Tem dias que você sai de casa sabendo que vai ser bom. E tem dias que você volta pra casa sabendo que acabou de viver algo fora do comum. E o primeiro dia do Bangers Open Air 2026 foi o segundo tipo e pra mim ficou claro já no primeiro show do dia. Infelizmente, por logística, não conseguimos cobrir todas as bandas que gostaríamos, mas segue o relato daquelas que tivemos a oportunidade de assistir.
Por Fernando Aguiar
Lucifer - Sun Stage
Primeira vez que eu via o Lucifer ao vivo e posso dizer, sem dúvida alguma, que foi uma das melhores estreias que tive o prazer de presencial em um festival. A sueca Johanna Sadonis abriu o Sun Stage ao meio-dia exato com "Anubis", que é o primeiro single da banda, de 2015, raramente tocado ao vivo nos últimos anos e já entregou o recado de que aquele não seria um set qualquer.
O Lucifer traz aquele occult rock dos anos 70 ressuscitado, com Black Sabbath, Pentagram e Coven correndo nas veias, riffs diretos e pesados com aquela melancolia característica que diferencia a banda da maioria do que se vê nos festivais de hoje. Mas o que transforma a experiência ao vivo é Johanna. Ela simplesmente tem uma presença e carisma absurdas, não precisa forçar nada. "Riding Reaper", "Wild Hearses" e um dos pontos mais altos do show com "At the Mortuary" que a própria Johanna já disse ser sua favorita de performar ao vivo, chegando com aquele peso denso e atmosférico que é a marca registrada da banda. "Slow Dance in a Crypt" e "The Dead Don't Speak" aprofundaram o mergulho no Lucifer V antes de "California Son" fazer a galera cantar junto. O cover de "Goin' Blind" do Kiss chegou como uma das melhores surpresas do dia, e o encerramento com "Fallen Angel" deixou todo mundo querendo mais.
Com uma hora de show, o Lucifer foi, para mim, um dos melhores shows que já passaram pela grade do Bangers, e olha que a competição é grande. Inclusive comentei sobre este ponto na hora da sessão de autógrafos e todos da banda ficaram muito agradecidos e surpresos com meu comentário, além de terem sido muito simpáticos e atenciosos com todos que estavam por perto. Que banda meus amigos!
Evergrey - Hot Stage
Também primeira vez com o Evergrey ao vivo. O Evergrey é daquelas bandas que você ouve há anos em casa mas nunca sabe direito como vai funcionar num festival, ainda mais que o som da banda é um tanto quanto introspectivo, carregado de emoção, mais dado às luzes baixas do que ao calor da tarde paulistana.
A resposta simples é: funciona muito bem quando a banda é boa de verdade. Tom Englund, que entrou de macacão preto, não deve ter imaginado que estaria tão calor na hora do show, foi muita coragem e a banda abriu com "Falling From the Sun" e o Hot Stage imediatamente ganhou outro nível de intensidade. "Where August Mourn" e "Weightless" foram daqueles momentos em que o coletivo e o individual se encontram, todo mundo junto, como se fossemos uma unidade. "The World Is on Fire" e "Eternal Nocturnal" mostraram a profundidade progressiva da banda antes de "Call Out the Dark" preparar o terreno para "King of Errors", que pra mim foi o pico emocional do set. "Architects of the New Weave", material novo que demonstrou um potencial ao vivo enorme e "Leaving the Emptiness" conduziram o final antes de "OXYGEN!" fechar tudo com energia máxima.
Foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes das duas edições do festival que acompanhei.
Jinjer - Hot Stage
Se o Evergrey tocou a alma, o Jinjer veio pra começar a destruir o corpo logo em seguida. E destruiu completamente.
A banda ucraniana chegou ao Bangers no meio da "Latin America Duél Tour 2026", e o setlist refletiu isso: um prólogo encurtado preparou o terreno antes de "Duél" abrir o set com peso total. "Green Serpent", "Fast Draw" e "Vortex" mantiveram o clima pesado nas alturas. "Disclosure!" e "Tantrum" vieram logo depois, antes de "Teacher, Teacher!", que é quase um momento de antologia ao vivo, pra fazer o público enlouquecer. "Hedonist" e "I Speak Astronomy" levaram o set aos territórios técnicos mais elaborados antes de "Someone's Daughter" conduzir tudo ao ponto de maior tensão emocional.
Mas a grande verdade é que tudo isso é contexto para Tatiana Shmayluk. Ela é literalmente um show à parte. O domínio de palco é hipnotizante: guturais devastadores, melodias cristalinas, e uma transição entre os dois que parece sobrenatural. O público foi ao delírio durante todo o set. E "Pisces", que há muito tempo deixou de ser só uma música da banda e passou a pertencer a todo mundo que ouve metal foi um momento único. "Sit Stay Roll Over" fechou tudo no limite máximo. Um arregaço absoluto.
Torture Squad - Sun Stage
Os paulistanos do Torture Squad chegaram atropelando com aquela mistura visceral de Death e Thrash Metal que a gente já conhece e respeita. O som das guitarras é puro rascante, com distorções pesadíssimas que ganham uma profundidade animal com o baixo, que traz até umas nuances de dub, e a bateria naquele cadenciado constante que não dá descanso pro pescoço.
Mas o que realmente dita o tom da apresentação é a Mayara Puertas. A presença de palco dela é absurda! Ela explora uns agudos viscerais e uma dinâmica que transforma o show em uma experiência completa. É uma frontwoman que entrega tudo, traduzindo perfeitamente a aura agressiva e, ao mesmo tempo, técnica da banda.
* Infelizmente, não conseguimos chegar a tempo de cobrir o show do Marenna no Waves Stage por causa da grade, mas segundo conversas com amigos que lá estiveram, foi mais um grande show do grupo. Algo recorrente, diga-se de passagem.
Killswitch Engange - Ice Stage
O Killswitch Engage trouxe o Metalcore para o palco e, vou dizer, o Jesse Leach está em uma fase absurda. O vocal dele surgiu ainda mais brilhante ao vivo, totalmente apoiado por um instrumental "bem temperado" onde a bateria e o baixo faziam um contraponto perfeito, segurando o andamento com uma precisão absurda. E o que falar daquela guitarra furiosa? O cara explodiu entre rascantes intensos e cromatismos cirúrgicos, mantendo a energia lá no alto o tempo todo.
Para fechar a passagem deles pelo festival com chave de ouro, eles mandaram aquela releitura de "Holy Diver", do mestre Dio. Que momento, meus amigos! A execução arrematou a apresentação com uma propriedade incrível, sendo, sem dúvida, um dos pontos mais altos da performance vocal do Leach em todo o show. Um tributo de respeito que deixou todo mundo arrepiado.
Black Label Society - Hot Stage
Quase quatro anos sem aparecer por aqui, e Zakk Wylde voltou como se nunca tivesse saído. Já a entrada com o intro "Whole Lotta Sabbath", com aquele mashup genial de Black Sabbath com Led Zeppelin foi um aviso do nível de referências que aquele set traria. "Funeral Bell" abriu com o volume absurdamente alto que tomou conta do Hot Stage, e o material novo do Engines of Demolition mostrou força imediata: "Name in Blood", "Destroy & Conquer", "A Love Unreal" e "Heart of Darkness" deixaram claro que o disco tem muito a dizer e caiu muito bem ao vivo.
Aí vieram os momentos que definiram o show. O cover de "No More Tears" de Ozzy transformou o Memorial num coro uníssono. Logo depois, "In This River", dedicada a Dimebag Darrell e Vinnie Paul e que chegou com aquela carga emocional que a música sempre carrega, amplificada pelo contexto. E então veio "Ozzy's Song", a balada que Zakk escreveu especificamente em homenagem ao mentor e amigo que “perdemos” em 2025. O que aconteceu no palco e na plateia durante aquela música foi uma catarse coletiva real de um homem prestando tributo com milhares de pessoas que entendiam o peso de cada acorde. Foi o ponto mais alto da tarde, e um dos momentos mais emocionantes que já vivi num festival de metal. Nem preciso dizer que as lágrimas caíram naturalmente, certo?!
Tankard - Sun Stage
Essa era uma das que eu mais esperava, e os alemães não decepcionaram, pois foram avassaladores, pra dizer o mínimo. O Tankard é um dos pilares do thrash teutônico, e faz parte do big four do metal extremo alemão ao lado de Sodom, Kreator e Destruction, com mais de quarenta anos fabricando hinos sobre cerveja, amizade e caos sem jamais pedir desculpa por isso.
"One Foot in the Grave" abriu estabelecendo o ritmo imediatamente: riffs velozes, bateria certeira, Gerre nos vocais com a mesma energia de sempre. "The Morning After" e "Ex-Fluencer", material mais recente, provaram que o Tankard não vive só do legado. "Rapid Fire" acelerou ainda mais antes de "Need Money for Beer" e "Die With a Beer in Your Hand" transformarem aquilo tudo numa festa thrash de beber junto e gritar junto. "Beerbarians" e "A Girl Called Cerveza" mantiveram o caos a todo vapor, antes de "Chemical Invasion" e "Zombie Attack" chegarem, clássicos absolutos que não precisam de apresentação. O encerramento com "(Empty) Tankard", o hino máximo, três minutos e meio de thrash puro que resume tudo que a banda representa. Foi devastador, destruidor, tudo que eu esperava e um pouco mais. Foi o show mais divertido do dia, sem sombra de dúvidas.
In Flames - Ice Stage
O In Flames surgiu como um trovão na escuridão da noite e, literalmente, incendiou o público. Os caras entregaram aquele Death Metal Melódico clássico, mas com uma energia renovada. O instrumental é um absurdo de dinâmico e pesado: a bateria do Jon Rice veio com afretados intensos, casando perfeitamente com o baixo poderoso e carregado de "doom" do Liam Wilson. Tudo isso servindo de base para as guitarras rascantes e, claro, para o vocal magistral do Anders Fridén. O cara deu uma aula, transitando entre guturais e agudos viscerais com modulações e drives potentes que são a marca registrada dele.
Um dos pontos mais interessantes foi ver como os sintetizadores furiosos dão uma cara moderna ao som. O diálogo entre a guitarra melódica do Niclas Engelin e a rítmica do Björn Gelotte é intenso e muito bem pontuado pelo baixo, fazendo dessa junção entre os synths e as cordas o grande diferencial da melodia. Tudo isso apoia magistralmente o vocal poderoso do Anders. Que showzaço, meus amigos! Uma aula de como evoluir sem perder a essência.
Arch Enemy - Hot Stage
Headliner com asterisco duplo: o Arch Enemy chegou ao Bangers como substituto do Twisted Sister, que cancelou a turnê pelos problemas de saúde de Dee Snider e estreando Lauren Hart nos vocais, vinda do Once Human após a saída de Alissa White-Gluz. A banda entrou com "Ace of Spades" do Motörhead como intro, seguido de "Khaos Overture" preparando o clima. Um coisa precisa ser dita, havia expectativa, havia tensão e havia a polêmica de bastidores com Kiko Loureiro acusando a banda de plágio em "To the Last Breath".
Tudo isso evaporou em "Yesterday Is Dead and Gone". Lauren Hart tomou o palco como se estivesse nele há uma década com a banda e começa a cantar possuída, não parava um segundo, dominava o espaço com uma naturalidade que surpreende quem sabia da pressão que aquele momento representava. Chegou a se emocionar em cena quando a plateia cantou junto, agradecendo ao público brasileiro e a resposta foi à altura. "The World Is Yours", "Ravenous" e "War Eternal" foram confirmações imediatas de aprovação total. "Dream Stealer" preparou o terreno para "To the Last Breath" que foi muito bem recebida pela platéia.
Clássicos de todas as fases apareceram ao longo do set: "My Apocalypse", "Bury Me an Angel" da era Johan Liiva, que fez os fãs de longa data enlouquecerem, "The Eagle Flies Alone" e "No Gods, No Masters". "Dead Bury Their Dead" preparou o encerramento antes de "Snow Bound" chegar com um intro de solo de Joey Concepcion que parou tudo por alguns instantes. E "Nemesis" fechou a noite com o coro "One for all, all for one" tomando conta do Memorial inteiro. Entre pirotecnia, bandeiras tremulando e aquela energia caótica e avassaladora do Arch Enemy, mesmo com problemas técnicos de som, foi um show espetacular.
Overdose - Waves Stage
Encerrar o primeiro dia de festival no palco Waves, com o Overdose, foi como presenciar uma aula de história do metal brasileiro que se recusa a envelhecer. Ver esses precursores mineiros dos anos 80 ao vivo é entender que a sonoridade e a atitude heavy deles atravessam gerações sem perder um pingo de relevância. É puro suco de metal nacional com aquela autoridade de quem sabe o que está fazendo.
O show já começou mostrando a que veio. Quando mandaram a introdução de "Rio, Samba e Porrada no Morro", aquela batida firme de maracatu se misturando ao samba e à latada nordestina entregou de cara a brasilidade que eles carregam no DNA. É de arrepiar. Em "My Rage", o Bozó (Pedro Amorim) provou por que é uma lenda; os vocais dele, transitando entre o gutural e o rascante com uma técnica absurda, casaram perfeitamente com o instrumental pesadíssimo. A bateria cadenciada e o baixo com aquela pegada Doom do Fernando Pazzini trouxeram um clima denso, enquanto Claudio David e Sérgio Cichovicz faziam as guitarras dialogarem de um jeito ágil que não deixava ninguém parado.
Um dos momentos que mais me chamou a atenção foi "Progress of Decadence". A bateria do André Marcio tem uma dinâmica diferenciada, com uns diminuendos nas viradas para o refrão que são geniais. As guitarras aparecem com riffs encadeados e um diálogo sincopado, criando uma dissonância estudada que foge do óbvio e desemboca num refrão marcante com um pezinho no punk rock. É criatividade pura!
Quando chegou em "Children of War", o show entrou naquela cadência frenética de Power Metal que a gente ama, com as guitarras rascantes e a performance vocal do Bozó lá no topo. Mas o que me deixou de queixo caído foi "How to Pray". Pensar que essa música rompeu paradigmas na época em que foi escrita é loucura; ela tem elementos tão modernos, com uns breaks estratégicos e um toque de crossover no refrão que só viraria tendência dez anos depois. Que ousadia desses caras!
Para fechar com chave de ouro, "João Sem Terra" trouxe novamente aquele flerte com o maracatu — me lembrou até um quê de Alceu Valença — misturado a uma letra ácida de crítica social que, infelizmente, continua atualíssima. Ver o Overdose no palco é ter a certeza de que estamos diante de gênios da nossa música. Foi uma performance impecável e cheia de carisma. Genial, meus amigos!
Enfim, muitos motivos diferentes pra lembrar desse sábado para o resto da vida. Da descoberta do Lucifer ao encontro emocional com o Evergrey, do furacão ucraniano do Jinjer, passando pelo Torture Squad e indo à catarse coletiva do BLS com sua homenagem a Ozzy, do Killswitch Engage à festa thrash avassaladora do Tankard, do poderio do In Flames e do encerramento apoteótico do Arch Enemy com Lauren Hart e o orgulho brasileiro do Overdose. Foi um dia que provou, mais uma vez, que São Paulo é uma das capitais mundiais do metal pesado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário