terça-feira, 28 de abril de 2026

ELEGANT WEAPONS - EVOLUTION (2026)

 


ELEGANT WEAPONS
EVOLUTION 
Exciter Records - Importado

Há discos que você simplesmente escuta — e há aqueles que te puxam para dentro, quase como uma experiência completa. Evolution, do Elegant Weapons, pertence claramente à segunda categoria. Mais do que um simples sucessor de "Horns For A Halo", o álbum soa como a afirmação definitiva de identidade de uma banda que, até pouco tempo atrás, ainda buscava seu próprio equilíbrio entre nomes gigantes e expectativas igualmente grandes. Desde o início, fica evidente que algo mudou. Se o primeiro álbum carregava um certo senso de urgência, como se tivesse sido feito por pessoas que se conheceram em um churrasco e foram direto para o estúdio, aqui há um sentimento de construção consciente. Tudo soa mais orgânico, mais coeso e, acima de tudo, com espírito de banda. Muito disso passa pela química consolidada entre Richie Faulkner e Ronnie Romero, que agora trabalham de forma muito mais próxima.

É impossível falar de Evolution sem destacar a evolução de Romero. Sua performance vocal não apenas impressiona, mas eleva o material a outro patamar. Diferente do primeiro trabalho, no qual precisou se adaptar a linhas melódicas já existentes, desta vez ele participou do processo desde a base, moldando melodias e explorando nuances. O resultado é um vocal mais expressivo, versátil e emocionalmente conectado às composições, brilhando tanto nas linhas melódicas de “Come Back To Me” quanto na agressividade carregada de atitude em “Holy Roller”. Musicalmente, o álbum evita a armadilha da ostentação técnica gratuita, apostando em músicas que respiram e dão espaço para cada instrumento cumprir seu papel. Há uma clara reverência ao passado, com ecos de Black Sabbath, Rainbow, Deep Purple e Whitesnake, mas tudo é filtrado por uma abordagem moderna e consciente. Não se trata de nostalgia vazia, mas de influência bem assimilada com uma dose cavalar de melodias cativantes.

Richie Faulkner, por sua vez, reafirma sua força como compositor de mão cheia. Seus riffs são menos sobre velocidade e mais sobre “peso” e groove, algo que fica nítido em faixas como “Generation Me” e “The Devil Calls”, que equilibram a crueza clássica com uma pegada contemporânea. Da mesma forma, “Bridges Burn”, mostra como o grupo consegue criar impacto sem recorrer a excessos desnecessários. Um dos momentos mais marcantes do álbum é a dobradinha “Rupture” e “Mercy Of The Fallen”. A primeira, instrumental, carrega uma carga emocional forte ao refletir a experiência pessoal de Faulkner com seu problema cardíaco. Não é apenas uma faixa — é uma conexão sonora impactante.

Ainda assim, é importante notar que Evolution busca se desenvolver de forma gradual, quase como um disco “das antigas”, feito para ser apreciado na íntegra. Essa característica pode afastar quem procura um impacto instantâneo, mas recompensa generosamente quem se permite na experiência completa. A entrada de Dave Rimmer (baixo) e Christopher Williams (bateria) também faz uma diferença crucial, entregando uma base rítmica mais sólida e integrada que reforça a sensação de unidade.

No fim das contas, o trabalho faz jus ao nome que carrega: não propõe uma revolução sonora, mas representa um passo firme e consciente na construção da identidade legítima do Elegant Weapons.

William Ribas




BLACK SWAN - PARALYZED (2026)

 


BLACK SWAN
PARALYZED
Shinigami Records/Frontiers Music srl. - Nacional

Super grupos são sempre uma atração à parte no mundo do Rock. E o Black Swan é um dos melhores supergrupos de Hard Rock da atualidade. O quarteto formado por Rob McAuley (vocal), Reb Beach (guitarras), Jeff Pilson (baixo) e Matt Starr (bateria) apresenta seu terceiro trabalho, lançado agora em fevereiro de 2026 com o título de “Paralyzed”.

Após uma audição completa de “Paralyzed”, temos a impressão que o Black Swan apostou bastante desta vez no nome dos músicos envolvidos, e na base do que já foi feito nos seus ótimos dois primeiros álbuns. Se fosse no futebol, poderíamos dizer que o quarteto “jogou com o regulamento embaixo do braço”. Ou seja, seguiu a cartilha para fazer um bom disco de Hard Rock. Porém sem arriscar muito.

Apesar disso, “Paralyzed” nem de perto é um disco sem atrativos. “When The Cold Wind Blows”, a faixa de abertura, tem um riff fantástico de Reb Beach. Acelerada, dá um toque “metálico” a esta faixa, enquanto Robin McAulin entrega toda a sua classe aos vocais. Sem dúvida um dos melhores vocalistas do estilo. “Death of Me”, um hardão mais festeiro, com refrão pegajoso. “Different Kind Of Woman”, com excelente introdução do baterista Matt Starr tem um que de Van Halen fase Dave Lee Roth. De longe a minha faixa preferida.

“If Was a King” retorna pesadíssima, com um riff soturno e sombrio. Uma das melhores faixas do álbum. “Shakedown” novamente volta com o clima mais festivo, porém dessa vez previsível. Em “The Fire And The Flame” Reb Beach toca fogo no ambiente, com um riff sensacional que lembra bastante o Dokken, banda que ele fez parte junto a Jeff Pilson, entre 1999/2000. “I´m Ready” é a balada do álbum que se por um lado não compromete o trabalho, é uma faixa dispensável. A faixa título também, previsível, e meio que se perde no meio das demais, enquanto “Carry On” é uma faixa ok, porém relembra uma dezena de músicas já feitas inclusive pelo próprio Black Swan.

“Battered And Bruised” e “What The Future Holds” são as duas faixas que fecham o trabalho, ambas cadenciadas e com groove. No geral “Paralyzed” é um bom álbum de Hard Rock e vai agradar a todos os fãs do estilo, porém, dos três lançamentos do Black Swan, este é o mais fraco. Mas lembrando que ser o “mais fraco” não quer dizer que seja um álbum que não vale a pena, ainda mais quando foi concebido por este time de músicos. Lançamento nacional Shinigami Records.

José Henrique Godoy




AT THE GATES - THE GHOST OF A FUTURE DEAD (2026)

 


AT THE GATES
THE GHOST OF A FUTURE DEAD
Century Media - Importado

O fã do At the Gates ao ouvir os primeiros minutos do álbum The Ghost of a Future Dead, já fica com a certeza de estar diante de uma obra prima fiel ao estilo que consagrou os suecos com o chamado “som de Gotemburgo” ao lado de nomes como Dark Tranquility e In Flames. "The Fever Mask" traz consigo tudo que se espera de uma faixa de abertura do At the Gates sonoricamente e liricamente, e a euforia não é gratuita, já que temos aqui praticamente a formação clássica da banda depois que o guitarrista Anders Björler retornou em 2022. Esse foi o primeiro álbum composto com sua colaboração assinando todas as músicas junto do baixista Tomas Bjöeler e do nosso agora saudoso Tomas Lindberg, é praticamente a formação do primeiro álbum lá em 1992. 

Mas... não tem como falarmos desse álbum sem abordarmos tudo que envolveu seu lançamento, o querido vocalista “Tompa” foi diagnosticado com câncer ainda em 2023 e todo o processo de composição e gravação de The Ghost of a Future Dead se deu em meio ao tratamento do vocalista, tido como uma lenda no underground mundial. Ele gravou todos os vocais numa demo de pré-produção, e são exatamente esses vocais que foram colocados na mixagem final do álbum, que manteve-se com a sequência das músicas, o título, e todas as artes assim como a mix final definidas por ele antes de falecer em 2025 com apenas 52 anos. 

Encontramos aqui ao longo das 12 faixas desse álbum, todos os elementos que se transformaram na marca registrada da banda: velocidade, agressividade aliada a belas melodias de guitarra, vocais raivosos e o tradicional peso sueco nas bases do álbum do início ao fim. Fica difícil destacar alguma faixa, pois todas soam muito coesas e num nível altíssimo de death metal, chamado por vezes de Death Metal Melódico, mas nunca soando moderno. Se estivéssemos na época que se dava nota pros álbuns, esse estaria no nível da nota 10 sem sombra de dúvidas! Para mim, a faixa "Parasitical Hive", soa do meio para o fim, como uma marcha fúnebre, e, já antecedendo tristeza num clima de despedida, temos a linda instrumental "Förgangligheten". "The Unfathomable" é aquela faixa pra se ouvir o dia inteiro no repeat, e representa a síntese desse oitavo álbum dos precursores de Gotemburgo.

The Ghost of a Future Dead tem o brilhantismo de um "Slaughter of the Soul"? Talvez não, mas entra pra discografia da banda também como um clássico absoluto? Certamente sim! É a despedida de nosso querido “Tompa” em grande estilo, numa obra simplesmente perfeita, transformada agora, numa verdadeira homenagem póstuma ao vocalista.

Márcio Jameson 




PARTY ON WACKEN 2026 (EDIÇÃO BRASIL) - 18/04/2026 - AUDIO CLUB - SÃO PAULO/SP

 


PARTY ON WACKEN 2026 (EDIÇÃO BRASIL)
18/04/2026
AUDIO CLUB - SÃO PAULO/SP

Texto: Fernando Aguiar
Fotos: Alessandra Rosato (Metal na Lata)

Trinta e cinco anos. Essa é a marca que o Wacken Open Air chegou em 2026, e a pequena vila alemã que todo metalhead sonha em pisar pelo menos uma vez na vida escolheu celebrar o aniversário de um jeito inédito: espalhando o espírito do festival pelos quatro cantos do mundo ao mesmo tempo. Trinta e cinco países, um único dia e o lema "One World, One Stage" deixou de ser retórica bonita e virou realidade no último dia 18 de abril.

O Brasil, claro, não ficou de fora, já que a cena nacional tem uma linda relação com o Wacken construída há mais de duas décadas, e esse peso histórico fez ainda mais sentido quando o Bangers Open Air, com produção da HonorSounds, anunciou a edição nacional na Audio, em São Paulo. Quatro bandas. Quatro capítulos diferentes da história do metal extremo brasileiro.


The Mist

Abrir o Party On Wacken com o “The Mist” foi uma declaração de intenções. Não existe cena metal extremo brasileiro sem passar por Belo Horizonte nos anos 80, e não existe metal extremo mineiro sem passar pelo nome que estava naquele palco pontualmente às 15h30.

E para quem não conhece a banda, aqui vai uma breve introdução: A banda surgiu em 1988 a partir dos remanescentes do “Mayhem mineiro”, não, não é aquele o grupo norueguês, mas uma banda local de BH que logo ganhou um ingrediente que mudaria tudo: Vladimir Korg, vocalista que havia deixado o Chakal para se juntar ao grupo. Quem acompanha a cena sabe o peso disso. O Chakal é uma das bandas mais importantes do underground brasileiro fazendo parte da mesma geração que o Sepultura e o Sarcófago, que fora lançado pela Cogumelo Records e que foi elogiado até pela Kerrang! inglesa na época. Korg era o frontman daquele projeto antes de migrar para a The Mist e gravar Phantasmagoria (1989), o debut que colocou a banda no mapa. Mais tarde ele ainda retornaria ao Chakal por mais de uma década antes de se reunir ao The Mist novamente. Um vocalista com duas histórias majestosas nas costas e que merece todo nosso respeito.

O set refletiu bem a trajetória da banda: após a intro, a abertura com "The Tempest" estabeleceu o clima imediatamente: thrash arredio, pesado e com muita agressividade, com aquela atmosfera sombria e literária que sempre diferenciou o The Mist do resto da cena. "Curse" e "Peter Pan" vieram na sequência, essa última um dos momentos mais característicos do disco The Hangman Tree (1991), álbum conceitual que flertava com clássicos da literatura como Peter Pan e O Mágico de Oz de um jeito que nenhuma outra banda de metal extremo nacional ousava fazer. "Over My Dead Body" e "Nambers" mantiveram o ritmo antes de "The Enemy" e "The Hangman" aprofundarem o mergulho no catálogo. "The Dark Side" e "Geppetto" sustentaram a intensidade, com "My Inner Monster" que é o single mais recente, prova de que a banda não está operando só no modo nostalgia e assim fechando o set principal com uma energia de quem ainda tem algo novo a dizer.

O encore com "Lungs" foi o encerramento perfeito: sair de cena num pico, deixar o público ainda mais ansioso antes das três bandas que viriam depois. Uma aula de Thrash Metal.



The Troops of Doom

Se o The Mist abriu o evento com classe e história, o “The Troops of Doom” chegou para destruir tudo que restou de pé. Sem exagero: foi o melhor show da “matinê” para este que vos escreve. Ponto.
Jairo "Tormentor" Guedz não precisa de apresentação pra quem de fato vive o metal extremo brasileiro. O The Troops of Doom é o projeto com o qual ele decidiu honrar o passado sem romantizá-lo: death/thrash metal primitivo, pesado, sem enfeite, com Hellhammer e Celtic Frost no sangue e o Sepultura mais selvagem como coluna vertebral.

O show começou com "God of Thunder", o cover do Kiss na versão deles, que soou menos como homenagem e mais como aviso de que aquilo ali ia doer. E doeu. "Act I – The Devil's Tail" abriu o set oficial e o pit já começou a se formar antes do primeiro minuto acabar. Com "Chapels of the Unholy", "Far from Your God" a banda não dava espaço pra respirar, e o público não queria respirar, queríamos o caos e foi justamente isso que a tropa de Jairo entregou.

Aí veio "Bestial Devastation". Uma das músicas que o próprio Tormentor ajudou a criar décadas atrás, gravada com aquele Sepultura primitivo, que ainda não tinha nome grande, que ainda era só um bando de adolescentes de Belo Horizonte com raiva e talento sobrando. Ouvir aquilo naquele contexto, tocado por um dos seus criadores originais, com a produção crua da The Troops of Doom dando ao riff toda a brutalidade que ele merece, isso não tem preço. E NÓS lá no pit agradecemos da forma devida.

"Act II – The Monarch", "The Rise of Heresy" e "Denied Divinity" sustentaram a pressão no nível máximo antes de "Morbid Visions", sim, mais Sepultura, mais caos pra continuar derrubando a casa. "The Confessional", "Dethroned Messiah" e "Dawn of Mephisto" foram o corredor que levou ao encerramento, e aí chegou O momento.

"Troops of Doom". A música que dá nome à banda. Um dos riffs mais icônicos que o metal extremo brasileiro já produziu, do Morbid Visions (1986), obra que praticamente inventou o death metal nacional. Quando aquelas primeiras notas abriram, a Audio virou outra coisa. O moshpit que se formou ali foi daqueles que você não esquece, daqueles que você não consegue não entrar, mesmo que não possa. Este que vos escreve, claro, não ficou de fora. Seria impossível.

O The Troops of Doom não foi só o melhor show da matinê. Foi um lembrete físico, visceral, do porquê a gente ainda vem pra esses shows depois de décadas. Há momentos em que o metal para de ser entretenimento e vira experiência. Esse foi um deles em que tive o privilégio de presenciar. Que momento, meus amigos. Que momento!




Korzus

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o estado atual do “Korzus”, o show do dia 18 enterrou essa dúvida de vez. Foi um arregaço do começo ao fim e carregou um peso extra que foi além do setlist.

A banda entrou com "Dracula - The Beginning", o tema sombrio do compositor polonês Wojciech Kilar que virou introdução clássica dos shows da banda, preparando o clima antes de "Guilty Silence" explodir e transformar o local em um pandemônio. A partir daí, a pista não parou mais. "Truth", "Raise Your Soul", "Catimba" com aquele thrash paulistano na veia, sem cerimônia, sem pausa pra recuperar o fôlego, até porque o público não queria pausa de qualquer forma.

Mas o que deu ao show uma dimensão especial além da brutalidade foi o contexto: aquela noite marcou a estreia ao vivo da mais nova integrante na formação, ninguém menos que Jéssica Falchi, ex-Nervosa, sinalizando uma nova fase da banda. Mais de quarenta anos de história, e o Korzus ainda está em movimento, ainda está se reinventando, ainda está com fome e isso diz muito sobre o caráter da banda.

No meio do set veio "No Light Within", estreia ao vivo de material novo e que caiu muito bem. "Agony" e "Victim of Progress" colocaram mais querosene na fogueira antes de um dos momentos mais divertidos da noite: Marcello Pompeu chamou a convidada da noite, ninguém menos que Mayara Puertas, pois houve um imprevisto com ela e acabou entrando atrasada e por isso tocaram “Vampiro” antes, que foi muito bem recebida, cantada e agitada por quem estava ali na pista. Quando ela chegou, "Discipline of Hate" ganhou a participação especial dela e ficou ainda mais pesada. O tipo de imprevisto que só funciona quando a banda tem sangue frio e anos de estrada, e o Korzus tem os dois de sobra.
"Never Die", "What Are You Looking For" e "Guerreiros do Metal" foram empurrando a multidão em direção ao inevitável. E então chegou "Correria".

Dizer que a Audio foi à loucura é pouco. O mosh of death que se abriu ali foi um daqueles que tomam conta de toda a pista e não teve como ficar parado, não tem como não gritar junto. A música foi "berrada" coletivamente por quem estava na casa, num daqueles coros que só acontecem quando uma faixa realmente pertence às pessoas tanto quanto à banda que a gravou. Foi o encerramento apoteótico que o show merecia e que a noite toda estava pedindo.

E no centro de tudo isso estava Marcello Pompeu. Sessenta anos, mais de quatro décadas nessa estrada, e com uma performance absurda (voz, presença, energia, tudo no limite máximo). Não é sobre resistir ao tempo. É sobre provar que o tempo não mudou o que importa. Pompeu mostrou naquele palco que ainda tem muita lenha pra queimar, e o público sentiu cada segundo disso. Mais uma aula de thrash metal que certamente ficará na memória de quem presenciou tal momento.


Krisiun

A da banda história começa em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, em 1990. Três irmãos, Alex Camargo no vocal e baixo, Moyses Kolesne na guitarra e Max Kolesne na bateria, que herdaram o amor pelo metal do irmão mais velho, cresceram ouvindo Black Sabbath e Dio, e decidiram que iam tocar o metal mais brutal que conseguissem produzir. Sem grana pra equipamento de qualidade, sem estrutura, sem apoio de gravadora. Só fita demo, correio, fanzine e uma vontade de aço. Em 1995 saiu o debut Black Force Domain e o mundo do death metal nunca mais foi o mesmo. A partir daí vieram mais de uma dúzia de álbuns, turnês ao lado de Kreator, Cannibal Corpse e Dimmu Borgir, reconhecimento internacional que pouquíssimas bandas brasileiras de metal extremo conseguiram alcançar. O Krisiun não é só a maior banda de death metal do Brasil, é uma das maiores do planeta, e três décadas de estrada provam isso com uma consistência que poucos conseguem sustentar.

E é exatamente essa consistência que impressiona num show ao vivo da banda. O Krisiun não é uma banda que se apoia na nostalgia ou no legado pra segurar um público. É uma máquina que funciona no limite toda vez que sobe num palco e quem esteve na Audio sentiu isso na pele.

Depois da intro que preparou o terreno, "Kings of Killing" abriu o set e aqueles primeiros segundos já disseram tudo. A velocidade do Krisiun ao vivo é uma coisa que você não consegue preparar antes de experimentar, Max Kolesne na bateria parece fisicamente impossível, o tipo de performance que faz você parar no meio do mosh só pra olhar e confirmar se ele é realmente humano. Moyses Kolesne na guitarra constroí riffs com uma precisão cirúrgica e brutalidade que só ele consegue. E Alex Camargo, no vocal e no baixo ao mesmo tempo, com aquele gutural que carrega mais de trinta anos de estrada sem soar desgastado.

"Scourge of the Enthroned", "Combustion Inferno" e "Vicious Wrath" empilharam pressão sobre pressão antes de "Hatred Inherit" e "Necronomical" do Mortem Solis (2022), prova de que a banda não está no modo preservação de legado apenas para colocarem o pit em estado de colapso total. "Blood of Lions", "Serpent Messiah" e "Messiah's Abomination" formaram um bloco que não deu um segundo sequer de respiro. A pista não parou, o público não parou, a banda não parou. "Descending Abomination" preparou o terreno pra um drum solo de Max que foi parte aula de técnica, parte exibição de força bruta e quando o guitar solo de Moyses veio na sequência, a Audio ficou em silêncio respeitoso por alguns instantes antes de explodir novamente.

"The Will to Potency" e "Black Force Domain" do debut de 1995, um hino que carrega mais de trinta anos de história fechou o set com a autoridade de quem sabe exatamente onde colocar a última palavra.
A galera agitou até a última nota. Não tinha como ser diferente. Você não assiste ao Krisiun ao vivo e sobrevive a ele, você sai destruído e querendo mais.



Essa noite na Áudio foi o tipo de encontro que fica registrado, não apenas para a imprensa em geral, mas na memória de cada um que esteve lá, especialmente para este que vos escreve, onde foi a primeira vez em que vi as 4 bandas. Então foi uma tarde/noite muito mais que especial e que ficará na memória eternamente.

Thrash Ti’ll Death \m/...





GUNS N' ROSES - 18/04/2026 - ARENA CASTELÃO - FORTALEZA/CE

 


GUNS N' ROSES
18/04/2026
ARENA CASTELÃO - FORTALEZA/CE

Texto: Thiago Rodrigues
Fotos: Divulgação

No último dia 18 de abril, o Guns N’ Roses marcou a vida de milhares de cearenses presentes na Arena Castelão. Um dia marcado por emoções, nostalgia, muita chuva e, principalmente, o resgate de grandes shows na capital cearense. A banda voltou à capital cearense exatamente 12 anos depois de sua primeira apresentação na cidade (coincidentemente, o show foi no dia 17 de abril de 2014). Mas, naquela ocasião, o Guns estava em baixa, não tinha Duff e Slash para reforçar a identidade da banda, e o Axl Rose não estava em seu melhor momento vocal. Sem falar que o show foi em um local muito menor. Este ano foi tudo diferente.

O evento começou com a excelente apresentação do Raimundos. Um show com muita empolgação por parte do público e com a animação do carismático Digão. Iniciou com a pesada e recente música "Calo", do seu último álbum. Boa música, com um bom instrumental. O show focou majoritariamente na primeira fase da banda, lançando clássicos como "Puteiro em João Pessoa", 'A Mais Pedida", "Me Lambe" e "Mulher de Fases", todas sendo acompanhadas pelo coro da plateia, que se mostrava empolgada com a apresentação. Foi uma excelente abertura!

Pouco tempo depois, começou a atração principal do evento. Finalmente entra o trio principal, Duff, Axl e Slash, tocando "Welcome to the Jungle". O público delirou com a energia da banda e com o clássico que ressoava pelo Gigante da Boa Vista. Particularmente, eu fiquei inerte nas duas primeiras músicas, ainda assimilando que à minha frente estavam nomes que admirei por muito tempo. Não conseguia nem pular. Por isso, a segunda música, "Bad Obsession", hoje se torna especial para mim por lembrar o sentimento que tive durante sua execução. Para quem reside em cidades que anualmente recebem grandes shows, talvez possa estranhar a emoção que correu no Castelão, até mesmo pelo fato de o Guns N’ Roses vir ao Brasil com certa frequência. Mas a carência que nós, do Nordeste, temos em relação a eventos internacionais acaba promovendo esse sentimento único em shows de bandas clássicas, como o Guns N’ Roses, em que sabemos que muita gente pelo Brasil afora acaba desmerecendo a banda por conta da voz do Axl Rose. Aliás, sua voz já não lembrava em nada o período mais obscuro em que foi alvo de piadas por bastante tempo na internet. Axl se cuidou, estava em boa forma e entregou uma ótima performance. Claro, não está mais no auge. Em músicas como "You Could Be Mine" e "Mr. Brownstone" ainda dá para perceber certa dificuldade, mas nada que comprometa sua apresentação.

Particularmente, algumas músicas acho desnecessárias no show, como o cover de Velvet Revolver, "Slither". A banda também apostou em material mais recente, como a ótima "Hard Skool" e a questionável "Absurd", que, curiosamente, funciona melhor ao vivo. "Nothin’" e "Atlas" completam esse pacote de lançamentos. Também houve um ótimo cover de "Sabbath Bloody Sabbath", em homenagem ao Ozzy Osbourne. O setlist apresentou variações entre algumas cidades e, particularmente, senti falta de três faixas que integraram a turnê: "Patience", "Shadow of Your Love" e "Coma". Ficam os parabéns ao pessoal de Belém, que teve a oportunidade de apreciá-las ao vivo.

A chuva tomou conta da cidade de Fortaleza naquela noite. Confesso que isso deu um clima mais sentimental ao show. Por muito tempo, fiquei com vontade de descer até a pista premium para assistir ao show no meio da chuva. E quis o destino que "November Rain" ocorresse durante o período mais chuvoso da noite. Se, por um lado, a chuva tornou a apresentação ainda mais emocionante, acrescentando um clima único ao espetáculo, por outro, os problemas técnicos causados pelo excesso de água comprometeram o icônico solo do Slash, deixando o som com ruídos e, após algum tempo, sem que as notas da guitarra saíssem como deveriam. Foi um momento triste, mas nada capaz de apagar a emoção da apresentação.


Se a épica "November Rain" acabou sendo prejudicada, a igualmente grandiosa "Estranged" (executada antes) tratou de compensar o pequeno dano que estava por vir. "Double Talkin’ Jive", para mim, sempre será uma das músicas mais subestimadas da banda. Ao vivo, ela é elevada a outro patamar, principalmente pela extensão do solo por parte do Slash. A minha favorita deles, "Rocket Queen", acabou sendo, para mim, o momento mais emocionante da noite (depois da abertura), aquele instante em que banda e o fã entram em sintonia e tudo ganha um significado mais pessoal.

"Don’t Cry" e "Sweet Child o’ Mine" foram as músicas mais celebradas durante sua execução. Clássicos que emocionaram o público cearense. É impossível não destacar o carisma de Axl Rose ao vestir o chapéu de cangaceiro durante "Civil War", um gesto que já se tornou símbolo da relação da banda com Fortaleza, repetido desde o show de 2014. Com certeza, foi mais um ponto alto e memorável da noite.

Sob mais chuva e trovões, o show caminhou para o fim com a delicadeza de "This I Love" (única música do Chinese Democracy) e explodiu na intensidade de "Nightrain" e "Paradise City", duas das faixas mais pesadas da banda, garantindo um encerramento à altura de toda a apresentação.

Guns N’ Roses em Fortaleza reuniu o maior público da turnê brasileira. A banda mostrou ao país o que é, de fato, uma turnê no Brasil, sem se limitar a uma única região. Isso reforça que o mercado de shows internacionais deve, sim, voltar os olhos para outras partes do país, pois há fãs e público suficientes para lotar estádios e casas de show. Se outras capitais não foram contempladas, ao menos a distância para vivenciar o show foi consideravelmente reduzida. Fica a expectativa de que este seja o início da retomada de Fortaleza e do Nordeste no mercado dos grandes shows.