O álbum “The Dark Side of the Soul (An Anatomy of the Soul)”, sucessor do EP The "Circle of the Crow" (2022), marca o retorno da banda mineira — atualmente formada por Vladimir Korg (vocal), Edu Megale (guitarra), Wesley Ribeiro (baixo) e Lina Linassi (bateria) — às suas raízes mais puras do thrash metal, agora aprofundadas por uma atmosfera ainda mais sombria, conceitual e agressiva, com produção assinada por André Damien no estúdio Maçonaria do Áudio e mixagem e masterização a cargo do renomado produtor dinamarquês Tue Madsen, conhecido por trabalhos com nomes como Meshuggah, Rob Halford, Moonspell, Behemoth, Vader, Vio-lence, Ektomorf e Kataklysm, enquanto a impactante arte de capa resgata uma ilustração de 1983 do lendário artista Michael Whelan, célebre por trabalhos para Stephen King, H.P. Lovecraft e bandas como Obituary e Sepultura. Lançado mundialmente em novembro pela gravadora portuguesa Alma Mater Records, fundada por Fernando Ribeiro (Moonspell), com distribuição da BloodBlast, braço da Believe/Nuclear Blast, o disco dá continuidade à tradição de obras conceituais do grupo, como o clássico "The Hangman Tree", porém com uma abordagem ainda mais visceral e perturbadora, construindo uma narrativa distópica guiada por diálogos entre uma alma atormentada e um cérebro tomado pela fúria, em uma crítica cortante à condição humana contemporânea, onde vaidade, futilidade e ódio são expostos sem piedade em letras que, segundo Korg, pretendem “cortar o ouvinte em pedaços”, ideia reforçada pela própria gravadora, que destaca diálogos improváveis e provocações diretas — como a inquietante pergunta “É agora que todos vão morrer?” — para definir o álbum como uma obra intensa, sem concessões, que não apenas atualiza como fortalece o thrash metal forjado em Belo Horizonte, entregando da primeira à última faixa um verdadeiro “quebra-pescoços” brutal, crítico e absolutamente fiel à essência do gênero. William Ribas bateu um papo com Korg a respeito do novo álbum e o resultado você confere à seguir.
Por William Ribas
Fotos: Alexandre Biciati
Rebel Rock: São trinta anos separando Gottverlassen de The Dark Side of the Soul. A resenha que escrevemos destaca que o mundo mudou para pior nesse tempo — ficou mais cínico e medíocre. O que foi o "estopim" para que o The Mist decidisse que agora era o momento exato para quebrar esse silêncio e lançasse um novo trabalho de inéditas?
Vladimir Korg: Tínhamos a possibilidade de um contrato com uma gravadora bastante renomada por meio de um agente, mas precisávamos ter algo novo. Eu e Megale nos concentramos para criar músicas novas dentro de um conceito que eu já tinha escrito desde 2019. Nosso tempo foi curto, e eu mesmo fiz a produção executiva para agilizar o processo. Tínhamos realmente o tempo contra nós, mas conseguimos. Só que precisávamos de um montante de dinheiro para dar andamento ao contrato, e não conseguimos levantar esse valor. Tínhamos um álbum, e eu acreditava muito no potencial do trabalho. Foi desgastante, principalmente para mim e para o Megale. Decidi levar a produção adiante e lançar o álbum como lancei o EP The Circle of the Crow, mas o Fernando Ribeiro (Moonspell), dono da Alma Mater Records, tinha me feito um convite para fazer parte do cast e lançar algo novo, e eu tinha esquecido totalmente disso. Isso ajudou bastante a alavancar o álbum e levá-lo para a Europa e para outros continentes. Ficamos com o álbum dois anos até o lançamento definitivo e, mesmo assim, ele não perdeu seu frescor, seu olhar contemporâneo de crítica e indignação. Acho que o conceito ajudou bastante, pois a questão da desumanização e da futilidade que vivemos hoje só piorou.
Rebel Rock: As bandas dos anos 80/90 retornam apoiadas puramente na nostalgia. O novo álbum, contudo, soa moderno e soa como um "acerto de contas”. Como foi o processo mental da banda para evitar a armadilha de tentar soar como em 1991 e, em vez disso, criar algo que soe relevante?
Korg: Não foi difícil, porque não foi intencional. Apenas fizemos o que sabemos fazer: música! Soar como o passado é meio perda de tempo, porque, na época, queríamos falar sobre o nosso tempo e não sobre coisas antigas. O EP já dava uma pista de que não estávamos mais presos ao passado.Sempre puxamos a orelha dos nossos fãs quando citam 1991 ou o The Hangman Tree, porque somos a continuação do Gottverlassen e não do The Hangman Tree. Há uma cronologia lógica no caminhamento da banda. Mesmo que eu não tenha participado do Ashes to Ashes e do Gottverlassen, esses trabalhos não podem ser ignorados.Somos uma banda que trata de coisas do agora, como éramos quando fizemos nossos trabalhos do passado. É impossível e desnecessário fazer emulações dos anos passados, porque não somos mais as mesmas pessoas, e tampouco precisamos seguir cartilhas do metal moderno para parecermos atuais.
Wesley Ribeiro, Edu Megale, Vladimir Korg, Lina Linassi
Rebel Rock: Aproveitando, como foi achar o equilíbrio certo entre preservar a essência clássica do The Mist e incorporar uma brutalidade contemporânea?
Korg: Não pensar sobre isso. Apenas fizemos o álbum. Nosso objetivo era sair daquilo vivos e razoavelmente normais (parece que falhamos neste último). Não tivemos muito tempo para pesquisar ou trilhar um caminho. Apenas passamos madrugadas compondo. Compusemos o álbum todo em dois meses e meio. Algumas músicas eu cantei pela primeira vez dentro do estúdio.
Rebel Rock: O conceito de "Anatomia da Alma" é fascinante e perturbador. A ideia de dar voz a órgãos (Fígado, Pulmões, Coração) para dialogar com a alma cria uma narrativa muito visual. De onde surgiu essa ideia de dissecar a condição humana biologicamente e moralmente?
Korg: Foi algo planejado desde o início ou surgiu durante as composições? A ideia me veio à cabeça assistindo a uma dissecação de um cadáver na sala de anatomia da Faculdade de Medicina, em 2019. Comecei a escrever o álbum a partir daí. O lance era não fazer algo centrado em anatomia, e sim criar uma poética tendo como base as estruturas anatômicas.É claro que eu tinha represado muita coisa, muitos sentimentos e tal desde a pandemia. Foi colocar tudo em um caldeirão e mexer. É muito legal quando alguém sente essa perturbação que você disse, porque prova que o álbum foi ouvido — coisa difícil hoje em dia.
Rebel Rock: Korg, seus vocais neste disco soam diferentes de tudo que você já fez. Há um desespero, uma alternância entre o escárnio e o pedido de socorro que soa incrivelmente. Como foi a preparação emocional para gravar vozes que precisavam soar como alguém "preso dentro do próprio corpo”?
Korg: Acho que a urgência do álbum não me deu muito tempo para elaborar. Tive que me virar e me concentrar em como a música e as canções me afetavam. Tive uma excelente direção do André Damien, que me puxou a orelha às vezes quando minha falta de confiança batia. Sua presença na primeira fase da gravação foi muito importante. Acho que ele percebeu a responsabilidade do trabalho e o quão histórico, para a marca The Mist, era aquela confusão toda.
Vladimir Korg
Rebel Rock: Na faixa “Geppetto's Song”, existe uma crítica ácida ao que chamamos de "contos de fadas”. Por que foi importante para vocês desconstruir essa visão inocente? Vocês acreditam que essa infantilização da sociedade é parte da doença moderna que o álbum diagnostica?
Korg: Sempre usei o The Mist como dispositivo para criticar uma moral muito “estadunidense”, à qual a minha geração foi submetida. E o universo da Disney foi muito utilizado para isso. A questão da mulher princesa, o homem como príncipe encantado, e como eram colocadas as coisas para as crianças, como elas deveriam se portar e tal. Sempre em um universo branco, perfeitinho demais e, é claro, inalcançável para pessoas nascidas no terceiro mundo, pessoas pretas ou fora do padrão que eles criaram. Sobre a infantilização, eu penso muito nisso de uma outra perspectiva. Acredito muito que seja uma imbecilização coletiva, e a internet e as redes sociais ajudaram muito para que isso acontecesse. Não que a internet seja a culpada por isso; ela se tornou um meio para que os imbecis se manifestem. Não estou falando sobre política, mas ela também está aí. As pessoas parecem ter descoberto que, sendo estúpidas, conseguem se comunicar melhor com mais pessoas e se destacar dentro desse universo; ou seja, os estúpidos estão mais organizados e em grupos imensos, em um universo de estupidez cada vez maior. As pessoas que realmente poderiam fazer diferença estão lendo livros ou angustiadas dentro de um mundo em que elas têm que dar uma espécie de moonwalker intelectual para serem entendidas.
Rebel Rock: As letras expõem vaidade, futilidade, ódio e medo com brutalidade pouco comum. Vocês enxergam esse disco como um reflexo direto do mundo atual ou como algo mais íntimo e autobiográfico?
Korg: Um pouco dos dois. Às vezes, um pouco de alerta, mas sem nada messiânico. Quando eu falo que todo mundo morre e você tem que dar um jeito na porra da sua vida, isso é ingênuo? É o que os pais falam para os filhos desde que eles tomam consciência sobre o mundo. Mas como nos tornamos imbecis é bom lembrar. É claro, estou usando o termo “imbecil” de forma rudimentar, já que ele foi abolido para designar pessoas com desenvolvimento intelectual limitado no campo da neurologia. O termo se tornou um meio para ofender as pessoas; não é este o caso. Acho que “estúpidos” seria mais apropriado. Seja como for, ainda temos um certo nível de percepção para ver o quanto o mundo tem se tornado estranho e, muitas vezes, ridículo, e não nos importamos mais. As pessoas mentem sobre elas mesmas e sobre as coisas em volta. Construímos um simulacro onde depositamos o nosso pior e, mesmo assim, sorrimos com nossos sorrisos falsos em prol de uma imagem instável moldada por aquilo que foi — bastante apropriadamente — conceituado por Bauman como modernidade líquida. Acho que o álbum em si fala sobre o mundo que construímos para viver, mas no qual só alguns vivem. Quando falo de viver, é viver mesmo, e não sobreviver. O mundo que construímos não é para nós mesmos vivermos nele, e sim para alguns. Apenas temos uma visão ordinária sobre tudo.O que conhecemos é o que hoje nos permitem conhecer. Somos apenas óleo para as engrenagens que movem um mundo ao qual não pertencemos e do qual não usufruímos plenamente. Por isso, na primeira canção já tem um backing vocal insistente: Acorde!
Rebel Rock: Em faixas como “The Curse of Life” e “Death – Return to Sender”, a morte surge não como metáfora distante, mas como presença constante. A consciência da finitude foi um motor criativo neste álbum?
Korg: Também. Em um mundo de mentiras, a morte é a verdade absoluta. Na música NAMBER, há um trecho que diz: “Estou vivendo na minha caverna de Platão, jogando com minhas sombras e, no final, eu sempre perco.” Eu fiz o possível para que essa frase fosse entendida de forma desesperada. Porque, às vezes, acho que a rapidez do mundo contemporâneo e a nossa rotina de sobrevivência se assemelham ao chamado “abraço do afogado”.
Rebel Rock: O lançamento mundial ocorre pela Alma Mater Records, do Fernando Ribeiro (Moonspell). Ter um músico de uma banda icônica gerindo o selo muda a forma como o trabalho de vocês é tratado? Existe uma compreensão maior da "alma" da banda nesse caso?
Korg: Fernando é um irmão do metal. Ele sempre foi um admirador do metal brasileiro e um grande fã do The Mist. Fomos tratados com muito respeito pela Alma Mater, e ele nos deu a possibilidade de termos um cara como Tue Madsen para finalizar nosso trabalho e um trabalho do Michael Whelan para a nossa capa.Ele tem consciência das dificuldades que temos por aqui, e eu sempre fui muito honesto com ele sobre isso.
Rebel Rock: A última faixa, Return to Sender, encerra o disco com uma sensação de exaustão e entrega. O título sugere um fim, mas a energia da banda sugere um recomeço. O que podemos esperar do The Mist daqui para frente? A "jaula" foi aberta de vez?
Korg: Hoje é difícil prever o futuro para uma banda. Sem querer, usei a mesma aura de fim para este álbum como usei em "Leave Me Alone", no The Hangman Tree. Mas não é um fim para este conceito. Este mundo é um terreno fértil para o heavy metal. O capeta hoje é tão inofensivo!!!
Rebel Rock: Como é um trabalho cheio de conceitos, quase como atos de uma peça, acredito que seria extremamente interessante ter o álbum tocado na íntegra nos shows de divulgação. Vocês conversam sobre isso? Existe essa possibilidade?
Korg: Não agora. Talvez um dia. O álbum acabou de nascer. Ele conversa bem com os primeiros álbuns, e conseguimos agradar a todos. Não vejo um setlist sem "Peter Pan Against the World" ou 'The Hangman Tree".
Rebel Rock: Obrigado pela entrevista. Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Korg: Eu que agradeço. Um abraço a todos os leitores do Rebel Rock. Ouçam o The Mist e comprem nossa nova marcha, que está foda. Na nossa bio do The Mist tem o endereço da nossa loja. Stay Metal!!!





Nenhum comentário:
Postar um comentário