PARTY ON WACKEN 2026 (EDIÇÃO BRASIL)
18/04/2026
AUDIO CLUB - SÃO PAULO/SP
18/04/2026
AUDIO CLUB - SÃO PAULO/SP
Texto: Fernando Aguiar
Fotos: Alessandra Rosato (Metal na Lata)
Trinta e cinco anos. Essa é a marca que o Wacken Open Air chegou em 2026, e a pequena vila alemã que todo metalhead sonha em pisar pelo menos uma vez na vida escolheu celebrar o aniversário de um jeito inédito: espalhando o espírito do festival pelos quatro cantos do mundo ao mesmo tempo. Trinta e cinco países, um único dia e o lema "One World, One Stage" deixou de ser retórica bonita e virou realidade no último dia 18 de abril.
O Brasil, claro, não ficou de fora, já que a cena nacional tem uma linda relação com o Wacken construída há mais de duas décadas, e esse peso histórico fez ainda mais sentido quando o Bangers Open Air, com produção da HonorSounds, anunciou a edição nacional na Audio, em São Paulo. Quatro bandas. Quatro capítulos diferentes da história do metal extremo brasileiro.
The Mist
Abrir o Party On Wacken com o “The Mist” foi uma declaração de intenções. Não existe cena metal extremo brasileiro sem passar por Belo Horizonte nos anos 80, e não existe metal extremo mineiro sem passar pelo nome que estava naquele palco pontualmente às 15h30.
E para quem não conhece a banda, aqui vai uma breve introdução: A banda surgiu em 1988 a partir dos remanescentes do “Mayhem mineiro”, não, não é aquele o grupo norueguês, mas uma banda local de BH que logo ganhou um ingrediente que mudaria tudo: Vladimir Korg, vocalista que havia deixado o Chakal para se juntar ao grupo. Quem acompanha a cena sabe o peso disso. O Chakal é uma das bandas mais importantes do underground brasileiro fazendo parte da mesma geração que o Sepultura e o Sarcófago, que fora lançado pela Cogumelo Records e que foi elogiado até pela Kerrang! inglesa na época. Korg era o frontman daquele projeto antes de migrar para a The Mist e gravar Phantasmagoria (1989), o debut que colocou a banda no mapa. Mais tarde ele ainda retornaria ao Chakal por mais de uma década antes de se reunir ao The Mist novamente. Um vocalista com duas histórias majestosas nas costas e que merece todo nosso respeito.
O set refletiu bem a trajetória da banda: após a intro, a abertura com "The Tempest" estabeleceu o clima imediatamente: thrash arredio, pesado e com muita agressividade, com aquela atmosfera sombria e literária que sempre diferenciou o The Mist do resto da cena. "Curse" e "Peter Pan" vieram na sequência, essa última um dos momentos mais característicos do disco The Hangman Tree (1991), álbum conceitual que flertava com clássicos da literatura como Peter Pan e O Mágico de Oz de um jeito que nenhuma outra banda de metal extremo nacional ousava fazer. "Over My Dead Body" e "Nambers" mantiveram o ritmo antes de "The Enemy" e "The Hangman" aprofundarem o mergulho no catálogo. "The Dark Side" e "Geppetto" sustentaram a intensidade, com "My Inner Monster" que é o single mais recente, prova de que a banda não está operando só no modo nostalgia e assim fechando o set principal com uma energia de quem ainda tem algo novo a dizer.
O encore com "Lungs" foi o encerramento perfeito: sair de cena num pico, deixar o público ainda mais ansioso antes das três bandas que viriam depois. Uma aula de Thrash Metal.
The Troops of Doom
Se o The Mist abriu o evento com classe e história, o “The Troops of Doom” chegou para destruir tudo que restou de pé. Sem exagero: foi o melhor show da “matinê” para este que vos escreve. Ponto.
Jairo "Tormentor" Guedz não precisa de apresentação pra quem de fato vive o metal extremo brasileiro. O The Troops of Doom é o projeto com o qual ele decidiu honrar o passado sem romantizá-lo: death/thrash metal primitivo, pesado, sem enfeite, com Hellhammer e Celtic Frost no sangue e o Sepultura mais selvagem como coluna vertebral.
O show começou com "God of Thunder", o cover do Kiss na versão deles, que soou menos como homenagem e mais como aviso de que aquilo ali ia doer. E doeu. "Act I – The Devil's Tail" abriu o set oficial e o pit já começou a se formar antes do primeiro minuto acabar. Com "Chapels of the Unholy", "Far from Your God" a banda não dava espaço pra respirar, e o público não queria respirar, queríamos o caos e foi justamente isso que a tropa de Jairo entregou.
Aí veio "Bestial Devastation". Uma das músicas que o próprio Tormentor ajudou a criar décadas atrás, gravada com aquele Sepultura primitivo, que ainda não tinha nome grande, que ainda era só um bando de adolescentes de Belo Horizonte com raiva e talento sobrando. Ouvir aquilo naquele contexto, tocado por um dos seus criadores originais, com a produção crua da The Troops of Doom dando ao riff toda a brutalidade que ele merece, isso não tem preço. E NÓS lá no pit agradecemos da forma devida.
"Act II – The Monarch", "The Rise of Heresy" e "Denied Divinity" sustentaram a pressão no nível máximo antes de "Morbid Visions", sim, mais Sepultura, mais caos pra continuar derrubando a casa. "The Confessional", "Dethroned Messiah" e "Dawn of Mephisto" foram o corredor que levou ao encerramento, e aí chegou O momento.
"Troops of Doom". A música que dá nome à banda. Um dos riffs mais icônicos que o metal extremo brasileiro já produziu, do Morbid Visions (1986), obra que praticamente inventou o death metal nacional. Quando aquelas primeiras notas abriram, a Audio virou outra coisa. O moshpit que se formou ali foi daqueles que você não esquece, daqueles que você não consegue não entrar, mesmo que não possa. Este que vos escreve, claro, não ficou de fora. Seria impossível.
O The Troops of Doom não foi só o melhor show da matinê. Foi um lembrete físico, visceral, do porquê a gente ainda vem pra esses shows depois de décadas. Há momentos em que o metal para de ser entretenimento e vira experiência. Esse foi um deles em que tive o privilégio de presenciar. Que momento, meus amigos. Que momento!
Korzus
Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o estado atual do “Korzus”, o show do dia 18 enterrou essa dúvida de vez. Foi um arregaço do começo ao fim e carregou um peso extra que foi além do setlist.
A banda entrou com "Dracula - The Beginning", o tema sombrio do compositor polonês Wojciech Kilar que virou introdução clássica dos shows da banda, preparando o clima antes de "Guilty Silence" explodir e transformar o local em um pandemônio. A partir daí, a pista não parou mais. "Truth", "Raise Your Soul", "Catimba" com aquele thrash paulistano na veia, sem cerimônia, sem pausa pra recuperar o fôlego, até porque o público não queria pausa de qualquer forma.
Mas o que deu ao show uma dimensão especial além da brutalidade foi o contexto: aquela noite marcou a estreia ao vivo da mais nova integrante na formação, ninguém menos que Jéssica Falchi, ex-Nervosa, sinalizando uma nova fase da banda. Mais de quarenta anos de história, e o Korzus ainda está em movimento, ainda está se reinventando, ainda está com fome e isso diz muito sobre o caráter da banda.
No meio do set veio "No Light Within", estreia ao vivo de material novo e que caiu muito bem. "Agony" e "Victim of Progress" colocaram mais querosene na fogueira antes de um dos momentos mais divertidos da noite: Marcello Pompeu chamou a convidada da noite, ninguém menos que Mayara Puertas, pois houve um imprevisto com ela e acabou entrando atrasada e por isso tocaram “Vampiro” antes, que foi muito bem recebida, cantada e agitada por quem estava ali na pista. Quando ela chegou, "Discipline of Hate" ganhou a participação especial dela e ficou ainda mais pesada. O tipo de imprevisto que só funciona quando a banda tem sangue frio e anos de estrada, e o Korzus tem os dois de sobra.
"Never Die", "What Are You Looking For" e "Guerreiros do Metal" foram empurrando a multidão em direção ao inevitável. E então chegou "Correria".
Dizer que a Audio foi à loucura é pouco. O mosh of death que se abriu ali foi um daqueles que tomam conta de toda a pista e não teve como ficar parado, não tem como não gritar junto. A música foi "berrada" coletivamente por quem estava na casa, num daqueles coros que só acontecem quando uma faixa realmente pertence às pessoas tanto quanto à banda que a gravou. Foi o encerramento apoteótico que o show merecia e que a noite toda estava pedindo.
E no centro de tudo isso estava Marcello Pompeu. Sessenta anos, mais de quatro décadas nessa estrada, e com uma performance absurda (voz, presença, energia, tudo no limite máximo). Não é sobre resistir ao tempo. É sobre provar que o tempo não mudou o que importa. Pompeu mostrou naquele palco que ainda tem muita lenha pra queimar, e o público sentiu cada segundo disso. Mais uma aula de thrash metal que certamente ficará na memória de quem presenciou tal momento.
Krisiun
A da banda história começa em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, em 1990. Três irmãos, Alex Camargo no vocal e baixo, Moyses Kolesne na guitarra e Max Kolesne na bateria, que herdaram o amor pelo metal do irmão mais velho, cresceram ouvindo Black Sabbath e Dio, e decidiram que iam tocar o metal mais brutal que conseguissem produzir. Sem grana pra equipamento de qualidade, sem estrutura, sem apoio de gravadora. Só fita demo, correio, fanzine e uma vontade de aço. Em 1995 saiu o debut Black Force Domain e o mundo do death metal nunca mais foi o mesmo. A partir daí vieram mais de uma dúzia de álbuns, turnês ao lado de Kreator, Cannibal Corpse e Dimmu Borgir, reconhecimento internacional que pouquíssimas bandas brasileiras de metal extremo conseguiram alcançar. O Krisiun não é só a maior banda de death metal do Brasil, é uma das maiores do planeta, e três décadas de estrada provam isso com uma consistência que poucos conseguem sustentar.
E é exatamente essa consistência que impressiona num show ao vivo da banda. O Krisiun não é uma banda que se apoia na nostalgia ou no legado pra segurar um público. É uma máquina que funciona no limite toda vez que sobe num palco e quem esteve na Audio sentiu isso na pele.
Depois da intro que preparou o terreno, "Kings of Killing" abriu o set e aqueles primeiros segundos já disseram tudo. A velocidade do Krisiun ao vivo é uma coisa que você não consegue preparar antes de experimentar, Max Kolesne na bateria parece fisicamente impossível, o tipo de performance que faz você parar no meio do mosh só pra olhar e confirmar se ele é realmente humano. Moyses Kolesne na guitarra constroí riffs com uma precisão cirúrgica e brutalidade que só ele consegue. E Alex Camargo, no vocal e no baixo ao mesmo tempo, com aquele gutural que carrega mais de trinta anos de estrada sem soar desgastado.
"Scourge of the Enthroned", "Combustion Inferno" e "Vicious Wrath" empilharam pressão sobre pressão antes de "Hatred Inherit" e "Necronomical" do Mortem Solis (2022), prova de que a banda não está no modo preservação de legado apenas para colocarem o pit em estado de colapso total. "Blood of Lions", "Serpent Messiah" e "Messiah's Abomination" formaram um bloco que não deu um segundo sequer de respiro. A pista não parou, o público não parou, a banda não parou. "Descending Abomination" preparou o terreno pra um drum solo de Max que foi parte aula de técnica, parte exibição de força bruta e quando o guitar solo de Moyses veio na sequência, a Audio ficou em silêncio respeitoso por alguns instantes antes de explodir novamente.
"The Will to Potency" e "Black Force Domain" do debut de 1995, um hino que carrega mais de trinta anos de história fechou o set com a autoridade de quem sabe exatamente onde colocar a última palavra.
A galera agitou até a última nota. Não tinha como ser diferente. Você não assiste ao Krisiun ao vivo e sobrevive a ele, você sai destruído e querendo mais.
Essa noite na Áudio foi o tipo de encontro que fica registrado, não apenas para a imprensa em geral, mas na memória de cada um que esteve lá, especialmente para este que vos escreve, onde foi a primeira vez em que vi as 4 bandas. Então foi uma tarde/noite muito mais que especial e que ficará na memória eternamente.
Thrash Ti’ll Death \m/...










Nenhum comentário:
Postar um comentário