segunda-feira, 4 de maio de 2026

VENOM - INTO OBLIVION (2026)

 


VENOM
INTO OBLIVION
Noise Records - Importado

O Venom é uma entidade, não apenas uma banda qualquer. Falar isso é ser simplório e até piegas e ingênuo. Mas precisa ser dito sempre. Pois verdades, ás vezes, precisam ser relembradas. Esta análise de álbum é feita por um fã do Venom, e se você não curte a banda, ou é um “hater” de carteirinha da banda de Newcastle, aconselho a parar a leitura do texto por aqui. Aqui é um “sócio-torcedor” da banda de Cronos e seus derivados (sim, pois agora temos três “Venoms” ativos) que escreve, e não há "liberdade de expressão" para quem não os curte.

Lembro como se fosse “anteontem” quando tive contato com o Venom original. Sim, a trindade Infernal: Cronos, Mantas e Abaddom. A música foi “Angel Dust” do obrigatório álbum “Welcome To Hell” e tocou na Rádio Ipanema FM , no programa Central Rock do saudoso “Guru” Ricardo Barão. Lembro de apenas querer ter o LP e descobrir que só existia o importado, com preço proibitivo para um garoto de 14 anos que recebia mesada dos pais. O jeito foi gravar em fita cassete na também saudosa Loja Megaforce, e com minha mesada gravei “Welcome to Hell” e “Black Metal”. Ouvi as fitas até gastar. E de lá para cá, foi fanatismo puro. Então vou tentar ser apenas fã, para descrever o que temos neste novo “Into Oblivion”.

Pesado, visceral, brutal e insanamente Metal. Este é “Into Oblivion”, o décimo sexto álbum de estúdio do Venom. Para nós do “Venom Army”, o álbum é perfeito. O que Cronos (baixo, vocal e líder supremo do Inferno), Dante (bateria) e Rage (guitarras) entregam aqui, é pura fúria, mantendo a tradição que fez o Venom ser a besta furiosa que sempre foi, mesclando com os timbres e recursos da atualidade, sem se tornar “modernoso”. A impressão que temos, é que o trio entrou no estúdio e decidiu: “Vamos abrir os microfones, vamos tocar e o que criarmos vamos gravar”. E piamente eu acredito que Cronos e comandados assim fizeram.

“Into The Oblivion, a faixa inicial, é o Venom como veio ao mundo, Um soco na vida do desavisado!. “Lay Down Your Souls” é uma das frases mais icônicas em uma letra no mundo do Metal, e aparece na letra do hino “Black Metal” de 1982, e ela retorna e intitula a segunda faixa. Aqui “deus não é Deus ou Satanás. É o Rock n' Roll! Essencialmente suja, pesada e extremamente metal, já nasceu clássica. ”Nevermore” é um pesadelo típico, mas um pesadelo acessível, que podemos conviver e até torcer para que ele volte. Peso sobre peso. “Man and Beast” é uma faixa típica do que se costumava chamar de Power Metal. Não o que se convencionou chamar depois, espadinhas, vocais felizes e solos de guitarra virtuosos”. Era o Metal Poderoso, que Venom, Exciter, Nasty Savage e outros trouxeram para o mundo.

“Death To Leveller” é a prova de que o Venom é representante legítimo da NWOBHM enquanto “As Above, So Below” desacelera o ritmo para invocar o Anjo Caído. “Kicked Outta Hell” e “Legend” demonstram que num mundo tão perturbado como o que vivemos, o Venom ainda consegue ser tão perturbador quanto.”Live Loud” cadenciada e convidativa ao headbanging é outro hino, que explicita a necessidade de viver em alto e bom som. “Metal Bloody Metal”.... com um título desses, não precisa de explanações: escute o trabalho está feito. “Dogs Of War” é uma faixa dedicada aos detratores que sempre vociferaram contra o Venom, os chamando de maus músicos e inimigos da melodia. Melodia?Temos aqui sim, mas sem deixar a agressividade para trás. Que faixa senhoras e senhores.

“Deathwish” é aquela faixa para relembrar de onde o Venom e todo o Metal veio: um fantástico riff Iomminiano executado por Rage relembra até o menos catedrático headbanger, que o pai de todos se chama Black Sabbath. “Unholy Mother” fecha este trabalho sensacional, com um clima gótico e vampiresco, com mais um riff de arrepiar por parte de Rage. O Venom está mais vivo que nunca e Cronos e os “caras novos” (que já estão a mais de década na banda) souberam fazer um álbum que não apenas reafirma o Venom como uma banda relevante e influente após quatro décadas, como também como uma banda que tem muito o que entregar ainda! Para este que vos digita, é o álbum do ano! Caso você discorde, eu avisei lá no início do texto que ele não era para você! Entregue sua alma para os Deuses do Rock n Roll!!! Eu fiz isso com 13 anos de idade e sou feliz para caraca!!!! E faz tempo, viu!!! VENOM FOR LIFE!!!




BATTLE BEAST - STEELBOUND (2025)

 


BATTLE BEAST
STEELBOUND
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

O Battle Beast é mais uma cria do Metal Sueco. Vai ser terra abençoada essa tal de Escandinávia! Desde a sua formação em 2008, é uma banda que conseguiu unir Power/Heavy Metal, Hard Rock e Pop Music numa mesma embalagem, e que agrada em cheio. Presença constante nos festivais de Metal e Rock europeus, o Battle Beast fixou seu nome entre uma das bandas mais solicitadas da Europa.

No seu mais recente trabalho, batizado de Steelbound, a banda finlandesa retorna com força total com músicas simples, diretas e concisas de aproximadamente três minutos cada, nas quais não arriscam, mas sim recorrem à fórmula que lhes trouxe sucesso: guitarras e teclados que misturam agressividade, inspiração oitentista e diversão, ocasionalmente combinados com sonoridades épicas.

Tudo isso forma a base do elemento mais marcante da banda: a voz poderosa e impactante de Noora Louhimo , que personifica virtuosismo e versatilidade, transitando sem esforço de notas incrivelmente altas e roucas para tons mais graves, adotando também uma voz melódica, doce e emotiva quando a situação pede.

E a fórmula vitoriosa do Battle Beast segue em “Steelbound”. “The Burnin WIthin“ é praticamente Power Metal, porém vibrante e poderosa, enquanto “Here We Are” é mais festiva, com teclados em destaque e bateria reta no estilo anos oitenta. Imagine o a-ha com distorção e timbres mais metalizados? É isso! Porém sem deixar o lado Hard/heavy de lado. Soa empolgante do inicio ao fim. Eu peguei apenas as duas primeiras faixas como destaques do álbum, para definir como “Steelbound” segue.

É um álbum menor em relação aos anteriores, porém é acima da média do que se ouve no geral. O Battle Beast é uma banda diferenciada e se “Speelbound“ não segue no mesmo nível dos trabalhos anteriores, mantém a banda num patamar de “se você anda não conhece, deve conhecer”. Lançamento nacional pela Shinigami Records.

José Henrique Godoy




JOHN CORABI - NEW DAY (2026)


JOHN CORABI
NEW DAY 
Frontiers Music srl. - Importado

Um belo dia você abre o seu site preferido de noticias de Rock/Metal e pensa: “Nossa, o gigante John Corabi lançou um novo cd!!! E já vendeu um milhão de cópias!!!”. Esqueça, isso nem o próprio Corabi deve ter sonhado um dia, mas uma coisa eu posso garantir com a certeza de que o Pavón, jogador do meu Grêmio é um dos piores jogadores da história do esporte: John Corabi é um dos artistas do Rock e Metal mais injustiçados de todos os tempos.

Conheci o tal Corabi como vocalista da banda The Scream, um suposto “supergrupo” formado das cinzas do Racer X, do baixista monstro John Alderete e do incrível guitarrista Bruce Boillet. O álbum do The Scream , “Let It Scream” foi lançado em 1991, e muito por conta de um tal John Corabi, um misto de Steven Tyler/Ronnie James Dio se tornou um álbum cultuado e preferido do undergorund do Hard Rock noventista (estranho mas até 1993, temos excelentes álbuns sem a influência nefasta do Grunge Rock). E desde então me tornei fã do cara.

Não é necessário falar que ao substituir Vince Neil no Mötley Crüe, após o lançamento do álbum homônimo, ele dividiu opiniões: um álbum pesadíssimo de muita qualidade, porém diferente do Hard Rock tradicional do Crüe, não agradou no geral e a “culpa” recaiu em cima de John.

Particularmente eu acho o “Mötley Crüe 1994” um álbum espetacular, mas entendo que na época decepcionou os fãs, mas enfim, eram os anos 1990. Após sair do Crue, Corabi tocou guitarra em uma das encarnações do Ratt, montou o Union com Bruce Kulick e se tornou vocalista do Dead Daisies. Além de gravar um CD acústico e um álbum ao vivo tocando o “Crue 94” na íntegra. Mas faltava um disco solo de verdade, e a espera termina agora com “New Day”.

“New Day” é um trabalho inspirado e criado sob a influencia do Classic Rock dos anos 1960 e 1970, e COoabi não tenta esconder isso em nenhum segundo do álbum. A primeira música que os fãs ouviram do álbum foi "Così Bella". Lançada como single ainda em 2021, foi seguida por por "Your Own Worst Enemy', lançada no mesmo ano. Ambas as faixas estão incluídas no álbum, mostrando que o projeto já vinha há tempos sendo planejado. "Così Bella" é uma música de rock animada. Seu ritmo contagiante e melodia cativante a tornam uma canção leve e descontraída. O título, "Così Bella", significa 'tão bonita', que é exatamente a vibe que a música evoca. Em contraste, "Your Own Worst Enemy" é mais sombria e melancólica. É uma música com influência de blues e um toque funky. A faixa-título, "New Day", abre o álbum e é uma música de rock n' roll também vibrante, que promove uma mentalidade positiva. Novos dias oferecem novas oportunidades, e ouvir essa canção automaticamente imprime uma energia positiva, e vontade de escutar de novo!

“That Memory” é um Rock n' Roll direto, com influências dos anos 70, antes de “Faith, Hope and Love” adicionar um toque melancólico ao álbum. Esta música pode ser chamada de uma balada, mas é muito mais do que um clichê choroso de coração partido. “Faith, Hope and Love” é comovente e tem um nível de profundidade, o que também se deve aos vocais emocionais de Corabi. O homem realmente sabe colocar emoção no que canta.

“1969” é uma homenagem a uma época em que a música rock estava no auge. Tem uma vibração saudosa, e o álbum oferece profundidade emocional ao longo de toda a audição, seja quando você ouve os rocks animados ou os momentos comoventes. Isso se deve à toda emoção que Corabi imprime às suas composições e à sua voz distinta. Essas qualidades dão a cada uma das músicas uma sensação pessoal e muito autêntica, contribuindo para a impressão positiva de “New Day” como um todo.

O impressionante álbum de estreia de John Corabi vê rock, blues e soul se unirem. Tomando inspiração dos anos 1970, o cantor criou um álbum que se baseia nas suas origens e influências, o que torna “New Day” um “jogo ganho. Que grande Rocker e autêntico artista é John Corabi. Que “New Day” seja apenas o primeiro de uma extensa discografia solo.

José Henrique Godoy






 

MEGADETH - THIS WAS OUR LIFE TOUR - 02/05/2026 - ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP



MEGADETH
THIS WAS OUR LIFE TOUR
02/05/2026
ESPAÇO UNIMED - SÃO PAULO/SP 

Texto e fotos: Fernando Aguiar

Há shows que você assiste. E há shows que você testemunha. A passagem do Megadeth por São Paulo na noite de 2 de maio, única data no Brasil da turnê de despedida This Was Our Life, caiu claramente na segunda categoria. Não porque tudo foi perfeito. Longe disso. Mas porque havia um peso específico naquela noite que nenhuma imperfeição técnica seria capaz de apagar.

Esta foi a 17ª visita do Megadeth ao Brasil, o 42º show da banda em solo nacional. Dave Mustaine (um dos precursores do thrash metal) tem 64 anos, enfrentou um câncer na garganta e carrega nas mãos artrite, Contratura de Dupuytren na mão esquerda e paralisia do nervo radial, condições que o levaram a anunciar o encerramento das atividades do Megadeth ao fim dessa turnê. Quando as luzes se apagaram no Espaço Unimed e a banda simplesmente entrou no palco, sem introdução, sem vídeo, sem cortina caindo, a sensação foi a de quem sabe que está vivendo algo único.

"Tipping Point" abriu o show como single de apresentação do álbum final e homônimo da banda, e aqui aconteceu um dos momentos mais bonitos da noite: Dave Mustaine percebeu o público cantando a letra inteira de uma música lançada há poucos meses e se mostrou genuinamente surpreso e satisfeito com isso. Quem estava na plateia sentiu que a reação era real, não protocolar.

Logo em seguida veio a surpresa que ninguém tinha colocado na conta: "The Conjuring". Mustaine, cristão convertido, se arrependeu publicamente de ter escrito a letra (repleta de referências a um ritual satânico de uma época em que se envolveu com magia negra) e a faixa ficou fora dos setlists por décadas, entre 2001 e 2018. Ver essa música aparecer nessa turnê de despedida soou como um acerto de contas com o próprio catálogo.

A trinca seguinte foi de arrasar quarteirão. "Hangar 18" fez o que sempre faz, transformando a plateia num coro coletivo de "Me-ga-deth" entre os solos enlouquecedores e magnificos. "She-Wolf" veio logo na sequência mantendo (como sempre) o clima lá em cima e que também foi cantada e ovacionada antes de "Sweating Bullets" chegar com o monólogo de alguém em surto esquizofrênico que funciona ao vivo com uma intensidade que a gravação nunca capturou completamente. Foi a melhor performance vocal de Dave na noite, e aqui preciso ser honesto: a voz estava comprometida durante boa parte da primeira metade do show, algo perceptível a quem presta atenção e comentado por pessoas que estavam em diferentes pontos da pista e que encontrei após o show. "Sweating Bullets" foi o momento em que isso importou menos, porque a entrega compensou com folga.


A banda trouxe um pouco de “calmaria” com "I Don't Care" (a faixa mais punk do novo álbum, direta e sem rodeios) e "Dread and the Fugitive Mind", que voltava ao repertório após ausência na passagem anterior pelo Brasil. Dois momentos de respirada antes do set entrar na sua fase mais “agressiva”.

Até aqui o público respondia bem, mas faltava aquela agitação característica de um show de thrash metal de verdade. Os mosh pits eram tímidos, a energia mais contida. Foi a dobradinha "Wake Up Dead" e "In My Darkest Hour" que mudou o jogo. A galera foi junto nota a nota, estrofe por estrofe, cantando cada palavra com Dave, e a sensação de estar num show de thrash de verdade finalmente tomou conta do Espaço Unimed. Uma combinação que a banda já fez no passado e que raramente reaparece nos shows mais recentes, e que aqui funcionou como o gatilho que a noite precisava. A voz de Dave também começou a dar sinais de melhora a partir desse ponto, o que ajudou bastante.

"Hook in Mouth" voltou ao setlist após ausência em 2024 e foi recebida com entusiasmo por quem conhece o catálogo mais a fundo. "Let There Be Shred", do novo álbum, foi o espaço de Teemu Mäntysaari brilhar individualmente. O guitarrista finlandês (escolhido e preparado pelo próprio Kiko Loureiro para ocupar seu lugar) mostrou muito mais desenvoltura do que na passagem anterior por aqui, circulando mais pelo palco e transmitindo uma confiança que o diferencia da imagem mais contida que tinha no início.
Em seguida, veio a sequência mais devastadora da noite. "Symphony of Destruction" é "Symphony of Destruction" (preciso dizer mais alguma coisa?). Ao vivo, naquele contexto, com aquela galera, soou ainda maior do que qualquer gravação consegue sugerir. "Tornado of Souls" trouxe um dos solos mais reverenciados da história da banda, executado com a precisão que a faixa exige e com o peso de saber que você está ouvindo aquilo ao vivo. "Mechanix" chegou fechando o bloco e a insanidade já tinha tomado conta de vez. A pista estava em ebulição total.

E então veio o momento mais histórico da noite, para quem não estava acompanhando de perto as novidades da turnê. "Ride the Lightning", composição que Dave Mustaine criou junto a Lars Ulrich e James Hetfield ainda nos primórdios do Metallica, regravada no álbum final do Megadeth. Ver a música ao vivo foi algo que dificilmente se repete: foi cantada em uníssono pela plateia inteira, agitada com uma energia que remetia ao que seria um show do próprio Metallica. Dave tem co-autoria na faixa, e faz todo o sentido que ela apareça num disco e numa turnê de despedida.

O encerramento apoteótico foi o que precisava ser. "Peace Sells" e "Holy Wars… The Punishment Due" juntas no fechamento são quase uma crueldade, no bom sentido é claro, com dois dos maiores hinos do thrash metal em sequência e dois mascotes Vic Rattlehead subindo ao palco durante "Peace Sells" em referência à capa do novo álbum.

Dave Mustaine disse ao palco que o público de São Paulo foi ótimo e que "eles foram o Megadeth". Em entrevistas recentes sinalizou que gostaria de voltar a outras cidades brasileiras antes do encerramento definitivo, citando nominalmente Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Brasília. A sensação que a noite deixou é mais de "até logo" do que de "adeus".

Mas independentemente do que vier a seguir, o que aconteceu no Espaço Unimed ontem foi um espetáculo digno de um dos precursores do thrash metal. Com limitações físicas e uma voz que já não é a mesma de Peace Sells ou Rust in Peace, Dave Mustaine ainda sobe num palco e lembra ao mundo por que o Megadeth existe, e porque vai fazer falta quando não existir mais (e essa é a parte mais triste de tudo).

A Rebel Rock marcou presença, mesmo sem credenciamento para o evento. Mas quem nos conhece sabe que isso nunca foi o que nos move. Não estamos aqui por protocolo, por acesso facilitado ou por qualquer interesse além do óbvio: o amor pelo heavy metal. É ele que nos leva aos shows, que nos faz escrever, que nos mantém de pé até o último acorde. Sempre foi assim, sempre será.

EVERGREY - ARCHITECTS OF A NEW WEAVE (2026)


 

EVERGREY
ARCHITECTS OF A NEW WEAVE
Napalm Records - Importado

Há momentos em que a música deixa de ser apenas expressão e passa a ser reconstrução de identidade. Em seu décimo quinto álbum, o Evergrey alcança exatamente esse estágio com Architects Of A New Weave, um trabalho que transforma sofrimento em estrutura e colapso emocional em impulso.

Logo na narrativa de abertura, “Welcome To The Pattern” estabelece o conceito que sustenta todo o álbum. A ideia de que estamos inseridos em um “padrão” maior, onde cada escolha e cada cicatriz fazem parte de um tecido invisível, já coloca o ouvinte dentro de algo muito maior do que simples músicas.

Mas, de fato, tudo começa no caos.

E é nesse terreno instável que “The Shadow Self” se impõe como um dos momentos mais intensos do disco. A repetição angustiada de “What do I do with the shadow self?” não soa como reflexão — soa como conflito aberto. A letra expõe o desgaste de quem tenta se curar, mas percebe que suas feridas continuam abertas. Aqui, a sombra não é uma inimiga distante — é uma presença constante, impossível de ignorar.

A resposta começa a tomar forma na faixa-título, onde o discurso muda de direção. A fragilidade dá lugar à afirmação: “We are the architects”. Pela primeira vez, o controle deixa de ser uma ilusão e passa a ser escolha. A reconstrução começa internamente.

Mas o processo não é linear.

Em “The World Is On Fire”, o Evergrey atinge um de seus pontos mais dolorosos. O incêndio não é externo — é interno, alimentado por culpa e promessas não cumpridas. E, no meio desse colapso, surge uma imagem tão simples quanto devastadora: as lágrimas são a única forma de apagar o fogo. A cada momento do álbum, o que vemos é um “eu exposto”, em busca de algum tipo de redenção.

A virada emocional ganha força em “Heaven”, onde Tom S. Englund deixa de se esconder e passa a se afirmar:

I am desire, I am the fire in your eyes
And all the liars will now perish in front of my eyes.
I am the darkness when it’s falling...”

Aqui, luz e escuridão coexistem. O “céu” não é um destino, mas um estado de transformação contínua — um pedido de ajuda enquanto ainda há tempo, enquanto ainda se está vivo.

Em “The Script”, o álbum mergulha em um território ainda mais existencial. A ideia de viver preso a padrões emocionais ganha força em versos como “How do you shape a heart from a fist?”. É a dor de quem endureceu para sobreviver… e agora não sabe mais como voltar a sentir. A música não oferece respostas — apenas expõe a complexidade da pergunta.

“Leaving The Emptiness” surge como um impulso de mudança, quase um grito por movimento. Há uma tentativa clara de deixar o vazio para trás, mas o próprio tom da música levanta dúvidas: trata-se de libertação… ou apenas fuga? Já “Longing”, uma das faixas mais vulneráveis do disco, mergulha na busca por conexão, por sentido, por algo que vá além das palavras — dominando cada momento de sua execução.

Há também um senso claro de liberdade que atravessa o álbum. A banda se entrega uma execução instrumental mais espontânea, menos presa a fórmulas. Se no início de sua trajetória o grupo partia de uma base mais direta no prog metal, hoje existe uma identidade muito mais própria — moldada por uma atmosfera obscura, melancólica e, ainda assim, profundamente melódica, que se consolidou como sua marca registrada. E é exatamente isso que o ouvinte vai encontrar aqui — o Evergrey dos últimos dez anos.

Em “A Burning Flame”, com a participação de Mikael Stanne (Dark Tranquillity), o álbum encontra um novo tipo de energia. A dor deixa de ser apenas peso e passa a ser combustível. Há um chamado claro à ação: entender a origem do sofrimento e transformá-lo em força:

Do your best to start to find the source of your hurting
Take a breath and close your eyes to see your way and your purpose
And make sure you are awake enough to make life your own and your truth

Em “Call Off Your Lions”, a banda trabalha uma metáfora poderosa. Os “leões” representam mecanismos de defesa, instintos de sobrevivência que, em excesso, também aprisionam. Essa ideia se conecta diretamente com “Chains Of Shame”, onde a vergonha surge como uma das prisões mais profundas. Romper essas correntes exige mais do que força — exige coragem para encarar quem você se tornou.

O desfecho com “The Prophecy” (minha favorita do álbum), o Evergrey entrega algo raro: não uma vitória, mas uma compreensão. O eu lírico não elimina sua escuridão — ele a integra. As cicatrizes deixam de ser peso e passam a fazer parte de algo maior, conectando-se em uma verdade única que atravessa todo o álbum:

"Você não se cura apagando a escuridão…
Você se reconstrói aprendendo a viver com ela."

Architects Of A New Weave é mais do que um disco — é um processo contínuo de desmontar e reconstruir a si mesmo. É apaixonante. A parte instrumental, mais quebrada, cheia de linhas pulsantes e melodias que surgem em meio às letras intensas e profundas, é um dos grandes diferenciais do Evergrey — como encontrar beleza e calmaria no coração, mesmo nos dias mais cinzentos, entre dúvidas e crises.

William Ribas