segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

MEGADETH - MEGADETH (2026)

 


MEGADETH
MEGADETH
Shinigami Records/BLKIIBLK - Nacional

A notícia do encerramento do Megadeth em meados de 2025 reverberou com o impacto sísmico de uma bomba. Não foi apenas o anúncio do fim de uma banda, mas o prenúncio do encerramento de um capítulo fundamental da história do heavy metal. O grupo vinha de dois ótimos álbuns (Dystopia e The Sick, The Dying… and the Dead!), trabalhos que provaram que criatividade, agressividade e relevância ainda pulsavam com força total. Claro, houve mudanças de integrantes — mas, sejamos sinceros, após mais de 40 anos de estrada, isso sempre fez parte do DNA do Megadeth.

Nos últimos meses, Dave Mustaine declarou que um dos principais motivos para essa decisão são os problemas em seu braço, o que nos leva inevitavelmente a revisitar o início dos anos 2000, quando a banda já havia encerrado suas atividades devido a sérios problemas nas mãos de Dave. A história, curiosamente, parece fechar um ciclo exatamente da forma como começou: com dor, resiliência e escolhas difíceis.

Outra declaração curiosa é a de que o álbum serviria como um encerramento no auge do Megadeth — e, após dias mergulhado nesse trabalho, é uma sentença com a qual é impossível discordar. Ainda estou buscando encontrar um lugar definitivo para o auto-intitulado entre meus favoritos do grupo e sigo em busca das fases da banda às quais o álbum me remete. Por ora, chego a duas conclusões bastante claras: Megadeth ocupa confortavelmente um top 8 pessoal, e a mistura de Youthanasia, Cryptic Writings, The World Needs a Hero e The Sick, The Dying… and the Dead! parece ser exatamente a fórmula que pavimentou o caminho para o possível sucesso do 17º — e derradeiro — trabalho de estúdio do grupo.

A formação que acompanhou Mustaine permanece a mesma dos últimos anos, com James LoMenzo (baixo), Dirk Verbeuren (bateria) e o estreante em estúdio Teemu Mäntysaari. Uma formação madura, entrosada, forjada no calor e perrengues da estrada faz com que as 11 músicas soem incrivelmente orgânicas, afiadas e vivas. Por mais que eu compreenda e respeite os motivos de Dave, a cada riff — e o álbum é abarrotado deles —, a cada solo ou linha de harmonia, surge aquela dúvida incômoda e inevitável: será que realmente é hora de guardar a guitarra? O cara está detonando, p***!

Como prelúdio do fim, o Megadeth optou por apresentar ao público, ao longo dos meses que antecederam o lançamento, três das quatro primeiras faixas como singles. “Tipping Point” veio primeiro, cumprindo com maestria o papel de faixa de abertura — dois pés no peito do fã, velocidade máxima e aquela sensação imediata de retorno aos melhores dias do thrash metal. Em seguida, a quase punk “I Don’t Care”, ácida, direta e insolente, deixa claro que o espírito rebelde continua intacto. Mais do que uma música, é um manifesto de como Mustaine jamais se curvou às expectativas alheias — ele sempre fez, e segue fazendo, o que bem entende. Depois, temos “Hey God?!”, pesada, com um andamento arrastado e linhas vocais surpreendentes. Arrisco dizer que este álbum seja o melhor desempenho vocal de Dave em toda a sua carreira. Talvez ele esteja mesmo certo: parar no auge.

A quarta faixa, também single, é “Let There Be Shred” (o título seria uma homenagem ao AC/DC?). Aqui, a agressividade assume o comando absoluto — pé no acelerador, solos velozes e aquela vontade quase instintiva de bater cabeça. “Puppet Parade” e “Another Bad Day” trazem uma breve sensação de calmaria. Não são músicas lentas, nem tão pesadas, mas faixas conduzidas pela melodia, com refrões que grudam e aquele apelo imediato de sair cantando. É impossível não ser transportado para 1997 e imaginar ambas rodando na programação da rádio rock da sua cidade.

“Made to Kill” já deixa clara sua missão logo no título. Dirk abre a faixa de forma primorosa, preparando o terreno para um riff monstruoso despejado pela mão direita de Mustaine. Se essa música entrar no setlist da turnê, preparem-se para o pandemônio. Teemu entrega um solo exemplar, cheio de virtuosismo, técnica e agressividade na medida exata. “Obey the Call” surge com uma falsa calmaria — linhas de baixo contidas, batidas calculadas, guitarras sutis — até que, pouco a pouco, tudo cresce, se acumula e explode de maneira surpreendente.

Por mais que o tracklist pareça longo — e eu mesmo, em certos momentos, defenda a volta dos álbuns com apenas oito faixas —, Megadeth é tão envolvente e de assimilação tão imediata que, quando nos damos conta, já estamos diante do final. “I Am War” surge como prova da criatividade do quarteto: pesada, repleta de linhas melódicas e quebras inteligentes. Confesso: “The Last Note” deveria ser o verdadeiro ato final deste álbum — e é quase um pecado que não seja. O que essa faixa entrega ao fã é uma carta aberta de Dave Mustaine aos seus súditos, aos fiéis escudeiros, àqueles que permaneceram ao seu lado no começo, na glória, no risco e na redenção.

Ela concentra tudo o que o Megadeth tem de melhor. Algumas passagens remetem diretamente à era Rust in Peace, enquanto seu final acústico e melancólico deixa um sabor agridoce raro, intenso e profundamente emocional.

Dave Mustaine declarou que “Ride the Lightning” não é apenas um cover, mas o fechamento de um ciclo, o retorno ao marco zero. Certo ou errado, cada um terá seu julgamento. O meu está claro acima: o álbum deveria ter silenciado na faixa anterior, mesmo que esta venha como a "cereja do bolo". Sobre a música em si: é uma execução fiel à original — talvez um pouco mais veloz? Sim. Mas funciona estritamente como uma homenagem direta ao início de tudo.

Tudo o que envolve Megadeth é, de certa forma, assertivo. A capa funciona de imediato — daquelas que você já imagina estampada em uma camiseta. As músicas são excelentes e entregam, em essência, tudo aquilo que a história da banda construiu até aqui. Este álbum não apenas honra o legado: ele o sela. Fecha de maneira grandiosa, digna e espetacular a trajetória de uma das bandas mais importantes da história do heavy metal.

Obrigado, Megadeth.
Obrigado, Dave Mustaine.

William Ribas




Nenhum comentário:

Postar um comentário