domingo, 28 de junho de 2026

SAVATAGE - MADNESS REIGNS FROM THE GUTTER 1990 (2026)

 


SAVATAGE
MADNESS REIGNS FROM THE GUTTER (1990)
earMusic/Sound City/Valhall Music - Nacional

Tem lançamentos que chegam e passam. E tem lançamentos que chegam e ficam parados no tempo, te deixando imóvel, com aquela sensação de que você acabou de experimentar algo que não deveria nem ter sobrevivido ao esquecimento. Madness Reigns From The Gutter (1990) é exatamente isso: um capítulo da história do heavy metal que ficou inédito por mais de três décadas, e que finalmente ganhou o mundo no formato que sempre mereceu.

O contexto importa muito aqui. Estamos em 29 de junho de 1990, no The Palace, em Hollywood, Los Angeles. O Savatage havia lançado "Gutter Ballet" em 1989 e embarcou na "Rulin' Gutter Tour", com mais de 100 shows pelo mundo, a banda estava afiada como lâmina. O show daquela noite foi gravado para transmissão ao vivo pela rádio KNAC, uma das estações mais importantes da cena de hard rock e metal da Califórnia. Rádio era um outro bicho naquela época: uma transmissão ao vivo numa grande emissora significava que dezenas de milhares de pessoas estavam ouvindo sua música.

O material ficou guardado. Circulou por anos em bootleg com o nome Hollywood Babylon, mas nunca ganhou uma versão oficial até agora. Jon Oliva pegou as fitas originais, fez um trabalho de restauração, remix e remasterização com cuidado cirúrgico, e entregou ao mundo um produto primoroso com qualidade absurda. E aqui preciso dizer com toda sinceridade: isso não é só um lançamento de um arquivo que ficou “trancado” por anos. É um ato de amor. Uma homenagem justa ao legado de uma banda que ele ajudou a construir nota por nota, e ao parceiro de uma vida inteira que ele perdeu cedo demais. E com Jon Oliva no centro de tudo, dominando o palco com aquela combinação rara de brutalidade e sensibilidade que só ele conseguia sustentar ao mesmo tempo. Que homem meus amigos!
E é claro que a palavra que sempre volta quando se fala nesse álbum é Criss Oliva.

Ouvir Criss aqui dói e alegra ao mesmo tempo, nessa mistura estranha que só a música consegue provocar. Infelizmente, morreu em novembro de 1993, num acidente de carro que roubou do metal um dos guitarristas mais talentosos que tivemos o prazer de acompanhar na cena. E o que torna esse registro ainda mais precioso é o que ele revela sobre o músico: Criss não era o tipo de guitarrista que toca pra mostrar que sabe. Era um guitarrista que cantava com o instrumento. Cada solo era uma voz própria, uma frase que se completava dentro da música e não precisava de plateia para validar. Ouvi-lo aqui, nesse registro ao vivo do auge da sua carreira, é algo que nenhum disco de estúdio consegue capturar da mesma forma.

O setlist aqui é simplesmente formidável e não há uma música que se destaque mais que do que outras. Claro que cada um tem suas preferidas, isso é inevitável, mas isso passa batido no geral porque o que você escuta é um repertório que funciona como um organismo vivo, do começo ao fim. Dezenove faixas cobrindo praticamente toda a discografia até aquele ponto, do peso raivoso e direto dos primeiros álbuns ao teatro grandioso do Gutter Ballet, passando pelos momentos que já antecipavam o que viria em Streets: A Rock Opera. É o Savatage mostrando de onde veio e para onde estava indo, tudo no mesmo show, tudo encaixado com uma naturalidade que só bandas realmente grandes conseguem. Não tem faixa que você queira pular, não tem momento morno ou algo do tipo. Você simplesmente aperta o play, deixa rolar, e quando Devastation fecha o show a única coisa que você vai querer fazer é voltar para o começo e ouvir tudo de novo.

A mixagem merece um parágrafo próprio. Jon fez um trabalho muito inteligente aqui: o ruído da plateia é reduzido durante as músicas, mas preservado nos intervalos, dando aquela sensação real de presença sem sufocar o som. Baixo e bateria com punch de verdade, sem aquela sensação de que foram misturados em segundo plano. E dá pra ouvir claramente a separação entre as guitarras de Criss e Caffery nos canais, o que é raro e muito bem-vindo.

Chris Caffery, o jovem incendiário, segurando a base rítmica e liberando o Criss para ser o Criss. Johnny Lee Middleton firme como pedra. Doc Wacholz atrás do kit gigante sendo Doc Wacholz, quebrando tudo.

Madness Reigns From The Gutter (1990) não é só um álbum ao vivo. É prova do porquê o Savatage era uma das bandas mais especiais do planeta naquele momento, e de porque a morte de Criss Oliva deixou uma ferida que o metal nunca se fechou completamente. Jon fez a coisa certa em preservar isso e entregar ao mundo com o cuidado que merecia.

E pra finalizar, pegue o disco, coloque no volume máximo e agradeça por ter o privilégio de ter existido no mesmo mundo que Criss Oliva e não preciso dizer que é um item obrigatório em qualquer coleção.
Enjoy it!

Fernando Aguiar




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