quinta-feira, 17 de setembro de 2026

GUNS N' ROSES - USE YOUR ILLUSION 35 ANOS


O VÔO DA FÊNIX E A QUEDA DE ÍCARO - OS 35 ANOS DE USE YOUR ILLUSION DO GUNS N' ROSES

Obra-prima megalomaníaca e laboratório de tensões internas, os álbuns duplos lançados em 1991 marcaram o ápice criativo e o início do fim da formação clássica da maior banda de rock do mundo

Por Sergiomar Menezes

Em 17 de setembro de 1991, o mundo do rock parou para respirar o mesmo oxigênio explosivo que moldaria a cultura pop daquela década. Há exatos 35 anos, o Guns N' Roses lançava simultaneamente os álbuns Use Your Illusion I e Use Your Illusion II. Mais do que simples continuações de um catálogo bem-sucedido, os discos representaram o ápice criativo, a megalomania artística e, ironicamente, o início do fim da formação clássica da banda mais perigosa do planeta.

Para entender a magnitude do lançamento, é preciso voltar os olhos para o cenário musical do final de 1991. Impulsionados pelo furacão de "Appetite for Destruction" (1987) e pelo pré-aquecimento acústico de "GN'R Lies" (1988), Axl Rose, Slash, Izzy Stradlin, Duff McKagan e Matt Sorum (que substituía Steven Adler na bateria) entraram nos estúdios não apenas para gravar músicas, mas para redefinir os limites do hard rock.

Aprofundar-se nos trinta e cinco anos de Use Your Illusion I & II exige ir além dos recordes de bilheteria e dos milhões de cópias vendidas. Significa dissecar o momento em que a maior gangue do rock mundial se transformou em um laboratório de experimentação sônica e, simultaneamente, em uma panela de pressão prestes a explodir.

Se "Appetite for Destruction" era a quintessência da rua, do suor e do perigo marginal de Los Angeles, os UYI eram a manifestação da mente ambiciosa de Axl Rose. O frontman queria pianos, arranjos de cordas, corais e complexidade estrutural — algo que começou a distanciar o núcleo criativo da banda.

Enquanto Slash e Duff ainda mantinham as raízes fincadas no rock de garagem, Axl empurrava o grupo em direção a um art-rock quase operístico. Essa fricção criativa, somada aos atrasos crônicos de Axl para subir aos palcos e aos crescentes problemas de bastidores, gerou uma tensão insustentável. Izzy Stradlin abandonou o barco no meio da turnê de divulgação, marcando o primeiro grande golpe mortal na formação clássica.

Resumindo, o som de Appetite for Destruction nasceu da fome e do asfalto de Hollywood. Use Your Illusion nasceu da riqueza, do isolamento e das obsessões megalomaníacas de Axl Rose. O vocalista passou a investir horas intermináveis no estúdio, reescrevendo partes de piano, adicionando arranjos de cordas sintetizadas e flertando com uma grandiosidade que pegou o restante da banda de surpresa.


A grandiosidade do projeto exigiu um preço altíssimo nos bastidores. O processo de gravação e, posteriormente, a titânica Use Your Illusion Tour (que durou mais de dois anos) funcionaram como catalisadores para a destruição do ecossistema interno da banda.

O fator Axl Rose: Os atrasos crônicos de Axl para subir aos palcos — muitas vezes motivados por perfeccionismo obsessivo, caprichos ou disputas contratuais — geravam revolta nos fãs e atritos violentos entre os integrantes.

A saída de Izzy: Sentindo-se sufocado pelo gigantismo da turnê, pelo comportamento errático de Axl e pela perda da dinâmica de grupo original, Izzy Stradlin abandonou o barco em novembro de 1991, logo após o lançamento. Sua saída representou a perda do principal compositor silencioso da banda.

A transição de bateristas: A ausência de Steven Adler (afastado por problemas graves com dependência química) abriu espaço para Matt Sorum. Embora Sorum trouxesse uma precisão técnica impecável de estúdio e peso ao vivo, a troca alterou o "balanço" rítmico orgânico que caracterizava o som original de 1987.

O resultado dessa imersão estúdio adentro foi um monstro duplo composto por 30 faixas e mais de duas horas e meia de música. A ousadia comercial pagou dividendos imediatos: os álbuns estrearam ocupando historicamente as duas primeiras posições da parada da Billboard 200 (com o Illusion II em primeiro e o Illusion I em segundo), um feito inédito na indústria fonográfica até então.

Divididos por capas icônicas de Mark Kostabi — diferenciadas apenas pelas cores contrastantes em azul e amarelo/vermelho —, os discos funcionavam como as duas faces de uma mesma moeda caótica:

Use Your Illusion I assumiu um papel mais visceral e cru, fortemente ancorado na pegada de Izzy Stradlin. O disco abriga clássicos absolutos como "Don't Cry", a crueza cortante de "Double Talkin' Jive" e a grandiosa, cinematográfica e chatíssima "November Rain", cuja superprodução bancada pela Geffen Records redefiniu o patamar dos videoclipes na MTV. Mas "Dead Horse", "Don't Damn Me", "The Garden of Eden", "Right Next Door to Hell", "Perfect Crime", "Coma" e "Back Off Bitch" (essa, resgatada de demos antigas), mostravam que a banda de "Appetite for Destruction" ainda respirava...

Use Your Illusion II, por sua vez, enveredou por caminhos mais melancólicos, políticos e experimentais. A abertura com "Civil War" dava o tom de um álbum que combinava o apelo comercial estrondoso de "You Could Be Mine" (consagrada em "Exterminador do Futuro 2"), a releitura de Bob Dylan em "Knockin' on Heaven's Door" e a profundidade dramática da balada progressiva "Estranged" (disparada, a melhor faixa dos dois álbuns). No entanto, outras composições como "14 Years" (obra prima composta por Stradlin), "Breakdown", "Pretty Tied Up" e "Locomotive" criaram atmosferas melódicas e pesadas. Agora, qual a necessidade de uma segunda versão de "Don't Cry" e aquela coisa horrorosa chamada "My World"?

Olhando em retrospectiva, a turnê "Use Your Illusion Tour" rodou o planeta entre 1991 e 1993 — incluindo passagens históricas e caóticas pelo Brasil —, consolidando a banda como o maior ato de rock do mundo em atividade.


Três décadas e meia após o seu nascimento, Use Your Illusion I & II resistem ao teste do tempo. Longe de serem criticados apenas pelos exageros ou faixas consideradas "excessivas" por alguns puristas, os álbuns são hoje celebrados como monumentos de uma era em que as grandes gravadoras ainda investiam em riscos artísticos colossais.

Eles capturaram o GUNS N' ROSES no exato momento em que tocaram o sol com as mãos, antes de se consumirem pelo próprio fogo. Para o rock n' roll, foi um divisor de águas; para os fãs, a eterna e inalcançável ilusão de uma banda que continha o universo inteiro dentro de si.





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