CORROSION OF CONFORMITY
GOD GOD/BAAD MAN
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional
Mais de quatro décadas após surgir no cenário underground da Carolina do Norte, o Corrosion of Conformity continua desafiando qualquer tentativa de enquadrá-lo em um único rótulo. Punk, crossover, sludge, stoner rock, southern rock e heavy metal sempre coexistiram em diferentes proporções dentro da sonoridade da banda. Em Good God / Baad Man, seu décimo primeiro álbum de estúdio, essa mistura atinge um dos pontos mais completos de toda essa trajetória.
O disco chega carregado de significado. Desde "No Cross No Crown" (2018), a banda enfrentou profundas transformações, incluindo a dolorosa perda do baterista Reed Mullin, em 2020. Em vez de tentar recriar o passado, o quarteto opta por seguir adiante, preservando a essência que o tornou uma referência dentro da música pesada sulista. O resultado é uma obra extensa, ambiciosa e repleta de personalidade.
Desde os primeiros minutos, fica evidente que o álbum não pretende escolher um único caminho. A agressividade característica dos tempos de "Blind" reaparece em faixas explosivas como “Good God Final Dawn”, “Gimme Some Moore” e “Asleep On The Killing Floor”, onde riffs cortantes e grooves densos caminham lado a lado. A influência do Black Sabbath permanece profundamente enraizada, mas surge filtrada pela identidade única que Pepper Keenan e Woody Weatherman desenvolveram ao longo dos anos.
A dupla de guitarristas é, mais uma vez, o coração do álbum. Os riffs carregam peso e espontaneidade, alternando momentos de fúria com passagens repletas de atmosfera. Há uma sensação constante de liberdade criativa, como se as músicas estivessem sendo construídas organicamente dentro da sala de ensaio, sem preocupação com tendências ou fórmulas modernas — apenas boas jam sessions entre velhos amigos.
Ao mesmo tempo, o lado mais rock 'n' roll e descontraído da banda ganha espaço considerável. “The Handler” combina peso e balanço com uma naturalidade impressionante, enquanto a faixa-título “Baad Man” mergulha em uma energia quase boogie, evocando o espírito de velhos bares enfumaçados do sul. Já “Swallowing The Anchor” e “Handcuff Country” ampliam essa abordagem, revelando uma faceta divertida sem comprometer a identidade pesada do grupo.
Um dos aspectos mais interessantes do álbum é a forma como os interlúdios instrumentais são utilizados. Em vez de funcionarem apenas como preenchimento, peças como “Bedouin's Hand” e “Mandra Sonos” criam pontes atmosféricas que ampliam a experiência e valorizam ainda mais as composições que as sucedem. Esses momentos demonstram uma banda confortável em explorar novas texturas sem perder o foco principal. Falando em conforto, o que é “Brickman”? Um bom whiskey, um cigarro e a solidão parecem ser a companhia perfeita para essa bela peça acústica.
A nova formação também merece destaque. O baixista Bobby Landgraf encaixa-se perfeitamente na sonoridade do grupo, enquanto a bateria de Stanton Moore conduz tudo com criatividade, personalidade e senso de espaço. A influência de Reed Mullin continua perceptível no espírito das composições, mas sem transformar o álbum em um exercício de nostalgia.
Quando a reta final chega, Good God / Baad Man reserva alguns de seus momentos mais marcantes. “Forever Amplified” encerra a jornada de maneira monumental, combinando peso, melodia, psicodelia e longas passagens instrumentais em uma construção épica que sintetiza praticamente todas as facetas apresentadas ao longo do álbum. É uma conclusão grandiosa para uma obra que nunca deixa de soar pulsante.
Embora sua duração possa parecer desafiadora à primeira vista, o álbum recompensa a dedicação do ouvinte com uma enorme variedade de ideias e atmosferas. O Corrosion of Conformity demonstra que continua plenamente capaz de criar música relevante sem depender exclusivamente de seu legado.
Good God / Baad Man não é apenas um retorno inspirado. É a prova que algumas instituições do metal envelhecem sem perder um único grama de peso.
William Ribas