e fotos: Mauro Antunes

A cidade de São Paulo tem recebido shows de bandas extremas a rodo, e um dos grandes nomes da mais nova leva do Death Metal internacional não poderia deixar de chegar ao Brasil, o Gruesome.

O show agendado para a casa Burning House localizada na Zona Oeste da cidade tinha tudo para ser incrível. Mesmo com outro show de outra grande banda marcada no mesmo dia, horário e até a mesma região da cidade, mostra que a cena aqui, é forte demais!

Chegamos a casa às 18:30hs e o Trachoma entrou no palco. Com pouco menos de 30 minutos de duração, o show que ainda contou com um pequeno público foi um bom aquecer de motores. O som sujo (no bom sentido!), turbinado com vários efeitos e blast beats, foi facilmente digerido por quem estava lá e algo que me chamou atenção foi a duração das músicas, com um setlist bem longo. Fiquei curioso para ouvi-los, já que não os conhecia e certamente, o farei em breve.

Um breve intervalo quando pontualmente as 19:20hs, iniciou o show do Chaoslace. Essa sim, uma pancadaria de responsa, brutalidade e adrenalina a mil por hora. A banda executou algumas músicas bem sinistras como “Manifesto Against the Pedophile Lords”, com a delicadeza típica dos guerreiros nórdicos (confira o vídeo abaixo). Uma cacetada atrás da outra, em 30 minutos de show. Valeu cada segundo, foi um grande show!

A espera para o show principal foi muito longa, quase uma hora, e isso foi desnecessário. Mas assim que Matt Harvey (vocal e guitarra), Daniel Gonzalez (guitarra), Robin Mazen (baixo) e Gus Rios (bateria) soltaram os primeiros barulhos em seus instrumentos, isso ficou pra trás, e obviamente, todos entraram no clima. Incrível como o público melhorou durante esse intervalo.


Destaques para petardos como “Trapped in Hell”, “A Darkened Window”, “Dimensions of Horror”, “Savage Land” e “Gruesome”. A banda ainda deixou na plateia aquele gostinho de “quero mais” ao tocar apenas a parte inicial de “Troops of Doom”, hino supremo do Sepultura. O encerramento com o mega clássico “Black Magic”, do Slayer, foi a cereja no bolo de um show que, creio eu, não poderia ser melhor, apesar da curta duração de apenas uma hora.

Antes das 22hs, já estávamos a caminho de casa, e ainda deu tempo de tomar uma cerveja com uns amigos que encontrei no local, transformando o rolê em algo mais divertido. Ótimo show, ótimo entretenimento, valeu muito a pena. Não seria nada mal, se eles retornassem ao Brasil no Bangers Open Air, por exemplo.


Agradecemos as produtoras Caveira Velha e Xaninho Discos, bem como à Tedesco Mídia pelo credenciamento e respeito ao trabalho do Rebel Rock.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

REBEL ROCK ENTREVISTA - EPITAPH

 


REBEL ROCK ENTREVISTA - EPITAPH

Formada em Porto Alegre (RS) no ano 2000, a EPITAPH é uma das bandas mais consistentes da cena brasileira de heavy metal tradicional. Com mais de duas décadas de estrada, o grupo acumula mais de 150 apresentações nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, consolidando sua identidade através de uma sonoridade que combina o peso clássico do metal com elementos modernos, resultando em um estilo próprio e marcante. Formada por Joe F. Louder (vocal), Marlon Steindorff (guitarra), André Carvalho "Canhoto" (guitarra), Fábio Figueiredo (baixo) e César Five (bateria), a banda lançou agora em 2026 seu segundo álbum, "Digital Screams". . Com oito faixas inéditas, o álbum reforça a identidade construída ao longo de sua trajetória, fundindo Heavy Metal, Thrash Metal e Hard Rock de forma equilibrada e autêntica. Produzido por Lucas Santorum, o disco evidencia a evolução técnica e artística dos músicos, mantendo a energia e a personalidade que sempre caracterizaram a Epitaph. Batemos um papo com o guitarrista Marlon e o baterista César sobre o mais recente trabalho e sobre a carreira do grupo. Confira!

Por Sergiomar Menezes
Fotos: Divulgação


Rebel Rock: "Digital Screams" chega com um peso impressionante, misturando elementos de Heavy Metal tradicional e Thrash Metal. Como vocês definem o processo de evolução sonora da banda desde o debute Getting Down to Business até este novo trabalho?

César: É um prazer para a Epitaph responder a esta entrevista para o Rebel Rock. Obrigado pelas palavras! Realmente, o processo de composição e evolução da banda foi longo: dezessete anos. Nesse período, enfrentamos os problemas que a maioria das bandas enfrenta, como mudanças de integrantes, definição das composições e decisão de lançar o álbum no momento apropriado. Por outro lado, tudo isso contribuiu para a qualidade do material, pois todos os que passaram pela banda, em algum momento, contribuíram para o produto final. O mais importante é que mantivemos nosso som e acrescentamos um pouco mais de modernidade ao nosso metal tradicional, sem alterar nossa proposta.

Rebel Rock: O conceito do álbum traz fortes reflexões sobre o impacto das redes sociais, a inteligência artificial e as transformações da sociedade moderna. De que maneira as angústias do século XXI influenciaram a composição das letras?

César: A Epitaph sempre colocou as letras no mesmo patamar que as músicas. Sempre buscamos mostrar, de forma inteligente, com um pouco de sarcasmo e humor, as loucuras dessa sociedade caótica em que vivemos. As letras do primeiro álbum, "Getting Down to Business", escritas a partir do início dos anos 2000, ainda se mantêm atuais, porque o mundo repete seus ciclos de guerras, perseguições etc. A diferença é que agora temos a forte influência das redes sociais e da inteligência artificial na vida das pessoas. Felizmente, contamos com um ótimo time de letristas que voltou a colaborar neste novo álbum: Dênis Winston e Gustavo Demarchi, que, além de escrever a faixa-título, também dividiu os vocais com Joe nessa música. Joe F. Louder também escreveu sua letra em homenagem à atriz Andressa Urach. O encarte do CD ajuda o ouvinte a acompanhar novamente as letras e as músicas, algo que acabou ficando esquecido nas plataformas digitais.

Rebel Rock: A faixa-título “Digital Screams” carrega um peso conceitual enorme. O que esse “grito digital” representa para vocês no contexto atual do mundo e da música?

César: Gustavo Demarchi foi certeiro na composição de "Digital Screams". Ele ouviu a música ainda na pré-produção e se ofereceu para escrever a letra, que fala sobre o domínio das redes sociais e, agora, da inteligência artificial sobre as pessoas. A música também aborda como a guerra virtual entre as pessoas, seja por questões políticas ou por qualquer outro assunto, acaba afastando e isolando indivíduos. Infelizmente, muitas pessoas abandonaram o diálogo e preferiram se fechar em suas próprias verdades. A música é excelente, tem um clima de Queensrÿche, e os vocais divididos entre Gustavo e Joe ficaram ótimos. A composição é minha e do Marlon Steindorff, e juntos fazemos um bom trabalho de composição. André também acrescentou alguns detalhes.
Temos orgulho dessa música!

Rebel Rock: O álbum conta com a produção de Lucas Santorum. Como foi a dinâmica de trabalho em estúdio com ele para alcançar essa sonoridade moderna, robusta e técnica que ouvimos no disco?

César: Quando reunimos o material para gravar, já tínhamos as pré-produções prontas, mas ainda faltava algo. Eu já havia gravado minhas baterias. A descoberta do Lucas foi primordial. Eu já estava trabalhando com ele na gravação do álbum do Volúpia, e ele entendeu que tipo de som eu queria. Na gravação da Epitaph, além de técnico, ele foi produtor, aconselhando-nos sobre detalhes das músicas, cobrando aquele take a mais e direcionando o foco da banda. Ele gravou grande parte dos vocais do Joe e todas as guitarras. Algumas partes foram gravadas com amplificadores digitais e outras com amplificadores reais, o que proporcionou o peso que queríamos. O baixo do Fábio também foi gravado muito rapidamente. Ficamos muito satisfeitos com o resultado final, e o Lucas ganhou de presente o solo de introdução da música "National Guard". Estamos ansiosos para gravar com ele novamente, pois algumas músicas não entraram neste álbum.

Rebel Rock: O disco abre com “Loser’s Life” e traz faixas marcantes como “The Girl Who Loved the Dead” (que ganhou videoclipe oficial), “NationalGuard” e “Blue Cave”. Como foi a seleção dessas 8 faixas inéditas entre o material que vocês compuseram?

César: Tínhamos 12 músicas compostas, e foi difícil escolher quais entrariam no álbum. Optamos por oito, que somam 46 minutos, um tempo excelente para um disco. A ideia é gravar o material que sobrou e lançá-lo como singles ou em um EP. São músicas excelentes! Montar o repertório do CD foi difícil, mas conseguimos distribuir as faixas de uma maneira que agradou bastante às pessoas. Adorei o final com influências de Southern Rock e blues de Blue Cave, que encerra o álbum e traz esses elementos para a nossa música.


Rebel Rock: Há uma faixa homônima à banda (“Epitaph”) bem no meio do tracklist. Qual é o significado especial dessa música em termos de identidade para o grupo?

César: A ideia de ter uma música com o nome da banda é antiga. Pedimos ao Dênis que escrevesse a letra, e o resultado ficou exatamente como queríamos. Ela dá identidade à banda e é utilizada na abertura dos nossos shows. Funciona muito bem ao vivo. Um spoiler: a música terá seu videoclipe oficial, que já foi gravado e será lançado em breve!

Rebel Rock: Como funciona o processo de composição das guitarras na Epitaph? Tendo duas mentes nas seis cordas (Marlon Steindorff e André Carvalho “Canhoto”), como dividem os riffs, harmonias e solos?

Marlon: Quando o André Canhoto entrou na banda, já tínhamos praticamente 90% do álbum composto em termos de riffs. Então, trabalhamos especialmente nas harmonias para duas guitarras, nos solos dobrados e nos solos individuais de cada guitarrista, dando ao Canhoto total liberdade de composição.
Particularmente neste disco, tivemos um processo de composição bastante variado na parte instrumental.
Algumas composições, como "Epitaph", "Something Better Than God" e "Digital Screams", tiveram os riffs criados em conjunto por Marlon e César (bateria). Alguns ex-integrantes também tiveram participação importante em determinadas músicas, como Márcio Supertti em "Road of Fire", e Raul Severo em "Blue Cave".

Rebel Rock: Musicalmente, a banda bebe de fontes clássicas como Black Sabbath, Judas Priest, Saxon e Accept, mas com uma pegada atual. Como é equilibrar essa paixão pela velha escola do metal com a modernidade ?

Marlon: Exatamente! Como uma banda de Heavy Metal, temos os grandes expoentes do gênero como referências principais, mas também incorporamos uma pitada de outros estilos, como o Thrash Metal. Isso é interessante porque confere uma identidade diferente às composições. Não nos apegamos a rótulos. Às vezes, surge algo bem pesado, mas logo em seguida aparece um clima totalmente diferente, como acontece em "The Girl Who's Loved the Dead" e também em "Metal Wings", do primeiro álbum. Essa é uma das marcas da Epitaph, que conseguimos manter em nossos dois álbuns.

Rebel Rock: A banda possui mais de duas décadas de história no underground brasileiro. Olhando para trás, quais foram os maiores desafios para manter a Epitaph ativa e relevante na cena por tanto tempo?

César: O maior desafio é manter o foco, acreditar na banda e amar a música que fazemos. Infelizmente, as mudanças de músicos fazem parte da trajetória de uma banda, mas nunca houve brigas quando alguém saiu. Todos os que tocaram conosco ao longo desses anos contribuíram para as composições e fazem parte da história da Epitaph. Na minha opinião, para uma banda continuar viva, ela precisa estar fazendo shows, pois é isso que motiva e dá continuidade ao grupo. A Epitaph já fez mais de 150 shows, em ótimos locais e em outros nem tanto. Todos foram importantes para nós, pois é nos shows que encontramos nossos fãs e conquistamos novos admiradores. Sobrevivemos à pandemia e à enchente e, felizmente, continuamos na ativa, orgulhosos de nossos 26 anos de estrada.


Rebel Rock: Com o lançamento recente e os shows ao vivo — como a festa de lançamento em Porto Alegre —, quais são as expectativas da banda para levar a turnê de "Digital Screams" para outras regiões do país?

César: Nossa expectativa é sempre buscar novos shows, mas todos sabemos que a logística é complicada para uma banda independente. Todos temos famílias e empregos regulares, mas conseguimos adaptar nossas agendas pessoais para viabilizar as apresentações. Obviamente, estamos fazendo contatos para realizar shows em outras regiões, que serão anunciados oportunamente.

Rebel Rock: O mercado musical mudou drasticamente com o streaming e o consumo digital (um tema bem alinhado com o conceito do disco). Como a Epitaph lida com a divulgação e o alcance da sua música nas plataformas digitais hoje em dia?

César: As plataformas digitais estão aí e hoje são a principal forma de ouvir música. Eu, particularmente, não as utilizo. Também não abri mão de lançar o CD físico, ainda que em quantidade limitada. O CD foi lançado antes de o álbum chegar às plataformas digitais, e isso ajudou muito nas vendas, pois as pessoas não estão acostumadas com esse tipo de lançamento. Meu sonho seria ter uma tiragem em LP, mas estou muito feliz com o CD, pois ele coroou o trabalho de todos os envolvidos: a arte da capa, criada por Rômulo Dias; o trabalho gráfico, realizado por Juliana Louis; enfim, todos os profissionais que trabalharam para que um excelente material físico chegasse ao ouvinte final e pudesse ser apreciado. Não há comparação com a frieza das plataformas digitais! (risos). Conseguimos fazer com que o álbum chegasse a ouvintes da Grécia, do Japão e de alguns países da Europa, além de recebermos ótimas resenhas. Pretendemos continuar esse trabalho de divulgação. Aqui no Brasil, também estamos recebendo excelentes avaliações. Isso comprovou o que já sabíamos: tínhamos um ótimo material, que demonstrou nossa evolução como músicos e compositores.

Rebel Rock: Para os fãs de longa data e para quem está conhecendo a banda agora através de "Digital Screams", qual mensagem vocês gostariam de deixar sobre o atual momento da Epitaph e o futuro do Heavy Metal brasileiro?

César: A Epitaph já passou por várias fases do Metal. Vivemos a época em que as bandas faziam shows lotados por conta própria, enfrentamos períodos de baixa e sobrevivemos a tudo isso. Atualmente, o público do metal tradicional não se renovou muito, mas temos conquistado novos fãs que não conheciam a banda e que nem sequer eram nascidos quando começamos nossa trajetória. É importante fazer com que as novas gerações se conectem com o Metal, pois muitos ainda olham para o gênero com desconfiança, por acharem que é música de tiozões conservadores. Outro problema recorrente é a escassez de lugares que abrem espaço para a música autoral, muitas vezes oferecendo datas pouco favoráveis. Porém, temos bandas parceiras que trabalham conosco, como Sin Avenue, Fire Machine, Cãonibal e Volúpia, entre outras, que também têm seu público. A Epitaph tem produzido seus próprios shows em locais com bons equipamentos. Além disso, eu e Marlon organizamos o Metal for Pets, evento que já teve três edições realizadas, nas quais arrecadamos alimentos para cães e gatos. No ano que vem, teremos mais uma edição!

Rebel Rock: Obrigado pela entrevista! Deixe um recado para os fãs e os leitores do Rebel Rock!

César: Quero agradecer à Rebel Rock pelo espaço e por sempre apoiar nosso trabalho. Também quero convidar as pessoas a seguirem nossas redes sociais e a adquirirem o CD. O apoio de vocês é muito importante, pois a Epitaph é formada por músicos que amam o Heavy Metal e fazem música de verdade.
Um grande abraço a todos!