FLOTSAM AND JETSAM
RATS IN THE TEMPLE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional
RATS IN THE TEMPLE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional
Há bandas que vivem eternamente daquilo que fizeram nos primeiros anos de carreira. Flotsam and Jetsam poderia facilmente estar nesse grupo. Afinal, quando uma banda começa sua discografia com "Doomsday for the Deceiver" e, pouco depois, entrega "No Place for Disgrace", é inevitável que qualquer lançamento posterior seja comparado àquela fase. Só que existe algo particularmente interessante na história dos americanos: mesmo depois de atravessar períodos bastante irregulares, eles nunca perderam completamente a capacidade de fazer um disco de metal realmente relevante.
Rats in the Temple chega justamente nesse ponto da carreira. Quarenta anos depois do início da história, a banda não parece interessada em simplesmente reproduzir o passado ou viver de nostalgia. Muito pelo contrário. Os últimos sete anos mostram o quão afiados estão. A sequência matadora, iniciada com "The End of Chaos" (2019), "Blood in the Water" (2021) e "I Am the Weapon" (2024), agora ganha mais um capítulo: Rats in the Temple.
O que existe aqui é uma tentativa de juntar diferentes momentos de sua identidade em um único trabalho: a velocidade e a agressividade do thrash, as melodias do power metal americano e algumas passagens mais tradicionais de heavy metal.
E eles novamente acertaram em cheio!
“Harvesting the Hate” já deixa isso bastante claro. A introdução cria uma expectativa quase cinematográfica antes de a banda entrar rasgando tudo. Quando Eric A.K. aparece, sua voz continua sendo um dos elementos que tornam Flotsam and Jetsam imediatamente reconhecível. Os anos passaram, evidentemente, mas, em vez de tentar esconder isso, a banda parece aproveitar as características atuais de sua voz. Talvez seja justamente essa combinação entre experiência e agressividade que faça o álbum funcionar tão bem.
“Damnation” mergulha em um clima mais pesado e sombrio, enquanto “Absolution” recupera aquele thrash que anda no bagageiro da banda desde os anos 1980. A diferença é que, aqui, os riffs rápidos dividem espaço com refrãos mais grandiosos e melódicos. Essa alternância entre ataque e melodia é praticamente a assinatura da fase atual, que, sinceramente, acho a melhor do Flotsam and Jetsam.
“Blame the Knife” aparece como uma das faixas mais fáceis de absorver. Há um groove particularmente contagiante e um refrão daqueles que são perfeitos para os shows. É uma música acessível sem transformar a banda em algo genérico. A faixa-título volta a colocar o pé no acelerador — a entrada dos riffs e da bateria muda completamente o cenário. Facilmente cresce no ouvinte a vontade de bater cabeça e erguer os punhos. “Rats in the Temple” é energética e melódica nos momentos certos, possivelmente a música que mais representa o que, de fato, são as 13 músicas do tracklist.
E, se existe uma característica que atravessa praticamente todo o álbum, é essa preocupação com melodias. Mesmo quando a banda está tocando pesado, existe quase sempre alguma guitarra trabalhando por trás, algum vocal adicional ou uma linha melódica tentando escapar do peso dos riffs. Michael Gilbert e Steven Conley têm papel fundamental nisso, dando uma personalidade ímpar às músicas.
“First on the Spike” traz uma leve mudança interessante. O peso ganha uma certa malícia de groove, e a banda mostra que não precisa permanecer presa à velocidade para soar agressiva. Já “The Edge of Nowhere” retoma a velocidade e coloca novamente as guitarras no centro da ação. No momento em que li “Last Rites”, juro que pensei que seria o momento de respiro no álbum. Engano meu. A banda não desacelera; pelo contrário, aposta em riffs rápidos e uma atmosfera quase sufocante.
A introdução de “A Taste for War” chama atenção pela interação entre baixo e bateria e cria uma expectativa interessante, mas a música não desenvolve completamente o potencial daquele começo. Não é ruim, mas se perde, sendo a mais fraca do disco. Felizmente, “Her Blood, Your Pain” aparece logo na sequência e recupera o equilíbrio com ótimas linhas melódicas. “Anthem for the Broken” é outro daqueles momentos em que a banda parece enxergar o palco antes mesmo de sair do estúdio. O refrão é direto e feito para funcionar ao vivo. Existe uma simplicidade calculada ali, uma maneira de construir tensão nos versos para depois hipnotizar nos refrãos — Rats in the Temple poderia se encerrar aqui que todos estaríamos sorrindo de orelha a orelha.
Mas não! “Not Goin’ Down That Way” é a responsável por fechar o álbum. É uma escolha interessante para o encerramento porque, consciente ou não, existe algo quase simbólico. Depois de quatro décadas, tantas mudanças na música pesada, fases boas e ruins, mudanças de formação, tendências que surgiram e desapareceram, Flotsam and Jetsam continua aqui.
E continua fazendo barulho. Até aqui, um dos melhores álbuns que escutei esse ano.
Rats in the Temple não é um disco que tenta convencer ninguém de que estamos novamente em 1986. É muito mais interessante: um trabalho de músicos veteranos que conhecem profundamente aquilo que construíram em todos esses anos — o lado pesado, melódico, sombrio e, acima de tudo, a honestidade com a identidade da banda.
É isso. Rats in the Temple é honesto — um redemoinho de riffs para fazer nossa cabeça balançar.
William Ribas


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