BOB MOULD
HERE WE GO CRAZY
Granary Music/BMG Records
HERE WE GO CRAZY
Granary Music/BMG Records
Hüsker Dü e Sugar. Se você desconhece esses dois trios seminais para a história do punk e do rock alternativo (que eu prefiro chamar apenas de rock), muito provavelmente você desconheça BOB MOULD. E isso se deve ao fato de que Mould era a mente criativa, e porque não dizer, brilhante por trás dessas duas bandas. Enquanto a primeira surgiu ni final da década de 70 e trouxe ao mundo obras definitivas do estilo, culminando no ótimo "Candy Apple Gray" (1986) e no excelente e perfeito "Warehouse: Songs and Stories" (1987), a segunda surgiu logo depois da separação e de uma pequena carreira solo do artista, onde também deixou dois excelentes álbuns "Cooper Blue" (1992) e "File Under: Easy Listening" (1994). E se por um acaso, você não é um cara radical e aprecia a boa música, pode ter certeza que HERE WE GO CRAZY vai agradá-lo em cheio.
Próximo de completar 65 anos, o velho Bob Mould segue incansável fazendo música e nunca deixando de lado sua raízes e influências. Muito mais um influenciador do que influenciado, o guitarrista/vocalista deixa claro que seu estilo nunca mudou e não é agora que irá mudar. Trazendo consigo aquela atmosfera típica de meados dos anos 80 e início doa anos 90, o álbum é um apanhado de composições inteligentes, distintas e cheias de emoção. Não era de se esperar algo de diferente, afinal Mould pode ensinar muita gente quando o assunto é música, não é mesmo? "Here We Go Crazy" não chega a alcançar o mesmo toque emocional de um "Copper Blue" ou mesmo de "Warehouse", mas a pergunta é: isso é necessário? O fato de ainda termos um senhor nessa idade, compondo, tocando e gravando já não deveria nos deixar satisfeitos? A resposta é sim. Todavia, também é necessário afirmar aqui que o álbum se sustenta pela sua qualidade e emoção, mostrando que o músico ainda tem (e sempre terá) relevância no cenário.
Guitarras por vezes sujas, afinações mais baixas, mudanças de andamento e aquela voz quase anasalada de Mould são o norte deste trabalho, assim, como todos dos quais participou. Composições como a faixa título, que abre o álbum com um clima quase intimista, mas com a personalidade do vocalista/guitarrista intacta, comprovam o jeito "Mould de fazer música" com uma melodia "noise" digna de nota. "Neanderthal" tem aquela veia Hüsker Dü, intensa e cheia de guitarras, que se encaixam nos vocais como uma luva. Ótimo momento e um dos mais inspirados do álbum. "Breathing Room", uma música que traz um pouco de referência dos seus contemporâneos do Sonic Youth, (e que também serviu de inspiração para bandas como o Nirvana) antecede "Hard to Get", dona de uma pegada simples e eficiente, enquanto seu refrão fica por algumas horas na sua cabeça ao término de sua execução. "When Your Heart is Broken" poderia tranquilamente integrara a trilha sonora de "Singles" (1992 e que saiu por aqui como "Vida de Solteiro"), pois tem identificação com aquele período e cena.
Temos uma mistura perfeita entre Hüsker Dü e Sugar em "Fur Mink Augurs", um rockão clássico, cheio de energia e com aquela cara de adolescência que parece não ter ficado pra trás. Já em "Lost or Stolen", temos uma composição introspectiva, acústica, com uma interpretação correta de Mould e linhas de violão bem interessantes. "Sharp Little Pieces" traz a sujeira das guitarras de volta, mas com uma atmosfera mas densa, buscando um pouco de reflexão sobre relacionamentos que acabam sem razão aparente. Algo bastante peculiar ao lirismo sempre abordado pelo artista, buscando respostas e apontando caminhos. Ao contrário, "You Need to Shine" joga a energia lá pra cima, com uma pegada típica enquanto "Thread So Thin", seria aquilo que chamaríamos de balada. Pra fechar este belo trabalho, "Your Side", outro momento acústico, novamente introspectiva, intimista e que nos deixa com a sensação que o velho músico ainda tem muito a dizer, principalmente pela energia dispensada à composição em sua segunda metade.
BOB MOULD não precisa provar nada à ninguém. E acredito que, a essa altura do campeonato, ninguém queira algo assim. No entanto, o artista mostra que ainda tem muita lenha pra queimar, nos entregando belas composições que não lhe deixam fugir do seu passado/presente/futuro. HERE WE GO CRAZY é um álbum para apreciadores da boa música e que sabem reconhecer p talento quando estão diante de um. Longa vida à BOB MOULD!
Sergiomar Menezes
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