Phrenesy: Duas Décadas de Thrash Metal, Cerveja e Resistência no Underground
Por William Ribas
Formada em 2003 no Distrito Federal, o Phrenesy carrega mais de duas décadas de dedicação ao thrash metal, com uma trajetória marcada por muita cerveja, amizade e resistência. Surgida da parceria entre Tiago Teobaldo e Josefer Ayres, a banda cresceu no cenário underground sem pressa, priorizando a diversão e a autenticidade. Com um som agressivo, letras que equilibram crítica social e bom humor etílico, o Phrenesy conquistou reconhecimento com “The Power Comes from the Beer” (2014) e consolidou sua identidade em “Fears Apocalypse” (2022).
Nesta entrevista, Wendel Aires (vocal) e Tiago Teobaldo (guitarra) falam sobre a origem da banda, as dificuldades enfrentadas no caminho, o orgulho da cena do DF e as experiências de dividir o palco com nomes como Destruction e Warrel Dane. Com muita sinceridade e bom humor, eles compartilham os altos e baixos dessa jornada, sempre reforçando o lema de que o verdadeiro poder vem da cerveja — e da paixão pela música pesada.
Rebel Rock: Como se deu o início da banda?
Wendel: A banda foi criada em 2003 pelo Josefer e pelo Tiago Teobaldo, que na época tinha 15 anos de idade. Estava começando a dar os primeiros passos no mundo do metal!
Tiago: Cara, no começo de 2003, quando estava lutando para aprender a tocar guitarra — e até hoje a luta continua (risos), o Josefer começou a me passar uns exercícios e acabou me chamando para montar a banda. Então, no dia 07/06/2003, fizemos nosso primeiro ensaio e estamos aí até hoje!
Rebel Rock: O nome Phrenesy é forte e impactante, transmitindo bem a energia de um show de thrash metal. Como surgiu essa escolha e o que ele representa para vocês?
Wendel: O Josefer escolheu o nome e, diga-se de passagem, foi muito feliz na sua escolha, pois um de seus significados é “estado extremo de loucura”!
Tiago: Um estado de loucura incontrolável! Acho que realmente combina com a gente. Hoje isso representa as nossas vidas.
Rebel Rock: Vocês levaram pouco mais de 10 anos até lançarem o primeiro álbum, “The Power Comes from the Beer”. Qual foi a importância desse período de amadurecimento até a chegada desse trabalho?
Wendel: Mano, foi um período crucial para a gente amadurecer como músicos e como pessoas, pois éramos uns porra-loucas que não tinham limites nas bebedeiras. Para você ter uma ideia, eu tenho poucas lembranças dos shows que fizemos na primeira década da banda. A gente não ligava tanto para gravação de álbuns. Claro que queríamos gravar, mas nunca demos importância para isso. Fora que não tínhamos grana para bancar uma gravação profissional, pois gastávamos tudo com cachaça! (risos)
Rebel Rock: Como foi a repercussão do primeiro álbum na época? Ele atendeu às expectativas da banda?
Wendel: Foi muito bom. Poderia ter sido melhor, mas nós éramos inexperientes quanto à distribuição. Não tínhamos um selo ou gravadora que distribuísse os CDs e, mesmo assim, tivemos boa repercussão do álbum, com elogios do Possessed, Phil Anselmo e imprensa especializada. Recebemos até uma foto de uma molecada em Moscou (Rússia) segurando o CD com o Kremlin ao fundo!
Tiago: Olha, eu e minha esposa, Jacqueline, assim que recebemos as cópias físicas, fizemos uma distribuição gigantesca desse material. Pegamos vários contatos e enviamos para todo canto. Acredito que, graças a esse trabalho, tivemos várias resenhas em diversos sites especializados, rolando nossas músicas em rádios de metal espalhadas pelo país e recebendo comentários positivos de uma galera que curtimos muito. Isso foi muito foda! Nesse período, também recebemos vários convites para tocar em outros estados. Porém, como os gastos com as viagens deveriam ser divididos com as produtoras, acabamos não conseguindo ir por questões de logística, trabalho e, principalmente, grana.
Rebel Rock: Em 2016, vocês tiveram a oportunidade de abrir shows para Warrel Dane (ex-vocalista do Nevermore) e para o Destruction. Como foi a experiência de dividir o palco com nomes tão conceituados da cena mundial? Que aprendizados ficaram desses momentos?
Tiago: Destruction é, com certeza, uma influência para os cinco da banda, então foi inacreditável poder dividir o palco com os caras. Warrel Dane foi uma lenda e, com certeza, vamos levar esse momento para sempre. Mas não posso deixar de comentar que a experiência do show foi frustrante. Não sei direito o porquê, mas sempre que somos chamados para tocar nesses shows com bandas maiores, a sensação que tenho é que a produção nos trata como lixo. Fica aquele sentimento de que estão fazendo um favor e que temos que ser eternamente agradecidos por estarmos ali. De qualquer forma, nos divertimos muito, pois estarmos juntos sempre vai ser o que importa.
Rebel Rock: Após quase dez anos, vocês retornaram com o segundo álbum, “Fears Apocalypse” (2022). Por que houve esse intervalo tão longo entre os lançamentos?
Wendel: Boa pergunta!. O tempo foi passando e a gente nem percebeu… Fora que cada um tem seus trabalhos fora da música e não deu para conciliar muito bem, devido às contas para pagar e à falta de grana para investir em um novo álbum. Sem contar uma pandemia no meio disso tudo, que ao menos serviu para a gente compor o “Fears…”
Tiago: Acredito que o maior motivo da demora — não querendo ser chato sempre tocando nesse assunto — é a questão financeira. Todos temos nossas lutas diárias fora da banda e, infelizmente, não podemos deixar de dar prioridade a elas. Para completar, tivemos a pandemia, que acabou atrasando ainda mais nossos planos.
Rebel Rock: No segundo álbum, faixas como “My Hate Is Gonna Speak For Me”, “Vultures” e “The Truth Is All There” são verdadeiras pancadas, perfeitas para levantar rodas nos shows. Durante o processo de composição, vocês já pensam em como essas músicas vão soar ao vivo?
Wendel: Não! O termômetro é o Tiago. Se ele se arrepiar quando executamos a música depois de pronta, pode ter certeza que será porrada na moleira da galera!!! (risos). “The Truth Is All There” é a minha música preferida do disco!
Rebel Rock: Vocês acreditam que boa parte do sucesso de “Fears Apocalypse” está na gravação e mixagem extremamente eficientes, que unem uma sonoridade “old school” e impactante?
Wendel: Com certeza!!! O Thiago Bianchi (produtor) fez um trabalho extraordinário. Ele tirou leite de pedra (risos).. Ele teve esse feeling de dar essa roupagem old school para as músicas! Elas soam bem orgânicas!
Tiago: Ficou incrível o trabalho que o Bianchi fez, pois chegou exatamente no ponto que queríamos. Lembro de quando ele mostrou “The Party Won’t Stop” para a gente e, velho, foi arrepiante esse momento. Tivemos um deslumbre do que estava por vir e ali tivemos certeza de que toda a luta valeria a pena.
Rebel Rock: A capa de “Fears Apocalypse” traz elementos marcantes da cidade natal de vocês, como o pôster do festival Headbangers Attack. A arte, criada pela Jaqueline Sales, ficou belíssima. Como foi o processo de trabalhar com ela na concepção da capa? Ela teve total liberdade criativa ou a banda participou ativamente, dando sugestões?
Wendel: A Jack se confunde com a banda. Ela faz um corre fudido para a gente. Para você ter uma ideia da importância dela na banda, o refrão da música “F.U.C.K” é dela. Ela também faz os flyers de show, dá ideias para clipes e músicas, além de ser fotógrafa da banda. Trabalhamos em conjunto com ela: damos as ideias e ela coloca em ação, e vice-versa! Não sabemos viver sem ela em nossas vidas! Ela tem liberdade TOTAL para usar sua criatividade em prol do Phrenesy!
Tiago: A Jackie tomou a frente dessa parte. Ela é fundamental e não conseguimos imaginar como seria sem ela. Consigo imaginar como seria sem o Aluísio, baixista, mas sem ela não (risos). Sobre a execução do trabalho, normalmente damos uma ideia do que queremos e ela faz todo o resto. Não temos do que reclamar — é um trabalho sensacional.
Rebel Rock: Qual a importância de incluir essas referências locais e pessoais na identidade visual do álbum? Acreditam que isso aproxima ainda mais o público da banda?
Wendel: Acredito que sim, mas não fazemos só por causa disso. É mais para divulgar a periferia do DF. Brasília não é só política, Congresso Nacional e todo esse tipo de lixo que o Brasil inteiro manda para cá e depois coloca na nossa conta. Nós só mandamos oito deputados federais e dois senadores para lá; o resto do lixo é o país que manda!!! O DF tem uma cultura muito ativa, um caldeirão cultural que vai desde os anos 70, com a banda Mel da Terra, anos 80 com Legião Urbana encabeçando uma leva de bandas, anos 90 com Raimundos, Natiruts, DFC, Macakongs 2099 do nosso irmão Phú, e as bandas de metal como Violator, Mofo, Dark Avenger, Flashover, Device, Slug, Miasthenia, NW 77, Amazing. O rap aqui é um movimento muito forte — temos uma das melhores cenas —, fora o teatro com Os Melhores do Mundo, cinema, etc. Enfim, as referências servem para divulgar Taguatinga, que é a nossa cidade, onde o Phrenesy nasceu, e para mostrar o DF além do Plano Piloto (Brasília).
Tiago: Temos orgulho de onde viemos e da cena que fazemos parte. Construímos uma rede de amigos ao longo desses 22 anos e nada mais justo do que incluir essa galera quando tivermos a oportunidade. O DF não é só aquela corja filha da puta que “representa” nosso país. Temos uma cena rica em diversos aspectos e lutamos diariamente para mantê-la viva.
Rebel Rock: Como estão os shows de divulgação do novo álbum?
Tiago: Após o lançamento, fizemos vários shows em cidades aqui do Distrito Federal, alguns em São Paulo e Goiânia. Não fizemos mais porque estávamos esperando nossa gravadora, o que acabou nos frustrando. Estamos com a agenda aberta, mas vamos focar na regravação de uma demo que tem aproximadamente 20 anos, a “Do You Like Mocotó?”, e também estamos com algumas músicas no gatilho para o novo disco.
Rebel Rock: Algo que sempre chamou atenção no Phrenesy é o amor explícito pela cerveja. Músicas como “Never Forget The Beer Of You Girl”, “The Power Comes From The Beer”, “The Party Won't Stop” e “War For Beer” são bons exemplos. É sempre bom levantar um copo e brindar ao som pesado, certo? Esse tema sempre fará parte da essência da banda?
Wendel: Provavelmente, até porque tudo é motivo para tomar uma gelada. Se estamos tristes, tomamos uma para alegrar; se estamos alegres, tomamos uma gelada para comemorar; se temos uma lembrança ruim, tomamos uma para esquecer. Ou seja, tudo é só uma desculpa para tomar uma breja! Não é uma coisa obrigatória; surge naturalmente quando estamos compondo. Eu, por mim, não abordaria mais esse tema, mas tem músicas que pedem isso quando estamos compondo, e não tem como fugir dessa sina! (risos).
Tiago: A cerveja faz parte de nossas vidas, então provavelmente sempre estará em nossas músicas (risos). Não que seja um tema obrigatório, mas sempre aparece uma letra ou um riff que pede uma cerveja bem gelada!
Rebel Rock: Por outro lado, o Phrenesy também traz letras mais ácidas e críticas sociais. Como vocês encontram o equilíbrio entre a diversão e a necessidade de abordar temas mais sérios e reflexivos?
Wendel: Depende do feeling no momento em que estamos compondo. Eu gosto de sentir a música, o que ela me passa, para poder compor em cima disso. Muitas letras eu faço no estúdio: vou ouvindo a música e compondo de acordo com aquilo que ela me transmite.
Tiago: Vivemos em um mundo sombrio, onde os erros do passado estão voltando. Isso mostra como não podemos deixar de falar sobre as atrocidades que aconteceram e ainda acontecem. Passamos por um governo genocida e, infelizmente, não podemos nos calar.
Rebel Rock: Em “The Power Comes From the Beer”, vocês gravaram “Contra Tudo, Contra Todos” em português. Existe a possibilidade de novas músicas na língua portuguesa em futuros trabalhos?
Wendel: Sim, não descartamos essa possibilidade. Se eu sentir que alguma coisa ou um sentimento precisa ser transmitido em português, eu escreverei com certeza!
Rebel Rock: Qual música vocês acreditam que representa melhor a essência do Phrenesy? Por quê?
Wendel: “Contra Tudo e Contra Todos”! Essa letra foi escrita com raiva, muita coisa que estava dentro de mim e que eu queria falar para muita gente que não entende e não acredita no que é a música, a paixão, o amor de quem trabalha com isso por amor e não por dinheiro. Fazemos o que gostamos por amor, acima de tudo!
Tiago: Essa é bem difícil. Eu, particularmente, me identifico com várias, mas, para a banda, acredito que realmente seja “Contra Tudo e Contra Todos”. Resume bem o que passamos para manter essa chama viva.
Rebel Rock: Para finalizar, qual músico ou banda vocês pagariam a conta no bar sem pensar duas vezes? E porque?
Wendel: Pagaríamos a conta do Lemmy e do Jão (Ratos de Porão). Eles são ícones pra gente, são inspiração. O Krisiun que também é chegado numa breja como a gente.
Rebel Rock: Obrigado pela entrevista! O espaço final é todo de vocês para deixarem uma mensagem aos fãs.
Wendel: Obrigado à Rebel Rock pelo espaço e por dizer que foi uma das melhores pautas/entrevistas. Continuem apoiando a cena local de sua cidade, estado e país. O Brasil tem muita banda boa e muitos músicos talentosos!
Tiago: Agradecemos demais o espaço. É sempre gratificante poder compartilhar um pouco da nossa história. Para os nossos fãs, pedimos que apoiem a cena de sua cidade, comprando e divulgando os materiais das bandas locais, zines, revistas... Vamos manter o underground vivo!
Formação:
Wendel Aires (Vocal)
Tiago Teobaldo (Guitarra)
Fabricio Rocha (Guitarra)
Aluisio Lima (Baixo)
Josefer Ayres (Bateria)
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