EDU FALASCHI
MI'RAJ
Voice Music - Nacional
Desde o momento em que Edu Falaschi iniciou sua carreira solo, existiu um pequeno "fantasma" ao seu lado. Para o bem e para o mal, o nome Angra sempre estará inevitavelmente associado ao seu trabalho.
Em "Vera Cruz" (2021), o ouvinte se deparou com algo que poderia ser descrito como uma espécie de caricatura de "Temple of Shadows", com conexões e referências extremamente evidentes. Já em "Eldorado" (2023), Edu começou a cortar algumas das amarras que o prendiam ao passado — ao menos em termos de estúdio —, embora tenha introduzido certos exageros que renderam comparações com o DragonForce.
Pois bem, chegou o momento de Mi'raj. O álbum marca o capítulo final da trilogia conceitual que acompanha a jornada de Jorge e, ao mesmo tempo, representa mais um passo na busca de Edu Falaschi por uma identidade cada vez mais própria dentro de sua trajetória solo.
Desta vez, após tudo o que viveu nos capítulos anteriores, Jorge se vê diante de novos desafios e perseguições — a narrativa transporta o ouvinte para o Oriente Médio do século XVI, explorando temas como espiritualidade, autoconhecimento, fé, perdas e superação.
Primeiramente, é preciso dizer: a regra do "menos é mais" muitas vezes traz mais benefícios do que prejuízos. Sem exageros, o trabalho flui de maneira ímpar. Dentro da discografia solo, "Mi'raj" é o álbum de assimilação mais imediata. Mesmo se aproximando do metal progressivo e trazendo músicas com mais de oito minutos de duração, a audição transcorre de forma natural e arranca aquele sorriso de orelha a orelha dos fãs de Falaschi.
A faceta progressiva do álbum está longe de cair no exibicionismo técnico. Em vez disso, surge através de mudanças de andamento, passagens atmosféricas e arranjos que ampliam a ambientação de um instrumental pesado e extremamente melódico. É como se Genesis e Fates Warning se encontrassem em estúdio tendo a música oriental e a brasilidade — ou, se preferir, o DNA do Angra — como ingredientes obrigatórios.
O álbum abre com "Watchers of the Light". É, digamos, a abertura clássica de sempre: uma música bombástica, rápida e com um refrão criado para ser cantado em uníssono pelo público. Porém, existe algo interessante que dura apenas alguns segundos. Entre 1:57 e 2:04, temos Victor Franco encarnando Yngwie Malmsteen.
Já "Here I Stand" chega cheia de quebras de andamento, mais cadenciada e sustentada por excelentes coros. A música traz o primeiro momento em que o ouvinte pode dizer: "Opa, já ouvi isso aqui no Angra". Bem, no final das contas, a era Rebirth e Temple of Shadows faz parte do DNA de Edu Falaschi e, vamos ser sinceros? O fã quer ouvir isso. Vivemos em uma era profundamente nostálgica.
A faixa-título traz a participação de Veronica Bordacchini, do Fleshgod Apocalypse. A música passeia entre o power e o prog metal, enquanto Veronica dá um verdadeiro show à parte, enriquecendo de forma brilhante os refrãos. Em alguns momentos, é como se a canção tivesse escapado de algum dos álbuns mais atuais do Avantasia.
"Echoes of Vows" chega para apresentar a primeira balada do álbum — e Falaschi continua sendo um especialista nesse tipo de composição. As linhas vocais são bonitas, a calmaria transborda feeling e, em entrevistas, o vocalista revelou ter escrito a melodia principal imaginando Bruce Dickinson cantando a música. A faixa ainda reserva algumas surpresas em sua segunda metade, acelerando o ritmo e ganhando uma orquestração mais forte antes de retornar para um encerramento propositalmente clichê, sustentado pela repetição do refrão.
Em "Unchained", pule para 3:44. Se você não se arrepiar com o solo de saxofone, talvez já esteja morto por dentro. A música inteira é surpreendente, mas esse momento específico merece destaque. Raphael Dafras, com seu baixo cheio de groove e graves, assume papel de protagonista e ajuda a conduzir a faixa em diversos momentos.
Falando em surpresas, chegamos a "Intuição". A faixa marca a primeira vez que Edu grava uma música em português desde "Caça e Caçador", presente no EP Hunters and Prey (2002). Outro aspecto marcante é a participação especial de Rafael Bittencourt, responsável por um belíssimo solo. Falaschi e Bittencourt não trabalhavam juntos em estúdio desde Aqua, lançado em 2009. Ouvindo repetidamente a canção, é impossível não enxergar uma fusão entre "Gentle Change" e a já citada "Caça e Caçador", principalmente por causa da forte identidade brasileira presente em sua construção.
Caminhando para os momentos finais, encontramos uma grande variedade de ideias no material. Primeiro, temos "Circle of Dust". Pesada e cheia de boas nuances, a faixa tem como um de seus grandes destaques o estreante Jean Gardinalli. O cara simplesmente executa suas linhas de bateria de maneira primorosa, equilibrando técnica e musicalidade sem soar excessivo em nenhum momento.
Obviamente, o "duelo" entre Edu Falaschi e Roy Khan (ex-Kamelot) acaba sendo a cereja do bolo.
A última balada do álbum, "On Your Own", chega logo em seguida. E, sinceramente, se o Brasil desse mais valor à música pesada e aos seus artistas, essa faixa estaria tocando nas rádios e até em trilhas de novelas. Trata-se de uma das melhores baladas já compostas por Edu Falaschi. A faixa começa de forma minimalista, sustentada apenas por voz e piano, e vai crescendo gradativamente até explodir em um refrão emocionante. Diogo Mafra abrilhanta tudo com um solo de guitarra inspirado, tornando o resultado ainda mais grandioso.
O desfecho da história e do álbum acontece em "Wrath Into the War". É o encerramento de um ciclo, uma sensação de jornada completa. A composição parece revisitar os caminhos percorridos ao longo da trilogia, reunindo elementos característicos de Vera Cruz, Eldorado e Mi'raj. Há velocidade, melodias marcantes e passagens progressivas. Mais do que simplesmente concluir uma narrativa, a faixa funciona como uma síntese artística de tudo o que o músico construiu até aqui.
Quando os últimos acordes terminam, fica a impressão de que "Mi'raj" não apenas fecha uma trilogia, mas também representa o momento em que Edu finalmente aprende a caminhar em paz ao lado de seu passado. O velho "fantasma" continua presente, mas já não assombra. Agora, ele é apenas parte da história.
Ah, mas você não vai falar da voz?
Sinceramente, precisa?
Todos sabemos dos problemas que o vocalista enfrentou em suas cordas vocais. Da mesma forma, sabemos que ele não é mais o “mocinho” dos tempos de Symbols ou dos primeiros anos de Angra — os cinquenta anos chegaram para todos.
O que posso dizer é que, em "Mi'raj", Edu Falaschi soa o mais honesto possível com o ouvinte. Não há tentativa de mascarar limitações. Pelo contrário. Edu trabalha dentro de suas possibilidades atuais e utiliza a experiência acumulada para entregar emoção e personalidade.
No fim das contas, Mi'raj não é um álbum sobre nostalgia, embora ela esteja presente em diversos momentos. É um álbum sobre maturidade. Sobre compreender quem você foi, quem você é e seguir em frente sem precisar renegar nenhuma dessas versões.
Dentro da trilogia, é o melhor capítulo.
William Ribas