A EXPLOSÃO QUE DEU FIM AOS ANOS 80: TRÊS DÉCADAS E MEIA DE NEVERMIND
Trinta e cinco anos depois, NEVERMIND permanece não apenas como o pico comercial do grunge, mas como o momento em que uma boa parte da juventude encontrou sua voz definitiva
Por Sergiomar Menezes
Em 24 de setembro de 1991, o mundo do Rock n' Roll acreditava estar um tanto quanto estagnado. As paradas globais ainda respiravam o final de uma era dominada pelo hard rock, solos intermináveis de guitarra e a pompa excessiva do hair metal californiano. No entanto, naquele exato dia, uma pequena gravadora subsidiária da Geffen despachava discretamente cerca de 46 mil cópias de um álbum gravado em estúdios modestos por um trio de Aberdeen, Washington.
O que tornou o segundo álbum do NIRVANA um ponto de inflexão tão violento não foi apenas a genialidade de suas composições, mas a colisão de forças criativas opostas. Por trás da fachada polida — resultado direto da produção cirúrgica de Butch Vig e da mixagem final de Andy Wallace —, residia a crueza visceral do punk underground e a obsessão melódica de Kurt Cobain por ganchos pop inspirados em bandas como os Beatles e os Pixies (este último, principalmente).
Um fator que foi determinante para esse sucesso, foi a entrada definitiva de Grohl na bateria. Ele injetou uma força propulsora avassaladora. Onde antes havia apenas caos desorganizado no álbum de estreia "Bleach" (1989), a cozinha, com a chegada de Grohl, ao lado do baixista Krist Novoselic, ganhou um peso monumental, transformando faixas como "Breed" e "Territorial Pissings" em furacões sônicos.
As letras de Cobain recusavam o escapismo hedonista das estrelas de rock tradicionais. Em canções como "Lithium" e "Come as You Are", ele expunha a ambivalência psicológica, a apatia, a depressão e uma sensação crônica de inadequação, disfarçadas sob melodias que grudavam instantaneamente na mente do ouvinte.
A trajetória comercial de Nevermind desafiou qualquer previsão razoável da época. A própria gravadora DGC esperava vender algo em torno de 250 mil cópias, o que já seria considerado um sucesso expressivo para um grupo oriundo da cena independente de Seattle.
No entanto, a chegada do videoclipe de "Smells Like Teen Spirit" à programação da MTV funcionou como a faísca em um paiol de pólvora. O hino de apatia adolescente rapidamente destronou gigantes corporativos das paradas — culminando no histórico momento em janeiro de 1992 em que desbancou o álbum "Dangerous", de Michael Jackson, do topo da Billboard 200. Com dezenas de milhões de cópias comercializadas ao longo dos anos globalmente, o disco redefiniu o mercado fonográfico e abriu as portas comerciais para nomes como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains.
Olhar para Nevermind aos 35 anos é reconhecer uma faca de dois gumes. O álbum eternizou a urgência criativa de Cobain, Novoselic e Grohl, mas também marcou o início de uma cruzada dolorosa para Cobain contra o peso sufocante da fama que ele jamais desejou daquela forma.
A célebre capa — que traz um bebê nadando em direção a uma nota de dólar em um anzol — tornou-se um dos ícones visuais mais debatidos e replicados da cultura pop.
Mais do que um retrato nostálgico dos anos 90, NEVERMIND continua a soar urgente porque capturou perfeitamente o som da juventude questionando o mundo ao seu redor, provando que a vulnerabilidade, quando unida a guitarras distorcidas, tem o poder de derrubar impérios musicais da noite para o dia.


Nenhum comentário:
Postar um comentário