quinta-feira, 23 de abril de 2026

RAMONES - RAMONES 50 ANOS

 


OS 50 ANOS DO ÁLBUM QUE MOSTROU AO MUNDO QUE O ROCK ESTAVA (E SEMPRE ESTARÁ) VIVO!


Por Sergiomar Menezes

Neste exato 23 de abril, em 1976, era lançado o álbum que redefiniria aquilo que muitos entendiam como rock n' roll. Se por um lado, algumas guitarras pesadas começavam a surgir pelos bares da Inglaterra, pelos lados dos Estados Unidos, quatro degenerados davam mostra que o estilo, que naquele momento se via cercado por viagens de teclado, músicas intermináveis e um virtuosismo que chagava a dar náusea, podia ser reinventado sem que fosse preciso zerar a conta. Inspirados por muitos nomes da cena de Nova York, Jeffrey Ross Hyman,  John William Cummings, Douglas Glenn Colvin e Thomas Erdélyi (nascido Tamás Elderlyi), ou mais precisamente, Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy, pegaram pra si o pseudônimo que Paul MCCartney usava quando se hospedava em hotéis para fugir dos fã e imprensa (Paul Ramon) e se denominaram RAMONES. E mal sabiam eles que 50 anos depois, o trabalho continuaria tão cru, tão vivo e tão revolucionário como nos idos dos anos 70.

Há 50 anos, quatro malucos vestidos com jaquetas de couro e calças jeans rasgadas deixaram Forest Hills, no Queens, para alterar a trajetória da música. Eles não traziam solos elaborados, não possuíam instrumentos caros e definitivamente não estavam interessados em canções de dez minutos sobre feiticeiros ou fadas. O álbum de estreia do Ramones, que leva o mesmo nome da banda, não foi apenas mais um disco; representou um manifesto de simplicidade que demonstrou que, para tocar rock, eram suficientes três acordes e uma necessidade quase desesperadora de ser escutado.

Na sede da Sire Records

O que faz deste álbum um divisor de águas não é apenas sua rapidez, mas também sua autenticidade. Em tempos em que o rock progressivo e o disco predominavam, os Ramones apresentaram 14 canções em somente 29 minutos. A imagem da capa, capturada por Roberta Bayley, se tornou o símbolo oficial do rock alternativo. O muro de tijolos e as expressões indiferentes dos quatro escancararam a filosofia do "faça você mesmo". Com um custo extremamente baixo de aproximadamente US$ 6.400, o álbum exibe uma sonoridade áspera. A nítida separação dos canais (a guitarra de um lado e o baixo do outro) remetia aos primeiros álbuns dos Beatles, mas com uma distorção que se aproximava do industrial. Essa técnica, visava a clareza total: cada instrumento deveria ser ouvido em sua forma mais pura e brutal.

Embora Joey fosse o rosto (feio, diga-se de passagem) e Dee Dee a alma caótica, a estrutura do álbum foi moldada pela visão de Tommy Ramone (o estrategista e produtor implícito) e pela disciplina de ferro de Johnny Ramone. Johnny, com sua guitarra, aboliu os solos. Sua técnica de downstrokes (palhetadas apenas para baixo) criou uma parede de som monofônica e percussiva. Não havia espaço para o "respiro" do blues; era uma cadência insana e ininterrupta. A profundidade do álbum reside na sua contradição interna. Musicalmente, o Ramones bebia da fonte dos grupos vocais dos anos 60, como as Ronettes e os Beach Boys. No entanto, as melodias "doces" eram entregues por Joey com uma dicção britânica afetada (algo que seria confirmado nos próximos trabalhos).


Com faixas como "Blitzkrieg Bop" e "Now I Wanna Sniff Some Glue", as letras combinavam humor sombrio, monotonia suburbana e referências a filmes de baixo orçamento. Era a cultura pop digerida e devolvida com uma ironia agressiva. "53rd & 3rd" aborda a prostituição masculina e o trauma de guerra (temas recorrentes na vida de Dee Dee). "Beat on the Brat" e "Chain Saw" transformavam a agressividade em algo quase performático, uma catarse contra o tédio suburbano.

Embora o álbum não tenha sido um sucesso comercial imediato nos EUA, sua exportação para o Reino Unido foi a mola de impulso do movimento punk britânico. Quando o Ramones tocou no Roundhouse em Londres, em julho de 1976, membros do The Clash e Sex Pistols estavam na plateia. A mensagem foi captada instantaneamente: "se eles podem fazer isso, nós também podemos". Mas diferente do que viria a se tornar o Punk britânico, o Ramones não era explicitamente político. A "política" deles era a da presença cotidiana. Ao subirem no palco do CBGB com roupas que qualquer garoto de classe média baixa poderia ter, eles destruíram a barreira entre ídolo e fã.

O Ramones tratava o rock como um objeto de consumo rápido: as faixas raramente ultrapassavam os 2 minutos e meio. A repetição era usada como mantra, transformando o "simples" em "icônico". Eles pegaram o clichê do "bad boy" dos anos 50 (jaquetas de couro, calças rasgadas e tênis surrados) e o transformaram em um uniforme urbano atemporal. Eles não inventaram a roda; eles apenas decidiram que a roda estava pesada demais e a chutaram ladeira abaixo em alta velocidade. Meio século depois, ainda estamos todos correndo para tentar alcançá-la.

O que torna o álbum RAMONES um objeto de estudo contínuo são suas urgência e relevância. Ele soa como se sempre tivesse existido, esperando apenas que alguém tivesse a coragem de tocar as cordas com força suficiente. Ele não apenas fundou um gênero; ele estabeleceu os limites de quão longe você pode ir removendo as partes de uma canção até sobrar apenas a sua essência vibrante. Ao celebrarmos meio século desse disco, não estamos apenas celebrando a nostalgia, mas sim o momento exato em que o rock recuperou sua capacidade de ser perigoso e sua acessibilidade. O álbum de 1976 permanece como a prova definitiva de que a sofisticação intelectual pode, sim, ser entregue através de três acordes e um grito de contagem.

1,2,3,4... HEY HO, LET'S GO!





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