quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

REBEL ROCK RESEARCH - KREATOR

 



REBEL ROCK RESEARCH – KREATOR

O thrash metal alemão sempre teve algo diferente, mais ríspido, mais direto, quase bélico, e o Kreator é a personificação máxima disso. Formada em Essen, no coração industrial da Alemanha, em 1982, a banda surgiu em um cenário onde a música extrema não era entretenimento, era quase que uma catarse. Mille Petrozza e Ventor nunca soaram como cópias do que vinha sendo apresentado nos Estados Unidos e desde o início, o Kreator tinha uma fúria própria, crua e caótica, que ajudaria a definir o chamado thrash germânico ao lado de bandas como Sodom, Destruction e Tankard.

Minha conexão com a banda veio no início dos anos 2000, através de Coma of Souls (1990). Foi amor à primeira audição. Aquela combinação de riffs cortantes e insanos, vocais raivosos, bateria incansável e uma sensação constante de caos me pegou em cheio (mal sabia eu que o caos era maior ainda ). Não era só velocidade, era peso, era violência sonora com propósito. A partir dali, comecei a ir atrás da discografia e passei a entender o Kreator como uma banda que nunca teve medo de evoluir, errar, experimentar e, acima de tudo, sobreviver.

Ao longo das décadas, a banda atravessou fases distintas: o thrash primitivo e caótico dos primeiros anos, a fase mais técnica e refinada do fim dos anos 80, as experimentações controversas dos anos 90 e, por fim, o retorno triunfal que os recolocou no topo do metal extremo mundial a partir dos anos 2000.

Vale deixar claro que esta resenha se concentra exclusivamente nos álbuns de estúdio, deixando de fora registros ao vivo e coletâneas. A ideia aqui é mergulhar na evolução criativa do Kreator através dos trabalhos autorais.

Dito isso, a discografia do Kreator é uma jornada intensa e aqui, apresento os álbuns do meu menos preferido até o ápice absoluto, não como um julgamento frio, mas como a visão de um fã e amante incondicional que respira heavy metal, e que encontrou no Kreator uma das expressões mais honestas, violentas e verdadeiras do gênero.

Por Fernando Aguiar

16º - RENEWAL (1992)


Renewal é, sem dúvida, o disco mais controverso (e sejamos honestos, o mais “fraco”) da carreira do Kreator, mas também um dos mais interessantes de analisar. Lançado em um período em que o metal extremo buscava novos caminhos, o álbum rompe quase totalmente com o thrash tradicional e mergulha em territórios industriais, experimentais e até atmosféricos. A produção é fria, seca, quase claustrofóbica, refletindo bem o espírito do início dos anos 90. Faixas como "Renewal", "Winter Martyrium" e "Realitätskontrolle" mostram um Kreator disposto a abandonar fórmulas, incorporando samples, batidas mecânicas e estruturas pouco convencionais. Não é um disco fácil, nem imediato, mas ganha força quando ouvido como um retrato de época. Pode não representar o Kreator “clássico”, porém revela coragem artística e um Mille Petrozza inquieto, se recusando a ficar parado enquanto o mundo mudava. E sem querer presunçoso, creio qualquer fã da banda que pensar em fazer uma lista como esta, Renewal figurará nessa posição.



15º - OUTCAST (1997)


Aqui, o Kreator aprofunda ainda mais a veia experimental iniciada em Renewal, mas com um senso maior de identidade. Outcast tem uma atmosfera sombria, quase existencialista, e flerta fortemente com o metal industrial e alternativo, sem abandonar completamente o peso. A produção é densa e moderna para a época, e Mille soa mais introspectivo, menos agressivo no sentido clássico. Faixas como "Leave This World Behind", "Outcast" e "Black Sunrise' trazem melodias estranhas, climas depressivos e uma sensação constante de desconforto. Já "Phobia", podemos considerar um “clássico moderno” da banda, uma vez que ela é tocada até hoje nos shows? Ela é, sem dúvida, a melhor música do disco. É um disco que divide opiniões até hoje, mas que mostra uma banda tentando sobreviver artisticamente em um período hostil ao thrash. Não é um álbum de impacto imediato, porém revela profundidade emocional e uma tentativa sincera de reinvenção.



14º - ENDORAMA (1999)


Endorama talvez seja o ponto mais distante do Kreator thrash que muitos fãs aprenderam a amar, mas também é um disco único na discografia. Fortemente influenciado pelo gothic metal e pelo rock alternativo, o álbum aposta em melodias sombrias, climas introspectivos e até participações inusitadas, como Tilo Wolff (Lacrimosa) em Endorama. As guitarras são mais contidas, os vocais mais melódicos e o foco está muito mais na atmosfera do que na agressividade. Faixas como "Golden Age", "Chosen Few" e "Pandemonium" mostram um Kreator reflexivo, quase melancólico. É um disco que exige abertura do ouvinte, e embora esteja longe de ser representativo do “som clássico” da banda, ganha respeito pela honestidade e pelo risco que a banda assumiu na época. Hoje em dia, a cada vez que escuto esse disco (não é muito ), tenho uma percepção e entendimento melhor sobre ele.




13º - HATE ÜBER ALLES (2022)


Quando Hate Über Alles foi anunciado, minha expectativa era alta, tinha tudo para ser mais um capítulo feroz na longa saga do Kreator, um álbum que refletisse a raiva e a confusão de um mundo em ebulição, como o próprio título sugere (que, em tradução livre, significa “ódio acima de tudo”, uma crítica áspera às tensões sociais atuais). O título, provocativo e direto, parecia prometer um disco carregado de ódio, urgência e agressividade, algo que o Kreator sempre soube entregar quando o mundo pede música extrema como válvula de escape. E, de fato, o álbum começa bem. A faixa-título chega forte, com riff direto, andamento firme e aquele espírito combativo que sempre definiu a banda. "Killer of Jesus" e "Strongest of the Strong" (essa um dos grandes destaques do disco) também mantêm esse clima mais agressivo, mostrando que o Kreator ainda sabe soar pesado e convincente quando pisa fundo.

O problema é que, conforme o disco avança, fica a sensação de que ele não sustenta o impacto inicial. Algumas músicas seguem caminhos mais cadenciados ou melódicos (flertando bastante com Arch Enemy, diga-se de passagem) demais para o que eu esperava, e isso acaba quebrando um pouco a intensidade geral do álbum. Não é que as composições sejam ruins, longe disso, mas muitas delas soam menos inspiradas, menos urgentes, como se faltasse aquele riff memorável ou aquele refrão que gruda de verdade.

Faixas como "Midnight Sun" chamam atenção pela tentativa de algo diferente, com clima mais melódico e até vocais femininos, o que é curioso, mas ao mesmo tempo me soa deslocado dentro de um disco que carrega um título tão agressivo. Já "Dying Planet", que fecha o álbum, tinha tudo para ser um encerramento apocalíptico e esmagador, mas acaba não atingindo o impacto emocional e sonoro que eu esperava de um final de Kreator.

Tecnicamente, o álbum é irretocável. A produção é pesada, moderna, tudo soa limpo e bem definido. Mille continua com presença vocal forte, Ventor mantém uma base sólida e precisa, e a banda como um todo mostra profissionalismo habitual de sempre. Ainda assim, falta aquele senso de perigo, aquela violência incontrolável que marcou discos como "Enemy of God", "Violent Revolution" ou até trabalhos mais recentes e intensos da banda.

No fim das contas, Hate Über Alles é um disco bom, competente e com momentos realmente fortes, mas que, para mim, ficou aquém do que eu esperava de um lançamento do Kreator. Não é um álbum descartável, nem de longe, mas também não é um daqueles trabalhos que me fazem voltar a ele com frequência ou que entram automaticamente no panteão da banda.




12º - GODS OF VIOLENCE (2017)


Gods of Violence representa, para mim, um dos pontos mais fortes da fase moderna do Kreator. Depois de anos de regularidade desde "Violent Revolution", esse álbum soa como a confirmação de que a banda encontrou um equilíbrio sólido entre agressividade, maturidade e identidade. A introdução "Apocalypticon" já cria um clima de tensão e grandiosidade, preparando o terreno para um disco pesado, ameaçador e confiante.

"World War Now" entra sem piedade, com riffs cortantes e vocais raivosos que remetem diretamente ao Kreator mais agressivo, agora com uma produção moderna e encorpada. A faixa-título mistura bem momentos épicos e explosões de fúria, enquanto "Satan Is Real" e "Totalitarian Terror" (que arregaço essa sequência) reforçam o lado mais direto e violento do álbum, com andamentos que pedem mosh e riffs bem marcantes.

O grande mérito aqui é como o álbum consegue ser brutal sem soar apressado. As melodias aparecem de forma bem dosada, assim como as influências de metal tradicional. "Hail to the Hordes" traz uma atmosfera quase ritualística, enquanto "Lion with Eagle Wings" e "Fallen Brother" adicionam peso e emoção, esta última claramente uma homenagem aos ícones do metal que já se foram, conforme própria declaração de Petrozza.

A produção é poderosa, limpa e pesada, sem tirar a aspereza necessária do thrash. Ventor segue sólido e preciso como sempre, e Mille demonstra maturidade tanto nos vocais quanto na composição. No fim, Gods of Violence não reinventa o Kreator, mas refina tudo o que a banda construiu desde o retorno nos anos 2000, reafirmando seu lugar no topo do thrash metal mundial.



11º - ENDLESS PAIN (1985)


Colocar Endless Pain aqui não é desprezar o álbum, é reconhecer que ele representa um começo visceral, um registro ainda cru, primitivo, violento e absolutamente sem filtros. Aqui a banda soa mais próxima do caos do underground do que de qualquer noção de refinamento musical, e isso é justamente parte do seu charme. O thrash ainda não está totalmente definido, mas a agressividade já é sufocante, com riffs simples, rápidos e cheios de urgência que beiram o death metal. É um disco que transborda raiva juvenil e fome por extremismo sonoro.

Um detalhe fundamental desse álbum é que Ventor divide os vocais com Mille Petrozza, algo que confere ainda mais brutalidade ao conjunto da obra. Os vocais de Ventor são mais rasgados, animalescos, enquanto Mille começa a moldar aquele timbre ríspido e venenoso que se tornaria sua marca registrada. Essa alternância vocal deixa o disco ainda mais selvagem e irregular, no melhor sentido possível, reforçando o clima caótico das composições.

Faixas como "Endless Pain", "Total Death" e "Storm of the Beast" são ataques diretos, sem espaço para respirar, enquanto "Tormentor" e 'Flag of Hate" se tornariam um dos primeiros clássicos da banda. A produção é áspera, a bateria soa quase desgovernada, mas tudo isso contribui para a identidade do álbum. Endless Pain não é apenas o começo da discografia do Kreator, é um documento histórico de uma banda aprendendo a canalizar sua fúria, mas já deixando claro que estava destinada a se tornar uma das forças mais violentas do thrash metal mundial.



10º - KRUSHERS OF THE WORLD (2026)


Krushers of the World mostra um Kreator plenamente consciente de sua própria história. Não há aqui a intenção de reinventar a roda, mas sim de reafirmar a posição que alcançaram na longa jornada da banda. O álbum soa como uma síntese do Kreator moderno, aquele que aprendeu a equilibrar agressividade, peso, melodia e consciência política sem perder identidade. É um disco muito sólido, confiante e feito por uma banda que sabe exatamente onde pisa.

A produção é robusta, limpa e poderosa, permitindo que cada instrumento respire. Ventor segue impressionando pela precisão e força, provando mais uma vez que é um dos bateristas mais subestimados do thrash metal. As guitarras de Mille e Sami trabalham muito bem entre riffs cortantes e solos mais melódicos, algo que já virou assinatura dessa fase da banda. O Kreator aqui soa pesado sem precisar ser apressado o tempo todo.

Faixas como "Seven Serpents" e "Krushers of the World" entregam riffs densos, cadenciados e cheios de impacto, enquanto "Barbarian" e "Blood of Our Blood" aceleram e resgatam a agressividade mais direta do thrash tradicional. Há também espaço para atmosferas mais sombrias, perceptíveis em músicas como "Tränenpalast", que adicionam uma camada extra de identidade ao álbum.

Mesmo não sendo um disco que busca o impacto histórico de um "Coma of Souls" ou a retomada explosiva de "Violent Revolution", Krushers of the World é extremamente honesto. Ele reforça a longevidade do Kreator e sua capacidade de permanecer relevante sem negar o passado. É um trabalho que cresce com o tempo, feito para ser absorvido aos poucos e com intensidade, e que confirma que os alemães ainda seguem esmagando ossos mundo afora, e para mim o melhor registro da banda desde Phantom Antichrist (2012).




9° - PHANTOM ANTICHRIST (2012)


Phantom Antichrist foi um dos lançamentos mais aguardados do Kreator na década de 2010, e não é difícil entender por quê: depois de alguns anos mostrando confiança e identidade renovada na carreira pós-"Violent Revolution", a banda entregou aqui um álbum que mistura agressividade com uma abordagem mais melódica e comovente, mas sem perder a brutalidade que sempre foi sua marca registrada.

O álbum abre com a atmosfera sombria de "Mars Mantra", uma introdução quase ritualística que prepara o terreno para a pancadaria que vem em seguida. A faixa-título explode em um thrash moderno e vigoroso, com riffs afiados e vocais rasgados de Mille Petrozza que mostram que, apesar das melodias, a banda ainda está aqui para agredir com estilo.

O que mais me chama a atenção em Phantom Antichrist é a maneira como o Kreator equilibra a brutalidade tradicional com elementos melódicos bem colocados. Em "Death to the World" e "Civilisation Collapse" sentimos peso e velocidade, mas também um senso de coro e impacto construído de forma trabalhada, quase como se a banda estivesse compondo para os palcos de grandes festivais. Já "From Flood Into Fire" cruza caminhos entre thrash e uma sensibilidade quase épica, com uma construção melódica que cresce lentamente e desemboca em um refrão marcante.

Esse álbum também traz momentos mais cadenciados, como "United in Hate", que usa atmosfera e dinâmica quase como um respiro entre as pancadas, mostrando uma banda consciente da necessidade de variar sem perder a intensidade. A diversidade de andamentos dá ao disco um caráter mais composicional, e não apenas uma sequência de pancadas, algo que o diferencia de trabalhos anteriores mais diretos.

Produzido por Jens Bogren, o som é claro e poderoso, colocando a guitarra de Sami Yli-Sirniö em destaque e valorizando tanto as partes mais violentas quanto as linhas melódicas mais elaboradas. Essa produção coesa ajuda o álbum a soar moderno sem perder a sensação de que cada música carrega a energia característica do Kreator.

Para mim, Phantom Antichrist representa um dos momentos mais interessantes da banda no novo milênio: é um disco que se apoia na agressividade do thrash, mas se constrói com ambições maiores, chegando a refrões e climas que resistem ao tempo. Não é simplesmente um retorno ao passado, nem um disco experimental desgovernado, é uma obra que mostra uma banda madura, ainda com fome, e totalmente confortável em misturar peso, melodia e técnica sem perder força.



8º -  PLEASURE TO KILL (1986)


Pleasure to Kill não é apenas um disco do Kreator, é um marco absoluto do metal extremo. Aqui a banda praticamente abandona qualquer amarra restante do thrash tradicional e entrega algo muito mais violento, caótico e descontrolado do que quase tudo que estava sendo feito na época. É um álbum que soa “perigoso” até hoje.

A produção é bem crua, agressiva e longe de ser “bonita”, mas isso joga totalmente a favor do disco. As guitarras soam serradas, a bateria é insana e a voz de Mille surge num ponto de ruptura, rasgada, quase inumana. Ventor, novamente, contribui nos vocais em alguns momentos, reforçando essa sensação de caos absoluto. Nada aqui parece confortável, e essa é justamente a graça de ouvir esse caos sonoro.

A abertura com “Choir of the Damned” já cria um clima de ritual macabro, preparando o terreno para a avalanche que vem em seguida. Quando “Ripping Corpse” entra, fica claro que o Kreator não está interessado em sutilezas. É velocidade, violência e agressividade em estado puro. O riff é direto, a bateria atropela e o vocal soa como um ataque.

Faixas como “Pleasure to Kill”, “Riot of Violence” (clássicos absolutos) e “Carrion” são verdadeiras aulas de como empurrar o thrash até o limite. Tudo é extremo: os riffs, os andamentos, os vocais e até as letras, que mergulham sem pudor em temas de morte, violência e destruição. Não há preocupação em soar acessível ou “bem produzido”.

Um dos pontos mais impressionantes do disco é como ele antecipa elementos que depois seriam fundamentais no death metal e no black metal. O uso constante de tremolo picking, a velocidade absurda e a abordagem quase blasfema criam uma atmosfera que vai muito além do thrash tradicional.

Mesmo hoje, Pleasure to Kill ainda soa agressivo, desconfortável e hostil. É um disco que não pede para ser gostado, ele impõe respeito por si só. Pra mim, é aquele tipo de álbum que não se avalia só pela técnica ou composição, mas pelo impacto histórico e pela sensação visceral que causa. Um clássico absoluto, sem concessões.



7º - HORDES OF CHAOS (2009)


Quando ouvi Hordes of Chaos pela primeira vez, o que mais me chamou a atenção foi a sensação de urgência visceral que sai do alto-falante, como se o Kreator tivesse decidido registrar não apenas músicas, mas a própria essência do thrash metal em estado bruto e sem filtros. Diferente de alguns álbuns que buscam o som limpo ou polido, aqui a banda fez algo bem ousado para os dias atuais: gravou a maior parte do disco ao vivo, com poucos overdubs e muita energia de ensaio capturada na fita, algo que não acontecia desde "Pleasure to Kill" em 1986, e isso dá uma textura especial ao som.

A faixa-título, "Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)", é um tapa direto na cara do ouvinte. Ela começa com aquele ritmo acelerado típico do thrash, riffs serrilhados e o vocal furioso de Mille pulverizando cada verso como uma declaração de guerra. A sensação de conflito imediato domina a música, que equilibra momentos de velocidade com quebras rítmicas certeiras, mostrando como a banda ainda sabe conduzir tensão e explosão em sequência.

Logo depois, "Warcurse" mantém o sangue fervendo com ataques rápidos e uma construção que lembra que, mesmo anos depois, o Kreator ainda sabe fazer thrash com intensidade visceral. A progressão dessa música dá um respiro mais cadenciado no meio do caos, deixando o peso respirar sem perder agressividade.

"Escalation" e "Amok Run" marcam um dos aspectos mais interessantes do disco: a alternância entre momentos mais rápidos e outros mais cadenciados sem que isso pareça deslocado. Em "Amok Run" em particular, a introdução quase arrastada cria um clima de tensão antes de explodir em velocidade, algo que demonstra uma maturidade na construção de climas, não é só acelerar e bater cabeça, é criar narrativa dentro de uma música.

"Destroy What Destroys You" tem aquele riff clássico que gruda logo na primeira audição e lembra um pouco da tradição teutônica do thrash dos anos 80, mas com uma pegada moderna e alinhada ao som que o Kreator vinha desenvolvendo desde "Violent Revolution". É o tipo de faixa que funciona tão bem ao vivo quanto em estúdio, com energia imediata e refrão contagiante.

"Absolute Misanthropy" destaca-se pelo uso criativo de harmonias e solos e é uma dessas músicas que te lembra que o Kreator não está apenas tocando agressividade, e sim dando forma a ela, com guitarras que batem palmo a palmo com a bateria de Ventor e um senso de composição mais trabalhado do que parece à primeira vista.

Então vem "To the Afterborn" e "Corpses of Liberty", que apresentam momentos mais densos e aproximações quase atmosféricas dentro do contexto do disco, criando variação sem quebrar a identidade central de violência controlada. Essas passagens mostram que a banda não tinha medo de respirar entre os golpes.

O fechamento com "Demon Prince" é simplesmente perfeito: uma mistura de riffs cadenciados, mudanças de andamento e aquele senso de encerramento digno de um álbum que se propôs a ser mais do que a simples soma de suas partes. Os solos finais, o clima marcante e a maneira como a música conduz o ouvinte para fora do caos são um reflexo claro de uma banda que, mesmo experiente, ainda sabe criar momentos memoráveis.

Liricamente, o disco passeia por temas de conflito, crítica social, caos global e misantropia com a veemência que sempre foi característica de Mille Petrozza. Não é apenas violência pela violência, mas uma visão crítica e direta do estado do mundo, e isso faz com que Hordes of Chaos ainda soe atual, mesmo anos depois de lançado.



6º - TERRIBLE CERTAINTY (1987)


Quando penso em Terrible Certainty, a primeira coisa que me vem à mente é a sensação de evolução agressiva com direção. Esse disco representa o momento em que o Kreator passa de uma banda visceral e caótica para algo mais afiado, calculado e com habilidade musical muito mais evidente, sem renunciar à ferocidade que define sua identidade. É como se a raiva de "Pleasure to Kill" tivesse sido refinada, moldada e apontada com mais precisão, e agora não apenas para causar impacto, mas para deixar uma marca.

Logo na faixa-título, você sente isso: o riff inicial é pesado, mecânico e decidido; não é apenas velocidade desenfreada, mas agressão estratégica. Mille Petrozza já não grita somente por gritar, ele comanda cada frase com intenção, como se soubesse exatamente onde cada palavra deveria ir, e Ventor, por sua vez, mostra que é muito mais que um baterista furioso, ele é um motor de precisão, capaz de conduzir mudanças de andamento com clareza e controle.

Faixas como "Blind Faith" e "Toxic Trace" são ótimos exemplos dessa maturidade. "Blind Faith" abre com um riff quase profético, quase ritualístico, carregando uma tensão crescente antes de desabar em velocidade e violência. A música demonstra que o Kreator já não estava só em busca de caos, mas de textura e impacto, alternando partes rápidas com momentos quase melódicos, algo ainda pouco explorado no thrash daquela época.

"Toxic Trace" traz uma pegada quase punk-metal moderna, com riffing cortante e refrões que grudam sem soar “populares”. É um equilíbrio interessante entre agressão bruta e composição ponderada. A bateria de Ventor aqui merece destaque porque, mais do que velocidade, ele explora rupturas rítmicas e variações que elevam a música além de uma simples sequência de pancadas.

Este trabalho flerta tanto com críticas sociais quanto com uma introspecção mais sombria, refletindo bem o clima do final dos anos 80: a política global movimentada devido a guerra fria, a tensão cultural e o próprio senso de alienação presente no metal extremo. Mille sempre teve esse olhar ácido sobre o mundo, e aqui ele começa a formular isso de forma mais madura e articulada.

O curioso é que, mesmo quase quatro décadas depois, Terrible Certainty ainda soa ameaçador e atual. Não é um disco que fica preso no tempo; ele tem uma presença que ainda confronta, especialmente quando você presta atenção na forma como as músicas se constroem e explodem.

Para mim, esse álbum não é apenas um marco evolutivo do Kreator, mas um dos discos que consolidou o thrash alemão como algo mais do que velocidade e sim uma forma de arte agressiva, consciente e capaz de falar sobre muito mais do que caos sonoro. É um registro obrigatório para qualquer fã de thrash metal.



5º - CAUSE FOR CONFLICT (1995)


Quando vejo Cause for Conflict colocado tão alto na minha lista (muita gente vai se surpreender) e eu entendo por que: ele surgiu em um momento complicado do thrash e do metal em geral. No início dos anos 90, o thrash clássico havia perdido parte de sua centralidade e muitas bandas buscavam caminhos diferentes. Mas, para mim, exatamente por isso "Cause for Conflict" é um dos discos mais interessantes e ousados do Kreator, não um retrocesso ao passado, mas uma reinterpretação agressiva do thrash sob uma perspectiva madura e quase profética.

Uma das curiosidades mais marcantes deste álbum é que é o único disco de estúdio do Kreator sem o lendário Ventor na bateria, que optou por sair devido a problemas pessoais e musicais na época. Em seu lugar, assume Joe Cangelosi, veterano do cenário thrash americano, e isso faz diferença (esse cara é um monstro). O ataque rítmico aqui tem uma pegada mais seca, mais cortante, quase mecânica em alguns momentos, dando ao álbum uma sensação de peso calculado e tensão contínua, algo que dialoga muito bem com a proposta lírica e temática do disco.

Esse choque de estilos começa logo com “Prevail”, que já entra pesada, com riffs densos e um andamento que lembra aquele thrash mais sinistro, sem perder a agressividade, quase caminhando lado a lado com o groove metal que começava a surgir na época. Ao mesmo tempo, “Catholic Despot” recoloca a banda no terreno tradicional com riffs cortantes e vocais furiosos, mostrando que Kreator sabia manter a ferocidade mesmo em terrenos novos.

Algo que sempre me chamou a atenção é o clima geral das primeiras músicas: há um ar que remete ao nosso Sepultura de "Arise" e "Chaos A.D.", não no sentido de imitá-los, mas no modo como a bateria e os riffs foram compostos com a agressividade, cadências que o Sepultura sempre fez tão bem.

O álbum segue com momentos que exploram mais ainda a forma criativa e consistente da banda. “Progressive Proletarians” e “Crisis of Disorder” trazem grooves pesados e mudanças de andamento que mantêm a agressividade sem recorrer à pura velocidade, usando a dinâmica como ferramenta de impacto. Em “Lost” (única do disco que ainda figura no setlist da banda, infelizmente), mais cadenciada, há uma sensação quase introspectiva e sombria que conecta bem com as letras que falam de alienação e crise de identidade, algo que poucos discos de thrash conseguem transmitir com tanta clareza.

A produção do disco, que pode ser chamada de “seca”, na verdade casa muito bem com a proposta: não é um som polido nem clássico demais, é um som de confronto e fricção, com cada guitarra, cada batida e cada palavra parecendo ecoar mais como um ataque direto à complacência do cenário musical da época e por isso que, para mim, o disco funciona tão bem, sem falar em Mille Petrozza, que está mais ácido e incisivo, com críticas sociais que não são apenas superficiais, mas desdobram sensação de saturação, tensão e urgência. Não é um álbum “político à toa”, ele captura o espírito de um período em que o mundo parecia instável, incerto e à beira de conflitos maiores.

Se eu pudesse definir Cause for Conflict em uma palavra apenas, seria: DEVASTADOR! E só por isso já deveria ser o suficiente pra você pegar uma cerveja e colocar ele no talo em seu som.



4 º - EXTREME AGRESSION (1989)


Extreme Aggression é um dos discos mais emblemáticos da discografia do Kreator, aquele momento em que a banda sai definitivamente do underground e se coloca como uma potência mundial do thrash metal. Aqui não há mais experimentações radicais, nem caos direto; há agressão, sim, mas com propósito, técnica e foco.

O que chama atenção logo de cara é a clareza da sonoridade. A produção de 1989 é mais definida do que nos lançamentos anteriores, dando espaço às guitarras de Mille e Jörg Michael que agora soam mais afiadas sem perder peso, e permitindo que a bateria de Ventor converse de forma mais articulada com os riffs. Não é apenas “rápido e brutal”, aqui a banda parece querer mostrar que velocidade com inteligência pode ser ainda mais devastadora.

A faixa-título, “Extreme Aggression”, é um manifesto direto: riffs pulsantes e agressivos, arranjos coesos e aquela sensação de urgência constante. O disco abre com impacto imediato e não perde energia, como se cada música dissesse “não espere gentileza, espere o caos”. “Betrayer” é outro momento de destaque absoluto, onde talvez seja um dos riffs mais memoráveis de toda a carreira do Kreator, com andamento que equilibra agressividade e groove de forma impecável.

“Love Us or Hate Us”, apesar do título provocativo, é quase um hino de identidade: a banda parece confrontar o mundo inteiro, indiferente a aceitação ou críticas, e isso transparece em cada estrofe. O vocal de Mille aqui é destemido, cheio de atitude, e carrega a sensação de uma banda que não está interessada em agradar, mas em afirmar sua verdade.

Um dos aspectos mais interessantes do álbum é a coerência interna. Não há faixas “de preenchimento” ou momentos que desacelerem demais o andamento. Mesmo quando a banda retoma temas mais cadenciados ou pesados, como em “Some Pain Will Last”, tudo soa como parte de um discurso maior, não como uma quebra de ritmo gratuita. Há um fluxo contínuo de violência calculada que torna a audição do disco inteira uma experiência épica.

Outro detalhe que sempre me marcou é a evolução perceptível das composições. Comparando com os discos anteriores, percebe-se que o Kreator aqui já não está apenas reagindo à cena; está ditando padrões. Há técnica, sim, mas sem jamais diluir a força bruta. É como se o pensamento do Kreator fosse: “Nós já mostramos que podemos ser selvagens e agressivos, agora mostramos que podemos ser inteligentes dentro dessa selvageria”. E enquanto os primeiros álbuns exploravam temas mais diretos de violência e caos, aqui há uma camada adicional de crítica, de observação social, de confronto com hipocrisias e com a própria condição humana de conflito.

Esse disco, para mim, representa o momento em que o Kreator se torna completo: nem apenas brutal, nem apenas técnico, mas sólido em ambos. Ele não deve nada outras grandes obras do thrash dos anos 80 e, na verdade, dialoga com elas de maneira madura, tanto que muitas bandas que surgiram depois parecem ter aprendido justamente com a forma de como o Kreator equilibrou o caos estruturado aqui.

Colocar Extreme Aggression no 4º lugar da minha lista não é apenas uma questão de nostalgia; é reconhecer que esse álbum é um símbolo de coesão, impacto e evolução dentro do catálogo da banda. Ele é agressão com propósito, violência com direção, e isso o torna indispensável em qualquer coleção de qualquer headbanger que se preze.



3º - ENEMY OF GOD (2005)


Enemy of God é a confirmação madura e explosiva de que o Kreator havia realmente encontrado sua segunda vida no thrash metal, e não apenas um retorno momentâneo. Depois da onda revigorante de "Violent Revolution", esse álbum chega com uma clareza criativa que parece dizer: “não estamos aqui apenas para reviver o passado, estamos aqui para dominar o presente”. E domina. Aqui, a banda ataca com uma fúria consciente, combinando peso clássico e técnica refinada.

O disco abre com a faixa-título como um soco direto no estômago, riffs cortantes, bateria incisiva e vocais de Mille Petrozza entregues com aquela raiva afiada, mas agora com maior controle e precisão. A própria letra e a temática da música sugerem uma crítica feroz ao fanatismo e ao extremismo, algo que não soa pedante nem gratuito, mas sim conectado com o espírito de desconfiança e tensão daquele tempo (e do atual também). A escolha do tema dá ao álbum uma profundidade temática que vai além do tradicional “ódio pela violência” e entra na esfera crítica de cenários sociais complexos.

O impacto desse disco se deve bastante à produção e ao entrosamento da banda. A mixagem de Andy Sneap é no mínimo, fantástica, as guitarras de Mille e Sami ganharam mais força, a cozinha é poderosa sem ser opressora, e Ventor entrega talvez uma de suas performances mais completas, equilibrando precisão e fúria. A bateria aqui não é apenas velocista, ela é estrutural, ela controla o pulso das músicas, muda o clima e sustenta as transições sem soar previsível.

Não é só agressividade pura: "Impossible Brutality" é um ótimo exemplo de como o Kreator consegue inserir melodias afiadas dentro de um ataque thrash, sem que isso soe “macio”. É aquele thrash um pouco mais cadenciado, riffs marcantes, refrões memoráveis e aquele senso de arranjo que faz o disco funcionar como um bloco orgânico, não apenas uma sequência de pancadas. Em "Suicide Terrorist", por exemplo, a alternância entre partes rápidas e outras mais pesadas constrói uma narrativa musical intensa, quase cinematográfica. Já "Voices of the Dead" e "Dystopia" exploram climas menos imediatos, mas ainda carregados de tensão, mostrando que o Kreator aqui não tem medo de respirar antes de atacar de novo.

Enemy of God critica, questiona e observa conflitos sem se esconder atrás de metáforas rasas. É visceral, mas com sentido e isso o coloca num patamar em que o peso não é apenas sonoro, mas também intelectual.

Para mim, Enemy of God é um disco que resume como uma banda veterana pode, sim, continuar relevante décadas depois do início da carreira e ainda assim lançar clássicos. Ele não se apoia apenas na nostalgia, nem tenta imitar os anos 80; ele usa a experiência acumulada para entregar um trabalho consistente, poderoso e cheio de personalidade.



2º - VIOLENT REVOLUTION (2001)


Violent Revolution é aquele momento exato em que o Kreator assume o próprio destino de volta. Depois de uma década de experimentações, altos e baixos, e algumas fases que dividiram opiniões, a banda retorna com um álbum que soa tão faminto e urgente quanto nos anos dourados, mas com uma consciência técnica e sonora que só vem com experiência.

O que mais impressiona em "Violent Revolution" desde a primeira audição é o clima de renovação controlada. A faixa-título explode com riffs poderosos e imediatos, sem firulas, direto no ponto. Não é apenas velocidade pura; há uma pegada mais cadenciada em alguns momentos, construção de tensão e um senso de dinâmica que não se via nos primeiros trabalhos da banda. Mille Petrozza soa mais confiante do que nunca, com vocais raivosos que não pertencem apenas ao passado, mas são adequados ao presente.

Há um senso de propósito nas composições muito interessante. Especialmente em “Reconquering the Throne”, que além de título emblemático, funciona como um manifesto: a banda não está tentando apenas recriar antigos sucessos, ela está reconstruindo o thrash com autoridade e reconquistando o trono, como se todas as feridas e experimentações anteriores se transformassem em munição para algo inexoravelmente brutal e orgânico.

Outro destaque do álbum é “Second Awakening”, que traz um riff criativo e um andamento que oscila entre peso e velocidade de forma inteligente. Não é uma música “rápida do início ao fim”; ela respira, constrói e atinge picos muito bem colocados. Isso demonstra como o Kreator já não dependia só de brutalidade, havia dinâmica, narrativa interna e espaço para variação sem perder impacto.

“Servant in Heaven – King in Hell” é outra faixa emblemática dessa fase. Ela mistura agressividade com um senso quase progressivo de desenvolvimento melódico. Aqui a banda mostra que ser violento não é sinônimo de ser monótono. Os riffs têm personalidade, as transições são naturais e, acima de tudo, a música conversa com você, e não apenas passa por cima dos nossos ouvidos.

A produção merece menção especial e ficou a cargo de ninguém menos que o mago Andy Sneap (esse cara é foda. Gravado em um período em que muitos veteranos do metal pareciam estagnados ou repetitivos, Violent Revolution soa moderno e visceral ao mesmo tempo. A mixagem dá espaço às guitarras cortantes sem deixar a bateria e o baixo enterrados, onde tudo tem corpo, peso e presença.

Esse trabalho também acerta ao não soar excessivamente retrô. Ele respeita a tradição do thrash, mas incorpora elementos modernos sem se render a modismos. Isso cria uma ligação direta entre o velho e o novo, algo que poucos discos conseguem fazer tão bem. Ele não é uma imitação do passado nem uma tentativa forçada de ser “moderno demais”, ele simplesmente é criativo dentro da própria tradição do gênero.

Para mim, Violent Revolution é um dos pontos mais altos da discografia do Kreator porque mostra uma banda que decidiu olhar para sua essência com os olhos de quem já viveu muito, mas ainda tem muito a dizer. É um álbum que não apenas devolveu o Kreator ao centro da cena thrash, como o colocou em destaque novamente, e fez isso com música relevante, impactante e absolutamente visceral.

Esse trabalho definitivamente merece o lugar de destaque onde está, porque funciona tanto como um revigoramento da identidade da banda quanto como um álbum que se sustenta muito bem por si só, mesmo décadas depois de seu lançamento. Um clássico absoluto!



1º - COMA OF SOULS (1990)


Coma of Souls não é apenas o ápice da discografia do Kreator, ele é um dos grandes monumentos do thrash metal como um todo, uma obra que combina brutalidade, técnica, consciência e profundidade de forma rara na história do gênero. Quando esse álbum foi lançado em 1990, a banda já havia passado por ensaios brutais (Pleasure to Kill), amadurecimento técnico (Terrible Certainty), e refino de identidade (Extreme Aggression). Mas "Coma of Souls" é o ponto em que tudo isso se transforma em arte contundente e plenamente realizada. É um disco que respira inteligência e peso ao mesmo tempo.

Desde a abertura com “When the Sun Burns Red”, o clima é imersivo e ameaçador. A guitarra de Mille e Frank cria um som cortante, pontuado por uma bateria precisa e dinâmica que não apenas guia, mas colabora para a construção de tensão. Não há pressa aqui, pois cada riff tem espaço para respirar, cada mudança de andamento é pensada, o que cria uma sensação mais profunda de agressão calculada, em vez de simples velocidade desenfreada.

“People of the Lie” é um dos grandes hinos não só do álbum, mas da banda e do thrash, com um riff que entra direto na cabeça e não sai. A letra é afiada, falando de hipocrisia e falsidade social com uma clareza que poucas bandas de thrash compensam com tanta eficiência. Enquanto muitos trabalhos do estilo mergulham apenas na violência sonora, aqui a violência tem propósito narrativo, ela é direcionada, expressa insatisfação e crítica.

O que mais me impressiona em "Coma of Souls" é como ele usa dinâmica e variação de climas sem perder a agressividade. Em faixas como “Terror Zone” e “No Escape”, você sente a banda mudando de intensidade com uma precisão quase cinematográfica: partes cadenciadas que constroem tensão, explosões repentinas de velocidade e momentos marcantes que fazem parte da narrativa da música.

“Agents of Brutality” é outro destaque absoluto, um ataque sonoro com riffs serrilhados, bateria incansável e um senso de urgência que te agarra desde os primeiros segundos. Essa música, assim como outras do álbum, demonstra que o Kreator de 1990 já não era apenas uma banda de thrash agressiva, mas um grupo que entendeu como trabalhar tensão e variação de textura sem perder o impacto visceral.

Em relação a produção, Coma of Souls representa um salto maior ainda. O som é mais limpo o suficiente para destacar cada instrumento, mas ainda pesado o bastante para manter a brutalidade intacta. Isso proporciona uma experiência auditiva onde os detalhes importam, onde você ouve o peso dos riffs, os acentos da bateria, as nuances de cada mudança de andamento.

Outro ponto que sempre me marcou é a coesão do álbum como obra completa. Assim como grandes discos conceituais, aqui tudo se conecta: os temas exploram conflito, crítica social e tensão humana, e as músicas se encadeiam de forma que faz sentido ouvir o álbum inteiro de uma vez, em sequência. Não é coleção de petardos isolados, é narrativa agressiva com começo, meio e fim.

O impacto histórico de Coma of Souls também não pode ser subestimado. Ele chegou em um momento em que o thrash estava se ramificando em muitas direções, e mostrou que ainda havia espaço para trabalhos que combinassem técnica, peso e significado sem virar “metal comercial” nem se perder em experimentações gratuitas.

Por isso que, para mim, esse disco é o suprassumo do Kreator porque ele encapsula tudo o que a banda já havia construído até ali (brutalidade, consciência, técnica e identidade) e eleva isso a um nível onde o impacto sonoro se funde com impacto emocional e intelectual. Não é apenas um clássico da banda, mas um dos maiores clássicos do thrash metal na história, e ele sempre figurará no topo porque ele é completo em todos os sentidos.




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