terça-feira, 15 de setembro de 2026

ACCEPT - TEUTONIC TITANS 1976 - 2026 - HALF A CENTURY OF HEAVY METAL

 


ACCEPT
TEUTONIC TITANS 1976 - 2026 
Napalm Records - Importado

Para marcar seus 50 anos de carreira, o Accept fugiu do óbvio pacote de grandes sucessos remasterizado e lançou, em 4 de setembro pela Napalm Records, o "Teutonic Titans 1976-2026". São 19 clássicos regravados com a participação de 50 músicos convidados, um para cada ano de existência da banda, sob o comando de Wolf Hoffmann, que puxa a guitarra em praticamente todas as faixas, com Mark Tornillo segurando o vocal como fio condutor na maior parte do disco. Um fato curioso neste lançamento ficou conta da curadoria do repertório, que cobre apenas o período de 1980 a 1989, ou seja, as fases com Udo Dirkschneider e, em "Eat the Heat", David Reece nos vocais. Fica de fora tanto a estreia de 1979 quanto qualquer faixa da era Tornillo, que já dura mais de 15 anos, o que causa certa estranheza.

Dito isso, é dentro desse recorte específico que o disco funciona muito bem. Logo de cara, "Fast as a Shark" entrega o recado com Phil Anselmo mandando muito bem no vocal e Kirk Hammett arrasando no solo, enquanto Mikkey Dee e Billy Sheehan seguram uma cozinha daquelas, à altura de um dos riffs mais velozes da carreira da banda. Em seguida vem "Balls to the Wall", e aqui Wolf acerta em cheio ao colocar Rob Halford no maior clássico do Accept: o Metal God canta do seu próprio jeito, sem tentar imitar o Udo, e ainda assim entrega uma das participações mais marcantes do disco.

O meio do álbum concentra algumas das minhas faixas favoritas da carreira da banda, e é justamente aí que o disco mais brilha. "Aiming High" ganha uma excelente performance de Chuck Billy dividindo os vocais com Mark, com Gary Holt e David Ellefson completando o time, um som que honestamente deveria aparecer mais nos shows da banda. "Run If You Can" é, sem dúvida, um dos pontos altos do disco inteiro: Todd La Torre destrói em cima de uma das minhas músicas favoritas do Accept, dividindo os vocais com Mark, que canta junto com os convidados em praticamente todas as faixas. E "Metal Heart" ganha uma introdução linda de violino elétrico, com Dino Jelusick (uma grata surpresa, um dos melhores vocalistas da atualidade) dividindo os vocais com Mark e Joel Hoekstra somando guitarra com Wolf.

Tem ainda uma surpresa que merece destaque à parte: "Hellhammer", tirada justamente de "Eat the Heat", disco de 1989 injustamente execrado por boa parte do fandom (não por mim, que sempre gostei bastante desse trabalho mais hard rock da banda). A releitura da faixa é excelente e ajuda a resgatar o prestígio de um álbum que merece mais respeito do que costuma receber.

A sequência de clássicos segue forte com "Losers and Winners", perfeitamente dividida entre Mark, Wolf e os convidados, e "Save Us", elevada pela interpretação sempre teatral de Tobias Forge, que parece ter nascido pra cantar essa música. "Up to the Limit" traz John Bush, um dos vocalistas mais injustiçados e menos reconhecidos do metal, numa participação de peso, e "Wrong is Right" ganha uma bela contribuição de Ralf Scheepers dividindo vocais com Mark. "Starlight" e "Fight It Back" seguem a mesma toada de execução impecável, sem grandes sustos, mas também sem deixar a peteca cair. "Breaker" mantém o nível com a participação de Girish Pradhan, e "Demon's Night" ganha uma combinação e tanto entre Bobby Blitz e Mark. Já "T.V. War", faixa quase esquecida no repertório da banda, prova nessa regravação que é tão boa quanto os grandes clássicos, mérito também da escolha certeira dos convidados.

Nem tudo funciona, porém. "Love Child" é a escolha mais estranha e menos esperada do álbum: Billy Corgan no vocal deixa a música com menos força e poder do que o clássico pede, ainda mais tratando-se de uma das faixas mais queridas da banda. "London Leatherboys", com Sebastian Bach, e "Monsterman", com Jeff Scott Soto (um dos meus vocalistas favoritos de todos os tempos, que fique claro), também não encaixam tão bem quanto o resto do disco. Não que fiquem ruins, longe disso, mas simplesmente não soam tão "Accept" quanto as demais regravações.

O encerramento fica por conta de "Restless and Wild", com K.K. Downing dividindo guitarra com Wolf numa dupla e tanto, fechando o disco com chave de ouro num dos maiores clássicos da carreira da banda.

No saldo geral, "Teutonic Titans 1976-2026" acerta muito mais do que erra. É um disco que resgata clássicos menos lembrados, reforça o peso das faixas mais queridas e celebra com brilho cinco décadas de carreira. Fica, no entanto, a sensação de uma comemoração pela metade: ao se limitar às fases Udo e David Reece, o disco ignora completamente a era Tornillo, que já responde por mais tempo de banda do que muita gente lembra, e deixa de fora até o próprio Udo (mesmo que todos saibam do obvio), cuja voz é a marca registrada de praticamente tudo que está sendo celebrado aqui.

Fernando Aguiar






FLOTSAM AND JETSAM - RATS IN THE TEMPLE (2026)

 


FLOTSAM AND JETSAM
RATS IN THE TEMPLE
Shinigami Records/Napalm Records - Nacional

Há bandas que vivem eternamente daquilo que fizeram nos primeiros anos de carreira. Flotsam and Jetsam poderia facilmente estar nesse grupo. Afinal, quando uma banda começa sua discografia com "Doomsday for the Deceiver" e, pouco depois, entrega "No Place for Disgrace", é inevitável que qualquer lançamento posterior seja comparado àquela fase. Só que existe algo particularmente interessante na história dos americanos: mesmo depois de atravessar períodos bastante irregulares, eles nunca perderam completamente a capacidade de fazer um disco de metal realmente relevante.

Rats in the Temple chega justamente nesse ponto da carreira. Quarenta anos depois do início da história, a banda não parece interessada em simplesmente reproduzir o passado ou viver de nostalgia. Muito pelo contrário. Os últimos sete anos mostram o quão afiados estão. A sequência matadora, iniciada com "The End of Chaos" (2019), "Blood in the Water" (2021) e "I Am the Weapon" (2024), agora ganha mais um capítulo: Rats in the Temple.

O que existe aqui é uma tentativa de juntar diferentes momentos de sua identidade em um único trabalho: a velocidade e a agressividade do thrash, as melodias do power metal americano e algumas passagens mais tradicionais de heavy metal.

E eles novamente acertaram em cheio!

“Harvesting the Hate” já deixa isso bastante claro. A introdução cria uma expectativa quase cinematográfica antes de a banda entrar rasgando tudo. Quando Eric A.K. aparece, sua voz continua sendo um dos elementos que tornam Flotsam and Jetsam imediatamente reconhecível. Os anos passaram, evidentemente, mas, em vez de tentar esconder isso, a banda parece aproveitar as características atuais de sua voz. Talvez seja justamente essa combinação entre experiência e agressividade que faça o álbum funcionar tão bem.

“Damnation” mergulha em um clima mais pesado e sombrio, enquanto “Absolution” recupera aquele thrash que anda no bagageiro da banda desde os anos 1980. A diferença é que, aqui, os riffs rápidos dividem espaço com refrãos mais grandiosos e melódicos. Essa alternância entre ataque e melodia é praticamente a assinatura da fase atual, que, sinceramente, acho a melhor do Flotsam and Jetsam.

“Blame the Knife” aparece como uma das faixas mais fáceis de absorver. Há um groove particularmente contagiante e um refrão daqueles que são perfeitos para os shows. É uma música acessível sem transformar a banda em algo genérico. A faixa-título volta a colocar o pé no acelerador — a entrada dos riffs e da bateria muda completamente o cenário. Facilmente cresce no ouvinte a vontade de bater cabeça e erguer os punhos. “Rats in the Temple” é energética e melódica nos momentos certos, possivelmente a música que mais representa o que, de fato, são as 13 músicas do tracklist.

E, se existe uma característica que atravessa praticamente todo o álbum, é essa preocupação com melodias. Mesmo quando a banda está tocando pesado, existe quase sempre alguma guitarra trabalhando por trás, algum vocal adicional ou uma linha melódica tentando escapar do peso dos riffs. Michael Gilbert e Steven Conley têm papel fundamental nisso, dando uma personalidade ímpar às músicas.

“First on the Spike” traz uma leve mudança interessante. O peso ganha uma certa malícia de groove, e a banda mostra que não precisa permanecer presa à velocidade para soar agressiva. Já “The Edge of Nowhere” retoma a velocidade e coloca novamente as guitarras no centro da ação. No momento em que li “Last Rites”, juro que pensei que seria o momento de respiro no álbum. Engano meu. A banda não desacelera; pelo contrário, aposta em riffs rápidos e uma atmosfera quase sufocante.

A introdução de “A Taste for War” chama atenção pela interação entre baixo e bateria e cria uma expectativa interessante, mas a música não desenvolve completamente o potencial daquele começo. Não é ruim, mas se perde, sendo a mais fraca do disco. Felizmente, “Her Blood, Your Pain” aparece logo na sequência e recupera o equilíbrio com ótimas linhas melódicas. “Anthem for the Broken” é outro daqueles momentos em que a banda parece enxergar o palco antes mesmo de sair do estúdio. O refrão é direto e feito para funcionar ao vivo. Existe uma simplicidade calculada ali, uma maneira de construir tensão nos versos para depois hipnotizar nos refrãos — Rats in the Temple poderia se encerrar aqui que todos estaríamos sorrindo de orelha a orelha.

Mas não! “Not Goin’ Down That Way” é a responsável por fechar o álbum. É uma escolha interessante para o encerramento porque, consciente ou não, existe algo quase simbólico. Depois de quatro décadas, tantas mudanças na música pesada, fases boas e ruins, mudanças de formação, tendências que surgiram e desapareceram, Flotsam and Jetsam continua aqui.

E continua fazendo barulho. Até aqui, um dos melhores álbuns que escutei esse ano.

Rats in the Temple não é um disco que tenta convencer ninguém de que estamos novamente em 1986. É muito mais interessante: um trabalho de músicos veteranos que conhecem profundamente aquilo que construíram em todos esses anos — o lado pesado, melódico, sombrio e, acima de tudo, a honestidade com a identidade da banda.

É isso. Rats in the Temple é honesto — um redemoinho de riffs para fazer nossa cabeça balançar.

William Ribas




segunda-feira, 14 de setembro de 2026

DEATH MAGNETIC 18 ANOS - QUANDO O METALLICA DECIDIU SER O METALLICA DE NOVO


Lançado em um mundo pré-streaming e sob a sombra de St. Anger, o álbum que completou a maioridade marcou não um retorno ao passado, mas a redenção sonora e o renascimento definitivo dos gigantes do thrash metal

Por William Ribas

Olhar no calendário e ver que hoje, o tal álbum com um caixão na capa está chegando à maioridade é, de certo modo, “estranho”. Quando o álbum saiu, estávamos na febre do Orkut e suas comunidades. O download ilegal reinava absoluto — Lars ainda era “odiado” por conta do processo contra o Napster. Estávamos longe do Spotify e o YouTube tinha acabado de parar de engatinhar e estava “dando seus primeiros passos”. Ou seja, outro mundo.

Death Magnetic vinha com uma enorme expectativa em torno dele. Afinal, haviam se passado cinco anos desde St. Anger. Uma enorme dúvida pairava pelo ar. Seria mais uma decepção? Ou agora Lars, James, Kirk e Rob voltariam a colocar esse “trem” nos trilhos? A turnê, que durou três anos, teve quatro DVDs, passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Europa, Ásia e Oceania, totalizando 182 shows, responde por si só.

A abertura com os batimentos cardíacos deixou todos apreensivos — mas a mão direita mais certeira do thrash metal tratou de mostrar que a banda estaria diferente agora. “That Was Just Your Life” era rápida, obviamente, não como nos quatro primeiros álbuns (esse Metallica não existe mais, ok?), mas fazia uma boa dupla com “The End of the Line”. Ambas trazem um bom impacto para os primeiros minutos.

A seguinte vinha como uma boa forma de resistência: “Levante, caia, levante novamente, aquilo que não te mata, te fortalece”. “Broken, Beat & Scarred” é arrastada, mas certeira. O refrão e os solos de Kirk são a cereja do bolo da música, o peso que antecede a calmaria.

“The Day That Never Comes” virou queridinha. Ganhou um clipe e o rótulo de uma nova “One”, tudo por aquele jeito Metallica de fazer power ballads — linhas dedilhadas e melódicas, peso no refrão e final rápido e explosivo. “Day” segue no set até hoje, tornando-se a música do álbum mais tocada até o momento: 232 vezes.

“All Nightmare Long” chega para trazer novamente a velocidade do início do álbum. Talvez seja uma das faixas que melhor representam aquilo que a banda queria entregar naquele momento: riffs, mudanças de andamento, um refrão forte e aquele clima sombrio que combina perfeitamente com o conceito por trás do disco.

“Cyanide” vem na sequência e mantém o álbum andando em uma velocidade confortável. De certo modo, a faixa traz consigo um ar mais “comercial”. E, indo nesse caminho, chegamos a “The Unforgiven III”. Distante das duas primeiras partes, tem na interpretação de Hetfield sua chama motriz — seus medos, erros e perdões.

“Judas Kiss” é outro daqueles momentos em que o disco lembra o ouvinte de que, sim, estamos falando do Metallica. O riff principal é daqueles que entram na cabeça imediatamente, e a música tem uma dinâmica que alterna momentos mais cadenciados com explosões de velocidade. É uma das faixas que mais se beneficiam daquele som enorme que a banda buscava para o disco.

E, sinceramente, para mim, é uma das heranças daquele trabalho tão odiado por todos: a volta das faixas longas, com grandes mudanças de andamento.

Falando em música longa, “Suicide & Redemption”. É uma faixa para ouvir com calma, prestando atenção nos riffs, nas mudanças e, principalmente, na interação entre os instrumentos. E tem um detalhe histórico interessante: é a primeira instrumental do Metallica desde “Orion” a trazer a formação completa da banda como compositores.

Depois disso tudo, ainda existe o golpe de misericórdia: “My Apocalypse”. Rápida, agressiva e direta, ela talvez seja a maior prova de que o Metallica queria recuperar parte daquela identidade que havia ficado tão distante em Load e Reload. Está longe de ser “Damage, Inc.” ou “Dyers Eve”, mas existe aqui uma banda tentando recuperar aquela sensação de urgência.

CONSEGUIRAM!

Em meio à turnê, abrirl de 2009 trouxe um daqueles momentos que entraram para a história da banda: o Metallica foi oficialmente introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame. Na cerimônia, além dos quatro integrantes da formação atual, subiram ao palco Jason Newsted e Ray Burton, pai do saudoso Cliff Burton. Newsted ainda se juntaria à banda para tocar “Master of Puppets” e “Enter Sandman”. Já em novembro do mesmo ano, o Metallica voltou ao icônico Madison Square Garden, em Nova York, para duas apresentações especiais. E 2010 reservaria outro capítulo histórico. Em junho, aconteceria o tão aguardado encontro do Big Four: Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax dividindo os mesmos palcos. O que começou com algumas apresentações em festivais se transformaria em um dos momentos mais emblemáticos da história do thrash metal, culminando com a gravação do show de Sofia, na Bulgária.

Death Magnetic não é perfeito. Novamente, a produção foi apontada como problemática. O som soa comprimido e estourado se o ouvinte resolve passar do “volume 10”, deixando uma ponta de decepção. Afinal, estamos falando de uma banda que chegou à perfeição em termos de mixagem e masterização em trabalhos dos anos 90.

Mas, olhando para o álbum 18 anos depois, talvez seja mais fácil entender sua importância.

Ele não trouxe o Metallica de 1983, 1986 ou 1991 de volta. Trouxe algo mais importante: o Metallica de volta a ser o Metallica.

Em sua turnê, a banda tocou 76 músicas diferentes e voltou a passar pelo Brasil após quase 11 anos longe de terras brasileiras. Passou por Porto Alegre, no dia 28 de janeiro, e por São Paulo, nos dias 30 e 31 de janeiro de 2010. Algo interessante é que todas as músicas do disco foram tocadas durante a World Magnetic Tour, fato que só havia ocorrido na divulgação de Kill 'Em All, em 1983.

12 de setembro, dentro da história da música pesada, pode ser lembrado como o renascimento musical do MetallicaDeath Magnetic é uma espécie de recomeço, colocando a banda definitivamente de volta ao topo.



CRIMSON GLORY - CHASING THE HYDRA (2026)

 


CRIMSON GLORY
CHASING THE HYDRA
BraveWords - Importado

Sempre que ouço, vejo ou leio o nome da banda Crimson Glory, volto a 1988, quando via nas revistas importadas da época, o anúncio do álbum “Transcendence”. Naquela época de dificuldades em encontrar material importado, consegui uma gravação em fita do álbum, cerca de um ano depois, e foi amor a primeira ouvida.

“Transcendence” me remetia ao Queensrÿche, banda que gostava muito, porém com mais peso e agressividade, mas com um toque progressivo. Os riffs e solos de guitarras junto a voz incrível do saudoso vocalista Midnight (falecido em 2009), tornaram “Transcendence” um clássico do U.S. Metal oitentista.

O álbum seguinte, “Strange and Beautiful” (1991) foi uma tentativa de atingir o grande público com uma sonoridade mais Hard Rock, fugindo totalmente do som clássico do Crimson Glory, e falhando miseravelmente, levando a dissolução da banda logo a seguir, e dando início a retornos e dissoluções ao longo dos anos. Neste período lançaram “Astronomica”(1999), sem muito destaque, e fizeram várias alterações na formação da banda, uma delas tendo Todd LaTorre (atual Queensrÿche) como seu vocalista.

Em 2023, a banda retorna definitivamente, com três membros originais: Jeff Lords (baixo), Dana Burnell (bateria) e Ben Jackson (guitarra). Completam a formação o guitarrista Mark Borgmeyer e o vocalista Travis Wills. E agora em 2026, o Crimson Glory nos apresenta seu quinto álbum, “Chasing the Hydra”, seu primeiro álbum de estúdio em 27 anos – um lançamento que poucos fãs de metal realmente esperavam acontecer, mas que ao ser ouvido, faz o tempo aguardado ter valido a pena.

Logo no inicio da primeira audição, é possível notar que o clássico som do Crimson Glory está de volta e com força. E não há nada de nostalgia piegas aqui, e sim, a verificação de uma interpretação contemporânea do som característico do Crimson Glory. O álbum começa com "Redden the Sun", uma faixa poderosa e energética que mistura estruturas progressivas com a intensidade clássica do U.S.Metal. É uma introdução forte e promissora. Em contraste, "Broken Together" começa com violão acústico, construindo gradualmente uma composição de seis minutos que mostra a amplitude musical da banda. A interpretação emotiva de Wills, remete a um dos elementos clássicos da banda.

"Angel in My Nightmare" segue um caminho semelhante, destacando-se como uma das melhores faixas do álbum ao unir com sucesso melodia, complexidade e peso emocional. "Indelible Ashes" ecoa a sua “banda irmã mais velha”, o Queensrÿche, e "Armor Against Fate" explora arranjos intricados. Por outro lado, temos a mais pesada e direta "Pearls of Dust”, outro destaque.

O álbum termina com “Triskaideka”, uma composição sombria e cheia de camadas que faz jus ao seu título enigmático. Sua complexidade e estruturas com muitas variações exigem várias audições para realmente apreciar a profundidade de suas melodias e arranjos. Uma faixa simplesmente fantástica. O Crimson Glory está de volta e com toda a força. Um dos lançamentos do ano de 2026.

José Henrique Godoy




MAIDENHEAD - MAXIMUM CLONAGE (2026)

 


MAIDENHEAD
MAXIMUM CLONAGE
Metal Devastation - Importado

Eu tenho uma certa felicidade por bandas que chegam sem pedir licença. Você abre o e-mail, vê uma banda que provavelmente não conhece, dá aquela olhada rápida na capa e pensa: “vamos ver o que esses malucos estão fazendo”. Cinco minutos depois, você está tentando entender por que diabos ainda não tinha ouvido falar deles.

Antes de tudo, ler MAIDENHEAD me fez pensar que estaria diante de algo bem próximo do Iron Maiden. “Ah, essa banda deve fazer algo na linha de Killers, segundo álbum da Donzela de Ferro.” Foi mais ou menos isso que passou pela minha cabeça. Só que, assim que apertei o play, “Enter The Killing Floor” começou e um ar de suspense tomou conta. Aí veio a faixa-título e derrubou qualquer ideia de semelhança com os britânicos.

O que temos aqui é thrash metal com uma dose generosa de death metal, sem qualquer preocupação em suavizar as arestas. A banda entra rápido no assunto e praticamente não perde tempo com apresentações. “Maximum Clonage” já deixa isso evidente, enquanto “False Masked Hero” coloca uma das melhores cartas da banda na mesa.

Os vocais são daqueles que imediatamente dão uma identidade ao disco. Em vez de simplesmente acompanhar os instrumentos, Zeping “Bella” Song acrescenta uma personalidade própria às músicas. Em “False Masked Hero”, especialmente, sua interpretação transforma a faixa em algo ainda mais ameaçador, enquanto “Magia Obscura” mostra uma abordagem diferente, acompanhando o clima mais sombrio da composição.

Maximum Clonage é o segundo álbum dos caras e, apesar de independente, não tem exatamente aquela cara de banda que resolveu gravar um disco no quarto. Pelo contrário. Tem gente bastante conhecida envolvida aqui, incluindo dois guitarristas que já passaram pelo Megadeth: Chris Poland, em “Kill Or Be Killed”, e Glen Drover, em “False Masked Hero”. Além deles, Rich Gray, do Annihilator, participa do baixo em boa parte do material.

Mas ainda bem que o MAIDENHEAD consegue jogar sozinho.

As guitarras de Zack Roberts e Vance Simmons têm bastante a dizer, mas o mérito está menos em mostrar serviço e mais na maneira como os riffs são encaixados. A dupla traz aquela escola de thrash americano em que a música pode mudar de direção sem precisar anunciar a curva com antecedência. Há um sabor de Megadeth em determinados momentos, principalmente na maneira como os riffs se movimentam, mas o MAIDENHEAD não passa o disco inteiro tentando imitar ninguém.

“Death March” segue por outro caminho. A faixa tem uma sensação quase mecânica, como se estivesse avançando em linha reta e arrastando tudo junto. “Kill Or Be Killed” merece atenção especial também, não apenas pela música em si, mas pela presença de Chris Poland. É sempre curioso ouvir um músico associado a uma determinada fase do Megadeth aparecendo em um trabalho tão distante daquela banda. E, felizmente, o solo não parece uma participação colocada ali apenas para enfeitar o encarte.

O álbum fica bastante curioso quando chegamos a “Hasta La Proxima” — A música começa com uma guitarra limpa, criando um espaço que praticamente inexistente até aquele momento. Eu sei que serviu com um fechamento,. E justamente por isso a faixa acaba mostrando uma possibilidade que o disco poderia explorar mais: contraste.

São aproximadamente trinta minutos. E, sinceramente? Obrigado. Maximum Clonage cumpre muito bem sua função. É curto e direto, e isso basta!

MAIDENHEAD talvez ainda seja um nome novo para muita gente. Depois deste disco, pelo menos para mim, deixou de ser.

William Ribas