ON THE SHORTNESS OF LIFE
Marquee Avalon - Importado
STORIES FROM A VERDANT VALE nasceu como material complementar. Mas graças ao empenho e capacidade criativa dos alemães, acabou virando mais um capítulo na trajetória do MOB RULES.
Sergiomar Menezes
Existem discos que chegam ao mundo para dar início a alguma coisa. Outros chegam para provar que uma banda ainda tem muito a dizer. E existem aqueles que carregam sobre os ombros uma tarefa muito mais difícil: dizer adeus. BOOM BANG GOODBYE, o mais recente trabalho do SINNER, lançado lá fora pela Reigning Phoenix Music, pertence a essa última categoria. E diferentemente de outras audições, existe uma história inteira escondida atrás dessas onze faixas. Mat Sinner, o mastermind por trás da "banda", construiu sua trajetória desde o início dos anos 1980, atravessando décadas, mudanças de formação, tendências, crises da indústria e transformações profundas no heavy metal. Agora, ao colocar um ponto final nessa história, o baixista e produtor poderia ter reciclado velhas fórmulas, chamado meia dúzia de amigos e encerrado a carreira de maneira protocolar. Felizmente, não foi isso que aconteceu. Seu último trabalho soa como uma despedida feita por alguém que ainda ama profundamente aquilo que está deixando para trás.
Para este encerramento de carreira, Mat Sinner mais uma vez reuniu um elenco de companheiros de longa data e músicos excepcionais. Alex Scholpp (guitarra), Mathias “Don” Dieth (guitarra, retornando ao SINNER) e Moritz Müller (bateria) são a base do álbum, acompanhados por Jim Müller (KISSIN’ DYNAMITE), Lisa Müller e Magnus Karlsson, que trabalhacom Mat Sinner há muitos anos. Nos vocais, o álbum também traz um encontro de grandes vozes. Ronnie Romero, Michael Bormann, Michael Sadler (Saga), Björn “Speed” Strid (Soilwork), Erik Mårtensson (Eclipse), Renan Zonta (Electric Mob) e Sascha Krebs trazem sua própria identidade às músicas, tornando o álbum uma despedida digna e cheia de performances vocais cheias de sentimento e técnica.
O álbum abre com "Dreams Come True", e a escolha de Renan Zonta nos vocais foi excelente. Sua voz traz potência, personalidade e uma energia que impede a música de cair naquela mesmice que muitos vocalistas acabam por se deixar levar. Existe emoção e força em seus vocais. O título parece quase uma mensagem que Mat Sinner poderia estar dirigindo ao próprio passado: sonhos podem se realizar, desde que alguém esteja disposto a persegui-los durante décadas. A faixa traz melodia, peso e uma dose generosa de otimismo. “Wait”, cantada por Michael Bormann, é uma música que mergulha mais profundamente no hard rock melódico e apresenta uma estrutura extremamente acessível, mas sem cair na repetição desnecessária. É uma das faixas que imediatamente faz pensar no grande hard rock melódico europeu dos anos 1980, mas com produção contemporânea. Já em “Leave It All Behind”, o SINNER reduz um pouco a velocidade e aposta em uma atmosfera mais reflexiva. E a voz de Ronnie Romero (que aparece em mais duas faixas) se encaixa perfeitamente na proposta apresentada. “All Night Long” traz o hard rock de estrada: guitarras abertas, groove contagiante e refrão feito para ser cantado em coro. Ronnie Romero novamente demonstra por que se tornou uma das vozes mais requisitadas do hard rock e do heavy metal contemporâneo. “Are You Ready” aproxima o hard rock melódico da sensibilidade mais moderna de Björn Strid (Soilwork) sem destruir a identidade da composição. E a escolha de Strid mostra que o passado está presente, e músicos de diferentes gerações ajudam a contar essa história.
“Born To Run” traz riffs diretos, melodias fortes e aquele sentimento de que a música foi feita para ser tocada em no volume mais alto possível. Enquanto isso, “Hellbreaker” está entre os momentos mais pesados do álbum e lembra que, apesar de toda a ênfase nas melodias, estamos diante de uma banda cuja história também passa pelo heavy metal. Com Michael Sadler nos vocais, “Turn The Page” ganha uma atmosfera diferente. O vocalista do Saga acrescenta uma dimensão mais sofisticada à música, e o resultado é um dos momentos mais interessantes do álbum. E o próprio título entrega: chegou a hora de virar a página... Michael Bormann retorna e entrega outro dos momentos mais emocionantes do disco. “Road To Remember” se volta ao caminho percorrido. E esse talvez seja um dos pontos em que o trabalho e ultrapassar a condição de simples álbum de hard rock/heavy metal. Porque, em determinado momento, você deixa de pensar apenas em riffs e refrões e começa a pensar na quantidade de anos, palcos, músicos, viagens e histórias que estão por trás daquele som e tudo vivido por Matt Sinner e sua banda. “Under The Moonlight” traz novamente uma atmosfera mais pesada e ajuda a preparar o terreno para o encerramento. É uma música forte e intensa, que mostra como o SINNER consegue alternar entre o hard rock melódico e o heavy metal sem parecer estar mudando de personalidade. O encerramento, não apenas do álbum, mas da carreira da banda vem com "Power". Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, e a música funciona como uma espécie de último grito de força. Não é um encerramento melancólico. É quase uma declaração: enquanto houver rock/hard/heavy, a música terá força!
BOOM BANG GOODBYE não é um álbum revolucionário. Muito pelo contrário. É um disco honesto, competente, melódico e carregado de significado, que reúne diferentes gerações do hard rock europeu para acompanhar Mat Sinner em sua despedida. Ele lembra por que o SINNER conseguiu atravessar tantas décadas sem perder sua identidade. Ao término da audição, fica aquela sensação estranha que discos de despedida conseguem provocar: a certeza de que a história acabou — e, ao mesmo tempo, a sensação de que aquelas músicas continuarão tocando muito depois, já que todos nós sabemos que a música é eterna. Obrigado Matt Sinner!
Sergiomar Menezes
METALLICA (BLACK ALBUM) 35 ANOS - O DISCO QUE MUDOU MINHA VIDA!
Eu tinha 13 anos quando ouvi o Black Album pela primeira vez. Foi meu pai quem colocou o disco pra tocar em um belo sábado de sol à tarde, e lembro exatamente do momento em que "The Unforgiven" rolou no som, eu parei de jogar videogame e fui até a sala perguntar a ele quem tocava aquela maravilha dos deuses, e então ele me mostrou um cd de capa totalmente preta, onde só se via a silhueta do nome da banda e uma serpente enrolada no canto inferior direito. Não sei explicar direito o que aconteceu comigo naquele momento, só sei que pirei e posso dizer com toda certeza que foi um divisor de águas em minha vida, pois o Fernando de antes do Black Album deixou de existir a partir daquele dia, não tinha mais volta, eu virei um fanático não só pela banda, mas pelo heavy metal em si.
E trinta e cinco anos depois do lançamento desse disco, em 12 de agosto de 1991, eu ainda sinto um pouco daquela sensação toda vez que escuto o disco até hoje.
Só depois, com o tempo, fui entender que essa reação não era exclusividade minha. O Black Album é o disco que rompeu a barreira do próprio gênero e chegou a gente que nunca tinha ouvido uma música pesada na vida. Não é exagero dizer, até porque os números dizem por si só: o disco estreou em primeiro lugar em dez países, ficou quatro semanas seguidas no topo da Billboard 200 nos Estados Unidos, e "Enter Sandman" chegou à 16ª posição da Hot 100, a parada pop mais importante do mundo, numa época em que praticamente nenhuma banda de metal flertava com esse território. Gente que nunca tinha comprado um disco de metal na vida comprou esse. Isso é raro. Isso é histórico.
Tem gente que fala mal desse disco até hoje, que xinga o Bob Rock, que diz que o Metallica vendeu a alma naquele ano pra virar banda de estádio. Eu entendo o argumento, conheço a história, sei que a produção mais limpa e as músicas mais curtas foram uma aposta calculada pra alcançar um público maior depois da tijolada (no bom sentido) que foi ...And Justice for All. Mas sinceramente, esse argumento nunca colou comigo. Porque sem esse disco, sem essa suposta "venda de alma", eu não estaria aqui hoje escrevendo sobre uma das coisas que mais amo na vida. Ele foi meu marco zero.
"The Unforgiven" tem aquele clima de faroeste, uma melancolia pesada que não é fácil de explicar pra quem não é fã do gênero. Acho que foi exatamente essa mistura de peso com um quê de tristeza que me pegou aos 13 anos. Já "Nothing Else Matters" é outra história. Nasceu quase por acidente, com Hetfield falando que era uma música feita para uma namorada na época, achando aquilo pessoal demais pra virar música da banda, até Ulrich ouvir a música e insistir que ela precisava ser gravada no disco e não deu outra, o “Anão” acertou (de novo). Não é à toa que até hoje ela segue sendo regravada e tocada em todo tipo de contexto, décadas depois de ter nascido de uma ligação particular.
Não preciso ficar comentando faixa por faixa aqui, até porque todo mundo já conhece esse disco de cor. Mas não posso deixar de admitir uma coisa: mesmo gostando de tudo sem exceção, e mesmo tendo sido "The Unforgiven" a minha porta de entrada, a melhor música do disco pra mim continua sendo "Wherever I May Roam". E não é pouca coisa dizer isso de um álbum que, de doze faixas, colocou seis como single ao longo de 2 anos de divulgação, contando o lançamento promocional de "Don't Tread on Me". Poucos discos de heavy metal conseguiram esse tipo de proporção entre faixa e hit.
E não é só questão de saudosismo, ou de eu ter ouvido isso aos 13 anos com os olhos brilhando. Pra mim, até hoje, é o disco mais bem produzido da história do heavy metal. Bob Rock levou o Metallica pra um patamar de produção que nenhuma banda do gênero tinha alcançado até então: guitarras enormes, mas ainda assim limpas, uma bateria que soa gigante sem perder o peso, arranjos que respiram, como a base de cordas discreta em "Nothing Else Matters" ou o clima quase cinematográfico de "The Unforgiven". Isso sem falar da composição, muito mais madura e econômica que qualquer coisa que a banda tinha feito antes. Não é à toa que até hoje engenheiros de som, produtores e bandas de heavy metal e hard rock citam esse disco como referência técnica, não só de som, mas de como compor e arranjar uma música pesada pra ela funcionar em qualquer contexto.
A partir dali, virei fanático. Corri atrás de tudo que existia de Metallica, descobri "Kill 'Em All", "Ride the Lightning", "Master of Puppets", e de lá fui pra Slayer, Exodus, Iron Maiden, Judas Priest, Black Sabbath, etc. O Black Album não foi só um disco bom que eu ouvi quando era moleque. Foi a porta de entrada pra tudo que eu sou hoje como fã e como alguém que escreve sobre heavy metal.
Trinta e cinco anos depois, o disco ainda segue batendo recordes. Em maio de 2025 a RIAA certificou o Black Album como Double Diamond, mais de 20 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos, o primeiro álbum de heavy metal da história a chegar nessa marca. Segue sendo, até hoje, o marco zero de gente que nem tinha nascido quando ele saiu. E o Metallica sabe disso, pois em pleno M72 World Tour, as músicas do disco ainda continuam com presença garantida no repertório, show atrás de show. E assim será eternamente, até o dia em que a banda se aposentar.
Talvez essa seja a explicação mais simples do porquê esse disco importa tanto. Não é sobre thrash raiz contra Metallica "vendido". É sobre quanta gente, como eu, teve o próprio marco zero através dele. Trinta e cinco anos depois, Black Album ainda me faz sentir do mesmo jeito que aquele moleque de 13 anos ouvindo o pai colocar o disco pra tocar.
Long Live MetallicA!