quinta-feira, 23 de abril de 2026

SEPULTURA - THE CLOUD OF UNKNOWING (EP - 2026)

 


SEPULTURA
THE CLOUD OF UNKNOWING (EP)
Dynamo Records/Nuclear Blast - Nacional

Falar sobre o SEPULTURA é sempre mexer em um vespeiro. De um lado aqueles fãs incondicionais, que se a banda lança um ovo de Páscoa (sim, a banda fez isso), compram porque isso mostra a importância da banda. Do outro, aquelas viúvas dos Cavalera que acreditam piamente que a banda morreu em 1996. E tem aqueles que apenas ouvem a música e analisam os fatos, o que é o caso desse que vos escreve. Ainda que eu possa ser enquadrado na categoria de "viúvas", eu considero que a banda lançou alguns interessantes ("Dante XXI", 2006), bons discos ("Kairos", 2011 e "Machine Messiah", 2017) e um muito bom ("Quadra", 2020), o fato é que a banda nunca conseguiu repetir a genialidade dos áureos tempos. Obviamente que Andreas e cia. tiveram coragem de seguir adiante com o legado, mas a verdade é que por mais que tentasse, o nível de excelência só veio a ser atingido 25 anos depois da saída de Max. Mas dito isso, o grupo decidiu pendurar as guitarras de vez (ainda que eu não acredite muito nisso) e lançou no mercado seu último trabalho: THE CLOUD OF UNKNOWING, que sai nesta sexta-feira, 24 de abril, pela Nuclear Blast.

Derrick Green (vocal), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Xisto Jr. (baixo) e o estreante Greyson Nekrutman (bateria) nos trazem neste EP, quatro faixas distintas e que de certa forma, mostram o quão perdida a banda esteve nestes 30 anos. Temos brutalidade e agressividade, um certo ar de esquisitice e uma balada. Sim, uma balada. O trabalho, de forma simples e direta, encerra uma carreira que viveu dias de glória, de incerteza, de buscas e de um final não menos que melancólico. E, vou deixar bem claro: a resenha à partir daqui, é única e exclusivamente pra falar sobre as quatro faixas do EP, comparando o Sepultura de agora, com ele próprio, sem buscar comparações com o passado glorioso dos "jungle boys".

O EP abre com a violenta "All Souls Rising". Violenta mesmo, uma verdadeira porrada em seu início mas com algumas incursões interessantes que buscar fugir do lugar comum. Andreas mostra que é (e sempre foi) um grande guitarristas, com ótimos riffs e solos inspirados. Derrick por sua vez, continua com aquele vocal que soa deveras forçado, o que vai se comprovar mais adiante nessa mesma resenha. Mas, é uma ótima faixa de abertura. "Beyond the Dream" é a "balada" que pela primeira vez, se faz presente em um trabalho da banda. E aqui entra o que disse sobre a voz de |Derrick: ele é sim um bom vocalista, mas usando sua voz sem forçar, mostrando boa técnica e timbre diferenciado. Posso até estar errado, mas a faixa me lembrou um pouco as "baladas" do Testament. E entenda-se por balada, uma faixa pesada e intensa, não uma balada pra curtir a dois. Uma faixa não mais que interessante, muito mais por mostrar essa faceta de Derrick do que qualquer outra coisa. Na sequência "Sacred Books", pesada e equilibrada, a faixa passaria despercebida em qualquer outro trabalho da banda, ainda que o piano em alguns momentos crie uma atmosfera interessante. Pra fechar o caixão do SEPULTURA (perdoem o trocadilho infame), temos "The Place", faixa que havia sido divulgada anteriormente, erroneamente por alguns como sendo a "balada" do trabalho. Mesmo pesada, é outra composição que não acrescenta nada, apenas nos mostra o vocal limpo de Derrick novamente, que poderia ter sido muito melhor explorados nestes 30 anos.

Como eu disse lá no início, "THE CLOUD OF UNKNOWING" veio para ser o último prego no caixão do SEPULTURA. Um EP irregular, como foi a carreira da banda nestes últimos 30 anos. Se por um lado, enquanto fã de Heavy Metal fico triste em saber que esse é o "último" lançamento da banda, por outro fico contente em saber que é apenas um EP e não um álbum completo. Obviamente que muitos irão me criticar, xingar, etc... A verdade é que esse EP é muito mais uma amostra da melancolia que se tornou o grupo do que uma nostalgia. Triste fim de um gigante do metal mundial.

Sergiomar Menezes






BLOODHUNTER - SONS OF THE ABANDONED (2026)


 

BLOODHUNTER
SONS OF THE ABANDONED
ROAR - Importado

Vindo diretamente da Galícia, Espanha, o BLOODHUNTER reafirma sua posição como uma das forças mais resilientes do metal extremo europeu. Sob a liderança visceral de Diva Satanica, o grupo moldou sua identidade única que equilibra a brutalidade do Death Metal Melódico com um groove técnico e uma densa carga emocional. Com quase 20 anos de estrada e uma evolução artística constante, a banda entra agora em sua fase mais madura com SONS OF THE ABANDONED. Com lançamento pela gravadora ROAR, o novo trabalho marca um mergulho introspectivo e ambicioso, consolidando a banda espanhola como um nome forte e consistente para quem busca agressividade aliada à sofisticação narrativa. 

Formado pela já citada Diva Satanica (How We End, ex-Nervosa - vocal), que apresenta uma grande evolução a cada álbum lançado, pelos guitarristas Dani Arcos (criador de ótimos riffs) e Guillermo Starless, pelo baixista Fabian Tejada e pelo baterista Adrián Perales, o grupo mostra consistência e brutalidade em cada faixa presente no trabalho. Tue Madsen (Ektomorf, Gorefest, Sick of it All, Vader, The Haunted, entre outros) renomado produtor traz sua capacidade técnica para ensejar de forma brilhante o peso das guitarras e o equilíbrio da cozinha. Diva Satanica, após sua saída do Nervosa, parece ter encontrado no Bloodhunter o espaço ideal para expandir sua performance vocal. Seu gutural continua sendo um dos mais poderosos da cena atual, mas há uma entrega emocional mais latente nas novas letras, que abordam temas como autodeterminação e a busca por sentido em um mundo caótico.

O álbum abre com "The Devils Own", primeiro single. Aqui, a banda flerta com uma direção ligeiramente mais melódica, evidenciando que não têm medo de evoluir e desafiar as expectativas dos puristas do gênero. Aliás, o vídeo que a banda lançou para essa faixa tem um conceito bem interessante, além de contar com a presença marcante de Diva. "The Outspoken" é um manifesto de autenticidade e autodeterminação, com riffs agressivos, coma dupla Dani Arcos e Guillermo Starless mostrando ótimo entrosamento. Já "Threshold of Hell" traz a participação de Fernando Ribeiro (Moonspell) que dá um brilho extra à faixa que é um dos destaques do trabalho. Uma faixa visceral e que carrega consigo o posto de composição mais completa da banda até hoje, misturando o groove do metal moderno com camadas atmosféricas densas. "Ephemeral Youth" é outro momento brutal e agressivo, com guitarras ríspidas e baixo/bateria que intercalam momentos mais cadenciados com outros "bate estaca", reafirmando a capacidade do grupo de agrupar suas influências e manter sua personalidade. Já a faixa-título consegue traduzir musical e liricamente, todas as incertezas de uma geração que busca identidade em meio ao caos que vivemos no dia a dia.

"No One Beats Death", mostra DIva usando sua capacidade vocal de forma extrema, saindo de vocais mais rasgados até os mais guturais, explorando sua versatilidade. O que não é nenhuma novidade pra quem acompanha seu trabalho. Um andamento mais cadenciado, mas não menos brutal, é o que temos em "Code Aeternam", onde a dupla das seis cordas alternas riffs e solos intrincados, mas que buscam a melodia em determinados momentos. Algo que o Arch Enemy de outros tempos sabia fazer com maestria. Já faixa "The Path That Never Ends" traz um duelo de vozes e beldades: Diva Satanica e Laura Guldemond (Burning Witches). Belas, simpáticas e donas de vozes fortes e potentes, cada uma dentro de seu estilo, as duas representam bem a força do metal feminino na atualidade. O grupo mantém a tradição de faixas instrumentais com "The Night is Darker Before Dawn", explorando a versatilidade de seus integrantes. "Masters of Deceive" e "Human Insecticide" encerram o álbum, de forma consistente. E talvez, a palvra que melhor define esse trabalho é essa: CONSISTÊNCIA, pois o grupo mantém o nível elevado nas suas composições trazendo, pelo menos até aqui, seu trabalho mais maduro e intenso.

Com SONS OF THE ABANDONED, o BLOODHUNTER, definitivamente, deixa de ser uma promessa pra se tornar uma realidade entre os bons nomes do metal europeu. Uma pena que a turnê que o grupo faria pelo Brasil no ano passado acabou não rolando. Mas com o lançamento desse excelente trabalho e tudo mais que tem envolvido a banda, acredito que chegou a agora de aportar pelas terras brasileiras. Um álbum forte, intenso e de muita qualidade. Ao menos por enquanto, um dos melhores álbuns de 2026!

Sergiomar Menezes





TYKETTO - CLOSER TO THE SUN (2026)


 

TYKETTO
CLOSER TO THE SUN
Shinigami Records/Silver Lining Music - Nacional

Para todo o fã de Hard Rock, os novaiorquinos do Tyketto são considerados uma das bandas mais injustiçadas da história do Hard Rock. Formado em 1987, a banda só conseguiu lançar seu álbum de estreia, o clássico “Don´t Come Easy”, em 1991, bem no final de festa do estilo que dominou os anos 80.

Com o vocal poderoso de Dany Vaughn e riffs de guitarra cheios de groove e malícia, produzidos pelo guitarrista Brooke St. James, a banda rapidamente conquistou fãs de Hard Rock mundo afora, mas infelizmente foi mais uma banda que “chegou tarde” para ter um sucesso maior.

Mas de qualquer forma, entre idas e vindas, a banda se manteve ativa nas décadas seguintes e nos presenteia agora com o novo trabalho: “Closer To The Sun”. Da banda original temos apenas Danny Vaughn nos vocais guitarras acústicas e harmonica. Os demais músicos são o tecladista Ged Rylands (na banda desde 2012), Chris Chylds (baixista também da banda inglesa Thunder), o excelente guitarrista Harry Scott Elliot e o baterista Johnny Dee (Britny Fox/Doro).

O que temos em “Closer To The Sun” é um trabalho que vai agradar em cheio quem já conhece a discografia do Tyketto. Neste sexto trabalho de estúdio, posso afirmar que é o que mais se aproxima do favorito “Don´t Come Easy”. Riffs fortes, letras positivas e cheias de energia, cantadas com uma vibrante interpretação de Vaughn. Do início com o hardão “Higher Than High”, passamos pela bluseada à lá Whitesnake “Donnowhuddidis” (êta nome estranho e difícil de escrever). A faixa título é um AOR de arrepiar. ”Harleys & Indians “, um surpreendente cover dos suecos Roxette. “Hit Me Where It Hits”, mais pesada e certeira. Citei essas faixas como destaque, para mostrar que o álbum tem uma variação sem fugir do estilo do Tyketto.

Closer To The Sun” é um puta álbum, de uma banda que não teme seguir o coração e fazer músicas de alto nível, sem fugir de suas características e sem ceder a modismos. Fortemente indicado para os fãs de Hard Rock. Saindo nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




RAMONES - RAMONES 50 ANOS

 


OS 50 ANOS DO ÁLBUM QUE MOSTROU AO MUNDO QUE O ROCK ESTAVA (E SEMPRE ESTARÁ) VIVO!


Por Sergiomar Menezes

Neste exato 23 de abril, em 1976, era lançado o álbum que redefiniria aquilo que muitos entendiam como rock n' roll. Se por um lado, algumas guitarras pesadas começavam a surgir pelos bares da Inglaterra, pelos lados dos Estados Unidos, quatro degenerados davam mostra que o estilo, que naquele momento se via cercado por viagens de teclado, músicas intermináveis e um virtuosismo que chagava a dar náusea, podia ser reinventado sem que fosse preciso zerar a conta. Inspirados por muitos nomes da cena de Nova York, Jeffrey Ross Hyman,  John William Cummings, Douglas Glenn Colvin e Thomas Erdélyi (nascido Tamás Elderlyi), ou mais precisamente, Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy, pegaram pra si o pseudônimo que Paul MCCartney usava quando se hospedava em hotéis para fugir dos fã e imprensa (Paul Ramon) e se denominaram RAMONES. E mal sabiam eles que 50 anos depois, o trabalho continuaria tão cru, tão vivo e tão revolucionário como nos idos dos anos 70.

Há 50 anos, quatro malucos vestidos com jaquetas de couro e calças jeans rasgadas deixaram Forest Hills, no Queens, para alterar a trajetória da música. Eles não traziam solos elaborados, não possuíam instrumentos caros e definitivamente não estavam interessados em canções de dez minutos sobre feiticeiros ou fadas. O álbum de estreia do Ramones, que leva o mesmo nome da banda, não foi apenas mais um disco; representou um manifesto de simplicidade que demonstrou que, para tocar rock, eram suficientes três acordes e uma necessidade quase desesperadora de ser escutado.

Na sede da Sire Records

O que faz deste álbum um divisor de águas não é apenas sua rapidez, mas também sua autenticidade. Em tempos em que o rock progressivo e o disco predominavam, os Ramones apresentaram 14 canções em somente 29 minutos. A imagem da capa, capturada por Roberta Bayley, se tornou o símbolo oficial do rock alternativo. O muro de tijolos e as expressões indiferentes dos quatro escancararam a filosofia do "faça você mesmo". Com um custo extremamente baixo de aproximadamente US$ 6.400, o álbum exibe uma sonoridade áspera. A nítida separação dos canais (a guitarra de um lado e o baixo do outro) remetia aos primeiros álbuns dos Beatles, mas com uma distorção que se aproximava do industrial. Essa técnica, visava a clareza total: cada instrumento deveria ser ouvido em sua forma mais pura e brutal.

Embora Joey fosse o rosto (feio, diga-se de passagem) e Dee Dee a alma caótica, a estrutura do álbum foi moldada pela visão de Tommy Ramone (o estrategista e produtor implícito) e pela disciplina de ferro de Johnny Ramone. Johnny, com sua guitarra, aboliu os solos. Sua técnica de downstrokes (palhetadas apenas para baixo) criou uma parede de som monofônica e percussiva. Não havia espaço para o "respiro" do blues; era uma cadência insana e ininterrupta. A profundidade do álbum reside na sua contradição interna. Musicalmente, o Ramones bebia da fonte dos grupos vocais dos anos 60, como as Ronettes e os Beach Boys. No entanto, as melodias "doces" eram entregues por Joey com uma dicção britânica afetada (algo que seria confirmado nos próximos trabalhos).


Com faixas como "Blitzkrieg Bop" e "Now I Wanna Sniff Some Glue", as letras combinavam humor sombrio, monotonia suburbana e referências a filmes de baixo orçamento. Era a cultura pop digerida e devolvida com uma ironia agressiva. "53rd & 3rd" aborda a prostituição masculina e o trauma de guerra (temas recorrentes na vida de Dee Dee). "Beat on the Brat" e "Chain Saw" transformavam a agressividade em algo quase performático, uma catarse contra o tédio suburbano.

Embora o álbum não tenha sido um sucesso comercial imediato nos EUA, sua exportação para o Reino Unido foi a mola de impulso do movimento punk britânico. Quando o Ramones tocou no Roundhouse em Londres, em julho de 1976, membros do The Clash e Sex Pistols estavam na plateia. A mensagem foi captada instantaneamente: "se eles podem fazer isso, nós também podemos". Mas diferente do que viria a se tornar o Punk britânico, o Ramones não era explicitamente político. A "política" deles era a da presença cotidiana. Ao subirem no palco do CBGB com roupas que qualquer garoto de classe média baixa poderia ter, eles destruíram a barreira entre ídolo e fã.

O Ramones tratava o rock como um objeto de consumo rápido: as faixas raramente ultrapassavam os 2 minutos e meio. A repetição era usada como mantra, transformando o "simples" em "icônico". Eles pegaram o clichê do "bad boy" dos anos 50 (jaquetas de couro, calças rasgadas e tênis surrados) e o transformaram em um uniforme urbano atemporal. Eles não inventaram a roda; eles apenas decidiram que a roda estava pesada demais e a chutaram ladeira abaixo em alta velocidade. Meio século depois, ainda estamos todos correndo para tentar alcançá-la.

O que torna o álbum RAMONES um objeto de estudo contínuo são suas urgência e relevância. Ele soa como se sempre tivesse existido, esperando apenas que alguém tivesse a coragem de tocar as cordas com força suficiente. Ele não apenas fundou um gênero; ele estabeleceu os limites de quão longe você pode ir removendo as partes de uma canção até sobrar apenas a sua essência vibrante. Ao celebrarmos meio século desse disco, não estamos apenas celebrando a nostalgia, mas sim o momento exato em que o rock recuperou sua capacidade de ser perigoso e sua acessibilidade. O álbum de 1976 permanece como a prova definitiva de que a sofisticação intelectual pode, sim, ser entregue através de três acordes e um grito de contagem.

1,2,3,4... HEY HO, LET'S GO!





quarta-feira, 22 de abril de 2026

STRATOVARIUS - EPISODE 30 ANOS


 STRATOVARIUS - EPISODE 30 ANOS

Por William Ribas

Há 30 anos, o grupo na época formado por Timo Kotipelto (vocal), Timo Tolkki (guitarra), Jörg Michael (bateria), Jens Johansson (teclado) e Jari Kainulainen lançava Episode, o quinto álbum de estúdio da banda. O aniversariante do dia marcou o início de uma sequência de excelentes lançamentos e carrega a estreia da formação clássica — ou melhor, a unidade definitiva do Stratovarius.

Os finlandeses foram o principal nome do Power Metal da metade dos anos 90 até o início dos anos 2000. O tracklist é recheado de clássicos: faixas ultra velozes, cadenciadas e uma balada que ficou eternizada em sua versão ao vivo, lançada alguns anos depois. O quinteto acertou no equilíbrio perfeito entre técnica, melodias grudentas e velocidade. Afinal, quem não se lembra da rapidez absurda de "Father Time" ou da grandiosidade de "Will the Sun Rise?"? Um início arrebatador, no qual Kotipelto trazia um timbre de voz belíssimo e alcançava notas altas; tenho certeza de que todos que ouviram o disco na época ficavam se "esgoelando" ao tentar imitar o vocalista.

Os riffs certeiros e o teclado são o charme de "Speed of Light", trazendo o toque neoclássico que se tornaria marca registrada do metal melódico daquela era. Já o peso de "Uncertainty", com seu andamento cadenciado, tem Jörg e Jari como verdadeiros condutores de uma das faixas mais subestimadas da carreira do grupo. Mas ficar entre duas das melhores músicas do álbum é uma tarefa difícil, pois o momento seguinte é uma obra-prima: "Season of Change". Com suas linhas calmas e a voz quase sussurrada, a tensão aumenta a cada segundo, com a música crescendo de maneira única. O solo afiado de Tolkki, aliado à ambientação gloriosa de Jens e a um caminho surpreendente em seus minutos finais, torna essa faixa a minha favorita não só do álbum, mas de toda a carreira do Stratovarius.
Episode contou com uma produção ambiciosa para a época, incluindo um coral de 40 vozes e uma orquestra de cordas, elevando a sonoridade a um patamar de grandiosidade. A sequência com "Stratosphere" (uma deliciosa faixa instrumental), "Babylon", "Tomorrow" e "Night Time Eclipse" exemplifica como a aposta de Tolkki se mostrou extremamente acertada, consolidando a identidade sonora da banda para sempre. A emoção final vem com a belíssima "Forever" (que, por ironia do destino, prefiro em seu jeito simples no álbum Visions of Europe). Uma balada orquestrada, acessível e cheia de sentimento: a cereja do bolo de um álbum cativante do início ao fim.

Embora o Visions, lançado em 1997 (e que completa 29 anos amanhã), seja considerado o ápice ao lado de Infinite, é inegável que o Episode pavimentou esse caminho e estabeleceu as bases para o sucesso estrondoso que viria. É um álbum que, mesmo após três décadas, continua marcante com sua energia contagiante. Pode-se dizer que é uma das pedras fundamentais do "boom" do Power Metal dos anos 90.