quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - KREATOR

 



REBEL ROCK RESEARCH – KREATOR

O thrash metal alemão sempre teve algo diferente, mais ríspido, mais direto, quase bélico, e o Kreator é a personificação máxima disso. Formada em Essen, no coração industrial da Alemanha, em 1982, a banda surgiu em um cenário onde a música extrema não era entretenimento, era quase que uma catarse. Mille Petrozza e Ventor nunca soaram como cópias do que vinha sendo apresentado nos Estados Unidos e desde o início, o Kreator tinha uma fúria própria, crua e caótica, que ajudaria a definir o chamado thrash germânico ao lado de bandas como Sodom, Destruction e Tankard.

Minha conexão com a banda veio no início dos anos 2000, através de Coma of Souls (1990). Foi amor à primeira audição. Aquela combinação de riffs cortantes e insanos, vocais raivosos, bateria incansável e uma sensação constante de caos me pegou em cheio (mal sabia eu que o caos era maior ainda ). Não era só velocidade, era peso, era violência sonora com propósito. A partir dali, comecei a ir atrás da discografia e passei a entender o Kreator como uma banda que nunca teve medo de evoluir, errar, experimentar e, acima de tudo, sobreviver.

Ao longo das décadas, a banda atravessou fases distintas: o thrash primitivo e caótico dos primeiros anos, a fase mais técnica e refinada do fim dos anos 80, as experimentações controversas dos anos 90 e, por fim, o retorno triunfal que os recolocou no topo do metal extremo mundial a partir dos anos 2000.

Vale deixar claro que esta resenha se concentra exclusivamente nos álbuns de estúdio, deixando de fora registros ao vivo e coletâneas. A ideia aqui é mergulhar na evolução criativa do Kreator através dos trabalhos autorais.

Dito isso, a discografia do Kreator é uma jornada intensa e aqui, apresento os álbuns do meu menos preferido até o ápice absoluto, não como um julgamento frio, mas como a visão de um fã e amante incondicional que respira heavy metal, e que encontrou no Kreator uma das expressões mais honestas, violentas e verdadeiras do gênero.

Por Fernando Aguiar

16º - RENEWAL (1992)


Renewal é, sem dúvida, o disco mais controverso (e sejamos honestos, o mais “fraco”) da carreira do Kreator, mas também um dos mais interessantes de analisar. Lançado em um período em que o metal extremo buscava novos caminhos, o álbum rompe quase totalmente com o thrash tradicional e mergulha em territórios industriais, experimentais e até atmosféricos. A produção é fria, seca, quase claustrofóbica, refletindo bem o espírito do início dos anos 90. Faixas como "Renewal", "Winter Martyrium" e "Realitätskontrolle" mostram um Kreator disposto a abandonar fórmulas, incorporando samples, batidas mecânicas e estruturas pouco convencionais. Não é um disco fácil, nem imediato, mas ganha força quando ouvido como um retrato de época. Pode não representar o Kreator “clássico”, porém revela coragem artística e um Mille Petrozza inquieto, se recusando a ficar parado enquanto o mundo mudava. E sem querer presunçoso, creio qualquer fã da banda que pensar em fazer uma lista como esta, Renewal figurará nessa posição.



15º - OUTCAST (1997)


Aqui, o Kreator aprofunda ainda mais a veia experimental iniciada em Renewal, mas com um senso maior de identidade. Outcast tem uma atmosfera sombria, quase existencialista, e flerta fortemente com o metal industrial e alternativo, sem abandonar completamente o peso. A produção é densa e moderna para a época, e Mille soa mais introspectivo, menos agressivo no sentido clássico. Faixas como "Leave This World Behind", "Outcast" e "Black Sunrise' trazem melodias estranhas, climas depressivos e uma sensação constante de desconforto. Já "Phobia", podemos considerar um “clássico moderno” da banda, uma vez que ela é tocada até hoje nos shows? Ela é, sem dúvida, a melhor música do disco. É um disco que divide opiniões até hoje, mas que mostra uma banda tentando sobreviver artisticamente em um período hostil ao thrash. Não é um álbum de impacto imediato, porém revela profundidade emocional e uma tentativa sincera de reinvenção.



14º - ENDORAMA (1999)


Endorama talvez seja o ponto mais distante do Kreator thrash que muitos fãs aprenderam a amar, mas também é um disco único na discografia. Fortemente influenciado pelo gothic metal e pelo rock alternativo, o álbum aposta em melodias sombrias, climas introspectivos e até participações inusitadas, como Tilo Wolff (Lacrimosa) em Endorama. As guitarras são mais contidas, os vocais mais melódicos e o foco está muito mais na atmosfera do que na agressividade. Faixas como "Golden Age", "Chosen Few" e "Pandemonium" mostram um Kreator reflexivo, quase melancólico. É um disco que exige abertura do ouvinte, e embora esteja longe de ser representativo do “som clássico” da banda, ganha respeito pela honestidade e pelo risco que a banda assumiu na época. Hoje em dia, a cada vez que escuto esse disco (não é muito ), tenho uma percepção e entendimento melhor sobre ele.




13º - HATE ÜBER ALLES (2022)


Quando Hate Über Alles foi anunciado, minha expectativa era alta, tinha tudo para ser mais um capítulo feroz na longa saga do Kreator, um álbum que refletisse a raiva e a confusão de um mundo em ebulição, como o próprio título sugere (que, em tradução livre, significa “ódio acima de tudo”, uma crítica áspera às tensões sociais atuais). O título, provocativo e direto, parecia prometer um disco carregado de ódio, urgência e agressividade, algo que o Kreator sempre soube entregar quando o mundo pede música extrema como válvula de escape. E, de fato, o álbum começa bem. A faixa-título chega forte, com riff direto, andamento firme e aquele espírito combativo que sempre definiu a banda. "Killer of Jesus" e "Strongest of the Strong" (essa um dos grandes destaques do disco) também mantêm esse clima mais agressivo, mostrando que o Kreator ainda sabe soar pesado e convincente quando pisa fundo.

O problema é que, conforme o disco avança, fica a sensação de que ele não sustenta o impacto inicial. Algumas músicas seguem caminhos mais cadenciados ou melódicos (flertando bastante com Arch Enemy, diga-se de passagem) demais para o que eu esperava, e isso acaba quebrando um pouco a intensidade geral do álbum. Não é que as composições sejam ruins, longe disso, mas muitas delas soam menos inspiradas, menos urgentes, como se faltasse aquele riff memorável ou aquele refrão que gruda de verdade.

Faixas como "Midnight Sun" chamam atenção pela tentativa de algo diferente, com clima mais melódico e até vocais femininos, o que é curioso, mas ao mesmo tempo me soa deslocado dentro de um disco que carrega um título tão agressivo. Já "Dying Planet", que fecha o álbum, tinha tudo para ser um encerramento apocalíptico e esmagador, mas acaba não atingindo o impacto emocional e sonoro que eu esperava de um final de Kreator.

Tecnicamente, o álbum é irretocável. A produção é pesada, moderna, tudo soa limpo e bem definido. Mille continua com presença vocal forte, Ventor mantém uma base sólida e precisa, e a banda como um todo mostra profissionalismo habitual de sempre. Ainda assim, falta aquele senso de perigo, aquela violência incontrolável que marcou discos como "Enemy of God", "Violent Revolution" ou até trabalhos mais recentes e intensos da banda.

No fim das contas, Hate Über Alles é um disco bom, competente e com momentos realmente fortes, mas que, para mim, ficou aquém do que eu esperava de um lançamento do Kreator. Não é um álbum descartável, nem de longe, mas também não é um daqueles trabalhos que me fazem voltar a ele com frequência ou que entram automaticamente no panteão da banda.




12º - GODS OF VIOLENCE (2017)


Gods of Violence representa, para mim, um dos pontos mais fortes da fase moderna do Kreator. Depois de anos de regularidade desde "Violent Revolution", esse álbum soa como a confirmação de que a banda encontrou um equilíbrio sólido entre agressividade, maturidade e identidade. A introdução "Apocalypticon" já cria um clima de tensão e grandiosidade, preparando o terreno para um disco pesado, ameaçador e confiante.

"World War Now" entra sem piedade, com riffs cortantes e vocais raivosos que remetem diretamente ao Kreator mais agressivo, agora com uma produção moderna e encorpada. A faixa-título mistura bem momentos épicos e explosões de fúria, enquanto "Satan Is Real" e "Totalitarian Terror" (que arregaço essa sequência) reforçam o lado mais direto e violento do álbum, com andamentos que pedem mosh e riffs bem marcantes.

O grande mérito aqui é como o álbum consegue ser brutal sem soar apressado. As melodias aparecem de forma bem dosada, assim como as influências de metal tradicional. "Hail to the Hordes" traz uma atmosfera quase ritualística, enquanto "Lion with Eagle Wings" e "Fallen Brother" adicionam peso e emoção, esta última claramente uma homenagem aos ícones do metal que já se foram, conforme própria declaração de Petrozza.

A produção é poderosa, limpa e pesada, sem tirar a aspereza necessária do thrash. Ventor segue sólido e preciso como sempre, e Mille demonstra maturidade tanto nos vocais quanto na composição. No fim, Gods of Violence não reinventa o Kreator, mas refina tudo o que a banda construiu desde o retorno nos anos 2000, reafirmando seu lugar no topo do thrash metal mundial.



11º - ENDLESS PAIN (1985)


Colocar Endless Pain aqui não é desprezar o álbum, é reconhecer que ele representa um começo visceral, um registro ainda cru, primitivo, violento e absolutamente sem filtros. Aqui a banda soa mais próxima do caos do underground do que de qualquer noção de refinamento musical, e isso é justamente parte do seu charme. O thrash ainda não está totalmente definido, mas a agressividade já é sufocante, com riffs simples, rápidos e cheios de urgência que beiram o death metal. É um disco que transborda raiva juvenil e fome por extremismo sonoro.

Um detalhe fundamental desse álbum é que Ventor divide os vocais com Mille Petrozza, algo que confere ainda mais brutalidade ao conjunto da obra. Os vocais de Ventor são mais rasgados, animalescos, enquanto Mille começa a moldar aquele timbre ríspido e venenoso que se tornaria sua marca registrada. Essa alternância vocal deixa o disco ainda mais selvagem e irregular, no melhor sentido possível, reforçando o clima caótico das composições.

Faixas como "Endless Pain", "Total Death" e "Storm of the Beast" são ataques diretos, sem espaço para respirar, enquanto "Tormentor" e 'Flag of Hate" se tornariam um dos primeiros clássicos da banda. A produção é áspera, a bateria soa quase desgovernada, mas tudo isso contribui para a identidade do álbum. Endless Pain não é apenas o começo da discografia do Kreator, é um documento histórico de uma banda aprendendo a canalizar sua fúria, mas já deixando claro que estava destinada a se tornar uma das forças mais violentas do thrash metal mundial.



10º - KRUSHERS OF THE WORLD (2026)


Krushers of the World mostra um Kreator plenamente consciente de sua própria história. Não há aqui a intenção de reinventar a roda, mas sim de reafirmar a posição que alcançaram na longa jornada da banda. O álbum soa como uma síntese do Kreator moderno, aquele que aprendeu a equilibrar agressividade, peso, melodia e consciência política sem perder identidade. É um disco muito sólido, confiante e feito por uma banda que sabe exatamente onde pisa.

A produção é robusta, limpa e poderosa, permitindo que cada instrumento respire. Ventor segue impressionando pela precisão e força, provando mais uma vez que é um dos bateristas mais subestimados do thrash metal. As guitarras de Mille e Sami trabalham muito bem entre riffs cortantes e solos mais melódicos, algo que já virou assinatura dessa fase da banda. O Kreator aqui soa pesado sem precisar ser apressado o tempo todo.

Faixas como "Seven Serpents" e "Krushers of the World" entregam riffs densos, cadenciados e cheios de impacto, enquanto "Barbarian" e "Blood of Our Blood" aceleram e resgatam a agressividade mais direta do thrash tradicional. Há também espaço para atmosferas mais sombrias, perceptíveis em músicas como "Tränenpalast", que adicionam uma camada extra de identidade ao álbum.

Mesmo não sendo um disco que busca o impacto histórico de um "Coma of Souls" ou a retomada explosiva de "Violent Revolution", Krushers of the World é extremamente honesto. Ele reforça a longevidade do Kreator e sua capacidade de permanecer relevante sem negar o passado. É um trabalho que cresce com o tempo, feito para ser absorvido aos poucos e com intensidade, e que confirma que os alemães ainda seguem esmagando ossos mundo afora, e para mim o melhor registro da banda desde Phantom Antichrist (2012).




9° - PHANTOM ANTICHRIST (2012)


Phantom Antichrist foi um dos lançamentos mais aguardados do Kreator na década de 2010, e não é difícil entender por quê: depois de alguns anos mostrando confiança e identidade renovada na carreira pós-"Violent Revolution", a banda entregou aqui um álbum que mistura agressividade com uma abordagem mais melódica e comovente, mas sem perder a brutalidade que sempre foi sua marca registrada.

O álbum abre com a atmosfera sombria de "Mars Mantra", uma introdução quase ritualística que prepara o terreno para a pancadaria que vem em seguida. A faixa-título explode em um thrash moderno e vigoroso, com riffs afiados e vocais rasgados de Mille Petrozza que mostram que, apesar das melodias, a banda ainda está aqui para agredir com estilo.

O que mais me chama a atenção em Phantom Antichrist é a maneira como o Kreator equilibra a brutalidade tradicional com elementos melódicos bem colocados. Em "Death to the World" e "Civilisation Collapse" sentimos peso e velocidade, mas também um senso de coro e impacto construído de forma trabalhada, quase como se a banda estivesse compondo para os palcos de grandes festivais. Já "From Flood Into Fire" cruza caminhos entre thrash e uma sensibilidade quase épica, com uma construção melódica que cresce lentamente e desemboca em um refrão marcante.

Esse álbum também traz momentos mais cadenciados, como "United in Hate", que usa atmosfera e dinâmica quase como um respiro entre as pancadas, mostrando uma banda consciente da necessidade de variar sem perder a intensidade. A diversidade de andamentos dá ao disco um caráter mais composicional, e não apenas uma sequência de pancadas, algo que o diferencia de trabalhos anteriores mais diretos.

Produzido por Jens Bogren, o som é claro e poderoso, colocando a guitarra de Sami Yli-Sirniö em destaque e valorizando tanto as partes mais violentas quanto as linhas melódicas mais elaboradas. Essa produção coesa ajuda o álbum a soar moderno sem perder a sensação de que cada música carrega a energia característica do Kreator.

Para mim, Phantom Antichrist representa um dos momentos mais interessantes da banda no novo milênio: é um disco que se apoia na agressividade do thrash, mas se constrói com ambições maiores, chegando a refrões e climas que resistem ao tempo. Não é simplesmente um retorno ao passado, nem um disco experimental desgovernado, é uma obra que mostra uma banda madura, ainda com fome, e totalmente confortável em misturar peso, melodia e técnica sem perder força.



8º -  PLEASURE TO KILL (1986)


Pleasure to Kill não é apenas um disco do Kreator, é um marco absoluto do metal extremo. Aqui a banda praticamente abandona qualquer amarra restante do thrash tradicional e entrega algo muito mais violento, caótico e descontrolado do que quase tudo que estava sendo feito na época. É um álbum que soa “perigoso” até hoje.

A produção é bem crua, agressiva e longe de ser “bonita”, mas isso joga totalmente a favor do disco. As guitarras soam serradas, a bateria é insana e a voz de Mille surge num ponto de ruptura, rasgada, quase inumana. Ventor, novamente, contribui nos vocais em alguns momentos, reforçando essa sensação de caos absoluto. Nada aqui parece confortável, e essa é justamente a graça de ouvir esse caos sonoro.

A abertura com “Choir of the Damned” já cria um clima de ritual macabro, preparando o terreno para a avalanche que vem em seguida. Quando “Ripping Corpse” entra, fica claro que o Kreator não está interessado em sutilezas. É velocidade, violência e agressividade em estado puro. O riff é direto, a bateria atropela e o vocal soa como um ataque.

Faixas como “Pleasure to Kill”, “Riot of Violence” (clássicos absolutos) e “Carrion” são verdadeiras aulas de como empurrar o thrash até o limite. Tudo é extremo: os riffs, os andamentos, os vocais e até as letras, que mergulham sem pudor em temas de morte, violência e destruição. Não há preocupação em soar acessível ou “bem produzido”.

Um dos pontos mais impressionantes do disco é como ele antecipa elementos que depois seriam fundamentais no death metal e no black metal. O uso constante de tremolo picking, a velocidade absurda e a abordagem quase blasfema criam uma atmosfera que vai muito além do thrash tradicional.

Mesmo hoje, Pleasure to Kill ainda soa agressivo, desconfortável e hostil. É um disco que não pede para ser gostado, ele impõe respeito por si só. Pra mim, é aquele tipo de álbum que não se avalia só pela técnica ou composição, mas pelo impacto histórico e pela sensação visceral que causa. Um clássico absoluto, sem concessões.



7º - HORDES OF CHAOS (2009)


Quando ouvi Hordes of Chaos pela primeira vez, o que mais me chamou a atenção foi a sensação de urgência visceral que sai do alto-falante, como se o Kreator tivesse decidido registrar não apenas músicas, mas a própria essência do thrash metal em estado bruto e sem filtros. Diferente de alguns álbuns que buscam o som limpo ou polido, aqui a banda fez algo bem ousado para os dias atuais: gravou a maior parte do disco ao vivo, com poucos overdubs e muita energia de ensaio capturada na fita, algo que não acontecia desde "Pleasure to Kill" em 1986, e isso dá uma textura especial ao som.

A faixa-título, "Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)", é um tapa direto na cara do ouvinte. Ela começa com aquele ritmo acelerado típico do thrash, riffs serrilhados e o vocal furioso de Mille pulverizando cada verso como uma declaração de guerra. A sensação de conflito imediato domina a música, que equilibra momentos de velocidade com quebras rítmicas certeiras, mostrando como a banda ainda sabe conduzir tensão e explosão em sequência.

Logo depois, "Warcurse" mantém o sangue fervendo com ataques rápidos e uma construção que lembra que, mesmo anos depois, o Kreator ainda sabe fazer thrash com intensidade visceral. A progressão dessa música dá um respiro mais cadenciado no meio do caos, deixando o peso respirar sem perder agressividade.

"Escalation" e "Amok Run" marcam um dos aspectos mais interessantes do disco: a alternância entre momentos mais rápidos e outros mais cadenciados sem que isso pareça deslocado. Em "Amok Run" em particular, a introdução quase arrastada cria um clima de tensão antes de explodir em velocidade, algo que demonstra uma maturidade na construção de climas, não é só acelerar e bater cabeça, é criar narrativa dentro de uma música.

"Destroy What Destroys You" tem aquele riff clássico que gruda logo na primeira audição e lembra um pouco da tradição teutônica do thrash dos anos 80, mas com uma pegada moderna e alinhada ao som que o Kreator vinha desenvolvendo desde "Violent Revolution". É o tipo de faixa que funciona tão bem ao vivo quanto em estúdio, com energia imediata e refrão contagiante.

"Absolute Misanthropy" destaca-se pelo uso criativo de harmonias e solos e é uma dessas músicas que te lembra que o Kreator não está apenas tocando agressividade, e sim dando forma a ela, com guitarras que batem palmo a palmo com a bateria de Ventor e um senso de composição mais trabalhado do que parece à primeira vista.

Então vem "To the Afterborn" e "Corpses of Liberty", que apresentam momentos mais densos e aproximações quase atmosféricas dentro do contexto do disco, criando variação sem quebrar a identidade central de violência controlada. Essas passagens mostram que a banda não tinha medo de respirar entre os golpes.

O fechamento com "Demon Prince" é simplesmente perfeito: uma mistura de riffs cadenciados, mudanças de andamento e aquele senso de encerramento digno de um álbum que se propôs a ser mais do que a simples soma de suas partes. Os solos finais, o clima marcante e a maneira como a música conduz o ouvinte para fora do caos são um reflexo claro de uma banda que, mesmo experiente, ainda sabe criar momentos memoráveis.

Liricamente, o disco passeia por temas de conflito, crítica social, caos global e misantropia com a veemência que sempre foi característica de Mille Petrozza. Não é apenas violência pela violência, mas uma visão crítica e direta do estado do mundo, e isso faz com que Hordes of Chaos ainda soe atual, mesmo anos depois de lançado.



6º - TERRIBLE CERTAINTY (1987)


Quando penso em Terrible Certainty, a primeira coisa que me vem à mente é a sensação de evolução agressiva com direção. Esse disco representa o momento em que o Kreator passa de uma banda visceral e caótica para algo mais afiado, calculado e com habilidade musical muito mais evidente, sem renunciar à ferocidade que define sua identidade. É como se a raiva de "Pleasure to Kill" tivesse sido refinada, moldada e apontada com mais precisão, e agora não apenas para causar impacto, mas para deixar uma marca.

Logo na faixa-título, você sente isso: o riff inicial é pesado, mecânico e decidido; não é apenas velocidade desenfreada, mas agressão estratégica. Mille Petrozza já não grita somente por gritar, ele comanda cada frase com intenção, como se soubesse exatamente onde cada palavra deveria ir, e Ventor, por sua vez, mostra que é muito mais que um baterista furioso, ele é um motor de precisão, capaz de conduzir mudanças de andamento com clareza e controle.

Faixas como "Blind Faith" e "Toxic Trace" são ótimos exemplos dessa maturidade. "Blind Faith" abre com um riff quase profético, quase ritualístico, carregando uma tensão crescente antes de desabar em velocidade e violência. A música demonstra que o Kreator já não estava só em busca de caos, mas de textura e impacto, alternando partes rápidas com momentos quase melódicos, algo ainda pouco explorado no thrash daquela época.

"Toxic Trace" traz uma pegada quase punk-metal moderna, com riffing cortante e refrões que grudam sem soar “populares”. É um equilíbrio interessante entre agressão bruta e composição ponderada. A bateria de Ventor aqui merece destaque porque, mais do que velocidade, ele explora rupturas rítmicas e variações que elevam a música além de uma simples sequência de pancadas.

Este trabalho flerta tanto com críticas sociais quanto com uma introspecção mais sombria, refletindo bem o clima do final dos anos 80: a política global movimentada devido a guerra fria, a tensão cultural e o próprio senso de alienação presente no metal extremo. Mille sempre teve esse olhar ácido sobre o mundo, e aqui ele começa a formular isso de forma mais madura e articulada.

O curioso é que, mesmo quase quatro décadas depois, Terrible Certainty ainda soa ameaçador e atual. Não é um disco que fica preso no tempo; ele tem uma presença que ainda confronta, especialmente quando você presta atenção na forma como as músicas se constroem e explodem.

Para mim, esse álbum não é apenas um marco evolutivo do Kreator, mas um dos discos que consolidou o thrash alemão como algo mais do que velocidade e sim uma forma de arte agressiva, consciente e capaz de falar sobre muito mais do que caos sonoro. É um registro obrigatório para qualquer fã de thrash metal.



5º - CAUSE FOR CONFLICT (1995)


Quando vejo Cause for Conflict colocado tão alto na minha lista (muita gente vai se surpreender) e eu entendo por que: ele surgiu em um momento complicado do thrash e do metal em geral. No início dos anos 90, o thrash clássico havia perdido parte de sua centralidade e muitas bandas buscavam caminhos diferentes. Mas, para mim, exatamente por isso "Cause for Conflict" é um dos discos mais interessantes e ousados do Kreator, não um retrocesso ao passado, mas uma reinterpretação agressiva do thrash sob uma perspectiva madura e quase profética.

Uma das curiosidades mais marcantes deste álbum é que é o único disco de estúdio do Kreator sem o lendário Ventor na bateria, que optou por sair devido a problemas pessoais e musicais na época. Em seu lugar, assume Joe Cangelosi, veterano do cenário thrash americano, e isso faz diferença (esse cara é um monstro). O ataque rítmico aqui tem uma pegada mais seca, mais cortante, quase mecânica em alguns momentos, dando ao álbum uma sensação de peso calculado e tensão contínua, algo que dialoga muito bem com a proposta lírica e temática do disco.

Esse choque de estilos começa logo com “Prevail”, que já entra pesada, com riffs densos e um andamento que lembra aquele thrash mais sinistro, sem perder a agressividade, quase caminhando lado a lado com o groove metal que começava a surgir na época. Ao mesmo tempo, “Catholic Despot” recoloca a banda no terreno tradicional com riffs cortantes e vocais furiosos, mostrando que Kreator sabia manter a ferocidade mesmo em terrenos novos.

Algo que sempre me chamou a atenção é o clima geral das primeiras músicas: há um ar que remete ao nosso Sepultura de "Arise" e "Chaos A.D.", não no sentido de imitá-los, mas no modo como a bateria e os riffs foram compostos com a agressividade, cadências que o Sepultura sempre fez tão bem.

O álbum segue com momentos que exploram mais ainda a forma criativa e consistente da banda. “Progressive Proletarians” e “Crisis of Disorder” trazem grooves pesados e mudanças de andamento que mantêm a agressividade sem recorrer à pura velocidade, usando a dinâmica como ferramenta de impacto. Em “Lost” (única do disco que ainda figura no setlist da banda, infelizmente), mais cadenciada, há uma sensação quase introspectiva e sombria que conecta bem com as letras que falam de alienação e crise de identidade, algo que poucos discos de thrash conseguem transmitir com tanta clareza.

A produção do disco, que pode ser chamada de “seca”, na verdade casa muito bem com a proposta: não é um som polido nem clássico demais, é um som de confronto e fricção, com cada guitarra, cada batida e cada palavra parecendo ecoar mais como um ataque direto à complacência do cenário musical da época e por isso que, para mim, o disco funciona tão bem, sem falar em Mille Petrozza, que está mais ácido e incisivo, com críticas sociais que não são apenas superficiais, mas desdobram sensação de saturação, tensão e urgência. Não é um álbum “político à toa”, ele captura o espírito de um período em que o mundo parecia instável, incerto e à beira de conflitos maiores.

Se eu pudesse definir Cause for Conflict em uma palavra apenas, seria: DEVASTADOR! E só por isso já deveria ser o suficiente pra você pegar uma cerveja e colocar ele no talo em seu som.



4 º - EXTREME AGRESSION (1989)


Extreme Aggression é um dos discos mais emblemáticos da discografia do Kreator, aquele momento em que a banda sai definitivamente do underground e se coloca como uma potência mundial do thrash metal. Aqui não há mais experimentações radicais, nem caos direto; há agressão, sim, mas com propósito, técnica e foco.

O que chama atenção logo de cara é a clareza da sonoridade. A produção de 1989 é mais definida do que nos lançamentos anteriores, dando espaço às guitarras de Mille e Jörg Michael que agora soam mais afiadas sem perder peso, e permitindo que a bateria de Ventor converse de forma mais articulada com os riffs. Não é apenas “rápido e brutal”, aqui a banda parece querer mostrar que velocidade com inteligência pode ser ainda mais devastadora.

A faixa-título, “Extreme Aggression”, é um manifesto direto: riffs pulsantes e agressivos, arranjos coesos e aquela sensação de urgência constante. O disco abre com impacto imediato e não perde energia, como se cada música dissesse “não espere gentileza, espere o caos”. “Betrayer” é outro momento de destaque absoluto, onde talvez seja um dos riffs mais memoráveis de toda a carreira do Kreator, com andamento que equilibra agressividade e groove de forma impecável.

“Love Us or Hate Us”, apesar do título provocativo, é quase um hino de identidade: a banda parece confrontar o mundo inteiro, indiferente a aceitação ou críticas, e isso transparece em cada estrofe. O vocal de Mille aqui é destemido, cheio de atitude, e carrega a sensação de uma banda que não está interessada em agradar, mas em afirmar sua verdade.

Um dos aspectos mais interessantes do álbum é a coerência interna. Não há faixas “de preenchimento” ou momentos que desacelerem demais o andamento. Mesmo quando a banda retoma temas mais cadenciados ou pesados, como em “Some Pain Will Last”, tudo soa como parte de um discurso maior, não como uma quebra de ritmo gratuita. Há um fluxo contínuo de violência calculada que torna a audição do disco inteira uma experiência épica.

Outro detalhe que sempre me marcou é a evolução perceptível das composições. Comparando com os discos anteriores, percebe-se que o Kreator aqui já não está apenas reagindo à cena; está ditando padrões. Há técnica, sim, mas sem jamais diluir a força bruta. É como se o pensamento do Kreator fosse: “Nós já mostramos que podemos ser selvagens e agressivos, agora mostramos que podemos ser inteligentes dentro dessa selvageria”. E enquanto os primeiros álbuns exploravam temas mais diretos de violência e caos, aqui há uma camada adicional de crítica, de observação social, de confronto com hipocrisias e com a própria condição humana de conflito.

Esse disco, para mim, representa o momento em que o Kreator se torna completo: nem apenas brutal, nem apenas técnico, mas sólido em ambos. Ele não deve nada outras grandes obras do thrash dos anos 80 e, na verdade, dialoga com elas de maneira madura, tanto que muitas bandas que surgiram depois parecem ter aprendido justamente com a forma de como o Kreator equilibrou o caos estruturado aqui.

Colocar Extreme Aggression no 4º lugar da minha lista não é apenas uma questão de nostalgia; é reconhecer que esse álbum é um símbolo de coesão, impacto e evolução dentro do catálogo da banda. Ele é agressão com propósito, violência com direção, e isso o torna indispensável em qualquer coleção de qualquer headbanger que se preze.



3º - ENEMY OF GOD (2005)


Enemy of God é a confirmação madura e explosiva de que o Kreator havia realmente encontrado sua segunda vida no thrash metal, e não apenas um retorno momentâneo. Depois da onda revigorante de "Violent Revolution", esse álbum chega com uma clareza criativa que parece dizer: “não estamos aqui apenas para reviver o passado, estamos aqui para dominar o presente”. E domina. Aqui, a banda ataca com uma fúria consciente, combinando peso clássico e técnica refinada.

O disco abre com a faixa-título como um soco direto no estômago, riffs cortantes, bateria incisiva e vocais de Mille Petrozza entregues com aquela raiva afiada, mas agora com maior controle e precisão. A própria letra e a temática da música sugerem uma crítica feroz ao fanatismo e ao extremismo, algo que não soa pedante nem gratuito, mas sim conectado com o espírito de desconfiança e tensão daquele tempo (e do atual também). A escolha do tema dá ao álbum uma profundidade temática que vai além do tradicional “ódio pela violência” e entra na esfera crítica de cenários sociais complexos.

O impacto desse disco se deve bastante à produção e ao entrosamento da banda. A mixagem de Andy Sneap é no mínimo, fantástica, as guitarras de Mille e Sami ganharam mais força, a cozinha é poderosa sem ser opressora, e Ventor entrega talvez uma de suas performances mais completas, equilibrando precisão e fúria. A bateria aqui não é apenas velocista, ela é estrutural, ela controla o pulso das músicas, muda o clima e sustenta as transições sem soar previsível.

Não é só agressividade pura: "Impossible Brutality" é um ótimo exemplo de como o Kreator consegue inserir melodias afiadas dentro de um ataque thrash, sem que isso soe “macio”. É aquele thrash um pouco mais cadenciado, riffs marcantes, refrões memoráveis e aquele senso de arranjo que faz o disco funcionar como um bloco orgânico, não apenas uma sequência de pancadas. Em "Suicide Terrorist", por exemplo, a alternância entre partes rápidas e outras mais pesadas constrói uma narrativa musical intensa, quase cinematográfica. Já "Voices of the Dead" e "Dystopia" exploram climas menos imediatos, mas ainda carregados de tensão, mostrando que o Kreator aqui não tem medo de respirar antes de atacar de novo.

Enemy of God critica, questiona e observa conflitos sem se esconder atrás de metáforas rasas. É visceral, mas com sentido e isso o coloca num patamar em que o peso não é apenas sonoro, mas também intelectual.

Para mim, Enemy of God é um disco que resume como uma banda veterana pode, sim, continuar relevante décadas depois do início da carreira e ainda assim lançar clássicos. Ele não se apoia apenas na nostalgia, nem tenta imitar os anos 80; ele usa a experiência acumulada para entregar um trabalho consistente, poderoso e cheio de personalidade.



2º - VIOLENT REVOLUTION (2001)


Violent Revolution é aquele momento exato em que o Kreator assume o próprio destino de volta. Depois de uma década de experimentações, altos e baixos, e algumas fases que dividiram opiniões, a banda retorna com um álbum que soa tão faminto e urgente quanto nos anos dourados, mas com uma consciência técnica e sonora que só vem com experiência.

O que mais impressiona em "Violent Revolution" desde a primeira audição é o clima de renovação controlada. A faixa-título explode com riffs poderosos e imediatos, sem firulas, direto no ponto. Não é apenas velocidade pura; há uma pegada mais cadenciada em alguns momentos, construção de tensão e um senso de dinâmica que não se via nos primeiros trabalhos da banda. Mille Petrozza soa mais confiante do que nunca, com vocais raivosos que não pertencem apenas ao passado, mas são adequados ao presente.

Há um senso de propósito nas composições muito interessante. Especialmente em “Reconquering the Throne”, que além de título emblemático, funciona como um manifesto: a banda não está tentando apenas recriar antigos sucessos, ela está reconstruindo o thrash com autoridade e reconquistando o trono, como se todas as feridas e experimentações anteriores se transformassem em munição para algo inexoravelmente brutal e orgânico.

Outro destaque do álbum é “Second Awakening”, que traz um riff criativo e um andamento que oscila entre peso e velocidade de forma inteligente. Não é uma música “rápida do início ao fim”; ela respira, constrói e atinge picos muito bem colocados. Isso demonstra como o Kreator já não dependia só de brutalidade, havia dinâmica, narrativa interna e espaço para variação sem perder impacto.

“Servant in Heaven – King in Hell” é outra faixa emblemática dessa fase. Ela mistura agressividade com um senso quase progressivo de desenvolvimento melódico. Aqui a banda mostra que ser violento não é sinônimo de ser monótono. Os riffs têm personalidade, as transições são naturais e, acima de tudo, a música conversa com você, e não apenas passa por cima dos nossos ouvidos.

A produção merece menção especial e ficou a cargo de ninguém menos que o mago Andy Sneap (esse cara é foda. Gravado em um período em que muitos veteranos do metal pareciam estagnados ou repetitivos, Violent Revolution soa moderno e visceral ao mesmo tempo. A mixagem dá espaço às guitarras cortantes sem deixar a bateria e o baixo enterrados, onde tudo tem corpo, peso e presença.

Esse trabalho também acerta ao não soar excessivamente retrô. Ele respeita a tradição do thrash, mas incorpora elementos modernos sem se render a modismos. Isso cria uma ligação direta entre o velho e o novo, algo que poucos discos conseguem fazer tão bem. Ele não é uma imitação do passado nem uma tentativa forçada de ser “moderno demais”, ele simplesmente é criativo dentro da própria tradição do gênero.

Para mim, Violent Revolution é um dos pontos mais altos da discografia do Kreator porque mostra uma banda que decidiu olhar para sua essência com os olhos de quem já viveu muito, mas ainda tem muito a dizer. É um álbum que não apenas devolveu o Kreator ao centro da cena thrash, como o colocou em destaque novamente, e fez isso com música relevante, impactante e absolutamente visceral.

Esse trabalho definitivamente merece o lugar de destaque onde está, porque funciona tanto como um revigoramento da identidade da banda quanto como um álbum que se sustenta muito bem por si só, mesmo décadas depois de seu lançamento. Um clássico absoluto!



1º - COMA OF SOULS (1990)


Coma of Souls não é apenas o ápice da discografia do Kreator, ele é um dos grandes monumentos do thrash metal como um todo, uma obra que combina brutalidade, técnica, consciência e profundidade de forma rara na história do gênero. Quando esse álbum foi lançado em 1990, a banda já havia passado por ensaios brutais (Pleasure to Kill), amadurecimento técnico (Terrible Certainty), e refino de identidade (Extreme Aggression). Mas "Coma of Souls" é o ponto em que tudo isso se transforma em arte contundente e plenamente realizada. É um disco que respira inteligência e peso ao mesmo tempo.

Desde a abertura com “When the Sun Burns Red”, o clima é imersivo e ameaçador. A guitarra de Mille e Frank cria um som cortante, pontuado por uma bateria precisa e dinâmica que não apenas guia, mas colabora para a construção de tensão. Não há pressa aqui, pois cada riff tem espaço para respirar, cada mudança de andamento é pensada, o que cria uma sensação mais profunda de agressão calculada, em vez de simples velocidade desenfreada.

“People of the Lie” é um dos grandes hinos não só do álbum, mas da banda e do thrash, com um riff que entra direto na cabeça e não sai. A letra é afiada, falando de hipocrisia e falsidade social com uma clareza que poucas bandas de thrash compensam com tanta eficiência. Enquanto muitos trabalhos do estilo mergulham apenas na violência sonora, aqui a violência tem propósito narrativo, ela é direcionada, expressa insatisfação e crítica.

O que mais me impressiona em "Coma of Souls" é como ele usa dinâmica e variação de climas sem perder a agressividade. Em faixas como “Terror Zone” e “No Escape”, você sente a banda mudando de intensidade com uma precisão quase cinematográfica: partes cadenciadas que constroem tensão, explosões repentinas de velocidade e momentos marcantes que fazem parte da narrativa da música.

“Agents of Brutality” é outro destaque absoluto, um ataque sonoro com riffs serrilhados, bateria incansável e um senso de urgência que te agarra desde os primeiros segundos. Essa música, assim como outras do álbum, demonstra que o Kreator de 1990 já não era apenas uma banda de thrash agressiva, mas um grupo que entendeu como trabalhar tensão e variação de textura sem perder o impacto visceral.

Em relação a produção, Coma of Souls representa um salto maior ainda. O som é mais limpo o suficiente para destacar cada instrumento, mas ainda pesado o bastante para manter a brutalidade intacta. Isso proporciona uma experiência auditiva onde os detalhes importam, onde você ouve o peso dos riffs, os acentos da bateria, as nuances de cada mudança de andamento.

Outro ponto que sempre me marcou é a coesão do álbum como obra completa. Assim como grandes discos conceituais, aqui tudo se conecta: os temas exploram conflito, crítica social e tensão humana, e as músicas se encadeiam de forma que faz sentido ouvir o álbum inteiro de uma vez, em sequência. Não é coleção de petardos isolados, é narrativa agressiva com começo, meio e fim.

O impacto histórico de Coma of Souls também não pode ser subestimado. Ele chegou em um momento em que o thrash estava se ramificando em muitas direções, e mostrou que ainda havia espaço para trabalhos que combinassem técnica, peso e significado sem virar “metal comercial” nem se perder em experimentações gratuitas.

Por isso que, para mim, esse disco é o suprassumo do Kreator porque ele encapsula tudo o que a banda já havia construído até ali (brutalidade, consciência, técnica e identidade) e eleva isso a um nível onde o impacto sonoro se funde com impacto emocional e intelectual. Não é apenas um clássico da banda, mas um dos maiores clássicos do thrash metal na história, e ele sempre figurará no topo porque ele é completo em todos os sentidos.




DEATH TO ALL - 20/01/2026 - BAR OPINIÃO - PORTO ALEGRE/RS

 


DEATH TO ALL
20/01/2026
BAR OPINIÃO
PORTO ALEGRE/RS
Produção: Abstratti Produtora/Overload

Texto: José Henrique Godoy
Fotos: Billy Valdez

Brutalmente linda ou lindamente brutal. É assim que devo classificar a noite de 20 de janeiro de 2026 e os eventos ocorridos no palco/plateia do Bar Opinião em Porto Alegre. O Death To All entregou tudo e muito mais que os fãs do icônico Chuck Schuldiner e do Death esperavam.

Não é necessário falar aqui a importância do Death e do seu mentor para o Metal Extremo e o Heavy Metal num geral. Seria redundante da minha parte. Infelizmente o público brasileiro nunca teve a oportunidade de ver ao vivo o Death original, porém no espaço quase exato de um ano, tivemos duas tours das bandas que homenageiam o legado de Chuck Schuldiner.

Em janeiro de 2025, tivemos o Left To Die, formado pelos ex-membros do Death Rick Rozz e Terry Butler, focando na fase mais primitiva e com o set list focado nos primeiros álbuns do Death. Foram ótimos shows. Agora, foi a vez do Death To All, que foca praticamente todos os álbuns da banda e com dois ex-integrantes da fase mais técnica: os monstros Steve DiGirogio (baixo) e Gene Hoglan (bateria). Completam a formação Bobby Koelbe (também ex-membro do Death) e Max Phelps (Cynic).

Se o Left To Die entregou ótimos shows em 2025, o Death To All arregaçou !! Às 21h em ponto, inicia-se o massacre, com a intro “Infernal Death” e logo o quarteto entra no palco e despejam “Living Monstrosity“ e “Defensive Personalities” as duas do seminal “Spiritual Healing”, álbum que é o preferido deste que vos digita. Nos segundos iniciais de “Living...”, o mosh pit iniciou loucamente e foi assim durante todas as duas horas de show!!!



“Lack Of Comprehension” deu sequência e a energia trocada pela banda e público (em excelente número) era de emocionar. “Altering The Future” é a próxima antes da primeira pausa, quando Steve Di Giorgio pega o microfone e saúda os presentes. Ele fala que estamos todos lá presentes para homenagear e manter o legado de Chuck mais vivo do que nunca. Neste momento um fã levanta um cartaz onde está escrito “Chuck Lives”. Steve aponta e pede que o fã vire e mostre o cartaz para que todos os presentes possam ver.

“Zombie Ritual”, “Within The Mind”, “The Philosopher” e “Spiritual Healing” não deixam pedra sobre pedra. O Mosh pit se torna insano a cada riff e se você não é adepto da prática, é melhor sair da pista. Foi o que eu fiz!!! Aliás, em quase trinta anos assistindo shows no Bar Opinião, creio esta deve ter sido uma das rodas/mosh pit mais insanas que eu presenciei! Não lembro de nenhuma parecida.



No palco a banda estava se divertindo também. Era visível as caras de alegria e satisfação dos músicos. E que músicos! Steve DiGiorgio é um dos maiores baixistas da música pesada de todos os tempos. A destreza dele com um baixo de TRÊS (!!!) cordas é inacreditável!!!! Gene Hoglan igualmente, é uma força da natureza. Sua habilidade e técnica são únicas, e é obrigação de todo aquele que se diz baterista neste mundo fazer reverência à este cidadão. Max e Bobby, a dupla de guitarristas, soa perfeita e cirúrgica, e a similaridade do vocal de Max com a do saudoso Chuck chega a assustar! Sensacional!

Steve novamente vai ao microfone e anuncia a “segunda parte do show” O clássico álbum “Symbolic” será tocado na íntegra! E assim se fez!!! Que momento especial ver um dos melhores álbuns do Death tocado de ponta a ponta por uma banda tão coesa e fiel a gravação original! Da abertura com “Symbolic” até a última faixa “Perennial Quest”, a execução deste clássico ao vivo!



Infelizmente, todo grande espetáculo tem seu final e ele vem com “Spirit Crusher” e “Pull The Plug” do álbum “Leprosy”, que fecha a noite com chave de ouro! A felicidade na cara dos músicos e dos presentes no Opinião demonstrava o dever cumprido de ambos: a banda fez um show perfeito e o público respondeu a altura. Fico pensando como a galera que ficou no mosh pit durante duas horas foi trabalhar no dia seguinte! Uma coisa tenho certeza: com um sorriso no rosto ao se lembrar do que o Death To All proporcionou na noite anterior.

Agradecimentos a Abstratti Produtora, Overload e à Tedesco Comunicação e Mídia pelo credenciamento e ao staff do Bar Opinião pela cordialidade de sempre!





terça-feira, 20 de janeiro de 2026

EDENBRIDGE - SET THE DARK ON FIRE (2026)


 

EDENBRIDGE
SET THE DARK ON FIRE 
Steamhammer/SPV - Importado

O grupo austríaco EDENBRIDGE retorna com seu décimo segundo álbum, intitulado SET THE DARK ON FIRE, um trabalho que representa tanto o retorno da banda à Steamhammer/SPV quanto seu som mais pesado. Mas, ao mesmo tempo, permanecem fiéis ao estilo que lhes garantiu muitos fãs ao longo dos anos. O som do grupo sempre primou pela elegância e melodia, e dessa vez, não poderia ser diferente, considerando sua produção grandiosa. O álbum é mais um daqueles trabalhos que soam quase como se fossem uma "metal opera", trazendo elementos e letras unidas por um tema que aborda de narrativas e temas ligados à vida e aos elementos naturais da terra.

Completando 27 anos de carreira, o grupo formado pela vocalista Sabine Edelsbacher, pelo guitarrista e tecladista Arne "Lanvall" Stockhammer (principal compositor), Pelo também guitarrista Sven Sevens e pelos baixista e baterista, respectivamente, Stefan Gimpl e Johannes Jungreitmeier, nos traz um álbum, como já citado anteriormente, bastante pesado, mais voltado ao Heavy Metal, mas sem deixar de lado suas características melódicas, com passagens sinfônicas e orquestrações muito bem elaboradas, cortesia de Lanvall. A bonita capa entrega aquilo que ouviremos: uma mistura entre o peso e a harmonia, numa bela coleção de momentos que se fundem, criando o clima perfeito para a sonoridade do grupo.

"The Ghostship Diaries" abre o álbum com guitarras pesadas numa pegada bem metal tradicional, enquanto a bela voz de Sabine nos guia pelas harmonias da composição. E aqui eu deixo um questionamento: porque Sabine nunca é lembrada como uma das grandes vocalistas do estilo? Sua voz é suave e ao mesmo intensa, forte, sem precisar fazer malabarismos mirabolantes pra ficar em evidência. Baixo e bateria garante uma base pesada, mostrando a ótima escolha para a abertura: uma faixa impactante e criativa! Na sequencia, outro momento bastante pesado e denso "Cosmic Embrace". Apesar de passagens mais suaves, que ganham maior consistência na voz da vocalista, os riffs garantem a intensidade que o estilo praticado pelo grupo pede. No entanto, uma pegada mais medieval, com toques de Blackmore's Night, invade "Where the Wild Things Are", com um refrão melódico e de fácil assimilação. A curta instrumental "Tears of the Prophets" antecede "our Palce Among the Stars", que faz o ritmo cair, não em intensidade, mas em velocidade. Num andamento mais lento, a banda explora várias nuances, navegando entre o sinfônico e o melódico, enquanto Sabine mostra sua qualidade em belas linhas vocais.

A faixa-título, "Set the Dark on Fire", é uma composição com toques mais modernos, em mais um ótimo momento da duplas Stefan e Johannes, que formam uma cozinha coesa e entrosada. A faixa traz também um dos refrãos mais voltados ao metal melódico do álbum. "Bonded by the Light", por sua vez, me remeteu a alguma trilha sonora, daqueles filmes ambientados na Nova Yorque dos anos 50/60. Um momento mais suave e belo dentro de um álbum intenso. "Divine Dawn Reveal", outra pequena instrumental, com elementos folk e celtas, nos guia até "Lighthouse", uma faixa grandiosa, épica e imponente, de longe, o momento mais melódico e sinfônico do trabalho. O encerramento vem com "Spark of the Everflame", dividida em quatro partes. Na verdade, são quatro faixas totalmente diferentes. "Let Time Begin", é como se fosse uma intro majestosa, que antecede "The Winding Road to Evermore", que em certos momentos, nos remete ao metal mais atual, até mesmo ao que bandas como o Evanescence fez em algum de seus trabalhos. Mas eles não têm a classe e categoria de Sabine. "Per Aspera Ad Astra" traz elementos sinfônicos muito bonitos enquanto "Where it Ends, Where it Starts", encerra o álbum com todos os elementos do Edenbridge: melodias, belos vocais, solos técnicos, elementos sinfônicos e muita classe.

SET THE DARK ON FIRE não é um álbum inovador. Muito menos estará entre os melhores álbuns do ano deste que vos escreve. Mas é um trabalho revigorante de uma banda que merecia (e merece) um maior reconhecimento por parte do público e não apenas por seus fãs. Guitarras pesadas, belas melodias e uma vocalista que canta de forma suave sem exageros, fazem do EDENBRIDGE uma banda a se conhecer melhor.

Sergiomar Menezes






segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

REBEL ROCK ENTREVISTA - THE MIST

 


O álbum “The Dark Side of the Soul (An Anatomy of the Soul)”, sucessor do EP The "Circle of the Crow" (2022), marca o retorno da banda mineira — atualmente formada por Vladimir Korg (vocal), Edu Megale (guitarra), Wesley Ribeiro (baixo) e Lina Linassi (bateria) — às suas raízes mais puras do thrash metal, agora aprofundadas por uma atmosfera ainda mais sombria, conceitual e agressiva, com produção assinada por André Damien no estúdio Maçonaria do Áudio e mixagem e masterização a cargo do renomado produtor dinamarquês Tue Madsen, conhecido por trabalhos com nomes como Meshuggah, Rob Halford, Moonspell, Behemoth, Vader, Vio-lence, Ektomorf e Kataklysm, enquanto a impactante arte de capa resgata uma ilustração de 1983 do lendário artista Michael Whelan, célebre por trabalhos para Stephen King, H.P. Lovecraft e bandas como Obituary e Sepultura. Lançado mundialmente em novembro pela gravadora portuguesa Alma Mater Records, fundada por Fernando Ribeiro (Moonspell), com distribuição da BloodBlast, braço da Believe/Nuclear Blast, o disco dá continuidade à tradição de obras conceituais do grupo, como o clássico "The Hangman Tree", porém com uma abordagem ainda mais visceral e perturbadora, construindo uma narrativa distópica guiada por diálogos entre uma alma atormentada e um cérebro tomado pela fúria, em uma crítica cortante à condição humana contemporânea, onde vaidade, futilidade e ódio são expostos sem piedade em letras que, segundo Korg, pretendem “cortar o ouvinte em pedaços”, ideia reforçada pela própria gravadora, que destaca diálogos improváveis e provocações diretas — como a inquietante pergunta “É agora que todos vão morrer?” — para definir o álbum como uma obra intensa, sem concessões, que não apenas atualiza como fortalece o thrash metal forjado em Belo Horizonte, entregando da primeira à última faixa um verdadeiro “quebra-pescoços” brutal, crítico e absolutamente fiel à essência do gênero. William Ribas bateu um papo com Korg a respeito do novo álbum e o resultado você confere à seguir.

Por William Ribas
Fotos: Alexandre Biciati

Rebel Rock: São trinta anos separando Gottverlassen de The Dark Side of the Soul. A resenha que escrevemos destaca que o mundo mudou para pior nesse tempo — ficou mais cínico e medíocre. O que foi o "estopim" para que o The Mist decidisse que agora era o momento exato para quebrar esse silêncio e lançasse um novo trabalho de inéditas? 

Vladimir Korg: Tínhamos a possibilidade de um contrato com uma gravadora bastante renomada por meio de um agente, mas precisávamos ter algo novo. Eu e Megale nos concentramos para criar músicas novas dentro de um conceito que eu já tinha escrito desde 2019. Nosso tempo foi curto, e eu mesmo fiz a produção executiva para agilizar o processo. Tínhamos realmente o tempo contra nós, mas conseguimos. Só que precisávamos de um montante de dinheiro para dar andamento ao contrato, e não conseguimos levantar esse valor. Tínhamos um álbum, e eu acreditava muito no potencial do trabalho. Foi desgastante, principalmente para mim e para o Megale. Decidi levar a produção adiante e lançar o álbum como lancei o EP The Circle of the Crow, mas o Fernando Ribeiro (Moonspell), dono da Alma Mater Records, tinha me feito um convite para fazer parte do cast e lançar algo novo, e eu tinha esquecido totalmente disso. Isso ajudou bastante a alavancar o álbum e levá-lo para a Europa e para outros continentes. Ficamos com o álbum dois anos até o lançamento definitivo e, mesmo assim, ele não perdeu seu frescor, seu olhar contemporâneo de crítica e indignação. Acho que o conceito ajudou bastante, pois a questão da desumanização e da futilidade que vivemos hoje só piorou. 

Rebel Rock: As bandas dos anos 80/90 retornam apoiadas puramente na nostalgia. O novo álbum, contudo, soa moderno e soa como um "acerto de contas”. Como foi o processo mental da banda para evitar a armadilha de tentar soar como em 1991 e, em vez disso, criar algo que soe relevante?

Korg: Não foi difícil, porque não foi intencional. Apenas fizemos o que sabemos fazer: música! Soar como o passado é meio perda de tempo, porque, na época, queríamos falar sobre o nosso tempo e não sobre coisas antigas. O EP já dava uma pista de que não estávamos mais presos ao passado.Sempre puxamos a orelha dos nossos fãs quando citam 1991 ou o The Hangman Tree, porque somos a continuação do Gottverlassen e não do The Hangman Tree. Há uma cronologia lógica no caminhamento da banda. Mesmo que eu não tenha participado do Ashes to Ashes e do Gottverlassen, esses trabalhos não podem ser ignorados.Somos uma banda que trata de coisas do agora, como éramos quando fizemos nossos trabalhos do passado. É impossível e desnecessário fazer emulações dos anos passados, porque não somos mais as mesmas pessoas, e tampouco precisamos seguir cartilhas do metal moderno para parecermos atuais. 

Wesley Ribeiro, Edu Megale, Vladimir Korg, Lina Linassi

Rebel Rock: Aproveitando, como foi achar o equilíbrio certo entre preservar a essência clássica do The Mist e incorporar uma brutalidade contemporânea?

Korg: Não pensar sobre isso. Apenas fizemos o álbum. Nosso objetivo era sair daquilo vivos e razoavelmente normais (parece que falhamos neste último). Não tivemos muito tempo para pesquisar ou trilhar um caminho. Apenas passamos madrugadas compondo. Compusemos o álbum todo em dois meses e meio. Algumas músicas eu cantei pela primeira vez dentro do estúdio. 

Rebel Rock: O conceito de "Anatomia da Alma" é fascinante e perturbador. A ideia de dar voz a órgãos (Fígado, Pulmões, Coração) para dialogar com a alma cria uma narrativa muito visual. De onde surgiu essa ideia de dissecar a condição humana biologicamente e moralmente?

Korg: Foi algo planejado desde o início ou surgiu durante as composições? A ideia me veio à cabeça assistindo a uma dissecação de um cadáver na sala de anatomia da Faculdade de Medicina, em 2019. Comecei a escrever o álbum a partir daí. O lance era não fazer algo centrado em anatomia, e sim criar uma poética tendo como base as estruturas anatômicas.É claro que eu tinha represado muita coisa, muitos sentimentos e tal desde a pandemia. Foi colocar tudo em um caldeirão e mexer. É muito legal quando alguém sente essa perturbação que você disse, porque prova que o álbum foi ouvido — coisa difícil hoje em dia. 

Rebel Rock: Korg, seus vocais neste disco soam diferentes de tudo que você já fez. Há um desespero, uma alternância entre o escárnio e o pedido de socorro que soa incrivelmente. Como foi a preparação emocional para gravar vozes que precisavam soar como alguém "preso dentro do próprio corpo”? 

Korg: Acho que a urgência do álbum não me deu muito tempo para elaborar. Tive que me virar e me concentrar em como a música e as canções me afetavam. Tive uma excelente direção do André Damien, que me puxou a orelha às vezes quando minha falta de confiança batia. Sua presença na primeira fase da gravação foi muito importante. Acho que ele percebeu a responsabilidade do trabalho e o quão histórico, para a marca The Mist, era aquela confusão toda. 

Vladimir Korg

Rebel Rock: Na faixa “Geppetto's Song”, existe uma crítica ácida ao que chamamos de "contos de fadas”. Por que foi importante para vocês desconstruir essa visão inocente? Vocês acreditam que essa infantilização da sociedade é parte da doença moderna que o álbum diagnostica?

Korg: Sempre usei o The Mist como dispositivo para criticar uma moral muito “estadunidense”, à qual a minha geração foi submetida. E o universo da Disney foi muito utilizado para isso. A questão da mulher princesa, o homem como príncipe encantado, e como eram colocadas as coisas para as crianças, como elas deveriam se portar e tal. Sempre em um universo branco, perfeitinho demais e, é claro, inalcançável para pessoas nascidas no terceiro mundo, pessoas pretas ou fora do padrão que eles criaram. Sobre a infantilização, eu penso muito nisso de uma outra perspectiva. Acredito muito que seja uma imbecilização coletiva, e a internet e as redes sociais ajudaram muito para que isso acontecesse. Não que a internet seja a culpada por isso; ela se tornou um meio para que os imbecis se manifestem. Não estou falando sobre política, mas ela também está aí. As pessoas parecem ter descoberto que, sendo estúpidas, conseguem se comunicar melhor com mais pessoas e se destacar dentro desse universo; ou seja, os estúpidos estão mais organizados e em grupos imensos, em um universo de estupidez cada vez maior. As pessoas que realmente poderiam fazer diferença estão lendo livros ou angustiadas dentro de um mundo em que elas têm que dar uma espécie de moonwalker intelectual para serem entendidas. 

Rebel Rock: As letras expõem vaidade, futilidade, ódio e medo com brutalidade pouco comum. Vocês enxergam esse disco como um reflexo direto do mundo atual ou como algo mais íntimo e autobiográfico?

Korg: Um pouco dos dois. Às vezes, um pouco de alerta, mas sem nada messiânico. Quando eu falo que todo mundo morre e você tem que dar um jeito na porra da sua vida, isso é ingênuo? É o que os pais falam para os filhos desde que eles tomam consciência sobre o mundo. Mas como nos tornamos imbecis é bom lembrar. É claro, estou usando o termo “imbecil” de forma rudimentar, já que ele foi abolido para designar pessoas com desenvolvimento intelectual limitado no campo da neurologia. O termo se tornou um meio para ofender as pessoas; não é este o caso. Acho que “estúpidos” seria mais apropriado. Seja como for, ainda temos um certo nível de percepção para ver o quanto o mundo tem se tornado estranho e, muitas vezes, ridículo, e não nos importamos mais. As pessoas mentem sobre elas mesmas e sobre as coisas em volta. Construímos um simulacro onde depositamos o nosso pior e, mesmo assim, sorrimos com nossos sorrisos falsos em prol de uma imagem instável moldada por aquilo que foi — bastante apropriadamente — conceituado por Bauman como modernidade líquida. Acho que o álbum em si fala sobre o mundo que construímos para viver, mas no qual só alguns vivem. Quando falo de viver, é viver mesmo, e não sobreviver. O mundo que construímos não é para nós mesmos vivermos nele, e sim para alguns. Apenas temos uma visão ordinária sobre tudo.O que conhecemos é o que hoje nos permitem conhecer. Somos apenas óleo para as engrenagens que movem um mundo ao qual não pertencemos e do qual não usufruímos plenamente. Por isso, na primeira canção já tem um backing vocal insistente: Acorde

Rebel Rock: Em faixas como “The Curse of Life” e “Death – Return to Sender”, a morte surge não como metáfora distante, mas como presença constante. A consciência da finitude foi um motor criativo neste álbum?

Korg: Também. Em um mundo de mentiras, a morte é a verdade absoluta. Na música NAMBER, há um trecho que diz: “Estou vivendo na minha caverna de Platão, jogando com minhas sombras e, no final, eu sempre perco.” Eu fiz o possível para que essa frase fosse entendida de forma desesperada. Porque, às vezes, acho que a rapidez do mundo contemporâneo e a nossa rotina de sobrevivência se assemelham ao chamado “abraço do afogado”. 


Rebel Rock: O lançamento mundial ocorre pela Alma Mater Records, do Fernando Ribeiro (Moonspell). Ter um músico de uma banda icônica gerindo o selo muda a forma como o trabalho de vocês é tratado? Existe uma compreensão maior da "alma" da banda nesse caso? 

Korg: Fernando é um irmão do metal. Ele sempre foi um admirador do metal brasileiro e um grande fã do The Mist. Fomos tratados com muito respeito pela Alma Mater, e ele nos deu a possibilidade de termos um cara como Tue Madsen para finalizar nosso trabalho e um trabalho do Michael Whelan para a nossa capa.Ele tem consciência das dificuldades que temos por aqui, e eu sempre fui muito honesto com ele sobre isso. 

Rebel Rock: A última faixa, Return to Sender, encerra o disco com uma sensação de exaustão e entrega. O título sugere um fim, mas a energia da banda sugere um recomeço. O que podemos esperar do The Mist daqui para frente? A "jaula" foi aberta de vez? 

Korg: Hoje é difícil prever o futuro para uma banda. Sem querer, usei a mesma aura de fim para este álbum como usei em "Leave Me Alone", no The Hangman Tree. Mas não é um fim para este conceito. Este mundo é um terreno fértil para o heavy metal. O capeta hoje é tão inofensivo!!! 

Rebel Rock: Como é um trabalho cheio de conceitos, quase como atos de uma peça, acredito que seria extremamente interessante ter o álbum tocado na íntegra nos shows de divulgação. Vocês conversam sobre isso? Existe essa possibilidade? 

Korg: Não agora. Talvez um dia. O álbum acabou de nascer. Ele conversa bem com os primeiros álbuns, e conseguimos agradar a todos. Não vejo um setlist sem "Peter Pan Against the World" ou 'The Hangman Tree". 

Rebel Rock: Obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem para os nossos leitores. 

Korg: Eu que agradeço. Um abraço a todos os leitores do Rebel Rock. Ouçam o The Mist e comprem nossa nova marcha, que está foda. Na nossa bio do The Mist tem o endereço da nossa loja. Stay Metal!!!



MEGADETH - MEGADETH (2026)

 


MEGADETH
MEGADETH
Shinigami Records/BLKIIBLK - Nacional

A notícia do encerramento do Megadeth em meados de 2025 reverberou com o impacto sísmico de uma bomba. Não foi apenas o anúncio do fim de uma banda, mas o prenúncio do encerramento de um capítulo fundamental da história do heavy metal. O grupo vinha de dois ótimos álbuns (Dystopia e The Sick, The Dying… and the Dead!), trabalhos que provaram que criatividade, agressividade e relevância ainda pulsavam com força total. Claro, houve mudanças de integrantes — mas, sejamos sinceros, após mais de 40 anos de estrada, isso sempre fez parte do DNA do Megadeth.

Nos últimos meses, Dave Mustaine declarou que um dos principais motivos para essa decisão são os problemas em seu braço, o que nos leva inevitavelmente a revisitar o início dos anos 2000, quando a banda já havia encerrado suas atividades devido a sérios problemas nas mãos de Dave. A história, curiosamente, parece fechar um ciclo exatamente da forma como começou: com dor, resiliência e escolhas difíceis.

Outra declaração curiosa é a de que o álbum serviria como um encerramento no auge do Megadeth — e, após dias mergulhado nesse trabalho, é uma sentença com a qual é impossível discordar. Ainda estou buscando encontrar um lugar definitivo para o auto-intitulado entre meus favoritos do grupo e sigo em busca das fases da banda às quais o álbum me remete. Por ora, chego a duas conclusões bastante claras: Megadeth ocupa confortavelmente um top 8 pessoal, e a mistura de Youthanasia, Cryptic Writings, The World Needs a Hero e The Sick, The Dying… and the Dead! parece ser exatamente a fórmula que pavimentou o caminho para o possível sucesso do 17º — e derradeiro — trabalho de estúdio do grupo.

A formação que acompanhou Mustaine permanece a mesma dos últimos anos, com James LoMenzo (baixo), Dirk Verbeuren (bateria) e o estreante em estúdio Teemu Mäntysaari. Uma formação madura, entrosada, forjada no calor e perrengues da estrada faz com que as 11 músicas soem incrivelmente orgânicas, afiadas e vivas. Por mais que eu compreenda e respeite os motivos de Dave, a cada riff — e o álbum é abarrotado deles —, a cada solo ou linha de harmonia, surge aquela dúvida incômoda e inevitável: será que realmente é hora de guardar a guitarra? O cara está detonando, p***!

Como prelúdio do fim, o Megadeth optou por apresentar ao público, ao longo dos meses que antecederam o lançamento, três das quatro primeiras faixas como singles. “Tipping Point” veio primeiro, cumprindo com maestria o papel de faixa de abertura — dois pés no peito do fã, velocidade máxima e aquela sensação imediata de retorno aos melhores dias do thrash metal. Em seguida, a quase punk “I Don’t Care”, ácida, direta e insolente, deixa claro que o espírito rebelde continua intacto. Mais do que uma música, é um manifesto de como Mustaine jamais se curvou às expectativas alheias — ele sempre fez, e segue fazendo, o que bem entende. Depois, temos “Hey God?!”, pesada, com um andamento arrastado e linhas vocais surpreendentes. Arrisco dizer que este álbum seja o melhor desempenho vocal de Dave em toda a sua carreira. Talvez ele esteja mesmo certo: parar no auge.

A quarta faixa, também single, é “Let There Be Shred” (o título seria uma homenagem ao AC/DC?). Aqui, a agressividade assume o comando absoluto — pé no acelerador, solos velozes e aquela vontade quase instintiva de bater cabeça. “Puppet Parade” e “Another Bad Day” trazem uma breve sensação de calmaria. Não são músicas lentas, nem tão pesadas, mas faixas conduzidas pela melodia, com refrões que grudam e aquele apelo imediato de sair cantando. É impossível não ser transportado para 1997 e imaginar ambas rodando na programação da rádio rock da sua cidade.

“Made to Kill” já deixa clara sua missão logo no título. Dirk abre a faixa de forma primorosa, preparando o terreno para um riff monstruoso despejado pela mão direita de Mustaine. Se essa música entrar no setlist da turnê, preparem-se para o pandemônio. Teemu entrega um solo exemplar, cheio de virtuosismo, técnica e agressividade na medida exata. “Obey the Call” surge com uma falsa calmaria — linhas de baixo contidas, batidas calculadas, guitarras sutis — até que, pouco a pouco, tudo cresce, se acumula e explode de maneira surpreendente.

Por mais que o tracklist pareça longo — e eu mesmo, em certos momentos, defenda a volta dos álbuns com apenas oito faixas —, Megadeth é tão envolvente e de assimilação tão imediata que, quando nos damos conta, já estamos diante do final. “I Am War” surge como prova da criatividade do quarteto: pesada, repleta de linhas melódicas e quebras inteligentes. Confesso: “The Last Note” deveria ser o verdadeiro ato final deste álbum — e é quase um pecado que não seja. O que essa faixa entrega ao fã é uma carta aberta de Dave Mustaine aos seus súditos, aos fiéis escudeiros, àqueles que permaneceram ao seu lado no começo, na glória, no risco e na redenção.

Ela concentra tudo o que o Megadeth tem de melhor. Algumas passagens remetem diretamente à era Rust in Peace, enquanto seu final acústico e melancólico deixa um sabor agridoce raro, intenso e profundamente emocional.

Dave Mustaine declarou que “Ride the Lightning” não é apenas um cover, mas o fechamento de um ciclo, o retorno ao marco zero. Certo ou errado, cada um terá seu julgamento. O meu está claro acima: o álbum deveria ter silenciado na faixa anterior, mesmo que esta venha como a "cereja do bolo". Sobre a música em si: é uma execução fiel à original — talvez um pouco mais veloz? Sim. Mas funciona estritamente como uma homenagem direta ao início de tudo.

Tudo o que envolve Megadeth é, de certa forma, assertivo. A capa funciona de imediato — daquelas que você já imagina estampada em uma camiseta. As músicas são excelentes e entregam, em essência, tudo aquilo que a história da banda construiu até aqui. Este álbum não apenas honra o legado: ele o sela. Fecha de maneira grandiosa, digna e espetacular a trajetória de uma das bandas mais importantes da história do heavy metal.

Obrigado, Megadeth.
Obrigado, Dave Mustaine.

William Ribas