Domingão e o Bangers não só entregou como superou qualquer expectativa. De modo geral, o Bangers se consolidou definitivamente como um dos melhores festivais da América Latina, não só pelo peso dos nomes, mas pela experiência completa: estrutura, variedade, organização e aquela sensação de que cada show importa.
Se o sábado já tinha sido forte, o segundo dia foi insano, com a energia subindo progressivamente a cada show, sem nenhuma queda. Essa curva ascendente é o que separa um bom festival de um festival memorável.
Por Fernando Aguiar
Project 46 - Ice Stage
O domingo já começou com o metal brasileiro destruindo tudo. O Project 46 abriu o Ice Stage sem aquecimento e sem cerimônia com a intro "Terra de Ninguém" que preparou o terreno antes de "Dor" abrir o set com peso total. O que seguiu foi um bloco agressivo e consistente: "Impunidade", "Violência Gratuita", "4six", "Rédeas", "Na Vala" e "Erro +55" sem trégua. A forma como a banda se movimenta no palco, a energia que transmitem, foi sensacional. O encerramento reservou as melhores do set: "Pode Pá", o refrão de "Foda-se (Se Depender de Nós)" jogado à plateia, e "Acorda pra Vida" com final estendido que deixou claro que a banda não estava ali pra aquecer ninguém, estava ali pra dominar. Um show que merecia muito mais gente acompanhando.
Primal Fear - Hot Stage
Ralf Scheepers abriu o Hot Stage com o carisma de sempre, arriscou o português, brincou com o público, mandou beijos e corações para a plateia, e sustentou notas altas com aquela facilidade que impressiona há décadas. "Destroyer" e "I Am the Primal Fear" estabeleceram o peso logo de cara, antes de "Nuclear Fire" e "Seven Seals" elevarem a intensidade. A guitarrista Thalìa Bellazecca ganhou protagonismo ao longo do set. "Chainbreaker", que foi descrita pelo próprio Ralf como a primeira música que compuseram juntos foi um dos momentos mais especiais, e "Metal Is Forever" fechou o set de forma épica. O Primal Fear é consistência em estado puro ao vivo, e esse show foi mais uma prova disso.
Nevermore - Ice Stage
Um dos shows mais aguardados e mais improváveis do festival. O Nevermore ficou inativo desde 2011 e a morte de Warrel Dane em 2017 parecia ter encerrado qualquer possibilidade de retorno. Quando Jeff Loomis e Van Williams anunciaram audições em dezembro de 2024 e confirmaram o vocalista Berzan Önen, o guitarrista Jack Cattoi e o baixista Semir Özerkan, o ceticismo ainda era grande. Ver ao vivo era outra conversa.
Após o intro "Precognition", Berzan entrou sozinho no palco vestindo uma camiseta do Brasil, aquecendo a voz, sentindo o público, antes de chamar a banda toda e abrir com "Narcosynthesis". O set percorreu o catálogo com inteligência: "Enemies of Reality", "The River Dragon Has Come", "Beyond Within", apresentada como material antigo, "Inside Four Walls", "Engines of Hate" e "My Acid Words", onde Berzan ficou abraçado com o baixista num momento de cumplicidade genuína. "Born" fechou o set com Berzan pedindo que a galera se dividisse ao meio antes do mosh tomar conta. No fim, os músicos tiraram foto com o público inteiro. Foi histórico, impecável, e havia quem não acreditasse no que estava vendo, com toda a razão.
Crazy Lixx - Sun Stage
Com o sol ainda forte no Memorial, o Crazy Lixx subiu ao palco do Sun Stage e entregou o que, na minha opinião, foi um dos melhores shows do fim de semana inteiro. A banda sueca é o hard rock dos anos 80 em sua forma mais pura e honesta, e ao vivo é uma experiência completamente diferente de qualquer gravação. A presença de palco é absurda, o visual é impecável, e a sincronia entre os músicos quando se movem pelo palco em conjunto é daquelas coisas que você precisa ver para entender.
O set foi construído com perfeição. "Rise Above" abriu com "Final Fury" como intro antes de "Hell Raising Women" e "Whiskey Tango Foxtrot" estabelecerem o tom. "Sword and Stone", cover do Bonfire, foi uma surpresa bem-vinda. "Never Die (Forever Wild)", "Hunt for Danger" e "XIII" empilharam intensidade antes de "Midnight Rebels" e "Anthem for America" prepararem o terreno para o encerramento. "Blame It on Love" foi mais um pico antes do fechamento épico: "Who Said Rock 'n' Roll Is Dead" com o snippet de "Detroit Rock City" do Kiss embutido causou euforia total, e "Crazy Crazy Lixx", a versão alternativa de "Crazy Crazy Nights" também do Kiss foi o último acorde de um show redondo, executado do começo ao fim com convicção absoluta. O Crazy Lixx deveria estar nos palcos principais. A energia que entregam é de headliner.
Malvada - Waves Stage
As garotas da Malvada tomaram o palco Waves e mostraram por que são um dos grandes nomes do nosso metal feminino atual. O show já começou com o pé no peito em "Dead Like You", uma música de letra urgente que ganhou um peso absurdo com a guitarra rascante da Bruna Tsuruda e a bateria cadenciada da Juliana Salgado. E o que falar da voz da Indira Castilho? Ela brilhou demais, explorando umas notas altas nas finalizações que deixaram todo mundo de queixo caído.
Mas o momento que realmente mostrou a ousadia das meninas foi em "Veneno". A música traz um swing gostoso, com a bateria fazendo uns diminuendos certeiros que casam perfeitamente com o baixo grooveiro da Rafaela Reoli. O mais legal aqui é o toque de brasilidade; a gente sente aquele tempero do baião nordestino no andamento alquebrado, criando umas dissonâncias muito interessantes. Diferente, ousado e com uma personalidade incrível. Que banda, meus amigos!
Winger - Ice Stage
O Winger era um dos shows mais esperados do domingo, e a banda tratou de não decepcionar. Kip Winger ressaltou mais de uma vez que a formação é a original de 1987 e mencionou Alice Cooper, com quem tocou nos anos 80. "O Brasil tem os melhores fãs de rock em todo o mundo", disse ele em determinado momento.
"Stick the Knife In and Twist" abriu o set com energia imediata antes de "Seventeen" fazer o Memorial cantar junto, de mãos pro alto, sem exceção. "Can't Get Enuff", "Down Incognito" e "Miles Away", essa cantada em coro absoluto e que alimentaram ainda mais a chama chama do hard rock, um dos pontos mais altos de todo o fim de semana. O solo de guitarra de Reb Beach parou tudo: ovação espontânea, silêncio respeitoso e então explosão de aplausos. Rod Morgenstein também teve seu espaço com um drum solo que mostrou por que ele é um dos bateristas mais respeitados do estilo. "Headed for a Heartbreak" foi o pico emocional do set, com extensão instrumental densa e Kip entregando vocais no limite. "Easy Come Easy Go" preparou o terreno antes de "Madalaine" encerrar o show como o momento mais emotivo da tarde, um daqueles instantes em que uma música pertence completamente à plateia. Rock and roll puro, executado com a autoridade de quem faz isso há quase quarenta anos.
Smith/Kotzen - Hot Stage
Este show em si, foi irretocável. "The Devil You Know" do Anthrax tocando como intro antes da dupla subir ao palco já colocou o clima no lugar certo. Adrian Smith e Richie Kotzen abriram com "Life Unchained" antes de "Black Light", "Wraith" e "Blindsided" estabelecerem o padrão de qualidade do que seria uma hora de entrosamento impecável. "Taking My Chances", "Darkside" e "White Noise" foram pontos altíssimos de um set sem falhas. A formação de apoio contava com os brasileiros Bruno Valverde na bateria e Julia Lage no baixo, mencionados por Adrian com orgulho, "Desculpe que não sei falar português", brincou ele. O encerramento com "Wasted Years" do Iron Maiden deixou a galara eufórica. Com a noite já caindo, os efeitos de iluminação ganharam ainda mais dimensão e fizeram tudo parecer ainda maior. Esse é mais um show que merecia o palco principal.
Within Temptation - Ice Stage
Sharon den Adel tem mais de cinquenta anos, três filhos, e uma presença de palco que envergonha boa parte das vocalistas de bandas mais jovens. Entrou com vestido branco e máscara, com uma cantiga de ninar ucraniana nas caixas de som e luzes vermelhas preparando o clima. A voz operística preenche o Memorial inteiro, e o que impressiona não é apenas a qualidade vocal, é a performance física. Sharon pula, dança, se movimenta pelo palco sem perder uma nota, misturando canto lírico com metal de um jeito que faz tudo soar mais brutal pelo contraste.
O setlist foi uma das grandes surpresas do dia. "We Go to War" abriu antes de "The Howling" chegar, primeira vez desde 2016, o que já era motivo de euforia por si só. "Stand My Ground" e "Ritual", dedicada às mulheres na plateia, seguiram antes de "The Heart of Everything" aparecer pela primeira vez desde 2019. "Forsaken" foi o momento mais raro do set: primeira vez em público desde 2008. "Ice Queen" e "Mother Earth", descrita por Sharon como música de protesto, fecharam o show, com ela e o guitarrista Ruud Jolie segurando uma bandeira do Brasil.
* Infelizmente, não conseguimos assistir o show do Krisiun. O grupo, formado pelos irmãos Alex Camargo, Moyses e Max Kolesne, comemorou os 25 anos do lançamento do álbum "Conquerors of Armageddon" com um show especial no Bangers Open Air.
Dirkschneider - Sun Stage
Criminosamente subestimado. Udo Dirkschneider, que gravou os maiores clássicos do Accept ao lado de Wolf Hoffmann e moldou o heavy metal alemão dos anos 80, tocando aquele repertório num palco secundário, no mesmo horário que o Angra no Hot Stage. Quem foi pro Angra tomou a decisão óbvia. Quem ficou no Dirkschneider viu uma aula.
Udo começou quebrando tudo com "Fast as a Shark" abriu o set com aquela velocidade que em 1982 parecia impossível para o heavy metal da época, antes mesmo do thrash ter nome. "Living for Tonite" e "Midnight Mover" completaram a abertura antes do bloco de Balls to the Wall tomar conta: a faixa-título, "London Leatherboys", "Fight It Back", "Head Over Heels", "Losing More Than You've Ever Had", "Love Child", "Turn Me On", "Losers and Winners", "Guardian of the Night" e "Winterdreams", o clássico absolute do Accept em sequência, sem respiro. O encore trouxe "Princess of the Dawn" antes de "Burning" incendiar o encerramento literalmente. A produção, o jogo de luzes, a energia, foi demais. Um show desse nível não deveria estar num palco secundário. O mesmo vale para o Ambush. Esses dois shows mereciam muito mais.
Angra - Hot Stage
Optei pelo Dirkschneider e não me arrependo, mas o que aconteceu no Hot Stage aquela noite precisa ser registrado com o cuidado que merece.
Não era um show comum. Era a despedida de Fabio Lione após catorze anos, a estreia de Alírio Netto nos vocais, e a reunião da formação clássica do Rebirth com Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester no mesmo palco, tudo isso numa única noite, em um show dividido em três atos distintos.
O Ato I reuniu Alírio e Fabio em blocos alternados: "Nothing to Say" e "Angels Cry" com Alírio estreando, antes de Fabio assumir para "Tide of Changes Pts. I e II", "Lisbon" e "Vida Seca". Alírio voltou para "Wuthering Heights" (cover de Kate Bush) e "Carolina IV", tocada ao vivo pela primeira vez desde 2018 e dedicada aos fãs.
O Ato II foi o bloco mais aguardado: Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester no palco com Bittencourt, Andreoli e a formação reunida do Rebirth. "In Excelsis" como intro antes de "Nova Era" abrir um bloco que incluiu "Waiting Silence", "Millennium Sun", "Heroes of Sand", "Ego Painted Grey", "Bleeding Heart", "Spread Your Fire", "Acid Rain" e "Rebirth", onde vinte e cinco anos depois, a formação que gravou aquele disco reunida no mesmo palco tocando aquelas músicas.
O Ato III foi o encerramento: um vídeo de Andre Matos tocando "Silence and Distance" no Japão parou o Memorial antes da música ser executada ao vivo por toda a formação reunida, dedicada ao saudoso vocalista. "Late Redemption" e "Carry On", com absolutamente todo mundo no palco, fecharam a noite. Rafael Bittencourt disse do palco que aquela foi uma das noites mais importantes da história do heavy metal brasileiro. Difícil discordar.
Ambush - Waves Stage
Aqui está outro caso de show subestimado pelo posicionamento no festival. O Ambush é heavy metal sueco dos anos 80 em sua forma mais pura e ao vivo é uma banda que deveria estar nos palcos principais, com toda certeza. A apresentação, a presença de palco, a sincronia quando fazem aquela linha de guitarra e baixo se movendo juntos pelo palco é o heavy metal clássico mais incrível que existe. O vocalista Oskar Jacobsson canta com uma pegada rápida e solta agudos que ninguém bota defeito.
O set percorreu o catálogo da banda antes de "Metal Gods", cover do Judas Priest fazer a plateia enlouquecer. A penúltima música foi impressionante, antes de "Don't Shoot (Let 'em Burn)" fechar tudo de um jeito que deixou quem estava ali sem palavras. A energia que o Ambush trouxe é de headliner. O nome não tem o mesmo peso que as outras bandas do line-up, mas o show tem.
O Bangers Open Air 2026 foi uma experiência extraordinária e com uma grade tão forte, a sobreposição de horários entre bandas de peso nos diferentes palcos cobrou um preço real do público.
O lado positivo é que tudo isso acontece num contexto de crescimento real e consistente. O Memorial da América Latina segue sendo um local privilegiado, com infraestrutura, acesso e tamanho adequados ao que o Bangers propõe. A organização geral, mais uma vez, esteve à altura. E o sinal mais claro do sucesso do festival veio ainda no sábado, quando a edição de 2027 foi anunciada oficialmente no próprio evento, confirmando que o Bangers deixou de ser uma aposta e virou parte do calendário fixo de shows e festivais por aqui.
Até 2027, Bangers Open Air!
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