quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

SAXON - HELL, FIRE AND DAMNATION (2024)


SAXON
HELL, FIRE AND DAMNATION
Shinigami Records/Silver Lining Music - Nacional

Existem bandas que durante sua carreira, ainda que por vezes tenha cometido algum deslize, se mantêm fiéis ao seu estilo, muitas vezes remando contra a maré. E um dos maiores exemplos disso é o SAXON. Um dos pilares do metal, ícone de uma geração e uma das bandas obrigatórias para se assistir enquanto fã de Heavy Metal, o quinteto chega ao seu 24º álbum de estúdio, esbanjando vitalidade, garra e energia, num trabalho que mostra que a idade até pode chegar, mas a chama e paixão pelo estilo, estão longe de se extinguirem. HELL, FIRE AND DAMNATION chega ao Brasil através da parceria Shinigami Records e Silver Lining Music, selo inglês responsável pelo lançamento. Um álbum intenso e com uma certa dose de peso, mostram que a banda continua relevante dentro de um cenário que a cada dia procura uma nova salvação. Como se isso fosse REALMENTE preciso...

Biff Byford (vocal), Doug Scarret (guitarra), Brian Tatler (guitarra - Diamond Head, que substituiu Paul Quinn), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria) reuniram dez faixas, contando com uma introdução e sob a produção de Andy Sneap (que contou com o auxílio do próprio Biff Byford), decidiram chamar o álbum dessa forma, pois segundo o vocalista, essa era uma expressão que ele guardava desde criança, quando seu pai ficava bravo com suas estripulias, sejam elas estragar os canteiros de repolho dele ou esculpir coisas estranhas na mesa: "Hell, Fire and Damnation! What are you doing?". O que pude perceber ao ouvir o álbum é que a entrada de Brian Tatler trouxe um pouco mais de peso às composições, não que isso traga qualquer tipo de demérito a Paul Quinn, pelo contrário. Acredito que ele tenha trazido um novo sopro de criatividade, acrescentando uma pegada própria. E sejamos sinceros, estamos falando de um dos grandes guitarristas da NWOBHM! Sendo assim, vamos ao que interessa: as músicas presentes em HELL, FIRE AND DAMNATION!

A intro "The Prophecy" traz a voz do ator britânico Brian Blessed e nos deixa preparados para a faixa título, uma composição pesada e com a cara do Saxon. O peso e a timbragem perfeitos são obra de Andy Sneap que sabe como poucos extrair essa característica das bandas com as quais trabalha. Um refrão grandioso, daqueles pra gente cerrar o punho e cantar junto nos shows e um trabalho primoroso de guitarras fazem dessa faixa, um dos destaques do álbum. Na sequência, a cadência de "Madame Guillotine", guiada pela cozinha composta por Nibbs e Nigel, mostra que os velhinhos continuam sem pena dos seus instrumentos. Já a faixa seguinte, "Fire and Steel", é uma verdadeira ode ao Heavy Metal, um tributo ao estilo musical mais amado do planeta. Rápida, certeira e carregada de energia, lembrando a atmosfera da clássica "Motorcycle Man". "There's Something in Roswell", que ganhou um vídeo recentemente, é aquele velho Saxon pesado, intenso, mas ao mesmo um tanto quanto sombrio, falando sobre o famoso caso do extraterrestre capturado (?) em Roswell em 1954.

E se você quer Heavy Metal Tardicional, é isso que você encontrará em "Kubla Khan and the Merchant of Venice", que além da excelente estrutura musical fala sobre a relação entre o Imperador Mongol e Marco Polo. Agora, é impossível não destacar "Pirates of the Airwaves", uma homenagem ao nascimento da NWOBHM, a faixa tem uma letra inspirada e uma levada que é um verdadeiro convide ao headbanging e à air guitar. O som das guitarras comanda "1066" e aqui, mais uma vez, podemos ver a mão de Andy Sneap, que nas palavras do próprio Biff, considera este trabalho, um dos melhores já produzidos por ele, em termos de som. E não se pode negar, a sonoridade está cristalina e pesada, uma das marcas do produtor. Aquela levada "marota", com certo groove, aparece em "Witches of Salem", que dá espaço para Nigel Glocler brilhar na ponte e no refrão. O álbum se encerra com "Super Charger", rápida e intensa, fechando mais um grande trabalho do quinteto inglês.

O SAXON, prestes a completar 47 anos de existência, coloca nas prateleiras mais um trabalho digno em sua discografia. Se HELL, FIRE AND DAMNATION é um dos melhores álbuns do grupo? Não posso afirmar, afinal, está aquém daqueles clássicos que todos nós conhecemos. Mas é inegável que a entrada de Brian Tatler e músicas inspiradas fazem deste, um álbum obrigatório aos fãs de Heavy Metal. Obrigado Saxon por mais uma aula!

Sergiomar Menezes 





GRAVEYARD - 6 (2023)


GRAVEYARD
6
Shinigami Records/Nuclear Blast - Nacional

Lançado mundialmente pela Nuclear Blast Records e distribuído no Brasil pela Shinigami Records, “6”, o novo trabalho do Graveyard, é, sem dúvida e se comparado aos demais álbuns lançados anteriormente, o mais denso e por que não dizer interessante deste (ainda) underground quarteto sueco.

Resultado do reencontro com Don Ahlsterberg - produtor de “Graveyard” (2007), “Hisingen Blues” (2011) e “Lights Out” (2012) -, o álbum, fortemente influenciado pela psicodelia dos anos 70, mostra que a reedição da parceria fez muito bem ao som da banda, atualmente formada pelos originários Joakim Nilsson (voz e guitarra) e Truls Mörck (baixo), além de Jonatan Larocca-Ramm (guitarra) e Oskar Bergenheim (bateria).

“Godnatt”, a faixa de abertura, traz, de cara, uma belíssima interpretação de Nilsson, que, emoldurada pelas guitarras melodiosas de Larocca, anuncia a densidade presente em boa parte das demais (oito) do trabalho, dentre elas, a emocionante “Sad Song”, uma triste canção, conforme sugere seu título, digna de single, mas…

Bem, por falar em single, a destoante “Twice” é a escolhida para projetar “6” ao mundo e, mais do que isso, “fazer a ponte” entre este novo Graveyard e aquele que conhecemos bem, afinal de contas, trata-se de uma composição que reune a pungência de outrora com o lado sombrio, digamos, mais aflorado atualmente pelo grupo.

Outras faixas, no entanto, fariam mais sentido no papel de “carro chefe”. A soturna “Bright Lights”, por exemplo, seria uma boa opção, em razão de sua construção “quase pop”, com direito a um refrão cheio de vocais e estrofes compostas por melodias convidativas. Mas isso é um mero detalhe que em nada diminui a importância do álbum.

A quem interessar a “viagem” que é dedicar cerca de 40 minutos a audição de uma obra completa, a dica é: lembre-se de deixar o melhor para o final da degustação. Portanto, mergulhe fundo em “No Way Out” e “Rampant Fields“, ao lado da já citada “Sad Song”, as mais interessantes de “6”, uma boa surpresa de 2023, que ecoa com justiça nesse início de 2024.

Rodrigo Oliveira




REBEL ROCK RESEARCH - POISON

 


POISON. Dentro do cenário do Rock/Metal, esse nome desperta sentimentos diversos. Existem aqueles que amam a banda e outros que odeiam. Mas, ainda que você seja um daqueles que escolheram a segunda opção, a verdade é uma só: a banda é legal pra caralho! Seja na fase Hard/Glam dos anos 80, seja durante o período mais obscuro (pro Hard Rock) nos anos 90, ou até mesmo nos dias de hoje, o Poison segue empunhando a bandeira do estilo, levando sua música e energia aos palcos ao redor do mundo. Mesmo tendo trocado de guitarristas algumas vezes, o trio formado por Bret Michaels (vocal), Bobby Dall (baixo) e Rikki Rockett (bateria) mantiveram o espírito da banda, contra todas as mudanças mercadológicas ocorridas durante a carreira banda. Obviamente que ela precisou se adaptar a isso, mas suas principais características estão presentes em todos os álbuns. Outro ponto que precisa ser destacado é que a formação clássica do grupo, com o guitarrista C.C. DeVille foi a que gravou aqueles trabalhos que, no meu entendimento, são os melhores do grupo. Confesso que foi bastante complicado decidir as três primeiras colocações, pois a "diferença" entre eles foi mínima, pra não dizer quase inexistente. Já no quesito "pior álbum", não foi tão complicado, tendo em vista que o escolhido traz poucas músicas inéditas e muitas outras ao vivo, o que acabou colocando o referido trabalho na posição mais indesejada desse ranking. Sem mais delongas, vamos à discografia do Poison, do pior ao melhor! E não esqueçam: POISON É LEGAL DEMAIS!

Sergiomar Menezes


POWER TO THE PEOPLE (2000)


Um álbum que não é bem um álbum. Talvez essa seja a melhor definição para "Power to the People", lançado pela banda no ano 2000. Mas como assim não é um álbum? Calma que eu explico... Composto por 17 faixas, o trabalho traz apenas 5 faixas gravadas após o retorno do guitarrista C.C. DeVille ao grupo, que substituiu Blues Saraceno. Com sonoridades bem distintas entre si, as cinco faixas inéditas trazem aquele Poison um pouco mais festeiro, indicando o caminho que seria seguido no próximo álbum, vide a faixa "I Hate Every Bone in Your Body But Mine", cantada por C.C.. Outra faixa bem interessante é a balada "The Last Song", que possui uma bela melodia onde Bret Michaels mostra que, ainda que não seja um dos vocalistas mais lembrados da cena, não deixa nada a desejar. Com relação às faixas ao vivo, temos 12 músicas que foram gravadas durante a turnê de reunião da formação clássica do grupo, em 1999. E sim, lá estão "Talk Dirty to Me", "Every Rose Has Its Thorn", "Fallen Angel" e tantas outras, incluindo aí dois momentos desnecessários: solos de guitarra e bateria. Bem que poderiam ter sido substituídos por duas músicas de verdade, não é mesmo?

POISON'D (2007)


O disco de covers do Poison está longe de ser ruim. Mas eu preciso ser coerente com o que venho fazendo ao longo das outras discografias que analisei por aqui, então por não se tratar de um trabalho autoral, ele acaba ficando na 7ª posição. Neste álbum, o grupo fez diversas homenagens e trouxe de volta algumas faixas que já haviam sido gravadas por eles em trabalhos anteriores. E uma das coisas que pode ser dita é que todas elas ficaram com a cara do Poison. Exemplo maior disso é "Rock n' Roll All Nite" que ficou com a personalidade da banda. Outro momento com essa atmosfera é "Sufragette City", clássico de David Bowie (já coverizado por meio mundo) que também ficou com a pegada do Poison. O álbum ainda traz faixas um pouco incomuns (para muitos) como "I Need to Know", de Tom Petty and the Heartbreakers, a bela "Can't You See" de The Marshall Tucker Band, que tem aquela vibração presente em "Stand" (Native Tongue - 1993), e a versão totalmente Rock n' Roll de "What I Like About You" do The Romantics. Outras "carne de vaca" também aparecem, como é o caso de "I Never Cry" de Alice Cooper, "Dead Flowers" dos Rolling Stones e "We're an American Band", do Grand Funk Railroad. O grupo incluiu ainda "Your Momma Don't Dance", cover da dupla Loggins & Messina, presente em "Open Up and Say ...Ahh!" (1988) e "Squeeze Box", do The Who, presente no último registro de estúdio do grupo, "Hollyweird" de 2002. "Poison'd" é um álbum que cumpre a função de divertir o ouvinte e fã do início ao fim!

NATIVE TONGUE (1993)


Daqui por diante, ficou difícil de separar o sexto, quinto e quarto lugar nesse ranking. Até porque os álbuns agradam quase que da mesma maneira este que vos escreve. No entanto, ressalto que, por se tratar de escolhas pessoais, Native Tongue acabou por ocupar essa posição, mesmo que eu próprio tenha relutado até o momento que comecei a escrever esse texto. 1993 não era um ano propício ao Hard Rock, quem deram ao Glam/Hair Metal, estilo que poucos dominavam como o Poison. No entanto, após a conturbada saída de C.C. Deville, o grupo recrutou o excelente guitarrista Ritchie Kotzen e gravou um álbum sério (!?) e maduro, fugindo um pouco de suas características habituais. Isso fez dele um trabalho menor? Longe disso! Ainda mais se levarmos em consideração o momento vivido pelo grupo. A performance de Kotzen merece destaque, uma vez que ele ainda não transformava toda banda que tocava em sua banda solo. "The Scream", logo após a intro "Native Tongue", mostra que o grupo estava pronto pra encarar essa nova fase. Com uma pegada hard "moderna" e uma ótima performance de Rikki Rockett (outro músico da cena que nunca teve seu reconhecimento merecido), a faixa transborda energia, enquanto "Stand", faixa que ganhou um vídeo com ares de música gospel, tem uma linha que começa naquela levada country, mas ganah uma intensidade de power ballad no decorrer de sua execução. Outros momentos de destaque são "7 Days Over You", tipicamente Hard Rock, a pesada "Body Talk", o groove de "Bring it Home", a bela "Theatre of Soul" e "Bastard Son of a Thousand Blues". Um escrito lá no início, um álbum mais maduro, mas nem por isso menos divertido, como a música do Poison sempre foi.

HOLLYWEIRD (2002)


Esse é daqueles discos que muitos fãs amam, outros odeiam e outros não se importam e apenas curtem. Hollyweird marca o retorno de C.C. Deville em um álbum completo da banda, com uma produção despojada (até certo ponto suja) e que causa uma certa repulsa em muitas fãs, acostumados a toda pompa que sempre permeou os álbuns do grupo (se bem que...). Na minha humilde opinião, esse trabalho resgata um pouco daquela atmosfera crua do primeiro álbum, alinhadas com a sonoridade mais clássica do grupo, presente no segundo. Guardadas as devidas proporções, comparo Hollyweird com New Tattoo do Mötley Crüe, lançado em 2000. A faixa título, que abre o trabalho, tem uma pegada punk, com guitarras mais sujas, um vocal descompromissado de Bret, fazendo dela um dos destaques do álbum. "Squeeze Box", do The Who, foi devidamente "poisonizada", ganhando sua versão (que apareceria mais tarde em Poison'd, em 2007). "Shooting Star", outro momento digno de nota, mais cadenciada, com um refrão típicos do grupo. Dentre outros destaques, podemos citar "Wishful Thinking", com uma cara de alternativa (será?), "Devil Woman", com aquela veia bluesy/country, sem muita enrolação, com um excelente trabalho de guitarra de C.C., que voltou com força total ao grupo, "Wasteland", pesada (para os padrões Poison de ser) e a bônus "Rock Star", que serviu, claramente, de "inspiração" para o Nickelback gravar a sua "Rockstar" (assistam o vídeo dessa e comparem as letras)... Não é preciso dizer que a música do Poison é bem melhor...

CRACK A SMILE... AND MORE (2000)


Lançado em 2000 mas gravado entre entre 1994 e 1995, tendo previsão de lançamento em 1996, Crack a Smile... and More acabou vendo a luz do dia apenas em 2000, pois a Capitol (gravadora do grupo à época) decidiu lançar "Poison's Greatest Hits 1986 - 1996" e preteriu o trabalho já gravado pelo quarteto para outra oportunidade. Mas o que podemos ouvir neste álbum, é um Poison que buscava uma certa identidade, em certos momentos voltando às raízes, em outros olhando para o futuro. Além das 12 faixas regulares que compões o disco, temos ainda alguns outtakes e 4 faixas acústicas gravadas para o icônico MTV Unplugged. Das faixas regulares temos ótimas canções como "Best Thing You Ever Had", que abre o trabalho resgatando a sonoridade presente em Native Tongue (álbum anterior). E devo citar aqui que este é o único trabalho de Blues Saraceno, guitarrista que veio a substituir Ritchie Kotzen, e que tocou com a banda aqui no Brasil na época do saudoso Hollywood Rock. "Shut Up, Make Love", apesar do começo pra lá de estranho (leia-se remixes e barulhinhos estranhos) é um rock de respeito, enquanto "Cover of the Rolling Stone" é um cover do Dr. Hook, e que diga-se, ficou bem legal! "Sexual Thing" e "Lay Your Body Down" saíram como faixas bônus na supra citada coletânea. Enquanto a primeira é uma faixa típica do Poison, a segunda é uma daquelas baladas que fizeram o grupo conhecido por camadas fora do rock/Metal. Ainda dentro das faixas regulares, "No Ring, No Gets" e "Tragically Unhip" se encarregam de deixar o Hard Rock em seu devido lugar. "Set You Free", "Crack a Smile" (uma versão demo não terminada) e "Face the Hangman", outtake de "Open Up..." são os destaques entre as faixas extras, assim como as versões acústicas de "Unskinny Bop", "Every Rose Has its Thorn" e, obviamente, "Talk Dirty to Me". Por muito muito, não subiu ao pódio...

OPEN UP AND SAY... AHH! (1988)


Se já tinha ficado difícil, agora complicou... Os três primeiros álbuns do grupo, são excelentes, sendo muito complicado escolher o preferido, ou melhor, uma ordem de preferência. Aliás, o terceiro e o segundo colocados, pois o primeiro não mudou (apesar da pequena dúvida na hora de escrever...). Open Up and Say... Ahh!, com sua capa, entre uma das mais feias lançadas dentro do Hard Rock, é um trabalho repleto de faixas ótimas, com aquela pegada Hair/Glam que só o quarteto sabia fazer. Não à toa, esse disco traz algumas músicas que se tornaram verdadeiros clássicos, não apenas da banda, mas do Hard Rock de forma geral. O que dizer de um álbum que abre com "Love on the Rocks" e "Nothin' But a Good Time", dois verdadeiros hits da música praticada nos anos 80? Hinos de uma geração, as faixas antecedem "Back to the Rocking Horse", que merecia um melhor aproveitamento por parte da banda em seu setlist. E os riffs de "look But You Can't Touch"? Um C.C. inspiradíssimo no solo nos presenteia com sua técnica e felling afiados, enquanto na sequência, uma das melhores e mais importantes músicas do grupo, "Fallen Angel" vem para nos lembrar da época boa onde os vídeoclipes de bandas de rock passavam na saudosa MTV... "Every Rose Has its Thorn", talvez a balada mais conhecida da banda e sua bela melodia, vem na sequência, mostrando que a criatividade do grupo estava na ponta dos cascos, como costuma se dizer por aqui. Cabe frisar que neste segundo trabalho, o grupo evolui musicalmente, com faixas um pouco mais complexas, deixando de lado aquele lado quase "punk" de algumas faixas do álbum de estreia. Ainda, "Your Momma Don't Dance", cover da dupla Loggins & Messina, ganha seu espaço com a identidade da banda. Obrigatório, como os próximos dois desse ranking...

FLESH & BLOOD (1990)


A disputa entre Flesh & Blood e Open Up... foi árdua. Mas aqui temos uma faixa que, pra mim, é uma das melhores músicas do grupo e uma das minhas preferidas: "Ride the Wind". Mas o trabalho não se resume apenas a essa composição. O terceiro disco do Poison, lançado em 1990, quando o Hard Rock dava mostras que seria deixada pra trás pelas gravadoras, traz excelentes composições, interpretações vibrantes e um certo ar de seriedade (em alguns momentos), algo que não se fazia presente nos dois primeiros álbuns. Eis que após a intro "Long Days of Uncle Jack", a festa começa com "Valley of the Lolst Souls", com uma abordagem um pouco mais pesada, mas sem deixar o hard de lado. Mantendo a pegada de sempre, o grupo dava mostra que adentraria a nova década com novas concepções musicais sem deixar de ser o poison de sempre. Ficou confuso? Escute esse álbum e Native Tongue na sequência... "(Flesh & Blood) Sacrifice" apresenta uma sonoridade mais centrada, com Bret cantando de uma forma um pouco diferente em algumas passagens. Refrão grudento e grandioso, assim como uma das faixas mais icônicas e grudentas do grupo, "Unskinny Bop". Quem não lembra do também icônico vídeo dessa faixa? Em seguida, "Let it Play" e sua levada característica cheia de groove antecede "Life Goes On", outra daquelas baladas que só o Poison sabia (será que ainda sabe?) fazer. O que dizer da sequência "Come Hell or High Water" e "Ride the Wind". Enquanto a primeira é um rockão de respeito, a segunda é dona de um riff sensacional, refrão grudento e melodia fantástica! Impossível passar indiferente por essa faixa que consegue unir peso ao hard sem soar estranha. "Don't Give Up an Inch", mais um hard de respeito que antecede "Something to Believe In", uma balada que mostra uma faceta mais séria, política e crítica do grupo. O álbum fecha com um clima lá em cima com "Ball and Chain", "Life Loves a Tragedy" e "Poor Boy Blues", que te faz querer colocar o álbum no repeat assim que ele se encerra. Compre, baixe... Não sei o que você vai fazer, mas tenha esse disco!

LOOK WHAT THE CAT DRAGGED IN (1986)


E o meu disco preferido do Poison é aquele com a capa mais queima filme da história (ou não...). Look What the Cat Dragged In, lançado em 1986, traz todos os elementos que consagraram o estilo que fundia o glam, o hard, o punk e o classic rock. 10 faixas que agregam diversão, música e entretenimento (e não são todos a mesma coisa?) de uma forma única, com uma pequena dose de peso e "sujeira" nas composições, que ainda são cruas, mas com variedade e criatividade. Bret já se mostrava um vocalista um tanto quanto diferente dos demais de sua classe, enquanto C.C. DeVille fazia com as seis cordas aquilo que se espera de um guitarrista: técnica, feeling e versatilidade. "Cry Tough" abre o disco com a bateria de Rikki Rockett marcando o ritmo num misto de Hard/Heavy, enquanto as melodias são puro Hard 80's. No entanto, a próxima faixa "I Want Action", é dona de uma polêmica envolta em sua gravação. Por acaso você conhece a faixa de "We Go Rocking" do grupo sueco "Easy Action"? Então... Reza a lenda que durante as gravações, o produtor Ric Browde levou alguns álbuns de bandas escandinavas ao estúdio e sugeriu que o grupo gravasse um cover de "We Go Rocking". "Uma banda escandinava? Ninguém conhece! Vamos copiá-la!" teria sido a resposta do Poison. Procure pelo Youtube e tire suas próprias conclusões... "I Won't Forget You", a primeira balada a figurar entre as canções do quarteto e, é preciso dizer, uma das mais bonitas! "Play Dirty" e seu refrão empolgante precedem a faixa título. Pesada, com certa urgência punk na timbragem da guitarra, a faixa expressa toda a energia e libertinagem daqueles áureos tempos. Em seguida, "Talk Dirty to Me", hino de uma geração e outro momento mágico do Hard Rock 80's, também tem aquela veia suja e irreverente do punk rock em suas linhas, ainda que muitos digam o contrário. E peso sujo volta em "Want Some, Need Some", bem como o groove safado em "Blame it on You". "#1 Bad Boy" e a velocidade de "Let Me Go to the Show" encerram esse disco que, como citei anteriormente, chegou em primeiro lugar pelo uso do VAR (Vontade Ativa de Recordar) nas discografias das bandas que eu gosto. Ainda que muitos de digam o contrário, POISON É FODA!



segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

MISTREATED - THE OUTSIDER (2023)

 


MISTREATED
THE OUTSIDER
Independente - Nacional

Espirituosamente fervilhando a quintessencial energia que apenas a combinação mágica do heavy metal com a juventude pode dispor, a banda pelotense Mistreated lança ao mundo sua segunda obra: "The Outsider", quase aos últimos dias de 2023. Após o expressivo debut em "Brand New Rust", álbum de 2021, disco em que a trupe formada por Henrique Radünz (vocais), Emanuel Murialdo e Diego Corral (guitarras), Davi Isac (baixo) e Rodrigo Reinhardt (bateria) mostrou ao que veio, recebendo, merecidamente, a devida atenção ao dizer ao mundo "que no interior do Rio Grande do Sul - celeiro de nomes icônicos da cena - é possível se fazer heavy metal", a banda alça seu novo passo.

Justamente, é essa a sensação que "The Outsider" provoca de imediato ao ouvinte: percebe-se que o grupo calca conscientemente um novo momento evolutivo em sua recente história. Se for necessária a comparação da nova obra com a anterior, nota-se abertamente o progresso traçado pela banda de um registro para o outro. "The Outsider" claramente revela uma Mistreated mais madura, coesa e convicta ao som a qual se propõe fazer. Se em "Brand New Rust" havia a miscelânea estilística típica de um grupo em plena gênese, o trabalho recente aponta que o quinteto amadureceu a ponto de encontrarem mais assertivamente o seu norte. Estamos diante de uma obra visivelmente bem pensada e bem construída. Sem dúvidas, há um considerável crescimento sonoro e estético da Mistreated enfim delineados em "The Outsider".

A primeira faixa, "Not Ready To Die", ambienta incidentalmente o ouvinte em um clima de dedilhados de guitarras mesclado a sons oriundos de guerras - ok, talvez seja um clichê relativo na história do heavy metal, mas, ainda assim, é produzido com elegância e sobriedade. Após a parte inicial, a música desponta a sua estrutura definitiva: um heavy metal extremamente bem arranjado e resoluto. Perceptível, desde o início da audição, aos que conheceram a banda no passado, a evolução vocal de Henrique Radünz, notavelmente mais harmônico e firme com a proposta da trilha. Apesar da música ousar momentos mais arremedados ao speed - os belos solos podem confirmar isso - a composição fecha exatamente ao que se imaginou quando se iniciou o processo: cíclica conforme montou-se, especialmente ao se tomar de base os apelativos refrões - que tiveram reforço do encore "not ready"!

"Before My Eyes"abre com um precioso trabalho de bateria talhado em rudimentos de caixa de Rodrigo Reinhardt até ser entregue em uma trilha firme e empolgante. Os vocais entregam uma cadência de ritmo a menos, mas enfim explodem no refrão. Fãs de Saxon em "Crusader" ou dos primórdios do Queensrÿche em sua estreia homônima, especialmente em "Nightrider"ou "Blinded", encontrarão uma afinidade - mesmo que a banda, sequer, talvez, tenha pensado nisso! Para este que vos escreve, fez algum sentido a comparação. Trilha mais soturna em relação à anterior, detecta-se um arroubo de identidade mais progressiva da Mistreated neste som, especialmente na antecedência dos solos. Certamente, uma das faixa mais destacáveis de "The Outsider".

A terceira faixa começa em uma levada clássica típica do estilo. "Bullets for My Heart" concentra um dos pre-chorus e refrões mais emocionantes do álbum, com o duo de guitarras de Emanuel e Diego incinerando a faixa. A voz de Henrique encontra o equilíbrio alquímico perfeito com o instrumental da banda. Sem maiores predicativos, uma ode distinta ao que se espera em um bom heavy metal. O solo excepcional destrói tudo, especialmente se você tiver nomes como Iron Maiden ou Judas Priest no coração.

Após esse momento, a quarta faixa, "Edge of Decaying Road" já conduz o trabalho a um viés mais "moderno", por assim dizer. As guitarras dedilhadas e o vocal inspirado em nomes grunges como Stone Temple Pilots ou Alice In Chains - nomes os quais o vocalista Henrique derradeiramente inspira-se - criam um novo relevo a "The Outsider". Uma música mais introspectiva com belos arranjos de violino ao centro que, mais uma vez, apresentam uma faceta prog do grupo. Talvez, diante do contexto do álbum, desponta-se aqui uma das trilhas mais originais e audaciosas da obra.

Em contrapartida, "Sighs of War" segue a audição em uma cadência mais segura ao apreciador. Essa faixa, indiscutivelmente, do vocal ao riffs de guitarra, das levadas de baixo e de bateria, soa como Metallica entre o Black Album e o Reload. Eu sei que se deve evitar analogias constantes quando se arrisca a resenhar um novo som, porém, aqui não há muito o que se fazer. Permita seu amor a Hetfield, Ulrich e cia serem tributados por essa composição robusta da Mistreated. Positivamente, é uma boa música, contudo, não senti como uma das mais inspiradas dos álbum.

"The Executors" retoma a velocidade do percurso auditivo. Temos de novo em cena aquele bom e velho speed empolgante que tanto demarcou a banda no trabalho anterior. Guitarras e vocais conflitando em uníssono até chegar ao refrão, momento que se amplia na didática emocionante e cativante da cartilha do melhor que se aprende e se ensina na matéria heavy metal. Uma faixa que agradaria fãs de hard, hair metal ou power - com direito a um piano de climática -, encontramos uma síntese do poder de fogo da banda nesta música arrebatadora. Devo mencionar que durante a audição foi a trilha a qual o botão "repeat" mais foi clicado por este que vos escreve!

Na sequência, "The Void" abarca nas cordas de início o clima grunge outrora já percebido. Sim, você será levado mentalmente - novamente - a um momento que rememora o Alice In Chains, justamente pela guitarra e bateria da forma como se apresentam. A faixa, instrumental, ponteia a próxima trilha, a final, "Our Free Bird", que, coerentemente, segue a ambientação criada pelas clássicas bandas de rock de Seattle noventistas, já evocadas pelo grupo anteriormente. Neste desfecho de "The Outsider" há, talvez, uma quebra do estilo projetado pela banda ao conceber o álbum, no entanto, pensada apenas como um som isolado, encontra-se um dos momentos mais belos e inspirados da Mistreated. Não, permita-me retificar: o momento MAIS BELO E INSPIRADO pela Mistreated. Estamos diante de uma obra-prima, uma revelação artística fenomenal. O vocal de Henrique voa como o "pássaro livre" a qual letra faz alusão, as guitarras choram nessa balada que rompe tantos sentimentos dignos de um blues a la Lynyrd Skyrnyd ou até mesmo um arroubo pop a la Creed que fazem as lágrimas do ouvinte relutar a não cairem, especialmente quando o solo encontra o refrão excepcional e emocional de Henrique Radünz. Na verdade, essa música é uma elegia à partida trágica e precoce de um grande amigo da banda, o jovem Otávio Moresco - o qual foi aluno e amigo deste redator aqui também - e ao se saber da profundidade dessa homenagem, a faixa torna-se ainda mais sensível e poderosa. Indubitavelmente, o álbum encerra em grande momento, expondo a galeria de possibilidades criativas que o quinteto pelotense pode e sabe produzir.

"The Outsider" é, conforme mencionei ao início, um álbum que marca o novo e firme passo dessa promissora banda. Nitidamente, a evolução do conjunto em todos sentidos - instrumentais, líricos e composicionais - foi entregue ao ouvinte. Ainda que haja momentos em que sua sonoridade remeta a outras fontes ou inspirações - o que não é nenhum crime, sejamos francos! - a Mistreated emerge em um novo momento, certamente mais identitário e criativo. Estamos diante de uma das grande promessas da cena, um quinteto jovem e de largada recente que já pisa e enxerga como gigantes. O disco deixa justamente este recado aos ouvintes do grupo: "preparem-se para nosso próximo passo". E que a caminhada seja longa e quilométrica. O heavy metal precisa disso.

Gregory Weiss Costa





sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

DISTRAUGHT - SOUTHERN SCREAMS LIVE (2024)

 


DISTRAUGHT
SOUTHERN SCREAMS LIVE 
Independente - Nacional

Sem muita conversa, se um dia você procurar no dicionário o significado de BRUTALIDADE e não constar SOUTHERN SCREAMS LIVE, pode jogar esse amontoado de verbetes fora. Porque o que a DISTRAUGHT fez (e faz) no show realizado no 10º RS METAL em 2022 (que contou também com a apresentação das bandas Exterminate e Nervosa), foi uma ode à violência e agressividade. Mas, precisamos ser sinceros, isso não é nada de diferente do que o quinteto vem fazendo ao longo dos seus quase 35 anos de carreira. Seis álbuns de estúdio que desde o início, mostram uma banda pesada, brutal, agressiva e em constante evolução, mas sem abrir mão da sua identidade e integridade. E, para celebrar esse momento especial, o grupo decidiu lançar a apresentação ocorrida no já citado festival, onde mais uma vez, encheu de orgulha cada headbanger que lá se fez presente.

André Meyer (vocal), Ricardo Silveira (guitarra), Everton Acosta (guitarra), Allan Holz (baixo) e Thiago Caurio (bateria) subiram ao palco do Opinião com aquele sangue "nozóio" costumeiro do grupo e entregaram nas oito músicas apresentadas, uma verdadeira aula de como fazer thrash metal. Com uma ótima produção de som (eu estava lá e posso afirmar que o que temos gravado reproduz o que presenciei), o grupo focou o setlist em seu mais recente trabalho, o excelente "Locked Forever" (lançado em 2015 - e por falar nisso, tá na hora de um novo trabalho, não está?), mas também trouxe faixas dos álbuns anteriores, "Unnatural Display of Art" (2009) e "The Human Negligence is Repugnant" (2012), trazendo ainda a mais nova composição do grupo, a pedrada "Crucified Life". Tanto a gravação e mixagem ficaram sob a responsabilidade de Renato Osório, parceiro do grupo desde Locked Forever. Já a arte da capa é outra obra prima criada por Marcelo Vasco (The Troops of Doom), que trouxe vários detalhes da capital gaúcha adaptados à proposta do grupo.

Oito faixas. Oito petardos. Oito oportunidades de quebrar o pescoço. Do início ao fim, a banda não dá descanso aos headbangers, mostrando que segue afiada e entrosada. E, sabendo que os integrantes moram em cidades diferentes (exceção ao André e ao Ricardo que moram em Porto Alegre), é ainda mais necessária essa constatação! Abrindo com "Brazilian Holocaust", "Locked Forever" e "Blacktrade", três pedradas na sequência, pertencentes ao já citado trabalho lançado em 2015, percebos que Everton e Ricardo estão numa sintonia que deixariam King/Hannemann orgulhosos! André, com seu vocal que pende mais pro thrash alemão, expõe toda raiva e agressividade, enquanto a cozinha "novata" composta por Allan e Thiago, se encarrega de deixar tudo o mais pesado possível. "Crucified Life", nova faixa lançada pela banda, é daquelas dignas de não saírem mais do setlist, tamanha a energia e vibração que a faixa emana dos amplificadores. "The Human Negligence is Repugnant", faixa título daquele que na opinião deste que vos escreve, é o melhor álbum do grupo, colocou o Opinião na responsabilidade de acionar a seguradora, visto o poder de destruição que a faixa possui, ainda mais ao vivo. "The Last Trip", mais uma faixa de "Locked Forever", antecedeu as duas últimas músicas, ambas presentes em "Unnatural...": "Reflection of Clarity", uma verdadeira paulada na mente e "Hellucinations", a música que deveria ser tombada como patrimônio histórico do Thrash Metal mundial! Que música, meus amigos! QUE MÚSICA!

Um álbum que merece ser ouvido e adquirido (pelo que conversei com André, devemos ter uma versão física do trabalho) por todo fã de Heavy Metal. Independe se o seu gênero preferido é o thrash, death, tradicional, seja lá o rótulo que você dá. Parabéns à banda pela iniciativa e ao Pisca (produtor do RS METAL) que proporcionaram essa aula à todos nós. E se no início do show, André diz a todos que "Com orgulho nós somos a Distraught", a gente tem o direito de dizer que "com orgulho, somos fã da DISTRAUGHT"!

Sergiomar Menezes