quinta-feira, 11 de junho de 2026

SKID ROW - SLAVE TO THE GRIND 35 ANOS

 


SLAVE TO GRIND - 35 ANOS DO ÁLBUM QUE GANHOU PESO NAS GUITARRAS SEM PERDER A MELODIA

Por Sergiomar Menezes

Em 11 de junho de 1991, o SKID ROW disponibilizava ao mundo um trabalho que não apenas mexia com as expectativas da sua gravadora, mas também faria história na música pesada. Ao completar 35 anos, SLAVE TO THE GRIND permanece como um marco fundamental de transição e coragem, uma vez que o Hard mais festeiro e despojado do primeiro álbum, deu lugar a guitarras mais pesadas, vocais mais rasgados e uma atmosfera mais densa no que diz respeito às letras. Após estourarem mundialmente, impulsionados por megahits como "18 and Life" e "I Remember You", o caminho comercial mais seguro para o Skid Row seria repetir a fórmula. Havia uma pressão imensa para manter o visual perfeitamente alinhado e as baladas de rádio no topo.

No entanto, a banda liderada pelas guitarras de Dave "The Snake" Sabo e Scotti Hill, pelo baixo pulsante de Rachel Bolan e pela bateria de Rob Affuso decidiu endurecer o jogo. Eles recrutaram novamente o produtor Michael Wagener, mas deixaram claro: o novo som seria cru, agressivo e sem concessões. O resultado foi um soco na boca do estômago da indústria. As guitarras ganharam afinações mais baixas, flertando abertamente com o peso do heavy metal tradicional. Como citado anteriormente, as letras abandonaram os clichês festivos e de romance da Sunset Strip para focar em críticas sociais, isolamento, corrupção e saúde mental.


Mesmo sem o apelo comercial do primeiro disco, Slave to the Grind realizou um feito inédito: foi o primeiro álbum de heavy metal a estrear diretamente no número 1 da Billboard 200 na era SoundScan (o sistema informatizado que passou a computar com precisão as vendas reais de discos). O feito provou que o público estava sedento por uma sonoridade mais visceral exatamente no ano em que o cenário musical mudaria drasticamente com o estouro do grunge.

"Slave to the Grind" se destaca por não dar trégua ao ouvinte, equilibrando perfeitamente a velocidade com baladas densas e sombrias. A abertura com "Monkey Business" dita as regras com um riff icônico arrastado que explode em velocidade. Já a faixa-título, "Slave to the Grind", e a veloz "Riot Act" mostram uma banda tocando no limite da agressividade, com andamentos que lembram o som de bandas como Pantera e Anthrax (com quem o Skid Row dividiria palcos em turnê). No que diz respeito as baladas, longe de serem canções de amor açucaradas, neste disco elas lidam com temas complexos. "Quicksand Jesus" questiona a fé e a humanidade em momentos de crise. "In a Darkened Room" aborda o abuso e o trauma de forma profundamente melancólica e "Wasted Time", um dos pontos altos da carreira da banda, narra a dolorosa decadência de um amigo devido ao vício em drogas.

Mas é praticamente impossível falar de "Slave to the Grind" sem destacar a performance de Sebastian Bach. Se no primeiro disco ele já mostrava alcance, aqui ele entregou uma das interpretações vocais mais impressionantes da sua carreira. Bach transita entre vocais limpos e profundos nas partes melódicas e agudos rasgados nas faixas mais pesadas. O controle dinâmico e a raiva legítima que ele imprimiu em estúdio se tornaram o padrão de ouro para vocalistas do gênero, imortalizando canções que pouquíssimos cantores no mundo conseguem reproduzir com a mesma entrega.

SLAVE TO THE GRIND foi uma declaração de liberdade do grupo, provando que a banda era musicalmente muito mais robusta, pesada e madura do que os clichês visuais da Sunset Strip sugeriam. Para o Hard Rock em geral, o álbum quebrou barreiras ao se tornar o primeiro disco a estrear no topo da Billboard na era moderna de contagem de vendas, mostrando que era possível alcançar o sucesso comercial massivo sem abrir mão da agressividade. Ao adentrar no mundo das guitarras pesadas, o SKID ROW antecipou os rumos dos anos 1990, deixando como legado uma obra atemporal que serve de ponte perfeita entre o hard rock clássico e o metal moderno.



ACID REIGN - DAZE OF THE WEEK (2026)

 


ACID REIGN
DAZE OF THE WEEK
Back on Black - Importado

Existem bandas que retornam apenas para revisitar o passado. Outras voltam porque ainda têm algo a provar. O Acid Reign pertence com absoluta convicção ao segundo grupo.

"Daze Of The Week" não soa como o trabalho de músicos tentando recuperar relevância ou celebrar uma herança construída décadas atrás. Pelo contrário. O álbum transmite a sensação de uma banda que passou anos acumulando tensão, experiência e ideias, aguardando o momento certo para despejar tudo em forma de riffs cortantes, refrãos memoráveis e uma avalanche de energia impossível de ignorar.

Desde os primeiros minutos, fica claro que o Acid Reign encontrou um equilíbrio raro entre tradição e renovação. O DNA do thrash britânico permanece intacto, mas a execução está mais afiada, mais pesada e mais confiante. A agressividade é constante, porém nunca se torna previsível. Cada música apresenta uma personalidade própria, alternando ataques de velocidade insana, passagens mais elaboradas e melodias que surgem naturalmente em meio ao caos.

A abertura com "The Who Of You" já deixa evidente o nível de inspiração envolvido. O que começa com uma atmosfera quase solene rapidamente se transforma em uma explosão de criatividade, combinando técnica, peso e dinamismo de forma impressionante. A faixa-título mantém a intensidade elevada, enquanto "No Truth" surge como um ataque frontal de pura adrenalina. Já "Conniption King" revela uma faceta mais sofisticada da banda, explorando mudanças de andamento e harmonias que ampliam ainda mais seu alcance musical.

Boa parte do mérito pertence a Howard Smith. Sua performance é simplesmente fantástica. O vocalista continua sendo um frontman único, alternando sarcasmo, agressividade e senso melódico com uma naturalidade que poucos conseguem alcançar. Sua presença domina o álbum sem sufocar o restante da banda, que entrega uma atuação igualmente inspirada.

E há algo especialmente cativante em "Daze Of The Week": o humor ácido. Mesmo quando aborda temas sombrios ou críticas sociais, o grupo mantém aquele olhar irônico tipicamente britânico que transforma suas letras em algo muito mais interessante do que simples discursos raivosos. O próprio título do álbum brinca com múltiplas interpretações, refletindo perfeitamente o espírito inteligente e provocador da banda.

A produção merece destaque especial. Gravado integralmente de forma analógica, o disco possui uma sonoridade orgânica, pulsante e poderosa, valorizando cada detalhe sem sacrificar a brutalidade. O resultado é um álbum autêntico, vibrante e carregado de personalidade.

Faixas como "Blind Lies", "Sorrowsworn" e a excelente "Fantastic Passion" reforçam a impressão de que o grupo atravessa um momento extremamente inspirado, algo que transborda por todas as composições. Os riffs são enormes, os refrãos funcionam, os solos acrescentam emoção e a seção rítmica mantém tudo em movimento com uma precisão impressionante. O grand finale com "Centre Of Everything" encerra o trabalho de forma grandiosa, mostrando que maturidade e fúria podem coexistir sem qualquer conflito.

Se o retorno com "The Age Of Entitlement" provou que o Acid Reign ainda tinha combustível no tanque, "Daze Of The Week" mostra algo ainda mais impressionante: o tanque está longe de ficar vazio. Uma demonstração contundente de que experiência não precisa significar suavidade.

William Ribas




MICHAEL SWEET - THE MASTER PLAN (2026)

 



MICHAEL SWEET
THE MASTER PLAN
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Michael Sweet é um dos músicos mais notáveis do Hard/Heavy que vem dos anos oitenta. Muitos tem preconceito por causa das temáticas das letras do Stryper, voltadas as suas crenças cristãs e tudo que envolve. Como se isso fosse um pecado. Mas ok. Isso é outro assunto. O que importa é que, mesmo que você não curta o Stryper e a carreira solo de Michael, é impossível negar o seu talento tanto como guitarrista e vocalista, como compositor.

Aqui neste novo trabalho, “The Master Plan”, lançado agora em abril de2026 a voz está lá, presente... e só, infelizmente. EU entendo quando um músico de uma banda consagrada queira fazer um trabalho solo e se distanciar da sonoridade do grupo que o fez famoso. Inclusive, era uma coisa que Michael nunca conseguiu realmente, tendo em vista seus discos solo anteriores, ou nos projetos com Tracii Guns e George Lynch, sempre ficando à sombra do Stryper.

Mas em “The Master Plan” o distanciamento ocorre de uma forma que definitivamente não agrada. Músicas sem “punch” e deveras adocicadas e até “bobinhas” (escute “Stronger e entenda o que eu falo). Convenhamos que abrir um álbum com uma balada não é uma boa ideia, ao menos que você seja Michael Bolton ou Elton John... No caso aqui é a faixa título que até para uma balada... ela parece que vai, mas não vai... ”Eternally” é outra balada com um ar mais dramático, que poderia ser cantada na missa das dez da manhã de um domingo qualquer...

“You Lead, I´ll Follow” tentar se aproximar de algo que insinua alguma influência de Beatles, porém de uma forma infantil e que de forma alguma convence. “Desert Stream” é outra balada, porém nesta a coisa melhora um pouco, com alguma distorção nas guitarras, e que lembra um pouco alguma balada que poderia estar em um álbum do Stryper. Junto a esta, vem “Believer” a mais Rocker do álbum, finalmente uma faixa que anima um pouco o trabalho. Mas logo a seguir vem “Again” e adivinha? Mais uma balada, com aura de tocar no culto.... haja!

Michael, sou muito seu fã, mas dessa vez não deu pra elogiar. “The Master Plan” é aquele álbum apenas para quem é muito fã do Stryper e tem todos os trabalhos, incluindo os trabalhos solo de Michael Sweet. Caso contrário, esqueça. Eu acabei a audição e fui ouvir o “Soldiers Under Command”. Próximo álbum, por favor...

José Henrique Godoy




VOIVOD - SYMPHONIQUE (2026)


 

VOIVOD
SYMPHONIQUE
Century Media - Importado

Mais do que um mero registro ao vivo, Symphonique funciona como uma celebração da criatividade, da longevidade e da permanente capacidade de reinvenção de uma das bandas mais visionárias que o metal já produziu. Afinal, poucos nomes possuem uma discografia tão naturalmente compatível com uma abordagem sinfônica quanto o Voivod. Desde os anos 80, os canadenses construíram uma identidade única, misturando ficção científica, experimentação progressiva, dissonâncias inquietantes e uma visão futurista que sempre esteve muitos passos à frente de seu tempo.

Agora, esse universo ganha uma nova dimensão.

Registrado ao vivo em junho de 2025 no Grand Théâtre de Québec, com o acompanhamento da Orquestra Sinfônica de Québec, o álbum transforma doze composições clássicas da banda em uma verdadeira viagem. Mais do que simplesmente adicionar cordas e metais sobre estruturas já conhecidas, o projeto amplia o alcance emocional e atmosférico dessas faixas, revelando detalhes que muitas vezes passavam despercebidos em suas versões originais.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que essa parceria não foi concebida como um exercício de vaidade. "Experiment" surge monumental, cercada por arranjos densos e imprevisíveis que reforçam toda a estranheza e grandiosidade presentes no clássico Dimension Hatröss. A combinação entre a voz inconfundível de Snake, os riffs angulares de Chewy Mongrain e as intervenções da orquestra cria uma experiência que oscila constantemente entre o caos controlado e a beleza melancólica.

Faixas como "The Unknown Knows" e "Into My Hypercube" parecem ter sido escritas pensando em uma execução desse porte. Os arranjos orquestrais expandem suas estruturas complexas sem comprometer a agressividade característica do grupo. O mesmo acontece com "Holographic Thinking", cuja temática futurista encontra no acompanhamento sinfônico uma camada extra de profundidade e expansão.

Um dos grandes méritos de Symphonique está justamente na escolha do repertório. Em vez de tentar resumir toda a carreira da banda de forma linear, o álbum concentra-se nas composições que melhor representam seu lado mais progressivo e aventureiro. Clássicos das eras "Nothingface", "Dimension Hatröss", "Killing Technology" e "War and Pain" convivem harmoniosamente com material mais recente, demonstrando como a essência criativa do quarteto permanece intacta após mais de quatro décadas.

Momentos como "The End of Dormancy" e "Cosmic Drama" evidenciam a afinidade natural entre o vocabulário musical da banda e a linguagem da música de concerto. As passagens orquestrais não soam artificiais ou forçadas; ao contrário — em diversos momentos, a sensação é de estar diante da trilha sonora de uma épica ficção científica distópica.

Enquanto a sinfônica dita o clima, a banda entrega uma performance impecável. Away e Rocky sustentam a cozinha com precisão e peso absurdos, enquanto Chewy demonstra mais uma vez por que é considerado um dos guitarristas mais criativos do metal moderno. No centro de tudo permanece Snake, cuja interpretação mantém o caráter humano e visceral necessário para equilibrar toda a grandiosidade do espetáculo.

O encerramento com "Tribal Convictions" e a clássica releitura de "Astronomy Domine", do Pink Floyd, fecha a apresentação de forma cirúrgica, reforçando a conexão histórica do Voivod com sonoridades psicodélicas, progressivas e experimentais.

Symphonique parece a realização de uma ideia que acompanhava os canadenses desde o início de sua trajetória. É a prova definitiva de que, mesmo após mais de quarenta anos explorando novos mundos sonoros, o Voivod continua encontrando formas inéditas de expandir os limites de sua própria galáxia musical.

William Ribas




quarta-feira, 10 de junho de 2026

CORROSION OF CONFORMITY - GOD GOD/BAAD MAN (2016)

 


CORROSION OF CONFORMITY
GOD GOD/BAAD MAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Mais de quatro décadas após surgir no cenário underground da Carolina do Norte, o Corrosion of Conformity continua desafiando qualquer tentativa de enquadrá-lo em um único rótulo. Punk, crossover, sludge, stoner rock, southern rock e heavy metal sempre coexistiram em diferentes proporções dentro da sonoridade da banda. Em Good God / Baad Man, seu décimo primeiro álbum de estúdio, essa mistura atinge um dos pontos mais completos de toda essa trajetória.

O disco chega carregado de significado. Desde "No Cross No Crown" (2018), a banda enfrentou profundas transformações, incluindo a dolorosa perda do baterista Reed Mullin, em 2020. Em vez de tentar recriar o passado, o quarteto opta por seguir adiante, preservando a essência que o tornou uma referência dentro da música pesada sulista. O resultado é uma obra extensa, ambiciosa e repleta de personalidade.

Desde os primeiros minutos, fica evidente que o álbum não pretende escolher um único caminho. A agressividade característica dos tempos de "Blind" reaparece em faixas explosivas como “Good God Final Dawn”, “Gimme Some Moore” e “Asleep On The Killing Floor”, onde riffs cortantes e grooves densos caminham lado a lado. A influência do Black Sabbath permanece profundamente enraizada, mas surge filtrada pela identidade única que Pepper Keenan e Woody Weatherman desenvolveram ao longo dos anos.

A dupla de guitarristas é, mais uma vez, o coração do álbum. Os riffs carregam peso e espontaneidade, alternando momentos de fúria com passagens repletas de atmosfera. Há uma sensação constante de liberdade criativa, como se as músicas estivessem sendo construídas organicamente dentro da sala de ensaio, sem preocupação com tendências ou fórmulas modernas — apenas boas jam sessions entre velhos amigos.

Ao mesmo tempo, o lado mais rock 'n' roll e descontraído da banda ganha espaço considerável. “The Handler” combina peso e balanço com uma naturalidade impressionante, enquanto a faixa-título “Baad Man” mergulha em uma energia quase boogie, evocando o espírito de velhos bares enfumaçados do sul. Já “Swallowing The Anchor” e “Handcuff Country” ampliam essa abordagem, revelando uma faceta divertida sem comprometer a identidade pesada do grupo.

Um dos aspectos mais interessantes do álbum é a forma como os interlúdios instrumentais são utilizados. Em vez de funcionarem apenas como preenchimento, peças como “Bedouin's Hand” e “Mandra Sonos” criam pontes atmosféricas que ampliam a experiência e valorizam ainda mais as composições que as sucedem. Esses momentos demonstram uma banda confortável em explorar novas texturas sem perder o foco principal. Falando em conforto, o que é “Brickman”? Um bom whiskey, um cigarro e a solidão parecem ser a companhia perfeita para essa bela peça acústica.

A nova formação também merece destaque. O baixista Bobby Landgraf encaixa-se perfeitamente na sonoridade do grupo, enquanto a bateria de Stanton Moore conduz tudo com criatividade, personalidade e senso de espaço. A influência de Reed Mullin continua perceptível no espírito das composições, mas sem transformar o álbum em um exercício de nostalgia.

Quando a reta final chega, Good God / Baad Man reserva alguns de seus momentos mais marcantes. “Forever Amplified” encerra a jornada de maneira monumental, combinando peso, melodia, psicodelia e longas passagens instrumentais em uma construção épica que sintetiza praticamente todas as facetas apresentadas ao longo do álbum. É uma conclusão grandiosa para uma obra que nunca deixa de soar pulsante.

Embora sua duração possa parecer desafiadora à primeira vista, o álbum recompensa a dedicação do ouvinte com uma enorme variedade de ideias e atmosferas. O Corrosion of Conformity demonstra que continua plenamente capaz de criar música relevante sem depender exclusivamente de seu legado.

Good God / Baad Man não é apenas um retorno inspirado. É a prova que algumas instituições do metal envelhecem sem perder um único grama de peso.

William Ribas