segunda-feira, 26 de outubro de 2026

REBEL ROCK ENTREVISTA - EPITAPH

 


REBEL ROCK ENTREVISTA - EPITAPH

Formada em Porto Alegre (RS) no ano 2000, a EPITAPH é uma das bandas mais consistentes da cena brasileira de heavy metal tradicional. Com mais de duas décadas de estrada, o grupo acumula mais de 150 apresentações nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, consolidando sua identidade através de uma sonoridade que combina o peso clássico do metal com elementos modernos, resultando em um estilo próprio e marcante. Formada por Joe F. Louder (vocal), Marlon Steindorff (guitarra), André Carvalho "Canhoto" (guitarra), Fábio Figueiredo (baixo) e César Five (bateria), a banda lançou agora em 2026 seu segundo álbum, "Digital Screams". . Com oito faixas inéditas, o álbum reforça a identidade construída ao longo de sua trajetória, fundindo Heavy Metal, Thrash Metal e Hard Rock de forma equilibrada e autêntica. Produzido por Lucas Santorum, o disco evidencia a evolução técnica e artística dos músicos, mantendo a energia e a personalidade que sempre caracterizaram a Epitaph. Batemos um papo com o guitarrista Marlon e o baterista César sobre o mais recente trabalho e sobre a carreira do grupo. Confira!

Por Sergiomar Menezes
Fotos: Divulgação


Rebel Rock: "Digital Screams" chega com um peso impressionante, misturando elementos de Heavy Metal tradicional e Thrash Metal. Como vocês definem o processo de evolução sonora da banda desde o debute Getting Down to Business até este novo trabalho?

César: É um prazer para a Epitaph responder a esta entrevista para o Rebel Rock. Obrigado pelas palavras! Realmente, o processo de composição e evolução da banda foi longo: dezessete anos. Nesse período, enfrentamos os problemas que a maioria das bandas enfrenta, como mudanças de integrantes, definição das composições e decisão de lançar o álbum no momento apropriado. Por outro lado, tudo isso contribuiu para a qualidade do material, pois todos os que passaram pela banda, em algum momento, contribuíram para o produto final. O mais importante é que mantivemos nosso som e acrescentamos um pouco mais de modernidade ao nosso metal tradicional, sem alterar nossa proposta.

Rebel Rock: O conceito do álbum traz fortes reflexões sobre o impacto das redes sociais, a inteligência artificial e as transformações da sociedade moderna. De que maneira as angústias do século XXI influenciaram a composição das letras?

César: A Epitaph sempre colocou as letras no mesmo patamar que as músicas. Sempre buscamos mostrar, de forma inteligente, com um pouco de sarcasmo e humor, as loucuras dessa sociedade caótica em que vivemos. As letras do primeiro álbum, "Getting Down to Business", escritas a partir do início dos anos 2000, ainda se mantêm atuais, porque o mundo repete seus ciclos de guerras, perseguições etc. A diferença é que agora temos a forte influência das redes sociais e da inteligência artificial na vida das pessoas. Felizmente, contamos com um ótimo time de letristas que voltou a colaborar neste novo álbum: Dênis Winston e Gustavo Demarchi, que, além de escrever a faixa-título, também dividiu os vocais com Joe nessa música. Joe F. Louder também escreveu sua letra em homenagem à atriz Andressa Urach. O encarte do CD ajuda o ouvinte a acompanhar novamente as letras e as músicas, algo que acabou ficando esquecido nas plataformas digitais.

Rebel Rock: A faixa-título “Digital Screams” carrega um peso conceitual enorme. O que esse “grito digital” representa para vocês no contexto atual do mundo e da música?

César: Gustavo Demarchi foi certeiro na composição de "Digital Screams". Ele ouviu a música ainda na pré-produção e se ofereceu para escrever a letra, que fala sobre o domínio das redes sociais e, agora, da inteligência artificial sobre as pessoas. A música também aborda como a guerra virtual entre as pessoas, seja por questões políticas ou por qualquer outro assunto, acaba afastando e isolando indivíduos. Infelizmente, muitas pessoas abandonaram o diálogo e preferiram se fechar em suas próprias verdades. A música é excelente, tem um clima de Queensrÿche, e os vocais divididos entre Gustavo e Joe ficaram ótimos. A composição é minha e do Marlon Steindorff, e juntos fazemos um bom trabalho de composição. André também acrescentou alguns detalhes.
Temos orgulho dessa música!

Rebel Rock: O álbum conta com a produção de Lucas Santorum. Como foi a dinâmica de trabalho em estúdio com ele para alcançar essa sonoridade moderna, robusta e técnica que ouvimos no disco?

César: Quando reunimos o material para gravar, já tínhamos as pré-produções prontas, mas ainda faltava algo. Eu já havia gravado minhas baterias. A descoberta do Lucas foi primordial. Eu já estava trabalhando com ele na gravação do álbum do Volúpia, e ele entendeu que tipo de som eu queria. Na gravação da Epitaph, além de técnico, ele foi produtor, aconselhando-nos sobre detalhes das músicas, cobrando aquele take a mais e direcionando o foco da banda. Ele gravou grande parte dos vocais do Joe e todas as guitarras. Algumas partes foram gravadas com amplificadores digitais e outras com amplificadores reais, o que proporcionou o peso que queríamos. O baixo do Fábio também foi gravado muito rapidamente. Ficamos muito satisfeitos com o resultado final, e o Lucas ganhou de presente o solo de introdução da música "National Guard". Estamos ansiosos para gravar com ele novamente, pois algumas músicas não entraram neste álbum.

Rebel Rock: O disco abre com “Loser’s Life” e traz faixas marcantes como “The Girl Who Loved the Dead” (que ganhou videoclipe oficial), “NationalGuard” e “Blue Cave”. Como foi a seleção dessas 8 faixas inéditas entre o material que vocês compuseram?

César: Tínhamos 12 músicas compostas, e foi difícil escolher quais entrariam no álbum. Optamos por oito, que somam 46 minutos, um tempo excelente para um disco. A ideia é gravar o material que sobrou e lançá-lo como singles ou em um EP. São músicas excelentes! Montar o repertório do CD foi difícil, mas conseguimos distribuir as faixas de uma maneira que agradou bastante às pessoas. Adorei o final com influências de Southern Rock e blues de Blue Cave, que encerra o álbum e traz esses elementos para a nossa música.


Rebel Rock: Há uma faixa homônima à banda (“Epitaph”) bem no meio do tracklist. Qual é o significado especial dessa música em termos de identidade para o grupo?

César: A ideia de ter uma música com o nome da banda é antiga. Pedimos ao Dênis que escrevesse a letra, e o resultado ficou exatamente como queríamos. Ela dá identidade à banda e é utilizada na abertura dos nossos shows. Funciona muito bem ao vivo. Um spoiler: a música terá seu videoclipe oficial, que já foi gravado e será lançado em breve!

Rebel Rock: Como funciona o processo de composição das guitarras na Epitaph? Tendo duas mentes nas seis cordas (Marlon Steindorff e André Carvalho “Canhoto”), como dividem os riffs, harmonias e solos?

Marlon: Quando o André Canhoto entrou na banda, já tínhamos praticamente 90% do álbum composto em termos de riffs. Então, trabalhamos especialmente nas harmonias para duas guitarras, nos solos dobrados e nos solos individuais de cada guitarrista, dando ao Canhoto total liberdade de composição.
Particularmente neste disco, tivemos um processo de composição bastante variado na parte instrumental.
Algumas composições, como "Epitaph", "Something Better Than God" e "Digital Screams", tiveram os riffs criados em conjunto por Marlon e César (bateria). Alguns ex-integrantes também tiveram participação importante em determinadas músicas, como Márcio Supertti em "Road of Fire", e Raul Severo em "Blue Cave".

Rebel Rock: Musicalmente, a banda bebe de fontes clássicas como Black Sabbath, Judas Priest, Saxon e Accept, mas com uma pegada atual. Como é equilibrar essa paixão pela velha escola do metal com a modernidade ?

Marlon: Exatamente! Como uma banda de Heavy Metal, temos os grandes expoentes do gênero como referências principais, mas também incorporamos uma pitada de outros estilos, como o Thrash Metal. Isso é interessante porque confere uma identidade diferente às composições. Não nos apegamos a rótulos. Às vezes, surge algo bem pesado, mas logo em seguida aparece um clima totalmente diferente, como acontece em "The Girl Who's Loved the Dead" e também em "Metal Wings", do primeiro álbum. Essa é uma das marcas da Epitaph, que conseguimos manter em nossos dois álbuns.

Rebel Rock: A banda possui mais de duas décadas de história no underground brasileiro. Olhando para trás, quais foram os maiores desafios para manter a Epitaph ativa e relevante na cena por tanto tempo?

César: O maior desafio é manter o foco, acreditar na banda e amar a música que fazemos. Infelizmente, as mudanças de músicos fazem parte da trajetória de uma banda, mas nunca houve brigas quando alguém saiu. Todos os que tocaram conosco ao longo desses anos contribuíram para as composições e fazem parte da história da Epitaph. Na minha opinião, para uma banda continuar viva, ela precisa estar fazendo shows, pois é isso que motiva e dá continuidade ao grupo. A Epitaph já fez mais de 150 shows, em ótimos locais e em outros nem tanto. Todos foram importantes para nós, pois é nos shows que encontramos nossos fãs e conquistamos novos admiradores. Sobrevivemos à pandemia e à enchente e, felizmente, continuamos na ativa, orgulhosos de nossos 26 anos de estrada.


Rebel Rock: Com o lançamento recente e os shows ao vivo — como a festa de lançamento em Porto Alegre —, quais são as expectativas da banda para levar a turnê de "Digital Screams" para outras regiões do país?

César: Nossa expectativa é sempre buscar novos shows, mas todos sabemos que a logística é complicada para uma banda independente. Todos temos famílias e empregos regulares, mas conseguimos adaptar nossas agendas pessoais para viabilizar as apresentações. Obviamente, estamos fazendo contatos para realizar shows em outras regiões, que serão anunciados oportunamente.

Rebel Rock: O mercado musical mudou drasticamente com o streaming e o consumo digital (um tema bem alinhado com o conceito do disco). Como a Epitaph lida com a divulgação e o alcance da sua música nas plataformas digitais hoje em dia?

César: As plataformas digitais estão aí e hoje são a principal forma de ouvir música. Eu, particularmente, não as utilizo. Também não abri mão de lançar o CD físico, ainda que em quantidade limitada. O CD foi lançado antes de o álbum chegar às plataformas digitais, e isso ajudou muito nas vendas, pois as pessoas não estão acostumadas com esse tipo de lançamento. Meu sonho seria ter uma tiragem em LP, mas estou muito feliz com o CD, pois ele coroou o trabalho de todos os envolvidos: a arte da capa, criada por Rômulo Dias; o trabalho gráfico, realizado por Juliana Louis; enfim, todos os profissionais que trabalharam para que um excelente material físico chegasse ao ouvinte final e pudesse ser apreciado. Não há comparação com a frieza das plataformas digitais! (risos). Conseguimos fazer com que o álbum chegasse a ouvintes da Grécia, do Japão e de alguns países da Europa, além de recebermos ótimas resenhas. Pretendemos continuar esse trabalho de divulgação. Aqui no Brasil, também estamos recebendo excelentes avaliações. Isso comprovou o que já sabíamos: tínhamos um ótimo material, que demonstrou nossa evolução como músicos e compositores.

Rebel Rock: Para os fãs de longa data e para quem está conhecendo a banda agora através de "Digital Screams", qual mensagem vocês gostariam de deixar sobre o atual momento da Epitaph e o futuro do Heavy Metal brasileiro?

César: A Epitaph já passou por várias fases do Metal. Vivemos a época em que as bandas faziam shows lotados por conta própria, enfrentamos períodos de baixa e sobrevivemos a tudo isso. Atualmente, o público do metal tradicional não se renovou muito, mas temos conquistado novos fãs que não conheciam a banda e que nem sequer eram nascidos quando começamos nossa trajetória. É importante fazer com que as novas gerações se conectem com o Metal, pois muitos ainda olham para o gênero com desconfiança, por acharem que é música de tiozões conservadores. Outro problema recorrente é a escassez de lugares que abrem espaço para a música autoral, muitas vezes oferecendo datas pouco favoráveis. Porém, temos bandas parceiras que trabalham conosco, como Sin Avenue, Fire Machine, Cãonibal e Volúpia, entre outras, que também têm seu público. A Epitaph tem produzido seus próprios shows em locais com bons equipamentos. Além disso, eu e Marlon organizamos o Metal for Pets, evento que já teve três edições realizadas, nas quais arrecadamos alimentos para cães e gatos. No ano que vem, teremos mais uma edição!

Rebel Rock: Obrigado pela entrevista! Deixe um recado para os fãs e os leitores do Rebel Rock!

César: Quero agradecer à Rebel Rock pelo espaço e por sempre apoiar nosso trabalho. Também quero convidar as pessoas a seguirem nossas redes sociais e a adquirirem o CD. O apoio de vocês é muito importante, pois a Epitaph é formada por músicos que amam o Heavy Metal e fazem música de verdade.
Um grande abraço a todos!



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - BRUCE DICKINSON

 


A carreira solo de BRUCE DICKINSON É uma das trajetórias mais audaciosas e respeitadas do heavy metal, marcada por uma busca incessante por autonomia criativa e pela recusa em ficar confinado ao som de sua banda principal. Após dar os primeiros passos solo de forma descontraída e voltada ao hard rock, sua caminhada tomou contornos verdadeiramente ambiciosos a partir de meados dos anos 1990. Nesse período de transição, o vocalista mergulhou em uma fase de intensa experimentação sonora, transitando por arranjos modernos, influências alternativas e sonoridades mais cruas — um movimento que demonstrou sua incrível versatilidade vocal, sua coragem artística e a disposição de desafiar as expectativas do público tradicional. O auge de sua jornada consolidou-se quando ele redefiniu sua parceria com o produtor e guitarrista Roy Z e com o parceiro de longa data Adrian Smith, retornando com força total às raízes do heavy metal mais denso, melódico e conceitual. Essa fase de ouro entregou composições monumentais fortemente inspiradas na literatura clássica, na poesia, na alquimia e na filosofia, provando que ele conseguia rivalizar com os maiores momentos da história do gênero. Mesmo após o seu retorno ao Iron Maiden, Bruce manteve seu trabalho individual vivo, autêntico e relevante ao longo de décadas, demonstrando que sua trajetória solo é um pilar essencial de sua identidade como artista e compositor. Confira nosso ranking!

Por Sergiomar Menezes

7º - SKUNKWORKS (1996)

Esse é lugar comum entre os fãs. Em um movimento audacioso e controverso, Bruce formou uma banda completa (chamada Skunkworks) com jovens músicos e lançou um álbum homônimo que mergulhou de cabeça no grunge e no rock alternativo. Produzido por Jack Endino (famoso por trabalhar com o Nirvana e Soundgarden), o disco apresenta guitarras secas, composições curtas e diretas, com uma estética visual totalmente desvinculada do universo do heavy metal clássico. Os destaques do álbum (se é que assim podemos chamá-los) incluem "Back from the Edge", "Solar Confinement","Octavia" e "Inertia", essa última famosa por ter sido incluída numa coletânea da falecida revista ShowBizz. Embora tenha sido incompreendido por grande parte dos fãs de metal na época de seu lançamento, SKUNKWORKS pode ser visto e ouvido como um trabalho de grande coragem artística. Ainda que isso não faça dele um grande trabalho. O álbum demonstrou a versatilidade vocal de Dickinson (o que não precisava ser provado) em registros mais contidos e melancólicos, além de ter sido uma etapa fundamental para que o vocalista derrapasse na pista antes de seu triunfal retorno ao metal pesado.

6º - TYRANNY OF SOULS (2005)

Lançado seis anos após o retorno de Bruce ao Iron Maiden, TYRANNY OF SOULS provou que sua carreira solo continuava viva. Gravado nos intervalos das turnês da banda principal e composto em parceria à distância com Roy Z, o álbum mantém a pegada pesada, melódica e teatral dos dois discos anteriores, mas um pouco aquém do que era esperado. Músicas como "Abduction", "Soul Intruders", "Kill Devil Hill" e a faixa-título demonstram o domínio absoluto de Bruce sobre o heavy metal moderno. O disco combina momentos de velocidade e peso com composições de grande sensibilidade melódica, como a balada "Navegate the Seas of Sun". "Tyranny of Souls" foi recebido com entusiasmo caloroso por imprensa e público, reafirmando que o hiato prolongado não havia diminuído em (quase) nada a química perfeita entre Dickinson e Roy Z.

5º - THE MANDRAKE PROJECT

Após quase duas décadas de espera, Bruce presenteou o mundo da música com THE MANDRAKE PROJECT, um trabalho conceitualmente ambicioso, acompanhado por uma série de histórias em quadrinhos. Produzido novamente por Roy Z, o álbum mergulha em temas de ciência, ocultismo, imortalidade e poder, apresentando uma rica variedade sonoras que transita entre o heavy metal moderno, o hard rock setentista, momentos progressivos e até flertes com trilhas sonoras cinematográficas. Destaques como "Afterglow of Ragnarok", "Rain on the Graves", "Many Doors to Hell" e a grandiosa "Eternity Has Failed" (composta por Dickinson originalmente para este projeto, mas que foi reivindicada pelo patrão Harris para o álbum 'The Book of Souls', tendo sido assim, lançado primeiro no trabalho do Maiden), mostram que a voz de Bruce permanece uma força da natureza. "The Mandrake Project" é um testemunho da energia inesgotável e da visão artística de um dos maiores ícones da história do rock/metal, reafirmando seu compromisso em criar arte relevante e impactante no século XXI.

4º - BALLS TO PICASSO (1994)


Após sua saída do Iron Maiden em 1993, Bruce buscou um som mais moderno e experimental para firmar sua identidade solo. Depois de engavetar um projeto inteiro por não se sentir satisfeito, ele se uniu ao talentoso guitarrista e produtor Roy Z e à banda Tribe of Gypsies. O resultado foi BALLS TO PICASSO, um disco que mistura o peso do heavy metal tradicional com elementos de rock alternativo, ritmos latinos e uma sonoridade típica dos anos 90, destacando-se em faixas como "Cyclops", "Hell No", "1000 Points of Light", "Sacred Cowboys", "Laughing in a Hiding Bush"" e a estrondosa "Tears of the Dragon". Essa última, em especial, tornou-se uma das composições mais aclamadas e emotivas de toda a carreira de Bruce, funcionando como um hino de libertação e recomeço pessoal. Embora o álbum apresente momentos de oscilação estilística devido ao período de transição, ele marcou o início da histórica e vitoriosa parceria com Roy Z, que definiria o futuro brilhante de sua carreira solo.

3º - TATTOOED MILLIONAIRE

Lançado enquanto Bruce ainda fazia parte do Iron Maiden, TATTOOED MILLIONAIRE nasceu quase por acaso, após o convite para escrever uma música para a trilha sonora do filme "A Hora do Pesadelo 5" (pra quem não sabe, "Bring Your Daughter to the Slaughter", que entrou em 'No Prayer for the Dying' do Maiden). Em parceria com o guitarrista Janick Gers, o álbum adota uma sonoridade bem distante do metal épico do Maiden, apostando em um hard rock direto, divertido e com forte apelo radiofônico. Faixas como a própria música-título, "Born in '58" e o cover de "All the Young Dudes" (Mott the Hoople) mostram um lado mais descontraído e pessoal do vocalista. Apesar da simplicidade dos arranjos em comparação aos trabalhos de sua banda principal, o disco foi recebido com entusiasmo pelo público e alcançou bom desempenho nas paradas. "Tattooed Millionaire" serviu como a primeira demonstração de independência criativa de Dickinson, provando que sua voz marcante e sua presença podiam brilhar em universos sonoros diferentes e mais acessíveis. E se era pra fazer algo igual a Donzela, pra que carreira solo, não é mesmo?

2º - ACCIDENT OF BIRTH (1997)

Considerado por muitos um dos grandes marcos do heavy metal dos anos 90 (confesso que fiquei muito na dúvida se esse álbum não deveria ter assumido o lugar mais alto do pódio), ACCIDENT OF BIRTH marcou o retorno definitivo de Bruce Dickinson ao som pesado e melódico. Reeditando a parceria perfeita com Roy Z na produção e nas guitarras, o álbum contou ainda com o reforço de luxo do guitarrista Adrian Smith (seu ex-colega de Iron Maiden). O resultado é uma tempestade de riffs poderosos, duelos memoráveis de guitarra e vocais avassaladores em clássicos como "Road to Hell", "Darkside of Aquarius", "The Magician" e a épica faixa-título. E como não citar a "balada" "Man of Sorrows", que ganhou até uma versão em espanhol chamada "Hombre Triste"? Com a icônica arte de capa criada por Derek Riggs (o criador de Eddie), o disco foi aclamado universalmente pela crítica e pelos fãs como um dos melhores trabalhos de metal da década. "Accident of Birth" resgatou a coroa de Bruce como um dos maiores vocalistas do gênero e pavimentou o caminho para o que viria a ser uma das fases mais criativas de sua vida.

1º - THE CHEMICAL WEDDING (1998)

Se o álbum anterior havia sido um triunfo, THE CHEMICAL WEDDING elevou ainda mais o nível e a criatividade de Bruce e consagrou-se como a obra-prima absoluta da carreira solo de Bruce Dickinson. Inspirado pela poesia e pelas gravuras de William Blake, além de temas ligados à alquimia e ao ocultismo, o disco apresenta uma sonoridade sombria, densa e com afinações de guitarra extremamente graves. Faixas esmagadoras como "King in Crimson", "The Tower", "Book of Thel" e a emocionante "Jerusalem", além da fantástica "Trumpets of Jehrico", mostram um nível de composição e ambição artística raros no heavy metal. A performance vocal de Bruce é monumental, combinando agressividade, alcance e interpretações dramáticas impecáveis, sustentadas pela produção impecável e pesada de Roy Z. "The Chemical Wedding" foi tão impactante que é frequentemente comparado aos grandes momentos do próprio Iron Maiden, provando que a carreira solo de Dickinson não era apenas um projeto paralelo, mas uma força criativa gigante e autônoma.









terça-feira, 20 de outubro de 2026

THE DAMN TRUTH - THE DAMN TRUTH (2026)


 

THE DAMN TRUTH
THE DAMN TRUTH
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

O Canadá é um país que já nos presenteou com vários grandes nomes do Rock/Metal: Rush, Triump,. Lee Aaron, Exciter, Anvil, Brian Adams, April Wine, para citarmos alguns apenas. E é de lá que vem esta grata surpresa, o The Damn Truth. A banda foi formada em 2009, em Montreal, e atualmente conta com Lee-la Baum (vocal principal/guitarra), Tom Shemer (guitarra solo/vocal), PY Letellier (baixo/vocal) e Dave Traina (bateria/vocal).

Um desavisado pegando as fotos da banda poderá achar que é uma banda dos anos setenta, pois o visual do quarteto é totalmente influenciado pela década citada, e o som também segue esta linha, porém totalmente oxigenado e sem cheirar a naftalina.

O álbum "The Damn Truth" é uma coletânea de onze canções sólidas e muito bem executadas. A abertura com “Be Somebody”, onde somos logo fisgados pelo excelente vocal de Lee-la e pelos riffs e solos de Shemer . A quarta faixa “If I Don’t Make It Home”, é uma "power ballad" com uma pegada rock que, certamente, não vai decepcionar. “All Night Long” começa com um riff de guitarra vibrante que dá o tom desta faixa roqueira. A faixa conta com um trabalho de guitarra excepcional do início ao fim. A última música de “The Damn Truth” é “The Dying Dove”. Lee-la Baum canta e interpreta as letras de forma emocional e sincera, impossível não curtir o vocal da moça, pois ela entrega tudo e mais um pouco na sua performance e faz isso com total convicção.

Destaquei apenas quatro músicas, mas o álbum num todo é de altíssimo nível. Se você curte a onda do retrô-rock, como Rival Sons, Blue Pills, Lucifer e outros, vai curtir com certeza o álbum do The Damn Truth. Lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




ASIA - LIVE IN ENGLAND (2026)


 

ASIA
LIVE IN ENGLAND
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Em 1981, dois ex-membros do gigante do Rock Progressivo, o Yes, o guitarrista Steve Howe e o tecladista Geoff Downes, formaram um novo supergrupo junto com outros dois músicos que já haviam se destacado na cena do rock progressivo dos anos setenta, o cantor e baixista John Wetton (ex-King Crimson, ex-Uriah Heep e ex-UK) e o baterista Carl Palmer (ex-Atomic Rooster e ex-ELP). Em 1982, eles gravaram com o nome de Asia, seu álbum de estreia altamente bem-sucedido. Passados quarenta e três anos, o único membro fundador remanescente da banda, Geoff Downes, junto com três músicos mais jovens, tocaram o álbum inteiro ao vivo em Sussex, na Inglaterra, para uma seleta plateia.

‘Live In England’ deixa claro de uma vez por todas por que o álbum de estreia do Asia foi tão enormemente bem-sucedido: todas as composições daquele álbum eram músicas incrivelmente boas. E o novo Asia, além de Downes, composto por John Mitchell (guitarra), Harry Whitley (baixo e vocais) e Virgil Donati (bateria), toca os originais de maneira muito competente. Especialmente Whitley é uma excelente escolha para substituir o saudoso e grande John Wetton.

Os sucessos “Heat Of The Moment”, “Only Time Will Tell” (os jovens a mais tempo lembram bem dessa na propaganda dos cigarros Hollywood, lá no início dos anos 80) e “Here Comes The Feeling”, hinos do rock progressivo da época, recebem uma performance muito boa, com uma pegada bem Rock e rejuvenescidas..

As outras composições originais como ”Time Again”, “Wildest Dreams”, "Without You” e “Cutting It Fine”, juntamente com as faixas bônus “Ride Easy” e “The Heat Goes On”, são tocadas maravilhosamente, assim como o grande destaque “Sole Survivor”. A boa notícia para os fãs é que o Asia fez apresentações no mesmo formato, tocando com esta formação outros dois outros álbuns originais, o segundo e o terceiro da discografia –‘Alpha’ e ‘Astra’ executados na íntegra e serão lançados em breve. Resta aguardar os lançamentos, e enquanto aguardamos, vamos aproveitar a audição de “Live In England”, que teve seu lançamento nacional via Shinigami Records.

José Henrique Godoy




segunda-feira, 19 de outubro de 2026

THIN LIZZY - JOHNNY THE FOX 50 ANOS


 ESCRITO COMO SE NÃO HOUVESSE TEMPO A PERDER: OS 50 ANOS DE JOHNNY THE FOX

Do groove improvável de “Jimmy the Weed” à dor visceral de “Borderline”, o álbum onde o líder do Thin Lizzy tirou a armadura e fez a trilha sonora de nossas vidas

Por Fernando Aguiar

Escrito por um Phil Lynott doente e com pressa, gravado no meio de brigas e lançado à sombra de Jailbreak, o sétimo disco do Thin Lizzy completa meio século como o irmão “menos famoso”, e talvez o mais humano, da fase clássica da banda.

Para entender, precisa voltar para o começo de 1976. O Thin Lizzy tinha acabado de lançar "Jailbreak", em março, e pela primeira vez a coisa estava dando certo de verdade nos Estados Unidos. “The Boys Are Back in Town” tocava em todo lugar, a banda vinha abrindo para Aerosmith e Rush, e uma turnê americana com o Rainbow de Ritchie Blackmore estava marcada. Era o momento de virar gente grande na América. E foi exatamente aí que Phil Lynott caiu de cama com hepatite. A turnê foi cancelada, Phil voltou para o Reino Unido em junho e foi parar num hospital em Manchester.

Qualquer pessoa normal teria usado aquele tempo para descansar. Phil pegou papel e caneta e começou a escrever. Boa parte do que viria a ser Johnny the Fox saiu dali, de um sujeito doente, frustrado por ver o melhor momento da carreira escorrendo pelos dedos e decidido a não deixar a banda esfriar. Eu sempre acho que dá para ouvir isso no disco. Tem uma urgência ali, uma inquietação, que Jailbreak não tinha.

Em agosto, ainda se recuperando, Phil se juntou a Scott Gorham, Brian Robertson e Brian Downey para gravar, de novo com o produtor John Alcock, o mesmo de Jailbreak. As sessões começaram no Musicland, em Munique (que tinha a vantagem dos impostos tanto quanto a do som), mas logo voltaram para o Ramport, o estúdio do The Who em Londres, onde o disco anterior tinha sido feito.

E não foi um mês tranquilo. Ninguém estava satisfeito com o processo, conseguir um som de bateria decente virou novela, Phil ainda estava terminando de compor as letras e a banda brigava sobre o rumo musical. “Massacre”, segundo o próprio Alcock, foi escrita ali mesmo, no estúdio.


O atrito mais famoso, claro, foi entre Phil e Robertson. Quando Lynott apresentou “Don’t Believe a Word” pela primeira vez, ela era um blues lento, de doze compassos. Robbo, com a delicadeza que era a marca registrada dele, disse que aquilo era uma porcaria (a palavra original era bem menos educada). Phil ficou ofendido e simplesmente sumiu por alguns dias. Nesse meio tempo, Robertson se arrependeu de ter pegado pesado e foi com Downey retrabalhar a música: o baterista criou aquele shuffle acelerado, Robbo bolou o riff, e quando Phil voltou, gostou do que ouviu. A faixa saiu creditada só a ele, o que deixou Robertson irritado por anos. E a versão lenta não morreu: Phil a gravou com Gary Moore em Back on the Streets, de 1978.

Essa história resume bem o Thin Lizzy daquela época. Uma banda em que o conflito, quando dava certo, virava música boa.

Johnny the Fox chegou às lojas em 16 de outubro de 1976, apenas sete meses depois de Jailbreak. A capa, mais uma vez de Jim Fitzpatrick, tem aquela moldura de nós celtas que é uma das mais bonitas da discografia, e com um detalhe curioso: Fitzpatrick teve que entregar a arte antes de o disco ter nome.

“Johnny” abre o disco com peso e drama, Phil fazendo o que sabia como ninguém, que era transformar um personagem de rua em figura de lenda. “Rocky” vem na sequência, cheia de marra, e segundo Robertson foi escrita pensando nele. Faz todo sentido: é uma música sobre um rockstar convencido, e se tinha alguém naquela banda que se encaixava no perfil, era o escocês. Depois vem “Borderline”, que vou deixar para o final, pois essa merece espaço próprio. Aí “Don’t Believe a Word”, dois minutos e pouco de perfeição, provavelmente a melhor letra de “não confie em mim” que alguém já escreveu no hard rock. E fechando o lado, “Fool’s Gold”, com Phil voltando ao tema da Irlanda e da emigração, uma faixa grandiosa, que mostra o lado poeta e meio historiador dele.

Já “Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed” é o ponto fora da curva de toda a carreira do Lizzy: um groove meio funk, com metais, que soa mais como trilha de filme policial dos anos 70 do que como hard rock irlandês. Na época, muita gente torceu o nariz. Hoje, a faixa foi parar na coletânea Ultimate Breaks and Beats, aquela que os DJs de hip-hop usavam para garimpar batidas, o que diz muito sobre o ouvido de Downey e Gorham, que assinam a música junto com Phil.

“Old Flame” é o Phil cantor de rua, folk, com aquela melodia que gruda e uma doçura que só ele conseguia colocar sem soar meloso. “Massacre” é a pancada do disco, com as guitarras gêmeas a toda e um clima de urgência que justifica quem diz que Johnny the Fox é um dos álbuns mais pesados do Lizzy nos anos 70. “Sweet Marie”, parceria com Gorham, é uma balada linda que merecia ser muito mais lembrada.

E fechando, “Boogie Woogie Dance”, que costuma levar pancada de muita gente. Já li mais de uma resenha tratando a faixa como enchimento. Eu vejo de outro jeito. Depois de tanto drama, de personagens marginais, de emigração, de massacre e de coração partido, Phil termina tudo chamando a galera para a pista. É rock’n’roll de bar, sem pretensão nenhuma, com aquele balanço que o Lizzy tirava de letra. E tem algo de muito Phil nisso: o cara que escreveu o disco doente, numa cama de hospital, encerrando com um convite para dançar.


Comercialmente, o disco foi bem no Reino Unido: chegou ao 11º lugar e ganhou disco de ouro. “Don’t Believe a Word” saiu como single em novembro e bateu no 12º lugar por lá, e no segundo na Irlanda. Nos Estados Unidos, porém, o embalo de Jailbreak simplesmente não se repetiu. A turnê cancelada tinha custado caro.

E o azar continuou. Depois da turnê britânica de outubro e novembro (com uma banda americana chamada Clover abrindo, liderada por um tal de Huey Lewis), Robertson machucou feio a mão com uma garrafa numa briga de bar, atingindo artéria e nervo. A turnê americana foi adiada para janeiro de 1977, e quem segurou a guitarra no lugar dele foi Gary Moore. Johnny the Fox acabou sendo o último disco gravado com Robbo como membro pleno da banda do começo ao fim.

Ou seja: se o álbum não teve o mesmo tamanho de Jailbreak, foi por doença, por briga, por mão cortada e por timing. Nunca por falta de música. Ele costuma ser tratado como “o disco entre Jailbreak e Bad Reputation”, e isso sempre me incomodou. Para mim, Johnny the Fox é o Thin Lizzy no seu momento mais completo: pesado, variado, ousado, irlandês até a alma e liderado por um cara que tinha acabado de levar um susto com a própria saúde e escrevia como se não tivesse tempo a perder. Olhando hoje, sabendo como a história de Phil terminou, essa pressa fica ainda mais dolorida.


E agora, ela, a pérola escondida no meio da discografia da banda, que entre a marra de “Rocky” e a urgência de “Don’t Believe a Word”, “Borderline” é aquele tipo de música que você descobre meio sem querer e nunca mais esquece. Composta por Phil em parceria com Brian Robertson, é uma balada de coração partido com cheiro de country, guitarras chorosas e Lynott cantando como um cara sozinho no balcão de um bar, tentando entender onde foi que perdeu a mulher que amava. Não tem refrão para estádio, não tem riff para camiseta. Tem só verdade. Para mim, ela divide com “Still in Love with You” o posto de balada mais bonita e mais íntima que o Thin Lizzy já gravou. São duas músicas irmãs: as duas falam de um amor que acabou, mas que se recusa a ir embora, e nas duas Phil, o durão de jaqueta de couro, o rebelde de Dublin, tira a armadura e se mostra inteiro, frágil, sem pose nenhuma. A diferença é que “Still in Love with You” ganhou o mundo nos palcos, enquanto “Borderline” ficou guardada. Até onde se sabe, o Lizzy nunca a tocou ao vivo. O único registro dela fora do disco é uma aparição de Phil no Me and My Music, programa da RTÉ, a TV irlandesa, gravada em 15 de setembro de 1976, um mês antes de Johnny the Fox chegar às lojas, e exibida só em 2 de janeiro de 1977. Phil aparece sozinho, sem a banda, cantando em playback. Só ele, a música e aquela cara de quem está contando um segredo. Foi em casa, para os irlandeses, que ele apresentou “Borderline” pela primeira e única vez. Durante décadas ela ficou assim, um daqueles lados B que a gente mostra para os amigos com cuidado, quase como quem divide uma coisa íntima. Até que, em 16 de dezembro de 2022, no show beneficente Helping Hands, em Los Angeles, o Metallica, como de costume apresentou um set acústico e fez o que nem o próprio Lizzy tinha feito: tocou “Borderline” ao vivo. James Hetfield, que meses antes tinha entrado com o pedido de divórcio, cantou com aquela voz gasta de quem estava vivendo cada linha, e no final agradeceu a Phil Lynott por ter escrito uma música sobre a vida dele. Quando ouvi aquilo, eu entendi na hora. Porque é exatamente isso que “Borderline” é para mim também: a letra da minha vida. Tem música que a gente gosta, e tem música que parece ter sido escrita olhando por cima do nosso ombro, sabendo coisas que a gente nunca contou para ninguém. Phil não me conheceu, e mesmo se estivesse vivo a probabilidade de isso acontecer também seria mínima, e mesmo assim deixou ali, em quatro minutos e meio de um disco de 1976, tudo aquilo que eu um dia senti e não soube dizer. 

Cinquenta anos depois, uma canção que ele só cantou uma vez, em playback, numa TV irlandesa, ainda consegue colocar em palavras o sentimento de um headbanger do outro lado do planeta e a de outro que lota estádios no mundo inteiro. Obrigado, Phil por ter escrito a música da vida dele, e da minha também.